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História

Muitas histórias têm mudado através da minha

História de: Maria do Carmo Bezerra
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/01/2021

Sinopse

Maria do Carmo narra sua trajetória marcada por vivências difíceis desde a sua infância no Ceará até a mudança para São Paulo ainda na adolescência. Destaca que a experiência da maternidade foi fundamental na sua recuperação da dependência química. A aproximação da fé cristã, da Igreja Batista, foi decisiva para que Maria do Carmo passasse a atuar como missionária em casas de recuperação. Por meio da sua história de vida ela atua junto a pessoas em reabilitação de dependência química, tendo como base valores ligados ao empreendedorismo e à vontade de fazer a diferença.

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História completa

Eu sempre tive essa característica de liderar, de trazer para junto as pessoas, de atrair pessoas para o meu grupo. Então eu sempre tive isso até nas brincadeiras, eu sempre fui assim. Eu sempre tive essa característica de unir, de trazer, de chamar as pessoas para junto. E depois eu descobri que isso tinha a ver com o meu perfil de liderança. Eu sempre tive um desejo de cuidar de pessoas, de estar junto delas. Só que como eu vivia muitos dramas familiares, eu não conseguia me encaixar. Eu não tinha lugar em lugar nenhum, estava sempre buscando alguma coisa.

Desde que eu cheguei aqui, sempre gostei muito de São Paulo, para mim sempre foi uma cidade que tinha muito a ver com as minhas características, esse meu lado empreendedor. Mesmo diante de toda a luta conturbada, eu sempre trabalhei, sempre criava algumas coisas, eu desenvolvi várias coisas de trabalho, coisas manuais. São Paulo sempre foi uma cidade que eu gostei muito, de grandes oportunidades, de oportunidade também até de conviver com pessoas.

A força que eu tenho hoje é por conta de toda a minha história. Hoje eu trabalho com o pessoal doente, dependente químico, que foram abusadas, marcadas pela dor. E eu consigo conversar, entender, abraçar, ajudar, acompanhar todo esse povo, porque isso trouxe uma experiência para a minha vida, então na verdade ela foi uma escola. Eu vivi uma escola da vida, e essa escola me mostrou a que ponto chega o ser humano, a família desestruturada, desajustada, disfuncional, para onde ela leva. E hoje eu consigo abraçar o menino e entender a situação que ele vive, até onde ele chegou. Hoje eu desenvolvo um trabalho social com dependência química nas casas de recuperação em grupos de apoio. Eu consigo hoje me colocar no lugar deles, ter empatia, algo que não é tão fácil se você não viveu. Eu aprendi a ser humana, a olhar a pessoa com outros olhos, enxergar dentro dela. Talvez, se eu não vivesse tudo que eu vivi, eu não seria essa pessoa. Talvez eu seria uma pessoa que poderia estar presa hoje, e para mim o importante é que eu estou aqui, viva, e eu estou aqui olhando com outro olhar para tudo isso.

Hoje eu entendo que o dependente químico precisa ter um objetivo para olhar e ter, assim, para onde ele vai lutar, que este olhar seja algo que traga algo positivo para ele. E o meu filho trouxe isso para mim, ele nasceu com todos esses problemas e eu comecei a ficar muito angustiada. Eu tive uma conversa mesmo com um poder superior e pedi para Deus para que ele tivesse compaixão com o meu filho. Não era justo o meu filho pagar por uma coisa que era minha, né? E duas semanas depois o meu filho estava normal, e por causa disso nunca mais usei droga. Eu prometi para Deus que meu filho seria algo que iria trazer uma libertação para mim, e ele trouxe. Ele tem 26 anos, tem 26 anos que eu não uso nada. Meu filho foi curado. Deus fez um milagre, e por causa desse milagre nunca mais eu tive recaída. Isso não tem nada a ver com cristianismo, tem nada a ver com igreja, tem a ver comigo e um poder superior que eu chamo de Deus. Aí foi quando eu comecei a frequentar a igreja Batista, até hoje.

A recuperação é recuperar as ações, quando você é um dependente de algum tipo de droga, você tem não só a dependência, mas o comportamento doente, então o que me fez a libertação, a cura, a transformação, chame do que quiser, foi, na verdade, o meu comportamento mudar. Foi quando eu comecei a fazer os trabalhos nas casas de recuperação, que daí eu comecei a me descobrir, ajudando alguém, sendo útil para alguém, e acho que esse foi o ponto X para entender porque eu estava ali, porque eu tinha vivido tudo aquilo. Eu sirvo para alguma coisa, eu posso ajudar alguém. O pessoal me chama de contadora de histórias, eu chego nas casas de recuperação e conto minha história. E eu vivo assim, a minha recuperação é recuperar todo dia minhas ações. Eu quero deixar um legado nessa terra, de coisa boa, de alguém que fez a diferença. Após esses anos muitas histórias têm mudado através da minha.

Eu acredito que é o meu perfil de empreendedora, porque o empreendedorismo está muito ligado a não desistir, a conseguir ver coisa positiva, não se deixar abater por algo que não deu certo. É você mudar, correr atrás, empreender. Então cada trabalho que eu faço consigo ver empreendedorismo nele. Todo o meu trabalho tem um lado empreendedor, porque ele tem um lado de caminhar para frente, de incentivar. Tem uma função de liderança que dá esperança, porque mudar a pessoa você não muda, mas você pode mudar o contexto da história e o pensamento dela com relação ao que ela pensa até dela mesma. Então quando eu faço isso, quando eu ajudo o menino a olhar para dentro dele e ver as coisas boas que ele tem, eu estou empreendendo na vida dele. A recuperação é mudar os hábitos da pessoa, é poder mostrar a ela que ela tem algo diferente e que ela não conseguiu enxergar ainda, então isso também está ligado ao empreendedorismo. É mostrar um outro lado da pessoa que ela não conseguiu enxergar ainda, que eles são cheios de dons, só que a autoestima, a história de vida deles fizeram com que eles olhassem só para o lado negativo.

Eu sempre vivi lutando contra baixa autoestima e aprendi que eu tenho força, tenho garra. Eu consegui superar tudo isso de uma forma que me trouxe liberdade, mas ao mesmo tempo ser uma pessoa centrada, que por onde eu passo sempre deixo coisas boas. O legado que eu vou deixar é alguém que superou tudo isso com força, sabedoria e sobriedade, porque sobriedade é o que dá saúde para a pessoa. Eu não tenho mais revoltas, luto pelas coisas que acredito, por aquilo que eu gosto e faço valer a pena tudo que eu faço. Para mim o empreendedorismo é você fazer a sua vida valer a pena, o amor que você tem pelo que você faz, é acreditar naquilo que você faz e confiar naquilo que realmente você acredita.

Tem muitas mulheres doentes, feridas, marcadas pela dor, e elas não têm muitas vezes quem as escute. Ou elas não têm um ouvido que possa emprestar para contar a historinha delas, e quantas mulheres dessas estão com as dores guardadas dentro delas esperando oportunidade? Eu acho que isso, em Thiago 1:16, da Bíblia, diz que a dor quando é partilhada traz cura, mudança, então às vezes a pessoa que coloca para fora tem mais possibilidade de trazer cura para ela, porque conseguiu passar para frente uma coisa que ela tinha guardado. A gente costuma dizer assim: os nossos lixos ficam guardados dentro de um lugarzinho na casa que precisa ser limpo, e para que você limpe esse lugarzinho é falando, é tirando para fora, como é que você tira para fora? É compartilhando e falando com alguém.

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