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História

Muito trabalho, peleja e harmonia

História de: Oswaldo Antônio Garcia
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/12/2004

Sinopse

O pai de Oswaldo Antônio Garcia veio trabalhar na estrada de ferro Mogiana em 1914 com a intenção de sustentar a esposa e os filhos em Portugal. Um acidente mudou seus planos e, após o término da Primeira Guerra Mundial, retornou ao país de origem. Logo em seguida, veio com a família para o Brasil e comprou uma chacára em Uberlândia. Assim começa a história de Oswaldo que batalhou e prosperou junto à família Garcia, começando com a administração de uma máquina beneficiadora de arroz ao negócio de telecomunicações.

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História completa

 

P/1 – Boa tarde senhor Oswaldo.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Eu gostaria que, para início de conversa, o senhor, por favor, nos dissesse o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Oswaldo Antônio Garcia, natural de Uberlândia, nasci em 7 de julho de 1924.

 

P/1 – O nome do seu pai e da sua mãe, por favor.

 

R – José Alves Garcia e Josefina da Cruz.

 

P/1 – Qual era a atividade do seu pai, senhor Oswaldo?

 

R – Meu pai, quando em Portugal, tomava conta de turmas que trabalhavam na lavoura, na colheita de abóbora, batata, colheita de uva e várias atividades, vamos dizer assim. Quando ele veio para o Brasil, o primeiro serviço dele foi trabalhar na estrada de ferro Mogiana. Depois foi carroceiro transportando mercadorias da estação da Mogiana para várias empresas de Uberlândia, como Casa Póvoa, Joaquim Fonseca e Silva, Teixeira Costa, que eram empresas que tinham em Uberlândia nessa época. Então ele era o carroceiro de preferência dessas empresas, transportando as mercadorias.

 

P/1 – Senhor Oswaldo, em que região de Portugal seu pai vivia e trabalhava?

 

R – A região lá é Viseu, é mais ou menos o centro de Portugal, acima daquela cidade histórica, no momento me falha a memória. Mas é na Lapa do Lobo, que é distrito de Viseu. É onde meus pais moravam.

 

P/1 – E por que motivo ele veio para o Brasil?

 

R – O papai veio para o Brasil tentar a vida a chamado de meu tio, que eu gostaria de contar para vocês, de outra maneira, como ele veio parar aqui no Brasil.

 

P/1 – E como é que foi essa história?

 

R – É o seguinte, pelos anos mais ou menos, segundo eu apurei, de 1885, 86, veio um tio da minha mãe aqui para o Brasil, por sinal então meu tio-avô, o nome dele João Justino Fernandes. Ele era carpinteiro e montou aqui em Uberlândia, na época São Pedro do Uberabinha, ele montou uma marcenaria aqui em Uberlândia, cuja marcenaria eu tive a honra de frequentá-la na minha meninice, na minha adolescência. Ele funcionava na rua Silviano Brandão, fazia fundo com a Barão de Camargos. Naquela época, na década de 1930, 40, só existia duas marcenarias em Uberlândia. Essa do nosso tio João Fernandes, cujos móveis chamavam Móveis Fernandes. E tinha uma outra, que era do Domingos de Freitas, cujos móveis eram chamados Móveis Freitas. E com o passar dos anos, eu conheci meu tio bem mais idoso, onde eu nunca tinha visto, foi a primeira vez que eu vi na minha vida, naquela época ele já tinha um orquidário, centenas de orquídeas ele conservava em baixo de uma parreira que ele tinha em sua casa. Ele tinha dois genros que tocavam a marcenaria. Um chamava Esterino Finotti e, o outro, Antônio Firmino, cuja empresa depois foi vendida para eles. Então a empresa chamava Finotti e Firmino, tinha até um slogan: “Móveis Finotti e Firmino, Móveis Finos e Firmes”. Era o slogan deles. E posteriormente foi vendida, quem assumiu o comando dessa marcenaria foi o outro genro dele que veio de São Paulo da família Guaratto, que existe até hoje em Uberlândia, ainda tem os filhos aqui em Uberlândia. Então esse meu tio é que foi o início da vinda dos portugueses da família Garcia e Agostinho para Uberlândia. Em 1896, veio o meu tio, irmão da minha mãe, chamava José Agostinho, ele veio a chamado do meu tio João Justino Fernandes para fugir do exército, que ele tinha que cumprir em Portugal. E aos dezessete anos, ele veio justamente para Uberlândia, na época São Pedro do Uberabinha. Esse meu tio, a profissão dele é a coisa mais interessante. Meu pai e a minha mãe sempre falavam, ele não gostava que, se você falava que ele era um comerciante ele achava ruim. Ele gostava que o chamassem de, ele era um industrial. Ele montou em Uberlândia, uma das primeiras coisas que ele fez, foi uma cerâmica, onde faziam os seus ladrilhos, os seus potes, suas botijas, seus tijolos, suas telhas, compreendeu? E ele também montou uma oficina para dar assistência a essas máquinas de indústrias, pequenas indústrias que tinham em Uberlândia. Consertava máquinas de costura, essas coisas. E tinha um caso muito interessante que ele contava, ele perdeu uma parte do dedo indicador num moinho daqueles de barro, então amassou o dedo dele e ele tinha um filho. O filho dele mais velho chamava Armênio. Então ele chegou, pegou uma ferramenta de corte, pôs assim, pôs a ferramenta e mandou o filho bater para cortar aquela parte estragada. E o filho: “Não, eu não faço isso...”. E ele: “Se você não fizer, você apanha.” E ele acabou cortando o dedo. Então tem muitas histórias desse meu tio. Por exemplo, ele contava também que em 1920, após o término da guerra, uma família muito tradicional de Uberlândia, hoje tem um bairro com o nome deles, Custódio Pereira, ele importou o primeiro maquinário para montar um cinema em Uberlândia. Então chegou um maquinário aí, mas aquilo tudo em inglês, ninguém entendia nada. Ele falou: “A única pessoa que pode resolver esse problema é o José Agostinho”. Ele chegou perto do Custódio Pereira, eles eram compadres, ele falou: “Não, compadre, nós vamos dar um jeito nisso aí, vamos montar isso aí”. E foram montando, montando, montou, pra lá, pra cá, etc. e pôs o trem a funcionar, viu o primeiro filme, mas a imagem lá tela não era cem por cento. Depois é que eles estavam olhando a coisa lá e viram que estava escrito a palavra water, água, foi que eles viram que para a imagem ser boa tinha que molhar a tela. Então é muito interessante isso, os filhos dele é que trabalhavam nas sessões que passavam, de cinco em cinco minutos, de dez em dez minutos tinha que jogar água na tela para ter imagem fixa, compreendeu? Então ele contava muita história. E ele foi o responsável pela vinda do papai, porque naquela época, me parece que até hoje, eu não sei, tinha que ter um responsável pela pessoa aqui, que vinha para o Brasil. Porque se não desse certo, aquela pessoa tinha a responsabilidade de mandar de volta.

 

P/1 – Senhor Oswaldo, o senhor se recorda por que motivo escolheu-se justamente essa região aqui de Uberlândia, do Triângulo? Por que o seu tio-avô veio justamente para cá?

 

R – Olha, pensando bem, vendo o que é Uberlândia hoje, eu acho que ele veio da cabeça dele, por exemplo, eu vou pedir permissão que eu vou ter que voltar atrás um pouquinho.

 

P/1 – À vontade. 

 

R – O meu tio João Justino Fernandes veio com a minha tia, chamava-se tia Rosa, que eu frequentei a casa dela, uma pensão na Rua do Comércio em Uberaba. Ela ficou em Uberaba e ele veio para Uberlândia, não era Uberlândia, era distrito de Uberaba na época que ele veio para cá. Então eu acredito que tenha sido sorte, uma coisa qualquer, aí tem muita história que talvez eu venha falar, vamos ver aonde a gente vai chegar. Então o papai resolveu vir para o Brasil. Ele veio para o Brasil em março, abril de 1914. A mamãe sempre contava, é mais ou menos nessa época. Ele veio para o Brasil e deixou a mamãe em Portugal com quatro filhos. Mas ele veio no intuito de ganhar dinheiro e mandar dinheiro para a mamãe para sustentar os filhos. O que aconteceu, ele chegou em 1914, em março. Chegando aqui em Uberlândia, aqui na região, estourou a primeira guerra, que eu fiz questão de anotar aqui. Essa guerra começou dia 28 de julho de 1914. Começou a Primeira Guerra Mundial, que veio a terminar em 11 de novembro de 1918. E o papai, chegando aqui, logo depois, estourou a guerra e ele teve a infelicidade de na garupa dessa moto – meu tio José tinha uma motocicleta –, eles levaram um tombo e ele quebrou a perna, meu tio José Agostinho é que imobilizou a perna dele, na época o termo que se usava, “encanou” a perna, hoje é “vamos reduzir”, naquela época era “encanou” a perna. Então estourou a guerra e a minha mãe ficou esses anos todos em Portugal sustentando os quatro filhos sem receber um centavo do meu pai. E não tinha condições, como diz o outro, foi uma verdadeira zebra. E o papai deixou a mamãe em Portugal na época, o papai veio para o Brasil com trinta e três anos, deixou a mamãe com trinta, com quatro filhos, o Alexandrino com sete anos, a Palmira com cinco, a Georgina com três e o José Maria com três meses. E a mamãe ficou em Portugal trabalhando e sustentando os quatro filhos. Logo após o término da guerra, em 1919, o papai retornou a Portugal. Para voltar, ele já voltou como imigrante e chegou no Brasil dia 25 de dezembro de 1919. A partir daí. Acho que o Alexandrino estaria, se não me engano, com doze anos, as minhas irmãs foram trabalhar de doméstica. Um dos primeiros serviços que o Alexandrino arrumou foi como servente de pedreiro, no Colégio Estadual, nós chamamos de Museu, na Praça Adolfo Fonseca, foi o primeiro emprego dele. Ele trabalhou ali como servente de pedreiro. Na época em que os meus pais chegaram em Uberlândia, eles foram morar ali na Rua Dom Barreto, que hoje faz fundo com o Colégio Renê Giannetti. Então o papai começou a trabalhar de carroceiro, como eu já disse antes, e posteriormente eles adquiriram um pedaço de chão, na antiga Rua do Cajubá, chamava Rua do Cajubá, depois passou para 13 de maio e hoje Princesa Isabel. Esse pedaço de chão ficava entre a Olegário Maciel e a Santos Dumont. Nossa vida começou ali. Minha mãe plantava verdura na chácara, o papai, o serviço mais pesado, ele ajudava e depois arrumava a carroça dele e ia fazer os seus fretes e a mamãe ficava plantando a verdura e dali é que partiu o início da nossa vida, do nosso desenvolvimento, começou ali. Eu até os dez, onze anos, eu vendia verdura na rua. Todos nós trabalhávamos, não tinha esse negócio, com quatro, cinco anos, sempre ajudando, arrancando um capim, compreendeu? E o português é bem duro. A gente tinha uma vida saudável, bebia um vinho, desde criança o meu pai nos ensinou a beber vinho, às vezes a gente deixava, o vinho é amargo, ele fazia a sangria, punha açúcar, mas você tinha que tomar o vinho. E ali começou então a vida da família José Alves Garcia. 

 

P/1 – Senhor Oswaldo, como era essa casa da sua infância?

 

R – Era uma casa simples, uma casa de chão, molhava-se o chão, com o tempo você apisoava, ficava como isso aqui. Todo dia jogava uma água para varrer, compreendeu? O início foi muito duro. Você tinha um sapato para ir na escola, mas chegava da escola tinha que tirar o sapato para não gastar, e ficava descalço. Mas compensou, porque a gente deu aquele valor no que a gente fez, aquele sofrimento que a gente teve enquanto criança, que graças a Deus meus filhos não tiveram e assim vem a evolução, talvez os outros, os filhos deles terão vida melhor do quê a que eu dei a eles.

 

P/1 – O senhor seria capaz de descrever como era a divisão interna da casa, como ela se dividia?

 

R – A casa naquela época, o que tinha? Eles chamavam de pau-a-pique, era de adobo, era de barro. Ela tinha na frente uma sala, ao lado um quarto, no meio uma outra sala muito grande onde fazia-se as refeições, dos dois lados mais dois quartos e uma área que descia assim onde era a cozinha. Mas uma casa muito simples, coisa simples, compreendeu? Coisa que se você vai analisar é essas casas de casebre que a gente vê hoje. Mas dali, a gente, então, partiu para outras fases. 

 

P/1 – Eu gostaria de insistir um pouquinho nesse período, porque é uma família grande, uma família com sete filhos, com muito trabalho já desde a mais tenra infância, como era o cotidiano dessa casa, as obrigações dos filhos, como é que funcionava o dia a dia nessa casa, a Dona Josefina era muito dura?

 

R – A mamãe foi muito durona. Ela era muito carinhosa, mas nos trazia num cortado danado. Com o passar dos anos, o Alexandrino foi ser motorista de caminhão, tinha outras coisas, então a gente... Eu vou te contar uma história para você ver o tanto que a minha mãe era dura nas correias. Esse era o termo que a gente usava e usa: “duro nas correias”. Teve um dia, isso eu me lembro bem, foi no ano de 1936, eu lembro bem porque nessa época ela tinha ido a Portugal, depois que ela veio para o Brasil, foi a primeira vez que ela voltou a Portugal, em 1936, também não voltou mais. E ela nos trouxe um reloginho de bolso com aquela correntinha, português gostava muito de usar relógio com a corrente, etc. e tal. Eu me lembro muito bem que foi no ano de 1936 porque eu tirei dela dois mil réis e falei para o Vicente: “Vicente, nós vamos assistir o feriado hoje do Rim Tim Tim”. Ele falou: “Não, não vamos não, que a mamãe bate, a mamãe faz isso”. Eu falei: “Não, nós damos um jeito, nós vamos falar que vamos brincar na praça e de lá nós vamos ao cinema”. E assim ele me acompanhou, e nós chegamos tarde. O Agenor e a Deolinda, nossos irmãos nos aguardava, e falou assim: “Olha, a mamãe mais o papai vai pegar vocês amanhã, vocês foram ao cinema”. “Não, não fomos não, tal.” Aí a mamãe no outro dia cedo perguntou: “Aonde vocês foram?”. “Não, nós fomos ao cinema.” “Mas vocês não pediram.” “Porque nós estávamos lá na porta e o Alexandrino passou e perguntou se a gente queria ir ao cinema e a gente falou que queria, ele comprou duas entradas e nós fomos.” E ela engoliu, não apanhamos não. Isso foi na sexta-feira, no sábado é que aconteceu. Quando foi no domingo, o Alexandrino foi em casa, ele já era casado. Chegou lá e começou a contar história, a mamãe lembrou do negócio e perguntou para ele, ele falou: “Não, eu não comprei entrada para ninguém não”. Aí o Zé Maria, que era o irmão mais velho, pegou eu e o Vicente e trouxe: “Fala a verdade”. Aí eu falei que tinha tirado o dinheiro dela, você nem calcula o tanto que nós apanhamos. Mas apanhamos tanto que precisou nos colocar, naquela época tinha umas tinas de madeira, nos colocava na tina com sal para poder queimar para aliviar. O português nessa hora, a honestidade dos meus pais era uma coisa fabulosa, eles não permitiram mesmo, isso é uma coisa que eu trago até hoje, a correção que ela nos deu, compreendeu? Então tem várias passagens. Com o passar dos anos, talvez já tenha saído aqui em outras histórias, a vida do Alexandrino, que ele foi motorista de caminhão, ele foi ferreiro, trabalhou em máquina de arroz. Em 1928, o casamento dele foi em 1929, ele trabalhou em Jataí, em Goiás, como maquinista, máquina de café, de arroz, etc. e tal. Então, com tudo isso que aconteceu, quando foi em 1933, o papai, com o Alexandrino e o meu tio João Agostinho, que é irmão do José que veio depois, resolveram comprar uma máquina de arroz, que funcionou ali na Praça Antônio Carlos, hoje Praça Clarimundo Carneiro. E essa máquina de arroz foi comprada para ser desmontada e ser novamente montada no Pontal do Triângulo Mineiro, chamava Porto do Cemitério, hoje é uma cidadezinha, que chama Divisa, do outro lado, que é São Paulo, a cidade chama Columbia, na época Columbia, hoje eles falam Colômbia. Na época, isso já em 1933, 34, já se falava o fracasso que ia ser o Triângulo Mineiro, nessa região nossa, porque a estrada de ferro paulista foi até Columbia, na divisa de Minas. Então se falava que ela ia atravessar o rio e ia a Jataí e Mato Grosso, então essa parte toda aqui ia ser, vamos dizer, desenvolvimento zero, por causa dessa estrada de ferro. O que aconteceu? Logo que eles compraram a máquina de arroz, começou a aparecer clientes querendo beneficiar arroz, que compravam um caminhão de arroz e: “Limpa isso aqui para mim”. E limpa e chegava um e outro e a máquina de arroz não parou. E o meu tio João falou: “Gente, não vamos pegar mais arroz de ninguém não, vamos desmontar a máquina para mudar”. E o Alexandrino mais o papai achou que não devia mudar não, porque estava tão bem aqui, ia tão bem, para quê ia mudar para uma coisa que não tinha certeza. Então, meu tio João não concordou e disse: “Então, vocês compram a minha parte”. Aí o papai mais o Alexandrino não tinha dinheiro, então, nessa época, quem socorria era o tio João Fernandes, que já era um industrial, estava bem capitalizado e tal. E, então, o tio João emprestou o dinheiro, eles compraram a parte do meu tio João. O meu tio João foi fazer outros negócios e eles ficaram com essa máquina de arroz. Então dessa máquina de arroz é que partiu o nosso sucesso, a nossa independência, compreendeu? Partiu dessa máquina de arroz. Aparecia um caminhão de arroz para comprar, o Alexandrino não tinha dinheiro, ou tinha pouco dinheiro, não dava para pagar tudo, um emprestava de cá, outro emprestava de lá, etc. e tal. Então o nosso sucesso começou nessa máquina de arroz.

 

P/1 – Nessa época, o senhor tinha nove para dez anos de idade, o senhor já, de algum modo, participava desse processo?

 

R – Constantemente. A mamãe fazia o café à tarde e eu ia levar. Lá então tinha aquela moega onde despeja o arroz e você tem que empurrar o arroz para ele descer para pegar no elevador e levar para as peneiras etc. Então o meu serviço era, com a pá, ficar chegando aquele arroz na moega, compreendeu? Minha participação, quando eu não estava vendendo verdura, ia na escola, no grupo e depois não ficava à toa não, vamos dizer, o estrangeiro na época cobrava muito e a gente só tem que agradecer a Deus a criação que a gente teve, porque a gente deu gente graças a Deus.

 

P/1 – Eu gostaria, senhor Oswaldo, por favor, que o senhor me falasse um pouco dessa sua primeira escola, qual foi a sua primeira escola? Alguma professora que eventualmente tenha lhe marcado?

 

R – Minha primeira escola foi o Grupo Bueno Brandão, hoje Escola Estadual Bueno Brandão, na praça Tubal Vilela. Tem alguma passagem, eu tinha uma professora que chamava-se, hoje tem uma rua com o nome dela, que constantemente está na televisão, que é uma das ruas que a enxurrada mais destrói aqui em Uberlândia, Ermelinda não... Vou ver se lembro o nome dela. E era uma professora idosa já e a gente não respeitava muito a professora não. Mas ela tinha filha, chamava Dona Primavera, essa Dona Primavera era fogo, viu? A hora que ela passava – ela dava aula ao lado – que via a bagunça na sala da mãe, ela ia lá e ah. Eu apanhei muito de palmatória. Da Dona Primavera, da mãe dela não. Da Dona Primavera eu apanhei muito. E essas passagens assim, tinha aquele negócio, comigo não aconteceu não, mas que punha ajoelhado em cima de feijão, de milho, eles punham sim. Era muito rigorosa, essa parte. Uma outra passagem também, que tinha uma faxineira muito gorda de cor preta, chamava Dona Cecília. Essa Dona Cecília era uma faxineira lá muito querida por todo mundo etc. e tal e um dia falaram que iam substituir a nossa professora e ia ser a Dona Cecília. Eu entendi Dona Cecília. Aí eu cheguei em casa chorando e falei: “Eu não volto para o grupo de jeito nenhum”. “Ah, mas por quê?” “A professora vai sair, vai por uma preta velha lá para ser a professora, eu não volto lá etc. e tal.” Mas não era Dona Cecília, ela chamava Cici e eu entendia Cecília. Essa Cici, que por sinal chamava-se Cici Cardoso, tem um grupo aqui na Vasconcelos com o nome dela, foi o segundo grupo de Uberlândia, era o Bueno Brandão e tinha o grupo que hoje leva o nome dela. Por sinal, com o passar dos anos que a gente... Ela é tia da minha patroa, ela já faleceu há muito tempo, mas veio a ser tia da minha patroa. Então tem esses casos assim, compreendeu? Depois terminei o meu curso primário no Colégio Brasil Central, onde o professor José Inácio também era difícil. Aquele, se você matasse a aula, ele ia no telefone e chamava, por que eu não fui à aula. Nessa época o telefone era na máquina de arroz, então ele chamava o papai para saber por que eu não fui à aula, compreendeu? Aí a gente descobriu que ele telefonava, então, quando a gente tinha que matar a aula, a gente ia lá na máquina de arroz, desatarraxava a pilha, porque o telefone era tocado à pilha, desatarraxava a pilha, tirava o fio e o telefone ficava mudo. Aí, quando a gente ia lá, à tarde, ligava outra vez. Então tinha essas passagens assim.

 

P/1 – Senhor Oswaldo, é impressão minha ou o garoto Oswaldo era um pouquinho da pá virada?

 

R – Eles falam que sim, mas eu não lembro disso não, compreendeu? Eles falam que sim, mas eu não era também assim santinho não. Eu não dei muito trabalho para os meus pais não, mas eu não era santinho não, compreendeu? Esse negócio de brigar, eu brigava muito e, como diz o outro, eu não levava muita coisa para casa não, eu deixava tudo resolvido. Até teve um rapaz, que naquela época, hoje ele é médico em Uberlândia, Doutor Branly, ele estudava no Rio, então, o Vicente que era dois anos mais novo do que eu, um primo desse Branly queria bater no Vicente e eu falei que não batia, porque se batia eu bato também, aquele negócio. Aí o Branly entrou no meio, aí acabamos brigando, quase quebramos um bar inteiro. Então é essas coisas assim. Mas, trabalho para o meu pai, eu não dei muito não. 

 

P/1 – Como é que era, especialmente nesse primeiro período de escola, o cotidiano do senhor, quer dizer, tinha as obrigações com a escola e depois?

 

R – É, da escola ia trabalhar. O primeiro e o segundo ano de ginásio, até o terceiro ano eu fiz no Brasil Central, depois eu passei para o Colégio Estadual, fiz até a quinta série, tirei o ginásio, foi o último ano de quinta série. Tanto que, naquela época, formou-se duas turmas, uma na quinta e outra na quarta. Foi 1942 que eu tirei a quinta série, naquela época não tinha o científico aqui em Uberlândia, então eu fiz o científico em Belo Horizonte, no Colégio Afonso Arinos. Terminei o científico, eu já tinha uma namorada aí, que eu queria casar com ela, então eu falei: “Vou trabalhar para casar”. Aí não quis estudar mais não. Mas como eu fui sempre criado no batente, eu não tinha muita cabeça para o estudo, eu falei: “Não, eu não vou estudar não”. Então resolvi casar. Mas...

 

P/1 – Desculpa senhor Oswaldo, mas como é que foi para esse jovem sair de uma cidade onde sempre viveu, na intimidade do lar, mudar-se para Belo Horizonte? Como é que foi isso para o senhor?

 

R – Uberlândia era pequena, mas também Belo Horizonte não era tanta coisa assim não. Era a capital, mas Uberlandia teria o quê? Uns trinta, trinta e cinco mil habitantes, Belo Horizonte uns cem, cento e pouco, não tinha muito mais, a diferença não era muito não, compreendeu?  

 

P/1 – Mais pelo fato do isolamento...

 

R – Não, era difícil. Mas a gente foi numa turma boa de colegas, nós fomos morar em hotel, para você ter uma ideia. O hotel chamava hotel São Bento, na rua da Bahia. Alugamos um apartamento grande, morávamos em quatro, tinha todo o conforto. A única coisa que eu sentia era falta da namorada, isso eu sentia. Mas depois foi contornando e tudo, a gente voltou e eu fui trabalhar e, quando foi em 1944, eu assumi, praticamente, a parte de cereais inteira e vim a casar em 1946.

 

P/1 – Como é que era uma viagem de Uberlândia para Belo Horizonte?

 

R – Era de Mogiana. É interessante, boa pergunta a sua. Você saía aqui de Uberlândia às nove e meia da manhã, chegava às duas, duas e meia em Uberaba, pernoitava em Uberaba, pegava o trem às sete horas da manhã para Belo Horizonte, chegava à noite. Na volta era a mesma coisa. Eu saía de Belo Horizonte cedo, chegava à tarde em Uberaba e ia pegar o trem só no outro dia às quatro horas da tarde para Uberlândia. Às vezes coincidia da Mogiana que vinha de São Paulo atrasar e a rede ferroviária mineira chegava no horário, então dava para fazer baldeação no mesmo dia, mas isso era muito raro. Mas voltando à conversa, vamos dizer assim, em 1940 então, o Alexandrino com o Agenor, que trabalhava na máquina de arroz, comprou um posto de gasolina e fez sociedade com o Agenor, na Avenida Afonso Pena, ainda consta o prédio lá, até hoje. O Agenor foi trabalhar com esse posto e o Alexandrino dava assistência com o papai na máquina de arroz e no posto. Foi uma época muito boa, porque se vendia muito por causa do tempo da guerra, principalmente gasolina, o que se tinha, vendia tudo. Quando foi em 1945, eu comecei em 1944, quando foi em 1945 a empresa do meu pai com o Alexandrino, a máquina de arroz era José Alves Garcia e Filho e o posto era Alexandrino Garcia só. Então, quando foi em 1945 fundiu as duas empresas e passou a chamar Irmãos Garcia e Companhia Limitada. Depois, com o passar dos anos passou à S.A. Eu fiquei na máquina de arroz de 1944 até 1950, máquina de arroz trabalha seis meses e praticamente para seis, quando ela parava de beneficiar arroz, porque só tinha a época da safra, que era seis, sete meses, aí ela fechava, parava, então eu subia e ia trabalhar na Irmãos Garcia. Então fundiu-se as duas empresas em 1945 e logo após 1945 nós fomos nomeados distribuidores de automóveis da General Motors e caminhões GMC e automóveis Buick e Pontiac. Então nessa época, vamos dizer, de 1945 até 1950, 1951, eu casei em 1946, de 1946 até 1950 eu mais vivi em São Paulo do que aqui em Uberlândia, transportando veículos, caminhões, automóveis, eu que ia buscá-los em São Paulo. 

 

P/1 – O senhor podia contar mais detalhadamente esse episódio, por que o senhor sai de um negócio de cereais e cai para o ramo, digamos, automotivo?

 

R – Boa pergunta. É completamente diferente. Mas eu sempre mexi com veículos, mesmo na máquina de arroz, o Alexandrino às vezes comprava esses veículos usados, mais velhos e justamente nessa época que a máquina de arroz ficava vazia, nós íamos reformar os veículos. Reformava, vendia, compreendeu? Então a gente já tinha uma certa tarimba de mexer com veículos. Inclusive, para você ter uma ideia, eu com catorze anos... Ah, vinte e quatro para trinta e oito, dezesseis, não é? 

 

P/1 – Catorze anos. 

 

R – É. Com catorze anos eu tirei carteira de motorista.

 

P/1 – E podia?

 

R – A idade mínima era dezesseis, porque ela era municipal, carteira municipal. Então, aumentou a minha idade para dezesseis anos, o Alexandrino assinou um termo de responsabilidade na prefeitura e eles me deram a carteira, mas só dirigia no município. Com catorze anos eu dirigia um caminhão com seis mil quilos, com cem sacos de arroz. Transportando para a Mogiana. Então, às vezes tinha que despachar trezentos sacos de arroz. Eles falavam: “Olha Oswaldo, quando você chegar da escola, você vem que tem que despachar arroz”. Eu ia na escola cedo, depois do almoço eu pegava o caminhão para despachar o arroz, levar o arroz para a Mogiana. Então isso é uma coisa assim que marca muito. Essa mudança que você disse, eu não senti muito, justamente porque a gente já tinha essa convivência com conserto de veículos, aprendi a dirigir cedo.

 

P/1 – Na realidade não foi uma mudança, foi uma transição, não é?

 

R – Isso, realmente. 

 

P/1 – Como é que houve essa oportunidade da representação da GM em 1945? 

 

R – É o seguinte, na época, a General Motors importava dois tipos de caminhões Chevrolet e GMC, já tinha a representação Chevrolet em Uberlândia, que era o Margonari S.A., Ademar Margonari, e eles queriam uma distribuidora para o caminhão GMC em Uberlândia, então a empresa nossa foi a primeira empresa a ser procurada. E os caminhões GMC eram muito mais vendáveis que o caminhão Chevrolet, então aquilo foi um sucesso, mas depois, com o término da guerra, acabou... Não, minto. A importação ainda foi até 1954, nós ainda fomos concessionários GMC até 1954, depois é que parou a importação, veio a fábrica de caminhões para o Brasil, então fomos nomeados Chevrolet também. Então tinha dois Chevrolet em Uberlândia.

 

P/1 – Nessa revenda os senhores também forneciam assistência técnica, tinham mecânica, essas coisas?

 

R – Tinha tudo. O principal de uma concessionária é assistência técnica. Se você não tem assistência técnica, o cliente não volta mesmo. A sala de visita da concessão é a oficina, você precisa ser bem tratado na oficina porque senão, lá na frente, você não volta, porque não adianta você ser bem tratado no salão, aquela coisa chique e bonita, chega na hora de ir para oficina você é mal tratado, não dá atenção. É muito interessante, a oficina é uma continuação da venda de outros veículos. 

 

P/1 – E daí a já veio a experiência lá da máquina de arroz?

 

R – Isso, veio aquela experiência. Então a gente continua dizendo que esse sucesso que a gente teve foi um sucesso de muito trabalho, de muita peleja, de muita harmonia, porque senão a gente não chegava lá não.

 

P/1 – Eu queria que o senhor nos dissesse como é que foi, o senhor mencionou esse seu trabalho de ir a São Paulo buscar os caminhões, buscar veículos e tudo mais, era uma viagem muito complicada, os senhores iam com frequência?

 

R – É como eu disse para você, eu quase que morava em São Paulo. Eu casadinho de novo, de vez em quando levava a patroa, mas casadinho praticamente de novo, eu mais morava em São Paulo do que em Uberlândia. Às vezes eu chegava sábado cedo, segunda-feira cedinho já tinha uma passagem de avião em cima da minha mesa para eu voltar. Só ficava sábado e domingo em casa. Mas na época tinha avião daqui para São Paulo constantemente, Uberlândia já teve ocasião de ter oito, dez voos diários para São Paulo, Rio de Janeiro. Tinha naquela época várias companhias de aviação. Então não faltava passagem, não tinha nada, a Vasp, por exemplo, ela nos fornecia um cartão, desses cartões hoje que a gente usa de crédito, etc. e tal. Chegava no balcão da Vasp, eles preenchiam a passagem, te entregavam, comprava com cartão, todos nós tínhamos cartão de compra de passagem de avião, porque viajava demais, compreendeu? Então essa parte de transporte foi muito fácil, agora a vinda de lá para cá que era difícil.

 

P/1 – Como era uma viagem dessas?

 

R – Até 1944 não tinha um metro de asfalto de São Paulo a Uberlândia, só terra. Acho que foi no ano de 1945, no governo do Ademar de Barros, eles asfaltaram, não era asfalto, eles concretaram de São Paulo a Jundiaí. O trajeto era São Paulo a Campinas, mas eles vieram só até Jundiaí. Depois chegou à conclusão que o cimento que gastava de São Paulo a Jundiaí dava para vir a Ribeirão Preto. (risos). Para você ver a safadeza que existia, isso não acaba nunca. Essas corrupções, isso não vai acabar nunca. Aí depois, então, veio o asfalto, mas ele demorou aí uns cinco anos ou mais para chegar aqui em Delta e depois de Delta para cá até Uberlândia foi outra agonia. Você chegava em Uberaba, tinha duas estradas para você vir em Uberlândia. Uma chamava Chapadão e a outra Santa Maria. Todas as duas na época da chuva não tinha jeito. Eu cheguei a gastar dois dias e duas noites de Uberaba [até] aqui de caminhão. Não andava, atolava, via Mogiana, via Chapadão, que é uma estrada que acompanha a estrada de ferro da Mogiana. Mas era muito difícil. Depois então surgiu uma nova estrada ligando Uberaba a Belo Horizonte, isso foi em 1950, e nós ligamos Uberlândia a Almeida Campos. Almeida Campos é uma estação de ferro, a antiga estrada de ferro mineira, que chamava Almeida Campos, então, você ia quase lá perto de Araxá para depois pegar a estrada para ir para Uberaba, mas era uma estrada toda pavimentada, pavimentada não, toda encascalhada. Então você dava uma volta de cem quilômetros, mas você ganhava no tempo, não tinha atoleiro, não tinha nada. 

 

P/1 – Com veículos novos?

 

R – Isso. A gente vai conversando, vai recordando. Essa estrada, a saída dela e a entrada para quem vinha de São Paulo era na Floriano Peixoto. Todo o trajeto que você tinha que sair para São Paulo e a chegada também, foi onde que em 1949 nós estávamos sentados no escritório junto com o Agenor, o Alexandrino falou assim: “Oswaldo, eu estou achando que você está perdendo muito tempo aqui conosco, não te cabe aqui não”. Eu falei: “O que foi?”. Ele falou: “Não, nós vamos arrumar outro negócio para você, para você tomar conta”. Eu falei: “O que é que tem aí?”. Ele falou: “Eu estou vendo uns terreninhos ali na Floriano Peixoto, hoje é a entrada e saída para São Paulo, não tem um posto de gasolina, não tem nada, nada, nada. Então nós vamos construir um posto de gasolina lá”. Isso foi em 1948, 49, então nós compramos os terrenos e começamos a construir um posto de gasolina. Construímos esse posto de gasolina na Floriano Peixoto para cima da estrada de ferro Mogiana, a Mogiana passava ali na João Naves de Ávila. A João Naves de Ávila era a estrada de ferro, então para cima da estrada de ferro tinha uma meia dúzia de casa só e o campo de futebol do Juca Ribeiro, o estádio do Juca Ribeiro. Então nós construímos um posto de gasolina lá, na época coisa muito chique. “E se chegar um motorista aqui, querer dormir, onde é que ele vai dormir?” Em volta não tinha uma pensão, não tinha nada, então nós resolvemos construir um hotel, fizemos um segundo andar e construímos um hotel em cima. E, quando foi dia 30 de novembro de 1950, eu assumi. Formamos uma empresa naquela época com um capital de dois mil reais, dois mil cruzeiros, eu acho que era cruzeiro. Então eu assumi lá como diretor presidente dia 30 de novembro de 1950 e saí em julho de 1995, fiquei lá quarenta e cinco anos.

 

P/1 – Como é que chamava a empresa?

 

R – Garcia S.A. Indústria e Comércio. E eu então, a gente vai recordando – você falou que eu não ia ficar duas horas aqui, mas é capaz de eu ficar três, se eu for lembrar de tudo – mas então... Eu já me esqueci o que eu estava dizendo. 

 

P/1 – O senhor estava dizendo que, no dia 30 de novembro de 1950, o senhor assumiu a Garcia S.A. Indústria e Comércio.

 

R – Ah sim. Naquela época o correio fazia muita questão do endereço telegráfico, compreendeu? Então Garcia S. A. eu peguei “ga” de Garcia, o “i” de indústria e o “co” de comércio e o meu endereço telegráfico era Garinco: Garcia Indústria e Comércio. E ficou Garinco, mas eu fiquei: “Mas esse nome...”. Aí conversando com o Alexandrino, eu falei: “Alexandrino, mas Garinco, será que dá?”. Ele falou “Dá sim, não tem uma cerveja que chama Caracu, então dá”. (risos) Aí colocamos Garinco.

 

P/1 – Senhor Oswaldo, eu gostaria que o senhor pudesse nos contar, porque veja só são vários irmãos, como é que eram as suas reuniões, as conversas que os irmãos mantinham no sentido de pensar o negócio, de tocar o negócio, como era essa relação de vocês?      

 

R – Ali, o Alexandrino foi um pai para nós, foi um segundo pai que nós tivemos. Foi um homem extraordinário, fora de sério, aquilo tinha uma cabeça que você nem calcula e ele sempre pensava para frente, sempre com ideias boas, pensando só no nosso bem-estar e aquelas reuniões que a gente fazia, às vezes ele era duro nas correias, falava: “Você errou nesse ponto aqui assim”. “Eu não errei, não errei.” No fim, se eu estivesse errado mesmo eu pedia desculpa, se ele via que eu tinha razão, ele falava: “Olha irmão, você está certo”. Então eram umas reuniões bem francas, bem saudáveis. Uma coisa extraordinária. O Alexandrino, ele tinha tanta visão que teve uma vez que saiu um cobrador e eu que fui ser o cobrador, foi justamente nessa época que o Alexandrino falou: “Gente, o Oswaldo ser cobrador, isso não pode, isso é o fim do mundo, você tem que fazer outra coisa, você não pode ser cobrador não”. O Agenor falou: “É só até arrumar outro, ver o que nós vamos fazer”. Mas ele sempre falava assim: “Enquanto nós não arrumarmos um negócio, e nós vamos arrumar, que o povo venha trazer o dinheiro para nós, eu não sossego. E tem que me trazer no caixa”. E ele arrumou: a companhia telefônica.


 

P/1 – Antes que a gente chegue na companhia telefônica, senhor Oswaldo, como é que foi, na sua visão, a aproximação que ele fez da Associação Comercial?

 

R – Ele foi presidente da Associação Comercial em 1953, depois reeleito acho que em 1954, compreendeu? O Alexandrino sempre trabalhou muito, ele adorava Uberlândia. Ele sempre trabalhou muito por Uberlândia, nessa parte de estradas para o Triângulo, trabalhou muito para a ligação de Uberlândia a Monte Alegre. Para você ver, Uberlândia a Monte Alegre era aquela luta. Às vezes a gente precisava falar em São Paulo, por exemplo, eu estava lá em São Paulo, eu tinha que ficar sentado o dia inteiro no hotel esperando para poder receber um telefonema de Uberlândia, não se falava. E ele sempre falava: “Isso é um absurdo, isso não pode, mas a Teixeirinha é assim, isso, isso...”. Depois surgiu aquela ideia dele mais dos amigos dele, o Hélvio Cardoso, o Aristides de Freitas, o Francisco Capparelli, os industriais, fazendeiros, aí compraram a Teixeirinha e ele entrou como diretor presidente e ele tomou aquilo à frente e ele falou: “Vamos virar isso aqui”. E no fim ele ficou praticamente sozinho. O Hélvio vendeu, o Aristides vendeu, o Capparelli vendeu e ele tomou gosto pela coisa e hoje é esse mundo de empresas aí que você vê, uma Algar hoje, a CTBC, são empresas respeitáveis. Mas isso graças a ele, viu? Graças ao Alexandrino, posteriormente ao Luiz, não é? Na época nós colaboramos demais. A Garcia S. A., a Irmãos Garcia, Intermáquinas, surgiam ações para serem vendidas, um amigo: “Me compra isso aqui”. Você comprava para ir fazendo o monte lá. Então foi muito, todas as empresas ajudaram demais o Alexandrino ao assumir o controle da telefônica.

 

P/1 – Nesse momento, senhor Oswaldo, embora, como o senhor bem relatou, houvesse toda essa dificuldade de comunicação, a telefonia era um dado importante para o negócio naquele momento, não pareceu para os irmãos ou para alguém que entrar em um negócio novo, depois de tanto negócios consolidados, seria uma espécie de aventura, não chegou em algum momento temer pelo futuro das empresas entrar em um negócio novo? 

 

R – A gente, eu, por exemplo, não me surpreendi porque eu tinha o meu negócio, a Garcia S.A., o Agenor tinha a Irmãos Garcia, o Walter tinha a Intermáquinas, mas aquilo lá não podia falhar, a telecomunicações era péssima, então, aquilo só tinha que ir para a frente, não podia falhar de jeito nenhum, compreendeu? E depois de uns quatro anos, em 1960, não, 1960 já foi a inauguração de Brasília, se eu não me engano, com a inauguração de Brasília, isso nos trouxe muita coisa, com a fundação de Brasília, começou o desenvolvimento da telefonia, com essas estações de, eu esqueço o nome, com essas estações de transmissão que tem hoje, compreendeu? Então, eu acho que ele acertou em cheio e ele foi muito feliz e até hoje nós estamos levando o dinheirinho lá, eu levo, você leva, todo mundo leva o dinheirinho lá para ele. (risos)

 

P/1 – Senhor Oswaldo, o senhor estava nos contando desse momento em que o senhor Alexandrino vislumbra no negócio das telecomunicações exatamente aquela ideia que ele sempre teve de montar uma coisa em que o cliente fosse levar o dinheiro na boca do caixa.

 

R – É para não ter cobrador. 

 

P/1 – Mas isso foi uma visão de futuro rara para a época, não é? Em um momento em que o país estava começando a deslanchar.

 

R – Mas eu acho que aí você se enganou um pouco. Eu acho que a visão de um novo Brasil começou já com o governo Juscelino.

 

P/1 – Com a construção de Brasília?

 

R – Com a construção de Brasília, compreendeu? E não tinha como você pensar o contrário, o Brasil só tinha, isso aí é uma coisa, uma riqueza que esse país tem e que só tinha que ir para a frente e tinha que ter uns homens mais sérios, e graças a Deus a gente teve aí uns governos bons, por exemplo, talvez tem muita gente que seja contrário ao meu parecer, mas, para mim, os governos militares foram fabulosos, não vamos fugir muito não, mas você vê hoje a falta de energia no Brasil, isso é a maior estupidez do mundo. Hoje, o que nós temos de usinas, quem construiu foram os militares, então, naquela época todo mundo gritava: “Gente, esse povo só sabe fazer usina, não sabe fazer mais nada”. Eu me recordo quando foi para construir Itaipu, todo mundo era contrário àquilo, então, eu acho que nós tivemos uns governos, eu acho que a partir do Juscelino, o Castelo... Não, o primeiro lá... O primeiro presidente após o Getúlio... 

 

P/1 – O Dutra?

 

R – O Dutra foi um governo manso, um governo gostoso, um governo de muita sensatez, um governo muito honrado, e eu acho que a partir disso, dessa democracia e depois um pouco de militarismo, eu acho que o Brasil só tinha que ir para frente, não tinha outro pensamento, essa é a minha opinião. Eu acho que o Alexandrino acertou em cheio com a parte de telecomunicações que veio na hora. Hoje, em parte de telecomunicações, tudo que existe de melhor no mundo, nós temos no Brasil. Então, nós entramos na hora, nós não temos nada arcaico, nossas coisas são todas modernas. E a CTBC é uma companhia exemplar dentro do Brasil, tudo de bom que vai acontecer, ela é a primeira a fazer, compreendeu? 

 

P/1 – Senhor Oswaldo, ainda nesse período de 1954, quando o senhor Alexandrino entra no negócio, que é o momento que coincide com o início da construção de Brasília, essa época até a inauguração de Brasília, como é que foi o impacto desse movimento de construção de Brasília numa região que está na metade do caminho, não é? Quer dizer, essa região do Triângulo é uma região de passagem, não é?

 

R – Uberlândia participou demais da construção de Brasília. Uberlândia tinha grandes fornecedores para Brasília, inclusive hoje, pelo menos de nome você deve ter ouvido falar, mas tinha uma pessoa que eu admirava, por sinal português, chamava Oswaldo de Oliveira. Um sujeito com um entusiasmo fora do comum com a construção de Brasília, um uberlandense roxo, ele não é português, ele nasceu em Monte Alegre, os pais eram portugueses, mas Uberlândia, essa região aqui, ela contribuiu demais com a construção de Brasília. E surgiram então as novas rodovias, as novas estradas.

 

P/1 – E, curiosamente, senhor Oswaldo, estão aqui os três maiores atacadistas do país, não é?

 

R – Não tenha dúvida. Você vê hoje um Armazém Martins, um Armazém Peixoto, um Armazém do Comércio. Hoje esses são os maiores, mas antes disso nós tínhamos grandes atacadistas aqui em Uberlândia, na década de 1940. Uberlândia, por exemplo, era considerada a capital do Mato Grosso. Mato Grosso sobrevivia com o fornecimento de Uberlândia, nós tínhamos aqui, João Calixto, grande atacadista, nós tínhamos Teixeira Costa, grande atacadista, nós tínhamos Joaquim Fonseca e Silva, grande atacadista, Francisco Capparelli, grande atacadista. Depois veio J. Veríssimo, uma empresa que veio de fora, essas todas de uberlandenses, a J. Veríssimo veio de fora. Então, esse ciclo foi indo e Uberlândia é isso que você vê hoje, você vê na televisão hoje, me parece que sessenta por cento da população de Uberlândia é de fora. Então Uberlândia recebe com muito carinho, com muito amor o forasteiro, eu acho que por tudo isso é que nós temos essa grande Uberlândia.

 

P/1 – E gerando também desenvolvimento e oportunidades.

 

R – Não tenha dúvidas. Mas eu continuo dizendo e falo com toda a convicção que Uberlândia teve duas fases, uma antes de Rondon e outra depois de Rondon Pacheco. Tudo que aquele homem pode fazer para Uberlândia e o Triângulo Mineiro, aquilo é um dos maiores políticos, dos maiores, aquilo é fora de sério. Você conhece de nome só?

 

P/1 – Ele já deu depoimento para nós aqui. Ele já sentou nessa sua cadeira.

 

R – Sentou? Aquele homem é uma coisa fabulosa. O que aquele homem fez por Uberlândia é coisa extraordinária. Essas rodovias, todas convergem para dentro de Uberlândia, essa universidade, é fora de sério, viu? Infelizmente nós não temos outros políticos assim, não apareceu, está aparecendo agora um, que já vai para o segundo mandato que é o Odelmo Leão Carneiro, federal, esse também trabalha para Uberlândia, uma coisa extraordinária. E nós estamos querendo é isso. Esse, por exemplo, o Odelmo, está nessa luta para duplicar essa rodovia daqui para Uberaba, ainda hoje eu vi na televisão que está faltando dinheiro, não tem dinheiro, está paralisada. Então tem muitas pessoas que adoram Uberlândia e é isso que faz a nossa cidade, é isso que me dá orgulho de ser uberlandense. Mas não fala que eu sou mineiro não que eu não gosto, eu quero ser triangulino. Não vai ser na minha época, eu não vou estar aqui, mas se Deus quiser ainda vai ter o estado do Triângulo. (risos)

 

P/1 – Senhor Oswaldo, eu gostaria que o senhor contasse um pouco mais, esse rosário de empresas, cada um dos irmãos tocando um negócio e apoiando uma visão de futuro que o senhor Alexandrino teve com o negócio das telecomunicações, as empresas Garinco, Intermáquinas, Irmãos Garcia, elas participavam com efetividade, quer dizer, tiveram que socorrer em algum momento a CTBC nos seus tempos heróicos?

 

R – Realmente isso existia, por exemplo, tinha caminhões da empresa, da Garinco, vamos dizer assim, porque a nossa empresa de Garcia S.A. passou a chamar Garinco, na época, a Garcia S. A. participava emprestando caminhões para puxar postes, transportar gente para a construção de rede. Todas elas cooperavam, existia, vamos dizer assim, um contrato de mútuo. Quando você estava sobrando aqui, aquela que precisava passava para lá e vice-versa. Então existia aquele rodeio dentro das empresas, um contrato de mútuo, compreendeu? Em prestação de serviços, ou em dinheiro, isso sempre existiu. Uma coisa dentro da lei, cobrando juros e tal. Então essas três empresas foram as responsáveis, no início, pelo desenvolvimento da companhia telefônica, dando todo o apoio, como eu te falei, às vezes chegava um cliente: “Olha, eu estou precisando vender umas ações aqui, você não me compra e tal?”. Então você comprava e transferia para a telefônica, transferia para o grupo e sempre foi assim. E depois de muitos anos, com o passar dos anos quem nos socorria era a CTBC, ela que nos socorria, porque tinha mais dinheiro em caixa. Então isso é uma coisa que acontecia. 

 

P/1 – Senhor Oswaldo, mal comparando, como é que era esse conselho de administração, porque afinal de contas a família se reunia, almoçava junto aos domingos, eu suponho, como é que eram essas conversas? Eram reuniões formais de negócios ou os senhores tratavam de negócios o tempo todo?

 

R – Não, essas reuniões de almoço assim, mais era só de família. Quando era para tratar de negócio era dentro da empresa e se faziam as reuniões, todo o fim de ano tinha as prestações de contas. Hoje mudou, hoje tem o que eles chamam, se não me engano, de Prodex, que todo o ano é feito, inclusive, nessa semana agora deve ter o Prodex lá na Pousada, compreendeu? Então, lá é uma espécie de prestação de contas, mas isso sempre houve, todo mundo prestava suas contas, recebia seus parabéns ou recebia o seu puxão de orelha. Mas quando se reunia assim para um jantar, para um aniversário, um trem qualquer, às vezes surgia, não deixa de surgir alguma coisa em sentido de empresa, mas era muito difícil, mais era só parte da família mesmo.

 

P/1 – E nesse processo, senhor Oswaldo, a gente pode dizer que a liderança disso tudo era do senhor Alexandrino? Era ele que dava um pouco a visão maior?

 

R – Ah, não tenha dúvida. O Alexandrino é aquilo que eu te falei no início, tinha uma visão extraordinária, enxergava muito longe, controlava a família toda, torno a repetir, foi um outro pai que nós tivemos e tudo que nós temos, nós agradecemos a ele, com a nossa ajuda, com nossos esforços a gente conseguiu chegar onde essa empresa está hoje.

 

P/1 – Seria pedir muito para o senhor dizer para nós qual foi a lição mais importante, mais notável de toda essa convivência com o senhor Alexandrino, qual foi a lição mais notável que ele deixou?

 

R - Eu, para pensar bem, o que ele deixou, o principal que ele deixou foi a harmonia entre os irmãos, irmãos e cunhados, porque teve cunhados que participaram também das empresas. Então essa harmonia, essa amizade que ele procurava nos dar, nos orientar, eu acho que isso foi um dos maiores predicados que ele deixou. Tem vários aí que no momento não passa pela cabeça. Mas ele foi extraordinário, viu?

 

P/1 – Todos os outros que não lhe passam pela cabeça, provavelmente são decorrência apenas desse que é a harmonia... 

 

R – É isso, não tenha dúvida. A principal coisa dele era a honestidade, ele falava: “Meu filho, se não houver honestidade, você tem que trabalhar com a cabeça sossegada, o seu irmão está trabalhando ali, está produzindo para você, para ele, para mim, para todo mundo, você está fazendo o mesmo, então, honestidade é a coisa mais sagrada do mundo, é ser honesto”. Então, a gente tem muita coisa que ele nos ensinou, a gente transmitiu para os filhos. Eu não posso falar, mas vou falar, eu tenho uma família maravilhosa, tenho nove filhos, todos formados, todos eles têm aquele maior carinho comigo, com a minha esposa, você viu a Kathy, não é, o carinho que ela tem conosco. Então isso tudo vem do berço, vem daquilo que foi ensinado pelo Alexandrino e pelos meus pais a nos orientar a saber conduzir uma família. Eu tive uma outra mãe e um outro pai que foi meu sogro e minha sogra também. Me casei com vinte e um anos, a Isa com dezoito, recebemos muita orientação deles também, então, a gente tem muita satisfação, muita alegria de ter recebido essas orientações, de ter transmitido aos filhos e vamos vivendo aí.

 

P/1 – O senhor disse que não podia falar, é claro que pode falar, até porque eu ia lhe perguntar...

 

R – É porque foge um pouco, não é?

 

P/1 – Eu ia lhe perguntar também, porque até então o senhor não havia falado da Dona Isa e eu ia lhe perguntar sobre aquela menina lá dos anos 1946, quando vocês casaram.

 

R – Meu conhecimento com a Isa, ela estava com doze anos e eu estava com quinze. Isso foi no fim de 1939, começo de 1940. Eu encontrei, achei aquela menina muito bonitinha passando na Afonso Pena, com os livros debaixo do braço, aí eu mexi com ela, ela fez uma cara ruim para mim etc. e tal, aí foi embora. Depois falou para o irmão dela: “Olha, você fala para aquele português que é para não mexer mais comigo não”. Aí o Ivan, hoje doutor Ivan, que é meu cunhado, falou: “Se você mexer com a minha irmã mais uma vez, eu quero te dar uma surra”. Eu falei: “Então está bom”. (risos) Na época seria uma brincadeira ele me bater, porque ele não ia me bater, não é? Mas aí a gente começou a brincar e a gente teve logo em 1940... No fim de 1940, eu comprei uma correntinha de ouro e a gente já dava aqueles flertes, namorava de longe. Eu ia à missa das dez, todo o domingo, era sagrado, você tinha que ir à missa, hoje ninguém liga para isso, eu por exemplo não vou à missa mais, mas no tempo de menino, de adolescente, mesmo depois de casado a gente ia à missa constantemente. Mas eu comprei uma correntinha para ela em 1940, no Natal e ela foi à missa, eu peguei e dei a correntinha para ela, ela não queria pegar de jeito nenhum, aí pegou. Ela morava no Colégio Estadual, lá no Museu, chegou lá e contou para a mãe: “Olha, eu tenho um namoradinho assim, assim, ele me deu essa correntinha”. Ela falou: “Muito bem, minha filha, você me contar, porque ele tinha me falado que ia te dar”. Eu tinha falado para a minha sogra, eu fui educado, cara de pau eu falei: “Olha, eu vou dar uma correntinha para a sua filha”. Aí começou, compreendeu? Então foram quatro e meio de namoro, um ano e meio de noivado e cinquenta e seis de casado.

 

P/1 – Como é que foi o dia do seu casamento, senhor Oswaldo?

 

R – (Risos). Interessante, é umas histórias, a gente vai contando aqui, mas eu não sei se vale para essa entrevista. É o seguinte, naquela época, para você pegar na mão da moça era a coisa mais difícil, escondidinho você pegava, de vez em quando roubava um beijo e, para você ter uma ideia, eu consegui sair com ela sozinho para ir ao cinema na véspera do meu casamento. Na véspera do meu casamento, eu saí com ela e nós fomos ao cinema. E a avó que era nossa companheira, nossa lanterna, ficou com raiva, passou a mão nos netos tudo e foi no cinema e assentou atrás da gente. Então, essas coisas assim é gostoso da gente contar porque é diferente de hoje. Mas, o que está acontecendo hoje você tem que concordar, é a evolução, compreendeu? Hoje, o sujeito já chega, pega na mão da menina, dá um beijo, etc. Antes era difícil. Então, no dia do casamento, acabou o casamento, nós passamos, tiramos fotografia, eu pus ela dentro do carro e falei: “Agora vamos dar uma volta”.  Aí dentro do carro eu abracei e beijei à vontade, aí eu falei: “Agora eu estou aliviado, agora vamos embora”. Aí no outro dia, só ia para São Paulo de Mogiana, ou de Avião, de avião ela não queria ir, fomos na Mogiana. Fomos para São Paulo para lua-de-mel, cheguei lá não teve lua-de-mel nada, porque eu fui trabalhar. Ir a General Motors, tirar carro, fazer isso, fazer aquilo. Naquela época da guerra, a guerra já tinha terminado, a guerra terminou dia 7 de maio de 1945, mas tinha muita falta de mercadoria, por exemplo pneus, não existia pneus, nós trabalhávamos muito com pneus, então eu ficava naquelas indústrias atrás de pneus, retirava caminhões, vendia por lá mesmo. Então, só teve um final de semana que nós fomos para Santos. Mas foi muito bom, hoje infelizmente ela teve, fumou bastante, teve um enfisema pulmonar e hoje ela, mudamos de casa, nós morávamos no centro hoje, moramos num bairro muito tranquilo, onde tem muita árvore, ela passa bem. Mas ela não fica sozinha e eu não a deixo sozinha também, às três horas, as empregadas vão embora e eu fico com ela dentro de casa até no outro dia. No outro dia eu saio vou, ver uma coisa, vou numa fazendinha que os meninos têm aqui e fico praticamente em função dela. Mas o meu amor por ela é muito grande e é recíproco também. (risos). Então a nossa vida é essa. Tenho uns filhos maravilhosos que você nem calcula. Pode ser que uma família tenha filhos maravilhosos iguais aos meus, mas é difícil, viu? 

 

P/1 – Todos estão por aqui, senhor Oswaldo?

 

R – Todos. O único que estava fora chegou sábado, estava em Brasília, voltou para cá. Ele trabalha no Armazém Martins lá em Brasília, mas agora foi transferido para cá. E tem um outro, esse é engenheiro e está na Engeset, trabalha mais é no Norte, mas ele fica trinta dias, quarenta dias, vem, a família está aqui, compreendeu?

 

P/1 – O seu cotidiano hoje, senhor Oswaldo, o senhor tem algum outro tipo de negócio, montou alguma coisa depois da Garinco, tem alguma atividade que...

 

R – Depois da Garinco, eu e o Carlyle, nós constituímos uma empresa para trabalhar com atacado de peças, o nome fantasia chamava Diga – Distribuidora Garcia de Auto Peças – nós funcionamos de 1995 a 1998, funcionamos três anos nessa empresa. Vendemos bastante, mas não recebemos, então, foi um fracasso essa empresa nossa. Então fechamos, ele foi trabalhar para um lado, eu estou aposentado e vamos tocando a vida.

 

P/1 – O senhor tem sonhos, senhor Oswaldo? O senhor tem sonhos assim na vida, realizar mais coisas, o senhor tem algum sonho?

 

R – Não pela idade, setenta e sete anos, eu não posso pensar em muita coisa não. Mas eu quero ainda que Deus me dê bastante saúde e mais uns anos de vida aí, que eu ainda quero ver umas bisnetinhas que eu tenho, uns netinhos, quero ver eles mais moços, compreendeu? Eu não penso em morrer não, eu quero ver até onde vai, que eu vou fazer força eu vou, mas Deus é que sabe, a hora que chegar, você tem o seu destino a hora que chegar... Vamos ver o que vai acontecer.

 

P/1 – Senhor Oswaldo, além da dedicação que o senhor tem à Dona Isa, à sua casa, o seu cotidiano hoje, como é que ele se distribui, como é seu dia a dia hoje?

 

R – Geralmente eu levanto cedo, quando a patroa está disposta, a gente vai até a Praia, dá uma andada ou dá uma andada no quarteirão. Depois eu saio, vou para a fazendinha, faço minha comida, tem tudo lá. A Isa mandou montar tudo para mim. Para mim isso aqui serve como fogão, cozinho aqui, mas a Isa não quer, ela mandou montar uma casinha, tem uma meia água lá, ela mandou fazer uma cozinha bem chique lá para mim com geladeira, tudo direitinho. Então eu vou para lá cedo, olho o gado, ajudo a tirar leite, a vacinar gado, olhar uma horta e faço meu almoço, ligo a televisão, vou ver jornal, quando dá duas e meia, três horas eu venho para casa. Esse é mais ou menos meu itinerário. Às vezes, em vez de ir para lá, eu vou visitar um amigo que a gente tinha, ex-funcionários que estão estabelecidos aí, a gente vai visitá-los, vai bater um papo. É mais ou menos isso a vida minha hoje.

 

P/1 – Essa fazendinha é próxima?

 

R – É, daqui vinte quilômetros, é logo aqui pertinho. Uma coisinha pequena, vinte alqueires, mas dá para se divertir bastante, viu?

 

P/1 – O senhor é cozinheiro também, senhor Oswaldo?

 

R – Eu cozinho, gosto de uma cozinha. A minha patroa me ensina uma vez só, não precisa ensinar outra vez não, compreendeu?

 

P/1 – E qual é a sua especialidade?

 

R – Dizem os amigos que eu sou muito bom para fazer frango ao molho pardo, uma feijoada, uma vaca atolada, um frango com macarrão, gosto de fazer um arrozinho soltinho também, gosto de temperar uma carne para churrasco. Então é isso aí.

 

P/1 – A minha mãe sempre diz que homem cozinheiro, ele vai para a cozinha só para ser elogiado.

 

R – Como é que é?

 

P/1 – Ela diz que homem só vai para a cozinha para ser elogiado.

 

R – (Risos). Essa é boa. Mas que a gente fica satisfeito, não tenha dúvida. A hora que você vê o colega levantar, já fez um prato desse tamanho, levanta e repete, é porque deve estar gostoso, ou ele está com fome. Mas o golpe é você deixar para sair bem tarde, para dar bastante fome, porque aí ele está saturado já de cerveja, de whisky, a hora que vem a comida ele... É isso aí. 

 

P/1 – Está certo senhor Oswaldo. Eu gostaria de saber se o senhor gostaria de ter dito alguma coisa que o senhor não disse?

 

R – Não, eu não tenho mais nada a declarar não, compreendeu? Eu acho que o que a gente tinha de falar sobre a vinda dos meus pais aqui para o Brasil acho que foi esclarecido, outras pessoas talvez já tenham falado e seria a mesma coisa. Acho que não tinha que mudar nada, é isso aí. Quero agradecer essa oportunidade, a gentileza de vocês me chamarem aqui e deixar gravado essa mensagem aqui para os meus filhos, para o futuro. Quem sabe se depois você me dá uma fita dessa aí para eu exibir para os meus filhos, diz a Kathy que eu saí muito bem, não sei, vamos ver o que está saindo aí, não é? Depois eles vão me dar a nota. (risos)

 

P/1 – Como é que o senhor vê o futuro dessa empresa que o senhor viu nascer, da CTBC, como é que o senhor vê o futuro, sem lhe pedir nenhum exercício de futurologia, mas com toda a experiência que o senhor tem, com a visão que o senhor teve desde o início do processo, o que o senhor enxerga para frente?

 

R – Para mim, eu só enxergo coisa boa, porque a telecomunicação, ela está cada vez se aperfeiçoando mais, cada vez com mais tecnologia, compreendeu? Então, é incrível você, com um pedacinho de um trem na mão, falar no mundo inteiro, que é o telefone celular, isso é coisa espetacular. Eu acho que ainda tem muita coisa a vir aí, eu acho que a CTBC ainda vai nos proporcionar, como uma empresa uberlandense, ainda vai nos proporcionar muita alegria. 

 

P/1 – Senhor Oswaldo, como é que o senhor se sentiu dando esse depoimento para nós, o que isso significou para o senhor?

 

R – Eu gostei muito dessa liberdade de vocês, de ter contado coisas que eu acho, pelo que é o Museu, agradecer demais a oportunidade que vocês me deram de eu falar da minha família, dos meus amigos. E falar um pouco da empresa, da vida da gente, então a gente fica satisfeito, dá uma desabafada boa. Eu vou ser sincero, eu até estou meio surpreso comigo mesmo, eu não sei se eu falei muita bobagem, se eu falei muita besteira, mas eu com setenta e sete anos é a primeira vez que eu enfrento uma câmera assim, então eu achei que eu ia ficar muito constrangido, tremer um pouco, mas vocês me deram muita liberdade, foram camaradas, me trataram com muita simplicidade, então eu gostei demais de vocês. Vocês estão de parabéns também, todos vocês.

 

P/1 – Senhor Oswaldo, o senhor não sabe como é bom ter o senhor aqui com a gente. Muito obrigado.

 

R – Obrigado vocês. Felicidades para vocês todos. 

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