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História

Muito mais do que parte de uma engrenagem

História de: Osório Alves Costa
Autor: Ana Paula
Publicado em: 16/06/2021

Sinopse

Osório Alves Costa conta sobre sua história de migração do interior do Maranhão até a cidade de Conceição do Araguaia. Na nova cidade fez parte do processo de construção da Fundação Bradesco na cidade e conta das experiências marcantes que viveu dentro da instituição. Uma referência para todos que passaram por ali, Osório é sempre uma lembrança boa de quem teve a oportunidade de conviver com ele no período em que era funcionário da Fundação.

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História completa

Fundação Bradesco Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Osório Alves Costa Entrevistado por Marllon Chaves e Damaris do Carmo Conceição do Araguaia, 6 de janeiro de 2006 Código: FB_HV020 Transcrito por Ana Elisa Antunes Viviani Revisado por Michelle Barreto P/1 – Seu Osório, a gente queria começar com o senhor se identificando: o seu nome completo, local e data de nascimento. R – Meu nome é Osório Alves Costa. Eu nasci no dia 11 de setembro de 1952, em Loreto, Maranhão. P/1 – Como é essa região de Loreto? R - Loreto é uma cidade interiorana do Maranhão. Uns 3 mil habitantes. Meu pai veio pro Pará em 1957. No lombo de animais andamos 45 dias de Loreto a Conceição do Araguaia com muita dificuldade. Na época não existiam rodovias. E chegamos aqui no dia 12 de março de 1957. Na época eu tinha 5 anos. P/1 – E os seus pais? R - Meus pais nasceram no Ceará. Minha mãe é maranhense. Nasceu em Passos Bons, uma cidade do Maranhão, e meu pai nasceu em Juazeiro, no Ceará, de uma família muito longa. São 32 tios. Não tenho mais nenhum. São todos falecidos. O caçula da primeira esposa do meu avô morreu com 107 anos e o caçula da segunda família da geração do meu pai faleceu o ano passado, em maio, com 92 anos. P/1 – E o nome do seu pai? R – Augusto Alexandre Moreira e a minha mãe Sebastiana Alves Moreira. Meu pai nasceu em 15 de Janeiro de 1913. Minha mãe nasceu em 1929. P/1 – E aí o seu pai veio pra cá pra… R - Na época procurando melhora. Eu já tinha um tio que morava aqui em Conceição e ele fez um convite. O meu pai esteve aqui antes. Olhou. Era muito fácil adquirir terra na cidade pequena. E ele resolveu trazer toda a família em lombo de burro. P/1 – O senhor falou do seu avô. Chegou a conhecer? A história dele? R – Não, meu avô não cheguei a conhecer. Só minha avó, da segunda esposa do meu avô. P/1 – E quem era? R – Era Maria Brasil. P/1 – O senhor tem alguma lembrança dessa época? R – Não, muito pouco. Só que ela era muito racista. É a única coisa que eu lembro dela. A única coisa. Eu era muito pequeno. Devia ter uns 5 anos. P/1 – E o senhor tem lembrança da infância do sr. lá em Loreto? O que o senhor brincava? Como era a vida de criança lá? R – Olha, eu lembro que eu estava com 5 anos. Meu pai, quando vendeu a propriedade, que estava entregando os animais, a terra... eu tenho uma lembrança assim de muito gado e o comprador ali, com muitos vaqueiros e aquele corre, corre. E algumas passagens na vinda de muito sofrimento. Eu andava no lombo do animal o dia inteiro. O sol quente. Tinha outro irmão meu menor ainda. Eu estava com 5. Tinha um menor com 3 anos. Então foi uma viagem muito cansativa. E recordações não muito boas. P/1 – E Conceição como era? R – Conceição tinha, na época, acho que uma caçamba e um trator que era da prelazia aqui do aeroporto. O aeroporto era em frente aqui à Fundação Bradesco. E não tinha nenhuma rua calçada, não tinha saneamento nenhum. Só areia. A gente tinha dificuldade até de andar na rua com muita... Hoje está uma maravilha Conceição do Araguaia em relação à época quando eu cheguei em 1957. P/1 – E como era a cidade, as pessoas? Como que foi essa mudança? R - Olha, Conceição tomou impulso quando chegou a Fundação Bradesco. Essa Fundação Bradesco foi um chamativo de muitas pessoas vizinhas aqui do Estado de Goiás, que hoje é Tocantins. Então trouxe um desenvolvimento muito grande. Não só a Fundação, como a fazenda também, que era um projeto da Sudam. E o Banco Bradesco foi a primeira propriedade do banco, essa fazenda. E depois construiu a escola. E isso trouxe muita gente, muita melhoria pra Conceição do Araguaia. Conceição deve muito à Fundação Bradesco, à organização Bradesco, com certeza. P/1 – Antes disso, como eram as ruas, as pessoas? R - Você conhecia todo mundo. Não existia crime, não existia... Você sabia da vida de todo mundo. Conceição tinha 2, 3 ruas só. Uma cidade que foi fundada... tem 107 anos. Então a gente, quando mora 10 anos numa cidade como essa, você passa a conhecer todo mundo. Na época devia ter 2, 3 mil pessoas. Era pouca gente. P/1 – E o senhor criança aqui o que o senhor fazia? Corria muito? R – Trabalhava na roça. Eu fazia na época um colégio dominicano. Fiz o primário, o ginásio numa escola de freiras. Eu estudava pela manhã e à tarde eu teria que ir pra roça trabalhar com o meu pai. E foi sendo: brincadeira mesmo do interior. P/1 – O rio aqui do lado? R - Agora o rio aqui era uma maravilha. Muito peixe. Eu cheguei a presenciar alguns mariscadores aqui, velho, aqui. Arpoar pirarucu aqui, em frente da cidade. Você ficava acompanhando à margem do rio. Eles lutando com o peixe. Tinha muita abundância. Então na época, se tivesse como gravar, pra mostrar hoje pra os conceicionenses, seria uma coisa maravilhosa. Muita cena bonita, peixe com muita abundância. Hoje, realmente, com essa pesca predatória está muito difícil. P/1 – E a comunidade vivia do quê na época? R - A comunidade vivia mais da agricultura, pequenas agriculturas pra sua sobrevivência. Era tão difícil na época que a capital fica a 1200 quilômetros daqui. Eu não cheguei ainda... porque na época existia um avião que fazia a ponte Belém – São Paulo, a Vasp [Viação Aérea São Paulo], e um avião da Força Aérea Brasileira que trazia alguns médicos e dava alguma assistência aqui pra comunidade. Porque não existia médico. P/1 – Que era a famosa FAB. R – A FAB, exatamente. A Força Aérea Brasileira. P/1 – Porque aí a FAB vinha. Como que era essa? R – Eles já tinham uma escala. Então as freiras dominicanas já faziam uma triagem das pessoas que estavam com algum problema de saúde. E na época as pessoas já chegavam, sabiam o dia certo, iam no aeroporto, ou senão no Convento das Freiras. P/1 – E o senhor brincava de quê? O senhor lembra de alguma brincadeira? R - Brincadeira aqui era mais de peão. Jogar peão, peteca, boizinho de fazenda. Mais com aqueles boizinhos de junta do próprio animal, do boi. Aquelas brincadeirinhas de lata. Fazia carrinho de lata, de madeira. Não era igual hoje, que os meninos… P/1 – Conto também? Lembra do conto do dinheiro? R – Conto? P/1 - De cigarro vocês brincavam também? R - Ah, era. Juntava papel de cigarro como se fosse nota de dinheiro e ficava trocando. O tipo de brincadeira era esse. O recurso que a gente tinha na época era esse. Não tinha nada de… P/1 – Não tinha brinquedo de fora? Era só o inventado aqui? R – Em escola? P/1 – Não, dos brinquedos. Aqui na cidade eram os que vocês inventavam. R – Era só o que a gente criava mesmo. P/1 – E aí o senhor estudou... Qual a primeira escola mesmo? R – Foi no Colégio Santa Rosa. Na época, pra você passar da 4ª pra 5ª série você fazia um curso de admissão que era um vestibular. Hoje seria assim. Muita gente ficava reprovado. Estudei no Santa Rosa. P/1 – E aí como foi? Depois o senhor já estava mais mocinho? R – Já estava, mas sempre trabalhando com o meu pai até eu... Depois eu concluí o magistério. E quando eu vim pra Fundação... antes da Fundação eu trabalhei – já com 19, 20 anos – trabalhei no Censo lá em São Geraldo. Foi meu primeiro trabalho. Meu primeiro dinheirinho que eu já... pessoa maior. P/1 – E como era ser jovem em Conceição do Araguaia? Como era a juventude, as amizades? R- Olha, é até difícil a gente falar como era. Porque na época não existia muita malícia. Era um pessoal muito puro. Não existia tanta briga. Parece que é um pessoal assim... você vivia mais. O ano parece que era muito mais longo. E apesar de a gente ter uma vida muito difícil, trabalhando, lutando, na roça... mas era brincadeira de bola. A gente fazia umas bolas de mangaba extraída do cerrado daqui de Conceição. Uma goma que a gente vai soprando. É muito difícil. Ela, quando quica, não tem uma direção certa. Muito… P/1 – Era, tipo, uma bola de latex? R – Latex, é. P/1 – E brincavam o dia inteiro? R – Brincava o dia inteiro. A gente mesmo se reunia e fazia o nosso campo. Tudo com trabalhos manuais. Não existia trator, máquina nenhuma que pudesse, prefeitura. Então a gente mesmo capinava, limpava o terreno, fazia... e a vida era essa. P/1 – E a missa do domingo como era? A missa do domingo? R – A missa? P/1 – Todo mundo se reunia? R – Ah, reunia. Na época não existia tantas igrejas evangélicas. Era igreja católica. E realmente era um compromisso que a gente tinha: no domingo ir na missa. Meus pais me cobravam muito. Era um compromisso do domingo ir pra missa de manhã. E minha mãe, muito rigorosa, se eu não fosse à missa eu não ia brincar. Então tinha aquele compromisso de ir pra missa. P/1 – E no domingo, no final da tarde, as paqueras? R – Ah, foi muito difícil. Quando eu comecei a paquerar, eu, muito tímido, como eu sou até hoje... Mas eu vim a namorar, minha primeira paquerinha, com 19, 18 anos. Eu já estava quase adulto. P/1 – E como foi essa história do Censo? R – Na época, quando o governo fez o primeiro Censo agrícola pra essa agropecuária, eles tiveram até dificuldade de conseguir material humano pra fazer o Censo. Hoje é muito mais difícil. Hoje existem milhares de candidatos. Mas naquela época não. E o município de Conceição era muito grande, porque Conceição na época... não existia Redenção, nem Xinguara, nem Rio Maria, não existia Tucumã. Existia São Félix do Xingu e Conceição. Então Conceição hoje é mãe de, aproximadamente, de umas 6 a 8 cidades: Redenção, Rio Maria, Pau d´Arco, Floresta, Xinguara, São Geraldo. Se tiver algumas outras, não sei. Então o Ibge [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] veio pra cá e fez um treinamento com a gente e eu fui designado a fazer em São Geraldo do Araguaia. E fui logo após, quando eu estava fazendo o Censo, que houve o comentário de uns guerrilheiros que habitavam lá na região. Na época eu já tinha convivido com alguns aqui. Tinha uma loja de roupa. Tinha o Paulão, tinha a dona Dina também. E eu até tive na época do Censo um problema intestinal e ela era médica, não sei. Me deu um remédio. P/1 – A Dina? R – A Dina. E até lembro o comprimido: imosec. Hoje nem se usa mais. Então cortou a minha diarréia rapidinho. E logo que eu saí foi quando o exército brasileiro veio e passaram a procurá-los. Mas já tinham saído, na época, da região. P/1 – E como foi essa época aqui, com exército? Com essa coisa da guerrilha? Como que era? R – Aqui em Conceição mesmo não... eles passavam por aqui, porque a base aérea era aqui, mas eles se concentraram mesmo em São Geraldo e Xambioá, cidade que é hoje no Tocantins. Lá que eles realmente se concentraram. Todo mundo. Agora foi surpresa pra gente... Eram pessoas que só faziam o bem pra nós aqui. E a gente nunca imaginava que eles tinham um objetivo. Mas pra cidade não houve dano nenhum. P/1 – E como era a relação da população com o exército, com os guerrilheiros? R - Com o exército não era tão bom porque eles intimidavam muito. Então você não tinha o direito de falar nada. Se você fosse suspeito eles te maltratavam, faziam algumas barbaridades. E não tinha direitos humanos que pudessem acompanhar. Foi muita gente penalizada, torturada de uma maneira... sem motivos. P/1 – E com os guerrilheiros? R – Com os guerrilheiros a briga era acirrada. Eles usavam todas... E eles conheciam muito a região, as matas. Eles moravam em lugares e esconderijos bem camuflados. Eles estavam preparados, mas infelizmente brigar contra o exército brasileiro seria impossível. Era um grupo muito pequeno de gente. P/1 – Tinha toque de recolher aqui? Tinha toque de recolher? R – Não, não houve. Na região lá houve. São Geraldo era município de Conceição, mas o prefeito na época não tinha muita interferência lá, até porque não queria se envolver com a questão. P/1 – Aí, com 19 o senhor trabalhou no Censo… R – Eu voltei pra Conceição. Terminei, trabalhei uns dois meses lá. E aí, quando (Auselina?), em 1972, novembro de 1972, precisava de uma pessoa pra ficar aqui na escola porque ela ia pra São Paulo. A família dela morava em São Paulo. E eu me candidatei. Vim aqui, conversei com ela. Falou: “Olha no momento eu estou precisando de um vigia pra ficar algum tempo aqui até eu ir em São Paulo. Mas eu vou precisar futuramente de 2 inspetores de alunos.” E assim foi. Minha carteira foi assinada como vigia. Trabalhei alguns meses. Quando a (Auselina?) voltou, passei a ser inspetor de alunos. Fiquei um bom tempo. E depois fiquei sendo instrutor de artes. P/1 – Então vamos voltar assim: como foi a chegada da Fundação aqui? Teve burburinho? Como é que a cidade ficou sabendo? R – A criação da Fundação aqui foi a própria fazenda do Bradesco. Existia uma fazenda aqui, a Capra, Companhia Agro Pecuária Rio Araguaia. E eles acharam por bem trazer alguma coisa. A primeira escola do interior foi Conceição do Araguaia, mas acho que mais em função da fazenda. Pra Conceição, quando começou essa obra aqui, deu emprego pra essa juventude que não tinha. Mão de obra. Eles trouxeram algumas pessoas, engenheiro de São Paulo, mas a mão de obra mesmo, grossa, eu diria assim, foi de Conceição do Araguaia. Trabalhei de servente aqui também. Ganhei um dinheirinho. Então foi muito bom. P/1 – O senhor ajudou a construir? R - Ajudei a construir. Inclusive essa chácara... tem parte da chácara, que até foi desfeita, era do meu pai uma parte do terreno. A gente vendeu aqui pra Fundação Bradesco. Era uma chácara das freiras e depois veio a chácara do meu pai e meu tio. E a Fundação precisava de um terreno maior e a gente não criou nenhuma dificuldade. Se fosse o caso até pra doar a área, a gente doaria. P/1 – E o burburinho? Como foi? Como que chegou o comentário na população? Vai fazer uma escola? Como é que foi essa relação? R – Olha, a euforia maior foi mais na parte de trabalho, de mão de obra. Porque muitos jovens que nunca tinham ganho um dinheirinho, chegaram a ganhar. Eles eram muito pontuais. Pagavam toda quinzena, direitinho. Então foi a alegria pra juventude da Conceição do Araguaia de ganhar seu próprio dinheirinho e realizar alguns sonhos, comprar alguma coisa. P/1 – E aí como foi a construção mesmo? Em si? R – Daqui? P/1 – É, como foi essa empreitada? R – Olha, na época eu não sei te falar como... preço, essas coisas. P/1 – Não. Foi subindo esses prédios. Como é que foi a construção? R - Era uma coisa assim... porque a gente não tinha televisão na época. E ver ser erguida uma obra do tamanho da Fundação Bradesco era um espanto, um cartão postal. As pessoas visitavam aqui: “Estão construindo uma escola.” Eles vinham pra cá. Eles ficavam admirados. A população inteira ficava admirada pelo tamanho da obra. Lá se erguendo um prédio, as paredes muito bem construídas. Então foi um espanto, porque a maior parte das casas de Conceição do Araguaia era feita de adobe. Não sei se vocês conhecem. É um tijolo bem grande que não é queimado. É só do próprio barro. E se ele ficar exposto ao sol e à chuva logo ele... Existem algumas casas até hoje em Conceição do Araguaia que têm esse material. Então aqui foi feito com cal, cimento. Pessoal nem conhecia cimento na época. Conhecia o cal que vendia em Belém por embarcação. P/1 – E depois de pronta a população conheceu? R – Conheceu e absorveu quase todos os alunos da cidade. Na época houve um problema dos padres dominicanos com algumas autoridades daqui da cidade e ficaram muito chateados. Terminaram fechando o colégio e a Fundação absorveu todo mundo. E a primeira escola, em nível de 2º grau, foi a Fundação Bradesco. P/1 – E aí como que era? Porque eu ouvi dizer que não tinha nem água encanada e aqui já tinha. Tinha privada. Como é que foi? R - É uma história... Até quando eu trabalhava como inspetor de alunos era um problema. Os meninos ficavam horas e horas lavando a mão. E gente queria educar: “Não deve se gastar tanta água.” Essa água daqui... Energia era própria aqui. Era do gerador. Quer dizer, a energia em Conceição do Araguaia era até 10 horas da noite. Era a diesel. Depois que a Fundação tinha um gerador. Então enchia a caixa. Mas as crianças ficavam encantadas. Vinham pra pia lavar a mão e passavam horas e horas de consumo. Tinha que voltar pra ligar a bomba. Era uma luta. O banheiro. Eles entravam no banheiro e ficavam dando descarga. Queriam repetir a descarga. Como era válvula Hydra... Interessante. Eu tive muito problema com crianças assim. Até pra tirar na hora que terminava o recreio. Tinha que ir pro banheiro tirar a criançada de lá porque elas gostavam lá do banheiro. Porque em casa não tinham esse... Vieram a conhecer... eu não diria todos. Algum poderia ter, mas 99,9% não conhecia ainda um banheiro, uma torneira, água encanada. P/1 – E como inspetor, como que foi essa mudança? Eles foram se acostumando? R - Vão se acostumando. O bebedouro era um problema. O bebedouro, a mesma coisa. Aquele jato de água na boca deles... era uma brincadeira. Uma forma deles brincarem muito. A gente vivia brigando, discutindo, pedindo pra que eles não usassem tanta água, porque o consumo d’água era muito grande aqui na época. E era bombeada. E essas bombas antigas davam muito problema. Davam entrada de ar. E a gente vivia com pessoas lá, cuidando, pra poder manter a água na escola. P/1 – E era a maior construção da cidade? R – A maior construção. Maior construção. Uma construção faraônica, até diria assim. P/2 – Seu Osório, teve um aumento de população de outros lugares que vieram pra cá depois da instalação da escola? R – Com certeza. Com certeza Conceição, volto a repetir, deve muito à Fundação Bradesco, porque vi gente de todas as cidades até circunvizinhas do Estado de Goiás, que era na época, pra cá, a Fundação Bradesco. E tem muita gente formada, muita gente no nosso país inteiro que deve muito a Conceição do Araguaia. P/1 – Então ela foi crescendo. E depois de 73 a cidade começou… R - A cidade dobrou, triplicou com a Fundação Bradesco. No primeiro ano houve um certo receio. As pessoas ficaram até tímidas pra vir estudar, mas depois viu o ensino, a qualidade do ensino. A Fundação sempre se preocupou em preparar os professores, porque teve na certa muita dificuldade de professores na época. Mas eles mandavam o pessoal da matriz pra cá, faziam cursos. E aí as pessoas foram vindo mais pra Fundação Bradesco. Ficou muito difícil atender à população, porque muita gente veio de outras cidades pra cá pra Fundação Bradesco. Foi um impulso muito grande pra Conceição do Araguaia. P/1 – E mudou um pouco a cidade também? As construções? Influenciou? R - Ah, mudou, mudou. Mudou muito. As construções passaram a ser construídas já com alvenarias. E mudou muito. A Fundação Bradesco abriu a mente de muita gente. Porque as casas eram muito simples na época, muito simples. E passaram a melhorar. Passaram até a fazer fossas em casa. E depois de muito tempo, a Cosampa, que é a Companhia de Saneamento do Estado do Pará, instalou água encanada e aí passou a melhorar mais a cidade, com certeza. P/1 – E a Fundação dava algum apoio? Fazia alguma ponte com a população? R – Olha, a Fundação Bradesco fazia muita palestra educativa com os pais. A direção da escola, a própria matriz trazia gente de São Paulo, de todas as áreas, e faziam bastante palestras com a população. E lembro que as pessoas quando eram chamadas compareciam em massa. P/2 – Quem eram essas pessoas que eram convidadas pras palestras? R - Os pais eram convidados. E novamente a Fundação fazia torneio, arrumava umas brincadeiras. E as pessoas adoravam. E a Fundação dava lanche, dava alguma coisa. Então tinha muita gente carente que gostava desses eventos que a Fundação promovia. P/2 – O senhor lembra de alguns temas dessas palestras? R - Não, não lembro não. Dos temas assim: mais educativo, mais de higiene. Batiam muito nessa tecla. Porque as crianças, quando vinham pra cá, tinham muito piolho. A Fundação dava uniforme e esse uniforme era a roupa de pequenas festinhas. Era a roupa que eles tinham pra vestir. E muitas vezes esse uniforme era obrigado a ser dado dois ou três, dependendo da pessoa. Porque eles usavam no dia a dia deles lá fora o uniforme. P/1 – E como que eram escolhidas as crianças depois que já cresceu? Porque aí teve que fazer seleção. R – Aí foi ficando. A procura ficou muito grande. A escola não tinha como absorver todo mundo e eles passaram a querer fazer uma triagem, visitar as casas, ver realmente a necessidade das pessoas. E era feita essa escolha de alunos. P/1 – A escola foi crescendo e a primeira turma como é que foi? O sr. lembra dela quando entrou e quando saiu? A mudança? Como é que essas crianças ficaram? Aqueles que não conheciam a torneira? Como é que estavam no final de 4 anos de curso? R - Depois termina acostumando. Eles realmente também, com 1 ano, 2 anos, se adaptaram. Sempre aqueles que vinham novatos era novidade. Não deixavam de ser assim, mas logo, pouco tempo, eles acostumavam. P/1 – Você tem lembrança de algum desses alunos? R – Oi? P/1 – Desses alunos tem lembrança de alguns? R - São tantas pessoas que nem tem como citar o nome de uma pessoa assim. Muitos alunos. É complicado. Hoje, às vezes, eu ando na rua, cidade em Goiânia, Brasília, já fiquei em situação difícil que as pessoas me param: “Ah, você não lembra de mim? Em 1974 eu estudei lá.” Então eles gravam a imagem, porque já é uma pessoa adulta. E eles eram crianças. “Eu sou fulano de tal.” “Ah, tudo bem.” Quer dizer, é um engenheiro, é um advogado. “Você me colocou de castigo” – quando eu era inspetor de alunos – “Você lembra? Você me chamou a atenção.” Mas eles falam com muito carinho, com muita... lembrança muito boa. P/1 – E essas pessoas se desenvolveram então? R – Se desenvolveram. Se desenvolveram. Muita gente. Temos alunos aqui... muita gente formada. Muita gente trabalhando por aí devido à Fundação ter dado, ter aberto um caminho pra eles. Foi um portal. Eles têm muita história. Tem muitos alunos que hoje estão no campo político. Em qualquer área eles estão trabalhando e são bem sucedidos devido à Fundação Bradesco. E eles têm esse carinho muito grande pela Fundação. P/1 – Eu queria perguntar: e as festividades? Como eram as festas que o senhor falou que a Fundação Bradesco organizava? Tinha o 7 de setembro, por exemplo. A banda… R - 7 de setembro pra Conceição do Araguaia era uma data histórica porque a Fundação tinha uma banda. E o pessoal do interior todo vinha pra cidade. O desfile da Fundação, com bandeira de todos os Estados, foi uma loucura. Coisa assim... Colocava-se cada bandeira do Estado numa ciranda. A fanfarra daqui da Fundação chegou a atender o município de Redenção, porque lá não tinha. E a gente terminava o desfile aqui, entrava num ________? de chão a 110, 104 km. E os alunos lá, esperando também, pra que a fanfarra chegasse, a fanfarra da Fundação Bradesco. Era uma alegria, uma data que eles aguardavam o ano inteiro pra ver o 7 de setembro da Fundação Bradesco. P/1 – E que outras festas eles faziam? R - Daqui da Fundação? Não, eu acho que a Fundação começou a trabalhar mais com torneio de escolas. Dentro do colégio, havia uma quadra de esportes que só a Fundação Bradesco tinha. Uma quadra que não era coberta, era piso natural mesmo, mas atendia até a comunidade. Eles davam ao final de semana abertura. Pessoas mais idosas vinham aqui pedir e a (Auselina?) cedia. Jogava durante o dia porque à noite não tinha energia. Mas era bom, mas mais de final de semana. P/1 – Ficava aberta pra comunidade em geral? R - Ficava aberta. A Fundação foi sempre aberta pra comunidade. Ela nunca ficou restrita só aos alunos. Sempre foi aberta. E era muito boa. As atividades mais... era o esporte. Quando os nossos alunos aqui iam competir com os outros colégios era... As pessoas nem gostavam de competir porque sempre a Fundação ganhava. Porque tinha professor de educação física, que preparava melhor os alunos. Vôlei, handebol também houve uma época, futebol de salão. Então a Fundação dava o material. Tinha bola. Uma estrutura bem melhor. Mas esse material também, bola, essas coisas, eles cediam também pras comunidades, mesmo assim do bairro, se precisasse vir brincar, não era negado, de jeito nenhum. P/2 - E todos esses materiais, os instrumentos da fanfarra, vinham todos de São Paulo? R - Na época era tão difícil. É uma história... aqui não existia banco. Eu cheguei a ir ainda em Miracema do Norte trazer dinheiro pra cá pra que pudesse pagar o funcionário. Em bolsa, em sacola, de ônibus. Eu ia de ônibus e voltava. Fiz isso em algumas viagens. Fiz em Miracema do Norte. Depois mudamos pra Araguaína. Depois mudamos pra Redenção e depois pra Conceição. A gente trazia pacotes de dinheiro, bolsas de dinheiro pra pagar funcionário, comércio, tudo. Dinheiro vivo. Eu lembro de uma vez que eu vinha de Araguaína com uma sacola na perna e um passageiro do lado falou assim: “Ah, eu tô cansado de trabalhar. Tem que matar pra roubar, porque de outra forma eu não consigo nada.” Ele não sabia que esse negócio na minha bolsa tinha milhares de notas na época de... Era só dinheiro que eu tinha ali. E eu pensando: “Se ele vir o que eu tenho na minha bolsa, eu seria a primeira vítima.” Muito dinheiro, muito dinheiro. Cheguei a ir com o sr. Teófilo Aguiar em Araguaína, que era o irmão do seu Amador, mais velho. E morava aqui também, do lado da escola. Então era uma pessoa ótima. Até achava bom quando ia eu e ele, porque eu me sentia até mais seguro. Depois criou-se o banco do Estado. O dinheiro vinha. Mas não vinha em compensação. Tinha que trazer o malote de dinheiro, depositava e a (Auselina?) emitia o cheque, pagando funcionário. P/2 – Esse dinheiro era pra pagar os funcionários? R - Pagar os funcionários. Trazia tanto dinheiro. Dinheiro pra pagar 2, 3 meses, porque eu não podia ir todo mês. Então o volume de dinheiro era grande. E aí, quando criaram a agência do banco do Estado, trazia dinheiro, redepositava no banco, e já era emitido o cheque. Depois abriu a agência de Conceição do Araguaia. P/1 – Isso em que ano? R – Ah, não lembro. Não lembro. Mas foram alguns anos. P/1 – O senhor Teófilo morava aqui? R – Morava. Morava aqui. P/1 – Desde o começo? R - Desde a abertura da fazenda. Era uma pessoa muito amável e quando foi detectado que ele tinha leucemia, ele foi imediatamente pra São Paulo e rapidinho ele faleceu. Ele sempre falava que tinha o maior medo de adoecer, porque sabia que no dia em que descobrissem uma doença, ele ia morrer rapidinho. Eu lembro muito da gente andando com ele e ele falava. P/2 – Eu queria aproveitar que o senhor lembrou do banco e gostaria que o senhor contasse a história dos banquinhos. Como é que surgiu essa ideia? R - Olha, quando eles... havia necessidade... A intenção da Fundação... Hoje, existe muito marceneiro aqui na cidade e outros já estão fora da cidade devido a esse trabalho manual. A Fundação Bradesco se preocupou em querer dar assim... Nós tentamos aqui na Fundação trabalhar com cerâmica. Existe um torno manual que se toca com o pé. Mas aí não tinha comércio, não tinha saída. Conceição era muito difícil o acesso pra qualquer lugar. Belém-Brasília, quando abriu a Fundação, não estava em construção ainda. Era terra daqui pra Goiania. Um bom trecho aí. Então a Fundação Bradesco queria de uma certa forma criar um trabalho que pudesse dar emprego pra turma, um curso profissionalizante. E como existia uma abundância de madeira aqui na região, trouxemos pequenas máquinas, porque a Matriz tinha uma preocupação com acidentes de trabalho. Mas depois viram que a gente tinha que preparar o aluno primeiro. Fazer toda aquela triagem sobre segurança de trabalho com manuseio. Tinha alguns profissionais que faziam essa parte mais de lidar com as máquinas e _________. E até eles chegarem a usar as máquinas. E a madeira era muito fácil. Então a marcenaria seria um ramo mais fácil pra lidar com o pessoal da região. E foi criado. Compraram as máquinas de marcenaria. Montamos a marcenaria. Houve um Incêndio na marcenaria que destruiu todo o prédio. Depois reconstruíram de novo. E saíram muitos profissionais. Têm muitos pais de família que vivem hoje, são bons profissionais, têm seu meio de vida devido à Fundação Bradesco e ao trabalho de marcenaria. E depois, com um certo tempo, a Fundação Bradesco tinha uma indústria lá em Campinas que confeccionava uns banquinhos. Só que a madeira saía de Conceição pra ir pra Campinas. Aí eles falaram: “Por que não fazer em Conceição? Por que não preparar um pessoal lá em Conceição, trabalhar com o aluno, e fazer esse brinde lá?” Porque, de uma certa forma, iria diminuir custos. E assim foi feito. Eu fui pra São Paulo, mais o professor (Taveira?), e ficamos lá uns 3 meses, durante o período de férias. Quando viemos, mandaram as máquinas direitinho e passamos a produzir o banquinho. Como a gente produzia com o aluno, era meio complicado. A gente, no início, fabricava 100, 200. E depois a gente foi lidando com as máquinas e, tendo mais habilidade, chegou a confeccionar até 1200 mais ou menos por mês. P/2 – E o que representava o banquinho? Por que essa ideia de fazer o banquinho? R - Já era uma tradição do banco mesmo dar aos clientes especiais esse brinde que era o banquinho com o logotipo da Fundação Bradesco, que era um azulejo que vinha com o nome da Fundação Bradesco. E uma “plaquetinha” produzida pelos alunos da Fundação Bradesco. Essa ideia? Não sei. Devido ao banco mexer com banco, deu um banco. P/2 – E o senhor lembra os tipos de madeira que eram usados? R - Lembro. Essa madeira tem o nome de pau-brasil, mas na realidade não é o pau-brasil. É uma madeira semelhante ao pau-brasil e chama-se conduru-de-sangue. E leva o nome, na região nossa, de pau-brasil. Mas na realidade não era o pau-brasil. É uma madeira semelhante. Ela tem muito na região. Na fazenda Bradesco eles acabaram com essa produção em 1992 porque o estoque de madeira que tinha era da derrubada que foi feita, concedida na época pela Sudam pra fazer essa abertura, que foi um projeto do governo trazer mais gente aqui pra região. E veio muita gente, muitas famílias devido a essa fazenda do Bradesco. E uma madeira muito resistente e ficou nos pastos. As árvores ficavam em pé, morriam com fogo. Mas durou 30 anos ali aquelas árvores. E a gente foi aproveitando toda essa madeira. Não derrubava madeira verde. Essa fazenda tinha a maior reserva. Foi derrubada mais ou menos 30% de toda a área da fazenda. Então ficou uma reserva de 70% em mata. Mas não era pra derrubar nenhuma árvore da mata, só as que havia dentro dos pastos. E no fim de 1992, com esse problema da ecologia, estava muito mais difícil. A madeira que estava ali no chão, de uma certa forma, não estava de boa qualidade. E aí foi quando eles: “Não, comprar madeira ou derrubar da própria fazenda ninguém vai fazer isso.” E foi aonde suspenderam a confecção do banquinho, desse brinde. Porque a fonte de madeira já teria se esgotado e eles não queriam de forma nenhuma derrubar nenhuma árvore lá da fazenda. P/1 – E o senhor falou dessa coisa, da preocupação com o negócio, a escola, desde o começo, passava pros alunos alguma coisa da preocupação com cuidar do meio ambiente, de não sujar? Como era a disciplina, essas coisas? R – Olha, muito. A Fundação Bradesco era conhecida aqui na região como uma escola muito rígida, muito... porque ela tinha uma educação diferenciada. Eu lembro muito bem. A gente tinha um plantio aqui na horta de acerola... eu sei que os meninos gostam de mexer e não sei quem sugeriu: “Vamos fazer uma cerca aqui.” Aí a direção da escola contestou. Era algum técnico agrícola na época que queria fazer. “Nós não podemos fazer cerca. Nós temos que educar as crianças a não entrar lá. Não pegar. Pegar com permissão.” Uma coisa assim... Até um tempo desses um aluno chegou e falou assim: “Poxa, nunca esqueci aquela frase da diretora falar assim: ‘Não temos que fazer cerca. Não temos animais aqui. Nós temos alunos que tem que ser educados a ver uma fruta, ver alguma coisa e não pegar.’” Um dia eu estava em determinado local e esse cidadão chegou pra mim: “Fui aluno daqui da Fundação”. É até um advogado. Então são coisas assim que ficam gravadas na mente da criança. Na época ele era menino. E achei muito interessante. Mas a Fundação cobrava, exigia, educava dessa forma. P/2 – Além das atividades em sala de aula, quais as outras atividades? Tinha marcenaria. Tinha um trabalho de horta? R – Tinha. Tinha trabalho de horta. P/2 – E que mais que tinha em torno da sala de aula? R - Olha, tinha muitas crianças... Chegou uma época que... Tinha criança que nunca tinha pego numa vassoura, ou numa enxada, ou numa planta. Até de certas famílias. Porque tinha alunos que eram realmente carentes. Mas tinha alguns alunos de uma classe melhor, eu diria assim. Porque talvez não preenchesse as vagas com todos os alunos carentes e abria uma exceção. Ou chegava o filho do gerente do banco, ou uma autoridade da cidade e terminava conseguindo uma vaga. E eles não queriam aceitar essa forma de arrancar o mato da horta, trabalhar, porque achavam um absurdo. Mas era estranho pra algumas pessoas. Pras crianças não. Acho que foi muito bom, educou bastante. Ensinou muita coisa. Muitas meninas que não pegam vassoura na sua casa pegavam aqui. Chegou até a criar os calinhos na mão. Mas eu acho que hoje elas agradecem à Fundação pelo fato de ter ensinado a trabalhar, de lutar, de dar mais valor à vida. A Fundação não tinha... porque era filho do gerente do banco não tinha que... Tinha suas tarefas, determinava as tarefas. Era muito rigorosa nessa parte. P/1 – Agora, voltando, o senhor lembra do dia da inauguração? R – Aqui na cidade? P/1 – Da escola. R – Da escola. P/1 – Da festividade? R - Lembro, lembro. P/1 – Conta pra gente? R - Foi uma inauguração assim... Acho que na época não chegou nem a preencher todas as vagas. E as pessoas, de uma certa forma, acho que no início, vergonha de vir pra cá. Muitos eu até digo pelo traje, pelas pessoas serem tão simples. A Fundação fez toda uma festa muito bonita hasteando bandeira. Eu lembro que teve um lanche que distribuíram pra todas as crianças, aquele negócio todo no meio do dia. Então foi um negócio espantoso, um negócio diferente, um negócio que... Eu não trabalhava na época na Fundação, mas eu morava a 1 quarteirão daqui. Eu já era um rapazinho. Eu vim aqui. Eu tinha uns 19 anos, por aí. Mas eu cheguei a vir até aqui, até porque eu achava assim: “Eu dei uma parcela por essa escola, eu trabalhei nessa escola. E vi o corpo docente da escola.” Foi absorvida muita gente daqui, a maioria das pessoas. Os professores foram daqui. Foram pra São Paulo. Fizeram um treinamento. Foi uma inauguração muito bonita. P/1 – Veio Ministro? R – Veio o Ministro da Educação. Era o Olacyr de Nunes. Tem o nome da escola até hoje de Jarbas Passarinho. P/1 – E o senhor Antônio Aguiar, o senhor chegou a ter contato com ele? R – Cheguei, cheguei. O senhor Amador. Eu diria assim, a escola, a Fundação, era a menina dos olhos dele. Ele tinha o maior carinho por Conceição. Ele veio várias vezes. Ficava na casa do irmão dele. Hoje já não pertence mais à escola. Foi vendido. Mas ele vinha bastante. P/1 – E como que ele se...? R - Ele chegava, cumprimentava. Muito simples. Mas não entrava em detalhes, essas coisas, até porque eu, na época, era inspetor de alunos. Então não tinha aquele contato. Ele chegava, cumprimentava. Ele perguntava algumas coisas pra gente. Como é que estava a escola? O que poderia...? O que estava precisando? Onde é que poderia melhorar mais? Ele sempre dava essa abertura pra gente. Mas entrar em detalhes da escola era mais para a direção da escola. P/1 – E com as crianças? Como era ele? R – Ele era um Papai Noel pras crianças. As crianças adoravam ele. Ficava rodeado. Ele era muito carismático. Muito bom. P/1 – Ele conversava? R – Conversava, conversava. Pegava em criança. Abraçava e beijava as crianças de uma forma muito natural. (Troca de CD) P/2 – O senhor Amador Aguiar, quando ele chegava aqui, como era a recepção? P/1 – Então vamos entrar nos outros que vinham. Como eram as visitas do pessoal de São Paulo? Do seu Carlos? Como que era essa chegada? A recepção dessas pessoas? R - Olha, a visita deles era bem quista aqui pra nós. O quadro de funcionários... a gente ficava assim, porque quando chega é como se chegasse um presidente numa prefeitura, quer ver tudo. Então existia aquela euforia, aquele corre, corre. Porque a matriz era muito exigente com limpeza, com disciplina de alunos, de aluno correndo. Mas era bem quisto. Sempre trazia alguma novidade, sempre trazia algumas melhorias. E a gente enriquecia muito com a vinda deles aqui. Era muito bom cada vez que eles vinham aqui. Eles viam necessidade de fazer mais alguma coisa. Eles viam que uma quadra era muito pouco, construíam outra quadra. Então era assim: a sala estava pequena, teria que aumentar, melhorar o padrão, então eram bem recebidas as visitas deles. Muito boa. P/1 – E a escola foi mudando com o tempo, então? R – Foi. A escola construiu bastante, porque o corpo da escola era só esse pavimento aqui. Na cozinha houve várias modificações. A diretoria aqui foi mudada também. Aquela caixa d’água, aquela outra parte, aquela casinha onde tem uma mesa de pingue-pongue, ali era uma enfermaria que atendia os alunos. Os alunos de piolho, de corte, vinham pra cá. Alguém, pessoas da comunidade também. Como não existia um pronto-socorro na cidade, a escola atendia também, iam muitas crianças com corte, então aqui tinha uma enfermeira que fazia, dava alguns remédios. E aquelas duas casas, que eram da direção, e um alojamento. Eu, na época, passei a morar no alojamento até porque à noite, às vezes faltava energia. O funcionário às vezes não estava aqui. Eu corria lá, ligava o gerador. Eu passei a ser uma pessoa da Fundação que eu ficava atendendo. “A bomba d’água tá com problema. À noite não tinha água na escola.” Eu corria lá e terminava jogando água, ligando. Então eu ajudei muito nessa manutenção da escola. P/1 – O senhor viveu intensamente aqui tudo? R - É, porque eu trabalhava durante o dia, à noite eu estava folgado, mas não tinha nada pra fazer na cidade, eu ficava por aqui. E sempre estava sendo útil aqui. A energia da cidade faltava, ficava tudo no escuro, a gente corria lá, ligava o gerador. E assim por diante. E foi quando eles construíram a primeira sala de artes industriais e devido a... as crianças gostavam, passavam o dia. E eu ficava além do horário com eles também. A gente passou a confeccionar também... a direção da escola colocou pros alunos, se algum tivesse a necessidade de uma carteira pra estudar em casa... porque não tinham mesa, não tinham cadeira... então fez essa abertura pra comunidade. Então o que que acontecia? Eles vinham no período... eles estudavam pela manhã, à tarde eles vinham e começavam a trabalhar. Faziam uma mesinha, uma cadeira. Eles levavam pra casa deles. E a Fundação, o seu Carlos, __________quando vinham pra cá, ele falou: “Não, essa sala está muito pequena. Vamos aumentar.” E construíam uma sala maior. Depois construíram outra maior, porque de acordo houvesse necessidade eles iam aumentando. A sala que mais foi construída foi a sala de trabalhos manuais, até pra atender a necessidade da própria cidade. Foram feitas 4 salas. Até 5. Uma já estava construída, que era o porão. E era muito baixa, então construíram do lado. Até foi demolida. Depois foi construído esse 2º pavimento, que é a sala dos professores, que era uma sala de artes, mas era pequena. Aí fizeram outra maior. E depois construíram uma grande lá embaixo. Então sempre atendendo a demanda, a necessidade. Quando a gente estava confeccionando os banquinhos, a gente fazia uma coisa assim pros alunos. “Ah, em casa eu preciso. Não tenho onde estudar. Preciso de uma carteirinha.” A gente fazia e dava pra eles. P/1 – Então os meninos acabavam também… R – E valorizando mais o próprio trabalho ele. Porque eles achavam bom demais. Tinha criança que era tão carente que não tinha como fazer o dever em casa. Tinha uma mesa, muitas vezes na cozinha, uma prateleirinha, muito simples, família muito carente. Daí foi melhorando. E é tão bom quando você vê um aluno chegar e falar assim: “Ah, eu queria fazer uma escrivaninha porque eu não tenho onde fazer o meu dever.” E a direção da escola permitia. Era feito e eles levavam pra casa deles. P/1 – E ele que fazia o....? R – Teria que ter a participação dele. E a gente via o esforço, o carinho que... talvez fosse o primeiro móvel da casa dele, eu diria assim. P/1 – E a Fundação visitava essas famílias? R – Fazia visita. Não com muita frequência, mas fazia. P/1 – Via as melhorias? R - Via. Primeiramente fazia. Via realmente que a pessoa estava necessitada daqui do material e fazia. A Fundação fazia tudo: mandava aluno pra São Paulo. Tinha um problema de saúde gravíssimo, não tinha como tratar, mandava pra matriz. P/1 – Sempre teve esse atendimento? R – Sempre teve, sempre teve. P/1 – E como é que era isso? Detectava? R – Problema de vista. A professora determinava: “Não é normal essa criança.” Aí a criança não tinha como pagar uma consulta e a Fundação pagava, dava os óculos. Fazia tudo. P/1 – Tinha um dentista também? R – Tinha um dentista, tinha um médico. Hoje já não tem mais um médico. Eu estou a um tempo afastado da Fundação, já não sei como funciona mais. P/1 – E a população com essa mudança? Como é que... porque depois que a escola já estava assim... os alunos que se formaram, como eles influenciaram a cidade? R – Tem muitos alunos que se formaram aqui, fizeram faculdade e estão trabalhando aqui. Tem já vários funcionários. Na época até eles aproveitavam os melhores alunos pra vir e já saíam com emprego garantido no banco Bradesco. Eles davam emprego a muita gente. Muita gente chegou à gerência das agências. Alunos que passaram pela Fundação Bradesco. Então a sociedade sempre vê a Fundação com bons olhos, da melhor maneira possível. P/1 – Aí montavam seus comércios? Como é que se viravam depois que saíam daqui? R - A maioria saía com uma base muito boa. E tinha mais: a maioria dos alunos aqui, quando saíam, concluíam o 2º grau na Fundação, que eles iam prestar o vestibular em qualquer cidade em Goiânia, sempre eles passavam. Era interessante aquilo. Não tinham cursinho, não tinham nada, eles chegavam, iam direto pra um vestibular, e eles passavam. E com boas notas. Nós temos alunos aqui... Há pouco tempo foi feito um concurso pra não sei quantas mil pessoas, pra 2 ou 3 vagas, e um dos alunos aqui passou em primeiro lugar. Até um concurso do Inss [Instituto Nacional do Seguro Social], auditor do Inss. E ele realmente passou. E sempre foram bons alunos, bons mesmo. P/1 – Então, na realidade, o nível de educação depois de 1970... a cidade tem muita gente formada, com curso superior? R – Muita gente formada, muita gente bem sucedida de negócios, de comércio. A Fundação abriu, deu uma perspectiva de vida pra muita gente aqui. P/1 – E eles se formaram... porque aqui não tinha faculdade. É Belém, Goiânia? R – Aqui era mais Goiânia. O pessoal sai mais pra Goiânia, Brasília. Porque a capital é muito difícil. Hoje já está mais fácil, mas antigamente não tinha nem estrada que vinha aqui por dentro. Até certos lugares aí não tinha mais estrada. Mas era pela Belém-Brasília. P/1 – E eles voltavam depois de formados? R - Não, nem sempre. Ficam tocando a vida deles fora. Agora, qualquer lugar que eu vou, qualquer cidade, eu estou encontrando gente que foi aluno aqui na década de 1970, e que eu nem conheço. E é ruim você ficar conversando com uma pessoa... “A Fundação Bradesco... Aquilo foi uma mãe pra mim. Foi a melhor escola da minha vida. Hoje eu estou sendo gerente em tal loja.” Tem uma da Fiat numa cidade, Porangatu. “Pois é, eu estou gerenciando a Fiat lá.” Então a gente vê muitos casos de alunos que passaram por aqui e que são bem sucedidos. P/1 – E alguns desses meninos foi mais marcante pro senhor? Deu mais trabalho? Porque é sempre os que dão mais trabalho que a gente lembra mais. Um caso assim? R – Tem um caso aqui. Tem um filho de um dos maiores comerciantes da época aqui na década de 1970, o senhor Jordão Mendonça. E o filho dele, o Marcos, no primeiro dia de aula dele foi um caos. Ele não queria ficar na sala e eu levava na casa do pai dele. Voltava depois no outro dia e era um problema. Ficou mais ou menos uma semana. Chorava na sala, não queria de maneira alguma. Hoje ele é engenheiro florestal, trabalha na Cefa [?] aqui, uma pessoa bem sucedida. Está aqui em Conceição hoje. P/1 – Ele se lembra do senhor? R – Lembra, lembra. Ele gosta de... Eu, quando ando assim, normalmente as pessoas ficam lembrando muito. Mas esse caso do Marcos foi interessante. E eu que levava e trazia de bicicleta. Eles traziam o aluno e ele não queria ficar na sala. Eu teria que devolver o aluno na casa dos pais. Ia até de bicicleta. Mas de vez em quando, quando a gente pára pra conversar, ele fica lembrando, ele mesmo toca no assunto. P/1 – E das viagens? As viagens que o senhor fazia? R – Eu viajava muito pela Fundação, porque era tudo difícil. Uniforme... tinha vez que acabava as camisetas da Fundação Bradesco. Eu aprendi a técnica do silk-screen, então eu fazia, pintava. E aquela correria quando era no 7 de setembro: tinha que sair um pelotão com camisa amarela, outro com camisa azul. A Fundação não tinha, então tinha que fazer todo o programa. E como era uma data muito especial pra cidade, a gente passava 1 semana, 2 semanas trabalhando até alta noite aqui pra apresentar o melhor pra cidade. A data mais importante pra cidade seria o 7 de setembro. E o material era difícil. Eu ia comprar em Goiânia, eu ia comprar em São Paulo. E era muito complicado. E era tudo de ônibus na época. A gente pegava o ônibus e ia comprar instrumento. Até a película dos taróis, dos tambores a gente ia ter que buscar em Goiânia. Material... tudo o que faltava aqui tinha que comprar fora. P/1 – A fanfarra o senhor comprou toda? R - A fanfarra eu comprei toda. E sempre ia em Goiânia. Depois a matriz passou a mandar alguns instrumentos. Mas as primeiras fanfarras, na época da gestão da (Auselina?), eu comprei em Goiânia. P/1 – Como é que foi sair de Goiânia com uma fanfarra? R - Na época veio tudo desmontado. Só os aros, os maiores dentro... Tinha uma transportadora. Trazia de ônibus mesmo. E não é assim. Mais taróis, mais os bumbos grandes. E prato. Não tinha instrumentos de sopro. Algumas cornetas, mas não tinha nenhum instrutor de música que pudesse... Mas era o barulho da fanfarra: 30 taróis, surdos, bumbos grandes. E a gente treinava com uns toques diferenciados dos outros repetitivos. Estava sempre inovando o ritmo da marcha. E se mudava constantemente o toque da fanfarra. Então era muito bom. P/1 – E como é que surgiu a ideia dessa fanfarra? R – Até porque a Fundação sempre copiou da matriz. A Fundação lá, um dia, 7 de setembro, na época, eles tinham a fanfarra deles, tinham o uniforme. E aqui na cidade não tinha. Acho que foi uma coisa inovadora na cidade, porque 7 de setembro... algum colégio... Não tinha. Depois disso despertaram as escolas municipais. As estaduais passaram a ter o 7 de setembro também, as pequenas fanfarras. Mas a Fundação durante muito tempo... os alunos saíam das escolas sem fanfarra e ficava a fanfarra da Fundação Bradesco batendo e eles passavam em frente das autoridades, do palanque, com o som da fanfarra da Fundação. A Fundação saía com a fanfarra por último porque tinha que atender as outras escolas. P/1 – E todo aluno queria fazer parte da fanfarra? R – Era uma briga. Todo aluno queria. Todo aluno queria participar. P/1 – E como escolhiam as pessoas? R – A gente via algumas aptidões dos alunos, alguns que já treinavam com latas ou com cadeiras, tamboretes em casa. E chegava, falava: “Olha, eu sei bater um pouquinho.” E terminava fazendo a seleção deles. P/1 – E aí ensaiavam direto? R – Ensaiavam, ensaiavam direto. Chegava o mês de agosto, a gente passava o mês todo ensaiando. Tinha horário. E depois a própria direção da escola passou a exigir: aqueles alunos que não estavam muito bons eram eliminados. Isso melhora muito. Quando o aluno quer fazer alguma coisa, você tem que podar aquilo que mais ele gosta. Então a escola, a direção era muito sábia pra poder fazer com que o aluno se esforçasse mais. Porque hoje a melhor forma de você castigar um adolescente, um filho, é você podando a coisa que ele mais gosta de fazer. P/1 – Aí ele se esforça pra não perder isso. R – Se esforça pra não perder, com certeza. P/2 – Então o aluno que não era muito bom em matemática, pra ele melhorar, se ele gostasse muito da fanfarra… R - ... seria uma forma de castigar, vamos dizer assim, pra que ele se esforçasse. Também não tirava a vaga dele. Mas ele era advertido para que ele pudesse melhorar, senão… P/2 – E funcionava? R – E funcionava. Funciona. Como funciona. P/1 – Os times, também, como eram formados? O professor de educação física... porque eram seleções aqui. R – Como assim? P/1 – Os times de vôlei, de handebol? Tinha que ter boa nota também? R – Não, não, não. Era por classe que faziam os torneios. Mas era muito bem movimentado. A cidade inteira vinha assistir aqui. P/1 – Os campeonatos? R – Os campeonatos. Houve campeonato até de pessoas da terceira idade. Não diria terceira idade, mas a população, os comerciantes, as pessoas mais especiais da cidade vinham também jogar à noite. Aí depois já tinha a energia de Tucuruí. E aí eles vinham também, participavam. P/1 – Só uma dúvida: em que ano passou a ter energia direto aqui em Conceição? R – Foi no governo do Jader Barbalho. Não lembro. Mas deve ter uns 20 anos, mais ou menos. Foi da época de Tucuruí. 1980 e... A energia veio de lá. P/1 – 1986, por aí. R – Foi por aí. Há uns 20 anos. P/1 – Que outros eventos tinha? Tinha o Dia Nacional de Ação de Graças? Como que era? Se reproduzia aqui na capital? R – Não, não. P/1 – Era só pela TV mesmo? R - Mais pela TV. A (Auselina?) fazia algumas palestras também, reunia. Falava da importância do Dia de Ação, comemorava. Mas era coisa muito simples. Não era… P/1 – E os outros professores? Da primeira turma? O senhor tem contato com eles? R – Ah, tenho. Tem muitos professores que moram aqui na cidade. Tem a Rufina, o Eduardo Lima. Tem Maria (Cabuçu?), tem a Maria José Holanda, tem a Evaldina. Esses são os professores mais antigos. P/1 – E na cidade como eles são tratados? Como eles são tratados na cidade? R – Olha, eles falam assim: “Esse professor é professor da Fundação.” Fica. Até hoje, depois de 12 anos que eu saí, 13 anos vai fazer, eles falam assim: “O Osório da Fundação.” Mas eu não sou mais da Fundação. Então, todo mundo me viu aqui trabalhando. Morei aqui no alojamento durante 8 anos, 7 anos, então eu sou conhecido. “Olha lá o Bigode da Fundação.” Sempre coloco a Fundação como uma referência. P/1 - E aí, nessa época, o senhor casou? R – Em 1979 eu casei. Em 1980 veio a primeira filha. Em 1982 veio o segundo filho. Em 1984 veio um filho especial e em 1990, em 1988 veio outro filho. P/1 – E estudaram? Como é isso? Estudaram na Fundação? R – Todos passaram por aqui. Menos... Até o deficiente, o especial passou por aqui. Mas não acompanhou, teve que sair. Hoje ele tem 22 anos, mas tentamos de tudo para que ele desenvolva a fala, só a fala. Teve vários tratamentos com fonoaudiólogo, mas não conseguiu. Ele tem a audição perfeita, ele é muito observador, muito carinhoso, mas é uma criança de 3 anos, de 2 anos, o QI dele. P/1 – E os seus filhos estudaram aqui? R - Sempre. Todos estudaram aqui. Tem uma que está nos Estados Unidos. Ela terminou o 2º grau, foi pra Palmas, fez o vestibular, passou. Não teve dificuldade nenhuma. O Bruno fez, estudou aqui. Foi pra Palmas também, fez o vestibular, passou. P/2 – E os cursos que eles fizeram? R – A minha filha não chegou a concluir. Eu lamento muito que a minha filha, no último ano, no último semestre, por influência de um colega pra ir pros Estados Unidos, terminou jogando tudo fora. E foi embora. P/2 – Qual o curso que ela fazia? R – Fazia Letras. Estava terminando o curso de Letras. P/1 – Na Federal? R – Não, na Ulbra [Universidade Luterana do Brasil]. E o meu fazia Administração de Empresas. Também foi para os Estados Unidos, voltou. Não gostou. E não tenho nenhum filho formado até hoje. A minha caçula, com 15 anos, casou-se. Devido à separação foi uma coisa muito desagradável na minha vida. E terminou assim: uma filha de 15 anos casando. Eu acho até um crime, mas a mãe queria. Era o sonho de ver a filha casando de véu e grinalda, aquele ritual todo. Eu acho que ela deveria estar num hospício, presa, porque fazer um casamento desse... O rapaz um pouco mais velho, de 2 anos, 3 anos, ou mais. Duas crianças. Mas isso é da vida. P/1 – E como que era ser o inspetor dos seus filhos? O pai trabalhava, os filhos estudavam. Como era essa relação? R – Era bom, era bom. P/1 – O filho do inspetor? Como que era? R – Não, mas era bom. Até porque o filho, de uma certa forma, se orgulha quando tem o pai assim na sala de arte, lá. Então eles acharam bom. Ele queria ser... imitar o pai, eu diria assim. O pai é o espelho do filho. Mas era muito bom. P/1 – Era bom aluno do senhor? R – Bom aluno, bom aluno. P/2 – Quando precisava o sr. puxava a orelha também? R – Ah, puxava. Mas ele sempre foi bom aluno. Ele nunca foi... A gente foi muito de conversar com os filhos. Nunca fui de espancar, nunca fui de... Até minha filha, quando quis namorar, falou: “Ah, pai, eu tô querendo namorar um rapazinho lá da Fundação.” “Ó, minha filha, não fala que vai namorar.” “Ele me disse que é pra eu dar a resposta hoje.” “Não, dá um tempo, entendeu? Não pode falar assim que vai namorar, não.” Então passou 2 dias e ela chegou e me falou assim: “Ah, pai, não vou namorar ele mesmo. Bem que o senhor falou pra dar um tempo. Ele.. Não vou namorar ele não.” Então a gente foi muito aberto com todos eles. Eu não fui uma pessoa carrasca. Poxa, querer que a filha namorasse escondido porque eu ia reprimir, fazer alguma coisa. Não. P/1 – E o senhor acha que a Fundação influenciou...? R – Ah, com certeza. Eu aprendi muito com a Fundação. Devo tudo à Fundação. A Fundação fez parte da minha vida. A gente cria um vínculo com a empresa que trabalha. Eu vestia a camisa, gostava daqui. Fazia parte da minha vida. A Fundação eu acho que... agradeço à Fundação por tudo. Pela pessoa que eu sou, por tudo que eu adquiri na Fundação. A convivência com os alunos... a gente aprende muito com os alunos. A gente vê a dificuldade do aluno, a gente vai na casa. Eu sempre fui uma pessoa muito amiga de todos eles. E com os professores... A gente adquire muito. E a vida... você adquire a viver, você aprende com o tempo. A melhor escola do mundo é o tempo. E com boas convivências você aprende muito mais ainda. P/1 – Então esse seu lado de pai educador foi dessa relação com os professores, com a dona (Auselina?). O senhor foi observando e… R – Observando e pondo em prática em casa. P/1 – E o senhor acha que deu certo? R – Deu, como deu certo. P/1 – E como foi depois sua passagem? Como é que o senhor saiu da Fundação? R – A Fundação... porque como eu trabalhava nessa área do brinde, do banco, da Fundação, e acabou, eles não queriam... até porque a Fundação sempre teve um carinho muito grande por mim. Eu sentia isso na época. Eu fiquei sem atividade aqui na Fundação durante 1 ano. E eles tentando me convencer de que eu fosse pra Canuanã, que eu fosse pra outra escola. Porque em Canuanã, como os alunos são internos, seria melhor pra mim trabalhar com eles. Porque eu estaria disponível todo tempo, todo dia, à noite. Mas devido aos meus filhos estarem terminando o 2º grau, eu estava fazendo o 2º grau, minha esposa, na época, fazendo faculdade, ficaria difícil essa mudança minha. Eu tinha residência, tinha uma pequena propriedade. Então abandonar tudo e ir pra lá... Mas a Fundação tentou de todas as maneiras. Eu saí da Fundação, mas me doeu muito, porque a Fundação fazia parte da minha vida. E eles tiveram um carinho muito especial por mim. Eles queriam que eu continuasse na Fundação, que eu ficasse até fazer 20 anos, 20 anos de Fundação. E como eu conheci todo mundo, os diretores primeiros, eles gostariam que eu continuasse na Fundação. Mas chegou a época que não tinha como eu ficar mais aqui também. P/1 – E aí? R – Aí eu fui obrigado. P/1 – Aí o senhor foi fazer o quê? R - Eu, na época, quando eu saí, a matriz me comunicou que ia vender todo o maquinário e me deu a data direitinho e que ia haver uma licitação lá em Campinas. Eles se desfizeram também... eles faziam todos os móveis dos bancos, de um modo geral, eram feitos lá em Campinas. Uma grande indústria de móveis lá. Eu estive lá na época me habilitando pra que viesse a trabalhar naqueles banquinhos. E eu fui, estava lá no dia, participei da licitação, comprei todo o maquinário. E ao lado da minha casa construí uma indústria de móveis, que é a Indústria de Móveis (Labilor?). Nome bem... nome engraçado. E de lá pra cá só trabalhando nessa atividade. P/1 – Então também é um reflexo da Fundação. O maquinário é de lá. R – O maquinário todo da Fundação. P/1 – E a tecnologia que o sr. foi adquirindo. Tecnologia, o know-how que o senhor foi adquirindo. R – Foi. E como eu trabalhava com aluno... Hoje, na cidade, quando eles precisam de uma coisa mais engraçada, que exige uma certa habilidade, normalmente eles me procuram. “Ah, procura o Osório que...”. Você chega: “Não, eu queria um móvel assim.” Eu falo: “Olha, assim não vai. Vai ter que ser proporcional assim.” Porque a maioria das pessoas querem uma coisa e não tem noção. Então eles... Quando tem uma coisa na igreja, eles: “Vamos lá. Vamos fazer assim.” E eu tenho um olho clínico. Eu olho assim, eu vejo essa porta: “Bom, essa porta tem...” Muitas vezes eu não sei fazer, eu tenho um profissional que faz, mas ele... eu chego e tenho olho clínico. “Olha, essa peça não está de acordo. Você vê que aqui está mais grossa. Deveria ser mais...” Essa parte aí eu adquiri muito. Muito, muito na Fundação Bradesco com certeza. P/1 – E (Labigor?) Por que a escolha do (Labigor?)? R - Como eu ia trabalhar com madeira... (Labigor?)... quando eu era menino, eu fazia um lacinho de talho de buriti e você conversa com a (Labigor?). Você fala assim: “Você vai matar meu pai?” E ela sacode a cabeça, fala: “Vou.” “Você tem coragem?” Ela sacode de novo. Eu sempre pegava aquela Labigorzinha com um talo de buriti. Vocês não têm a menor idéia. Quando tira a palha, o fio do talo do buriti, fica um talo seco até a pontinha. Na ponta fininha você faz um laço. Então ela fica assim. Você encosta. Laceava ela. Isso em madeira, em curral. P/1- Era uma brincadeira da infância? R - Uma brincadeira da infância. E eu não queria colocar um nome diferente. Nessa parte eu sou muito criativo. Eu queria diferenciar uma indústria de móvel – (Labigor?). Então eu fiquei, até passarem esse apelido pra mim: “O (Labigor?)” No outro dia, quando eu fiz o desenho na fachada da casa... E com 2 dias, andando lá no final da cidade, um falou assim: “Esse aí que é o dono da (Labigor?).” Quer dizer, então fiquei conhecido. P/1 – O marketing funcionou. R – O marketing funcionou. P/1 – A sua esposa também estudou na Fundação? R – Estudou. Fez 2º grau aqui. Fez vestibular, passou. Fez Pedagogia. Depois fez outro vestibular e fez Letras. Tem 2 cursos. P/1 – Então a Fundação... filho, todo mundo… R – Filho, todo mundo passou por aqui. É difícil ter uma família em Conceição, conceicionense, que não tenha um filho que não passou por aqui. A não ser que ele não... A criança não gosta de estudar aqui muitas vezes pelo sistema que é mais rígido, cumpridor de horário. Então tem uns alunos que normalmente não... “Não, a Fundação não. Não quero estudar na Fundação.” Pela... não diria rigidez, pela disciplina. Porque tem muitos alunos que… P/2 – Mas isso sempre houve ou é de um tempo pra cá? R – Sempre houve. A Fundação é um exemplo de educação em Conceição e as pessoas falam: “Ah, não quero estudar na Fundação.” Porque o aluno que realmente não quer aprender, ou não quer nada com a vida, não vem pra Fundação. Mas o aluno que quer... E a cidade em si... A própria direção da escola tinha uma certa dificuldade, porque tem gente que é pobre, carente, e não acompanha o filho, não ajuda. E quando os pais têm uma educação melhor, que acompanha mais o filho, esses alunos são melhores. Aí, poxa, tem aluno que é tão carente, que os pais não acompanham, a escola tem a maior dificuldade. E eu acho que hoje também não pode. Os pais têm que dar uma participação. P/2 – Entendi. O sr., como inspetor, quando tinha algum problema com o aluno, chamava os pais pra conversar, alguns não vinham. R – A maioria não vinha. P/2 – A maioria? R - A maioria não vinha. Porque tem muitos pais que acham que a escola tem que resolver tudo. O aluno é problemático em casa, então eu vou botar na Fundação Bradesco, porque na Fundação Bradesco vai resolver a vida dele. Mas chega um tempo em que a própria direção, os professores cansam desse aluno. E termina tomando uma medida: ele é reprovado. Reprovam 1 ano, 2 anos, ele é jubilado da escola. Mas isso acontece mais com as famílias mais carentes, que querem que os filhos saiam de casa, pra que fiquem aqui na escola. È como se fosse um quartel general: “A Fundação vai dar um jeito nessa criança aqui.” Mas nem sempre é assim. A Fundação faz a parte dela, fazia, faz até hoje, mas chega um ponto que não aguenta mais. P/1 – Mas mesmo assim ainda tentam o contato com esses pais? R – Tentam, tentam de todas as maneiras. Eu acho que a Fundação vai até a última instância com o aluno. Não é de impulso tirar o aluno, de forma nenhuma. P/1 – E tem alguma história engraçada aí? R – No momento não recordo nenhuma história assim. P/1 – Aqueles acontecimentos que movimentam a escola toda: “Meu deus, o que a gente vai fazer com isso?” Pode falar à vontade. R – Não, eu... Tem tanta história. A Fundação foi uma vida inteira na minha vida. P/1 – Namoro, por exemplo, era proibido aqui. R – Aqui namoro era proibido. P/1 – E quando se... porque era proibido, mas... R – É, namoro era proibido. Cabelo grande não era permitido. Acho que até funcionário da Fundação lá... Hoje acho que está tudo diferente. Mas de primeiro não aceitava o aluno cabeludo de forma nenhuma. Namorar dentro da escola? Nem pensar. E tinha o caso da minha irmã. Ela ficou grávida, teve que sair da Fundação Bradesco. Hoje não. P/2 - Isso em que ano? O senhor lembra? R – Isso foi em 1970 e... Isso foi em 1980. 1980, 1981. Minha irmã ficou grávida com o namorado, não era casada e teve que sair da escola. Estudava na Fundação. P/1 – E o pai também? R – O pai não. O pai não estudava na Fundação. Mas a ordem da matriz da direção das escolas não permitia não. Na época não. Depois foram todos... P/1 – E quando o senhor pegava algum aluno e uma aluna num namorico? Como que era? R – Aqui dentro? P/1 – É. R - Ah, eu conversava. Eu sempre fui uma pessoa muito amigo de todos os alunos. Nunca tive problema deles me odiarem, de eu ser assim um coronel, de ser um terror pra eles. Eu tinha a maior liberdade, o maior carinho com todos eles. E eu sempre pedia: “Não façam isso. Não é permitido. A (Auselina?) vai te chamar, você pode ser expulso.” Porque não havia esse negócio, namorinho. Mas eles tinham medo também de… P/1 – Passavam só um terrorzinho de… R – Passavam. E aluno é muito esperto. Eles ficam observando. Você fica andando e eles ficam te olhando também, te acompanhando. P/1 – Sabiam onde você estava. R – É, sabem. P/1 – Se tem alguém vigiando ali… R – Nos últimos anos lá também eu estava mexendo só com banquinho, já não mexia mais com essa parte de aluno. E era só com os rapazes. As meninas não trabalhavam comigo. Aí tinha a parte de artes culinárias que era com a professora Maria (Cabuçu?). Fazia parte de ___________, artes culinárias, essas coisas. P/1 – Então vamos passar pra parte de avaliação. A gente está... Tem alguma pergunta, alguma coisa que a gente deixou de perguntar pro senhor que o senhor gostaria de estar falando? Uma coisa que sempre... o senhor fala, conta, e a gente nem tocou no assunto? Que o senhor acha que seja interessante falar sobre a Fundação? R – Não, não me recordo assim não. P/1 – O senhor Carlos de Oliveira? O senhor conheceu? R – Quem? P/1 – O senhor Carlos de Oliveira? R – Conheci demais. P/1 – Como eram as visitas deles? R – O moreno? P/1 – É. R - Ele é interessante. Ele... O senhor Carlos... Ele está aposentado há muito tempo. Eu lembro de uma época que eu fui... Na Fundação, o senhor Carlos tinha o maior carinho por mim. Até uma época que houve uma mudança de diretor aqui, eles me chamavam pra que eu pudesse confidenciar alguma coisa assim de errado. E eu dizia: “Não, não tem nada.” Então eles tinham um carinho muito grande por mim. E o seu Carlos, uma vez eu estava em Cidade de Deus, e ele me chamava pra andar no pátio. Ele viu um papel: “Você está vendo esse papel ali? Está certo o lugar dele?” Falei: “Não, seu Carlos, não está não.” Então ele era assim. Ele era muito exigente demais. Quando o seu Carlos chegava aqui na Fundação Bradesco, acho que as pessoas tinham medo até de respirar muito forte. Mas eu nunca tive nenhum problema com ele. Eu sempre ficava, acompanhava ele. E ele falava toda coisa errada pra mim. “Tá vendo? A (Auselina?)...” Sei lá, a (Auselina?) era muito... Ela ficava com umas panelas na cozinha. Já tinha queimado os cabos, já tinha queimado... Aí o seu Carlos falou assim: “A (Auselina?) é uma velha coroca. Olha essas panelas velhas. Tem que jogar fora essas panelas.” Mas, sei lá, ele era uma pessoa assim. O pessoal tinha medo dele aqui. O seu Carlos... o pessoal tinha medo. Quando falavam assim: “o seu Carlos está indo na escola da Fundação Bradesco”, as pessoas não podiam nem respirar muito forte. Mas nunca teve nenhum... Eu acho que essa maneira dele ajudava muita gente a manter uma ordem, a manter uma disciplina. E as coisas que ele falava eram coerentes. Mas era o jeito dele mesmo. Mas eu nunca tive... com ele, o seu Carlos... Eu via muito ele. Mas ele reclamava de tudo. Até do vento se fosse muito forte nele. P/2 – E o senhor João Cariello? Visitava aqui também? R – O João visitava. P/2 – Como era a visita dele? R – Ele era mais cordial. Ele era diferente do seu Carlos. Diferente… P/2 – Mas os dois vinham pra fazer uma fiscalização, um levantamento? R- Levantamento. Era bom. Toda vez que eles vinham, a escola fazia uma mudança. Alguma reciclagem. Era bom. Eu achava bom quando eles vinham aqui. P/1 – Porque a escola sempre ganhava. R – Ganhava. Era como se fosse a visita de um presidente a uma cidade. Sempre oferece alguma coisa. Então quando ele vinha, alguma coisa, alguma mudança, alguma melhoria... Se colocava em relatório o que tinha que fazer, tinha que melhorar, fazer isso. A nossa cerca era uma cerca de madeira. Aí começou a ficar velha a cerca, começou a cair os balaus. O senhor Carlos: “Tem que mudar.” Então era bom. Sempre tinha uma mudança. Dava uma pintura nova na escola. Sempre... Esse telhado aqui foi trocado. Não era forrado. Então toda visita que eles vinham, eles faziam alguma coisa. A quadra foi coberta. Melhorou bastante. O bebedouro não era água gelada – colocou um freezer lá em cima. Então era bem-vinda à escola. Agora a parte dos professores penavam com ele. Vinha uma pedagoga e queria acompanhar os planos de aula. Então trazia alguma novidade assim. P/1 – Então era uma semana de… R – Semana de uma tensão muito grande. P/2 – E eles vinham quantas vezes mais ou menos por ano. R – Uma vez, duas vezes por ano. Até porque depois foram surgindo outras Fundações e eles tinham que visitar os outros. Mas quando era só Conceição, era difícil. P/1 – Vinham mais vezes. R - Vinham mais vezes. Depois foi alongando o período. P/1 – E os professores tinham que fazer algum treinamento lá? O senhor foi? Como que era essa coisa de ir pra São Paulo? R – Olha, primeiramente fui pra São Paulo logo que abriu a escola. Depois era mais fácil mandar uma equipe de lá pra cá do que sair um corpo docente todo pra lá. Então isso tudo... coisas que foram colocando nos seus devidos lugares. Por que sair 15 professores pra ir pra São Paulo se pode vir meia dúzia de pessoas de lá e dar esse treinamento aqui? Então as coisas foram mudando. P/1 – E era um treinamento de quanto tempo mais ou menos aqui? R – Uma semana. Uma reciclagem. Sempre eles estavam atualizados lá e eles repassavam isso. P/1 – À noite? Como que era? R – Não. Se a pessoa lecionava pela manhã, não interrompia as aulas, não. Os professores da manhã faziam o treinamento à tarde. Os da tarde faziam pela manhã. Eles não interrompiam, não. P/1 – E era tudo? R – Era de todas as áreas. Todas as áreas. Nem sempre vinha tudo de uma vez. Vinha uma parte. Matemática, matérias mais assim. Mas chegou até a ter mecanógrafo pra treinar uma pessoa, porque na época tinha datilografia. Sempre a Fundação foi muito presente nas escolas. Principalmente aqui sempre foi. E visando sempre o melhor. P/1 – E aí os professores aqui também já... porque eles trabalhavam na Fundação, mas eles eram exclusivos ou eles podiam dar aula nas outras escolas? R - Olha, a Fundação exigia que fosse exclusivo. Não podia nenhum funcionário abrir um pequeno negócio. Eles não queriam que a Fundação tivesse... que fosse um bico. De jeito nenhum. Isso, de uma certa forma, foi muito ruim, porque as pessoas se acomodaram durante muito tempo. Pessoas que tinham o sonho de abrir um pequeno negócio, ou trabalhar em outro lugar, ficavam com medo. Porque se abrissem, ou trabalhassem em outro lugar, a matriz considerava que a Fundação fosse um bico e ele era cortado. E muitas vezes não era. Ele tinha uma quantidade de aula pequena, e que ele precisava de um complemento fora. Essa parte eu acho que a Fundação pegou muito, porque não deu abertura pra que outras pessoas pudessem crescer mais. Era exclusividade da Fundação. P/1 – E aí não podiam dar aulas nas outras escolas? R – Nas outras escolas de jeito nenhum. P/1 – E o senhor sabe mais ou menos como era a relação da Fundação com as outras escolas? Se eles iam nas outras? Como que era? R – Não. Sempre as outras escolas tinham acesso aqui à biblioteca, ao laboratório. Aqui tinha. Mas a Fundação visitar as outras escolas, não. As outras escolas vinham até a Fundação. P/1 – E sempre… R – E sempre aberta. Sempre a Fundação foi aberta pra comunidade, pra todo mundo. Só que a Fundação nunca, em momento nenhum, fez campanhas políticas dentro da Fundação. Nunca, nunca se misturou. Isso era uma coisa que eu achei até muito correta. A Fundação nunca permitiu um candidato ser um funcionário daqui, de jeito nenhum. P/1 – E nem entrar aqui pra fazer campanha? R - Nem material. Tivemos aqui uma vez uma vice-diretora... porque o marido era candidato e ela trouxe uma ficha de filiação pra alguém se filiar e ela foi demitida por essa razão. P/2 – Quando tinha campeonatos aqui, que vinham as crianças de outras escolas, o comportamento se diferenciava. Então como é que vocês lidavam com isso? O senhor que era inspetor? R - Olha, era um problema, porque os alunos daqui tinham ciúmes da própria escola. Eles tinham ciúmes. Era um patrimônio deles. E a gente tentava conversar com eles que a escola era aberta pros colegas. As escolas deles não tinham uma quadra de esportes. Mas é difícil você tocar em todo mundo. Eu lembro que uma criança saiu um dia chorando porque um aluno fez uma colocação que a escola dela era pobre, não tinha isso, não tinha aquilo. E isso foi... E depois eu fui na casa da mãe do aluno. Conversei com uma senhora até de idade, porque ela tinha bastante filhos – acho que uns 3 ou 4 filhos que estudavam aqui na Fundação. Não, que estudavam numa escola do Frei Gil, e que nunca tinha conseguido. Ela tinha 4 filhos e nunca tinha conseguido uma vaga aqui. E o filho dela ficou muito chateado. Chegou em casa, ficou chorando. E depois eu fui na casa dela, conversei com ela. E terminei, no outro ano, conseguindo uma vaga na Fundação pra essa criança. Eu me sensibilizei com a situação dela. “Ah, tua escola é pobre.” Coisa de criança. Não tem nada. Ficou desfazendo até do uniforme, que era um uniforme bem... uma camisetinha, que eles estavam jogando futebol de salão. E que uma das camisetas desse rapazinho, do menino, devia estar fazendo uns 13 anos, era rasgada. Então a gente viveu muitas experiências que, de uma certa forma, dói muito. A gente fica com dó das outras crianças. P/2 – E o comportamento dessas crianças? Eles vinham pra cá? R – Eles começavam... exatamente. Quando eles vinham pra cá, eles ficavam mais pra circular nas dependências da escola, conhecer a escola. E admiravam de tudo. Salas bem pintadas, ventiladores. Então as escolas deles não tinham. Então era como você chegar num local e ficar admirando. Era um problema porque eles ficavam querendo circular mais. Vinham, era aberto pra todo mundo. E o guarda tinha uma dificuldade muito grande pra ficar vigiando a dependência da escola. Eles queriam andar em tudo. Como nossas crianças eram educadas pra que não mexessem em fruta, não mexessem em nada, eles queriam tudo. E as nossas crianças vinham aqui e ficavam bravas. Porque como é que vem menino de fora tirar caju com muita abundância aí. Pegavam e derrubavam. Eles tinham totalmente uma educação diferenciada daqui. E os nossos alunos tinham ciúmes. Brigavam, reclamavam. Coisa de criança. P/1 – E em relação a essa coisa de comparação? E na cidade? Fora da cidade? Era fácil reconhecer o comportamento? Era fácil reconhecer: “Aquele é aluno da Fundação.” Olhando assim: “Aquele não é.” Pelo trato… R – Olha, era fácil. Não digo nem todos, mas 90% dos alunos era fácil de separar dos outros porque eles tinham uma camiseta da Fundação, que era a roupa que eles tinham. P/1 – Era do dia a dia. R - Era do dia a dia, então era muito fácil. Se destacavam mais pelo uniforme. P/1 – Mas tinha um diferencial no comportamento? R – Ah, tinha. A parte de educação era outra. Com certeza era diferenciado dos outros alunos. P/1 – Na pracinha? Na igreja? R - Igreja, em qualquer lugar que eles... Eles eram um referencial, eu diria assim. Perguntavam onde estudavam: Nós estudamos na Fundação Bradesco.” Mas essa comparação não é muito boa, não. Isso deixa os outros alunos, as outras crianças, de uma certa forma, revoltadas, chateadas. P/1 – Porque não são da escola. R – Porque não são da escola. E inclusive teve uma época que eles criavam uma gangue e queriam atacar os alunos aqui. P/1 – Por causa desse problema então? R – Por causa desse diferencial. Eles poderiam ser melhores na educação, mas na força bruta eles eram melhores. P/1 – E como é que foi esse caso? Conta pra gente? R – Não, a gente se deparou com alguma situação. Mas a gente sempre conversava com os alunos para evitar esse tipo de confronto, porque não leva a nada. Evitasse, andasse em outras ruas. Porque normalmente, é interessante, eles ficavam sabendo que o grupo estava esperando em tal lugar. Então vai por outro lugar. Não anda... E a gente terminou conversando também com as diretoras dos outros colégios para que acabasse, conversasse com os alunos porque isso não levaria a nada. E acabou. Não foi muito tempo que houve isso ainda. P/1 – Houve esse conflito mesmo? R – Houve, mas depois foi resolvido. P/1 – Agora a gente volta pras avaliações. O senhor conhece alguns outros projetos que a Fundação andou fazendo? Tinha a fazenda Capra. Como era a relação? Ela ficava na escola ou ela se movimentava com outras coisas na cidade? R – Olha, tinha outra escola no interior que se chamava Fazenda Rio Dourado. Ficava na beira do rio Fresco. Lá, até índio chegou a estudar. Porque tinha umas aldeias. Lá era uma região indígena. E era mantida pela Fundação Bradesco. Isso foi em 1985, por aí. Depois o banco Bradesco tinha uma sociedade com a Sul América e tinha uma escola. Chamava-se (Margareth Sanchez, Sanches?), não lembro bem o nome. E lá era mantida pela Fundação Bradesco. Tinha uma escola na Capri também. A fazenda tinha uma escola mantida pela Fundação. A fazenda, na época, devia ter umas 100 famílias lá dentro da fazenda. E tinha muitos alunos. Chegou a ter quase 500 alunos, a Fundação Bradesco lá. P/1 – E os alunos daqui iam visitar essas outras escolas? R - Iam. Os de lá vinham aqui também. Houve esse intercâmbio. Não a Rio Dourado, porque era muito distante. A gente ia de avião. Pra ir de carro era 1 dia, 2 dias pra chegar lá. Era muito difícil o acesso. Mas houve um intercâmbio assim: da CapriI pr´aqui, daqui foram lá. P/1 – Existia encontros? R - Na época houve também alguns passeios da turma de formandos de 8ª série. Ia numa cidade vizinha aqui. Ficava. Tipo um presente de formatura. Uma viagem. Então como muitos fazem, vai pro Nordeste, vai pra outro lugar, eles iam pra uma cidade vizinha, ficavam. Novamente programava algum torneio. Era uma data específica do aniversário da cidade. Fomos em Araguacema. Araguacema fomos várias vezes. Chegamos em Redenção. Chegamos em Santana do Araguaia, em Santa Maria das Barreiras. Cidades que iam com turma de formandos. Quando tinha algum torneio, uma data importante nas cidades circunvizinhas, a gente ia também. Depois a matriz proibiu, porque poderia acontecer acidentes, causar problemas pra Fundação. Aí a gente acabou com isso. P/1 – E pro senhor... o senhor já falou umas vezes, mas pode repetir numa boa. O senhor acha que a Fundação fez diferença pra região? R – Muita diferença. Eu acho que talvez se não tivesse tido a Fundação, Conceição não seria essa Conceição de hoje. Com certeza não. Porque nós estamos numa região aqui... Conceição nasceu e estagnou. Conceição não tem uma indústria, Conceição... o que mais trouxe gente pra cá foi a escola Fundação Bradesco. Isso incentivou muita gente aqui da região a vir e fixar residência aqui devido à escola. A escola da Fundação Bradesco é uma referência aqui no sul do Pará, aqui no Tocantins, Goiás antigamente. Foi uma referência... Muitas famílias vieram comprar terras, se fixar aqui devido à Fundação Bradesco. Talvez se não fosse a Fundação, Conceição seria um distrito hoje, talvez até de Redenção. Então ela tomou um impulso muito grande quando foi instalada a Fundação. E aí estabilizou. Não cresceu, mas pelo menos está se mantendo. P/1 – E na sua opinião, qual foi a importância da Fundação pra história da educação no Brasil, pelo que o senhor viu dela aqui, pelo que o senhor viu dela na Cidade de Deus? Dessa força que ela tem? Qual a sua opinião? R – Em relação ao Brasil? P/1 – Isso. R – Eu acho que, com certeza, teve uma parcela. Nós temos ex-alunos que estão... Em todo território nacional tem alunos da Fundação Bradesco. Tem em São Paulo, em todos lugares você vê alunos bem-sucedidos que passaram por aqui. Muitas vezes as famílias não estão mais aqui. Mas que a Fundação foi uma abertura de vida, um leque na vida deles, com certeza em todo território nacional. P/1 – E essa iniciativa da Fundação de estar fazendo um resgate da própria memória dela através do resgate das pessoas que viveram essa vida toda? R - Olha, é muito importante. Infelizmente, quando fizeram o contato comigo, eu estava muito ocupado, eu não tive tempo de fazer uma triagem maior pra poder resgatar algumas coisas assim mais... Mas eu me sinto assim, até de uma certa forma, envaidecido por estar aqui dando uma entrevista, constando de um livro, toda uma trajetória que eu... De uma certa forma eu contribuí, dei uma parcela, por mínima que fosse, mas dei uma parcela. E eu acho muito importante esse resgate dessa vida no início da Fundação, da escola. Eu acho que quem ler esse livro, vai dar uma importância muito grande. Porque talvez eu não tenha tido a capacidade de melhorar toda essa entrevista, porque tem coisas importantes que me falha a memória, não me recordo, não lembro nesse momento, que talvez amanhã, depois, eu venha até a lembrar. Mas eu acho muito importante e fico agradecido de terem me escolhido de ser um dos entrevistados. P/1 – Então, pro senhor, qual foi essa sensação de estar sentado aqui, falando? R – Muito boa. Muito. P/1 – Lembrou de… R – Lembrar até de... me puxou um pouco a memória de lembrar de muitas coisas que aconteceram na minha vida. Muito bom. P/1 – Então em nome da Fundação Bradesco, do Museu da Pessoa, a gente queria agradecer o senhor por essa entrevista pra esse livro. R – Com certeza, se depender de mim mais alguma coisa... você deixa o endereço, alguma coisa. Eu posso até, de uma certa forma, enriquecer alguma coisa. Se eu me lembrar eu faço um manuscrito, alguma coisa assim. Posso enviar num endereço que vocês deixarem. Ou eu entrego pro (Magnum?). O (Magnum?) pode repassar pra vocês. Porque depois, quem sabe, lá em casa, eu vou lembrar: “Esqueci essa coisa”. P/1 – Tanta coisa aqui. A gente está satisfeitíssimo. --- FIM DA ENTREVISTA ---
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