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História

Música e pastifício

História de: Fernando Selmi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/08/2008

Sinopse

Identificação e origem dos pais. Descrição da família, sobretudo do avô maquinista. Surgimento e desenvolvimento do pastifício. Estudos de música. Trabalho no pastifício durante a infância: entregas e balcão. Morte do pai e decisão de administrar o comércio. Aprovação em música na Unicamp. Descrição da família e dos empregados antigos. Mudanças em Campinas. Os anos de namoro e do período escolar. O abastecimento no pastifício e as principais transformações. Lazer em Campinas. Mudanças na produção, nos produtos e nas embalagens. Formas de pagamento. Transformações no comércio.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Fernando Selmi e sou nascido em Campinas no dia 12 de junho de 1954.

FAMÍLIA
Os meus pais são Marino Selmi e Cândida Ruas Selmi; os dois são falecidos. O meu pai nasceu em Picciorana, na Itália, Estado de Lucca, e a minha mãe nasceu em Portugal numa província chamada Trás-os-Montes. Meu pai veio da Itália com 15 anos. Ele nasceu em 1915, então sua chegada deve ter sido em 1930. O meu avô materno era ferroviário. Inclusive dizem que ele foi o maquinista da máquina blindada na revolução de 1932. Ele era o maquinista que levava os soldados na revolução. Meu pai conheceu a minha mãe, começaram a namorar e casaram-se em 1942. Tudo na minha família acontecia de seis em seis anos. O meu irmão nasceu em 1948 e eu, seis anos depois, em 1954. Somos apenas nós dois. E foi constituída a nossa família. O meu avô morreu com 106 anos; há pouco tempo, uns dez, quinze anos atrás. Eu convivi com ele desde criança. Ele ficou viúvo cedo e passou a freqüentar a minha casa. Eu passeava com ele, ele contava as histórias dos trens quando era maquinista da antiga Mogiana. Até andei bastante de trem com ele. O meu irmão quis ser padre, mas depois saiu. Acho que ele entrou no seminário com 10 anos de idade e ficou por nove anos. Era seminário de padre mesmo; hoje, por exemplo, o seminarista freqüenta a casa paroquial, estuda na PUC, faz Teologia. Naquele tempo, seminário era fechado, regime interno; ele nos recebia numa sala. Eu, minha mãe, meu avô e o meu pai íamos visitá-lo duas vezes por ano. Estou falando de 1964, 65. Eu tinha 10, 11 anos. Carro era muito difícil, nós íamos de trem. O trem demorava 12 horas para chegar. Fazíamos baldeação em Santa Rita do Sapucaí e pegávamos aquele trem maria-fumaça. Foi nessa máquina que o meu avô trabalhou quase a vida inteira. Ele ia me falando de todas as cidades nas estações em que o trem ia parando. Ele falava: “Tal cidade é essa, tal cidade é aquela, agora vai parar em tal. E ia assim até chegar em Itajubá, sul de Minas. Numa dessas viagens, a maria-fumaça fez uma curva e deu uma freada brusca. O chefe de trem e o pessoal que trabalhava na ferrovia sabiam que o meu avô estava nessa viagem; vieram pedir desculpas ao meu avô porque ele era um dos maquinistas mais antigos e também tinha sido chefe dos maquinistas. Olha em que tempo nós vivíamos Esse era o meu avô por parte de mãe. Ele era muito brincalhão e falava: “Fernando, você que é do comércio e conhece muita gente, não tem como você me ver uma segunda aposentadoria? É porque eu vou fazer 30 anos de aposentado.” O meu avô por parte de pai era Adolfo Selmi, veio da Itália naqueles navios com imigrantes, em 1880. Ele se casou duas vezes. No primeiro casamento, teve duas filhas; ficou viúvo, casou-se pela segunda vez e teve mais dez filhos.

IMIGRAÇÃO
Meu avô tinha umas terras na região de Lucca, Itália, perto de Asti. Uma região rica em uvas e que fabrica vinhos. Lá existe um vinho espumante chamado Asti Riccadonna que é famosíssimo. Ele plantava uvas com os irmãos e veio para o Brasil com a segunda mulher. Seu primeiro comércio foi de vinho; então ele trazia os barris. O meu pai falava que naquele tempo chamavam de cartola de vinho. A cartola era um barril de vinho mesmo. O pessoal chamava assim porque tinha uma tampa com o formato de uma cartola. Então ele trazia os vinhos da Itália, engarrafava e vendia aqui em Campinas. Esse foi o seu primeiro trabalho. Ele ia à Itália uma vez por ano pra buscar mais vinho. A viagem demorava 35 dias de navio. E tem um detalhe, o meu pai chama-se Marino porque nasceu no mar. O meu avô tinha um filho na Itália e por isso ficava um tempo lá e voltava para o Brasil. Os dez filhos eram alternados: um italiano, o outro brasileiro, um italiano, outro brasileiro... E de todos os filhos homens, só o meu pai é italiano. Os outros filhos homens são brasileiros e as mulheres são italianas; o meu pai é o caçula. Quando o meu pai veio da Itália, com 15 anos, o meu avô não voltou mais pra lá. Depois de um tempo, ele comprou um pastifício que já existia aqui em Campinas numa rua chamada Saldanha Marinho, no centro da cidade. Comprou em sociedade com o genro mais velho, casado com Cecília, filha do primeiro casamento.

VOCAÇÃO PARA O COMÉRCIO
Numa boa família italiana só os homens trabalham; as mulheres ficam tomando conta da casa. O meu avô era daqueles italianos rígidos, então todos os filhos trabalhavam. O meu pai conta que ele empurrava carrinho de macarrão aqui em Campinas pra fazer as entregas daquele macarrão que era produzido no pastifício. Foi indo, meu pai foi trabalhando e, em 1948, o meu avô faleceu. Também, como bons italianos, deu aquela briga sobre quem ficaria com o pastifício, um quis matar o outro, foi aquele negócio. Todo italiano tem isso e se não tiver, não tem graça. Acabaram se separando. O meu pai abriu o pastifício com o irmão que era antes dele, em 1951. Hoje fica ali na Rua Conceição. Eles falaram: “Nós somos os caçulas e não vai sobrar nada pra nós” Porque os irmãos mais velhos já tinham se apoderado do pastifício do meu avô, que se chamava Comendador Aladino Selmi, famoso na cidade. Um tio ficou com esse pastifício junto com mais dois irmãos. O meu pai com outro irmão também montou esse pastifício na Rua Conceição. Falaram: “Vamos fazer um pastifício de massa fresca. Era pra não concorrer com o pastifício industrializado do irmão. O meu pai deu uma espécie de pulo do gato, porque o pastifício não era Selmi, era Galo; até hoje é conhecido na cidade como Pastifício Galo. E eles criaram a marca Selmi. O meu pai registrou essa marca quando saiu de lá. Quando ele abriu, chamava-se Pastifício Selmi & Irmãos. E ele registrou o macarrão Selmi. Hoje você tem Macarrão Renata e uma série de outros como o Tricolino que é fabricado pelo meu tio. Aliás, todos os meus tios já morreram. Tem a segunda, a terceira geração. Se bem que hoje, o Pastifício Galo já não é totalmente da família. Tem um filho de um primo. Eu sou a terceira geração que continua lá, mas 50% já está na mão de outra pessoa. É uma empresa muito grande, tem fábrica fora de Campinas e é conhecidíssima. Produzem a farinha Renata, mas não têm macarrão Selmi. Não têm porque o meu pai registrou aquela marca. O meu pastifício chama-se Pastifício Selmi porque eu tenho a marca. E o outro grupo é Selmi, mas o macarrão tem o Galo e outras coisas mais. A razão social deles é Pastifício Selmi SA e nós éramos Selmi & Irmãos. Em 1967, o irmão do meu pai vendeu a parte dele para um primo, filho da irmã mais velha dele, a Cecília. Ele ficou sócio do meu pai e montaram a firma que passou a se chamar Selmi e Carignani. Carignani é o sobrenome daquele cunhado do genro do meu avô. Não era para eu ir para o pastifício. Eu não tenho nada a ver com aquilo, nunca gostei. Comecei a estudar música aos seis anos de idade. O meu pai era um cantor de ópera frustrado, tinha umas coleções de discos de operetas, cancionetas. Uma coisa maravilhosa. Aqui em Campinas tem o aeroporto de Viracopos e naquela época em que eu era garoto, descia muito avião da Alitália e muitos outros. Aliás, é o que a administração do aeroporto quer fazer novamente por causa do problema de Congonhas; eles estão querendo que vôos internacionais desçam em Viracopos. Mas, voltando, o meu pai conhecia um piloto da Alitália que trazia aquelas operetas pra ele. Umas coisas fantásticas. Tenho tudo guardado. Umas coleções em bolachão. O meu pai queria um filho músico para que tocasse piano enquanto ele cantava. Esse era um sonho dele. Mas minha mãe era carola de igreja. Daquelas que beijavam a mão do padre, punham aquele véu e tudo. Ela queria que o meu irmão se formasse padre. Mas meu irmão não quis e saiu aos 19 anos. E o meu pai queria um filho músico. A profissão de músico, hoje, melhorou bastante, mas sempre tem uma má fama. Imagine naquela época? Era um horror. Imagine a minha mãe vendo um filho músico, quando queria um filho padre. Quando o meu irmão foi para o seminário, a nossa diferença de idade era de seis anos. Meu pai me pegou e disse pra minha mãe: “Não. Esse não vai ser padre não.” O meu pai era um cara a frente da sua época. Quando ele tinha 18 anos, começou a namorar a minha mãe. Ele tinha uma moto Harley-Davidson, porque o meu avô era rico. Ele ia namorar de Harley-Davidson. Imagina isso em 1933 O meu avô materno era daqueles ferroviários portugueses. Tinha seis filhas. A minha mãe era a segunda mais velha. Ela nunca andou na moto. E o meu pai ia namorar a minha mãe com um maço de flores, pilotando a moto. A minha mãe tinha vergonha e se escondia, porque era super recatada. É uma coisa fenomenal. Os opostos se atraem e eles se casaram. Mas a minha mãe podava muito o meu pai. O meu pai trazia calça comprida para minha mãe usar e ela nunca usou porque marcava e não sei o quê. O meu pai comprava perfumes e levava a minha mãe a São Paulo em peças de teatro. Isso quando eram jovens, com uns vinte e poucos anos. E minha mãe tinha vergonha. O meu pai comprava bebidas e queria que a minha mãe bebesse vinho do Porto, whisky. Queria que ela fumasse, mas minha mãe nunca quis, tinha horror. Ele quis que eu fosse o amigo dele, porque ele foi podado e sofreu muito. Ele fazia tudo o que queria, mas minha mãe não o acompanhava. E naquele tempo não existia separação. Até existia, mas era um ou outro. Se fosse hoje eu acho que o casamento de meus pais não duraria dois meses. Mas foi indo e como o meu irmão ficou muito tempo fora, o meu pai falou: “Esse não vai para o seminário.”

FORMAÇÃO
Meu pai me matriculou no Conservatório Carlos Gomes, que tem aqui em Campinas até hoje, com o maestro Oswaldo Urban, que está lá ainda. Levou-me lá e com seis anos comecei aprender piano e gostei. Eu estudava numa escola primária chamada Externato São João, que era perto do pastifício. Eu estudava de manhã e algumas vezes da semana o meu pai ia me buscar na hora do almoço. Almoçávamos e depois eu ficava no pastifício. Havia uma mesinha aonde eu fazia os deveres da escola. Às vezes, tinha macarrão para entregar num restaurante e eu ia. Comecei a trabalhar; aos sábados e domingos a venda era maior e eu ajudava. Nós sempre trabalhamos com massa fresca. Em Campinas éramos nós e o Prosperi, que era na Campos Sales. Só havia os dois pastifícios. Depois, mais ou menos nos anos 70, o Prosperi fechou e só ficou o do meu pai. Na época, não existia ravióli, capelletti, essas coisas. Só o meu pai fazia, então ele ganhou muito dinheiro. Foi uma época em que, se fala brincando, “amarrava cachorro com lingüiça”. Ele e seu irmão ganharam muito dinheiro.

MÚSICA
Continuei estudando música. Eu tinha um órgão com pedaleira. O baixo se fazia nos pedais e tinha dois teclados. Era uma geringonça muito pesada. O meu pai comprou uma perua Kombi e ia para cidades como Águas de Lindóia, Serra Negra, Socorro e Poços de Caldas vender o meu show nos hotéis. Ele colocava aquele órgão na perua e nós íamos. Eu tocava, por exemplo, à noite num jantar e depois na piscina para os hóspedes. Meu pai ficava numa mesinha do lado - lembro-me como se fosse hoje - tomando whisky ou vinho. Ele gostava muito de beber. Tomava uma garrafa de vinho no almoço e uma no jantar. O vinho para os italianos é como água. Depois à noite, ele punha as óperas ou eu tocava. Isso nos meus 18, 19 anos. Eu tinha um piano, tocava e ele ficava cantando as cancionetas na moda dele. Reunia os amigos em casa e era whisky, vinho, cortava aquele monte de queijo, aqueles antepastos. Era aquela folia com 20, 30 pessoas. Eu tocava, ele cantava as cancionetas e traduzia a ópera. Porque toda ópera é uma história e quando cantada em italiano, você não entende nada. Então, ele e seus amigos traduziam as óperas: “Mas o que está acontecendo?” “Ah, esse vai casar com aquela lá, vai trair, vai matar o outro...” Eu parava. Tinha paciência de fazer tudo isso para o meu pai porque eu entendia esse seu lado. Mas tive uma grande frustração, a primeira da minha vida: eu tinha 20 anos e o meu pai morreu. Foi um baque terrível pra mim. Estava me preparando pra fazer faculdade de música e ia ao pastifício para ajudá-lo. Eu ia sábado, domingo, e, às vezes, ele me dava dinheiro. Por exemplo, o dinheiro desses shows que nós fazíamos nas cidades não dava nem para o transporte. Ele falava: “O pessoal vai pagar um cachê ‘x’”. E ele tirava do bolso dele pra me dar, pra me incentivar. Eu era garotão, gostava daquilo. Quando eu fiz 19 para 20 anos, ele faleceu. A minha mãe já estava doente, tinha uma paralisia nas pernas e não conseguia andar. O meu pai tinha câncer, porque ele fumava quatro maços de cigarros por dia. Ele tinha câncer desde dezembro de 1977 e morreu em março de 1978, num domingo de Páscoa. Nesses três meses e meio, nós gastamos a metade da fortuna que ele tinha. Algumas casas de aluguel, telefones - naquela época telefone era uma coisa Ele tinha casas de aluguel, apartamento na praia, uma chácara, nós tínhamos umas coisas assim. Gastamos a metade em médicos. Eu estava me preparando pra fazer a faculdade de música. A Unicamp não tinha faculdade de música, mas tinha a USP, em São Paulo, e eu tinha 90% de possibilidade de entrar lá. O meu pai tinha um cunhado, irmão da minha mãe que morava em São Paulo, e eu ia morar na casa dele. Já estava tudo armado para eu tentar o vestibular. Mas ele morreu e falei: “O que eu vou fazer da minha vida agora? Vou estudar música? E o pastifício?” O meu irmão, seis anos mais velho do que eu, já tinha se formado e morava em Porto Alegre. Estava com a carreira dele em andamento e não queria saber do pastifício. E fui pra lá. Eu falei: “A única renda que nós tínhamos era essa.” Eu tinha que sustentar a minha mãe e acabei indo para o pastifício. Mas eu não gostava daquilo, tanto é que eu tocava, fiz muito baile. Eu viajava para fazer baile no interior inteiro: Araçatuba, Matão, em tudo quanto é lugar, Santos... Tocava em várias bandas. Às vezes, nós fazíamos um show, um baile numa cidade mais próxima.

TRADIÇÃO NO COMÉRCIO
Sábado e domingo até hoje são os grandes dias de nossa venda de balcão. É tradição, passada de pai para filho... Outro dia, foi um camarada lá e estava o avô, o filho e o neto. Os três quiseram tirar uma foto fazendo o macarrão que o avô comprava e o filho e o neto compram. Tem essas coisas que é a tradição. Eu chegava em Campinas às quatro, seis horas da manhã, depois dos bailes, e já ia trabalhar. Tinha que trabalhar. Era eu e o meu primo. Fui tocando aquilo porque eu não tinha o que fazer. Mas eu parei e fui fazer Administração de Empresas porque eu pensei: “É isso aqui que eu vou fazer? Vou tocar piano em cima do cilindro de macarrão?” Então eu fui fazer Administração de Empresas, me formei e falei: “Não aprendi nada; aprendi na prática.”

FACULDADE DE MÚSICA
Eu já namorava, casei, vieram os meus filhos e fui adiando esse processo todo e sonhando que um dia faria uma faculdade de música. A minha mulher sempre me deu a maior força: “Um dia você vai.” Parei com tudo, tocava em casa, às vezes, algum amigo tinha uma festinha e eu tocava. Com 40 anos, a minha mulher falou: “Por que você não volta a estudar?” Falei: “Não tenho mais paciência para isso.” E ela: “Volta.” Já havia a faculdade de música na Unicamp e eu falei: “Vou tentar.” Peguei um professor particular que estava, na época, com 80 anos. Foi o primeiro violinista da Orquestra Sinfônica de Campinas. Ele me preparou em dois, três meses. Eu entrei na Unicamp e me formei com 44 anos em faculdade de música. Continuei no pastifício e abri uma escola de música com uma amiga que se formou comigo. Não deu muito certo e fui fazendo coisas paralelas.

FAMÍLIA
Tenho três filhos, a mais velha, a Fernanda, com 29 anos, é bióloga. A Roberta, filha do meio, tem 27 anos e é pedagoga. E o Rodrigo, o mais novo, com 25 anos. O Rodrigo quando garoto ia para o pastifício. Reproduzi aquilo que o meu pai fez comigo, mas eu não queria levá-lo porque pensei: “Eu não queria vir pra cá e eu não quero que o meu filho também venha.” Eu o podava e a minha mulher falava: “Deixa o que tem que ser. Deixa ele ir.” E ele queria ir. Ele ia pequenininho e varria o pastifício. Tem uma foto dele com seis anos comendo macarrão à moda italiana. Ele sempre gostou daquilo e eu deixei. Quando ele terminou o ensino médio, na época, o colegial, ele falou: “Pai, eu quero fazer Engenharia de Alimentos.” Eu falei: “Você quer fazer Engenharia de Alimentos e depois o que você vai fazer?” E ele: “Porque eu quero trabalhar lá com você.” Eu falei: “Então vai estudar. Eu quero que você estude para depois você ir.” Ele se formou há dois anos, e inclusive, fez o estágio no pastifício. Eu me emociono porque acho que o dia mais bonito da minha vida foi quando fui à faculdade e ele fez a monografia. Uma coisa linda, porque ele fez o estágio no pastifício comigo ali. Ele se formou na USP, em setembro. Filmou tudo, todas as máquinas que são da época do meu pai. É uma história, um negócio impressionante. Fomos à faculdade de Engenharia de Alimentos em Pirassununga e lá estavam os professores, a banca. Ele gosta de computador, fez todos os filminhos e aquele negócio todo. Quando começou a falar: “Meu pai...” Isso é uma coisa que eu não consigo descrever; aquela cena foi uma coisa linda, maravilhosa.

ATIIDADES COM MÚSICA
Eu fazia alguns trabalhos na Prefeitura de Campinas. Há alguns anos atrás, precisamente em 1992, a prefeitura abriu um concurso porque queria montar fanfarras nas escolas municipais. Há muitos anos atrás havia fanfarras em todas as escolas estaduais. Os desfiles eram lindos, maravilhosos. A prefeitura quis fazer isso em 92, queria montar as fanfarras. Quando eu era garoto, tocava em fanfarra, gostava de tocar corneta, os instrumentos de percussão e já tinha formação. Pensei: “Eu vou me inscrever nesse negócio e quem sabe...” Ganhei em primeiro lugar e me contrataram pra desenvolver esse projeto. Trabalho desde 1992 na prefeitura desenvolvendo o trabalho de bandas e fanfarras nas escolas. É um trabalho que dá uma outra entrevista. Depois em 2002, o Estado também quis fazer isso aqui em Campinas, me candidatei e também fui trabalhar no Estado. Fora isso eu trabalho em três escolas particulares. Desde quando me formei, dou aula de música, iniciação musical para criança, faço coral para a molecadinha, além da fanfarra em duas escolas. Eu já estava trabalhando em escola particular quando veio a banda e fanfarra na prefeitura e no Estado. Então tem também toda essa história, mas nunca deixei o pastifício. Sempre me dividi nos horários. E tinha o meu primo, o Carignani, que faleceu em 2000. Entrou o filho dele. O pai dele foi sócio do meu avô. Entrou esse meu primo, o Marcelo, que gosta mais da parte de propaganda: “Precisamos botar uma placa lá fora, vamos vender para o restaurante...” Ele é mais dessa parte e eu mais da parte da massa mesmo. Porque como o meu pai fazia o macarrão e operava as máquinas, eu cresci com ele nisso. Aprendi tudo nesse negócio. E depois vieram os funcionários, os empregados que são um outro capítulo.

FUNCIONÁRIOS
Eu tive um empregado que trabalhou comigo quase 50 anos. Ele saiu do pastifício quando faltavam três meses para completar os 50 anos. Seis meses depois ele morreu. Mas tenho um outro que está comigo há 42 anos. Quer dizer, com o meu pai e depois comigo. Ele entrou bem antes do que eu. Aposentou-se e continua lá comigo. Depois tem um outro que está há 38 anos, e mais um com 20 anos. Por fim tem mais uma garotada com três, quatro anos de trabalho. Acho que aquilo tem uma raiz. A turma entra e não sai mais, porque trabalhamos como família. Essa é uma grande dificuldade que o meu filho está querendo transformar. Ele veio com uma mentalidade diferente. Quer administrar aquilo como uma empresa, quando eu sempre administrei como uma empresa familiar. É uma empresa, mas por exemplo, o funcionário não vem: “Ah, eu não venho porque tenho que levar a minha filha no médico.” Somos amigos. Eu faço o aniversário da minha filha e vão todos os funcionários. Vai haver um churrasco e eu vou na casa do funcionário e o funcionário vem na minha casa. Então é como se fosse uma família. O meu pai já trazia isso. Agora a política do meu filho é diferente. Ele respeita muito isso. Eu me dou muito bem com ele. O meu filho é o meu melhor amigo como eu era o melhor amigo do meu pai. Mas entendo que está numa hora de mudanças. Nós precisamos fazer a empresa ser uma empresa mais séria porque hoje não é como na época do meu pai, que só existia a empresa dele e ele fazia o que queria. Hoje tem concorrência. O meu filho entende isso e eu também. Só que eu não quero magoar as pessoas que já estão lá. É preciso muito tato e ter um pouco de paciência para dominar essa parte.

INFÂNCIA
Eu nasci num bairro tradicionalíssimo da cidade, a Vila Industrial. É um dos poucos bairros de tradições de trabalhadores. O próprio nome já diz isso. Quando o meu avô veio da Itália, morou nesse bairro. Ele comprou uma casa com quarteirão que era um tipo de uma fazenda e tinha aqueles casarões antigos. Conforme os filhos iam casando, o meu avô ia construindo casas geminadas uma do lado da outra. Dava um casa pra cada filho que casasse. Como ele tinha 12 filhos, a quadra tinha 12 casas e a casa dele. Depois eles iam vendendo e mudando a vida. Eu nasci numa dessas casinhas, na Rua Sales de Oliveira, 649. Em todas as casas vizinhas, moravam meus primos. Aquilo ali era uma festa. Jogávamos bola na rua, na época de São João fazíamos a Festa Junina, tudo na casa do meu avô. O meu avô já era falecido, mas morava uma tia. E faziam aquelas festas, era aquela italianada toda. Depois o pessoal foi saindo, os irmãos foram mudando, crescendo, mas o meu pai continuou lá. O meu pai só saiu de lá depois de um ano do falecimento da minha mãe. Ele comprou as duas casinhas dos irmãos dele. Depois nós acabamos vendendo. Tem uma casa ainda original que é um pouco abaixo da minha. No resto já tem prédio e mudou bastante.

JUVENTUDE
Comecei a namorar com 17 anos e a minha mulher tinha 15. Ela morava na rua abaixo da minha. Rua Prudente de Moraes, número 180, eu moro no 194. Ela era a única filha. O meu sogro perguntou “quem era esse?” Porque eu era cabeludo e era músico. Fui hippie e até tem uma história brava que eu pulei... Eu ia namorá-la e o meu sogro falava: “Quem é esse rapaz que a Rose está namorando?” E minha sogra falou: “Ele é filho do Bimbo”. O meu pai tinha um apelido de Bimbo porque bambino em italiano é o menor. Então abrasileirou a coisa e ficou Bimbo. “Ele é filho do Bimbo, do Selmi.” E ele: “Filho do Bimbo, do Selmi? Então é boa gente.” Ele não me conhecia, mas as pessoas se conheciam pela família. Isso é muito importante. Hoje você quer o CPF, o RG, quer tudo da pessoa pra saber se ela tem uma conta gorda no banco e se ela pode ser boa pessoa, mas naquele tempo era conhecido pelo seu sobrenome. “É filho do Bimbo? Então pode namorar.” Eu comecei a namorar aos 17 anos. Casei com 23 anos. Fizemos 30 anos de casado. Nós saíamos, passeávamos. Hoje, por exemplo, cada filho tem um carro, tem um celular e se é 11 horas, ligam: “Pai, estou aqui. Mãe estou chegando.” Naquela época eu saía para namorar e andávamos na rua. Tem esse túnel da Fepasa, que é a travessa da Vila Industrial com o centro da cidade. Nós saíamos à noite, atravessávamos esse túnel, descíamos a Rua Treze de Maio pelo lado direito olhando as vitrines e íamos até o Rosário. Gostávamos de comer pizza do Restaurante Rosário que é ali no Largo do Rosário. Esse restaurante ainda existe. Íamos até lá, comíamos a pizza e depois subíamos pela Rua Treze de Maio do lado direito olhando as vitrines. Atravessávamos o túnel às 10, 11 horas da noite. Não dá pra comparar. Hoje a cada 15 minutos queremos saber onde os nossos filhos estão. Naquele tempo, você nem sabia.

FAMÍLIA
Quando eu casei fui morar em um apartamento na cidade perto do pastifício. Depois vieram os meus filhos e eu mudei pra uma casa num outro bairro. Quando eu namorava, na frente da casa da minha mulher tinha uma muretinha. Havia umas muretas que você pulava. Tinha uns portõezinhos que eu acho que era para o cachorro não entrar. Hoje você não vê a cara de quem mora dentro. Nós ficávamos sentados namorando, conversando. Olhávamos uma casa do lado da casa do meu sogro. Eu falava: “Um dia poderíamos comprar essa casa, casar e morar aqui.” Estávamos com uns três, quatro anos de namoro. Eu me dava muito bem com o meu sogro e com a minha sogra. Eu falei: “Compramos essa casa, abrimos o muro, o portão e passa um pra casa do outro.” E foi o que aconteceu. Eu casei e quando nasceu o meu terceiro filho, em 1982, morávamos em uma casa que só tinha dois quartos e falei: “Precisamos fazer uma reforma, fazer mais um quarto... vamos comprar aquela casa ao lado da do seu pai, que isso é um sonho nosso.” “É mesmo. A gente derruba tudo.” E no fim, nós compramos aquela casa. Mudamos pra lá em 1983. Abrimos o portão. Está aberto até hoje. A minha sogra mora lá com o Fábio, que é um filho temporão, nasceu em 1970. Hoje ele tem 37 anos. A Rose tem 52, então são 15 anos de diferença. Veio o Fábio e ele mora lá na casa da minha sogra. Eu praticamente fui o pai dele porque o meu sogro morreu e eu quem dava escola e o orientava. E nós moramos lá até hoje. Não saio desse bairro por nada. Não sou um cara rico, mas tenho uma vida estável. Tenho condições de morar num bairro melhor, com umas casas mais bonitas, vamos dizer assim, mas eu moro naquela casa e a frente da casa é um barato. A frente dela continua como nós a conhecemos. Da parede pra dentro mudou tudo, mas a frente é igualzinha.

FORMAÇÃO
Fiz o ginásio no São Bernardo, bem tradicional. Naquela época, as escolas estaduais eram as melhores. Nas escolas particulares estudavam aqueles que chamávamos de filhinho de papai, o cara que podia pagar. O cara que não conseguia estudar numa escola do Estado porque ele repetia, ia pra essas escolas particulares porque pagava e passava. Não mudou muito isso hoje, no caso da escola particular, se o cara paga faz a matrícula... Eu estudava nessa escola e ia a pé porque eram umas cinco ou sete quadras da minha casa. Tinha um mato, nós atravessávamos e chegávamos na escola.Todo mundo ia e voltava conversando. Muitas vezes íamos no ponto final pra pegar o ônibus vazio e sentar atrás pra ficar bagunçando. Foi uma vida muito legal. Com esse negócio da música, foi muito legal para mim. Eu saía com o meu pai para tocar. Depois vieram as bandas e essa foi a minha juventude, mas sempre na Vila Industrial. Depois me casei em 1977. Fiquei apenas cinco anos fora da Vila Industrial. Voltei em 1982 e estou até hoje.

COMÉRCIO DE CAMPINAS
Na minha casa, o meu pai pegava o dinheiro e dava pra minha mãe porque ele era um péssimo administrador. Tanto é que quando eu fui para o pastifício, fiquei uns quatro, cinco anos pagando dívidas dele. Não dívidas pessoais, mas de INSS [Instituto Nacional do Seguro Social] e ICM [Imposto Sobre Circulação de Mercadorias] atrasados que ele não pagava porque não confiava em contador. Isso acontece em muitas empresas antigas. O pessoal confiava muito nas pessoas e o contador dava um golpe e não instruía direito o caminho que tinha que seguir. Fiquei uns cinco, seis anos pagando dívida de INSS e Fundo de Garantia. Até conseguir zerar toda coisa; deu muito trabalho. Minha mãe fazia todas as compras e administrava a casa. Nós comprávamos na caderneta. Tinha o armazém da esquina e a quitanda. Supermercado, não existia. O primeiro supermercado em Campinas veio perto dos anos 70, o Supermercado Eldorado que, inclusive, pegou fogo. Não me lembro de ter saído pra fazer compras em outras cidades. Mesmo roupas, comprávamos e marcávamos no cartão; usava-se esse sistema. Lembro-me do bonde. Eu tinha uns nove, dez anos quando o bonde foi tirado. Eu atravessava a rua de casa e ia num armazém que tinha aqueles sacos de feijão, arroz... Um quilo de arroz, o cara pegava e punha no saquinho. Comprava as coisas que precisava e ele marcava. Tinha um caderno de brochura e ele marcava. No fim no mês, o meu pai dava o dinheiro. Como o meu pai sempre estava dando o dinheiro pra minha mãe, porque ele não tinha um salário, a minha mãe pagava por semana. “Ah, vou sair pra pagar o armazém, o açougue, a quitanda.” E fazia feira. É um negócio que não acaba, a feira. Já diminuiu bastante, mas tem umas feiras grandes. Íamos à feira comprar verduras. Vestuário comprava-se nessas lojas que marcavam no cartão. Nós não tínhamos o costume, por exemplo, de sair à noite. O meu pai já estava doente... As compras eram feitas aqui mesmo na própria cidade de Campinas.

CIDADES / SANTOS / SP
O meu pai tinha um apartamento em Santos. Em todas as férias escolares nós íamos para lá. O apartamento era no bairro da Ponta da Praia, no Edifício Inglaterra, oitavo andar, em frente ao Aquário Municipal. O prédio existe ainda, mas não temos mais esse apartamento. Sempre íamos pra lá. O meu irmão vinha do seminário, passava as férias de janeiro aqui e ficávamos um mês na praia. Às vezes, o meu pai nos deixava lá e vinha trabalhar, depois passava uns 15 dias conosco. Essas eram as férias.

JUVENTUDE
Acho que o meu pai cansou de convidar a minha mãe pra ir ao cinema e ao teatro. Mas eu ia bastante. Eu gostava muito de teatro e cinema. Tanto é que antigamente tinha a sessão de domingo à tarde. Éramos garotos e assistíamos à matinê, começava às duas horas da tarde. Tinha um seriado que todo domingo repetia e depois começava um filme. Saíamos correndo às quatro e meia, mais ou menos, para assistir a Jovem Guarda que passava na TV Record. Havia muitos bailinhos de garagem aos sábados à noite. Íamos aos bailinhos, que eram longe, e voltávamos a pé. Peguei um pouquinho daquela história de pão e leite nas casas. Não tinha muito, mas ainda existia. Depois quando eu era mais jovem, uns vinte e poucos anos de idade, já tinha carro e andávamos em turma. Invadíamos as casas e cortávamos rosas, fazíamos buquê e levávamos na casa da namorada, púnhamos na janela com um cartão. Mas tinha que roubar, não podia comprar. Tinha os clubes, a Hípica, o Concórdia, o Cultura onde havia bailes todos os sábados. Vinham bandas, orquestras... Éramos jovens, época da Jovem Guarda, dos Beatles, dos Rolling Stones. Curtíamos bastante. Também jogávamos futebol e basquete na escola. Eu era sócio do Tênis e gostava de jogar basquete. Praticava e disputava campeonato. Fui um bom jogador de basquete. Cheguei à seleção brasileira juvenil. Era no Sírio em São Paulo, onde jogou o Marcel. Teve também o Menon, enfim tinha um timaço. Convidaram-me para jogar. Eu tinha 17 para 18 anos. Estava estourando no juvenil para o adulto e eles me pagariam o apartamento e o estudo, mas meu pai não me deixou ir. Mas eu gostava de praticar esportes. Essa era a nossa vida de jovem.

TRABALHO
Antigamente, tinha mais produção. Eu vendia mais do que hoje, mas vendia bruto. Na época do meu pai, fazíamos umas quatro qualidades de massas que eram vendidas em grandes quantidades. Campinas era menor, mas não tinha concorrência. Quem queria comprar massa fresca fazia o macarrão tradicional: ravióli, capelletti e só. O que levantava a venda era a parte de mercearia. Como não existia supermercado, você encontrava tudo na mercearia. Era o nome que vendia, o meu pai vendia lá também. Isso tinha uma grande venda. Devia ter uns dez funcionários mais ou menos que tocavam o negócio. Havia muito funcionário extra que vinha aos sábados e domingos para ajudar no balcão, no atendimento ao público. As vendas eram maiores em quantidade e menores em termos de itens. As máquinas são as mesmas. A produção diminuiu e a variedade ampliou. Hoje, a dona de casa moderna em tese não vai comprar a massa do canelone para cozinhar para rechear e depois fazer. Ela quer comprar pronto. Então começamos, de uns anos para cá, a entrar nessa mudança de massas semi-prontas que é só levar ao forno, ao microondas. Também pegamos um outro filão de atendimento a restaurantes e fast food que estão se expandindo em shoppings. Atendemos o pessoal de fast food de massa, restaurantes de massa e o balcão que é tradicionalíssimo. Mas hoje nós temos oito funcionários e mais dois extras que vêm ajudar no balcão no sábado e domingo. Não mudou muito a quantidade de funcionários. Antigamente, o meu pai fazia um macarrão, por exemplo, uns cinqüenta quilos por dia de um tipo de um macarrão. Hoje fazemos dez desse mesmo macarrão. Mas agora, fazemos canelone, pastel, pizza e não sei mais o quê. Tem uma variedade de massas. Ele produzia mais numa variedade menor e nós produzimos menos com uma variedade maior. E agora a concorrência é muito grande. Hoje você vai ao supermercado e encontra massa da Sadia, da Perdigão. O que tem a Perdigão pra fazer massa? O que tem a Sadia? É carne. O negócio deles é carne, é embutido e eles fazem massa. Você encontra macarrão de tudo... E isso sem contar a massa seca. Só falamos da massa fresca. Você pega aquelas gôndolas de supermercado, varre aquilo e tem “n” marcas. Eu estou no mesmo lugar, no centro da cidade, desde 1951, quando o meu pai abriu, onde é difícil o estacionamento. Hoje todo mundo tem carro, então criamos alternativas. Eu pago estacionamento se a pessoa quiser ir lá e guardar o carro a 50 metros dali. Se precisar, nós entregamos. Há vários restaurantes de massa. Na época do meu pai existiam os restaurantes tradicionais como o Rosário, Éden Bar, restaurantes conhecidos até hoje que tinham as massas que nós vendíamos. Hoje todo mundo faz a massa. Tem cantinas, enfim, expandiu. A cidade cresceu, o negócio se expandiu. Nós continuamos os “heróis da resistência”, como eu costumo chamar, porque lutamos muito. Hoje o custo de um funcionário é muito grande, os impostos são cada vez maiores. Naquele tempo não. Era tudo mais barato. Você ganhava mais dinheiro. O meu pai trabalhou de 1951 até 75. São vinte e poucos anos. De 1975 em diante eu assumi. Praticamente, eu trabalhei mais tempo do que ele. E não consegui comprar a metade do que ele conseguiu. Está certo que eu gastei mais dinheiro do que ele. O meu pai, por exemplo, não tinha carro, embora fosse motociclista, nunca tirou carta de motorista. Ele não gostava de dirigir. Ele andava de táxi, tinha amigo dele que o levava aonde queria, mas não curtia carro. E agora você já tem o carro e compra um carro para o seu filho, tem celular, viaja, vai pra lá, pra cá. Você gasta muito mais dinheiro. Se ganha mais? Não sei. Valores, talvez. Mas acho que trabalhávamos menos e ganhávamos mais. Hoje eu acho que você trabalha mais e ganha menos. Talvez seja isso. Na época do meu pai, a frente da loja era totalmente diferente. Os maquinários permanecem no mesmo lugar de origem. Não mudou nada; ficavam mais para o fundo do estabelecimento. Havia a parte de prateleiras com latarias, embutidos, aquele negócio todo do lado e as máquinas sempre no fundo. Hoje não vendemos mais essa parte de lataria. Quem for comprar uma lata de óleo, um quilo de açúcar ou uma lata de doces, vai ao supermercado. Isso não é o meu percentual de ganho. Eu vendo macarrão, isso que me dá lucro. Nós temos muitos clientes antigos. Pessoas com 70, 80 anos que eram amigas do meu pai e hoje são minhas amigas. Eu falo que eu não sou velho, mas eu tenho amigos velhos. Convivi com o meu pai desde que ele me pegava na mão e conheci todo esse pessoal que continua comprando lá. Os mais antigos chegam pra mim e falam: “Na época do seu pai havia fila pra comprar, tinha gente na rua, na calçada.” Mas era por causa do espaço pequeno para o atendimento ao público. Eu peguei essa época de gente na calçada porque não dava pra entrar no estabelecimento. Entravam dez pessoas e lotava. E nós aprofundamos o espaço. Fizemos um espaço maior para o cliente. O meu maior movimento é aos sábados e domingos com venda de balcão. Tenho funcionário extra que vai trabalhar. Durante a semana eu também tenho trabalho de balcão, mas é bem pouco. E eu vendo para o pessoal de restaurante e fast food. Atacamos essa área que é legal porque você dá lá e toma cá. Uma coisa mais ágil. Agora os maquinários estão nos mesmos lugares que estavam desde a inauguração. São três máquinas. E comprei outras máquinas, mais modernas.

EMBALAGENS
Quanto à embalagem, embrulhávamos em papel e usávamos barbante. Não tinha sacola. Hoje em todo lugar que você vai tem sacolinha; antigamente não. Você carregava os pacotes. Supermercado, por exemplo, era pacote de papel. Nos Estados Unidos, você vê em muitos filmes as pessoas usando ainda aqueles sacos de papel. E agora essas embalagens de massas semi-prontas que é só para levar ao forno. Sofri muito com isso. Com o meu filho, demos uma boa alavancada. Ele, engenheiro, criou umas embalagens e tem as etiquetas explicativas com relação ao que vai no produto, a quantidade disso e daquilo. E comprou máquina para fechar. Houve uma transformação muito grande. Já é a terceira geração. Não vou contar nem quatro porque eu não vou contar a do meu avô. Mas se contar o meu pai, o meu filho essa é a terceira geração que já vem com outra idéia na cabeça. As embalagens mudaram do dia para a noite. É como se diz: antes o camarada pedia um quilo de macarrão e você embrulhava no papel, passava o barbante e dava para o cara. Às vezes, você fazia um nozinho em cima para que a pessoa pudesse carregar pendurado. Muitas vezes o cara chegava na porta e pacote quebrava, caía no chão e aquilo esparramava tudo. Tem histórias sobre isso. Hoje não. Hoje eu embrulho do mesmo jeito, como papel igualzinho como na época do meu pai. Isso não mudou isso. Mas tem agora umas manias difíceis de mudar: aquela sacolinha tradicional que o camarada leva.

CLIENTES
Temos um cliente que deve ter uns 80 anos. E eu faço um tipo de macarrão chamado espaguete, um macarrão diferente. O espaguete é um macarrão redondo e o talharim é um macarrão chato. Muita gente confunde isso. É tudo massa fresca e eu faço esse macarrão há 56 anos, sábado às nove horas da manhã. Isso o meu pai fazia e passou para os funcionários. Eu fiz muito tempo esse macarrão às nove horas. O meu cunhado trabalha comigo há 15 anos e é o chefe da produção. E ele faz esse macarrão às nove horas. Então vem um cliente que entra no estabelecimento e o primeiro corte é dele. Esse é um macarrão difícil de explicar, mas tem uma máquina que faz o macarrão sair que nem um chuveiro e aí você vai cortando o tamanho dele, só que isso tudo é mole, é massa fresca. E esse senhor vai lá todo sábado às nove horas e o primeiro corte tem que ser dele. Às vezes, ele atrasa e ficamos esperando ele chegar para fazer a massa. Então isso é um exemplo do atendimento. A maioria das pessoas nos conhece. Tanto é que eu vou ajudar o Rodrigo, que é o meu filho, aos domingos. Eu gosto de ir. Eu vou lá, mexo nas máquinas, faço massas. Embora a semana inteira eu não apareça lá, domingo eu vou e meu filho gosta. Ele fala o que está acontecendo e eu sou tipo de um consigliere, que dá os conselhos. Então eu vou lá dentro trabalhar nas máquinas, quando o movimento aperta, eu vou pra frente ajudar no balcão. Mas como conheço muita gente, acabo conversando e o atendimento pára. Pelo menos eu, só atendo aquela pessoa que fico conversando. Aí o meu filho: “Pai, fica lá dentro” – brincando, naturalmente - “fica lá dentro, não precisa mais vir no balcão, você só conversa e o cliente fica do lado esperando.” Eu não sei se esse pessoal novo aceita isso. Há clientes que fazem cara feia porque, às vezes, demoram a ser atendidos. Isso é outra coisa que o Rodrigo está mudando. Por exemplo, ele já contratou dois funcionários extras que vão no sábado e domingo para ajudar. Eles são novinhos e fazem um atendimento diferenciado da nossa época.

TRADIÇÕES
Existem passagens do meu pai comigo... Por exemplo, ele me levava pra cortar o cabelo num salão de barbeiro. Lembro-me bem, depois, eu muito inquieto, varria o salão e era aquele monte de cabelo. Depois eu levava o meu filho no mesmo barbeiro pra cortar o cabelo. O barbeiro ainda é vivo e tem o salão. Ele tem mais de 70 anos. Quer dizer, o meu pai levou-me pra cortar o cabelo e eu levei o meu filho lá pra cortar o cabelo. Hoje eu já não tenho mais cabelo e quase eu não vou lá. Mas são coisas que parecem que atraem, vão de geração pra geração. O meu pai fazia isso e eu faço isso com o meu filho também.

PRODUTOS
Isso é muito interessante. No meu pastifício, o que fazíamos há 50 anos estamos acostumados a fazer hoje. Por exemplo, os temperos. Uma parte dos temperos é a mesma. O tempero que vai no recheio do ravióli é feito há 42 anos pela mesma pessoa e vão as mesmas coisas. Lógico, guardando as devidas proporções, porque a verdura que tinha naquela época não é a mesma de hoje. Mas o sabor é muito parecido. A carne que eu compro tem um fornecedor e faz 25 anos que o mesmo açougue me vende. Os ovos são vendidos pelo mesmo fornecedor há 18 anos, pelo menos. Tem aquela coisa de raiz.

FORMAS DE PAGAMENTO
Até um tempo atrás, tínhamos lá no pastifício uma caixa de sapato em que o camarada ia comprar um determinado produto, como um quilo de macarrão, um quilo de ravióli e um pacote de queijo e nós marcávamos e jogávamos dentro dessa caixa de sapato. Passava duas semanas, um mês e ele pagava. Nós pegávamos a ficha e “estou rasgando as suas fichinhas aqui” e jogávamos fora. Algumas pessoas não pagavam, sumiam. Tinha lá, o fulano que era João da casa não sei das quantas, o Antonio do mercado... Eram conhecidos, às vezes, por apelido e que deram um balão, mas coisa pouca. Quanto ao uso de cheque, recebíamos alguns cheques sem fundo. Hoje acabou o cheque. Hoje é só cartão. Se eu recebo de venda de balcão uma meia dúzia de cheques por semana, é muito. Só cartão. Hoje 60, 70% da minha venda é cartão de crédito e débito. O dinheiro de plástico. E a questão de inadimplência, não tenho muitas passagens de pessoas que deixaram de pagar. Houve alguns casos de algum cliente que deu um cheque que voltou; falar disso nem compensa. Mas tem uma historinha que é muito engraçada e eu vou contar. Na época dos papeizinhos, há uns 20 anos atrás, eu tinha um cliente, que recebia o pagamento, passava lá e pagava. Não tinha “xabú”. Mas teve uma época que o pastifício tinha muitas dívidas, e eu falei: “Se eu ficar aqui esperando o cliente comprar, vou dançar, eu não vou conseguir recuperar.” Eu falei: “Eu vou fazer o quê? Eu vou atacar a indústria”. Porque naquela época todas as indústrias aqui de Campinas - IBM, Bosh, 3M, enfim - todas elas tinham um restaurante próprio que era um negócio fantástico. O cozinheiro do restaurante era funcionário da Bosh. De uns tempos para cá eles inventaram essa cozinha industrial e já vem tudo pronto. Quando não, dão aqueles vales pro pessoal comer no self service da vida. Então eu falei: “Vou atacar essas indústrias que é um dinheiro certo que vai entrar e com esse dinheiro, vou ralar todo aqui e ter um aumento do meu faturamento. Vou conseguir pagar as dívidas antigas e as atuais.” Eu descobri um filão legal. Eu vendia para a empresa e como o meu produto era bom os funcionários da empresa perguntavam onde o cara comprava o ravióli; eu fazia um preço barato, um preço que a concorrência não ganhava de mim. Eu pegava dez empresas, se pegasse dez funcionários em cada empresa seriam 100 pessoas. Foi assim que aumentei a minha venda e comecei a levantar o negócio. E nisso foi. Compra era marcada nesses papeizinhos. O meu tio escreveu num papelzinho quadradinho um valor e a data - você punha embaixo - o dinheiro da época, por exemplo, 40, e colocou um “3”, um “M” e pôs na caixinha. E tinha um funcionário da 3M que comprava lá e pendurava. Um dia, o rapaz foi acertar e falou: “Mas o que é isso, 3M? Eu não comprei isso. Nas minhas fichas está escrito Antonio. 3M não é comigo. O que é esse 3M?” Perguntou para o meu tio que falou: “É aquela senhora, a Dona Maria Mendes de Moura.” Ou seja, Maria, Mendes e Moura, meu tio colocou 3M. Então tem essas histórias e dessas penduras não tive problemas.

COMÉRCIO DE CAMPINAS
Eu acho que com a chegada dos shoppings, o comércio central teve uma queda muito grande, principalmente na área em que eu estou que é a duas quadras da Rua Treze de Maio. Mais duas quadras tem os informais que não pagam impostos, não fazem nada. E quantas vezes já fecharam lojas em protesto porque estavam querendo tirá-los de lá. E temos que conviver com esse pessoal. Isso afugenta clientes que podem gastar nas lojas, embora Campinas tenha muitas lojas que existem nos shoppings, como os grandes magazines, as grandes lojas que mantém também lojas no centro da cidade, como Lojas Americanas, Rener, Baby Calçados e outras. Não que eu tenha nada a ver com o nível de população classe C, classe D, por exemplo, são pessoas e eles podem freqüentar todos os lugares que nós freqüentamos também, mas são pessoas que, às vezes, assustam os outros que freqüentam. Existe roubo, assalto, pedinte. Uma pessoa que tem um automóvel e que queira comprar alguma coisa vai ao shopping ou ao supermercado. No meu caso, por exemplo, se quer comprar uma massa, ele fala: “A massa do Selmi é muito boa, mas ali é duro de estacionar.” Às vezes, até um ou outro cliente liga e fala: “Eu estou passando aí e dá isso, isso e isso.” Esperamos o cliente na porta, ele pára, você entrega o produto e ele vai embora porque não quer por o carro no estacionamento. Hoje, a pressa é muito grande, todos têm pressa, as pessoas têm que decidir as coisas na hora. Resolvem pelo celular, escrevem, pagam conta, dirigindo o carro. Inventaram até o microfone e as pessoas dirigem falando. Mas o comércio se transformou muito. Relembrando que eu passeava com a minha mulher vendo vitrine, isso se falar que foi há 30 anos, é muito tempo. Então mudou muito. E outra coisa, o trânsito de Campinas é muito difícil. Todos os ônibus passam pela rua principal da cidade, a Francisco Glicério. Isso é uma coisa já antiga, por exemplo, eu faço parte da Associação Comercial. Temos reuniões direto lá e comentamos isso. Entra e sai prefeito, um fala que vai fazer, mudar a rota dos ônibus, fazer terminais fora... Mas quem mexe com aquele camelódromo? Ninguém mexe com aquilo. Tem cara ali que tem duas, três lojas. Talvez fature mais do que muitos comerciantes. Ele não paga imposto, não paga nada. Às vezes, vai Polícia Federal lá e tira todos aqueles negócios de CD, aquelas coisas todas. Passam dois dias e está tudo lá de novo. Com isso transformou muito, decaiu muito o centro da cidade de Campinas. Estão tentando resgatar, fazendo várias coisas. Reformaram o calçadão da Treze de Maio. Existe uma tentativa, mas está muito morosa.

LIÇÕES DO COMÉRCIO
Eu acho que seria o respeito muito grande que tenho para com as pessoas; a educação que o meu pai me deu, como, por exemplo, chamar o cliente de senhor, de senhora, a responsabilidade, os horários a cumprir, honrar os seus compromissos... Tudo isso acho que o comércio me deu, além de ter a briga constante, ter que conseguir “matar um leão por dia” pra sustentar a família. Isso dá a você o poder de concentração de viver o dia-a-dia, de buscar novos horizontes pra ampliar. Uma coisa, por exemplo, acho que todo mundo tem problema com contador, quando você tem uma empresa pequena ou média, tem que pagar esse contador e, às vezes, ele não aparece, esquece de fazer as guias de recolhimento, não te dá atenção. Porque ele tem que ter dez clientes pra ganhar 250, 300 reais de cada um pra ter três mil reais, ter um salário no fim do mês. Ele não dá conta de dois, quanto mais de dez. Deixa muito a desejar. Como o meu filho gosta muito de estudar, eu falei: “Por que você não faz um curso de contabilidade?” Se fizesse um curso de contabilidade, tirasse o CRC [Conselho Regional de Contabilidade], podia assinar o balanço e podia administrar a empresa na parte contábil, mas aí acabaram com isso e tinha que fazer um curso universitário, Ciências Contábeis para poder assinar um balanço. Agora voltou, o Senac, que é uma boa referência, tem curso de Contabilidade. Um ano e meio depois e pode fazer o exame para tirar o CRC. O meu filho falou: “Eu vou fazer isso.” Ele trabalha das oito horas da manhã às seis da tarde; vai para o Senac, sai dez e meia da noite. Chega em casa por volta de 11 horas e eu estou esperando por ele. Nós sentamos pra conversar enquanto ele toma um lanche... Lembrei que eu fazia isso com o meu pai, quando eu estava cursando o colegial porque no meu tempo de faculdade ele já era falecido. Ele ficava esperando pra conversar. Eu faço a mesma coisa com o meu filho. Essa harmonia, essa aproximação dos meus filhos talvez seja uma resposta a todo esse aprendizado. Domingo passado, eu estava no estabelecimento e apareceram as minhas filhas com os namorados. Disseram: “Pai, vamos fazer um macarrão na casa de fulano porque os pais dele gostam também.” Fui lá e cortei o macarrão pra eles. Eles pegaram uns tomates no mercado... Isso é bacana. Essa reunião. Isso tudo foi o meu comércio do meu pai que me deu. É uma lição de vida, de família. Viver coisas do dia-a-dia no meu comércio, viver a minha vida inteira lá. A maior lição de vida é poder fazer tudo isso e ter harmonia familiar.

MEMÓRIAS DO COMÉRCIO DE CAMPINAS
Gostei muito, eu acho muito bacana. Já deu para perceber que eu falo bastante e, com as mãos também. Muitas vezes, eu tampei a câmera. Mas eu achei muito bacana. E acho que essa iniciativa de vocês é uma coisa até curiosa. Vocês são de São Paulo Alguém está se importando em mostrar isso de Campinas. Eu estive vendo nos livros coisas de Araraquara, de São Carlos, é bacana fazer essa retrospectiva, esses depoimentos de Campinas. E acho que alguém daqui da cidade poderia fazer isso. Eu estava preenchendo o formulário e vendo você conversando com o outro pessoal, falando: “Olha, aqui é a Rua Irmã Serafina, continuação da Via Anchieta.” Você não sabe onde é, mas está se interessando em saber pra mostrar uma casa que foi antiga, ou um comércio em si. Muito maravilhoso. É lógico que você não está aqui de graça, mas aqui em Campinas tinha tanta gente que poderia fazer isso voluntariamente. Às vezes, até o poder público. Por exemplo, o sindicato fez uma coisa da loja, foi lá fotografou, pegou alguns depoimentos, mas não pra fazer um trabalho tão minucioso. Vocês perguntaram coisas da minha vida e essa última pergunta foi fantástica: “O que o meu comércio trouxe pra mim na minha vida? Lições?” É uma coisa que eu nunca parei pra pensar e é muito, muito importante. O comércio trouxe a minha vida.

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