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História

Mulher, maternidade e justiça

História de: Satíe Wada de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/12/2020

Sinopse

Nascimento em São Paulo. Descendência japonesa. Desenvolvimento da cidade de São Paulo. Infância livre. Faculdade de Jornalismo. Música e dança. Estágios e trabalhos. Trabalho com audiovisual. Casamento. Gravidez. Parto. Violência obstétrica. Desrespeito. Separação. Faculdade de Direito. Estágio na Sabesp. Sonhos. Menopausa.

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História completa

Meu nome é Satíe Wada de Oliveira, eu nasci em São Paulo, no dia dez de janeiro de 1961.

Os meus avós maternos eram japoneses, e eles vieram pra cá no final dos anos vinte. A minha avó veio primeiro, depois meu avô veio atrás dela e casaram, tiveram sete filhos. O meu avô era agrônomo e ele veio pro Brasil porque todas as experiências que ele fazia com terras brasileiras eram muito positivas, o Brasil sempre se apresentou de forma muito fértil. Então ele veio pro Brasil com esse... já com esse conhecimento e ele comprou um sítio aqui em São Paulo, em Carapicuíba, e lá ele montou a família e teve os filhos e trabalhou na terra a vida toda. No Japão eles estudavam na Universidade, e eles eram super urbanos, tinham carro, era outro planeta, muito diferente do Brasil dos anos vinte. Quando eles chegaram aqui, a minha avó que era super fina, só andava de luva no Japão... Eles chegaram aqui e foram pegar na enxada. Então pro meu avô, que era um cientista e tal, ele via muita beleza naquilo. Agora minha avó veio meio em condições que assim... foi a circunstância que ela encontrou; e ela foi pegar na enxada, então pra ela foi bastante sofrido. Mas eles criaram os filhos todos, e quem pôde ir pra Universidade foi, e eles foram muito guerreiros assim. E então a minha mãe, tendo essa história familiar, ela veio pra São Paulo, ela queria fazer estatística, mas aí ela casou e o meu pai não deixou ela estudar. E naquela época as mulheres obedeciam aos maridos, e aí ela foi ter filho e ele também não deixava ela trabalhar, então ela ficava dando aula particular em casa e cuidando dos filhos. Foi assim, uma situação bem tradicional da mulher daquela época, bem dentro dos moldes mesmo. 

Eu sou a mais velha e tenho três irmãos menores: o Mitsuo, o Hideo e o Hiromi. E muito interessante que você percebe que nós temos nome japonês porque os meus avós não queriam que a minha mãe casasse com brasileiro. E o meu pai, pra agradar o meu avô, colocou nome japonês nos filhos. 

Eu sempre fui muito maternal nas minhas relações, eu era irmã mais velha e a minha mãe um pouco me incutiu a maternidade, eu cuidava dos meus irmãos, eu tinha uma preocupação com eles que ela me transmitia e depois com os meus amigos também, e eu acho que eu fui fomentando junto com um talento pra ser mãe assim, então quando eu virei mãe eu, nossa, eu deitei e rolei, amei, é uma delícia. Acho lindo, desde a hora de pensar em ter filho, a gravidez toda é um momento impar na vida de uma mulher, porque a sociedade toda se rende pra sua maternidade; então você tá no trabalho, além de internamente você ficar mais criativa, você tá mais inspirada, externamente também com a receptividade, fica um momento mágico, pra mim foi assim, as duas gravidezes. Na rua o trânsito para pra você atravessar, então parece que a vida fica transformada, e como eu passava muito bem na minha gravidez, os problemas de saúde, bobagens até, mas queda de cabelo, tudo melhora, tudo fica mais viçoso e então pra mim gravidez sempre foi um momento lindo, se eu pudesse eu teria diversos momentos, porque foram muito boas as minhas gravidezes.

O segundo parto, eu vou contar da gravidez, eu já tava com trinta e oito anos. Eu tava super forte e saudável. Até hoje se eu ficasse grávida, eu tô com cinquenta e nove anos, mas até hoje eu toparia uma gravidez, sabia? Porque é um momento tão legal, é o máximo pra uma mulher. Eu tenho algumas amigas que optaram por não ter filho, os filhos são as peças, são as músicas, são outras produções e agora eu, particularmente, pra mim a maternidade, a gravidez e a maternidade eu passei e passaria de novo, porque eu acho que é muito... são momentos muito interessantes pra mulher.

Eu trabalhei até a véspera de ter a Milah e foi uma gravidez muito tranquila. Só que, a gente tinha uma previsão dela nascer lá pelo meio de junho e ela deu uma adiantada e eu meio negligente, não tinha escolhido ainda a clínica onde eu ia fazer o parto e quando eu... Daí no dia dez de junho, que foi o dia de estreia do Brasil na copa do mundo e o Brasil estava indo atrás do Penta, o Brasil todo queria o Penta e quando teve aquele jogo, a gente ganhou da Escócia e saiu todo mundo pra rua, foi um congestionamento monstro e a bolsa arrebentou e eu tinha que ir pra maternidade aquela hora, e nós resolvemos ir pra uma clínica lá perto do Butantã. E quando eu cheguei lá a médica não deixou, a médica parteira não queria deixar o Julio assistir o parto e eu falei: “mas ele, imagina, ele já assistiu o parto da outra, parto normal e tal”. E saí dessa clínica com quatro dedos de dilatação, já tava meio pra nascer, mas eu não queria ter naquela clínica sem o Julio. E daí nós fomos pra outra clínica que não tinha ninguém, mas o médico tava chegando, a anestesista também tava chegando, foi assim jogo rápido e aí o médico começou a dar a anestesia, enquanto isso ele começou a preparar um objeto que tinha um algodão na ponta e passar na minha barriga. Aí eu falei pra ele: “mas pra que você tá passando esse algodão na minha barriga?”, aí ele “não, porque nós vamos fazer uma cesárea”’, eu falei: “não doutor, o parto é normal, eu já tive parto normal, o feto está posicionado, está tudo certo, é só dar um espirro aqui que vai sair, porque eu já fiz outro parto...”, aí ele surpreso, falou: “ah, mas aqui quem é o médico?” eu falei: “não, o senhor é o médico, eu sou a parturiente, mas é que a gente está fazendo meio de surpresa assim...” e tentei negociar com ele porque eu achei que ele tava se enganando, só que ele forçou a barra, ele tava forçando a barra pra fazer a cesárea, porque a cesárea era rapidinha e o parto normal ia demorar mais, tinha que demorar chegar a dilatação, apesar que tava bem encaminhada, mas ia demorar um pouco mais. Enfim, ele começou a insistir que ele ia fazer a cesárea e tal e aí a equipe já tinha chegado, todo mundo se preparando, eu falei: “olha doutor, eu não vou fazer cesárea, o senhor vai providenciar aqui o que o senhor tiver que providenciar, mas eu tenho direito de ter um parto normal, porque meu prontuário está todo aqui, você pode ver, tem aqui o ultrassom do posicionamento do bebê que já faz meses que ela já ta posicionada, então não tem porque não fazer. Dá pra ver até o cordão posicionado, tudo certo aqui, não tem porque não fazer parto normal”. Enfim, ele ficou contrariado e “tá bom, então nós vamos fazer um parto, mas você vai sentir muita dor, porque na bíblia está escrito ‘mulher, parirás com dor’”. Então ele foi fazendo, criando um clima de que eu ficasse insegura e que eu ficasse com medo, então se eu ficasse com medo eu ia fazer parto cesárea. Só que eu já tinha passado por um parto, e o parto normal, tudo bem, você tem contração, é um pouco incômodo e tal, mas depois de horas que você faz o parto normal, você já pode sair andando, tá tudo certo, é a natureza ali é perfeita. Então, ele começou a ver que eu tava muito firme na minha decisão e falou: “ah, mas você é muito articulada, que profissão que é a sua?”, “ah, sou jornalista”. Ah, quando eu falei isso, mudou o clima. Mudou o clima da sala, mudou o clima entre a equipe, eu percebi e falei: “olha doutor, é o seguinte, você sabe que o jornalista tá correndo muito atrás de qualquer evento que acontece, qualquer acidente que aconteça, médico, então se acontecer algum acidente aqui comigo ou com o bebê você sabe que amanhã a imprensa vai estar aí toda na porta, porque tá todo mundo louco pra essas notícias, e o senhor não vai querer isso”. Nessa hora eu não sabia que aquela clínica era uma clínica de aborto e ele tava muito preocupado de chamar a atenção de qualquer forma, então ele mudou na hora, fez o parto, foi super tranquilo, fez o parto normal, com a equipe. Fez o parto normal e saiu, porque chegou o obstetra que devia ter chegado antes e não conseguiu, aí o obstetra acabou os procedimentos e tal, a menina inteira, super em ordem e tal, tudo certo. E realmente depois de alguns anos saiu uma notícia no jornal de que a clínica tava sendo observada pela polícia federal e que o médico tava sendo preso, que fez o parto. Então, esse foi um momento que é incrível como a gente tem uma proteção interna, uma força interna, principalmente nesse momento de concepção, nesse momento de dar à luz, porque realmente, na hora que a Milah nasceu, eu senti que aquele lugar se iluminou. Foi realmente uma força ali do bem, ressurgindo e nascendo, e brilhando e foi uma sensação maravilhosa ter vencido, mas foi uma batalha. E foi uma batalha contra um médico que não precisava ter feito isso, ele fez isso por interesses econômicos, totalmente materiais. Não teve nenhuma solidariedade com a paciente dele que tava ali. Tudo bem, eu tava fazendo um parto pelo seguro saúde, que ele ia receber, na época, era um valor ridículo, tipo cinquenta reais, contra os três mil reais que ele recebia pra fazer as cirurgias dele. Então ele tinha que ter dado um atendimento e ele teve essa conduta agressiva e criminosa. Na época eu não tinha consciência, a gente nem fala desse tipo de assédio, mas depois muitas mulheres foram reclamando e aí foi se configurando uma espécie de atitude criminosa desse profissional. 

Eu me senti desrespeitada o tempo todo. Desde a hora que ele quis impor que eu fizesse uma cesariana, daí pra frente claro que eu me senti desrespeitada. O Julio também foi impedido um pouco de entrar na sala, mas ele forçou a barra e aí ele conseguiu entrar. Então era uma situação de total desrespeito com o paciente que... era muito simples a relação ali, ele transformou a relação numa relação criminosa mesmo. Eu atribuo crime. Crime porque na hora ali podia acontecer deu sair com algum problema, da minha filha ter algum problema, algum acidente, é uma situação muito delicada.

Então foi um stress realmente, a equipe, quando o obstetra chegou - que era o obstetra que devia ter feito o parto -, ele já sabia da história, ele falou “puxa mãe, que stress né, vamos acalmar agora, vamos ficar tranquila”.

Então eu queria ficar cuidando e trazendo ela pro mundo mesmo assim de uma forma muito receptiva, muito carinhosa. Não tinha tempo pra ir brigar com médico. Depois o destino ia dar conta dele, como deu. Uns anos depois eu numa cadeira de dentista eu ouço falar que a clínica foi fechada e ele foi preso.

E aí a vida foi seguindo... Aí que eu resolvi ir pro Direito e eu comecei prestando concurso, daí eu fui fazer um trabalho no litoral, eu fiquei lá durante um tempo fazendo cobertura jornalística, reportagem, foi um trabalho super gostoso. Então eu fazia pauta junto com a chefia, saía pra entrevistar, gravar, colher material, voltava, editava e entregava, uma matéria a cada dois dias, três dias, então era tranquilo, gostoso, prazeroso. Esse trabalho na gestão pública me fez ficar muito interessada por direito e eu parti pro direito e agora já tô acabando o terceiro ano rumo logo mais a buscar o diploma.

Bom, uma pessoa de cinquenta e nove anos, pensa bem, na faculdade com gente de vinte e poucos anos e no estágio também, de vinte e poucos anos. Então é um desafio, porque a gente não pode se sentir velho e eu não me sinto velha, sinceramente eu me sinto com muita energia. Eu me sinto com energia de gente jovem, pra mim cinquenta e nove anos não é nada.

Olha, eu sonho muito com essa profissão que eu vou ter aí pelos próximos vinte anos. Então essa profissão, ela passa por ver justiça, justiça principalmente para os que são as maiores vítimas da justiça no Brasil, que é a população carente, que é a população de preto e pobre.

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