Busca avançada



Criar

História

Mundo que recicla

História de: Ana Maria da Silva de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/12/2015

Sinopse

A cearense Ana Maria da Silva de Oliveira conta em seu depoimento um pouco sobre o ofício dos pais como agricultores na cidade de Acopiara. Relembra as brincadeiras, as festas de forró e a primeira vez que andou de avião, quando, recém-casada, mudou-se com o marido para a cidade de São Paulo. Ana Maria conta como ingressou no mundo da reciclagem e como este a ajudou a criar seus dois filhos. Hoje Ana Maria é presidente de uma cooperativa do ramo de coleta.

Tags

História completa

Nasci dia nove de dezembro de 1961, em Acopiara, Ceará. Meu pai chamava Raimundo Nonato Vieira e nasceu na cidade de Várzea Alegre, Ceará. Ele era agricultor, plantava milho, feijão, algodão. Minha mãe chamava Ana Alves Vieira, ela também era de Várzea Alegre. Todo mundo era agricultor na família dela também. Meus pais nasceram em Várzea Alegre, mas se criaram na cidade de Acopiara, se conheceram lá e casaram. E minha família é uma família de 17 irmãos, hoje já morreram três, tem 14 vivos. Meus pais eram pessoas trabalhadoras que batalharam muito pra criar essa família na agricultura. Mas graças a Deus a gente era uma família feliz. Na minha infância em Acopiara a gente tinha onde brincar, a gente brincava de trisca, cabra-cega, de boneca, comidinha. E aí a gente cedo já começava a ter as responsabilidades, que pra gente era ponhar água nos potes, pegar água no açude. E ajudava no roçado, desde cedo a gente já começava a trabalhar no roçado, ajudar nas roças. Apanhar feijão, quebrar milho, essas coisas assim. O algodão era para vender e o milho, o feijão, o arroz a gente plantava pro consumo. A gente vendia para um moço que comprava na cidade, o seu Emílio. Eles compravam e transformavam acho que em fibra.

Em casa a gente comia bolo de caco; você ponhava o milho de molho de noite na água quente aí no outro dia moía, fazia a massa e fazia o bolo, que era uma delícia. E o almoço antigamente pra gente era só feijão com pão, só que era muito gostoso também, que era sempre acompanhado com toucinho de porco. E na janta sempre era uma comida que dava pra nós que chamava mungunzá, que era feito com milho e feijão. Eu estudei na minha cidade até a quarta série, numa escola chamada São Geraldo. Era pertinho de casa, aí a gente ia caminhando mesmo. Na minha época quem tinha a quarta série podia ensinar alfabetização, aí eu trabalhei três anos como professora, acho que eu tinha uns 19 anos. Eu nunca tive dificuldade pra aprender a ler, não, só que a oportunidade pra mim foi pouca. Em São Paulo eu ainda estudei mais um pouco, mas não concluí a oitava série. Eu estava fazendo supletivo e parei, ficou sem ter minha matéria, aí quando era pra ter minha matéria, acabou o supletivo e eu não voltei mais. E agora, se fosse para estudar eu estudava, mas fica difícil porque tem que trabalhar, tenho que cuidar de comida, tudo, aí fica difícil.

No sítio que nós morávamos tinha um sanfoneiro que era meu primo e era festa todo sábado, era muito bom, juntava as pessoas, os conhecidos todos dos sítios ao redor, só lá em casa já dava festa. Todo sábado estava todo mundo dançando um forrozinho. Nesse tempo nas festas não tinha quase o que comer, não. Era mesmo só forró a noite todinha.

Eu trabalhei num período acho que foi dos 19 anos até 21, por política, era caso se eu votava num partido e o outro entrava já estava fora. Foi isso que aconteceu. Aí logo eu já casei, vim pra São Paulo com 24 anos. Meu marido e eu a gente era conhecido de lá mesmo, do sítio. Ele veio pra cá, escreveu pra mim aí eu falei que aceitava namorar, e aí ficamos se escrevendo. Quando ele foi nós se casamos e vim embora pra cá. Já faz 31 anos que nós casamos e eu moro aqui. Ele veio pra cá pra trabalhar na Cofap. Na carteira dele eu acho que era de operador de máquina. Ele trabalhou 18 anos lá, quando ele foi mandado embora, ele não tinha estudo e já foi o tempo que pra se empregar tinha que ter estudo, aí ele preferiu catar reciclagem.

Quando eu casei eu vim de avião, andei pela primeira vez. Aqui era muito diferente. Lá, as pessoas tinham mais amizade, moram perto, anda uns nas casas dos outros. Mas eu já me acostumei com o jeito daqui, eu gosto. Aqui eu morava no Jardim Cruzeiro. Era uma casa só de dois cômodos, mas era boazinha. Eu morei só cinco anos lá, era nossa mesmo. Depois nós viemos pro Itaparque e lá estamos há 23 anos.

Até meu marido começar a reciclar eu não dava importância pra isso. Às vezes passava gente na minha casa que reciclava, só que eu mesma... E naquele tempo não era tanto mesmo, começou a movimentar mesmo a reciclagem foi a partir daí desse ano de 1996, que foi um ano que estava a mesma coisa de agora, de crise. Foi um ano que estava difícil, mandando muitas pessoas embora das firmas. E estava difícil mesmo emprego.

Quando cheguei em São Paulo eu só ficava em casa, só dona de casa mesmo. Eu não fazia nada, sempre tinha vontade de trabalhar, mas filho pequeno prende muito a gente. E o meu marido não aceitava eu trabalhar, ele achava que o que ele ganhava era suficiente para nós viver, que era, mas depois que ele ficou desempregado eu não parei mais. Quando ele ficou desempregado ele começou a reciclar e eu sempre ajudava ele em casa, ele catava na rua e eu ajudava a separar as coisas. E aí foi quando apareceu o litro pra gente lavar em casa. A gente lavava o litro de Dreher e vendia pra Morada do Vinho e é assim que nós vivemos a nossa vida depois que ele ficou desempregado. Foi um momento difícil, eu estava com dois meninos pequenos e tinha as contas pra pagar. Chegou a hora que teve que ralar mesmo. Minha filha Sandra tinha 12 anos e foi a época que eu fiquei grávida do Francisco Samuel. Ele nasceu e aí era eu cuidando dele e tinha que ajudar no movimento da reciclagem. Nós começamos lavando pouquinho vidro, aí foi aumentando, tinha mês que nós lavava três mil litros e ajudava muito nas despesas da casa. A gente pegava o litro de Dreher, tinha que tirar o rótulo, aí a gente pegava um arame, ponhava a bucha no arame e lavava com detergente, ponhava detergente e lavava bem lavadinho e vendia. Até hoje a gente ainda lava um pouquinho.

Isso sempre ajudou muito, era nossa conta de água, luz e telefone, essa parte dos litros sustentável. Além disso, meu marido catava reciclagem na rua. Ele tinha carrinho de ferro-velho, e tem, até hoje ele trabalha catando reciclagem. A reciclagem é um serviço que é trabalhoso, porque você vai catar na rua, você não pode trazer já separado porque se você for separar lá você não consegue nada. Ele só dorme tarde, vai separar tudo para no outro dia já pegar mais. Muitas coisas é reciclagem e cada material tem seu preço. As coisas sempre são baratas, se você levar tudo misturado aí fica mais barato ainda. Você tem que separar pra poder cada material ter seu valor, é onde rende mais pra você; papel branco, esse de caderno, aí tem o misto, que é o papel brilhoso, a latinha, a PET, tem os PAD e assim vai. O meu marido vende nos ferros-velhos. Desde que ele começou ele trabalha sozinho. Agora eu já estou na cooperativa eajudo pouco porque não tenho tempo. Eu chego e vou cuidar de janta, tudo, aí precisa descansar, pra ir batalhar no outro dia.

E os meus filhos foram crescendo dentro desse movimento de reciclagem. O meu filho quando estava com 13 anos eu inventei de ir catar na rua com ele. Eu saía no carrinho mais ele, ele me ajudava e a gente ganhava o dinheirinho da gente. Mas só que pra puxar o carrinho é muito pesado, pra mim não dá muito, não. Aí eu fui e entrei na cooperativa Armando em 2012, eu já vinha fazendo os cursos quando inaugurou e aí nós já começamos a trabalhar. Eu trabalhei um ano e quatro meses, saí, fiquei um ano e dois meses fora. Aí a menina ligou pra mim e disse assim: “Dona Ana, vem aqui que agora vai ficar bom”. Eu voltei, estava mudando a administração e me colocaram pra presidente e hoje eu estou lá.

O Armando que fundou a cooperativa; pra abrir precisava de 20 pessoas. Eu acompanhei quase desde o começo. Quando eu fiquei sabendo eu comecei a fazer os cursos até abrir. Eu mesma cheguei nessas pessoas, quem foi lá na minha casa foi a Socorro, que é da Secretaria de Trabalho e Renda. Ela conversou com meu marido e eu não vi. Depois estava falando pra mim, eu fui e disse: “Ah, pois então assim, se ela vier de novo você fala pra mim que eu quero conversar com ela”. Quando ela veio de novo ela subiu lá na minha casa, eu fiquei conversando com ela. Eu disse: “Se for para trabalhar no galpão eu aceito”. A prefeitura deu o terreno, a Braskem fez o galpão e ponharam os equipamentos que é a esteira, as prensas. Tem os prensistas que ficam fazendo os fardos das coisas e a gente fica trabalhando, separando na esteira. O contato com a Braskem acho que vem pela prefeitura, porque a gente trabalha junto com a prefeitura também, quem trabalha no galpão é nós junto com a prefeitura. Eles ajudam na parte administrativa. Eu gosto de trabalhar com reciclagem, só que é cansativo, porque na esteira você tem que ser rápido, ela vai correndo e você tem que pegar aquele material que vai passando, se não pegar vira rejeito de novo, vira lixo. Pra quem não precisa reciclagem já é lixo mesmo, mas pra quem precisa é dinheiro. Eu agradeço muito porque hoje, dois filhos criados com dinheiro de reciclagem, quer dizer, é muito valioso pra nós, porque foi no que a gente se encontrou de trabalhar e ganhar nosso dinheirinho, de levar a vida.

É legal ser presidente da cooperativa, tem que estar lá no meio das pessoas, orientando. As pessoas mostram gostar de mim e eu tenho que levar de boa com todo mundo, tem que incentivar trabalhar e trabalhar também, mostrar que tem que estar junto. Eu acho que o caminho é tratar as pessoas bem, incentivar de boas. Hoje em dia esse negócio de reciclagem não é dizer Brasil, é o mundo que recicla, em todo lugar tem reciclagem, em todo lugar tem gente que recicla. Eu acho que é um trabalho que tem que começar a ser reconhecido mesmo porque são muitas famílias que vivem de reciclagem. Assim, como na cooperativa que eu estou quem está lá é porque precisa trabalhar e não encontra trabalho e vai trabalhar na reciclagem. Como eu mesmo. O que eu tenho que dizer é que as pessoas tem que começar a ver como uma profissão mesmo e um trabalho como qualquer outro. Pra mim é muito útil o trabalho da reciclagem. Você reciclando você está ajudando a natureza. Tirando a reciclagem, você está fazendo um bem à natureza, ao meio ambiente.

Sobre o futuro da cooperativa, eu espero que tudo dê certo, que cresça mais. E eu acho que só está fazendo o bem às pessoas, à natureza. Pra nós o bom é evoluir, ver o crescimento. Sonho a gente tem que sonhar, enquanto você tiver sonho tem vida, se você deixar de sonhar a vida acaba. O meu sonho é ver a minha família feliz, ver meus filhos estudar mais, trabalhar, ver eles bem. 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+