Busca avançada



Criar

História

Muitas novidades

História de: Maura de Araujo Leão
Autor:
Publicado em: 18/03/2016

Sinopse

Maura de Araújo Leão conta como foi sua infância com mais cinco irmãs em Bauru (SP). Filha de pais dentistas, Maura relata como era dividir o quarto e também como era ir às festas sempre acompanhada das irmãs. Foi nas aulas de inglês que ficou sabendo da possibilidade do intercâmbio pelo AFS. Com o apoio da família, Maura conta como foi essa experiência que a transformou intensamente. Maura formou-se em Letras, trabalhou com traduções, foi mantenedora de uma escola e, atualmente, trabalha em sua agência de intercâmbios. Maura conta que foi graças aos anos como voluntária do AFS São José dos Campos que aprendeu muito e deu a segurança necessária para excercer essa função. Maura está como presidente da Belta [Brazilian Ecucation & Language Travel Association], em que o AFS também participa.

Tags

História completa

Meu vizinho, quando eu já estava morando na outra casa que eu falei, era o presidente do AFS em Bauru (SP) e ele era dono da escola que eu fazia o inglês. Eu comecei a fazer o inglês por incentivo da minha mãe, que ela incentivava obviamente todo mundo, aí tem quem fazia, cada filho vai de uma forma. Eu comecei a fazer o inglês até motivada que o meu vizinho era o dono da escola, eles davam carona pra mim na hora que eu ia pra aula. E a minha professora de inglês tinha sido intercambista do AFS. Porque normalmente quando você chega de uma viagem naquela época você já vai começar a trabalhar e a primeira coisa é dar aula de inglês. E aí ela começou a me incentivar. Naquela época, nos anos 70, a gente tinha que fazer uma prova de seleção pra poder passar. Eu cheguei em casa e falei pra minha mãe: “Tem um negócio aí, uma prova pra fazer intercâmbio, tal”. E minha mãe mais uma vez: “Por que você não faz?”, acho que ela nem imaginava que eu ia fazer mesmo. Eu acabei fazendo a prova, eu lembro que eram 50, 60 pessoas e tinham quatro, cinco vagas, um negócio assim. E aí eu acabei sendo selecionada. E a prova naquela época não era de inglês, era de conhecimentos gerais e o inglês não contava muito. E pra mim era novo porque não existia ninguém na família, minhas irmãs mais velhas não tinham feito, meus pais não tinham feito. E ninguém da minha família, do círculo de amizades havia feito.

Eu passei, cheguei em casa, foi a coisa de administrar de como é que a gente vai fazer isso acontecer. Porque você tem um investimento, você tem uma família grande e como é que você fala sim pra um sendo que você tem outros filhos? Mas tudo deu super certo, aí foi negociação, o que eu vou deixar de fazer pra poder viabilizar isso, desde não vou tomar sorvete, não vou sair pra poder juntar o dinheiro que precisava pra viabilizar. E naquela época o AFS também tinha muito o quanto você consegue pagar pra poder fazer sua viagem. E aí foi bem isso. E teve entrevista com a minha família, com meus pais. Esse foi o início dessa decisão de ir fazer o programa.

Naquela época, era tudo esperar o carteiro chegar, na verdade, eu tenho até saudades porque hoje você não espera o carteiro chegar. As notícias vinham através do carteiro, do correio. Então a minha expectativa era exatamente essa: o carteiro vai chegar? Porque desde a resposta do AFS Internacional, era tudo pelo correio, tudo através de cartas, haja vista que eu tenho várias coisas que eu guardei até a chegada da família. Esse preparativo, eu me lembro o dia que eu sentei à mesa com meus pais pra conversar sobre a viabilidade. A minha mãe era uma pessoa mais ousada do que meu pai, o meu pai, óbvio, ele tinha a responsabilidade da família, como é que a gente vai conseguir viabilizar isso? Aí a gente teve que sentar e conversar, eu carrego isso até como uma experiência na formação dos meus filhos: “Vamos sentar, conversar”, porque eu me lembro direitinho, eu sentada na ponta, um na frente, porque como é que a gente vai fazer? Qual é o dinheiro que nós vamos ter que investir sabendo que a gente não era uma família que tinha condição financeira que desse pra tomar decisão sem nenhum problema. Mas as coisas foram acontecendo, foram amadurecendo e o próprio AFS viabilizava dentro das suas condições. E até a data da ida, eu lembro que chegou meio em cima da hora pra família que eu fui colocada, inclusive eles me contaram depois que eles também decidiram de última hora me receber. Eu embarquei dia 19 de julho de 1977. E aquela que eu contei, a minha mãe tendo que superar as objeções das pessoas: “Como assim, vai mandar a filha morar fora?”, que não era comum isso, eram poucas pessoas que faziam isso. E você precisava ter coragem, porque não era todo mundo que tinha interesse.

Começam as despedidas com os amigos, então você ganha os presentes. Eu tenho até hoje uma correntinha que eu recebi com meu nome dos meus amigos. Porque é aquela coisa, isso tudo era muito novidade, era tudo muito diferente, essa coisa do sair de casa para morar fora. Então era muito legal, era bem genuíno o sentimento. E eu tinha minhas irmãs, eu tinha 16 e tinha irmã que tinha ainda 14, 13, uma de três anos, então elas eram pequenas e as mais velhas, mas pouco mais velhas, tinha 17, 19 anos, alguma coisa assim. Todo mundo foi super colaborativo, a minha mala tinha muita coisa feita porque antigamente a gente, até pelo perfil da minha casa, as minhas blusas eram de tricô ou alguém que fez de crochê, a echarpe, a blusa de lã, então muito personalizada a minha mala. Eu lembro direitinho. Aí comprando os presentes porque quando você recebe a sua família você vai ver que presentes eu vou levar, aí você já leva os presentes de Natal, os presentes de aniversário de todo mundo. Então a mala foi recheada com esses presentes que você vai dar pra sua família e supostamente a roupa que você vai usar ao longo daquele ano porque a gente não tinha essa facilidade de como enviar, então você tem que fazer um planejamento sem conhecer muito. Porque qual é a temperatura, quão frio vai estar? E obviamente que quando você chega você está com um monte de coisa meio desconectado do que você realmente você vai usar. Mas a minha família foi bem participativa nesse processo da preparação porque eu acho que a família compartilha muito, principalmente a minha participou muito no processo da preparação, do emocional, porque você vai cortar um vínculo por um período pra ficar longe e voltar depois de um ano que você fica fora. E eu fiquei literalmente 12 meses. Porque hoje a gente fala em um ano, às vezes, são dez meses apenas porque sai o período acadêmico, mas eu fiquei literalmente os 12 meses fora de casa.

Era a minha primeira viagem de avião, então tem tudo, é muita novidade. Primeira viagem de avião saindo do Rio de Janeiro. Era um vôo fretado, todo mundo do avião era estudante de intercâmbio, que era maravilhoso, e todos da mesma faixa etária. Era uma farra. E você já tinha convivido com eles no preparatório lá na PUC [Pontifícia Universidade Católica] do Rio [de Janeiro], então você já tinha algumas amizades ali que você começou a fazer, fora os teus amigos do seu comitê, da sua cidade, todo mundo tinha o seu grupinho. A viagem era longa, então você tinha o processo de fazer os amigos no avião, quem que senta do seu lado. Mas eu me lembro que foi uma farra geral dos meninos com a aeromoças, tenho uma foto com a aeromoça porque era uma coisa, elas deixavam a gente super à vontade, mas foi uma grande farra. O vôo era Rio de Janeiro-Nova York. Todo mundo vai pra Nova York e a gente é recebido lá. Eu me lembro também do choque da temperatura porque quando eu cheguei em Nova York eu me lembro que eu estava toda arrumadinha, camisa de manga comprida, uma echarpezinha também feita a mão, 40 graus em Nova York. Super calor, super úmido, então assim, foi o primeiro choque que eu me lembro e que marcou a minha vida foi a temperatura. Vários choques, foram vários choques, mas todos maravilhosos.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+