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Música e cerâmica

História de: Sérgio Adelchi Bonádio Weiss
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/03/2004

Sinopse

Infância em São José dos Campos. Descrição da cidade nas décadas de 40 e 50. Inicio do trabalho como operário na Fábrica de Cerâmica. Imigração dos avós. Começo dos negócios da família. Músico. Início do Biriba Boys. Transporte na região. Férias no litoral.

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História completa



IDENTIFICAÇÃO
Sou Sérgio Adelchi Bonádio Weiss. Sérgio Adelchi é mais da parte de italiano. Minha mãe era italiana, Bonádio. E Weiss é de austríaco, de Viena - meu avô era austríaco. Nasci aqui em São José, quando São José era uma coisa horrível - só tinha tuberculoso aqui - em 1928, no dia 7 de novembro, na atual avenida doutor João Guilhermino.

FAMÍLIA
Meu pai era Roberto Maximiano Weiss e minha mãe era Inês Maria Antonieta Bonádio Weiss. Do meu avô eu lembro. Por parte de pai era Leopoldo e ele foi contratado pelo governo brasileiro para ser chefe dos Correios e Telégrafos no Rio de Janeiro. O meu avô Leopoldo Weiss que imigrou para o Brasil. Da família de minha mãe, o meu avô, Eugênio Bonádio, italiano, veio para o Brasil mais ou menos em 1915. Acho que veio fugido da guerra. E ele trabalhou em uma cidade do interior aqui, que chamava Pedreira, trabalhou em Jundiaí e depois ele resolveu, juntou um dinheirinho - não era rico, não - e queria fazer uma fábrica de louça. Arranjou um sócio e ele pegou um trem. Naquela época, se viajava muito de trem. A Central do Brasil, maria-fumaça, aquelas coisas. E ia indo para Pindamonhangaba, onde estava combinado que a Cerâmica Bonádio, a Santo Eugênio, ia ser edificada. Mas quando passou aqui por São José, deu um problema no trem, e o maquinista, o chefe, disse: “Olha, seu Eugênio, nós vamos demorar umas duas horas, se o senhor quiser dar uma volta pra conhecer a cidade...”. E daí ele se lembrou que em Jundiaí - porque ele era músico, ele era maestro, o meu avô italiano, Eugênio Bonádio - , ele se lembrou que ele teve uma aluna que morava aqui em São José, então ele foi visitar essa aluna. E quando ele estava visitando a aluna, chegou o prefeito de São José, que era o tio dela, da aluna, a chamada dona Zuzu. “Ah, seu Eugênio, tal, o senhor por aqui em São José, a que nós devemos a honra, tal?” “É que eu vou indo pra Pindamonhangaba, vou abrir a minha indústria de louça lá, que o prefeito de lá me deu uma série de vantagens, de isenções e nós vamos abrir a nossa fábrica em Pinda.” “Negativo, o senhor não vai pra Pinda, o senhor vai abrir a fábrica aqui em São José.” E deu uma série de facilidades pra ele. E assim, em 1923 foi inaugurada aqui em São José a primeira indústria da cidade, que se chamou Fábrica de Louças Santo Eugênio/Bonádio S.A. Mas só que em 1922, o meu avô - ele tinha 45 anos e oito filhos - faleceu. E ficou a viúva com oito filhos pra ter que terminar a construção da fábrica. Botou todos os filhos pra trabalhar na fábrica de louça, a minha avó. E assim começou a primeira indústria de São José, que foi a fábrica de louça Santo Eugênio. Meu avô, na Itália, ele era um grande ceramista.

COSTUMES
Naquela época, quem queria música, tinha que ser músico ou tinha que ter músico em casa. Era muito normal, naqueles tempos, todas as casas tinham uma sala de música. E as melhores famílias tinham que ter um piano, e um piano importado. E assim foi: na minha família, todos eles tocavam música. Então, eu nasci no meio de músicos e eu acho que foi por isso que eu puxei esse lado.

FAMÍLIA
Minha mãe estava entre esses oito filhos que foram trabalhar na fábrica. Ela é Bonádio. Nesse momento, meu pai está no Rio de Janeiro. Ele se formou lá como engenheiro civil e a Central do Brasil... Isso é que é interessante, é bem interessante essa história: São José era como Jacareí, os trilhos passavam no meio da cidade. E aqui também, passava no meio da cidade, subia, passava pelo Tênis Clube, pela faculdade de direito. Olha, bem no meio de São José. Dividia. Então, meu pai veio pra cá para tirar os trilhos que passavam dentro da cidade, pra passar lá embaixo no banhado. Então esse foi o trabalho dele, por isso que ele veio aqui pra São José. Foi quando ele conheceu minha mãe. Se apaixonaram, se casaram. E estou eu aqui. A família do meu pai - austríaco - , eles eram casados com aqueles brasileiros bem paulistas, bandeirantes, cheio de... aquela coisa de Fernando Paes Leme. A Marquesa de Santos fazia parte da nossa família. Então, a minha mãe conta que quando meu pai foi falar com a família da minha avó, as paulistanas, que ele ia se casar: “Ah vai se casar, muito bem, e com que você vai se casar?”. “Ah, eu vou casar com a Inês Bonádio, ela é italiana.” “Italiana?”, sabe, aquela coisa, tinha muito daquilo: “Italiana?”. “É, italiana.” Então, ela já foi recebida com reservas. Mas do lado da sua avó italiana não teve problemas de aceitar meu pai. Nenhum, nenhum. Ela gostava muito do meu pai. Meu pai era muito gentil, era... daquelas coisas que não tem mais hoje: cavalheiro, aquele negócio de dar lugar pra dama, beija mão; ele era assim e agradou muito lá, e se casou com a minha mãe e veio, sem conhecer a indústria. Ele era engenheiro civil e veio trabalhar na Bonádio, na fábrica do meu avô, com a dona Ana. Chamava ela de dona Ana, a minha avó, ele mais outros. À medida que a família ia casando, eles iam enfiando tudo dentro da fábrica. Já viu o embrulho que deu. Um dos primeiros embrulhos... Italiano é engraçado, o povo italiano. Eles é... Eles são assim muito briguentos, eles brigam. Eu me lembro, eu assistia aquelas brigas: as irmãs com o irmão, com o cunhado, era uma coisa. Mas era assim - o meu tio mais velho chamava-se Conrado - : “Porque o Conrado, sem-vergonha, mulherengo, namorando essas empregadas. Porque eu vou lá, eu bato nele, eu mato, porque não sei o quê, não sei o quê, não piso mais aqui na minha casa, pá, pá, pá”, aquelas coisas. Daí passava umas horas: “O Conrado está doente, está com uma tosse”; “Ai, coitado Eu vou indo lá na casa do Conrado”; “Que você tem?”, essas coisas de italiano. Isso é assim mesmo. Então eu me lembro, elas brigavam, brigavam, mas ficou doente, fica todo mundo de bem. Assim era a família Bonádio. Daí, quando foram todos eles, começaram a trabalhar os cunhados, começa aquele ciúme, rivalidade. Um quer ser isso, um quer subir mais que o outro, tal. E a minha mãe, muito danada, minha mãe... Agora um capítulo à parte: dona Inês, uma artista excepcional, ganhou uma porção de prêmios. Se existe a Cerâmica Weiss foi por causa dela. E a Cerâmica, a Fábrica de Louças Bonádio, produzia a louça para uso diário: travessas, pratos, xícaras, coisas assim, mais, mais simples. Então a minha mãe ia lá e ela pegava duas xícaras, que grudavam - era de barro - , ela grudava, depois pegava a asa, punha aqui assim, punha outra asa aqui assim, abria a boca assim, virava uma ânfora. Daí ela pintava, decorava, punha no forno e levava pra casa dela. E ela dava muito presente pros amigos, pros parentes, dessas louças que ela fazia. Então, a nossa casa lá, tinha um lambri, era cheio dos cacarecos que a minha mãe fazia, inventava. E um dia - já estava começando a guerra de 38, lá na Europa, então já não ia mais nada. E, foram lá uns comerciantes do Mappin e da própria Galeria Paulista de Modas, que era a Casa Alemã antiga, foram lá pra almoçar com o meu pai e eles ficaram olhando, olhando aquelas coisas. “Mas que bonito Quem é que faz isso aqui?” O meu pai disse: “É minha mulher”. Aí eles: “Oh, dona Inês, parabéns. A senhora não gostaria de vender isso aqui pra gente comercializar pra senhora em São Paulo?”. Ah, na hora Minha mãe era terrível. Na hora: topou. Ela fazia macarrão - só pra você ver São José como era precário - a primeira máquina de macarrão foi dela, que ela ganhou não sei de quê. Então ela fazia macarrão e telefonava pros amigos, pros parentes: “Olha, tem macarrão fresquinho aqui, quem quer leva, mande levar”. Então mandava levar, mas daí ela falava mesmo, dizia que “era fresquinho, meu filho, porque o macarrão estava molhado e pesava mais”. Comerciante nata. Danada, danada. E daí começou a fazer as peças. Fazia as peças na Fábrica de Louça Bonádio. E ela levava pra casa, decorava - começou a ensinar umas meninas pra decorar - e queimava na Bonádio. Mas o nome embaixo já era Weiss. Então era a peça Bonádio, mas a idéia dela e a pintura dela deram uma ciumeira nas irmãs e nos cunhados. Eu sei que saiu uma brigalhada, lá. Em conseqüência, o meu pai, o Roberto Weiss, já tinha trazido o irmão dele, também, do Rio de Janeiro, o Mário Weiss. O Mário Weiss era casado com a irmã da dona Inês, que era a dona Sérgia. Bonádio também. Então eram dois Weiss casados com duas Bonádios. Então eles saíram da Bonádio e fundaram a Cerâmica Weiss. E pra evitar atrito de família, que ficou aquela ciumeira, eles partiram pra um outro estilo de indústria, pra não fazer concorrência. O estilo da indústria, da Cerâmica Weiss, era mais artístico. Era uma louça mais fraca chamada faiança. Mas fez muito sucesso porque caiu no gosto do brasileiro. A minha mãe tinha um gosto assim muito extravagante, ela era pioneira, ela tinha coragem de inventar as coisas. Então ela fazia aquilo com pinturas, com cores fortes. Antigamente, nas cerâmicas, eram só usadas as cores sépia, azul-marinho. E ela não: já punha vermelho, verde, azul, e pássaros e flores, as flores brasileiras, orquídeas... E aquilo tudo com contorno de ouro. Foi um sucesso. Como se vendeu...

COMÉRCIO
Essa separação foi em 42. E aí foi um sucesso, a Cerâmica Weiss. A Cerâmica Weiss começou onde é hoje o INSS [posto do Instituo Nacional de Seguridade Social], em frente ao banco Real. E de lá, ela foi lá pra avenida Rui Barbosa, onde ela se expandiu. Naquele tempo não tinha televisão. Não tinha a mídia que tem hoje. Então era boca a boca. Vinha gente de fora, do Brasil inteiro. A minha mãe era, sabe como era a minha mãe... Porque depois, como a Cerâmica fez sucesso tal, daí meu pai fez uma casa. Muito bonita. Era uma das casas mais bonitas da cidade. Então todo mundo que vinha de fora ia almoçar na casa do meu pai. Porque não tinha hotel, não tinha nada, era casa do doutor Roberto, casa do doutor Roberto. Um dia foi lá um americano, que veio também comprar louça e meu pai apresentou minha mãe: “Olha esse aqui é do Estados Unidos, é o mister Ford”. Ela disse: “Ah, sim, pois não, muito prazer e tal”. E quando ele se despediu, disse: “Olha, então, mister Ford, that’s my name. Eu tenho nome de marca de automóvel”. Aí passou uns seis meses, o homem voltou e minha mãe: “Como vai seu Chevrolet?”.

EDUCAÇÃO
Eu estudei aqui em São José. Só aqui. Tentei estudar em São Paulo, um ano, pra fazer o colegial, científico. Hoje tem outro nome, ensino médio. Porque São José não tinha nada. Se quisesse tinha que ser Taubaté. Taubaté era a capital do Vale, sem dúvida nenhuma. E era mesmo: tudo era em Taubaté. Taubaté já tinha prédio, a gente ia lá ficava olhando aqueles prédios. Eu ia em Taubaté, ia jogar basquete, era atleta da seleção joseense, nos Jogos Abertos do Interior. A gente ia de... A gente tinha uma quadra aqui, onde a gente treinava. Mas quando chovia, que tinha jogo importante... Só Taubaté tinha quadra coberta, São José não tinha quadra coberta.

TRANSPORTE
E a gente ia de carro. Meu pai já tinha um carro. Meu pai tinha um Pacard. Isso na década de 30, e o Pacard era 38, mas foi em plena guerra, 45, 46 e não tinha gasolina. Era gasogênio. O Pacard era importado. Os carros daqui eram todos importados. Porque mesmo os Ford, Chevrolet, tudo: era tudo importado, eram só montados aqui. Alguns eram montados. Mas fábrica não tinha nenhuma. Então eles andavam, a gente ia com carro a gasogênio, que eram dois tubos que se colocava atrás no carro, com carvão. E esse carvão produzia o gás que... Mas era uma desgraça, não tinha força. Pra ir pra Taubaté pegava a Rio - São Paulo. Não tinha a Dutra. Chamava antiga Rio - São Paulo. Era uma estrada de terra, uma via só, uma mão só. Você pra ir daqui pro Rio de Janeiro, Nossa Senhora, era... Ou ia de trem. De trem, eu fui muitas vezes de trem, noturno, dormindo. Ai, que delícia viajar de trem Um espetáculo. Como eu amo trem, como eu gosto. Tinha vendedor só nas estações, lá fora: pipoca, milho, não sei que lá, maçã. Mas quando os trens de passageiros passavam aqui em São José... Porque era assim: o cobrador, o chefe do trem, ele passava e anunciava: “Próxima parada, Jacareí”, então todo mundo ficava aceso, porque Jacareí era terra dos biscoitos. Tinha um biscoito muito famoso em Jacareí. E todo mundo descia pra comprar biscoito de Jacareí. Daí, saía o trem: “Próxima passagem: São José dos Campos”, pessoal pegava, fechava o vidro.

CIDADES
São José dos Campos Peguei esse tempo, peguei tudo isso, eu via quando eu ia jogar basquete fora de São José. São José, a torcida de Jacareí, de Taubaté, de Guaratinguetá, da onde que fosse, de Santos: “Tuberculoso, tuberculoso, tuberculoso; sanatório, sanatório”. Ficou essa marca. Porque nos anos 40, ainda tinha isso. Sanatório. Nossa, sanatório aqui, foi até 50. Foi, foi diminuindo, mas tinha muito tuberculoso. Peguei a época das pensões. Peguei. Ih, em frente à minha casa, avenida João Guilhermino, era só de pensão de tuberculoso. Os que tinham mais dinheiro iam pra Campos do Jordão, que era mais chique. E tinha os “longa”, que se falava aquela época. Tosse, bronquite e rouquidão: São José dos Campos, Campos do Jordão. Os mais riquinhos, tinha os sanatórios de Campos do Jordão, aquelas casas melhores. Os pobres ficavam aqui. E os pobres, coitados, moravam naquelas pensões, eram jogados pelos parentes. E tinha um quadro tétrico, assim de manhã, às dez horas, quando saía o sol: tinha essas cadeiras espreguiçadeiras que a gente hoje usa na praia pra tomar sol, então, tinha lá os tuberculosos, tudo magro, carcomido, eles punham o roupão, assim, e ficavam... Na rua, na calçada. Na calçada, tudo ali, tudo na calçada. Não era nem varanda, tinha varanda nas casas, mas não era não. Era calçada, mesmo. Ficava lá na calçada e a gente pra ir pra escola, passava perto, tal. E você via eles lá. Pegavam - chamavam de escarradeira - , abria assim, tuc, e guardava embaixo da cadeira. De noite, eu escutava eles gemendo de dor. E minha mãe recomendava, minha mãe só recomendava isso: “Meninos, não anda descalço e não conversa com quem vocês não conhecem e pá, pá, pá”. Mas a gente vai adquirindo imunidade, por causa do bacilo de Koch. Então a gente tinha imunidade, era muito difícil você ter um joseense tuberculoso. A gente era imune. O comércio era precaríssimo... Então tudo que se precisava ia buscar era em São Paulo. Na época que eu era garoto. Anos 40, 35. O meu oculista era de São Paulo, os meus óculos eram feitos na praça Patriarca. Minha roupa, comprava no preço fixo, numa loja Clipper. Sapato era Clark, tinha que comprar na rua São Bento e na rua Direita. Tudo tudo era São Paulo. A gente ia de ônibus. Era um ônibus da empresa Cabrilana. Cabrilana era aqui de São José, ônibus azuis. A gente ia, eram três horas e meia de viagem daqui a São Paulo, por terra. E, então, aqueles que viajavam mais tinham aqueles... eles usavam guarda-pó. Porque era muita poeira. Muita poeira, nossa Mas era uma farra. Sabe por quê? Nós tínhamos nossos tios, eles moravam em São Paulo. Então, quando a gente precisava ir a São Paulo: “Oh, fulana, vou indo aí”; “Pode vir. Olha, traz batata, traz manga, traz...”. Então, também servia pra isso, pra levar as coisas.

EDUCAÇÃO
Comecei a tocar piano com a irmã Josefina, na escola. Ela que me ensinou os primórdios. E ali era muito interessante. Os meninos pra cá e as meninas pra lá. Não podia de jeito nenhum, mas nem olhar, quanto mais conversar. Nem pensar. E os meninos eles aceitavam só se fossem de família muito ilustre, muito conhecida, mas só até o segundo ano primário. Você fazia o infantil, o primeiro ano, segundo, terceiro, começava a criar barbinha, pelinho embaixo do braço: mandava embora, que era perigoso. Isso no Externato São José, que agora é o Instituto São José. Uma beleza de escola, uma escola muito boa, muito bonita. Depois teve o Grupo Escolar Olímpio Catão. O Grupo Escolar Olímpio Catão foi o maior crime arquitetônico que se poderia ter feito com a cidade. Mesma coisa que terem arrasado, destruído o Coliseu de Roma, tirando as devidas proporções, é evidente. Então o Olímpio Catão era um prédio lindo, tinha as estátuas em cima, cheio de estátuas de mármore, importadas. Foi de uma família muito rica, que ele trouxe a família pra cá, porque parece que a esposa estava doente, e tal. Ele construiu em estilo mourisco. Um prédio, um tesouro arquitetônico, como é a antiga Câmara Municipal. Que pra mim é o prédio mais, como se diz? Mais... marca mais a cidade. Aparece aquele prédio você já sabe que é São José dos Campos. Eu lembro que Catão era a mesma coisa, mas no governo Jânio acharam de derrubar. Foi muito triste. Mas aí, no terceiro ano, fui pra esse prédio onde era... Chamava-se Escola Normal Livre. Então ali tinha o primário. Tinha o terceiro ano, o quarto ano, a quarta série e depois a gente passava pro ginásio. Daí tinha o primeiro, segundo, terceiro, quarto ano do ginásio. Então, todos esses anos eu fiz lá no que depois passou a se chamar Coronel João Cursino, que era o prefeito, foi o prefeito de São José, e foi aquele prefeito que trouxe o meu avô pra cá. Era o Coronel João Cursino, Material escolar, comprava aqui. Tinha as papelarias, mas os livros, os livros passava tudo de um pro outro. Não tinha esse negócio de estar mudando de livro, não. Os livros de história, os livros que eu estudei, era tudo dos meus primos, de mais de dez anos. Passava um pro outro.

LAZER
Nosso esporte predileto aqui em São José era jogar pelada, jogar futebol de rua. Eu fui dono de um time, eu sempre fui metido a ser chefe, maestro, essas coisas, sempre. E eu era o dono da bola porque em São José eu fui o primeiro a ter bola com válvula, que nem enche pneu. Porque antigamente, você pra encher, era no capotão, que saía o bico pra fora, assim, fuu, fuu, fuu, você tinha que amarrar, tinha que enfiar dentro, fazia isso que está aqui assim, costurava. Você jogava aquela bola. Imagina aquela bola molhada, com areia, e você dar uma cabeçada bem aqui... Aí veio uma bola mais leve e eu fui o primeiro a ter essa bola de válvula. Então todo mundo me puxava o saco. Então a gente ia jogar bola. Meu time era o Esporte Clube Humaitá, porque eu morava na rua Humaitá. Era preto e branco: alvinegro. Então eu jogava futebol. Ah, era de manhã, de tarde e de noite, só futebol, futebol, futebol e nadar no Vidoca. Esses eram nossos esportes prediletos. E à noite, após o jantar, a gente se encontrava ou pra contar piada ou pra jogar bola de gude, ou pra jogar pião, ou nós tínhamos um negócio de correr e prender, que chamava soldadinho-salvar. É um pega-pega: você tinha dois times; tudo saía correndo, então você corria atrás, prendia e ele ficava preso. E aqueles que ficavam presos ficavam tudo de mãos dadas. Então sempre tinha um mais esperto que se escondia, e o guarda que estava segurando os prisioneiros se distraía, ele vinha por trás e batia assim. Quando batia soltava. Por isso que é soldadinho-salvar. Aí saía todo mundo, começava tudo de novo. Isso com quinze anos, catorze, quinze anos.

TRABALHO
Nessa época, fui trabalhar na Cerâmica, como operário. Eu tenho uma queixa dos meus pais: eles não deram muita pelota pra mim, não. Me largaram lá como um simples operário. Eu achava que por ser filho do dono, que meu pai fosse me ensinar a gerir a fábrica. Mas não.

CIDADES
Litoral Naquela época, o chique, as nossas férias, eram em Caraguatatuba. Eu desci a primeira vez, em Caraguatatuba, em 1935. Nós íamos de carro até Paraibuna. De Paraibuna até o alto da serra, a gente ia de carro. Era um Ford 35, do senhor Francisco César Leite, chamado de Chico Garganta. E lá, quando chegava no alto da serra, tinha uma fazenda. Essa fazenda alugava pra gente cavalos e burros pra gente descer a serra pela trilha. Levava quatro horas de estrada, trilha. Essa primeira vez, meu pai ficou trabalhando; foi minha mãe, meu irmão, eu, mais dois primos e mais um tio. O Chico Garganta tinha esse serviço de transporte. Depois, a primeira linha de Caraguatatuba a São José dos Campos foi dele. Chamava Expresso de Prata. Fazia São José - Paraibuna e depois, Paraibuna - Caraguatatuba. Isso em 36, 37, 38, por aí. Daí já abriram, já tinha a estrada, mas era todinha de terra. E era um inferno. Quando chovia, só lama. “Ah, não chegou... Tá na lama, parado.” Mas antes, a gente ia em cima do cavalo. Não era assim, galope, era devagarinho, pec, pec, pec, pec. Usava a trilha e chegava em Caraguá. Cruzava com tropeiro no caminho, os caras que vinham do litoral. Lá eles pegavam muito palmito, vendia-se muito palmito. A mata era linda, formidável. Mas chegava em Caraguatatuba, não tinha nada. Caraguatatuba era uma farra. Não tinha luz elétrica, não tinha telefone. A gente ficava numa pensão. Mais tarde, depois que abriu a estrada, então, a minha família, que era muito conceituada aqui... Eram as famílias Bonádio, Weiss, Becker e mais uns amigos, Florense, doutor Dória. Então a gente... São José, invadiu Caraguatatuba: todos tinham sua casa. Então o gostoso era a gente descer pra Caraguatatuba.

TRABALHO
Comecei como operário na Cerâmica Weiss e eu já tocava piano. O pessoal já me conhecia. E lá em Caraguatatuba, como não tinha o que se fazer à noite, tinha o Praia Hotel. E o Praia Hotel tinha um piano, um piano desgraçado de ruim, mas estava lá o piano. Então chegava de noite a turminha ia me caçar, pra... ia ser seqüestrado: “Serginho, vem pra cá, Serginho”. Os danados não me davam nem um tostão. Tinha que tocar de graça mesmo. Então ia pra lá e tocava. “Toca aquela, toca aquela, toca aquela outra.” E ali, o pessoal dançando, quando chegava dez horas... Porque tinha lá aquele motor, gerador, e você escutava o gerador: tum, tum, tum, tum. E a luz também fazia assim junto: tum, tum, tum, tum, tum. Quando eram dez horas, avisava: uóóóóóó, que era apagar a luz, pra você ir embora pra casa. Daí apagava a luz, o pessoal acendia a vela, continuava tudo dançando, e o Serginho: “Toca mais esse”. Tocava muito bolero; bolero e samba-canção; e sambão, aquele samba bem batucada, Ary Barroso; e muita música italiana, a gente tinha que tocar, também. Aqui em São José fundamos o Tênis Clube. Em 49 - o Tênis Clube foi fundado em 48, mas o fato foi em 49 - , que aí a gente construiu um pequeno barracão lá, uma sedezinha. E lá tinha um piano também - maldito piano ruim, desafinado - e numa bela noite, tinha um salão bem precário, era tudo muito rústico, eu lá, tchac, tchac, tchac, foi chegando um com o pandeiro, depois chegou outro com o violão, e outro com não sei o quê: fizemos uma batucada. Pra você ver como são as coisas. Daí chega a diretoria do clube: “Mas esse barulho aí está muito bom, volte amanhã”, a gente ficou animado, voltamos no dia seguinte. Daí, todos os meus amigos queriam subir no palco pra tocar também: “Ah, eu tenho violão em casa”; “Ah, eu tenho pistão”; “Ah, eu tenho bateria”; “Ah, meu pai tem não sei o quê”. Então, tinha um jipe do meu pai, eu peguei o jipe, saí, catei tudo, daí já começou, porque eu sempre gostei das coisas bem organizadas. Então a gente começou a tocar e o clube sempre elogiando, e foi criando nome: “Tem uma rapaziada que toca lá no Tênis, o rapaz, pessoal do Serginho, tal”. E enchia de gente, que isso aqui era a grande novidade. Porque naquela época, as bandas de baile eram todas copiadas das americanas, eram as jazz bands. E era sempre aquilo: três, quatro sax; dois, três pistões; dois, três trombones; contrabaixo; guitarra elétrica; piano; bateria; cantor e cantora. A formação era sempre igual e todos eles eram senhores de mais de quarenta anos e todos eles tocavam atentos na partitura, sérios. E de terno azul-marinho, com gravata borboleta. E o que aconteceu conosco? Aos poucos, a gente foi evoluindo. E chegou a diretoria e falou: “O próximo baile vocês que vão fazer”. “Mas como que nós vamos fazer o próximo baile?” “Vocês que vão fazer, já dispensamos a orquestra de Jacareí.” Orquestra de Jacareí tinha a Verano e o Fila Bóia: “Já dispensamos o Fila Bóia, vocês que vão tocar”. “Nossa, pessoal, então vamos ensaiar, vamos ensaiar.” E já fomos organizando: “Você tem sapato preto?” “Tenho.” “Você tem meia branca?” “Tenho.” “Tem calça azul-marinho?” “Tenho” “Tem camisa social colarinho branco?” “Não.” “Então espera aí, vou comprar pra você.” E mandei fazer umas gravatinhas azuis. Então, quando entramos no palco pra tocar, eles já levaram um susto, porque não estavam acostumados com aquilo: todo mundo igual, uniformizado. E como que nós tocamos? Tudo decorado. Eu não permitia música na frente. Então as músicas eram de cor; todos tocávamos em pé, sorrindo pro público e se movimentando. Mas foi novidade total, uma loucura. Tinha eu de piano. E tinha um instrumentinho do lado, que é um teclado, que se chamava solo. Na frente, que eu tocava, também tinha um que se chamava vibrafone. Daí tinha um pistão, tinha um sax, tinha um acordeão, tinha uma guitarra elétrica, tinha um contra-baixo, bateria e um ritmista. Eram dez. Quando fomos fazer aquele baile, nós tínhamos a rádio Clube, aqui em São José, a primeira da cidade, ZYE 5 - Rádio Clube São José dos Campos. Então, eu mandava no rádio. Nossa, era querido lá, tocava a hora que queria. Eu fui lá pra anunciar. Chamava-se Zefino, o locutor: “Zefino, anuncia aí que nós vamos ter um baile no Tênis Clube”. “Tênis Clube? Baile? Ah, sim, que dia vai ser?” “Dia 28 de junho.” “E quem que vai tocar?” Falei: “Nós”. “Nós? Nós quem?” Daí, eu me lembrei do Biriba, do Botafogo - o Botafogo de Futebol e Regatas, do Rio de Janeiro - , que não ganhava o campeonato há anos e arranjou um cachorrinho, um “fox rabicó” chamado Biriba. E o Biriba era mascote do Botafogo. E eu, como era atleta, eu fui jogar defendendo a seleção de basquete de São José nos Jogos Abertos de Cambuquira, e lá estava a delegação do Botafogo, e o grito de guerra deles era: “Biriba, Biriba, Biriba, Biriba, Biriba”. E depois, aqui, em todo lugar, se brincava muito, assim: “Cadê aquela camiseta que eu deixei aqui?”. “Ah, eu não fui.” “Foi você?” “Não, não foi.” “Então foi o Biriba.” “Cadê aquela xícara que estava aqui? Sumiu, mas quebraram a xícara, quem foi, foi você?” “Não.” “Não.” “Então foi o Biriba.” O Biriba é uma espécie de saci, saci-pererê. E daí, quando nós fomos lá, o locutor falou: “Quem que vai tocar?”. Falei: “Nós”. “Nós quem?” E agora: “Biriba” “Ah, Biriba, é? Biriba o quê?” “Boys.” E assim surgiu o Biriba Boys. Foi espontâneo. O Biriba surgiu... Não foi nada estudado, foi uma coisa espontânea. E desde o começo eu sempre fui muito caprichoso, exigia disciplina, não deixava beber e tudo. Nossa, fumo não existia, não tinha nada, e a gente era inocente demais.

TRANSPORTE
Naquele tempo não tinha Kombi, o meu pai tinha um jipe, chamava Land Rover. Então a gente enfiava os instrumentos, porque ele era fechado. E alguns deles tinham o carro do pai, do irmão, e iam com o carro. Eram sempre duas conduções em que a gente ia pra fazer o baile. Até que, depois, eu mandei construir um reboque, um trailerzinho. E aqui no Brasil não tinha trailer. Porque nós estamos falando dos anos 50. Eu mandei construir um trailer que eu copiei de uma revista americana. Muito bonitinho. E no trailer cabiam todos os instrumentos. A gente engatava no carro da minha família, que era um Ford, Ford 50, e ia embora. Quatro aqui na frente, quatro aqui, os instrumentos, e ia o Serginho na Dutra. O Biriba Boys tocava por aqui, pelo Vale. O primeiro baile que nós fizemos fora de São José foi em Caçapava, em 1953. A Dutra, em 53, não tinha movimento nenhum. Era uma pista só. Estava começando, o pessoal não estava nem acostumado ainda. De Cruzeiro pra Cachoeira, de Cachoeira pra Lorena, ainda se usava; de Taubaté pra Pinda, de São José pra Jacareí, se usava a estrada antiga, a estrada velha. Mas depois que surgiu a Dutra foi uma beleza. Então, íamos nós lá. Quando chegava com o reboquinho, lá, tudo bonitinho, moderninho, escrito Biriba Boys, não precisa nem tocar, porque já tinha feito sucesso.

TRABALHO
Esse baile em Caçapava foi no Clube Literário, no centro da cidade. E olhe só o que aconteceu. Naquela época, todos os clubes tinham a sua banda, a sua jazz band. E Caçapava tinha uma formada por militares. Nós fomos tocar do outro lado do salão; eles tocando “Moon light serenade” - La, la, la, ri, la, la, pa, pa, pa, pi, pa, pa, pa - muito bem tocado. Eles impecavelmente vestidos, tudo certo, tocando aquilo tudo. E nós subimos a escada: sapato branco, calça branca, camisa branca bufante, assim, tudo cheio de flor, cheio de coisa, uma faixa azul aqui. Quando entrou no salão, ganhamos o povo na hora. Porque eles estavam cansados de ouvir aquela banda, eles tocavam muito bem, eram excelentes, mas estavam cansados deles. Já conheciam o repertório inteiro. E quando nós começamos, era com instrumentos diferentes, com sons diferentes. Ah, mas foi um delírio, foi um delírio. Aplausos e abraços. E que aconteceu? A jazz band não quis voltar a tocar: “Não, esses moleques... Nós não vamos voltar tocar, não. Eles que acabem com o baile”. E assim era em toda a cidade. Então o que aconteceu? Em Caçapava tinha um pessoal de Taubaté, que viu, gostou, levou a gente pra Taubaté. Em Taubaté tinha um pessoal de Pinda, que viu, levou a gente em Pinda. E em Pinda tinha um pessoal de Guará que levou a gente. E assim foi. O Biriba Boys dura até hoje. Não é a mesma turma, não, morreu tudo. Morreu, ficou velho, desistiu. É que nem o time do Santos: você quer o Santos do Pelé? E o time? Eu adoro o Santos, quem não gosta do Santos? Mas não é o Pelé, mas claro que não é. O Biriba Boys não é, é claro que não é, mudou, agora é diferente, é outro papo. Mas eu fiz um baile com eles agora, está fazendo vinte dias: Sérgio Weiss e Biriba Boys. Eles estão em Taubaté, agora. Eu vendi [o nome da banda] pros músicos. E um saiu, outro desistiu, outro morreu, e um só ficou com ele, que é o Tarzan, João Sidnei Jacobino, e ele que está levando o Biriba Boys. Eu acredito que o Biriba Boys deve ser o conjunto de baile mais antigo do Brasil. O Biriba Boys deve ter feito mais ou menos uns 6 mil bailes. Eu com eles, eu fiz 4 mil. O slogan é: “Sérgio Weiss: 4 mil bailes”. O repertório do Biriba Boys é tudo; conforme o baile, porque hoje, fazer um baile, está muito difícil. O nosso tempo, não: o repertório era sempre o mesmo. O pessoal gostava de dançar de rosto colado, a música baixinho. E sempre temas de amor, de filme, não é? Casablanca: La, ri, la, ri, la, ra. La vie en rose: La, la, ri, la, la... Puxa vida, eta, Nossa Senhora Tocamos juntos; de vez em quando a gente faz uma apresentação juntos, sim. E eu continuo, eu agora... Eu fiz um CD. Abre o CD com “Minha cidade São José”, e depois tem músicas minhas e sucessos. Do Dick Farney, por exemplo, começa com “Copacabana”, “Marina”... Então, o que acontecia? Eu trabalhava na Cerâmica Weiss, e ganhava, vamos dizer, o correspondente hoje a quinhentos reais por mês. Eu trabalhava vinte e tantos dias, levantava sete horas da manhã: fim do mês, quinhentinhos. Bom, primeiro baile que eu fiz em Caçapava eu já ganhei oitocentos. E cada baile que eu fazia fora, eu ganhava mil, 1200. Então eu falei: “Cerâmica Weiss, bye-bye pra vocês”. Não gostaram muito não. Mas eles sabiam que eu era músico, que eu tinha tendência, que eu gostava, e eu sempre fui muito firme. “Vai isso aí mesmo.” E daí começaram até a me ajudar, me deram alguns instrumentos, me incentivaram. Fiz carreira profissional e percebi que era por aí, que tinha uma estrada enorme pra mim. Como aquele pessoal era burro, não? Eta, aqueles músicos, eles não enxergavam nada, eles não enxergavam um palmo na frente do nariz, e eu enxergava cinco quilômetros na frente, e eles não enxergavam ali. Então, tudo que eu fazia era novidade, todo mundo me imitava. Cada lugar que a gente ia tocar... Meses depois surgiu não sei o que Boys lá. Em Guaratinguetá, era o Cuban Boys. Em Lorena, era o Big Boys. Em Volta Redonda era o Still Boys. E tudo Boys. E tudo imitando, tinha que ser tudo jovem, e camisa alegre, e tocando daquele jeito, tudo de cor, sem olhar. Sabe, a gente fez escola. Se fosse no tempo de hoje, da mídia, tinha sido uma revolução. Claro que em termos muito menores, mas seria uma espécie de Beatles, viu? Me desculpe a falta de modéstia. Foi uma coisa de louco.

FAMÍLIA
Meu pai já estava se afastando da cerâmica, minha mãe também, já estava velhinha, meu tio, tal. E meu irmão que começou a tomar conta, o Leopoldo, casado com dona Isa. Meu irmão sempre foi assim, muito atirado, sempre quis fazer coisas. E nós tínhamos essa Casa das Louças, bem no centro ali de São José, onde hoje é o banco Mercantil, perto do Bradesco, ali naquela praça; chamava-se Casa das Louças. Então a gente vendia.

CIDADES
São José dos Campos Nós tínhamos três fábricas de louça aqui em São José: uma que foi a primeira, que era a Santo Eugênio; depois uma segunda, desse meu tio Conrado, que fez a Cerâmica Conrado; e tinha a Cerâmica Weiss. Então, lá na Casa das Louças nós tínhamos todos os tipos de louças. O pessoal de fora, que vinha aqui em São José - já era uma coisa natural, característica, era automático - , uma visita ou na Cerâmica Weiss ou na Casa das Louças, pra levar uma lembrança de louça de São José. E uma visita, também, na Tecelagem Parahyba, pra se levar uma manta. Então quem vinha em São José, a marca registrada era uma manta da Tecelagem Parahyba e uma louça da Cerâmica Weiss. Os turistas, os chamados turistas. E muita gente também que ia a Campos do Jordão, que daí Campos do Jordão entrou na moda. Adhemar de Barros inaugurou lá o palácio, tal. E o pessoal tinha que passar aqui por São José. Porque não tinha a estrada que vai por Taubaté, agora, então passava por aqui, ia pra Cambuquira, São Francisco Xavier. Então esse pessoal todo parava pra comprar as coisas nossas aqui. Era pessoal de passagem. Não ficavam. Isso nos anos 50, 60. Agora, depois da Dutra, do CTA [Centro Técnico Aeroespacial], do ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica], daí mudou tudo. Aí começou a industrialização verdadeira, que foi a vinda da GM [General Motors], da Johnson, da Ericsson, essas fábricas todas. Com a Dutra mudou radicalmente. Mudou tudo, tudo. Daí São José passou a... Daí o pessoal, pra ir pro litoral, tinha que passar por São José, também. Pra ir pra São Sebastião, pra Ubatuba. O grande impulso de São José foi primeiro a Dutra, depois o CTA e o ITA, depois as indústrias. E Sérgio Sobral de Oliveira, que foi o grande impulsionador do progresso de São José. Ele percebeu, preparou a cidade pra tudo isso que está aí. Começou a fechar as pensões de tuberculosos; a escolaridade melhorou, nós já tínhamos os cursos: o científico, o clássico; e já se abriu, também logo em seguida, a faculdade de odontologia; faculdade de direito também abriu. São José começou a pegar ares de cidade... Daí o comércio já começou a evoluir, já tínhamos ótimos restaurantes, começamos a ter bons hotéis. Esse hotel aqui foi um dos pioneiros, também, o Urupema. Isso aqui acho que é de 62, 65, sei lá. Ah, a Casa Diamante era o nosso paraíso. Ah, que gostoso que era a Casa Diamante. Porque São José era uma porcaria, não tinha nada. E na Casa Diamante tinha tudo. Você queria um relógio Ômega, você ia lá na Casa Diamante. Você queria um bom perfume, era na Casa Diamante. Você queria um bombom gostoso, era na Casa Diamante. Você queria uma gaiola de passarinho, era na Casa Diamante. Você queria uma boneca pra dar de presente pra sua filha, era na Casa Diamante. Você queria uma bola de futebol, era na Casa Diamante. A primeira coca-cola que eu tomei na vida foi na Casa Diamante. Nossa Não tinha lanchonete lá dentro - imagina, se naquele tempo ia existir lanchonete? - mas tinha a coca-cola. E era a garrafinha pequena. Era um cruzeiro, cruzado, sei lá o quê. Aquilo foi o néctar dos deuses, que coisa Nunca tinha sentido aquele paladar, fiquei apaixonado. Coca-cola. Delícia que foi. Ela não era grande, era uma casa, não era grande. Grande hoje pra nós aqui são as Casas Bahia. Você viu o tamanho daquilo lá? E tem duas. Aquela Casa Bahia menor é dez vezes maior que a Casa Diamante. A Casa Diamante eram duas portas, vamos dizer quatro portas, assim: um, dois, três, quatro. Tinha o quê? Cinqüenta metros de fundura. Então, cada balcão era uma seção: tinha o balcão que era dos relógios; depois aqui era o dos perfumes; aqui, artigos de esportes; pro lado de cá, então, tinha presunto, queijo, não sei o quê, bebida, vinho, coca-cola, cerveja, tá, tá; e aqui arroz, feijão, não sei o quê, não sei o que mais; lá nos fundos eram os brinquedos. Então era uma miscelânea. Tinha vendedores, eram os próprios donos. Os donos, pouquíssima gente. Sabe, eu hoje, quando entro num supermercado, num Wal-Mart, essas coisas, que eu vejo as meninas de patins andando com uns cheques. Eu fico idiota. Meus Deus do Céu Esse é o meu São José A minha querida São José dos Campos. Como mudou. Depois a Casa Diamante se refinou um pouco porque do outro lado da rua ela abriu uma filial. Na filial tinha televisão, geladeira, pianos, bicicletas, disco, lambreta, fogão. As coisas assim mais... Mas aqui, se você precisava de alguma coisa, tinha que cair na Casa Diamante. Era lá mesmo. A filial chamava Diamante, Casa Diamante. Eu acho que não chegou até os anos 60, não. Eles tinham aquela mentalidade antiga de comércio. E a hora que veio o pessoal de fora, que abriu então um supermercado, o primeiro acabou com tudo. Aí foi, a grande novidade foi o Sérgio Sobral quem trouxe. Trouxe Lojas Americanas e trouxe o Pão de Açúcar, que era o Jumbo Eletro. Onde é a Igreja Universal também era um Jumbo Eletro. Então, aquilo foi um delírio, uma delícia. Na Casa Diamante comprava um pessoal mais abastado. Porque, naquela época, São José tinha uma divisão muito clara. Hoje não, hoje mudou tudo. Hoje você vê pessoal pobre, criança lá no meio, comprando televisão de 29 polegadas a cores. O sujeito tem celular. Naquele tempo, pobre era pobre mesmo, mas não era miserável: pobre era pobre. Então, a grande meta, aspiração do pobre qual era? Formar o filho, ter uma casinha pra morar, casinha de terra mesmo. Você ia na casa do pobre lá, você era recebido, vinha aquele cafezinho com aquela toalhinha branca, o chão de terra mesmo, mas não tinha nenhuma sujeirinha. Era um espetáculo. Então o pobre se conformava em ser pobre, ele sabia que ele era pobre. E grande inspiração da vida dele era ter uma bicicleta, ter um rádio e formar o filho. Assim eu conheci muitos, muitos. Muitos, muitos, muitos eu conheci. Não tinha inveja, porque hoje a mídia é uma desgraça. Já pensou aquele coitado do menininho, que não comeu, que está lá em casa, vendo a televisão colorida, daí vem aquela pizza que eles cortam, assim, escorre aquele queijo assim, depois você toma junto com guaraná? E ele fala pro pai: “Pai, estou com vontade de comer pizza”. Como é que faz? E a mídia fica na cabeça do coitado: compre, compre, compre, compre, compre, compre. A televisão podia ser uma coisa maravilhosa, gente. É um meio de comunicação sensacional, ela podia consertar o mundo, mas está em mãos erradas. Lembro, oh, a Casa Kremer. Ficava na rua Quinze. Era tudo lá. Se bem que tinha, nós chamávamos, os turcos. Em frente ao mercado, na Siqueira Campos. Até hoje tem uma loja lá que você não acredita: a Confiança. Do mesmo jeito, mesma coisa. Era aquilo. São José, no começo era aquilo que está lá: Casa Confiança. Do outro lado tinha a Casa São Jorge.

TRABALHO
Quando começou o Biriba Boys, eu queria umas roupas diferentes. Não tinha, naquele tempo as roupas de homem, meu Deus do céu, que é isso? Homem, o máximo que ele usava era isso aqui, azul-marinho. Eu queria uns panos diferentes. E eu ia lá. E daí, o que eu fazia? Eu comprava pano de cortina, pra poder fazer camisa: “Que é isso, Serginho, pra que você quer?”. Eu pegava aquele pano, ia na frente do espelho: “Deixa eu ver se fica bom”. E o pessoal já olhava meio esquerdo pra mim: “Ih, esse rapaz, eu não sei não”. Eu punha assim aqueles panos pra ver como ficava. E comprava e mandava cortar, fazer pros músicos, eles não queriam usar: “Não vou usar esse negócio aí, não sei quê, não sei quê”. “Vai lá sim, e não me enche o saco.” E eu sei que fazia sucesso: chegava num baile, a roupa, o modo de tocar, os arranjos, tudo diferente.

IMIGRAÇÃO
Tinha muito imigrante em São José, mas confundia tudo. Pra nós era tudo a mesma coisa: árabe, judeu, turco, libanês, para mim era tudo... A gente chamava de turco. Formidável são os italianos, os portugueses. Ah, eles entram com tudo, eles vêm, eles são amigos, eles recebem, retribuem. E depois o pessoal de fora que veio também foi interessante. Nos anos 50, a primeira grande indústria depois da tecelagem, foi a Rhodia, que era francesa. Também foi uma revolução, assim, na vida. Porque os franceses vieram e alugaram as melhores casas. Então, quem tinha uma casa boa alugava pros franceses. E os franceses pegavam as melhores empregadas, pagavam como se fosse pagar em dólar, pagavam bem. O pessoal começou a ficar com raiva: “Já sei, vai trabalhar pros francês”. Ai, meu Deus do céu Mas pra nós era tudo turno. E eles estavam todos no comércio. Tudo comércio. Às vezes, eles tinham uma fábrica de beneficiar arroz; tinha outra fábrica de beneficiar algodão; tinha as torrefações de café. Essas eram as pequenas indústrias de São José. Nós tivemos aqui também, muito importante, uma indústria espetacular - acho que foi anos 60 - Móveis Z, do Zanine Caldas. O Zanine Caldas veio pra São José e a maquete do Maracanã foi construída aqui em São José. Na loja da Cerâmica Weiss ou na Loja das Louças... a dona Margarida, não sei... Pegava qualquer um: “Vai lá, vai lá vender”. Vendia, embrulhava tudo em jornal; não tinha sacola, essa sacola de plástico que tem hoje, embrulhava em jornal. Tinha nada, caixa pra presente, esse refinamento que tem hoje. Tinha nada, era tudo a olho. Bem depois. Foi com o exemplo, foi quando começam a vir as... A primeira loja de fora, de cadeia, que veio aqui pra São José, foi a Lojas Pernambucanas. A Drogasil e Lojas Pernambucanas. Então já começou a ensinar o pessoal como é que tinha que fazer. Mas o progresso foi muito devagar. Nós tivemos aqui o Bazar Bernini, que era de fotografias, e depois a Casa Verde, do Moisés Kremer. O Alípio Viana. Essas lojas entregavam mercadorias em casa, era só pedir. Os bares. Nós tínhamos dois bares aqui que eram os principais: o Marquise e o Bar Paulistano. Então a ZYE 5, ela anunciava: “Bar Paulistano, o bar da elite joseense”. E eu pertencia à elite joseense, tomava cafezinho no Bar Paulistano.

CIDADES
São José dos Campos Eu comprava tudo: “Serginho, vem aqui, vem, chegou aqui sapato novo, vem cá”. “Oh, que bonito, não sei o quê.” “Experimenta, experimenta.” “Ah, esse está bom, quanto que é?” “Ah, é trinta.” “Ah, mas está muito caro.” “Não, leva e depois paga, não tem problema.” Só pagava depois. A hora que você quisesse, do jeito que você quisesse. Ele marcava lá no livrinho, no fim do mês a gente ia lá: “Só posso dar tanto”. “Tá bom. Tá bom. Lembrança papai, lembrança mamãe.” Então, a gente hoje... A gente com esse progresso fantástico da cidade... São José tinha aquele tempo o quê? 30 mil, 40 mil habitantes, hoje tem 600 mil. Então a gente perdeu muito privilégio, mas ganhou muito também. Então, pra gente comparar, acho que a gente mais ganhou do que perdeu. Hoje se fala muito nos 450 anos de São Paulo. Pois na comemoração dos quatrocentos anos, quarto centenário de São Paulo, a Cerâmica Weiss fez para o Instituto Brasileiro do Café xícaras e pires de cafezinho. Foi minha mãe que desenhou. Tudo passava pela mão da minha mãe. O que ela criava de pinturas, de modelos - ela era uma coisa fantástica. As coisas feitas pelos operários de São José, feitas aqui, com operários de São José.

LAZER
Tenho uma forte relação com fotografias. Começou com o meu tio, Mário Weiss. Esse que é irmão do meu pai. Ele era um excelente... Eu tenho umas fotos dele lá que você também não vai acreditar. Eu tenho uma foto lá da... Chama-se Lagoa do Frederico, onde hoje é o Paço Municipal, ali era uma lagoa. E eu tenho a foto, o entardecer na lagoa. Um sol assim, ele tirou. Ganhava prêmios, concursos de fotografia. E eu aprendi com ele. Então, ia ajudar ele lá e ficava vendo, tal, ele me ensinou a fazer assim, fazer assado. E eu peguei, também, amor pela fotografia. Mas agora eu deixei com a minha mulher. Agora eu passei pra ela, mais ou menos, tudo o que eu sabia, porque fotografia pra mim... Fotografia é o momento, você não pode perder aquele momento. Isso não é que nem condução, que passa: “Ah, depois eu pego a outra”. Fotografia é aquela, você não pode ter preguiça. Está bonito? Aquela flor está linda assim, aquela luz, aquilo tal. Você vai lá em casa e pega a foto. E já pega, a máquina tem que estar prontinha, porque esse negócio de botar o filme e não sei o quê... E principalmente o entardecer aqui no banhado, é uma coisa maravilhosa. Mas é rapidíssimo, você tem que estar alerta, e pchi, e clicar. Então eu tenho muita coisa bonita, também, de fotografia.

CASAMENTO
Sou casado, graças a Deus, desde 62. O meu casamento é uma coisa muito interessante. Eu não casei apaixonado, por isso que o casamento dura até hoje. Porque a paixão passa. Agora, quando você gosta, você gosta da pessoa, é diferente. Você tem que ter intimidade, gostar das mesmas coisas, de música, de ler, de leitura, disso, não sei o quê, não sei o quê. E eu tenho isso com a minha mulher. Então, eu não casei perdidamente apaixonado: casei gostando dela. E do jeito que eu gostava aquela época, eu gosto até hoje. O segredo está aí, você não pode se casar no entusiasmo: “Ah, mas ela é demais”. “Ai, as costas dele, porque quando ele põe maiô, que não sei o quê.” “Porque ela é assim, que ela é assado.” Não é nada disso, não: isso tudo passa, meu amigo. Você tem que gostar. É claro que sexo é muito importante, importantíssimo. Ela é de família tradicional daqui. O pai dela tinha uma torrefação Café Aurora e Bandeirantes. Torrefação de café. Então quando você quiser tomar um bom café, fala com a dona Helena.

FAMÍLIA
Tenho três filhos. A mais velha é sócia, com uns argentinos, de uma fábrica de cosméticos em São Paulo. Essa é a Marinês Fernanda. O Sérgio Renato se formou em São Carlos, tem especialidade em plásticos, casou, divorciou, já casou de novo, mas não tem filhos. Vai indo muito bem, é gerente lá numa sessão dessa fábrica de plásticos. E tem o mais novo, que é o Roberto Neto - eu o chamo de Neto. Eu queria que o meu filho chamasse Neto, então, em vez de botar Roberto Weiss Neto, eu botei Roberto Neto Weiss. Isso é coisa de artista, mesmo. Pode um negócio desse? Roberto Neto Weiss: “Tem certeza, seu Sérgio, não é Weiss Neto?”. “Não, não: é Roberto Neto Weiss.” Então todo mundo conhece: “O Neto está aí? Cadê o Neto? O Neto está onde?”. O Neto hoje está em São Paulo, está no Rio, aliás. Está tocando. Então foi o único que seguiu, mais ou menos. Toca bateria, porque eu sou tecladista e ele é baterista. Ele tem um estúdio, ele faz gravações e vai indo bem, tem uma banda. Vamos ver o que vai dar. Tenho uma neta, linda, maravilhosa, Ana Paula. A primeira.

AVALIAÇÃO
Trajetória de vida Tem uma frase que diz que o homem tem que escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Eu fiz tudo isso. Então. Porque eu tenho um espírito comunitário muito forte e amo São José e participei tudo de São José. Quando o time de São José - eu fui vice-presidente do São José Esporte Clube - quando o time de São José subiu pra primeira divisão, eu estava lá no Pacaembu, torcendo pro São José. No basquete, a mesma coisa: nós fomos campeões brasileiros. O Tênis Clube tinha uma equipe espetacular, até, eu estava lá. E eu fiz música pros atletas joseenses. Eu era atleta, eu jogava bola, jogava tênis. Eu escrevo nos jornais, eu escrevi no Agora e no Valeparaibano. Eu tinha uma página todo domingo, contando todas essas histórias que eu estou contando pra vocês, eu contava no jornal. Era um sucesso porque recordar é viver, não é? Fui comerciante, que tive a loja; e eu fui industrial, porque eu, não falei pra você, mas também tive uma fabriquinha, pequeninha, ali em frente à fábrica da cerâmica, coisinha micro, fazia umas peças de arame retorcido; e esportista; músico. Então eu participei muito da vida de São José pelo meu espírito comunitário. Eu amo a minha cidade, eu amo as pessoas. E a minha grande lição de vida é essa: você tem que levar uma vida, para que o dia que você morrer, você deixe alguma coisa. Eu acho muito triste quando uma pessoa que se vai e não deixou nada. “Morreu fulano.” “Quem? Ah, o fulano.” “Quem é fulano?” Sabe, não marcou. Quando se fala que morreu o Bodesan, morreu doutor Dória, morreu Henrique Mudá, morreu Sebastião Pontes, sabe, esse pessoal fez alguma coisa pela cidade. Essa cidade é o que é hoje, que todo mundo tem orgulho dela, mas deve muito a esse pessoal. Aos meus parentes também. Nós fizemos São José dos Campos. Você chegou aqui já viu essa bruta cidade. Mas e a semente? Quem que plantou, quem é que deu duro? Fomos nós. Então hoje, o dia que eu morrer, vou morrer feliz, porque eu sei que contribuí para que São José dos Campos fosse hoje o que ela é. A grande cidade do interior paulista.

AVALIAÇÃO
Entrevista Eu sou engraçado. Eu sou diferente da minha mãe... A minha mãe, não. Eu sou igual à minha mãe. A minha sogra que era assim. A minha sogra, quando ela estava assim, ela via fotografia, ela... A minha mulher também, não gosta. Não sai... E eu, quando estou vendo fotografia [risos] eu adoro aparecer. Foi um prazer muito grande, desejo felicidades a vocês, que vocês aproveitem bastante isso que eu falei aqui. E que essa iniciativa de vocês seja coroada de triunfo. E que venham sempre a São José, que eu estarei lá pra tocar uma musiquinha pra vocês.

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