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História

Muito além da serra

História de: Adélia Lucia Borges
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/03/2014

Sinopse

Adélia Lucia Borges cresceu inspirada a descobrir o mundo que havia por trás da serra, ir além da pequena cidade onde nasceu em Minas Gerais. Traz o relato de um patrimônio familiar que não se expressa por bens materiais, mas por lembranças de uma família muito especial e uma infância bem vivida. Recorda a figura do avô materno “quentando o fogo”, a indelével imagem do caipira acocorado, do avô paterno, criativo, que desenhava a própria roupa e dizia que nesta vida lhe bastava “uma morena e uma canoa”, a personalidade do pai, empreendedor, de bem com a vida, tocador de jazz nos anos 40, a mãe zelosa, além da influência dos irmãos. Conta sobre os desafios de viver a juventude em uma cidade cosmopolita durante os anos de chumbo, dando forma à trama de vivências que a levou a ser pioneira no design e trabalhar para democratizar os espaços culturais.

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História completa

Nasci em Cássia, Minas Gerais, uma cidadezinha esquecida no sudoeste das Gerais, relativamente próximo a São Paulo. Cresci, no entanto, em Ribeirão Preto, o que fez toda a diferença. Fui a última da prole, substituindo um irmãozinho que aqui permaneceu por um dia apenas. Assim, cheguei, como caçula de sete filhos, em 17 de setembro de 1951. Dado que vivi em Cássia somente os três primeiros anos, minhas lembranças de lá são escassas; curiosamente, lembro-me de um acidente que alguém lá de cima não deixou acontecer: um caminhão desembestado e eu, inocentemente, atravessando a rua.

Por toda a infância, tenho lembranças de retornos a Cássia, mas apenas para visitar os avós. E, tanto o avô materno como o paterno, são pontos centrais dessas lembranças. O materno, pelo hábito de “quentar o fogo”, como ele dizia: ficar de cócoras diante do fogão a lenha, como autêntico caipira. O paterno, ao contrário, era um homem vaidoso - desenhava as próprias roupas, o cinto de couro - para quem “uma morena e uma canoa” era o quanto bastava. Meu pai, nesse aspecto, tinha muito dele: o curtir a vida - ao contrário da minha mãe, que era mais responsabilidade. Tanto assim que, nos anos 40, analfabeto, andava de moto e tocava bandolim no “Deixa Falar”, um grupo de jazz daquela lonjura.

Esse meu avô foi, assim, a maior influência que eu tive dos que vieram antes de mim, pelo gosto pelo belo, pela estética.

Era trabalhador, empreendedor e um tanto visionário, o meu pai: indo de avião para Belo Horizonte, lá do alto avistou a “terra rossa” de Ribeirão, deixando antever a fartura e o progresso, e falou: “Não, é para lá que eu tenho que levar os meus filhos”.

Foi uma mudança completa. Não apenas de tralhas, a filharada, cachorro, papagaio, e tal. Foi, principalmente, de perspectivas e oportunidades para nós, os filhos. De início, acomodamo-nos como foi possível, e, pobres, tínhamos mais trabalhos que brincadeiras. Mas um ambiente familiar muito gostoso, com aquela coisa do melhorar, a casa sempre cheia, mas sempre muito afeto. E cada qual foi fazendo por si e, de uma certa forma, trazendo para os outros, abrindo caminhos. Ribeirão, nesse ponto, foi um privilégio, em termos de educação, de contato com a cultura, com as artes, com a política.  Eu mesma, que sempre tive prazer em estudar, sempre fui boa aluna, até meio CDF, acabei sendo expulsa do colégio por causa de uma greve. Já era forte o movimento estudantil por lá, tanto o universitário como o secundarista. Porém, mais forte ainda, a repressão.

Mas foi em São Paulo, a cidade grande, a Capital, a cidade cosmopolita, que se intensificou a minha militância política, já aí na Universidade - a ECA, Escola de Comunicação e Artes da USP. Onde fiz Jornalismo.

Fui presa e torturada, sem ter nada para revelar; uma prisão aprontada pelo acaso: estava no lugar e na hora errados.

Mas, como outras adversidades que “tirei de letra” - por exemplo, o flagra de manhãzinha quando o meu namorado ainda estava no apartamento, e que foi punido com o retorno para Ribeirão - aquele episódio também se diluiu e, no segundo ano de Jornalismo, consegui uma colocação no Estadão. Aí, foi barra: a censura inviabilizando quase todos os trabalhos, quase todos transformados em receita de bolo. Até um fato muito interessante merece ser contado, como exemplo do que se fazia para driblar a censura: no meio lá de uma reportagem externa, umas obras no bairro da Liberdade, apareceu uma placa com os dizeres “Liberdade Interditada”. Essa placa foi clicada e exposta, digamos, inocentemente.

Contudo, talvez eu tenha exagerado na dose: grávida do segundo filho, liderei uma greve como diretora do Sindicato. Tinha dupla imunidade: a da maternidade e a sindical. Não serviu para nada; afinal, eram tempos sombrios da “redentora”, e eu não apenas tive negados todos os direitos - pelo menos naquele momento - como fui, digamos assim, banida do mercado. O jeito foi apelar para free-lancer, para sobreviver.

Mas, embora eu não soubesse, estava predestinada a ir além da serra. Não apenas enxergar, no sentido de conhecer o que havia no mundo - que não se restringia ao meu mundinho, obviamente - mas a estar, fazer e acontecer no que houvesse atrás da serra. E assim foi que, justamente nesse período de “vacas magras”, fui apresentada a um “admirável mundo novo”: o mundo do ainda incipiente - quase desconhecido - design brasileiro. Foi através de uma revista especializada, para onde fui a convite de um amigo que depois tomou outro rumo, deixando-me responsável por aquele universo. Mas não significou apenas mais um desafio na minha vida - foi uma guinada espetacular, uma mudança de atitude no sentido de criar, ousar, descobrir, desvendar e realizar.

E o design me levou a um outro tipo de relacionamento com a cultura; adentrei o espaço dos museus, passei a entender a dinâmica e o verdadeiro propósito das exposições. Conheci o papel da Curadoria como forma de organizar e significar o conteúdo da exposição. Consegui, principalmente em função de minha experiência no Museu da Casa Brasileira, adquirir uma visão mais plural, menos hegemônica, mais natural, da cultura, escrevendo a mensagem de que nos espaços sacralizado do museu e meio que elitizado da exposição, cabe a cultura popular, sem apequenar a cultura como um todo. Apenas conferindo-lhe autenticidade, genuinidade, uma simplicidade que não vulgariza. Assim, abri o museu para essa vertente, procurei dar legitimidade ao inusitado, como na exposição Os Novos Alquimistas, em que se apreciou a arte da transformação: o usado, antigo e sem utilidade, tornado novamente útil porque renovado.

Então, esse foi o meu grande aprendizado, a minha maior conquista e a minha real chance de “enxergar além da serra”.


Editado por Paulo Emilio Rodrigues Ferreira


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