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Muitos laboratórios, muitas experiências

História de: Ivo Radesca
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2004

Sinopse

Em seu depoimento, Ivo Radesca, nascido na cidade de Patrocínio Paulista, interior de São Paulo, em 10 de Janeiro de 1932, nos conta sobre a sua infância pobre no interior, mas que uma das exigências de seu pai é que se dedicasse aos estudos. Relembra o seu tempo de adolescência em que, para paquerar, precisava praticar o footing pela praça da cidade. Veio para São Paulo, capital, cursar Odontologia na Universidade de São Paulo, mas acabou entrando no curso de Farmácia e gostou. Começou a sua carreira farmacêutica no Laboratório Squibb e, em seguida, esteve no Andromaco. Por fim, recorda da sua entrada na Johnson, onde pôde ajudar a criar vários medicamentos, pesquisar fórmulas e até viajar para outros países. Ao sair de lá, montou uma micro empresa para produzir produtos veterinários com o filho, chamada Acsedar.

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História completa

P/1 - Bom, iniciando a nossa entrevista, queria que o senhor se identificasse com seu nome completo, data e local de nascimento. 

 

R - Meu nome é Ivo Radesca, nasci em 10 de Janeiro de 1932, na cidade de Patrocínio Paulista. É próximo à cidade de Franca e Ribeirão Preto.

 

P/1 - Eu gostaria também que o senhor identificasse seus pais falando um pouco sobre a origem deles.

 

R - É, meu pai é Brasílio Radesca, nasceu aqui na cidade de São Paulo, filho de italianos, pai e mãe italianos. E a minha mãe é italiana de nascimento, veio para o Brasil muito jovem. Como coincidência, na época que veio e no mesmo... meus avós por parte da minha mãe vieram no mesmo navio que veio o Matarazzo. Uma curiosidade. Bom, de nascimento dos pais são esses, meus quatro avós são italianos imigrantes, né? 

 

P/1 - E o senhor sabe por que é que os seus avós vieram, e conheceu seus avós? Qual é a informação que o senhor tem sobre isso?

 

R - Não. Dos avós por parte do meu pai, não conheci. Por parte da minha mãe, os conheci apesar de ainda ser menino. Eu ainda me lembro deles. Eles moravam em Patrocínio Paulista, na época se chamava: Patrocínio do Sapucaí, a cidade, né. Agora, o motivo da vinda deles eu não tenho certeza, apenas por conversas de famílias, que foi mesmo para melhorar a vida, por influência de amigos, que a Itália estava muito em dificuldades, então, o pessoal vinha muito para cá, que isso aqui era o Eldorado, né?

 

P/1 - Quando foi?

 

R - Essa data também, eu não, não dá para localizar a data. Mas, não é difícil na história porque é só pegar o navio que veio a família Matarazzo que ...

 

P/1 - Início do século, né?

 

R - É. Voltando a pergunta do...

 

P/1 - Então, o senhor estava falando de seus avós, que o senhor chegou a conhecê-los...

 

R - Então, eu os conheci lá em Patrocínio, tive uma certa convivência com eles mas logo depois eles faleceram e a gente, depois, se mudou para Franca, e eles já tinham falecido. A gente... vai fugindo da memória muita coisa com relação a eles. 

 

P/1 - Então, o senhor viveu em Patrocínio até que idade?

 

R - Até os 7 anos. 

 

P/1 - 7 anos, né?

 

R - Com 7 anos eu vim para...saí de Patrocínio para Franca, para estudar, né, para ir para uma escola melhor, apesar de que Patrocínio tinha o primário, mas a família se mudou toda para lá porque tinha vários filhos, meu pai e minha mãe. Então, nós fomos para Franca. 

 

P/1 - Como é que o senhor se lembra desse ambiente familiar da sua infância?

 

R - Bom, naquela época, era tudo muito difícil, era uma família pobre, então, as dificuldades eram grandes. Meu pai tinha a profissão de sapateiro, que naquela região predomina. Franca é a cidade dos calçados, né. E depois ele, meu pai teve problema porque ele usava o pé de ferro que chama, né, para trabalhar com o calçado no joelho. Eles usam na perna aquilo, né. E deu um problema de, que seria hoje um problema profissional, né, que houve um problema na perna que batia o martelo ali. Então, ele já em Franca, já foi procurar uma situação melhor porque, nessa época, nós éramos em cinco irmãos que nasceram lá em Patrocínio. E ele ganhava o quê, talvez, na época, vamos dizer, salário mínimo, para criar toda essa criançada já era difícil. Ele veio para Franca para tentar ganhar uma melhora, né. Então, ele foi trabalhar. Naquela época, o jogo do bicho era oficializado. Então, existia uma, o que hoje a gente chama de lotéricas mesmo, existiam as casas lotéricas que eram que faziam jogo de bicho. Então, meu pai foi trabalhar com jogo do bicho e ele tomava conta de uma lojinha de jogo de bicho. E com isso, a gente...ele foi criando os filhos, depois nasceram mais dois em Franca para completar os sete filhos e foi aquela luta; e todos os tios e todos do mesmo nível financeiro. Então, era difícil, mas um ajudava o outro. Naquela época, usava muito a ajuda de parentes para criar filho, para escola, para tudo isso, né. Então, quando entrou o Dutra como presidente da República, né, depois do falecimento do Dutra, veio, acabou a ditadura entrou o Dutra, acabou a ditadura do Getúlio. Depois, o Getúlio ganhou a eleição e voltou como democrata. Então, na época do Dutra, ele proibiu o jogo do bicho, foi considerado... então, meu pai, as lotéricas todas fecharam e meu pai já tinha uma certa idade nessa época, então era difícil recomeçar qualquer coisa, mas continuou o bilhete lotérico. O jogo do bicho foi proibido mas o bilhete de loteria que ainda vende até hoje era vendido naquela época. Então, meu pai passou a vender bilhete de loteria mas, aí já não tinha uma loja fixa. Ele pegava os bilhetes e saía vendendo pela cidade para manter a estrutura da família. Nessas alturas, meus irmãos mais velhos, os dois mais velhos já trabalhavam, já ajudavam em casa, já, de qualquer maneira, ajudava, né.

 

P/1 - Como é que o senhor descreveria os seus pais, eles eram autoritários, rigorosos, inteligentes, com educação, disciplina?

 

R - Apesar de, por exemplo, o meu pai, não ter tido uma escolaridade grande, fez primário só, era uma pessoa muito educada, muito, uma pessoa mais ou menos, eu digo assim, o meu estilo, muito educado, muito atencioso com as pessoas, falava pouco, falava baixo, muito do meu estilo, até de aparência física, era mais ou menos como eu, né? A turma na família diz que o que mais se pareceu...se parece mais com ele, sou eu. E a minha mãe era uma pessoa de muito trabalho, né, porque cuidar de tanta criança...e veio da Itália, já ela veio com algum curso primário porque sabia ler e escrever bem. E ela se apaixonou tanto pelo Brasil que nem sotaque tinha. Ninguém dizia que ela era italiana. É uma pessoa muito trabalhadeira. Muito boa, muito humilde, e as pessoas mais pobres, naquela época, eram muito humildes, pela própria vida dura, tudo, cria uma humildade, mas muito uma pessoa sensível, muito boa e muito trabalhadeira, porque botar sete filhos em faculdade não é brincadeira. 

 

P/1 - Como é que era a sua infância, o senhor brincava muito, tinha tempo para lazer?

 

R - Ah, sim. A minha infância em Patrocínio Paulista eu me lembro muito pouco. Alguma coisa que eu me lembro é de assim do relacionamento com o meu avô, a minha avó, os meus tios que moravam lá também, e, em Franca... aí eu já era maiorzinho, eu me lembro da escola, do curso primário que eu estudava lá. Apesar de tudo, de todas as dificuldades financeiras da família, eu estudava no melhor colégio que era o colégio público, né, mas era o melhor da cidade que hoje são: Torquato Carneiro, na época, chamava Coronel Francisco Martins, era o top de ensino. A gente, todos os meus irmãos estudaram nesse nível por que a gente, apesar de tudo, era todo mundo estudioso, porque via toda a dificuldade, estudava para poder se manter na escola bem, porque era a única coisa que o meu pai era rígido mesmo, duro, era com a escola, tinha que fazer a escola. E foi bom isso, né, porque foi uma herança boa, um diploma que ele fez a gente tirar. Todos os irmãos estudaram e todos bem estudados. Então, de infância, aquela infância dura, para escola, estudando, ajudando. Com 17 anos de idade, meu pai adoeceu, teve que vir para São Paulo e eu tomei conta da banca de bicho dele durante algum tempo.

 

P/1 - Você era o mais velho?

 

R - Como eu era menor tive que tirar um atestado no juiz lá de menores, mas ele, depois de uns quatro, cinco meses, já voltou e já teve a atividade dele. Então, foi a juventude, a adolescência difícil, né, de moço do Interior que tem os seus amigos, se juntam, lá tinha a praça da cidade, à noite, se reunir, bater papo. Uma curiosidade, né, a gente ia na praça, naquela época, moço ia de paletó e gravata. Hoje, a gente evita. Era sempre, mas era costume a gente ir de terno para dar uma volta na cidade, né? 

 

P/1 - E como é que era o ambiente para adolescente, na cidade, muito namoro? Tinha festas para ir? Como era?

 

R - É, namoro. Tinha o que a gente chamava de footing, né, que hoje vocês não devem saber como era mas, geralmente, na maioria das cidades do Interior era assim, o pessoal dá a volta na praça, as moças do lado de dentro, pelo lado dentro, ao contrário dos rapazes, a gente ia se cruzando, ficava andando assim.

 

P/1 - Em círculo?

 

R - É, em círculo. As moças no centro, às vezes, três, quatro moças conversando, do outro lado três, quatro moças conversando, ficavam dando aquelas voltas e ficavam ali horas, horas, horas batendo papo, tal e tal. E ali nasciam, né, iam flertando, cruzava-se, dava um flerte, tal, e assim nasceram os namoros, isso era característico. Quando eu vim para São Paulo, eu estranhei porque aqui não tinha nada disso, né. A gente: "Cadê o footing, onde é que a gente vai ver as moças?" (riso) Então não, tem muita coisa na juventude da gente, de jogar bola, de juntar a molecada para jogar bola, jogar futebol, era isso que, brincadeira de rua, era bolinha de vidro, bolinha de gude, pião, era jogar pião, era empinar pipa, né? Então, esses eram os brinquedos que a gente tinha, né. E quando mais mocinho, já aí era mais o footing, a gente se dedicava muito à leitura, aquela época se usava muito os jovens... na minha época era ler o (Crownen?) J.(Crownen?), e cinema; não tinha televisão. Então, era ir para ao cinema, à noite, uma vez por semana, no sábado ou no domingo, aí, juntava um dinheirinho para ir no cinema, ou com a namorada ou não, se tinha uma namorada na época ou não, então, essa foi a juventude nossa lá.

 

P/1 - E como é que o senhor veio para São Paulo, por quê?

 

R - Bom, eu vim para São Paulo para fazer faculdade, né, que a minha idéia, tanto que os últimos anos que eu estive em Franca, eu trabalhei em prótese, porque a minha idéia era fazer odontologia, esse era o meu plano. E como eu não pude fazer curso vestibular, esses cursinhos, porque eram custosos e tinha que se ter tempo para isso, eu vim com a cara e a coragem, né, e me inscrevi no vestibular da USP, aqui em São Paulo. Naquele tempo o vestibular era diferente, hoje é unificado. Naquele tempo, cada faculdade, cada prédio tinha o seu vestibular e a escola de odontologia era junto com a escola de farmácia, aqui perto da Estação da Luz, num prédio que existe até hoje lá, acho que foi até tombado, um prédio muito bonito, antigo, né? Então, eu vim aqui fazer o vestibular aí para odontologia, me inscrever para odontologia e, naquela época, o vestibular era junto farmácia e odontologia, eram feitos juntos, o pessoal se reunia, que era o mesmo prédio, e eu obtive nota de aprovação, apesar de não ter feito cursinho nem nada e vim mais ou menos assim na base da tentativa. Só que, para completar as vagas de odontologia, vamos dizer, tinham 40 vagas, vamos supor, eles iam pegando as melhores notas, até completar as 40 vagas. Então, os outros que estavam aprovados, apesar de estarem aprovados não tinha vaga, então, eles perdiam o vestibular. Então, o que é que ocorria, o curso de vestibular, a parte de farmácia era muito mais rigorosa. Então, vamos dizer, de 40 vagas que tinham para farmácia dos alunos que se inscreveram direto para farmácia, só entraram, foram aprovados com nota, vamos dizer, 29. Então sobraram 11 vagas no curso de farmácia. O diretor da faculdade que era o mesmo para as duas, os dois cursos, chamou 11 pessoas que estavam na lista de aprovação e falou: "Olha, vocês estão aprovados, vocês não podem fazer odontologia mas podem fazer farmácia", e os 11 aceitaram, né, por que o curso de farmácia dava uma boa base, inclusive para quem depois queria fazer vestibular no ano seguinte. Então, ao invés de você ir para o cursinho, você fazia o curso de farmácia. Foi a idéia de todos os 11: “vamos usar o primeiro ano do curso de farmácia como base para o vestibular do ano seguinte”. Acontece que, não só eu, mas mais alguns dos 11 gostaram do curso de farmácia e fizemos o curso de farmácia. 

 

P/1 - Eu queria entender direito por que essa vontade de fazer odontologia que já vinha antes do senhor fazer prótese lá em Franca, né?

 

R - É, para dizer a verdade, na época, a gente não recebia influência nenhuma para imaginar que devia fazer curso de odontologia, mas eu sei que surgiu a idéia de fazer o curso de odontologia. Então, quando eu estava fazendo o curso científico, porque tem o seguinte, naquela época, se você escolhesse fazer direito ou filosofia, você tinha o curso chamado clássico, você terminava o ginasial e ia para o curso clássico. Se você quisesse ir para farmácia, odontologia, medicina, engenharia, você tinha o curso chamado curso científico, que eram os três anos anteriores à faculdade. Hoje está diferente, parece, o sistema. Então, eu não sei porquê, mas surgiu a idéia. Eu me lembro que eu queria fazer odontologia. 

Eu estava no curso científico, tinha essa pessoa chamada, tinha um consultório de odontologia lá em Franca, o Vicente Latorraca, o doutor Vicente Latorraca, e ele praticava prótese dele na própria...atrás do consultório dele. Mas isso se tornava muito exaustivo para ele, atender a clínica, correr lá, fazer prótese. Então, eu já estava mocinho, no científico, através da família, uma tia que conhecia ele, e eu fui trabalhar com ele de prótese e ele me ensinou prótese. E depois que eu aprendi, ele me falou: "Eu não posso te pagar mas você pode usar o laboratório e pegar serviço de terceiros, de outros dentistas". Então, eu usava o laboratório dele e fazia dentadura, fazia apliques dentários para outros dentistas e, com isso, eu ganhei algum dinheirinho, na época. Não era muito, mas dava para as despesinhas de jovem, de moço, né, e depois que então terminou o tempo, chegou a hora de vir para São Paulo, para a faculdade, aí, então, eu deixei a prótese, né, porque aí eu entrei na farmácia, vou fazer prótese, não tinha...

 

P/1 - Agora, a opção de vir para São Paulo, não havia faculdade na região? Como é que eram as opções de faculdade na época?

 

R - Não, não tinha. A faculdade de odontologia não tinha. Porque eu pensava em odontologia. Não tinha em Franca, não tinha em Ribeirão, na região, ali, não tinha. Então, o mais próximo, inclusive porque eu tinha já os meus irmãos mais velhos estavam morando em São Paulo, tinha tios aqui...

 

P/1 - Então o senhor não era o mais velho dos irmãos, o senhor está em...

 

R - Eu sou o quarto. Os outros três já estavam aqui. Então, eu já tinha a facilidade de tios aqui que podia acolher a gente. Um dos tios nos acolheu aqui, então, teve essa facilidade. Fosse para outra cidade, teria que aí entrar outra despesa que é de estadia, de arrumar acomodação, tudo isso, né?

 

P/1 - Como era São Paulo nesse período, como é que foi essa necessidade do senhor conhecer... o senhor já tinha vindo antes, aqui, por acaso?

 

R - Não, eu já vim direto para estudar e para a faculdade, foi um impacto, né, apesar de São Paulo naquela época ser uma cidade ainda que, quanto tinha, quatro milhões, cinco milhões de habitantes, mas assustava para alguém que vinha de uma cidade de 70 mil, né?

 

P/1 - Mil novecentos e...?

 

R - 1950, 1951, por aí. Mas, São Paulo era uma cidade ainda mais acolhedora do que é hoje. Uma cidade que a Consolação era uma via só com bonde. Então, a gente se locomovia muito por bonde, principalmente a gente que era estudante, que o bonde a gente ainda tinha a facilidade, às vezes, o cobrador não te cobrar. 

 

P/1 - Não cobrava?

 

R - Não dava tempo dele chegar, e você já descia. Não sei se vocês sabiam como funcionava o bonde? O bonde aberto, as pessoas iam entrando no bonde. O cobrador, ele tinha um trilho, assim do lado do bonde que ele ia por ali cobrando. Mas o trilho ficava assim de gente em pé, ali. Então, ele vinha ali se equilibrando, ali, e cobrando. E dava tempo, às vezes, dependendo da viagem que você fizesse, de você entrar no bonde e sair sem que ele chegasse para te cobrar. Isso não era desonesto, não. Era porque fazia parte. Então, São Paulo era uma cidade... no começo, a gente fica um pouco assustado, mas eu me adaptei rápido. Comecei, por exemplo, saía para visitar os tios, para conhecer primos, né, que eram parentes que moravam aqui e a gente só conhecia de nome. Então, comecei a andar, um morava em Pinheiros, o outro morava ali, então, a gente foi se habituando...

 

P/1 - O senhor foi morar onde?

 

R - Eu vim morar, morava aqui na casa de uma tia, tio, uma tia, na Consolação, na Rua Bela Cintra. Era uma vila de casas, casas humildes, mas acolhedoras, né. Mas, era uma vida difícil porque, às vezes, a gente não tinha dinheiro para o lanche, não tinha dinheiro para o bonde; quantas vezes eu fui da Estação da Luz na Bela Cintra a pé, à noite. Hoje, é praticamente impossível você fazer isso. Você seria assaltado. Eu atravessava, à noite, depois da aula, 11 horas, meia-noite, atravessava o Jardim da Luz, à pé, sozinho. Imagina isso feito hoje, é impossível, né? Então, essa é uma vidinha assim dura, mas valeu a pena, né?

 

P/1 - E o senhor trabalhou durante o período da faculdade ou o seu pai...

 

R - É, quando... eu te disse que eu trabalhei um pouco nas obras do Ibirapuera? Então, eu ganhei um pouco de dinheiro ali. E, depois, eu entrei na Squibb ainda quando eu era estudante do último ano, aí eu fui trabalhar na Squibb, né? Aí, já tinha ordenado, e quando fazia hora extra, ganhava a janta. Então, facilitou um pouco o trabalho. Depois daí, foi mais fácil, né, porque a gente tinha facilidade de arrumar emprego, eu me formei, eu já arrumei um emprego melhor, como está dito ali, não sei se seria interessante repetir tudo, se...

 

P/1 - Bom, como é que o senhor entrou na Squibb, foi indicação de alguém?

 

R - É. Tinham vários colegas que trabalhavam, que estavam no curso de farmácia que trabalhavam na Squibb. E, quando o Jânio entrou como prefeito, ele deu um breque nas obras do Ibirapuera, ele quis reformular tudo porque estava sendo feito assim muito atabalhoadamente. Estava havendo, na época, a gente não falava em corrupção, mas estava havendo muita. Então, ele deu um breque, lá, e todos os estudantes que tinham sido contratados para ajudar na obra foram dispensados. Aí eu fiquei meio em dificuldade, já os amigos, "tenta lá na Squibb". Quando eu fui lá para a Squibb, eu me lembro até hoje, o gerente de controle de qualidade lá era o senhor (Fischer?), uma pessoa que trabalhou mais de, talvez uns 45 anos ou 50 anos na Squibb. E ele me contratou e aí... foi quando a gente trabalhava lá de dia e à noite corria para a faculdade. E deu para terminar o curso e, depois de formado, já foi mais fácil porque a gente, naquela época, com diploma na mão, tinha muita facilidade porque a procura de pessoal era maior do que a oferta. E essa situação de procura maior que a oferta durou muitos anos, até quando eu estava na Johnson & Johnson. Aqui em São José dos Campos, teve época de você não ter mão-de-obra. Eu me lembro que a Johnson queria que eu contratasse alguns farmacêuticos para fazer escola com eles e fazer futuro, a hora que sai um tem o outro para repor, e tal, não achei gente por aqui. Fui buscar quatro colegas no Rio Grande do Sul, trouxe de lá, mas não era muito fácil não.

 

P/1 - Bom, retomando um pouquinho dessa exposição...

 

R - É, estou com medo de me perder e começar sair da linha. Você controla aí.

 

P/1 - O senhor pode ficar à vontade, pode trocar o tempo, depois a gente, na montagem da entrevista, a gente vai saber usar isso. Mas voltando um pouco, lá, na sua entrada na Squibb, que função, o que trouxe de experiência essa passagem por lá para o senhor?

 

R - Bom, eu entrei lá para trabalhar na seção de análises de produtos vitamínicos, né? Não, eu entrei para controle de qualidade e comecei lá, o sistema, na época, você passava, ajuda um aqui, faz isso, ele te ensinava alguma coisinha, eu corria uns três colegas lá, fazendo alguma coisa com eles e aprendendo. Quando o seu (Fischer?), que era o chefe, falou: "Não, nós vamos montar uma seção de vitaminas, você vai só trabalhar com análise de vitaminas." Inclusive, tinha uns métodos que vinham dos Estados Unidos que ainda não tinham sido aplicados, que eram muito difícil, ele falou: "Você quer tentar fazer essa metodologia?" Aí, eu fui tentando, tal, tanto que depois de três meses eu estava como chefe desta seção, de vitaminas, de análises de vitaminas. E fiquei nesse setor e treinei mais uns dois colegas que trabalhavam e depois entraram, depois de mim, treinei essas pessoas lá neste setor. Aí, me formei, né, foi quando um colega que tinha, era colega meu de faculdade, era gerente de qualidade no Andromaco, me convidou para ir para lá. E, nessa época, eu tinha um pensamento, apesar de ser muito jovem ainda, pensar muito em objetivos e pensar muito no futuro, mas eu tinha criado uma certa linha para mim, eu falei: "Eu vou, cada vez que me oferecerem um emprego numa situação melhor financeira, eu vou mudar de emprego." Mas até uns 30, 35 anos. Depois eu quero me fixar num lugar para fazer tradição naquele lugar. E foi o que eu fui fazendo. Inclusive, para mim foi uma boa escola porque eu comecei numa escola americana, multinacional americana que é a Squibb. Dali, fui para uma escola espanhola que é a Andromaco, que apesar de ser um laboratório espanhol, a matriz científica era no Brasil. Então, as criações tinham que ser feitas aqui. Então, isso foi muito bom porque a gente tinha um respaldo de lá para criar, para aprender de instrução, de tudo, né, e com isso praticamente eu fui um autodidata nesta especialidade, porque não tinha ninguém que lidasse neste ramo. Nesta época, no Andromaco tinha um senhor, um alemão chamado senhor (Herman?), que apesar de não ser farmacêutico, ele trabalhou muitos anos na Alemanha e veio trabalhar no Andromaco, então, ele tinha uma experiência muito melhor e eu aprendi muito com ele na área de desenvolvimento de novos produtos porque não existia professor para isso, e então eu fui para o Andromaco para justamente trabalhar numa seção de pesquisa de métodos analíticos para produtos porque você fazia o produto e depois... como é que você analisa este produto? Tem que fazer controle, tinha que criar os métodos. Então, é criação mesmo é, um trabalho de muito estudo, a busca de muito livro. Na época, o Andromaco estava muito bem financeiramente, comprou muitos equipamentos, até vidraria ele importou, fizemos uma compra muito grande, montamos uma seção muito... a tecnologia melhor da época foi comprada pelo Andromaco. Então, eu tive chance, tive a felicidade de poder aprender muito com esse material, e como eu tinha ainda na época de estudante publicado trabalho em congresso, tudo, o nome da gente no metier das indústrias, na época não eram muitas, você vai ficando falado e conhecido.

 

P/1 - O senhor falou um ponto interessante que eu queria que o senhor falasse mais: que não eram muitas as indústrias, como é que era o nível de participação farmacêutica da indústria no mercado e em relação à manipulação. Como é que estava ainda a conjuntura de atendimento da farmácia ao público no Brasil?

 

R - Bom, tem dois aspectos: um é a farmácia em si, porque a farmácia nasceu para fabricar produtos e vender; médico receita um produto para você e você corre na farmácia ela faz, como se fosse na farmácia de manipulação hoje, e faz. Mas aí, o medicamento foi se industrializando, foram criando os grandes laboratórios, tal. Então, aqui no Brasil, apesar da Squibb já estar com um laboratório grande, que é o que tem ainda hoje, a Lepetit era um laboratório pequeno, mas a Pfizer já tinha um laboratório bom, a Johnson estava começando com produtos farmacêuticos nesta época, ela era mais produtos para consumidor, produtos profissionais: algodão, talco, mais que medicamentos, mas a indústria farmacêutica era incipiente porque as fórmulas vinham todas das matrizes, vinha tudo a receita pronta. Chegava aqui, tinha que fabricar, o controle de qualidade ainda não era muito... fazia um controle, vamos dizer, relativo, não é, mas bom, o produto era bom, os produtos desde esta época já eram bons, né? A não ser laboratórios pequenos que não faziam coisas muito boas, mas os laboratórios multinacionais, laboratórios de tamanho médio já faziam bem os produtos, porque a tecnologia em si não é muito difícil, né? Vinha a receita e você fazia e a minha idéia era não usar as receitas, era criar produtos aqui, foi o meu trabalho daí para frente. 

 

P/1 - E de ___________ nesse ponto, porque geralmente me parece que as pessoas que se formaram em farmácia se dirigiam mais a trabalhar nas farmácias dando o nome em farmácia ou fazendo o trabalho de farmacêutico mesmo. Agora, o senhor entrou para uma área de pesquisa, eram poucos os que se dirigiam para essa área. Por que essa opção e por que aconteceu isso?

 

R - Não, mas isso aí foi uma mudança de época porque até a minha, uma turma antes da minha, a de 1953, talvez a de 1952, já o pessoal não foi mais para a farmácia, entendeu? Antes o pessoal realmente entrava no curso de farmácia com a idéia de montar uma farmácia, que a gente chama farmácia aí. Então, nas turmas de 1950 para frente, a idéia já não... é entrar no curso de farmácia pensando na indústria, pensando no laboratório de análise clínica e na indústria farmacêutica. Eram as especialidades que mais, os grandes primeiros laboratórios de análises clínicas eram fãs de farmacêuticos; depois é que os médicos também começaram a entrar, mas os pioneiros na montagem de laboratório foram os farmacêuticos. Então, a visão era o magistério em si; naquela época muita gente foi para o magistério universitário porque já começaram a se formar outras faculdades, começaram a criar outros... então havia a necessidade do professor. Então, muitos pensavam, entravam no curso de farmácia pensando no magistério, outros pensavam na indústria farmacêutica, que já estava ficando grande, já estava absorvendo muita gente, o laboratório de análises clínicas, hospitais, todos os hospitais já começavam nesta época a montar suas farmácias com farmacêuticos habilitados, com competência, porque, você vai no Hospital das Clínicas, tem uma farmácia lá com muitos farmacêuticos trabalhando, é uma indústria aquilo lá. A gente fala em farmácia no Hospital das Clínicas, se você for visitar lá, você fica admirado, é uma indústria, e grande, de porte grande. O Hospital do Servidor Público tem uma indústria lá dentro. Faz uma série de medicamentos. Então, os hospitais começaram a absorver também. Por isso que eu digo para você que era difícil se achar um farmacêutico para ocupar uma vaga; todos tinham para onde ir. Formava, não, já vem, como estudante já estavam sendo absorvidos. Então, a indústria farmacêutica foi nessa época que começou a dar uns grandes passos para o que ela é hoje. Hoje ela está em nível internacional e foi dessa época para frente.

 

P/1 - Eu achei interessante esse lado, que o senhor disse que o senhor já fez pesquisa para sais básicos, para drogas dentro do Andromaco, e como era o perfil disso na época, quer dizer, haviam outros laboratórios nacionais, estrangeiros que faziam pesquisas aqui? Que tipo de oportunidade o senhor teve de desenvolver lá?

 

R - Não. No Andromaco era pesquisa de métodos analíticos.

 

P/1 - Métodos analíticos?

 

R - É, métodos analíticos. Não era ainda a criação de novas estruturas químicas, substâncias deste tipo não. Isto daí já era um outro trabalho que absorveu muito farmacêutico também, é uma outra área da pesquisa. Mas nesta época não; tinha pouquíssimos laboratórios investindo nisso aqui, quase ninguém. Eu digo que a Johnson & Johnson trabalhou nisso, que foi quando desenvolveu um sal que vai no Rarical que é o citrato de cálcio ferroso; foi desenvolvido aqui, é um sal básico desenvolvido aqui no Brasil. Não por mim, quando eu entrei na Johnson ele já estava lá e a gente fez algumas melhorias, algumas coisas, mas o sal já... e alguma outra coisa, não me lembro. Aí, teria que fazer uma revisão bibliográfica para ver se tinha mais alguma coisa, ninguém queria investir nisso porque as matrizes já tinham tecnologia. Era muito mais fácil trabalhar na matriz do que você investir em cada país. Então, era melhor você investir lá, mandar para cá e o pessoal aqui criar o produto, que é uma outra especialidade; ok, você tem a matéria-prima para curar alguma coisa e não transformar isso em produto não adianta nada. Então, você tinha que ter um especialista para transformar isso em produto para poder o cliente tomar. 

 

P/1 - Além da Johnson, que a gente já conhece, teve algum outro laboratório nacional, internacional que investiu em pesquisa aqui no Brasil? 

 

R - Teve sim. A Bayer, a própria Lepetit, a Lepetit desenvolveu a fabricação de ____________ aqui. Teve outros laboratórios que desenvolveram produtos aqui. Deixa eu lembrar. Ah, o próprio Lafi. O Lafi desenvolveu a vacina de BCG liofilizada no Brasil, foi um investimento imenso que eles fizeram, compraram liofilizadores na Alemanha, fizeram todo o trabalho aqui no Brasil, aqui na Lafi, aqui em Pinheiros, perto da igreja aqui do Calvário, e uma tecnologia super avançada na época. Até hoje é uma tecnologia avançada, né? Depois, por problemas políticos, houve lá um problema na época do ministro Pinotti, aí houve lá aquelas coisas de política, não compraram a vacina deles, importaram a vacina não sei aonde, aí criou problemas financeiros para eles, né? Mas eles foram pioneiros nisso, na vacina de BCG. E tem os órgãos de criação do próprio governo, como é o Instituto Butantã, absorve muito farmacêutico lá, muito nesse nível, biólogos para a criação de vacinas e tudo isso, mas hoje a indústria já tem muita gente fazendo criações aqui, às vezes, até cópias, mas é interessante, você deixa de importar. 

 

P/1 - Bom, voltando ao Andromaco, o senhor fazia que tipo de desenvolvimento lá de trabalhos, era só controle dos produtos, não é isso?

 

R - É, era o controle. Mas, vamos dizer, o departamento de (fármaco-técnico?), nós lá desenvolvíamos um determinado produto: isso mais isso mais aquilo faz assim, faz assado, fazia um produto novo. Para você fabricar o produto novo precisa ter método de análise, porque você fez e você tem que analisar esse produto. Então, você tem que criar métodos novamente e se você criou o produto você tem que criar porque a matriz, por exemplo, se ela te manda uma receita de fabricação, ela manda já a receita do método, mas quando você cria o produto, você tem que criar o método; você não pode fazer o produto sem ter a análise, na indústria farmacêutica, é fundamental que você analise. Então, não tinha nem profissionais que se dedicavam, porque também não tinha campo de trabalho, eram poucos laboratórios que estavam fazendo isso, né, então, foi até bom porque os que se dedicaram a isso tinham emprego. Então, a gente tinha que estar contratando outros colegas, procurando outros colegas para ensinar isso. Então, foi um início muito bom, eu aprendi muito. Esse colega meu que me levou para lá era uma pessoa muito competente também, ele era competente por dois motivos: porque foi um bom aluno na faculdade e porque ele já trabalhava no Instituto Adolfo Lutz, onde ele absorveu muito lá. Todos os anos de curso de farmácia ele trabalhou lá no Instituto, então, quando ele se formou, ele já tinha adquirido um conhecimento grande e eu absorvi muito dele, né? No Andromaco foi uma escola boa para nós porque era tanto com ele na parte de análise quanto com esse alemão na parte de desenvolvimento de produtos. Aí, foi quando eu me tornei um profissional mais interessante para uma indústria média que era a parte de desenvolvimento e a parte de controle junta. Foi quando Lafi: "Opa, vamos te pegar." Foi quando eu fui para o Lafi para passar um pouco disso. 

 

P/1 - Então, antes de você passar para o Lafi, a gente vai trocar a fita. 

 

[fim da fita 012-A]

 

P/1 - Bom, vamos retomar pelo Lafi, o senhor, a partir do Andromaco vai para o Lafi. Como é que o senhor chegou nesta opção?

 

R - O Lafi tinha uma característica diferente das outras duas anteriores porque a Squibb era multinacional, tinha background atrás dela, o próprio Andromaco tinha a Espanha que era a matriz. A Lafi já era um laboratório nacional, apesar de tamanho médio, é um laboratório que vinha se destacando muito no mercado farmacêutico, porque é uma firma nacional. Na época tinha dificuldade de penetrar neste mercado que é um mercado difícil, sempre foi, e o Lafi teve projeção porque eles cresceram muito, eles criaram o (B-Twelve?) que era um produto, vamos dizer, carro-chefe deles lá e eles ganharam muito dinheiro. Foi quando então resolveram investir em BCG, que fizeram um investimento grande. Mas eles chegaram num ponto que eles precisavam reativar a firma, crescer, criar produtos, foi quando eles, através de uma professora da faculdade, certamente o presidente da Lafi era o __________, não sei se vocês ouviram falar dele, ele foi uma pessoa importante na indústria farmacêutica, e é ainda porque ele ainda tem uma indústria aqui em São Paulo, e ele, talvez através de um pedido de uma professora na faculdade, Maria Aparecida (Pucher?) Campos, que foi catedrática e me conhecia, foi minha professora, ela fez a indicação. Ele me procurou e aí acertamos a parte financeira e eu fui para lá. Para mim era um desafio muito bom porque o que eu tinha de conhecimento de americanos e espanhóis eu já podia... aí não tinha nada atrás, era partir dos meus conhecimentos, da nossa equipe que teriam que nascer as coisas. Então, tivemos um trabalho muito bom, tinha um departamento científico com dois médicos muito bons, porque sempre teve, na indústria tem que ter essa associação do médico, do farmacêutico para fazer a criação e tinham dois muito bons, um, além de ser médico, tinha muito conhecimento de vendas, de mercado, então, através dessa associação nós pudemos criar muitos produtos na Lafi e a Lafi cresceu muito, tanto que pôde fazer um investimento muito grande na BCG e eu tive uma, mesmo na parte financeira, eu tive um sucesso bom na Lafi. Eram sete donos, o (Damar Cooker?) era o que tinha mais ações. Mas eram todos parentes, aquilo era uma família, não era um laboratório tão grande. Então, foi quando eu comprei a primeira casa minha, aqui em Pinheiros, era lá pertinho, e comprei pela Caixa Econômica. Naquela época você comprava uma casa pela Caixa Econômica, as prestações eram fixas, então, você se apertava um ou dois anos depois as últimas prestações. Para você ter uma idéia, ficava mais caro eu ir de ônibus, porque eu tomava o ônibus para ir pagar a prestação na Praça da Sé, na Caixa Econômica da Praça da Sé, custava mais do que o preço da prestação. (risos) Era ridículo, mas tinha que ir pagar lá, o sistema era diferente. Até que entrou um governador aí, não sei quem, que falou: "Olha, quem quiser pagar tudo..." e fez um desconto e a gente foi lá e essa minha casa foi, não sei se eu estou fugindo um pouquinho, mas só para ter, a minha casa foi desapropriada pela prefeitura e hoje passa o viaduto Sumaré, ligação Sumaré - Henrique Schaumann, em cima, ela foi destruída. Mas nesta época eu já estava em São José, quando desapropriou a casa, ela estava alugada aqui e o que a prefeitura me pagou, eu fiz outro bom negócio lá em São José, financeiramente foi ótimo. 

 

P/1 - E o senhor já estava casado?

 

R - Já. Eu me casei quando eu estava...

 

P/1 - Como é que o senhor conheceu a sua esposa? Como é que foi essa história paralela?

 

R - A minha esposa é lá de Franca também. Comecei a namorar lá, a gente se conheceu lá.

 

P/1 - Já foi lá no footing mesmo?

 

R - É. Foi neste tempo aí de moço. Aí, tem aquelas coisas de namoro, uma hora você namora, depois desnamora, mas eu me casei em 1956, trabalhava no Andromaco, tanto que eu morava lá perto, numa casa alugada, a vida muito dura porque apesar de eu ter um salário razoável, na época, era tudo difícil, tinha que ajudar um pouco o meu pai, mandar um pouco de dinheiro para lá, para Franca.

 

P/1 - Dá uma interrompida. Bom, eu não me lembro de onde a gente parou mais.

 

P/-2 - Casamento, né?

 

R - É casamento. Então, eu me casei quando eu estava no Andromaco, até tem uma curiosidade, não é?, você convida os diretores da empresa, tudo, na hora que eu entrei na sala do meu chefão lá, não era o meu chefe, era o chefão dele: "Olha, eu vim trazer um convite do meu casamento, tal", ele falou assim: "Você sabe que eu não posso estar aqui nesta data, eu estou..." - ele viajava muito, era um homem super importante - "...eu não vou estar aqui, não vou poder ir, meus parabéns, muitas felicidades, eu vou mandar te dar um aumentinho no ordenado, vai ser o meu presente." - "Ah!, muito obrigado." Aí, quando foi o quê, quase 30% de aumento. Inflação quase zero, você ter um aumento desse é uma felicidade e eu falei: "Pô, já aliviou um bom tempo."

 

P/1 - A inflação era uma preocupação para vocês naquele período a nível de estar presente?

 

R - Não. A gente... até era uma discussão que não se tinha na época, né? É engraçado nas épocas, não era uma preocupação. A gente, a busca de melhores salários, não era como é hoje. Hoje, os sindicatos procuram as tais de isonomia. Naquela época, não. O melhor subia, tinha o melhor salário, a empresa podia valorizar o que estava dando lucro para ela. Então, não é porque você tem a mesma função que eu, estamos trabalhando, você faz N coisas e eu faço uma coisinha e você vai ganhar a mesma coisa, você tem que ganhar muito mais. Então, a empresa, a busca do salário era através da competência, não era através de sindicato, esperar o sindicato te igualizar a um outro cara que ganha bem para você ter aumento. Então, era diferente. Mas, com isso, ainda quando eu estava no Andromaco, eu tive os dois primeiros filhos, né, quando eu tive o terceiro filho já tinha passado para o Lafi e morava ali do lado, pertinho da Arcoverde, ali onde vocês têm o escritório que o Lafi é um prédio bonito que tem do lado da igreja do Calvário que tem perto do cemitério, ali. 

 

P/1 - E a sua função lá no Lafi, qual era? O que o senhor fazia?

 

R - Bom, era a mesma função de sempre que eu tive a vida toda, desenvolvimento de produtos e controle da qualidade, era a especialidade que eu escolhi. Mas aí, foi no tempo do Lafi que eu tive que comprar a casa, e foi quando eu tive que ir em busca de outros empregos; eu fui trabalhar, eu fui dar aula no Pucca e dava aula à noite e tive um emprego na farmácia do Hospital do Servidor Público, que eu dava assistência lá no meu horário de almoço mais uma hora que a empresa me deu para ficar lá. Mas, isso foi de oito meses a um ano, não estou bem lembrado, foi um contrato, e nesse tempo nós criamos uma equipe para tocar a farmácia do Servidor Público e tem alguns funcionários, ainda hoje, que estão lá e que foi da época que eu levei para montar a equipe. Quer dizer que isto mostra que o trabalho que eu fiz foi bom lá. 

 

P/1 - O senhor desenvolveu algum produto neste período que se tornou conhecido, do Andromaco, do Lafi?

 

R - No Andromaco, a gente ainda tinha um pouco do que seria das receitas lá da... o que nós fizemos muito foram melhorias de fórmula; melhoramos o Hipoglós, por exemplo. O Hipoglós era o carro-chefe, na época que eu entrei no Andromaco, era um produto feito ainda com, eles compravam o fígado de cação em Santos, trazia ali para o Cambuci, aquilo virava um mal cheiro, os vizinhos reclamavam, era um inferno, e nós fomos mudando essa tecnologia, usando substâncias sintetizadas. Hoje não tem mais nada a ver, a fórmula é moderna, no meu tempo já estava, nós modernizamos, o fígado de cação já vinha extraído o óleo, hoje já nem se coloca mais o óleo, acho que só se coloca a vitamina A direto, puro assim, sem... então, são melhorias assim que a gente foi fazendo. O Lafi tinha um produto, tinha uma linha com uma característica interessante, ele tinha um produto para expectoração com fórmulas assim muito antigas, muito ruins de sabor, as pessoas não conseguiam tomar, então, a gente foi melhorando tudo isso para aumentar as vendas e dar uma rentabilidade para a empresa, e tinha uns xaropes para tosse também, então a gente fez muita melhoria dessas formulações. O principal produto que eu acho que é uma das coisas melhores que nós fizemos foi realmente melhorar o Hipoglós, que era o carro-chefe, era 60% das vendas, né, então, qualquer coisa que você pudesse melhorar no produto, a rentabilidade vinha em seguida, né?

 

P/1 - Até hoje é o carro-chefe?

 

R - E felizmente teve uma coisa também, eu sempre tinha... do lado de cientista você tinha que ter preocupação financeira. Porque não adianta você ir para uma firma, criar um produto que não vende nada, dá prejuízo, os caras te mandam embora. Então, a gente tinha que estar pensando num produto que, além de ser bom como ciência para a saúde humana, você tinha que pensar que vai dar lucro para o laboratório, se não, não se interessaria nada por isso. E no Lafi nós também, acho que a participação nossa foi bem boa porque nós, eles tinham um produto muito bom além do (B-Twelve?), que era o carro-chefe, eles tinham o Rebalsin, não sei se vocês já ouviram falar, o Rebalsin, que nós fizemos uma melhoria de tecnologia de produção para melhorá-lo para atividade e a qualidade do produto. Isso foi muito importante para eles e eles nesta época fizeram um convênio com o Japão e nós lançamos a (Canamicina?) no Brasil, e eles tiveram assim, financeiramente, uma vantagem muito grande, porque a Lafi foi pioneira no lançamento da (Canamicina?) no Brasil. Era um antibiótico de largo espectro na época, importantíssimo e a fórmula fomos nós que fizemos.

 

 [Pausa]

 

Então, terminando essa informação do Lafi, eu acho que esse trabalho da (Canamicina?) foi muito importante porque nós nos fixávamos naquilo que era mais importante e esse trabalho da (Canamicina?) foi muito importante; depois lançamos um outro antibiótico, o (Colemicina?), também foi pioneirismo do Lafi aqui no Brasil, que era um antibiótico do Japão que nós fizemos aqui; e depois veio o BCG que foi um trabalho muito bonito também científico porque lançou-se a vacina BCG liofilizada no Brasil na época que não tinha, só não deu rentabilidade porque houve problema político no meio, mas aí já não podia fazer nada, né, já era coisas de outras áreas.

 

P/1 - Bom, do Lafi o senhor vai para a Johnson, já?

 

R - Do Lafi eu tive uma passagem de oito meses na Lepetit, que o Lafi, depois desse problema com a BCG, tivemos uma queda boa financeira e a situação não estava boa, eu via que se a gente saísse era até bom para eles. Se bem que, quando pedi demissão, o pessoal queria virar o mundo mas não queriam que eu saísse, né? Mas o Lepetit me fez uma oferta que eu disse para eles que: "Não tem condição." Financeiramente era muito boa, em termos profissionais, melhores ainda, porque eu ia viajar para a Itália, ia conhecer a matriz lá, ia ter outras exposições em termos de desenvolvimento profissional. E na Lepetit o projeto que acho que foi mais importante, para falar mais rápido, foi a criação da molécula que eu iniciei os estudos de se fazer a combinação de (Colafiniscol?) com Estreptomicina que, nossa!, deu uma vibração no pessoal enorme porque se a gente tivesse conseguido isso, seria um furo científico até. Mas depois, nesse ínterim, entrou a Johnson no meio com outra oferta que eu falei, “bom, de todas as escolas que eu tive, da brasileira, da espanhola, da americana, a que eu menos gostei, apesar de ser de origem italiana, foi o sistema deles”, entendeu? Eles não te dão muita liberdade, no ramo que eu tinha escolhido tem que ter muita liberdade, você não tem que ter preocupações outras de fiscalizar empregados, saber se o empregado... e eles faziam muita questão disso, né? Na área científica todo mundo tem que estar é pensando, não adianta. 

 

R - Então, apesar deles gostarem muito de mim e eu gostar muito deles até hoje, acho que não era aquilo que eu estava querendo. E, além do mais, ainda chega uma proposta muito boa da Johnson & Johnson, aí então eu fui para a Johnson. Eu já estava na idade que eu falei, agora vou me fixar. E tanto segui mais ou menos os meus objetivos que eu entrei na Johnson e não sabia que a Johnson já tinha um plano em dois anos de mudar para São José dos Campos, a Johnson Farmacêutica, e tanto depois de uns meses que eu estava lá, aí eles começaram a trabalhar no projeto de mudança, construção da fábrica. Eu conversei com a minha esposa e falei: "E agora, eu vou sair, eu vou sair, pô, eu estou aqui há pouco tempo, mas eu vou embora. Eu vou procurar, não vamos sair de São Paulo." 

 

P/1 - Foi em 1960...

 

R - 1970. A Johnson mudou em 1972 e isso deve ter sido em 1971, 1970. 

 

P/1 - O senhor entrou em 1969?

 

R - Em 1965. 

 

P/1 - Em 1965?

 

R - É, em 1965. Aí, eu pensei em sair da Johnson. Mas depois, o desafio de ajudar a montar uma fábrica nova, sabe, seria ter que usar muito, ajudar nos desenhos da fábrica, começar do alicerce, aquilo começou a encantar, né, uma situação nova, diferente. Aí eu falei: "Bom, eu vou fazer o seguinte, eu fico aqui, a gente monta a fábrica lá, mudo para lá, você não vai, fica com as crianças aqui e eu fico um ou dois anos no máximo e se for bem, gostar, muda, senão, eu saio e venho. Mas, pelo menos, eu vou aprender mais alguma coisa, que é passar por todo esse processo de construir uma fábrica, tanto na área de pesquisa quanto de construção." Foi tudo construído novo lá, coisas, o que tinha de melhor. E quando a Johnson mudou a Farmacêutica para lá, foi em julho. Eu deixava a família aqui e viajava, ficava a semana lá e vinha de fim de semana. Pelo menos vamos esperar um teste de seis meses, se eu gostar, a gente muda. E acabei, e eu gostei muito, né? As crianças, que eu levava lá de fim de semana para conhecer a cidade, também foram gostando. É uma cidade menor. Aí: "Vamos ficar um ano aqui?" “Vamos." Aí, comprei uma casa lá e mudamos. Meus filhos, depois de um mês, dois meses, não queriam nem ouvir falar em São Paulo. O mais novo, nem passear aqui não quer vim. Acostumaram de tal maneira lá que aí ficamos, né? Não sei se ainda tem mais tempo?

 

P/1 - Tem. Fique à vontade.

 

R - Aí mudou a vida da gente, porque são escolas diferentes, mudou tudo, tanto mais na vida, vamos dizer, particular, que mudou muito porque na profissional, veio da seqüência, de continuar fazendo o que estava sendo feito, mas na vida particular, nossa!, mudou muito, as crianças mudaram de escola, em São Paulo a gente tinha uma casa pequena, já fomos para uma casa grande, boa em São José, deu, o que eu vendi, entrou de gratificação da casa que foi desapropriada, tudo isso criou ambiente para a gente financeiramente ficar na melhor. Já deu para comprar um carro melhor, participar mais da sociedade lá, porque eu fui morar perto do Tênis Clube, já entramos de sócio no Tênis Clube, que era o top da cidade, então a gente já partiu para um ambiente melhor, mais fácil comunicar com os outros colegas da Johnson, tinha facilidade de se encontrar; aqui, a gente não tinha convivência quase até com os colegas de trabalho. E o que ficou de difícil para mim foi o seguinte: sempre fui uma pessoa que participei muito da vida associativa da minha profissão na União Farmacêutica de São Paulo, na Sociedade de Farmácia e Química de São Paulo, onde eu fui inclusive secretário geral. O próprio Sindicato dos Farmacêuticos, que na época era um sindicato profissionalizante, não político, eu participei muito, fui secretário, e depois que eu fui para São José, eu comecei a deixar porque sair de São José... No começo eu vinha muito a São Paulo para reuniões, reunião científica, reunião disso, mas foi, vai minguando e a gente vai cansando de tudo, isso eu senti muito isso, não é? Depois, nós criamos uma associação lá, a Associação dos Farmacêuticos nós criamos lá, que é justamente para dar continuidade neste tipo de coisa, reunião entre os colegas e todo o pessoal. E na parte profissional, felizmente a gente foi desenvolvendo muita coisa, a Johnson deu muita oportunidade de viajar, criamos uma linha, a linha Johnson foi quase toda criada nova, então tivemos oportunidade de fazer muitos produtos para a empresa, e depois assumi a responsabilidade técnica, tive aquela passagem que foi muito boa para mim, não sei se foi para a empresa, mas foi para mim, eu entrei como interino para gerenciar a produção, ficar alguns meses, e acabei ficando quase três anos e eu aprendi muito também nesta fase. Então, profissionalmente, para mim foi bom, acho que deve ter sido para a empresa também. 

 

P/1 - Eu queria entender como era a Farmacêutica, o setor farmacêutico quando o senhor conheceu, quando o senhor entrou e em que função o senhor foi admitido?

 

R - Eu fui admitido na área de (farmaco-técnica?), que é o desenvolvimento de novos produtos e a Johnson estava recém... com presidente novo, que era o senhor Sanches, e recém com a compra, uma aquisição de uma empresa nova chamada Janssen, na Bélgica. A Janssen é um dos maiores laboratórios do mundo de criação de moléculas novas. Então, eles estavam criando muita molécula nova e precisava de gente para transformar isso em produto. Então, veio daí os produtos para a neuroleptoanalgesia que foi lançado na minha época, os anti-helmínticos como o Levamisol, o Mebendazol, isso aí muita gente vai falar disso, vocês vão se acostumar com essas, né, Cinarizina, quanto trabalho nós tivemos na Cinarizina para lançar o Stugeron. Na época, o gerente dessa área era o Ronaldo (Migliacci?), uma pessoa formidável que faleceu muito jovem, e nós tivemos um trabalho intenso para ter este produto no mercado.

 

P/1 - Eu queria entender uma coisa, os laboratórios fazem as moléculas nas matrizes e aqui são desenvolvidos os produtos completamente diferentes do que se faz na Europa ou os produtos vêm com fórmulas também? Essa idéia de produtos novos é que eu quero entender.

 

R - Não. No caso da Janssen, por exemplo, eles têm um sistema computadorizado para desenvolver moléculas, então, ali vai saindo e o departamento, vamos dizer, o objetivo maior deles é esse, então, o departamento de (fármaco-técnica?) e desenvolvimento de produtos novos nem sempre consegue acompanhar e fazer tudo. Então, algumas outras, a Johnson do Brasil podia fazer um determinado produto com uma fórmula, a Johnson da Argentina também, pegar uma outra substância e fazer um outro produto, às vezes, eles já mandavam, alguns produtos já vinha tudo pronto. Hoje em dia, eu tenho a impressão que a Johnson está trabalhando só com fórmulas já prontas, já vem tudo pronto. Eu tenho impressão que eles agora já estão dando conta de fazer isso lá. Não sei mais, que já tem mais de dez anos que estou fora da Johnson, né? Não sei como está lá mas, na época, a gente criava, e depois as crises que passaram a indústria farmacêutica nestes últimos anos que eu tive lá, chegava a ponto de o CIP, por exemplo, o governo tinha um órgão CIP, que controlava o preço da indústria, então, não deixava aumentar; a matéria-prima aumentava, não podia aumentar. Então, a gente criava programas junto com o pessoal de vendas, junto com o pessoal de custos, chamados PIPs, Profit Improve Programmes, você tinha que pegar uma fórmula e, de alguma maneira, fazer com que ela ficasse mais barata. Ou fazendo uma compra melhor de matéria-prima, então entrava o pessoal de compras, ou vendas, fazendo uma estratégia de vendas para vender mais, enfim, e, na nossa área, mudar alguma coisa para que ela se tornasse, sem perder a qualidade, mais barata para você manter a rentabilidade da empresa. Então, isso foi feito muito e a gente mexeu muito nisso, tivemos sucesso, algumas vezes, de conseguir reduções boas e interessantes para a empresa. 

 

P/1 - Bom, vamos trocar a fita antes dela fazer a pergunta que já chegou no final dessa. 

 

[Fim da fita 012 - B/D]

 

P/1 - Então, eu queria que o senhor contasse como era o desenvolvimento de produtos, o segredo industrial que havia por trás disso no caso particular da Cinarizina.

 

R - Eu falei da Cinarizina porque a Cinarizina foi uma molécula desenvolvida pela Janssen, na Bélgica, e o senhor Sanches, presidente da empresa, trouxe isso no bolso porque, sabe, a espionagem industrial é terrível. Então, ele me deu isso no laboratório, me explicou o que tinha que ser feito, eu fui correndo fazer os comprimidos para que o ____________ que era _________ do produto contatasse a área médica fora da empresa que fazia os ensaios clínicos para começar lançar esse produto. A Janssen mandou a matéria-prima mas não mandou nem métodos analíticos, isso veio muito depois, mas nós já tínhamos criado o produto. Inclusive formato de comprimido, nós é que tivemos que criar, não é? E assim foi também com o Mebendazol, um vermífugo. Assim mesmo, depois que a Johnson lançava esses produtos tinham laboratórios, acredito que italianos, que de alguma maneira sintetizavam e logo depois tinha quatro, cinco, seis, sete concorrentes daqui já fazendo no Brasil, para quem não tem, podia pedir patente ou seguro de patente, ou qualquer coisa neste sentido, né? Então, a Johnson lançou o Tetramisol, saiu vários laboratórios lançando Tetramisol; a Johnson lançou o Levamisol, vários outros lançaram; e foi assim com todos. Só a Cinarizina que demorou muito mais para entrar concorrente porque era uma estrutura mais difícil e tal, né? Então, sempre foi para os laboratórios, foi sempre uma guerra essa parte de matéria-prima nova porque senão os concorrentes eles saíam juntos ou até antes do próprio laboratório criador, né?

 

P/1 - Que outros produtos importantes o senhor participou da criação?

 

R - Eu costumo citar que uma das coisas muito importantes da Johnson & Johnson Farmacêutica foi a, na época, a gente chamava de neuroleptoanalgesia. É uma combinação de três produtos para fazer o que ainda hoje a analgesia sem gás, sabe, você vai fazer... tomar anestésico, fazer cirurgia, você põe gás, depois a volta da anestesia é um trauma terrível, então, essa neuroleptoanalgesia foi uma criação de uma substância chamada Fentanil e uma outra chamada Droperidol que foram criadas pela Janssen e que até hoje estão, pelo conhecimento meu, ainda continua só a Johnson tendo. Só a Johnson tem e todo hospital, toda a cirurgia o pessoal tem que usar, a maioria, a grande maioria, né, não são todos, mas eu acho que... eu participei desse lançamento, foi justo quando eu entrei na empresa. Até tem um fato importante porque os estudos clínicos pelas equipes que foram criadas, nessa época quem cuidou... o gerente de produto era o João Alfredo, não sei se ele faz parte da, poderá até falar até melhor do que eu, foi muito importante isto para a indústria farmacêutica, a Johnson e para a coletividade médica hospitalar, e os estudos clínicos foram feitos com as ampolas e o produto vindo pronto de lá; é um produto altamente potente, 1/2 miligrama num frasquinho de 10 ml, não sei se você tem idéia do que seja isso, é potentíssimo; para mim é a droga mais potente que eu já lidei. Então, vinha pronto de lá e estava sendo preparada a fabricação aqui no Brasil quando eu entrei na Johnson, tinha que fabricar o produto. Acontece que na Europa eles usavam um batoquinho de nylon e esse batoquinho não existia no frasquinho de vidro, não existia no Brasil. 

 

P/1 - O que é um batoque?

 

R - Batoque é aquele vidrinho, aquela ampola que vai os injetáveis tem um arozinho de alumínio, entre o aro e o produto tem um batoquezinho, não sei se você já reparou, geralmente uma borrachinha vermelha ou azul, e lá eles usaram um batoquinho de nylon, e quando nós fomos fabricar aqui, já tinha até alguma coisa fabricada experimentalmente, eu notei que... "E daí, como é que nós vamos fazer, nós não temos esse batoque", eu ia usar o de borracha, - "põe o de borracha, não pode, espera aí, vamos ver". E eu fui analisar, se tivesse lançado, se eu não tivesse entrado na Johnson, se tivesse lançado com o batoquinho de borracha teria sido um insucesso total porque aquele batoquinho de borracha absorvia a substância. Então, não tinha batoquinho de coisa, já estava para lançar o produto, os médicos já estavam querendo, tudo pronto para o lançamento, aí eu tive a idéia de saturar a borrachinha antes para evitar... que é uma tecnologia, então foi isso, um sucesso que está até hoje.

 

P/2 - Qual é o produto?

 

R - É, são três produtos: um chama Fentanil, o outro chama Droperidol e o outro chama Inoval. Agora eu não sei se... como é que está isso na Johnson porque não, eu sei que ele está vendendo porque ninguém está fazendo, pelo que eu saiba ninguém faz, só eles. Eu tenho impressão que alguém vai falar até mais sobre isso porque na minha ótica foi muito importante esse lançamento aqui no Brasil.

 

P/1 - Houve algum outro importante assim, algum composto que tenha sido elaborado aqui autonomamente?

 

R - Tem as associações que nós fizemos aqui, inclusive junto com o doutor Martins Campos, eu não sei se ele vai estar participando, Resprin, Coldrin, nem lembro mais da linha Johnson. 

 

P/1 - O Resprin foi criado na sua fase?

 

R - Foi, foi. 

 

P/1 - Foi o senhor que criou?

 

R - Foi o grupo nosso. Aí já é uma equipe, né? 

 

P/1 - Como é que se planeja um produto desse? Por que se tem a idéia de lançar esses produtos?

 

R - Olha, as idéias podem ser de várias maneiras, por exemplo, pode ser o pessoal de mercado, o pessoal que está na frente de vendas, é... eles têm um pedido por um médico: "Puxa, tal, isso assim, tem um bom medicamento, eu dou isso não resolve muito, dou aquilo não resolve muito." Então, ele dá a necessidade. Então, o homem de campo, que está ali na frente, ele vem com uma notícia: "Olha, existe uma brecha aqui, os médicos estão dizendo que não tem um produto bom, os que têm não estão agradando." Então, você já tem que bolar um produto para entrar ali, é uma maneira. A segunda maneira é você estudar e apresentar um produto: "Olha, para que isso?" No laboratório você cria e fala: "Esse é um produto para esse mercado. Eu, pelos meus estudos, cientificamente ele é ótimo e tal." Aí, o homem de campo vai lá ver no campo se é ou não é. Às vezes, ele fala: "Cientificamente ele é super bacana, mas não vai dar." A não ser que seja institucional até valha a pena. Então, esses são os dois caminhos mais importantes: o que vem do campo para você criar o produto para aquela necessidade, está havendo a necessidade daquilo, ou você cria um para um determinado mal. Então, são as duas maiores fontes. Ou, às vezes, por exemplo, você tem um outro laboratório que tem o carro-chefe, é tal produto, que vende uma barbaridade; você tem condições de fazer um melhor, aí, você chega, faz o melhor e propõe ao departamento de vendas, ou para o departamento científico da empresa: "Olha, eu fiz aqui e é muito mais interessante esse aqui para o mercado e tal." E eles vão fazer as análises deles, o marketing de venda, o interesse científico, o interesse financeiro, tal, são as duas maneiras que já normalmente se segue, né?

 

P/1 - Mudando um pouquinho de assunto, a Farmacêutica sempre foi considerada ou a elite ou a área mais séria da Johnson, né? Como é que o senhor descreveria o ambiente de trabalho, o tipo de convivência dentro da empresa?

 

R - Sempre foi muito bom, sabe, a Johnson sempre deu muita abertura porque, como você está dizendo, realmente é uma elite, porque são produtos que vai diretamente... você imagina Flupac, por exemplo, é um produto que você injeta na veia dentro do coração para tirar uma radiografia, tem que ser um produto muito bem feito, senão você mata a pessoa. Este Fentanil, por exemplo, é um produto que você vai anestesiar uma pessoa para cortar ela inteirinha e não pode sentir dor. Se você erra no produto, a pessoa morre de dor ou morre do corte, entendeu? Então, são produtos muito científicos. Todo o pessoal que eu lidei na empresa foi tudo sempre gente de gabarito, gente, vamos dizer, de alto nível, que sempre lidou nesta área, gente muito séria também, tem que ser séria, né? Então, o ambiente sempre foi muito bom. A Johnson sempre teve abertura para biblioteca. A Johnson, quando eu saí de lá tinha uma biblioteca espetacular porque você não vive sem livros, quem está neste ramo, o livro é importantíssimo, e a Johnson sempre deu o que há de melhor para a gente, para manter a gente sempre atualizado, viagens, a gente sempre viajou para a Janssen, eu fui várias vezes lá, mesmo nos Estados Unidos, para manter contato, para ver. Então, o ambiente sempre foi muito bom, inclusive a gente reunia o pessoal todo dessas áreas importantes para fazer palestras um para o outro, abordava-se um determinado assunto, alguém fazia um estudo muito profundo daquilo, depois, fazia uma pequena conferência para transmitir as informações científicas. Então, sempre teve muito, a Johnson sempre patrocinou, eu louvo muito a Johnson neste sentido de dar essa abertura para o pessoal. Há os que se aproveitam disso e se desenvolvem, crescem, estudam, e há os que acabam só fazendo a rotininha dele, isso há também, isso em toda a empresa, em todo o lugar tem aquele que se dedica menos, que não tem muito interesse. Mas isso, felizmente na Johnson foi sempre uma minoria. Acho que é por isso que a Johnson cresceu muito na área farmacêutica. O único “senãozinho” que eu faço para a Johnson, porque eu acho que propaganda na televisão, tudo bem você anunciar Resprin, você anunciar esse produto, tudo bem, mas anunciar Gastran, porque a gastrite é uma moléstia muito importante, ela envolve bactéria, envolve um tratamento muito específico, sabe, é uma coisa muito científica para você anunciar e dar aí para o pessoal anunciar na televisão. Mas faz parte do negócio, tem que anunciar, por exemplo, Analgesin, ou senão o anestésico que o Luciano do Valle anuncia, tudo bem, isso aí, como Gelol, eu acho que está certo. O Gastran eu fiquei um pouco preocupado, eu achei que saiu um pouquinho da ética nossa lá, pelo menos no meu pensamento, né, que eu acho que você não deve anunciar nada para gastrite, porque a gastrite é uma doença grave, mas eu já não sei mais, aí é conceito, cada um pensa de uma maneira. Bom, isso aí quando você for colocar...

 

P/1 - Eu queria que o senhor visse duas questões: qual foi o momento de maior crise e o momento de maior desafio que o senhor enfrentou na carreira dentro da Johnson?

 

R - Bom, o maior desafio para mim na Johnson foi quando saiu o gerente de produção e eles me pediram para substituir, mesmo que interinamente. Acho que foi um desafio muito grande porque eu nunca tinha assumido uma função desse tipo, sempre trabalhei com pessoal de nível muito alto, né, na área científica, sempre controle, desenvolvimento, sempre tendo poucos funcionários e de alto gabarito. Então, é uma conversa diferente. Quando eu assumi a produção, para você ter uma idéia, eu saí de dez, 12 funcionários que eu tinha, pessoas que se reportavam a mim, a quase 300 pessoas. Aí você tem todos os níveis. Então, para mim foi um desafio grande que eu até fiquei com medo de assumir, na época, e falei com o meu chefe, eu estou falando chefe, mas o meu gerente lá que eu falei: "Olha, eu tenho receio." Era o senhor Konig, eu não sei se ele está participando aí também, eu fiquei receoso mas como era um desafio e era interino, se não der certo, eles dão um jeito de arrumar logo alguém para ficar no lugar, se der, a gente vai tocando. Então, esse foi um desafio que assumi porque todas as vezes que mudei, nunca fui preocupado, não sei, eu tive sempre muita confiança no que fazia, do que eu não sabia corria na USP para aprender, sempre soube procurar onde aprender, né? Mas esse desafio fiquei assustado, acho que fiquei quase três anos lá, pelas datas, agora, vendo na carteira que vi que fiquei três anos. Mas, aquilo para mim foi um ano só, mas eu sempre, foi os três anos, dois anos e meio que mais tive preocupações, que levei preocupações para casa, porque sempre queria resolver, levar as coisas tem que estar resolvidas, senão, preocupava, sabe? Então, foi uma época, para mim, mais difícil porque eu não conhecia bem muita coisa; não conhecia porque tinha que tomar conta da área de manutenção e nunca tinha visto isso. Então, aquilo me preocupava, de fazer coisa errada, entendeu, de tomar decisões erradas, foi um desafio que me preocupou muito, né? E o outro? 

 

P/1 - Crise, momento de crise.

 

R - É, eu acho que eu não sinto ter tido um momento de crise, acho que a crise, o que senti mais é que nos últimos dois anos, talvez, que eu já tinha me decidido a esperar o momento para sair da empresa, sabe, já vai vindo aquilo de sair, e vivi muita inquietação porque, na realidade, não sabia se queria sair realmente, queria e não queria. Então, acho que isso criou uma angústia dentro de mim que durou uns dois anos. E foi justamente os últimos dois anos. 

 

P/1 - Era a hora de sair mesmo?

 

R - É, então, senti que era hora de sair. Depois, a Johnson já estava com um ambiente inclusive modificado, o senhor Sanches já tinha saído, deixado a presidência há muito tempo, já tinham passados outros presidentes, com outras mentalidades, então vai criando aquela angústia, será que ainda é momento meu, se não é? Então, o que eu senti, realmente, que me lembre, podia dizer que na época de mudança também de São Paulo para São José tenha criado um pouquinho, não foi? Senti que nos últimos dois anos foram mais angustiosos mesmo, porque a dúvida de tomar a decisão de sair ou não sair é que me deu muita inquietação. Em todo caso, às vezes, para me consolar a mim mesmo, digo, “bom, preferível ter tido a angústia de pensar em sair ou não sair do que me angustiar depois de ter sido mandado embora”, isso aí seria muito pior, ou ter sido convidado a sair, que é muito pior, “aí, a gente... falhei, né?” Mas, na vida toda da gente, na época, a gente sofre muito. Agora já vi que foi uma passagenzinha que não teve tanta influência assim.

 

P/1 - Bom, antes da gente entrar numa conclusão, eu queria só que o senhor falasse sobre a questão da qualidade, que foi um assunto que também foi a área profissional sua direta, né, como é que se garante qualidade na indústria farmacêutica, como é que o senhor avaliaria a Johnson e isso dentro do Brasil?

 

R - Bom, eu coloco a Johnson junto com, no mesmo nível de outras empresas grandes como a Glaxo, a Squibb, a Lepetit, a Pfizer, porque eu conheci todos esses laboratórios, a ___________________, a antiga (Sidney Ross?) no Rio, eu conheci todos esses laboratórios, fazia visitas através de amigos, para a gente ver o nível, trocava até idéias com outros gerentes de qualidade de outros locais. A Johnson sempre teve um padrão altíssimo de qualidade, sempre. Todo o tempo que eu trabalhei lá, 20 anos, sempre a preocupação principal, primordial, era a qualidade, depois o resto do produto. Isso era todo o pessoal que trabalhava com a gente, mesmo o gerente de qualidade da Johnson, eu na área desenvolvimento de novos produtos, enfim, a gente visava a qualidade, seguia os guide lines internacionais, seguia os polices internacionais, sempre fiz questão de seguir, não é? E o padrão nosso, o padrão sempre foi de nível internacional, o nosso produto aqui não tem diferença nenhuma de feito na Bélgica, ou feito nos Estados Unidos, ou em qualquer outro lugar.

 

P/1 - Mudou muito de quando o senhor entrou até o final essa questão de segurança da produção da qualidade, dos padrões, de como garantir, técnicas de garantia?

 

R - Não. Todo o tempo que eu tive na empresa sempre foi mantido o nível alto de qualidade. Já estou há dez anos fora de lá. Agora, destes dez anos, de lá para cá, não sei mais, tenho a impressão que continua porque era uma filosofia de trabalho da empresa; agora não sei como está, mas aparentemente, tirando esse negocinho do Gastran aí, acho que a Johnson, pelo menos no nosso tempo lá, a gente fazia questão disso, né?

 

P/1 - Tem mais alguma coisa a acrescentar?... Então, eu queria que o senhor concluísse fazendo uma avaliação para a gente, como é que o senhor avalia a sua vida profissional como um todo, assim, as suas realizações. Tem algum sonho que ficou pendente, como é que é? 

 

R - Bom, me senti, tem gente que pensa de duas maneiras, né: a realização profissional em si, como profissional, e a realização usando a profissional financeiramente, né? Eu me sinto realizado das duas maneiras tanto como profissional, porque atingi um ponto razoavelmente, não vamos dizer nota 10, não vamos dizer que tenha sido o Pelé da história, mas cheguei assim a ser Juninho, a ser, entendeu?, não sei se está entendendo a colocação, né? Atingi um ponto bom porque conheço muitos colegas que não conseguiram, da época, atingir até onde eu fui, né? Com trabalho meu, com ajuda das empresas onde trabalhei, todas deram muito apoio, felizmente, tive tudo isso, né? E financeiramente, acho que profissionalmente foi mais do que financeiramente, podia ter sido melhor financeiramente, né, mas não me queixo não, para quem saiu de um menino de muita dificuldade e chegou a ter um patrimoniozinho razoável, tenho essa empresa montada, está engatinhando ainda mas... não sei se vai chegar a ser uma Johnson & Johnson, mas nem quero. Quero que seja, que continue uma firminha pequena, mas os filhos é que vão depois ter que se virar.

 

P/1 - O senhor faz o quê nesta empresa?

 

R - Bom, por enquanto eu estou orientando o filho, o Luís é que está tocando. Eu tenho feito tudo lá. Por enquanto que a empresa está começando, a gente está fazendo de tudo lá. Aquelas coisas que na Johnson eu fazia um memorando pedindo uma matéria-prima, eu é que tenho que correr atrás, agora, né?

 

P/1 - E o senhor produz o quê?

 

R - Eu estou produzindo... uma firma de produtos veterinários, né? Inclusive, eu estou fabricando uma matéria-prima para exportação, já estou exportando alguma coisa, mas ainda a firminha é pequenininha. 

 

P/1 - Bom, então tem um sonho ainda a realizar?

 

R - Tenho. Tenho um sonho que é fazer essa empresa deslanchar para deixar nas mãos dos filhos deslanchada, né? Esse é o passo que estou dando. Estou me dedicando muito a isso, mas muito mesmo. Profissionalmente está indo muito bem, a gente está se realizando, estamos fazendo muita coisa interessante. Financeiramente ela ainda não está do jeito que eu gostaria que estivesse, mas tem dois anos, não posso querer mais do que isso. Acho que o patrimônio já é nosso, a firma já é nossa, o patrimônio físico dela não é alugado, não é nada, quer dizer, já estamos fazendo... para as despesas já está começando a sobrar uns trocadinhos para melhorar ali, para pintar ali, entendeu?, para chegar num padrão Johnson, porque estou muito aquém do padrão internacional, né? Mas, esse é um sonho agora, tocar essa empresa para frente e quando morrer deixar os filhos tocando, mandando brasa aí.

 

P/1 - Então, boa sorte e muito obrigado pelo tempo que o senhor gastou aqui. 

 

R - Eu é que agradeço e se vocês precisarem de mais informação para completar tudo isso, da próxima vez, a gente dá.

 

P/1 - Está ótimo, então. 

 

[fim da fita 012 - lado C]



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