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Mulheres que fazem a diferença

História de: Marília de Gonzaga Lima e Silva Tose
Autor: Raquel
Publicado em: 08/06/2021

Sinopse

Filha de Luiz Gonzaga da Silva e Ana de Paula Lima e Silva, Marília foi uma criança levada. Gostava de teatro e de brincar com os irmãos e amigos. Adorava estudar, era boa aluna e queria ser freira, mas na adolescência descobriu sua vocação como professora.

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História completa

Trajetória Alcoa Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Marília de Gonzaga Lima e Silva Tose Entrevistado por Lenir Justo e Maria Raciope Poços de Caldas, 07 de maio de 2008 Código: AL_HV12 Transcrito por Maria da Conceição Amaral da Silva Revisado por Caroline Cristine da Silva P/1 – Marília, boa tarde. R – Boa tarde. P/1 – Vamos começar com você nos falando seu nome completo, local e a data do seu nascimento. R – Tem que falar o ano também? [risos] P/1 – Isso. Se não quiser... R – Marília de Gonzaga Lima e Silva Tose. Nasci em Bonfim, Minas Gerais, em quinze de abril de mil novecentos e trinta e oito. P/1 – E atualmente você está aposentada, é isso? R – Não, sou professora universitária, dou aula na PUC... P/1 – Mas da Alcoa? R – Da Alcoa sim. Eu não me aposentei na Alcoa, eu deixei. Saí da Alcoa em mil novecentos e oitenta e sete, porque quando eu estava lá eu tentei... eu era gerente de Recursos Humanos, fui gerente de RH durante muitos anos. Tentei por várias vezes que tivéssemos o plano de aposentadoria, mas não conseguimos por razões legais e não porque a Alcoa não quisesse, então só depois saí. Eu não sei se foi em mil novecentos e noventa ou noventa e um que foi criada a aposentadoria, então não me aposentei, mas na realidade eu já era aposentada pelo INSS, porque eu comecei a trabalhar muito cedo, então eu já era aposentada, mas continuei trabalhando. P/1 – Então atualmente você é professora? R – Sim, sou professora. Depois que eu saí da Alcoa, fui convidada para dar aula na PUC em São Paulo e hoje dou aula aqui na PUC Minas, em Poços de Caldas. P/1 – E que matéria que você dá aula? R – Recursos Humanos, na Administração. P/1 – E qual o nome dos seus pais? R – Luiz Gonzaga da Silva e Ana de Paula Lima e Silva. P/1 – E qual é ou era a atividade profissional dos seus pais? R – Meu pai era funcionário público, ele era coletor estadual naquela época e foi professor, já minha mãe foi professora a vida toda. P/1 – E a origem da sua família, qual é? Você é daqui, ou tem origem de fora? R – Nós temos origem de fora. A minha família é bem mineira, bem mineira, somos do centro de Minas. Mas temos a avó da minha mãe, não, a bisavó da minha mãe era portuguesa. Então a gente tem origem portuguesa, não muito recente, né? Já a várias gerações. Italiano também, mas a várias gerações também, nem sabemos de onde vieram. Porque houve uma época que a gente não se preocupava com isso, essa preocupação com origem europeia é recente, a gente não se preocupava. Então nós não sabemos bem, mas é mais ou menos essa aí. P/1 – E você tem irmãos? R – Nós éramos dez irmãos, eu perdi um irmão recentemente. P/1 – E você lembra da casa em que morava na sua infância? R – Sim. Nós morávamos em Bonfim onde nasci, morei lá até os dez anos de idade, depois fui para o internato em Belo Horizonte. Morávamos em casas grandes no interior, Bonfim é uma cidade muito pequenininha, e ainda é, mas morávamos sempre em casas muito grandes, que hoje seriam chamadas de chácaras, com quintais enormes, muitas árvores, muitas árvores frutíferas. A casa da minha avó também era assim e chegamos a ter até cavalo em nosso quintal, de tão grande que era, mas foram várias casas. Não foi uma só não, mais de uma casa. P/1 – E você lembra como eram as brincadeiras? Quais eram as suas preferidas? R – Bom, a gente brincava como toda criança, todas as brincadeiras de criança. Pular maré, não sei se vocês conhecem isso? E... P/1 – Amarelinha? R – Acho que aqui eles chamam de amarelinha. A gente chamava de maré. E eu gostava de teatro, então eu fazia teatro em casa, [risos] levava peças. Uma vez eu levei um musical, uma amiga minha sabia tocar bandolim, então ela tocou bandolim e ao som do bandolim nós fizemos uma opereta. Então eu gostava muito disso e gostava muito de livro, lia muito, toda vida li muito. E em termos de brincadeira todas as brincadeiras de criança a gente... pegador, né? A gente chamava de pegador, que é correr um atrás do outro. De vez em quando eu jogava bola com os meus primos. A gente tinha muitos primos, éramos uma família grande. P/1 – E você falou que a cidade era pequena, mas você tem lembrança da cidade como ela era? R – Uma cidade montanhosa... P/1 – Bonfim fica próximo da onde, Belo Horizonte? R – Oitenta quilômetros de Belo Horizonte, ao Sul de Belo Horizonte. Uma cidade com casas coloniais, ainda existem casas coloniais. Na minha infância nós tínhamos a rua de baixo, a rua de cima, a rua do sapo, a rua nova, era mais ou menos isso. Muito pequenininha, devia ter mais ou menos uns três mil habitantes. Era fria, uma cidade fria, porque montanhosa e sem prédios, né, e sem asfalto. Onde era calçado era calçado com paralelepípedo, então não havia essa impermeabilização que, infelizmente, há hoje na maioria das cidades. P/1 – E quando você começou a estudar foi lá mesmo em Bonfim? Como foi? R – Sim, não havia jardim da infância na minha época, não tinha maternal, então eu tinha uma professora particular de jardim da infância. Eu era levada, era uma criança muito viva, então mamãe me pôs com essa professora, dona Clélia. Me lembro de uma curiosidade que ela me ensinou, a comer banana, porque eu pegava a banana inteira, então ela me ensinou a descascar a banana e a comer de forma dentro da etiqueta e depois fiz o primário lá, naquela época os quatro anos e fui para Belo Horizonte. Como não havia o secundário naquela época, a gente fazia quatro anos de primário, fazia o admissão, mas eu pulei o admissão e já fui para a primeira série que era primeira à quarta série. Em Belo Horizonte no Colégio Pio XII meu pai era coletor estadual, então a gente mudava bastante, em uma certa época depois dos meus dez anos. E depois fui interna em Dores do Indaiá um ano, fiz a terceira série lá, em um colégio chamado Colégio Modelo. Dores do Indaiá, era a terra do Chico Campo que foi ministro da Educação há muitos anos e ele criou essa Escola Normal Modelo, que seria o modelo para as escolas, acabou não sendo. As aulas eram dadas em classes e de acordo com a disciplina, mudávamos de sala. Quando íamos para a classe de Geografia, para o Laboratório, a gente fazia as aulas nas classes ambiente, que eram chamadas assim. Depois fiz a quarta série em Formiga, mudamos para Itapecerica, tudo em Minas, né? Mudamos para Itapecerica, fiz o Técnico de Contabilidade, mas eu queria fazer científico, Medicina, mas não dava para fazer porque eu tinha quatorze anos quando terminei o ginásio e não tinha como ir para uma cidade grande. Então fiz Contabilidade e foi muito bom, porque foi assim que eu comecei a minha vida, né? Foi na Contabilidade e depois de muitos anos, acabei fazendo o Normal também, porque eu gostava muito de estudar. O que aparecesse na frente eu fazia. Muitos anos depois fiz Direito, minha primeira graduação foi em Direito. P/1 – Só voltando um pouquinho, como foi passar por uma escola interna? R – Olha, eu acho que... P/1 – Como você sentiu? R – Eu era a única pessoa que gostava de internato, eu adorava [risos]. Lá em Belo Horizonte no Colégio Pio XII eu queria ser freira, então o papai falou: "Tudo bem, depois que você terminar os estudos você vai ser freira." Ele sabia que eu não queria ser freira [risos]. Desculpe, eu perdi a sua pergunta. P/1 – Eu perguntei como era ser interna? R – Eu gostava muito, criei um Grêmio da Alegria lá. Brincávamos muito no recreio, eu era muito jovem, muito nova, então por exemplo, eu não podia estudar na sala de estudos. Em uma ocasião insisti muito em estudar a noite, provavelmente eu achava que tinha idade para aquilo, então acabei dormindo em cima da carteira e nunca mais me deixaram estudar a noite, porque eu realmente era muito criança ainda, mas eu gostava muito. P/1 – Então você falou que fez Contabilidade e que iniciou sua vida profissional a partir daí? R – Sim, sim, eu comecei... P/1 – E Direito você fez depois, mais para frente, não é isso? R – Foi mais para frente. Comecei como contadora, antes de fazer dezoito anos, em uma fábrica de laticínios. P/1 – E foi o seu primeiro emprego? R – Foi meu primeiro emprego, digamos, profissional. Porque dos quinze anos de idade aos dezessete dei aula em um... Havia um curso normal, onde eu fazia Contabilidade e havia uma escola que ficava, não me lembro como a escola se chama, mas para o curso Normal tinha que ter um curso primário, então dei aula nesse curso primário. Eu era boa aluna, então eles acharam que eu sendo uma boa aluna seria uma boa professora. E isso foi interessante, porque minha vocação para ser professora veio daí, já que depois que deixei a Alcoa acabei virando professora. P/1 – E o Direito, só para fechar aqui sua formação educacional, você fez mais para frente, mas você quer contar um pouquinho? R – Eu trabalhei em contabilidade muito tempo. Voltei para terminar o Normal e nesse tempo algumas pessoas me diziam que eu tinha perfil para advogada. Meu dentista, a inspetora do colégio, pessoas com as quais eu convivia. Eu queria estudar, mas não dava para estudar o que eu queria e na época acho que eu nem me lembrava mais de Medicina, então falei: "Por que não fazer Direito?" Aqui ainda não havia faculdade, só quando entrei foi que criaram, então havia Filosofia, Letras etc. Fui fazer Direito em Pouso Alegre, naquela época eram cinco anos e acabei não adotando a profissão, mas foi muito bom, porque usei a experiência muito aqui e na Alcoa usei muito minha graduação, minha formação de Direito. P/1 – Então você tinha dado aula, depois começou a trabalhar com Contabilidade, mas e depois? R – Na realidade comecei na Alcoa por conta da Contabilidade, porque a Alcoa comprou a Companhia Geral de Minas e eu havia trabalhado um tempo curto com o Don Willians e ele me convidou para... Ele sabia que eu era contadora e que eu tinha vontade de trabalhar na Contabilidade e nessa altura eu já morava em Poços de Caldas, tinha vindo de Muzambinho e fui convidada para trabalhar como contadora para a Geral de Minas. Naquela época o contador é quem fazia a área de RH, chamada Recursos Humanos hoje, né? A gente admitia, demitia, fazia folha, pagava, era a área de Pessoal, então eu era contadora, mas exercendo outras funções. Na realidade eu fazia tudo, era o caixa, ia aos bancos, fazia toda a parte administrativa. O Don era o gerente administrativo, mas a parte operacional, digamos assim, toda era eu que fazia. P/1 – Então você começou quando ainda estavam construindo a fábrica, é isso? R – Não, nem se falava em fábrica, porque a Companhia Geral de Minas era mineradora, isso foi em mil novecentos e sessenta e dois. E em mil novecentos e sessenta e cinco é que foi constituída a Açominas, mas só começou a construção da fábrica em mil novecentos e sessenta e sete. P/1 – Então conta um pouquinho para a gente como era a Geral de Minas naquele tempo. R – A Companhia Geral de Minas era uma mineradora e ela já existia, mas foi adquirida pela Alcoa e vieram mineradores com ela. O Don, como falei, era o gerente e eu era a contadora, havia o Doutor Ricardo Junqueira, que era o engenheiro de minas e em número, não me lembro agora quantos, mas eram vários mineradores. Havia uns feitores também, me lembro do senhor Miguel Calisto de Moraes, do seu Augusto que infelizmente já se foram. Eles cuidavam dessa parte de mineração e a Alcoa minerava bauxita, nessa ocasião vendia, porque não tinha fábrica para usar. Isso foi de mil novecentos e sessenta e dois a mil novecentos e sessenta e sete, quando foi lançada a Açominas. Aliás a Açominas foi lançada em mil novecentos e sessenta e cinco, em sessenta e sete houve o início da construção da fábrica. E só em mil novecentos e setenta que iniciou a produção. Eu vim da Geral de Minas e continuei na Açominas e depois na Alcoa. Continuei, não houve uma interrupção. P/1 – Então você acompanhou todo esse processo, né, da criação? R – Todo o processo. P/1 – Você conta um pouquinho para a gente como foi se formando, como foi acontecendo a criação? P/2 – Nesse tempo todo você foi contadora ou durante esse período você teve outras funções dentro da área? Porque a empresa foi crescendo, desde a Companhia Geral de Minas até a Açominas. R – É, nesse período era só a Geral de Minas, então como eu já disse, fazia todas as funções no escritório. Primeiro sozinha, depois tive uma auxiliar e quando começou a Açominas nós mudamos, inclusive, de local e nessa altura começou a vinda dos americanos. Os americanos vieram para o início da construção e cresceu muito o número de pessoas. Foi admitido um gerente de Pessoal, naquele tempo chamava-se gerente de Relações Industriais, Fernando Pires que foi o meu chefe a partir daí. Então começamos a trabalhar juntos e tivemos que mudar, porque realmente começou a crescer e aumentar muito o número de pessoas. Foram admitidos muitos intérpretes, porque haviam muitos americanos e começou a admitir pessoal para a construção. P/1 – E você também fazia parte da seleção do pessoal? R – Também. Participei e continuei participando, porque já fazia isso na Geral de Minas e continuei participando de toda essa parte de seleção. Nessa época o Fernando Pires então passou a gerenciar essa... P/1 – E como foi essa parte da seleção para contratar pessoas? Aqui em Poços havia pessoas qualificadas para serem contratadas? Como foi? R – Não, era muito difícil. A maioria veio de fora no início, inclusive os americanos e devagarinho é que foram sendo substituídos, mas era muito difícil, porque você não tinha pessoas preparadas em Poços de Caldas. Por exemplo, nós tínhamos muitos americanos e tivemos que importar secretários bilíngues, porque não havia na cidade. Até aconteceu um fato, não sei se é interessante, mas eu acabei secretária do Fernando o meu chefe, por conta disso, eu era bilíngue, falava inglês nessa época e só depois assumi um cargo de chefia, porque eu tinha uma experiência de chefia, embora não houvesse um grupo grande, eu que coordenava tudo, que fazia, que encaminhava. Depois tive também um subordinado, né? Mas quando houve essa mudança, voltando à dificuldade, não havia, você não encontrava os secretários, então inicialmente trouxemos muitas secretárias de fora. Depois acredito que houve um interesse maior da parte das moças e elas começaram a aparecer e treinar também, nós mesmos a treinamos e havia cursos de inglês, na época a Açominas pagava o curso de inglês ou uma parte dele. Então o número de pessoas preparadas ou capacitadas foi crescendo e com o tempo conseguimos admitir na fábrica muita gente daqui. O pessoal que começou a trabalhar na construção foi também aproveitado depois na operação, eles foram treinados. O pessoal americano trabalhou muito nessa parte de treinamento dos brasileiros, que aos poucos foram assumindo suas posições. P/1 – Então você estava na Geral de Minas que depois se transformou em Açominas e depois é que passou a ser Alcoa. Mas já era da Alcoa, não é isso? R – Já. P/1 – São só denominações? R – Sempre foi Alcoa. A companhia Geral de Minas manteve essa denominação e a Açominas, no início havia uma ligação com o Estado de Minas Gerais. Havia, não me lembro exatamente, mas havia uma parte do capital do Banco de Minas Gerais, BDMG, eu não... P/1 – BMG. R – Era o BMG, né? P/2 – Então é BNMG, Banco Nacional de Minas Gerais. R – Ou BNDMG, alguma coisa assim. P/2 – BEMGE. R – Não, não era o BEMGE. P/2 – Não? R – Não, era um banco de desenvolvimento, então mesclaram a Alcoa com Minas, mas depois de um certo tempo, acho que a Alcoa achou que precisava... O nome era conhecido mundialmente como Alcoa, era preciso mudar essa denominação... P/2 – Quem era o presidente? R – O primeiro presidente da Geral de Minas foi o Paulo Egydio Martins, depois veio o americano, como é que era o nome dele? Esqueci agora... P/2 – É John... R – Não, não era John não. P/2 – ___________ Doutor Paulo, e ele falou o nome do americano, agora eu não me lembro. R – Pois é, eu esqueci. Depois vieram outros americanos. Na época que eu fui a... Peterson, era Peterson, o nome dele era Peterson, acho que era Peterson, puxa eu não me lembro exatamente. Ouvi Peterson, acho que era isso mesmo, eram as iniciais dele, acho que era isso mesmo. Depois vieram outros da minha época, era o Bill _____, na época em que passei a gerente, né? Quando comecei a ter uma convivência maior com a Presidência, foi com o Bill ______. P/1 – Você acompanhou o processo da formação da fábrica? R – Acompanhei. P/1 – Então, você pode nos contar um pouquinho como era o dia-a-dia da fábrica? Você estava ali naquela parte de Recursos Humanos, não é? Ainda estava nesse período? R – Estava, eu não saí dessa área. P/1 – Ficou sempre na área, inclusive depois gerenciou, né? R – Deixei a parte da Contabilidade porque outra pessoa assumiu, pois como vocês mesmo disseram, a fábrica cresceu e houve uma separação, então deixei a Contabilidade e continuei na parte de Pessoal. Foi quando eu realmente comecei a trabalhar na área de Recursos Humanos de uma forma mais moderna. Aprendi muito com Fernando Pires, aquele que foi meu chefe e trabalhei com ele durante muitos anos e quando ele saiu, assumi a posição dele. P/1 – Isso foi quando? R – Em mil novecentos e setenta e três e voltando no início, aproximadamente em mil novecentos e sessenta e oito, fomos para a fábrica, onde havia um escritório que dividíamos com a construção. Havia uma turma da construção que gerenciava, ainda não era Operações, era o grupo da construção se preparando para iniciar o das operações. Em termos de recrutamento, de seleção, de treinamento, quando iniciou a fábrica, começamos uma seleção grande, nessa altura eu trabalhava junto com o Fernando nas universidades e era esse pessoal que vocês estão entrevistando, por exemplo, o Edson Daniel, o José Mauro, Marcelo, quem mais? Quem? São tantos que não me lembro agora. P/1 – Conta para nós como era esse trabalho que você fazia indo nas universidades? R – Era bastante interessante, fui ao Rio de Janeiro, à Belo Horizonte, à Uberlândia, à São Paulo. A gente ia à universidade e fazia uma preleção. Naquele tempo não tinha data show, não tinha nada, então falava, apresentava alguma coisa por escrito, em um ______ seriado, qualquer coisa assim. E procurava vender a imagem da empresa, né? Que era uma empresa nova, não era conhecida e trazíamos os estudantes, quase sempre, quando era curso superior, passávamos por uma psicóloga em São Paulo, a Marta Santer, que trabalhou durante muitos anos, depois ela foi trabalhar em São Luís, ela não era funcionária da Alcoa, era psicóloga autônoma e fazia a parte de psicotécnico desse pessoal, mas o restante da seleção era feita aqui mesmo na fábrica em Poços e foram admitidos muitos estudantes que formaram o primeiro grupo, todos eles se deram muito bem e muitos assumiram posições altas, como o Edson Daniel, por exemplo, o José Mauro, está faltando o nome deles aqui. P/2 – Esses estudantes eram de qual área? Engenharia, Administração... R – Geralmente de Engenharia. Geralmente... O Edson era químico, porque tínhamos o laboratório, então ele começou na parte de Química. Geralmente os engenheiros trazíamos das escolas e na parte administrativa selecionávamos diretamente, fazíamos o recrutamento em São Paulo através de jornais e aqui em Poços também e fizemos para São Luís do Maranhão, bom, aí já não foi aqui, foi em São Paulo e não aqui na fábrica, né? P/2 – Qual o cargo com maior dificuldade? Você falou secretárias, né? Além das secretarias, quais as dificuldades na época, de contratar as pessoas? R – Na área de Manutenção nós tivemos muita dificuldade. Tanto é que foi criado um treinamento, um curso de treinamento aqui dentro da fábrica. Havia um treinamento de mecânicos, de eletricistas, de instrumentistas, de mecânicos de veículos industriais. Era um curso de dois anos, o pessoal passava e eram admitidos, selecionados e faziam esse curso, depois já ficavam aqui trabalhando. P/1 – E vocês arrumaram professores mesmo para dar o curso? R – Eram os professores daqui, tínhamos professores daqui de dentro... P/1 – Ou eram os próprios funcionários? R – ...eram engenheiros, mas havia também instrutores que nós tivemos que admitir para darem esses cursos aqui dentro. O método era, mais ou menos, o método do Senai, que foi aproveitado para esse curso aqui. Mas foi um curso montado pela turma da Engenharia e foi muito importante para o treinamento de um grupo grande, né? Por causa da dificuldade que a gente tinha. Para vocês terem uma ideia, instrumentista você não achava um sequer, e mais de uma vez fui a São Paulo buscar instrumentista. E em uma ocasião, tive que descobrir um instrutor de instrumentação lá em São Paulo, fui à casa dele. A gente ia atrás não só dos empregados, mas de instrutores etc. Naquela época, me lembrei disso agora, a gente usava taquigrafia, eu trouxe até professor de taquigrafia para dar curso aqui, porque a gente não tinha nada. Aqui não havia Senai, depois a gente trabalhou muito para conseguir o Senai para aqui e hoje tem, mas não havia, então você não tinha onde levar... P/2 – Tinha que formar a mão-de-obra, né? R – Você tinha que formar aqui dentro mesmo. Trazer instrutores de fora, né? E aproveitar o que você tinha aqui dentro em termos de pessoas capazes de transmitir. As pessoas eram bastante aproveitadas nesse sentido, fazíamos nosso treinamento e era bastante ativo. Nós tínhamos muito treinamento aqui dentro, justamente pela dificuldade e não só por isso, mas porque a Alcoa queria assim também, era parte da filosofia da Alcoa. Mas era muito difícil trazer, hoje você tem uma facilidade grande de vir para Poços, mas não foi sempre assim. As estradas eram difíceis, não tinha essa Bandeirantes, por exemplo, que depois continua nessa estrada que vem para Aguaí e para cá, né? Você não tinha. Eram estradas de uma mão só, ou melhor, de duas mãos e você levava muito tempo. As pessoas nem sempre estavam dispostas a se mudar para o interior e era bem interior de Minas, né? Então tivemos que treinar aqui na fábrica mesmo. Nós também admitíamos os mensageiros e os selecionávamos, então muitos deles também cresceram aqui dentro. Hoje a gente encontra mensageiros por aí que são engenheiros e começaram aqui. A Elisabete não era mensageira, mas senão me engano, ela começou como copista, tirava cópia, xerox. P/1 – Ela falou alguma coisa, eu acho que era mensageira mirim, alguma coisa assim, não era? R – É, não me lembro a denominação, mas... P/1 – Não sei se o termo era bem mensageiro, mas alguma coisa mirim. R – É, ela foi admitida nesse nível de pessoal trainee, digamos assim, não eram bem isso, porque normalmente é de curso superior. Esses engenheiros que vieram para cá não tinham o título de trainee, mas na realidade eram. P/2 – Existia alguma compensação para trazer essas pessoas para cá? Vocês tinham algum benefício para que essas pessoas viessem de mudança aqui para Poços? Vocês tinham algum plano de benefícios, vamos dizer assim? R – Houve uma época que havia ajuda de custo. Uma certa época e em alguns casos. Dependendo do caso, variava em função do nível, né, não me lembro que a gente tivesse dado alguma coisa especial não, a não ser em alguns casos... P/1 – Talvez o chamariz fosse um bom salário, né? R – É e as oportunidades. O que havia mais eram as oportunidades. P/1 – Oportunidade de crescimento. R – É, isso aconteceu mais quando começou São Luís do Maranhão. Aí sim você tinha que ajudar, porque por exemplo, não havia casas lá, foi preciso construir e aqui tivemos e até certa época não havia problema. As pessoas chegavam, conseguiam alugar ou adquirir casas, mais tarde tivemos esse problema com pessoal de produção, porque tivemos três linhas, a primeira de cubas, depois uma segunda. Eu participei de todas essas expansões e da seleção do pessoal e tivemos que selecionar fora daqui, não havia mão-de-obra na cidade, você tinha que ir fora. Então nessa época tivemos que dar uma ajuda para o pessoal que vinha. Inclusive chegamos a alugar uma pensão, para colocar as pessoas que vinham, até que elas conseguissem se estabelecer por conta própria. Então durante o primeiro mês elas não pagavam nada, depois a gente ia diminuindo a ajuda para que eles também fossem procurando se ajeitar por conta própria. Nós fazíamos recrutamento fora daqui, em cidades vizinhas, íamos com o grupo de recrutamento para atrair essas pessoas para cá. Então isso também depois trouxe um outro problema, que foi a falta de moradia. Por causa disso, a gente trabalhou muito também tentando trazer para cá essas casas, esses conjuntos habitacionais. Esse conjunto habitacional que tem aqui perto, em frente lá, foi de certa forma, influência nossa. P/1 – Quando vocês iam recrutar nas outras cidades e um grupo iam com vocês, como faziam? Que tipo de divulgação? R – Geralmente era o cinema, colocava também em bares, igrejas. P/1 – Colocava cartazes? R – Colocava cartazes e dizia: "Tal dia a Alcoa” ... Fazia uma descrição do que era a empresa, né? "A Alcoa virá recrutar para tais cargos e oferece isso, isso, isso". Dizia quais os benefícios, assistência médica, restaurante na fábrica, etc. Colocávamos lá e o pessoal marcava o dia, "Em tal dia estaremos no cinema". Geralmente era o cinema, por que onde é que você ia? Eram cidades pequenas, né? E em um determinado dia ia o grupo de recrutamento e falava, fazia uma exposição do que era, do que seria eles virem para cá, quais as oportunidades etc. O pessoal escolhia, fazia uma pré-seleção e essas pessoas vinham aqui para a seleção final que era feita aqui na fábrica. Era, basicamente, a mesma forma que a gente fazia com os estudantes, só que claro, nesse caso, para a produção o número era muito maior. Eram grupos grandes, porque acabou o pessoal da cidade que na época deveria ter aproximadamente trinta mil habitantes, então não tinha mais gente, a oferta de pessoas era pequena, então tivemos que ir buscar e depois correr atrás de moradia e treinamento também. Posteriormente veio o Senai, em um primeiro momento era bastante complicado. Havia muito trabalho nesse sentido de você selecionar e depois treinar, porque no sul de Minas não havia tradição de empresas, não tinha empresas grandes, do porte da Alcoa, então realmente não tinha onde captar as pessoas, tinha que fazer uma pré-seleção e verificar o potencial dessas pessoas, a disponibilidade, etc., e treinar, a Alcoa sempre treinou muito. P/1 – E passado esse primeiro momento, foi então que você passou a assumir o cargo de gerente? R – É, essa primeira contratação eu participei sempre, né, porque desde o início eu estava lá. Em mil novecentos e setenta e três, meu chefe Fernando Pires de Moraes saiu, ele se desligou, pediu demissão e eu fiquei interina. E fiquei porque nessa altura, eu tinha passado por vários cargos na área de Recursos Humanos e fiquei no lugar dele interinamente. Até que um dia me chamaram, o senhor Pierre me chamou e disse que eu tinha sido escolhida para ser a substituta, né, ou o substituto do Fernando Pires em mil novecentos e setenta e três. P/1 – E como foi para você ser a primeira mulher gerente, não foi isso? R – Foi. P/1 – Como foi para você ter assumido a gerência como a primeira mulher? R – É... [pausa] P/1 – Voltando Marília, como foi para você ser a primeira mulher a assumir esse cargo de gerência? R – No primeiro momento foi uma surpresa, porque eu não achava que seria escolhida por ser mulher, né? Principalmente a turma de São Paulo, era bem machista naquela época e muita coisa vinha de lá. Mas o senhor Pierre, com quem eu trabalhei muitos anos aqui, muitos, vários anos, me conhecia bastante, conhecia meu trabalho, conhecia meu trabalho desde quando ele chegou e ele sabia que eu tinha competência para aquilo. Então ele insistiu que eu fosse, mas isso tudo foi feito na surdina, não participei. P/1 – É isso que eu ia perguntar, você soube como foi a sua escolha? R – Não, não, não soube. Eu soube por um colega meu, que veio trabalhar comigo e eu fui chefe dele. Ele me contou que uma pessoa de São Paulo - que era o Canadane - tinha pedido o currículo dele, na tentativa de, né? "Quem sabe a gente promove um homem ao invés de uma mulher” [risos]. Isso hoje que eu deduzo, né? Mas ele me contou aquilo, eu não estava muito preocupada com isso, estava trabalhando, continuando meu trabalho e tinha bastante trabalho. De repente o senhor Pierre me chamou na sala e disse que eu tinha sido escolhida para assumir a gerência, no início continuei fazendo o meu trabalho do jeito que eu fazia, a diferença foi que eu comecei a participar das reuniões dos gerentes, que era toda terça-feira, tínhamos reunião do staff da fábrica. Eu continuei a participar das reuniões, mas nessa altura já como gerente e no início foi difícil, porque havia alguns que tinham uma certa dificuldade, era uma coisa nova para eles, né? Porque a gente às vezes imagina, eu imaginava que lá nos Estados Unidos houvesse muitas mulheres trabalhando, então pensei que eles estivessem acostumados, mas alguns americanos mais antigos, mais conservadores, tenho a impressão que eles não gostaram muito da ideia, então no início houve uma certa dificuldade, mas não muito, não muito, mas devagarinho o pessoal foi aceitando. P/2 – Mas nos Estados Unidos também você foi a primeira, em termos de Alcoa mundial? R – Fui, fui, a primeira gerente mulher. P/2 – Mulher na Alcoa mundial. P/1 – Foi uma pioneira mesmo. R – Fui e descobri isso quando fui convidada... A gente ia de vez em quando a Pisco e eu fui em uma primeira visita oficial. Eu até já conhecia Pisco, mas não em uma visita oficial, para conhecer o pessoal do escritório, as pessoas com quem eu iria lidar. Sempre fui muito bem recebida, não tenho a menor reclamação, fui muito bem recebida. Eles fizeram um almoço com uma turma de mulheres com potencial e pediram que eu falasse para elas como é que eu cheguei a ser gerente. Isso até falo naquele depoimento que tem no livro, então para mim foi uma surpresa, realmente. Foi aí que eu descobri que não havia gerentes mulheres, havia, o cargo máximo, era uma analista de salários, que era Marilyn _____, que me recebeu muito bem lá, e tal. Fui recebida pelos gerentes etc., aí percebi que eu era realmente a pioneira. Só muitos anos depois que eu estava em São Paulo, é que teve uma gerente de escritório. Provavelmente houve outros também que eu não me lembro, mas eu me lembro dessa gerente do escritório de Petersburg. E aqui em Poços eles demoraram muito também, só dez anos depois a Tânia Guilherme foi promovida a gerente em São Paulo, gerente de Contabilidade, só dez anos depois, demoraram muito. Mas houve aquela abertura, alguém tem que abrir o caminho, acho que eu abri o caminho, mas levou algum tempo para... P/1 – E nesse período que você ficou como gerente, conta um pouco o que aconteceu, o desenvolvimento do seu trabalho, as partes mais importantes. R – Bom, na realidade continuei o trabalho anterior. Meu chefe anterior, o Fernando, ele tinha uma visão de RH bastante moderna, então a gente tinha todas as áreas. Ele implantou aqui a Administração por objetivos, que era uma coisa ainda nova aqui no Brasil, então na realidade eu continuei a fazer isso, continuei o trabalho na parte de treinamento, de recrutamento e seleção. Assumi o escritório de São Paulo e a pessoa que era responsável pela área de lá se reportava a um dos diretores de lá. Me passaram São Paulo e de quinze em quinze eu ia para lá, também gerenciar a parte de RH, o recrutamento, a seleção, o treinamento e a avaliação de desempenho. A avaliação de desempenho naquela época não era tão avançada quanto posteriormente, mas isso depois foi implantado, mas eu já estava em São Paulo. Fazíamos avaliação de desempenho em todas as áreas de Recursos Humanos, em Poços e em São Paulo também e quando começou em São Luís do Maranhão, sugeri que houvesse uma pessoa em um nível mais alto para planejamento de RH, então ganhei um diretor [risos]. Eu era a primeira pessoa em área de RH, mas eles admitiram uma pessoa porque a coisa começou a crescer muito e eu não estava dando conta. Nessa época, o Alan Belda, que já era o presidente, queria que eu fosse para os Estados Unidos em um treinamento, por um período, mas eu era a única pessoa da área aqui e em São Paulo. Inclusive não fui, por mim, disse ao diretor que achava que eu não devia ir, perdi essa oportunidade, né? Mas como é que eu ia largar, de repente, o que estava acontecendo aqui? Toda a parte normal não era fácil, tínhamos também relações com o sindicato, fizemos uma greve em mil novecentos e setenta e nove, quer dizer, não era tranquilo isso aqui e começa a construção de São Luís do Maranhão, isso foi uma explosão, porque nós começamos a recrutar para São Luís do Maranhão e tinha que fazer o planejamento de RH. P/1 – Tudo partia daqui? R – É. P/1 – Porque não tinha outra pessoa... R – Daqui envolvendo São Paulo e eu envolvida em tudo isso, fui uma das primeiras pessoas a ir a São Luís do Maranhão para ver como é que era a situação do mercado de pessoas lá, não havia nada. Visitei algumas fábricas, algumas escolas de inglês e havia um Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, mas o pessoal não falava inglês não, acho que era mais um clube, a turma ia lá se divertir um pouquinho [risos]. Então a dificuldade lá ia ser muito maior. Quando percebi como seria difícil, sugeri que fosse admitida uma pessoa para fazer o planejamento, porque senti que era muita coisa para planejar e como é que eu ia tocar dia-a-dia, todas as funções de Recursos Humanos e ainda fazer um planejamento para uma fábrica daquela, que era de porte muito grande. Foi admitida então uma pessoa, que mais adiante veio a ser o diretor de Recursos Humanos. Foi quando eu fui para São Paulo trabalhar com ele. P/1 – Voltando um pouquinho para Poços, eu tenho aqui que você criou uma cooperativa de crédito para os funcionários? R – Sim, foi na minha gestão de RH, nós... P/1 – Isso foi na sua gestão? R – Foi. Nós criamos... P/1 – Foi ideia sua? R – Eu não criei sozinha, claro. A nossa equipe, o Luís Osvaldo Krauss, que era da área de Benefícios, trabalhou muito nisso, mas nós pesquisamos, porque não existia por aqui e acabamos criando. Conversamos com uma entidade que trabalhava com essas cooperativas, porque a gente tinha muito problema com dificuldades financeiras do pessoal. Então eles vinham pedir vale, havia esse hábito de pedir vale e chegamos à conclusão de que o caminho seria esse, porque a cooperativa, os empregados se associam, são cooperados e o dinheiro é da cooperativa, o dinheiro é deles, você não tem que dizer não. Antes disso havia o empréstimo pessoal e era um problema sério, porque o indivíduo pedia o empréstimo, mas depois ficava apertado, não conseguia pagar e criava uma situação, criava um círculo vicioso. Então sentimos a necessidade da cooperativa e foi muito bom, resolveu esse problema e você não precisava ficar conversando com a pessoa, perguntando da vida pessoal: "Por que é que você está endividado? Por que é que você está precisando de dinheiro?", era uma coisa que eu achava muito desagradável, na cooperativa não, uma vez que tivesse o dinheiro em caixa, a cooperativa emprestava, era feita para isso. P/1 – E sobre o jornalzinho Lingote? Parece que você foi até redatora. Mas foi uma criação da sua área ou não? R – Fui. Foi uma criação anterior. Foi da minha área, mas foi anterior. Começou no tempo do Fernando Pires e continuou depois conosco. Quando ele foi embora, assumi e ele mudou bastante, cresceu bastante. Tivemos a ajuda do pessoal de Relações Públicas, o pessoal da AAB de São Paulo e o José Carlos Fonseca Ferreira ajudou muito a rever o jornal, colocá-lo mais moderno, porque ele começou muito simplesinho. Era uma coisa... Não sei se vocês tiveram a oportunidade de ver, eu até dei minha coleção de Lingote para a biblioteca aqui. Eu tinha uma coleçãozinha, encadernei e dei para aqui. Então ele mudou de cara, a diagramação foi outra e seguindo com a ajuda do pessoal da AAB, acabamos fazendo um jornal melhor e eu era redatora, era a diretora. Uma outra coisa que fiz aqui e achei importante, foi a mudança da avaliação de cargos. Nós tínhamos uma avaliação de cargos feita aqui pelo Fernando, meu antecessor e nos meus treinamentos, de vez em quando, saía para fazer cursos, porque não havia nada aqui, a gente tinha que sair. Fiz um treinamento em Administração de Salários, dois cursos e descobri que havia o Sistema Rei de Avaliação. Hoje nós temos a Rei do Brasil, mas naquela época não existia e eu trouxe aqui, fiz uma apresentação para o gerente do que era o Sistema Rei e disse que eu tinha gostado muito, que achava que era um sistema melhor do que aquele que a gente tinha, o senhor Pierre, que ainda era o meu chefe naquela época, disse: "Você sabe que a Alcoa usa esse sistema?", eu falei: "Não, não sei”, ele falou: "Pois é, usa". Então ele me pôs em contato com o pessoal de Petersburg e fui para lá. Fui treinada nesse sistema e nós implantamos aqui, com a ajuda de lá nós implantamos o Sistema Rei de Avaliação. Não foi criação minha, mas fui eu que tive a ideia e acho que até hoje, que o sistema usado é esse. Hoje existe a facilidade de ter a Rei do Brasil, mas na época nós tivemos que implantar, porque não havia, tivemos que rever todas nossas discussões de cargo. Revimos toda a avaliação e, claro, aí a estrutura salarial e tudo mais, essa parte era minha também a parte de salários. P/1 – E aí você foi para São Paulo, como foi? R – Nessa ocasião começou o planejamento de São Luís e foi admitido o ______, ele viu que eu conhecia a Alcoa desde os primórdios, sabia onde estavam, onde é que se encontravam as coisas, quem eram as pessoas, etc., então ele me convidou para ir para São Paulo, justamente para ajudar nessa implantação, ele já era diretor. Então ele queria montar o grupo dele na Diretoria de RH e me convidou, eu achei que era uma oportunidade boa, conhecia muito o trabalho de fábrica, gostava, gosto até hoje, gosto muito de fábrica. Mas eu achei que era importante eu ter uma oportunidade mais alta, de ver a coisa de uma forma mais ampla e participar também do crescimento da Alcoa. Porque foi dessa época que o Alan Belda, com outros diretores, decidiu que a Alcoa ia crescer no Brasil. Assim, eles propuseram e conseguiram mostrar que isso era muito importante e aí havia uma necessidade de uma área de Recursos Humanos com muito mais condições de assumir essas implantações, a seleção do pessoal etc. Eu fui, assumi a Gerência de Pessoal do Centro, nós começamos, eu comecei no Saint-James, lá na Cidade Jardim, tinha um prédio lá na Avenida Cidade Jardim, uma boa parte dele era ocupado pela Alcoa. P/1 – Em qual ano foi isso, Marília? R – Foi em mil novecentos e oitenta e um e no ano seguinte, acho que no ano seguinte, fomos para o Centro Empresarial. Eu participei de todo esse processo. E participei do recrutamento e seleção para São Luís, depois a compra da ASA e Recife, fui uma das pessoas enviadas para lá na área de Recursos Humanos. Fui para ver o que era, o que eles tinham em termos de Recursos Humanos, o que precisava ser feito, trouxe e fiz um relatório mostrando como estava a situação, que por sinal, estava muito boa lá na ASA. Mantiveram a pessoa, que era o Sirleu Amorim, que veio depois a ser um dos diretores de RH da Alcoa. Ele permaneceu no cargo lá e participei, não da implantação, mas da incorporação de outros também. Em Pindamonhangaba, por exemplo, quando foi adquirida a empresa, eram mais de dois mil funcionários e fui para lá também. Então fiquei três ou quatro meses gerindo a área de Recursos Humanos e tentando colocar as coisas nos devidos lugares. Estava um pouco abandonado, o gerente da empresa anterior morava em São Paulo, então a turma que cuidava, que ficava lá, estava se sentindo muito abandonada e tivemos que fazer a coisa funcionar. Implantar Prevenção de Acidentes, que era um ponto muito importante na Alcoa, aliás, eu fui responsável por essa área na empresa toda também, por essa área de Segurança e Medicina do Trabalho e responsável por Relações Trabalhistas na empresa toda também. Então quando ocorriam os problemas... Geralmente eu trabalhava mais no sentido de prevenção, mas eu tinha que acudir se houvesse problemas. Eu fazia auditagem, por exemplo, em prevenção de acidentes em São Luís, tínhamos muitas empreiteiras, então eu ia periodicamente para lá verificar como é que estavam as coisas, quer dizer, acho que foi muito importante eu ir para São Paulo por essa visão macro que eu tive. P/1 – E essa área de Segurança é muito importante para a Alcoa. R – É muito importante. Naquele tempo não se falava tanto em ambiente, mas havia o problema das condições de trabalho, que a Alcoa se preocupava muito. E esse foi outro trabalho meu, o primeiro levantamento das condições de trabalho aqui na fábrica foi sob a minha responsabilidade. Nós levamos algum tempo para convencer a fazer o levantamento, porque as empresas sempre têm um certo receio de que alguém possa dizer que tem algum problema e foi difícil a gente conseguir quem fizesse. Não havia, no Brasil não havia, aliás, não havia legislação de prevenção, de Segurança e Medicina do Trabalho, ela foi posterior a isso, nos anos setenta que nós fizemos isso. Então fomos atrás, começamos a procurar quem é que poderia fazer esse trabalho e descobrimos que o médico chefe da Petrobras fazia esse tipo de trabalho. Ele foi treinado fora do Brasil, era o Doutor Dafnes, que posteriormente foi meu assessor lá em São Paulo nessa área, mas ele não foi funcionário, ele era contratado. Nessa época ele ainda era médico chefe da Petrobrás, ele tinha um amigo, um químico, que também fez cursos fora do Brasil e os dois se dispuseram a fazer. Eles vinham no fim de semana, então o primeiro levantamento que fizemos das condições de trabalho dessa fábrica, do ambiente interno, ambiente no sentido físico mesmo, nas condições, o que havia, por exemplo, na sala de cubas, no que havia ruído, se havia muito calor, gases, etc. Isso foi feito por nós, enquanto eu era gerente de Relações Industriais aqui na fábrica, foi um trabalho que gostei muito, porque foi muito importante. Não se falava em ambiente naquela época, ambiente no sentido mais amplo, isso veio posteriormente, eu já estava no escritório de São Paulo quando começou-se a enfatizar a parte de ambiente. Aí foi admitido o Marcelo, Marcelo... Esqueci agora o sobrenome dele, me falhou aqui. Ele foi admitido em São Paulo para trabalhar na parte de ambiente, naturalmente a Alcoa tinha já esses insights lá nos Estados Unidos e o Alan já se preocupava com essa parte também. Posteriormente, inclusive, eles juntaram: Segurança e Medicina do Trabalho e Ambiente, juntaram em uma área só, hoje é separado, mas na minha época era junto com Recursos Humanos, era a área de RH que fazia isso. P/1 – Então você chegou a pegar um pouco dessa parte de meio-ambiente também? R – Não, meio-ambiente externo não, eu não entrei nessa parte. P/1 – Só a parte interna? R – A parte interna, a parte de higiene. A gente sempre teve muita dificuldade, sempre tivemos que treinar muito. Eu tive que trazer um higienista dos Estados Unidos, de Petersburg, para treinar os nossos engenheiros de segurança, os médicos, alguns outros engenheiros nessa parte também de condições de trabalho dentro da fábrica, não ambiente externo, ambiente interno, porque não tinha. Eu tentei admitir um higienista, não consegui, então nós trouxemos um, Joe Damian era o nome dele. Vinha periodicamente e dava um curso para o pessoal e essa parte começou aí. P/1 – E as ações sociais já começaram a acontecer nessa época, com a comunidade? As ações sociais voltadas para a comunidade? R – Não, era muito... P/1 – Ou não, isso foi posterior? R – Isso foi posterior. A gente tinha um certo relacionamento nesse sentido, dávamos algumas contribuições. Tínhamos no orçamento, contribuições para entidades, naquela época ninguém falava muito em ONG, né? Mas eram entidades assistenciais. Havia muita aproximação com a Escola Profissional Dom Bosco, por exemplo, onde muitos dos nossos empregados, dos empregados da Alcoa, estudaram e fizeram cursos técnicos. Então havia uma certa parceria, mas não esse trabalho social que é feito hoje. Não, isso não existia e também isso não era comum, não era algo conhecido, então era muito mais no estilo assistencialista. A gente procurava ter um relacionamento, inclusive fazíamos apresentações com pessoas da comunidade para aproximar, para mostrar o que era a Alcoa, mas acho que eram mais no sentido de relações com a comunidade e não nesse sentido social, não esse trabalho maravilhoso que eles têm feito ultimamente, ainda não tínhamos. P/1 – Nessa parte das relações com a comunidade, você chegou a participar, por exemplo, na implantação da Alumar? Havia essa parte de relacionamento com a comunidade para ver o impacto que teria esse tipo de coisa? Isso era da sua área? R – Não, diretamente não. A gente recebeu pessoas da Alumar aqui na fábrica com essa intenção, para que eles conhecessem a fábrica, para ver que não ia poluir e ver como é que era. Vieram muitas pessoas aqui, mas não fiz esse trabalho lá, ele foi feito pela AAB, a Marlene Coimbra de Oliveira que trabalhava comigo nessa parte de comunidade e me dava o assessoramento na parte de jornal, de eventos que a gente tinha. Depois ela foi para São Luís trabalhar, e sei que ela fez um trabalho muito interessante lá, porque eles poderiam ter tido muitos problemas com a comunidade. Tiveram que remover pessoas etc., e aqui nós não tivemos esse tipo de problema, isso aqui era uma área livre, né? P/1 – Mas e quando você estava em São Paulo, esse nível mais macro, mais alguma coisa que você queira nos contar de importante que aconteceu? Foi a implantação da Alumar, depois você falou que foi a compra da ASA. R – A compra da ASA em Recife, e a compra da fábrica de Pindamonhangaba, não me lembro agora o nome da fábrica, não sei se era ISA, acho que era ISA, né? P/2 – Acho que era ISA. R – E depois veio a implantação de Cotia. Não, Cotia era fundição, participei diretamente desde o início, desde conversar com o sindicato de Osasco, para informar que a gente ia reabrir a fábrica, porque essa fábrica tinha sido fechada. A Alcoa comprou o ativo, mas a fábrica estava fechada. Então começamos do zero, né, começamos do zero e foi um trabalho difícil, porque nós tivemos que, ao mesmo tempo em que era revisto layout da fábrica, começamos a produzir, então foi outra dificuldade em termos de atração de pessoas, de seleção de pessoas, de captação de pessoas. Foi uma época muito difícil, porque foi na época do Plano Cruzado, Sarney foi Plano Cruzado, né, foi? P/1 – É isso? P/2 – Plano Cruzado foi aquele outro do... R – Foi Plano Sarney, Plano Sarney que a gente chamava. P/1 – É, Plano Sarney. R – E houve uma bolha no Brasil de desenvolvimento e as pessoas sumiram. Você não encontrava ninguém e tínhamos que montar a fábrica, tínhamos que começar e a ter gente produzindo, mas não conseguia. Eu mandava ônibus para a Lapa para recrutar pessoas, em Santo Amaro, porque foi bastante complicado a gente trazer pessoas para Cotia, já que não havia muito interesse do pessoal que morava em São Paulo, no ABC etc., por que mudar para Cotia? Então foi um período muito difícil, nós não queríamos colocar ônibus, porque ônibus é um custo alto e traz sempre muitos problemas, de segurança, há uma série de problemas e tivemos que colocar, porque tivemos que contratar pessoas em São Paulo, buscar e trazer essas pessoas de ônibus para Cotia. Foi muito difícil essa época, me lembro que não achávamos porteiro para o edifício. Todo mundo estava empregado e que eu saiba, foi a única fase de pleno emprego no Brasil, houve pleno emprego nessa época, você não achava as pessoas. P/1 – Tempo bom, né? R – É, foi bom, mas... P/1 – Bom, mas ilusório. R – Foi muito fantasioso, muito ilusório, mas pelo menos nós vivemos uma experiência de pleno emprego e essa foi uma fase importante também, acho que a minha participação foi importante nessa época e muito trabalhosa, Cotia foi muito trabalhosa. P/2 – Depois teve a AFL, você também participou? R – A fábrica de laminados em Sorocaba. P/2 – Minas. R – Sorocaba... P/1 – Não, a AFL é Minas. R – A de Itajubá? P/1 – Itajubá. R – Itajubá eu não participei. Participei na de Sorocaba, ajudei a fazer a transição em Sorocaba também. P/1 – É a ferramentaria, não é isso? R – Não, em Sorocaba eles tinham estudado, se não me engano. Sorocaba foi adquirido também pela Alcoa, participei bastante dessas novas aquisições, porque nessa época eu tinha ido para São Paulo. P/1 – E você ficou até que ano lá em São Paulo? R – Até mil novecentos e oitenta e sete. Eu estava em Cotia, era gerente administrativo e saí da Alcoa em mil novecentos e oitenta e sete. P/1 – Você ficou lá em Cotia então? R – Fiquei, fiquei. Eu fui gerente administrativo de Cotia. Eu tinha Recursos Humanos, tinha Controladoria, e como eu tinha no currículo a parte de Contabilidade, eles precisavam de controller. Admiti uma pessoa para essa área, mas quem era responsável, o gerenciamento era meu. Tínhamos o gerente de Operações, tinha um da parte de Produção, e eu fazia a parte administrativa. P/1 – E quais você considera seus principais desafios, durante o tempo que você trabalhou na Alcoa? R – [pausa] Bom, já falei a maior parte do que teria para dizer. O treinamento do pessoal foi um desafio muito grande, a dificuldade de você não ter pessoas prontas e ter que prepará-las, isso foi difícil em todas as áreas, em todas as fábricas onde atuei e onde passei, de alguma forma foi bastante complicado. Aqui muito difícil por conta do isolamento é a parte de Relações Trabalhistas, que também foi um desafio, porque eu peguei a época do movimento sindical. O que que aconteceu do recrudescimento do movimento sindical, foi quando o Lula apareceu, inclusive tivemos uma greve aqui em mil novecentos e setenta e nove, percebemos que havia gente plantado aqui, para que na hora “H”, acionar a greve. E a gente vinha se preparando para isso, porque nós de Recursos Humanos... Eu participava de um grupo de Campinas de cinquenta empresas representando a Alcoa e a gente trocava muita ideia e escutava as pessoas se movimentando. A gente sabia que os sindicalistas estavam indo para a Europa se preparar, muitas vezes por convite das grandes centrais sindicais da Europa. Mas os empresários não acreditavam, mas a gente continuou se preparando. Inclusive eu fiz uma viagem por minha conta à Losane, na Suíça e à Droitwich em Londres, onde a Alcoa tinha escritórios. O escritório da Europa era em Losane e da Grã-Bretanha era em Droitwich nessa ocasião, consegui que o pessoal de Relações Sindicais da Alcoa de Petersburg fizesse esse contato para mim, então fui muito bem recebida. Fui por minha conta, para saber como é que eram os movimentos sindicais, como é que funcionava, porque aqui no Brasil, desde mil novecentos e sessenta e quatro, o sindicato estava em baixo das cinzas, foi uma fase que o sindicato não podia pôr a cabeça para fora, que eles cortavam a cabeça. E os empresários não acreditavam muito não, mas nós nos preparamos, então eu e o Krauss, que trabalhava comigo na área de Segurança, fizemos uma preparação grande junto com o pessoal da Produção, mas assim mesmo tivemos essa greve. Por quê? Porque o pessoal de São Bernardo, a turma do Lula, eles achavam que se eles parassem a Alcoa ia ser um feito enorme, porque a Alcoa era a única empresa grande aqui no sul de Minas, em uma região bastante grande, era a única empresa, então eles acabaram fazendo essa greve, apesar de eu já ter feito o acordo com o sindicato aqui. Nós tínhamos sentado e feito uma negociação com representantes de lá, representantes de cá. Fizemos a coisa bem moderna, que eu tinha aprendido fora, em contato com outras empresas, né? [risos], um modelinho perfeito, né? [risos], depois, apesar desse acordo, teve um grupo que falou: "Não, nós vamos fazer a greve”, e fizeram a greve. Foi uma greve violenta, porque eles cortaram as comunicações e foi preciso o pessoal de São Paulo vir de helicóptero e trouxeram coisas aqui para a fábrica e um rádio. Então ficamos nos comunicando... O pessoal da fábrica ficou se comunicando com a Marlene Coimbra, que era de Relações Públicas fora da fábrica. Então a comunicação ficou sendo assim por rádio, porque eles cortaram as comunicações e nosso receio é que eles criassem um problema na subestação. Se eles cortassem a subestação, se eles cortassem o fornecimento de eletricidade, vocês sabem que as cubas não podem, né, não podem parar, elas são contínuas, têm que ficar continuamente funcionando, isso seria um prejuízo incrível, né? Então esse era o nosso grande receio e foi uma passagem bastante difícil, bastante dura, mas conseguimos superar e não tivemos perda nenhuma de produção, porque a turma de Produção estava preparada, os engenheiros, o pessoal de nível médio de encarregados etc., eles assumiram as posições, porque eles cercaram o pessoal. Não é que o pessoal não quisesse entrar, eles cercaram, então eles evitaram que o pessoal entrasse., bloquearam a entrada lá em cima, não existia essa proteção que tem hoje na fábrica. O escritório era do lado de fora, então a gente poderia ter um problema muito mais sério. Felizmente tivemos... Eu tive que ir para São Paulo, para Belo Horizonte com o advogado, porque acabamos fazendo o acordo lá na Justiça do Trabalho. Aliás, até não houve propriamente um acordo, mas se encerrou lá, porque havia aquela ideia de que tinha que parar. Então essa parte de Relações Trabalhistas, dessa época, foi bastante complicada. Depois chegamos a ter greve em Pindamonhangaba também, enquanto eu era responsável por essa área na corporação, então acredito que essas áreas são as mais desafiantes. E essa parte de higiene, acho que foi um desafio muito grande também, porque nessa fase não se falava muito nisso, ao contrário, era para não se falar [risos], mas a gente via que havia uma grande necessidade de atacar essa área e ver o que realmente tem, porque você não pode resolver um problema se você não souber qual o problema que você tem. Então foi um trabalho muito desafiante esse, para mim foi muito importante. P/1 – E as alegrias? [fim do CD 1] P/1 – Marília, e alegrias? Muitas alegrias ao longo desses anos? R – Sim, uma das minhas maiores alegrias é ver o pessoal crescer, não só os engenheiros, né? Eu vi muita gente crescer aqui dentro, mas principalmente esses meninos que a gente trazia. Eles vinham para cá com vinte e dois, vinte e três anos de idade, saindo do curso e aqui recebiam treinamento, recebiam acompanhamento das chefias, da supervisão etc., e foram crescendo dentro da empresa e isso para mim sempre foi uma grande alegria. Quando aconteceu a festa dos quarenta anos, muitos deles estiveram lá, porque eles participaram, estavam dentro desses quarenta anos ou quase e para mim foi assim, um momento muito feliz encontrar essa turma. Já muitos com os cabelos embranquecendo, né? Mas realizados e cresceram aqui, quer dizer, fizeram a carreira deles aqui desde o início, isso foi para mim uma grande alegria, ver as pessoas crescendo na empresa, sempre foi uma alegria muito grande. A Elisabete Russo, que eu chamo carinhosamente de Betinha, eu vi a Betinha crescer também, a Monica Frison, que está aí no RH. Muita gente já saiu, mas eu vi muita gente crescer e se tornarem profissionais muito bons, às vezes até subir bastante. Vi o Alan Belda crescer, né? Vi o crescimento do Alan Belda, vi o crescimento do Adjarma Azevedo, de muitos deles e isso para mim sempre foi muito prazeroso. Eu gosto muito de trabalhar com pessoas e no dia-a-dia, na parte operacional, as festas que a gente fazia, as festas de Natal que reunia toda a comunidade da Alcoa, incluindo as famílias, era uma coisa muito agradável a gente entregar os brinquedos para as crianças, era um trabalho enorme preparar aquilo, mas era muito bom ver a carinha das crianças, a satisfação dos pais, nós fizemos muitos natais, muitas festas de Natal. E havia uma coisa também que me dava muita alegria, tínhamos um programa de trazer o pessoal para dentro da fábrica, trazer as famílias e me lembro que uma vez eles vieram de trenzinho, mas a gente não podia deixar à vontade, por conta dos riscos, então eles andaram de trenzinho por dentro da fábrica, com filhos, etc. Isso era uma coisa muito interessante, o envolvimento das esposas, porque a gente trabalhava muito com prevenção de acidentes, sempre foi uma preocupação da Alcoa e a gente sempre levou isso muito a sério. Dávamos cursos para os empregados e levávamos algumas coisas para as mulheres também, um clube, né? Eu participei muito do clube também, a gente fazia um treinamento voltado para as mulheres, então por exemplo, como é que você previne acidente no fogão, como é que você previne acidente com tomada, com ferro elétrico... Era voltado para o trabalho delas, ensinando, transmitindo essa consciência de prevenção de acidentes, porque de certa forma, isso voltava, elas conversavam com o marido e perguntavam para o marido se ele estava usando o capacete, até porque nós falávamos isso para elas. Então esse tipo de coisa também para mim era muito bom. Eu acho que até hoje ainda tenho muitas alegrias, porque encontro pessoas que trabalharam comigo, pessoas que às vezes eu até julgava que não tinham, assim, uma boa lembrança de mim, porque eu era uma pessoa exigente e essas pessoas fazem um depoimento, né? Eu tenho até escrito quando eles me mandam e-mail, eu arquivo, porque é uma coisa que agrada muito a gente, que é o reconhecimento. Pessoas que eu treinei, por exemplo, o Máximo Joaquino, que não está mais na empresa, eu o admiti ele era um menino, bem imaturo, depois o levei comigo para Cotia, treinei esse menino e depois ele foi diretor de Recursos Humanos de várias empresas. Ultimamente, aliás, recentemente eu trouxe o vice-presidente da AES Eletropaulo para fazer uma palestra aqui na PUC, ele trabalhou comigo, então vi muita gente e também participei do treinamento dele, sem sombra de dúvida. E, bom, várias pessoas me deram esse depoimento da participação que eu tive no crescimento delas, no crescimento profissional e isso eu acho muito bom. Até hoje eu tenho essas alegrias. P/1 – E qual você considera a sua principal realização? Dentre todas essas? R – Dentro da Alcoa? P/1 – Isso. R – Difícil... [pausa] P/1 – Bom, se você achar que todas são importantes, tudo bem. R – É, eu não diria tenho uma... Essas coisas todas que eu citei, né? Que acho que foram importantes a... P/2 – O desenvolvimento das pessoas. R – É. A seleção das pessoas, a captação das pessoas, o treinamento delas que eu orientei, que eu supervisionei, porque eu participei, toda a empresa participou disso, né? Do desenvolvimento delas. Eu acho que participei do crescimento de algumas pessoas de forma indireta, não posso dizer que seja diretamente, mas apontando. Tive oportunidades nas avaliações de desempenho etc., de ver o potencial das pessoas e apontar esse potencial. Luiz Visconti não está mais com a gente, mas o Luiz Visconti foi um que, na avaliação de desempenho, eles me perguntaram quem é que eu achava que poderia ser diretor de Recursos Humanos e eu dei o nome dele. Ele era da área, ele era de Compras, então o pessoal falou: "Mas Fulano não é da área de Compras?". Mas eu o conhecia, eu via o potencial dele. Ele veio dar curso de Relações Humanas para uma turma aqui de supervisores, então eu via que ele tinha sensibilidade para a área. Eu fiz isso em alguns momentos, em alguns momentos eu participei do crescimento profissional mesmo dentro da Alcoa, não só o aspecto do desenvolvimento da pessoa, mas do desenvolvimento profissional em termos de cargos, em termos de ascensão, em termos de carreira. P/1 – E tem algum caso pitoresco que aconteceu, ao longo desses anos que você queira nos contar? R – Bom, o Edson já contou um que eu gosto muito de contar. Eu acho que eu não sei se você quer que eu conte de novo. Eu acho que não, né? O Edson Daniel. Que é o do que eu fui buscar no laboratório, né? P/1 – É, ele contou, ele deu a versão dele, se você quiser dar a sua... [risos] R – É, eu gosto desse caso, porque o Edson cresceu muito na Alcoa e eu praticamente o contratei, não que eu contratava sozinha claro, porque a gente passava por seleção, por psicólogo, depois passava pela pessoa que seria o chefe dele. Mas eu digo que em alguns casos eu tive um bom olho clínico, porque ele estava... Eu fui à USP procurar químicos, do curso superior de Química e o curso já tinha acabado, mas um vigilante, alguém falou: "Ó, mas tem uma turma de rapazes no laboratório ainda terminando o trabalho". Provavelmente era uma monografia, alguma coisa assim, então fui ao laboratório e encontrei o Edson com alguns outros rapazes, mas o Edson foi uma pessoa que eu bati o olho e falei: "É esse". Eu disse a ele: "Você não conte para os outros colegas aí não, mas eu quero que você vá a Poços". Fiz as indicações e ele veio, foi escolhido e fez uma carreira brilhante na Alcoa, né? Então eu sempre tive muito orgulho desse olho clínico que eu tive com o Edson. Tem um outro caso que também foi interessante do Edson Schiavotelo, não sei se vocês vão entrevistar? P/2 – Está na lista também. R – É, provavelmente ele contará, mas também posso dar minha versão. Eu estava buscando engenheiros e ele foi um candidato, ele estava trabalhando em uma empresa que agora me falha o nome, perto de Belo Horizonte, não era muito perto, né? Lá para aquela região de Governador Valadares, para cima de Belo Horizonte. E naquele tempo o telefone era uma coisa dificílima, para conseguir um telefone era difícil e levava horas para fazer um interurbano, então mandei um telegrama chamando-o. Ele teve que viajar cento e poucos quilômetros para poder ligar para mim e quando ligou eu estava em reunião, a secretária quem avisou e ele disse: "Ah não, eu preciso falar com ela, eu tenho que falar porque viajei cento e tantos quilômetros para falar com ela”. Então eu atendi, claro, depois que ele falou que tinha viajado cento e tantos quilômetros, saí da reunião e atendi o telefone, no fim das contas ele veio e foi escolhido e acho que isso foi uma coisa bastante interessante, porque eu poderia ter perdido um excelente, ele foi um excelente, tem sido um excelente profissional, ele anda está na Alcoa, né? É um excelente profissional, eu poderia ter o perdido se não tivesse me disposto a sair de uma reunião para atender. Casos interessantes. P/1 – Está bom, a não ser que você tenha mais alguma história que você queira nos contar, mas... [risos] R – É, uma passagem interessante está... Eu mostrei para vocês no recorte de jornal que fui homenageada com a medalha do “Homem Desenvolvimento de Pessoas”, pelo Senai de Belo Horizonte. Fui lá receber a medalha, né, do “Homem Desenvolvimento”, porque [risos] como não havia mulheres, eles só tinham medalha para o homem. Isso foi uma passagem muito interessante para mim também e acho que é isso. P/1 – Marília, qual é o seu estado civil? R – Atualmente sou viúva. P/1 – Você tem filhos? R – Não, eu tenho duas enteadas e tenho dois netos [risos]. P/1 – E o que você mais gosta de fazer nas suas horas de lazer? R – Eu acho que sou viciada em leitura, gosto demais de ler, então trabalho com livro o tempo todo, porque eu dou aula. P/1 – Você saiu da Alcoa e foi ser professora, né? R – Fui ser professora na PUC de São Paulo, né? Fui convidada justamente pela experiência que eu tinha da Alcoa com Recursos Humanos e fui para essa área. Então eu trabalho muito com livros, mas nas minhas horas de lazer gosto muito de ler, só que aí, claro, uma leitura mais amena. P/1 – E você que acompanhou o desenvolvimento da Alcoa aqui no Brasil desde o início, como você vê isso de modo geral, até os dias de hoje? R – Eu acho que a Alcoa só evoluiu, né? Evoluiu muito e não só no sentido de crescimento. Eu acompanho e continuo acompanhando... Tenho uma ligação muito afetiva com a Alcoa, vira e mexe eles me convidam para uma coisa, me convidam para outra, eu participo de muitas coisas e acompanho. Tenho também alunos daqui e no pós-graduação, alunos que trabalham na Alcoa, então eu acompanho muito. E evolução da Alcoa foi muito grande, em todos os sentidos, no de pessoas houve uma evolução muito grande de carreira, de oportunidades, porque carreira mesmo não é, a carreira na Alcoa não é uma carreira fixa, como você tem em algumas empresas, que as pessoas vão galgando posições quase que automaticamente, né? Aqui são oportunidades, mas a Alcoa dá muitas oportunidades, ela realmente desenvolve as pessoas e essa é uma grande preocupação, desde a nossa época e ela continua fazendo isso, valoriza muito as pessoas, esse trabalho que ela está fazendo aqui, acho que é uma prova de que valoriza as pessoas. Evoluiu muito nesse campo social, não tínhamos nada e de uns anos para cá, faz um belíssimo trabalho, principalmente aqui em Poços de Caldas. Conheço bem o trabalho, de vez em quando vejo apresentações sobre isso, é um trabalho muito bom e isso repercute muito na comunidade. Cresceu no sentido de crescimento como empresa, mas não só isso, evoluiu em todos os aspectos, acompanhou a evolução das organizações no mundo. Quando eu comparo com outras empresas... Eu conheço muitas empresas, porque toda vida participei de... Em Campinas éramos cinquenta empresas, não éramos quarenta empresas, montadoras, IBM, não eram empresas pequenas, eram empresas grandes e quando comparo a Alcoa, vejo que realmente, ela é uma empresa bastante evoluída, bastante moderna que está no topo. P/1 – E quais foram os maiores aprendizados de vida que você obteve trabalhando na Alcoa? R – [pausa] puxa é difícil [risos]. Eu acho que foi mesmo trabalhar com as pessoas, ter oportunidade de... Estou me repetindo, mas ter oportunidade de ver essas pessoas começarem e crescer e acho que aprendi muito e com as pessoas com quem trabalhei. Não sei se eu poderia chamar isso de aprendizado de vida, mas acho que não deixa de ser aprendizado de vida. Em termos éticos, de valores etc., por exemplo, meu primeiro chefe aqui, não o Fernando, mas o senhor Pierre ______, era uma figura maravilhosa, aprendi muito com ele, inclusive nesse trato com as pessoas, porque ele sabia tratar as pessoas, ele tratava as pessoas muito bem. Ele era muito querido, né? Aprendi em termos profissionais, aprendi muito com meu chefe Fernando Pires, ele era bastante evoluído para a época e vi isso depois em contato com outras empresas. Vendo o que as outras empresas faziam, percebi que ele realmente tinha uma visão bastante avançada. Que mais que eu poderia falar? Aprendizado de vida [risos]... A hora que eu sair daqui vou lembrar de um punhado de coisas [risos]. P/2 – É sempre assim. R – É. P/1 – A gente faz uma pergunta: o que é ser “Alcoano”? Você não é mais, mas foi, né? O que foi para você ser uma “Alcoana”? R – Eu acho que os “Alcoanos” não deixam de ser “Alcoanos”, uma vez “Alcoano”, para sempre “Alcoano” [risos], não sei exatamente o porquê. Um dia desses uma professora estava falando assim: "Eu acho que a Alcoa faz lavagem cerebral”. Não é isso, é toda uma maneira de levar as pessoas, de valores da Alcoa e a preocupação em manter esses valores. As coisas mudaram tanto, né? E nesse mundo competitivo de hoje não é muito comum uma empresa manter uma linha de ética e preocupação com as pessoas, não são todas as empresas. E eu vejo isso na Alcoa, então sempre foi muito agradável ser “Alcoana” e sempre tive um sentimento de crescimento, sabe? Sempre tive esse sentimento de crescimento e a gente gosta, eu sempre gostei e vejo que as pessoas gostam de serem “Alcoanos” e a gente continua sendo, para vocês terem uma ideia, nós temos uma reunião anual em São Paulo e há uma convocação via e-mail, a Claudete faz a convocação via e-mail e eles vão espontaneamente, mas temos mais de cem pessoas que se encontram lá todo ano, mais de cem, tem ano que um não pode ir, tem outro ano que outro não pode, mas vamos nesse encontro. Eu tenho um grupo em São Paulo de nove mulheres, só que uma delas está na Austrália, mas a gente troca e-mail o tempo todo, Skype etc. Somos nove mulheres que trabalhamos na Alcoa e nos reencontramos em um determinado momento e agora nos encontramos periodicamente. Tem um grupo aqui em Poços, faz tempo que a gente não se encontra, mas a gente troca e-mails o tempo todo, de ex-“Alcoanos” também, um ou outro ainda é, temos uma ou outra que ainda trabalha na Alcoa, então há sim uma ligação muito grande entre os “Alcoanos”, é como se fôssemos da mesma família. A gente se casou e mudou, mas continuamos pertencendo à Alcoa, seria isso? P/1 – À família, não é? R – À família Alcoa, é. P/1 – Como você avalia esse projeto que está registrando a memória da Alcoa por meio do depoimento das pessoas? R – Eu acho importantíssimo, porque isso vai mostrar o que é a Alcoa através das pessoas que fizeram a Alcoa. Na realidade a empresa são as pessoas, então levantar a história da empresa através dessas pessoas, eu acho maravilhoso. Principalmente eu que sou dessa área, né, e que realmente não acredito em uma empresa que não tenha pessoas, é impossível você ter isso. Então a valorização das pessoas é muito importante e esse projeto, acho que mostra isso. Mostra que a Alcoa valoriza as pessoas e que quer manter tudo aquilo que conseguiu, que conquistou, que fez com que a Alcoa chegasse onde está, porque aqui no Brasil ela começou pequenininha, com uma fábrica. Primeiro a mineração, mas uma fábrica de uma sala de cubas e depois de duas, depois de três e foi crescendo e nós devemos isso ao Alan Belda, ele quem fez a coisa explodir. Eu acho que é um projeto muito importante e que realmente vale a pena, porque muita coisa que foi feita pode servir, inclusive de incentivo para outras pessoas que vierem após nós, né? P/1 – E o que você achou de ter participado da entrevista? R – Gostei, a gente fica um pouco bloqueado, né? Eu não tenho essa facilidade de falar, escrevo mais do que falo. Claro que se estivéssemos tomando um chope eu ia falar muito mais [risos], mas assim no seco, com luzes etc., isso me bloqueia um pouco. Eu nunca fui muito boa de entrevista não, sinto um pouco de bloqueio quando alguém está registrando o que eu estou falando, mas para escrever tenho mais facilidade, porque você para, pensa e consulta, por exemplo, eu esqueci o nome do Dove Peterson, eu não podia esquecer. Eu esqueço coisas porque há um certo bloqueio, no momento que você resolve escrever o bloqueio desaparece, porque você tem tempo de lembrar e buscar, fotos etc., mas foi muito bom. P/1 – Foi ótimo. R – Eu gostei e agradeço estar participando, né? Para mim foi muito importante participar. P/1 – Nós é que agradecemos você em nome da Alcoa e do Museu da Pessoa, muito obrigada. R – De nada. [fim do CD 2]
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