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História de: Luiz Francisco de Assis Salgado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/08/2005

Sinopse

Em sua entrevista ao Museu da Pessoa, Luiz Francisco sobre sua infância em São Paulo, das brincadeiras de rua, em um tempo que a diversão estava na convivência real, fala também sobre a morte de seu pai, que forçou a sua família a trabalhar mais duro para conseguirem sobreviver. No fim de 1962, Luiz ingressa no SENAC como auxiliar de bens patrimoniais e nunca mais saiu de lá, ocupando hoje o cargo de Diretor Regional. Em seus mais de 30 anos de trabalho lá, conta com detalhes sobre muitas mudanças, dificuldades e superações que fazem parte da história do SENAC.

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História completa

P/1 - Bom dia, eu gostaria que você falasse o seu nome completo e a data do seu nascimento.

 

R - É Luiz Francisco de Assis Salgado, nasci em 2 de outubro de 42.

 

P/1 - Qual o local do nascimento?

 

R - São Paulo, paulistano. Raro, raro, paulistano raro. (risos)

 

P/1 - Eu queria que você dissesse o nome dos seus pais, o local de nascimento e data.

 

R - Bom, meu pai chama Francisco Salgado, né, é português, eu não tenho muito o histórico dele porque ele veio pra cá sozinho, não tem parentes nenhum deles. Minha mãe é Odete Paganini Salgado, né, e ela nasceu em Itu em 1920, 13 de janeiro de 1920. E é ituana, veio pra cá também muito mocinha, logo depois que casou com o meu pai.

 

P/1 - Qual era a atividade dos seus pais, Salgado?


R - Meu pai era um administrador, hoje chamado de administrador, né, ele administrava os bens de uma família, Pompeu de Toledo, e minha mãe trabalhava em Itu, em Salto, aliás, numa tecelagem, na área de escritório. Depois que o meu pai morreu ela assumiu a função dele e posteriormente ela passou a ser secretária escolar de vários colégios aqui em São Paulo.

 

P/1 - E como é que eles se conheceram, Salgado?

 

R- Aí você já me pegou, viu? Meu pai como todo português tinha um tino comercial, né, pras coisas, pelo menos é a história que conta, né, tino comercial da coisa. E se conheceram assim numa família em comum, um amigo comum que apresentou, essas coisas meio que... antigamente era... quando não existia televisão, né? Então as reuniões de família eram melhores, hoje não existe mais isso hoje, né? Naquele tempo, eu lembro, quando eu era menino a gente sentava na calçada no verão, essas coisas de sentar na calçada. E foi na casa de alguém que apresentou, uma família em comum, que os casamentos eram mais por interesses, né, era mais por interesses. O meu pai era dez, doze anos mais velho do que a minha mãe, provavelmente o português rico, trabalha bem, então vai casar com a dona Odete que é filha de uma família de sete irmãos, ela e mais sete, né?

 

P/1 - Eu queria que você falasse um pouco do local onde você nasceu. Se você lembra da casa onde você morava, da rua, que você falasse um pouquinho da sua infância, que você descrevesse um pouco a sua infância.

 

R - Eu lembro, eu nasci no Parque Dom Pedro, na Maternidade Dom Pedro, que, aliás, minha mãe cada vez que passa ali fala: "Olha, você nasceu aqui", todo dia fala isso. Até meus filhos já sabem dessa história. E eu morei na Mooca muito tempo, na Rua Conselheiro João Alfredo, minha vida foi toda na Mooca, na Rua Conselheiro João Alfredo. E era uma rua tranquila, uma rua tranquila como era em 1950, era qualquer rua, né? Eu lembro da casa, depois que o meu pai morreu nós ficamos naquela casa e aí nós fomos morar num apartamento, eu era solteiro, num apartamento na esquina da Rua Conselheiro João Alfredo com a Avenida do Estado, a casa foi alugada. Depois quando eu casei eu morei naquela casa, porque eu sou casado pela segunda vez, divorciado, casei pela segunda vez, eu morei naquela casa. Depois nós vendemos aquela casa pra comprar um apartamento, então, eu lembro muito bem da... Hoje eu passo na porta da casa, existe ainda, existe até hoje.

 

P/1 - Como é que era essa casa?

 

R - Era uma casa geminada, casa de pobre, de operário, de bairro operário pobre, na Mooca, eram casas geminadas, né, frente de 5x50, em central uma sala, quarto, sala, cozinha, banheiro e quintal. Depois que o meu pai reformou, fez o banheiro dentro de casa, do tempo que você saía no quintal pra ir no banheiro, o banheiro era fora. Depois fez uma reforma e a gente morou lá, mas eram dois quartos, sala, cozinha, banheiro, uma casa de operário, de trabalhador na Mooca, né?

 

P/1 - E quais eram as brincadeiras que vocês faziam? Era uma rua tranquila?

 

R - É pra contar tudo?

 

P/1 - É. (riso)

 

R - Era moleque de rua, né? Eu sempre fui moleque de rua. Aquilo que você faz, estudar no chamado grupo escolar, estudava de tarde e de manhã era o pau comendo, né? Nós éramos, eu lembro assim bem menino, garoto, éramos uns cinquenta mais ou menos, né? Toda a vizinhança, todo mundo tinha três filhos, cinco filhos, oito filhos, não era essa coisa de hoje, as pessoas se relacionavam muito, o vizinho que ia na casa do outro, que comia, que pulava, que quebrava a janela. Aí na fase de adolescência com dezessete, dezoito anos o grupo era mais ou menos igual, se reunia na Rua Conselheiro João Alfredo sempre numa das esquinas, né? E era aquela coisa toda, jogava futebol sábado de manhã, de tarde e de noite, e nos domingos também nas várzeas do Glicério, ali embaixo, né, que era tudo campo de futebol, hoje é tudo construído. E à noite se reunia pra ir no cinema que era o grande programa, né, ia no cinema tinha a sessão, não existia sessão corrida, em São Paulo não existia essa coisa, era sessão às oito horas, terminava o filme, eram dois filmes, alguns cinemas ali na Rua da Mooca e se reunia num bar ali qualquer, no bar no sentido de tomar café, porque ninguém bebia pinga ou essas coisas. Então era ponto de encontro, era no bar que você fazia o ofício pra convidar o time adversário pra jogar, né? Você mandava o ofício, quer dizer, o ofício pra jogar, jogava no sábado de manhã, alguns jogadores: "Ah, o cara não pode jogar porque fez não sei o que na perna." Porque naquele tempo jogava sábado de manhã, de tarde e de noite, jogava domingo de manhã, jogava domingo de tarde, tinha dois times geralmente, né? Os mais fracos no segundo time e os melhorzinhos no primeiro, nós jogávamos no segundo e no primeiro e vinha com o joelho ralado, arrebentado, infância de moleque de rua mesmo, não tinha televisão. Uma das primeiras televisões da rua que apareceu na Rua Conselheiro João Alfredo foi lá em casa, que o meu pai que trouxe. Os vizinhos todos, a molecada vinha assistir a televisão, a programação na TV Tupi começava às oito, das oito às nove e meia, das oito às dez, né, e eles chegavam às seis pra ficar vendo o índio, manja o índio, (riso) aquele índio que tem na televisão. Ficava todo mundo sentado, sentava cá na calçada, assim, dentro da sala de casa, né, ou primeiro na casa de um amigo que tinha uma televisão primeiro, ou depois lá em casa. Ficava sentado olhando aquele índio lá e aparecia desenho, tinha um anúncio que era do Studebaker, baker era um carro que tinha por aí, não sei se existe mais pelo menos nos Estados Unidos, era um S. Então o Studebaker que patrocinava a sessão de desenhos, esses que você está cansada de ver, que meus filhos vem hoje, né, do Pica-pau e não sei mais o que das contas. A televisão era um negócio fantástico, de válvulas, sabe, esquentar, ligava, ficava esquentando, aí pegava, quando desligava ficava aquele ponto no meio da tela assim até sumir. Mas era uma festa, né?

 

P/1 - E essa família que o seu pai trabalhava, que você colocou que administrava, como era o contato com essa família? Que você falou um pouco pra gente, como é que era?

 

R - Bom, o meu contato era muito pouco, né, meu pai morreu eu ia fazer doze anos, né? Mas eles eram uma família tradicional, existem alguns por aí que eu não sei onde eles estão mais. E era assim, era uma coisa, era um negócio como Escrava Isaura, né? O filho do empregado, que era eu, ia nas festas de aniversários do filho ou da filha, eles eram em quatro moços, né, e olhava pelo vão da porta, essas coisas assim, sabe, comia no subsolo, era uma casa de oitenta quartos na casa, monstruosa, eu era pequeno e hoje me parece muito maior do que seria. Mas o relacionamento era mais com o moço, né, o João José que acabou falecendo há pouco tempo, era artista de cinema, artista de novela e tal. Mas o relacionamento era muito distante, muito distante, meu pai é que trazia pra ver, pra ganhar presente no fim de ano, essas coisas terríveis que chocam, hoje choca, né? Então trazia na véspera de Natal pra ganhar bola, brinquedinho qualquer. E o meu pai morreu trabalhando lá e a casa que nós morávamos na época era deles, né, da família que tinha não sei quantas casas, mil casas, duzentas casas, nem sei quantas tinha, era um número muito grande. E o meu pai por ordem dele vendia ou comprava ou recebia aluguel, depositava, fazia compra, administrava, fazia administração geral, né? Hoje seria assim um mordomo mais qualificado, não sei bem o que seria, naquele tempo era muito comum. Aliás, as casas todas tinham essas coisas, tinha sempre um que tomava conta, comprava passagem pra Europa, sabe? Arrumava férias dos meninos, né? Naquele tempo o pessoal já ia passar férias na Europa, um negócio fantástico, em 1950, um negócio que não dá pra acreditar hoje. E o meu pai que administrava aquelas coisas, mas o relacionamento era distante. E a casa, quando o meu pai ficou doente, ele demorou pra morrer, demorou pra morrer, muito traumático isso porque ele teve uma disfunção cardíaca, né, e todo mundo sabia que ele ia morrer, inclusive ele. Então era um negócio terrível, foi uma fase da infância muito ruim pra mim, pra mim, pra minha mãe e pro meu irmão. Pra você ter uma ideia, quando o meu pai começou com os prenúncios de doença ele tinha quarenta anos, ele morreu com quarenta e dois. Então resolveram vender a casa pra ele, a casa que nós morávamos vendeu por cem contos, era um dinheiro fabuloso, né, e quando ele morreu ele estava devendo ainda, então a atitude magnânima da dona Marta foi quitar a dívida e deixar a gente ficar na casa. Quer dizer, não era registrado, não tinha aposentadoria, não tinha lhufas. Aí, que aconteceu com a dona Odete Salgado, que é a minha mãe, teve que trabalhar, teve que trabalhar. Eu estava fazendo o ginásio e não tinha jeito, tinha que terminar o ginásio. Meu irmão, que já tinha terminado o ginásio, que estudou na mesma escola que eu, na Fundação Zerrenner, teve que arrumar um emprego, né, e por azar foi servir o Exército em Quitaúna ainda. Então foi, a vida nossa que era um negócio de classe média alta, nós só não tínhamos carro, nós tínhamos casa própria, tinha televisão em casa, sabe? A gente viajava pra Santos nas férias, virou um caos. Esse tipo "Éramos seis", né? Quer dizer, morreu, vamos ter que trabalhar, eu não trabalhava, meu irmão não trabalhava e a mãe foi trabalhar no mesmo lugar. A mulher ficou tão, não sei se ficou assim com dó, qualquer coisa, botou ela pra trabalhar e trabalhou uns dois anos com a família. Depois ela morreu, aí desfez tudo, eles venderam a casa, foram morar no Pacaembu e comeram por uma perna tudo que eles tinham, né, a rua inteirinha onde eu morava as casas eram deles. A rua tem quinhentos metros, você imagina mil casas na rua, recebendo aluguel, era muita fortuna, muito dinheiro, né, era uma elite que não trabalhava, só ficava nessas coisas aqui, né? Mas aí foi aquela infância traumática, teve que trabalhar, sabe? Aí foi terrível.

 

P/1 - Vamos voltar um pouquinho, Salgado. Quando é que você entrou na escola? Qual foi a primeira... Quantos anos você tinha quando entrou na escola?

 

R - Eu entrei com seis anos, né, na escola primária na esquina da Rua Conselheiro João Alfredo no Grupo Escolar Cesário de Carvalho. Naquele tempo não eram oito anos, né, era o primeiro... O grupo escolar depois o ginásio. Pra você entrar no ginásio tinha que fazer exame de admissão. Eu fiz o grupo escolar ali, os professores eram tudo amigo, né, inclusive a escola, o prédio da escola pertencia à família Pompeu. E era amigo, o diretor era amigo do meu pai, da mãe porque não se conhecia ninguém na rua que não se conhecesse. Então eu fiquei quatro anos, tirei em primeiro lugar, me formei em primeiro lugar, colei de calcinha curta, tem fotografia lá com a minha mãe, de calcinha curta, oculinhos, já usava oculinhos naquela época, gordinho, né, gordinho, ganhei uma caixa de bombons. Você acredita que eu ganhei uma caixa de bombons pelo primeiro lugar com dez, essas coisas assim. E ganhei também uma caneta tinteiro, é tinteiro daquelas de usar com a peninha, encher de tinta, essas coisas.

 

P/1 - Você lembra a marca da caneta?

 

R - Não, não lembro a marca da caneta. Meu pai tinha uma que era o xodó dele, era uma caneta Parker 51 que eu também tive, depois que ele morreu a minha mãe me deu de presente e eu tive o prazer de perder, né? Eu fui um dia no ginásio e não sei se fui correr atrás da bola, caiu e eu não percebi, perdi a caneta e a minha mãe só não me matou porque seria mais um assassinato, né? Mas eu saí de lá e fui fazer admissão, né? E aí eu percebi que eu não era tão inteligente assim, né, porque eu fui fazer admissão pra entrar no ginásio do Estado e naquele tempo o charme, a grande coisa era estudar no ginásio do Estado, não era escola particular. Só o restolho do Estado que ia pra escola particular, era o contrário do que é hoje, né, só o restolho vai pra escola pública. E eu acabei não passando no chamado exame de admissão, no ginásio lá perto de casa, na Rua da Mooca, e acabei indo pra escola técnica. Que era um alívio pra minha mãe que era menos um dentro de casa o dia inteirinho e eu não queria, né, porque eu queria era galinhar na rua, né, porque eu fazia o ginásio só de tarde, só de manhã e o resto do dia livre, né? A minha mãe trabalhando era a festa, a glória, né? Mas só que eu fui estudar na Fundação Zerrenner que se chamava Escola Vocacional Antarctica, que passou a chamar Escola Técnica Antarctica e hoje não sei que nome tem, existe a escola até hoje ali no Cambuci. Entrava sete horas da manhã e saía às cinco horas da tarde, almoçava, apanhava, ficava de castigo, usava macacão, era um regime militar mesmo, regime militar, e quando tinha educação física entrava cinco e meia da manhã. Então pra minha mãe era um sossego, você não tinha que alimentar, não tinha que fazer nada. Era uma instituição meio de caridade porque você não pagava escola, eles davam roupa pra você, davam tudo, macacão, eu usava macacão, macacão de fechar que usa hoje mecânico, todos usavam macacão. Tinha vestiário, você comia, tomava café da manhã, tomava lanche de tarde, eles pagavam a condução, tinha cinema no sábado. Sábado até meio-dia, como indústria, né, sábado até meio-dia e você, à tarde se você fosse um menino bonzinho durante a semana você tinha direito a assistir um filme que ia até mais ou menos às quatro da tarde. Era um sossego da minha casa e uma economia também, né? Quando eu entrei o meu irmão estava saindo já, quando eu estava entrando ele estava saindo, ele ficou mais de um ano só. Era a glória, né, e eu chorava, pra mim era desgraça aquilo ter que ficar, depois fui acostumando, além do trauma de você mudar de escola porque era um problema sério, partindo de hoje a gente pensa de uma forma melhor, é um problema sério você ser de uma escolinha de primário que a professorinha que é a dona Mariazinha, né, que a minha se chamava dona Mariazinha, que dava maçãzinha, que tomava guaraná, levava lanchinho pra tomar no intervalo e tudo isso, caiu no ginásio, sabe? Numa coisa totalmente diferente, com dez caras dando aulas diferentes, e tinha inglês, e tinha francês, tinha latim, essas coisas terríveis, educação física. O moleque apavorado que nem um idiota com dez anos e meio, nego, é um trauma, um choque, era uma grande massa de repetência, né, de repetência por causa disso, porque era um trauma de você se acostumar, além de eu ter sido reprovado de ano, o meu pai morreu. Eu demorei uns dois anos, hoje eu analiso, naquele tempo eu levei uns dois anos pra entrar nos eixos de novo. Detestava ir na escola, ter que ir na escola, porque tudo me recordava, sabe? Ficar preso, a morte do meu pai, as coisas, os problemas. E eu sentia, apesar de muito pequeno, da decadência da situação social da gente, né, porque não tinha mais brinquedo, não tinha mais aonde ir, o que fazer, não ia mais pra Santos, a roupa nova não comprava mais, aquelas coisas complicadas, né, que depois você acaba entrando no eixo. Com isso, iguais a mim mais 500 mil na mesma coisa, né?

 

P/1 - Me diz uma coisa, Salgado, na escola você tinha várias matérias, era um ginásio industrial, né?

 

R - Industrial.

 

P/1 - Que tipo de matéria que vocês tinham ligadas, por exemplo, a nível profissionalizante, a nível de indústria, quais eram as matérias?

 

R - Bom. Quando você fazia o primeiro ano, você fazia o que eles chamavam de um teste vocacional, durante o primeiro semestre, quinze dias você passava por várias oficinas. Eles tinham pintura de quadro, né, letrista, cartazista, essas coisas, tinha gráfica, tinha eletricidade, serralheria, mecânica, marcenaria, entalhação que eu hoje acho que nem funciona mais que você entalhe e tal. Você passa quinze dias e tinha um teste, você fazia várias coisas, né, já formação e no final do semestre você era selecionado, quer dizer, o teu melhor desempenho, quer dizer, é um negócio lógico, né? Isso eu estou falando de 1950, lógico, aí você passava a frequentar a oficina que mais você se adaptou, quer dizer, era um teste vocacional, né? Então o grupo se dividia, né? Eu comecei a fazer com serralheria, eu tinha na época, eu lembro bem, eu tinha duas opções: serralheria e gráfica. Comecei com serralheria e aí tive um problema muito sério de ouvido, aliás, desde muito pequeno eu tenho um tímpano furado, otite, não sei mais o que das quantas. Eu trabalhava na forja e cada vez que eu trabalhava na forja pra esquentar o ferro, eu tinha problemas terríveis, né, congestionamento de sinusite, de ouvido e tal. E eu me lembro que uma vez a minha mãe pediu, foi lá falar com o diretor doutor Bertoncini e pediu pra tirar porque cada vez que eu passava pra trabalhar na forja eu tinha um problema. Que moleque não liga pra essas coisas, então calor e água gelada dava infecção no ouvido, aí a segunda opção fui trabalhar em gráfica. Eu fiz todo o ginásio em gráfica, tínhamos as matérias comuns, né, todas elas aí: o latim, o francês, o inglês, a matemática, o desenho e tinha a parte técnica que se chama tecnologia. Tecnologia era o estudo, né, do trabalho que você fazia, né, eu como fazia gráfica então tinha que estudar a história do papel, história da tinta, como é que fazia, a parte técnica e não a parte prática. E eu fiquei lá até terminar.

 

P/1 - E quando você saía desse ginásio, você era colocado no mercado de trabalho, eles indicavam você pra trabalhar numa empresa ou não?

 

R - Eles tinham duas opções, né, a primeira opção, quem fazia a parte de terceiro ano de mecânica eles continuavam com curso técnico de segundo grau na própria Fundação Zerrenner, e aos outros eram dado oportunidade pra trabalhar nas próprias oficinas deles. A Fundação Zerrenner tinha uma gráfica muito grande, até hoje eles fazem o rótulo da cerveja, todos os impressos da Companhia Antarctica Paulista inteira, porque a Fundação Zerrenner era dona da Antarctica, cujos lucros sustentam a fundação, sustentavam pelo menos na época, né? Era uma gráfica fantástica, muito grande, e eu trabalhei até dezoito anos nessa gráfica, quando eu saí livre do Exército, que eu não servi, aí eu achava que eu não devia ser mais gráfico. Primeiro que eu tinha vergonha de andar de macacão, né, de mão suja, tinha uma vergonha terrível, né, de andar de macacão, segundo porque eu não gostava daquilo, terceiro por causa das vantagens que o pessoal do escritório tinha, que o pessoal da indústria não tinha, eles não trabalhavam sábado e você trabalhava sábado, tinha feriado que o pessoal do escritório não trabalhava e o pessoal da indústria trabalhava, como é hoje, né, era outro esquema, esquema de produção que eu não compreendia naquela época, né, eu não compreendia naquela época. E eu queria sair, eu queria sair, queria sair, e todo mundo dizia: "Não, você está louco." Eu tenho amigos que ficaram até aposentar, começaram trabalhando lá e ficaram até aposentar, mas eu não queria mais trabalhar, eu queria trabalhar em escritório, que era o meu grande sonho. Uma besta de paletó e gravata, né? (riso) Era o meu grande sonho.

 

P/1 - E aí você foi trabalhar aonde?

 

R - E aí eu saindo fui procurar que nem um louco, pedi a conta primeiro, fui embora, depois fui arrumar emprego, né? Procurei emprego e era comum você procurar agências de emprego, né, tipo Gelre, e não sei qual das quantas. E me indicaram pra trabalhar na Arno, que era perto de casa, ali na Avenida do Estado que até hoje tem até uma revendedora de automóveis, acho, lá. E eu trabalhei lá quase um ano, eu era calculista, trabalhava em cálculo, você calculava a somatória das peças, custo da produção. Eu lembro que era de liquidificador, aspirador e mais não sei o que das quantas, né? E aí não satisfeito achei que devia fazer outra coisa, aí também pedi a conta e fui trabalhar, acabei trabalhando na Ford e depois da Ford que eu entrei pro SENAC [Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial]. Mas eu tenho um fato interessante. Quando eu saí do ginásio, eu achei que eu ia fazer um curso técnico já que a escola não permitia, eu tinha que fazer um curso técnico qualquer pra depois fazer uma faculdade. Já era aquele grande sonho, né? Aí eu fui estudar na Fundação Getúlio Vargas, Escola Técnica Getúlio Vargas, não é essa Fundação Getúlio Vargas que tem aí, é uma Escola Técnica Getúlio Vargas que é do Estado, na Rua Piratininga quase esquina com a Celso Garcia. E fiz três anos de um curso que seria hoje, seria um técnico de edificações, trabalhar com plantas, fazer desenho arquitetônico, não sei mais o que das quantas. E eu gostava dessas coisas, aliás, gosto até hoje, no SENAC eu nunca pensei que eu fosse utilizar isso. Qual foi a minha surpresa: o dia que eu recebi o último, três anos eu fiz isso aí, era uma coisa meio estranha, né? Que eu recebi certificado eu falei: "Agora eu vou fazer o que eu quero." "Não, isso não vale, é um curso livre." É um curso livre como hoje nós temos aqui, se eu trabalhasse no SENAC naquela época eu saberia distinguir o que é um curso livre, o que é um curso regulamentado, que é um Q4, Q3, toda essa linguagem que todos já falaram aqui, né? Aí eu queria me matar, três anos perdidos, não sei mais o quê. Aí falaram: "Não, você monta um escritório, vai ser desenhista." "Não quero." E aí a minha frustração porque aí eu já tinha uns dezoito, dezenove anos e tal e não quis mais nada. Aí abandonei, não quis mais, aí namorava, fui trabalhar no SENAC, arrumei uma namorada, acabei casando depois. Casei em 66 e aí descobri que só tinha um jeito de ficar rico, né, aliás, dois, três! De você estar ganhando na vida. Ou casa com mulher rica, né, essa bela fase, ou o pai deixa, ou por você, se vira. Então casado, já casado, aí, fui fazer pelo senhor Breno Di Grado: "Vai fazer", fui fazer Técnico em Contabilidade, começar tudo de novo. Toda vez que eu escuto aquela música: "Começar de novo" eu lembro sempre disso, fazer tudo de novo porque não tinha saída porque eu tinha parado de estudar há muito tempo. Aí fui de novo, fiz o curso Técnico de Contabilidade inteirinho aí já tinha raiva e me formei os três anos em primeiro lugar. O Breno uma vez me convidou pra participar de um concurso que o SENAC tinha e tal, não podia e tal. "Como é que eu vou participar de um concurso no SENAC se sou funcionário do SENAC?" Aí fiz cursinho, um negócio terrível, trabalhava na gráfica do SENAC, levava duas marmitas, pro almoço e pra janta porque eu saía direto pro cursinho no Parque D. Pedro e dormia às onze horas da noite. Tinha filho pequeno da minha primeira mulher e era uma vida de cão, né, vida de cão. Levava marmita. Tem uma história fantástica porque eu tomava um ônibus que passava na Avenida do Estado e parava na Duque de Caxias ou na Avenida São João, o ônibus se chamava Fábrica Pompéia, e numa pós-festa tipo Natal, Fim de Ano, ou Páscoa, não me lembro bem qual era a época, eu, como era um cara envergonhado, eu tinha uma pasta, imagina um livro aberto em dois onde eu enfiava uma marmita do almoço e uma marmita da janta e fechava; era uma pasta como se fosse estudo, e como ninguém, como aquele que tem amante acha que ninguém percebe que ele tem, então levava a pastinha pendurada no ônibus, ônibus lotado. De repente eu olho assim, olhando pra baixo, pendurado, que eu só andava de ônibus, eu olho no paletó do fulano que estava sentado, eu lembro até hoje, paletó claro, ele conversando com uma moça aqui do lado, tudo pingando o molho da lasanha. (riso) Você dá risada, aquilo pingava assim pela marmita, porque estava descongelando, era um calor e caiu no paletó do homem. Eu desci no meio da Avenida São João e fui a pé. Até hoje lembro, se eu encontrar, hoje não dá porque fazem trinta anos isso aí, mas lembro mais a cara do homem. Quando esse homem chegar no escritório ou na casa dele aquela gordura da lasanha no paletó dele... aí resolvi nunca mais levar marmita na minha vida. Aí levava sanduíche, eu não tinha como comprar, levava sanduíche, levava dois, né, levava pra comer no almoço, e pra comer na janta. E fiz um ano de cursinho, né, aí prestei vestibular pra entrar, naquela época prestei vestibular pela PUC, né, e entrei na Escola Superior de Administração e Negócios. E eu sonhei uns três anos com isso aí, com a gordura pingando no paletó do homem. Você já imaginou a cena? Você dá risada. A cena do cara quando chegou na casa dele aquela coisa, com aquele molho de tomate e tudo, não brinca.

 

P/1 - Salgado, vamos voltar um pouco. Quando é que você entrou, começou a trabalhar no SENAC? E como é que você... Você já tinha ouvido falar do SENAC?

 

R - Não. Eu estava desempregado, né? Eu trabalhava na Ford Willys, era inspetor de qualidade e eles acabaram com a linha do Delfim e do Gordini, eu não me lembro bem, e aí eu perdi o emprego e fiquei quatro meses desempregado. E era também desempregado e exigente, né: "Ah, isso eu não quero. Ah, isso aqui está ruim. Ah, isso é longe." Na verdade eu não queria nada de trabalhar, tinha dezenove anos. E a minha mãe tinha uma amiga comum, tem uma amiga hoje, a Disolina, a Disolina é de Serra Negra e amiga da minha mãe há uns sessenta anos, sessenta e poucos. E a Disolina tinha uma amiga chamada Cida de Abreu que trabalhava no SENAC, ela falou: "Olha, manda o menino lá na autarquia fazer um teste e entra." Menino era eu e autarquia era o SENAC, na Rua Dr. Vila Nova. E fui lá, fui fazer um teste de datilografia, uma semana depois faz não sei o quê, demorei três meses pra entrar no SENAC e acabei entrando no SENAC em 5 de novembro. Mas era um parto, era uma burocracia, eles faziam questão de dizer que aquilo era uma autarquia, na verdade não é autarquia, nunca foi, mas era a glória trabalhar no governo, né, era você trabalhar na autarquia e ser funcionário do Banco do Brasil, né? E assim que eu entrei no SENAC, entrei aéreo, vou ficar um ano aí. Eu falei pro rapaz lá: "Você é bobo", sempre um ano. "Eu estou no último ano, vou ficar um ano só." Faz 33 que eu estou lá e esse que é o último ano. (riso) E nunca tive coragem de sair, né? Já ameacei sair algumas vezes, né?

 

P/1 - E qual foi o seu primeiro trabalho no SENAC?

 

R - Eu fui ser... Eu entrei pra ser auxiliar de bens patrimoniais na Rua Dr. Vila Nova, que o prédio não estava acabado ainda. Então colava chapinha, um negócio absurdo, absurdo, colar chapinha debaixo da cadeira, tinha técnicas de pregar chapinha, algumas você colava, outras você pregava, tem um furinho que você pregava. Então o que era maquinário tinha uma chapinha compridinha e que era móvel era uma chapinha redondinha. E tinha um manualzinho como você deve pregar: cadeira pregue embaixo, não sei o que prega não sei aonde, extintor não esqueça: cole e não fure. Eu fiquei nessa conversa uns quatro meses, né? Aí o SENAC tinha uma gráfica entre... na Duque de Caxias entre o Largo do Arouche e a Avenida São João. E aí o almoxarife pediu a conta ou mandaram embora e o Haroldo Cruz Hirth, que era o meu Diretor, que era Diretor do departamento, me falou: "Você vai lá dar uma mão um mês." Fiquei dez anos. Mas ele era tão canalha que ele me enganou. Porque ele sabia que eu não queria, saí da frigideira pra cair na brasa. Só que menos male, ao invés de trabalhar na gráfica, fazer composição e tal, essas coisas de gráfica, de composição, de impressor, trabalhar com o linotipo, isso aí eu manjo até hoje. De vez em quando, tem um rapaz que trabalha comigo, o Clairton, tem um irmão que tem uma gráfica, outro dia eu fui na gráfica do fulano. Ainda mexo nessas coisas, é perigosíssimo, perde mão, perde dedo, ainda mexo com essas coisas.

 

P/1 - E como é que foi a sua carreira dentro do SENAC? Quais cargos você exerceu, ou as funções que você teve? Você ficou dez anos na gráfica e aí como é que foi? Eu queria que você contasse um pouco desse histórico.

 

R - Bom. Acho que tem uma fase na vida, né? Eu, quando fui trabalhar na gráfica do SENAC, eu fiquei mais ou menos alienado porque é uma excrescência, você imagina uma instituição educacional que tem uma gráfica, é uma excrescência, é um negócio, é a mesma coisa se tivesse uma empresa de transporte hoje no SENAC, né, não tem nada que ver. Então era o restolho, né, ninguém ligava pra isso, né, pra gráfica. E a gráfica prestava, na verdade, um desserviço, né, porque se ela fosse um trabalho descentralizado era mais fácil. Prestava um desserviço porque todo mundo era contra, todo mundo quer ao mesmo tempo e a gráfica era uma só e não conseguia dar conta e ficava inimigo. A gráfica era na Duque de Caxias e estavam construindo um prédio na Barra Funda, que existe até hoje na Barra Funda, ali na Rua Salto esquina com a Rua Boracéia. Eu trabalhava na gráfica e era alienado do SENAC como um todo, algumas coisas eu lembro, alguns processos do SENAC, né, porque era assim, era um grupo fechado que mandava e tinha uma turma que trabalhava que era nós. Era nós e o grupo que mandava. E o SENAC era assim, era um grupo de pessoas, a maioria egressa do Estado, aposentada do Estado, Professor Ordoñes, Professor Torres, Oliver próprio, todos eram ex de alguma coisa e queriam implantar esse sistema no SENAC. Então eles faziam questão de ser uma autarquia, de ser pública. Eu lembro de um processo pra que o SENAC usasse carro preto com chapa branca. A vontade de ser funcionário público, porque era um gozo você ser funcionário público, processo pra você trabalhar meio expediente, veja essas coisas que hoje não tem cabimento. As pessoas fogem, hoje quando as pessoas falam: "Ah, é do governo." Já voam no pescoço do fulano, que negócio do governo... é pejorativo ser do governo hoje, né, naquela época as pessoas faziam questão, né? E esses dez anos que eu fiquei fora, o contato era mais informal com as pessoas que eram mais amigas, mais conhecidas. Tem processo assim que o dia que o Oliver autorizou as moças a usar calça comprida no SENAC. Isso ele não contou aqui, né? Não? Ele autorizou a usar calça comprida, foi uma glória! Calça comprida! Desde que não fosse agarrada. Vê essa coisa, né? O processo pro SENAC trabalhasse meio expediente como funcionário público, na parte da tarde, tinha lanchinho, processo pro SENAC usar uniforme. E era uma cambada de burocratas, de ex-funcionários públicos, com mentes públicas e aquelas coisas, sabe, dos regulamentos, dos decretos, o processo era mais importante que o resultado, né? E eu estava mais ou menos afastado desse processo assim, porque a gráfica era um negócio terrível, né, era uma excrescência, ninguém dava valor pra gente. Era terrível. Eu trabalhava na gráfica, era Almoxarife e o Chefe do escritório que era o Oswaldo Bonavigo saiu e eu fiquei no lugar dele. E tinha um contador chamado Arlindo, né, Laurindo, aliás, o Laurindo era o contador que depois saiu, entrou um outro rapaz chamado Nivaldo Santarelli e foi isso aí, ficou aquele marasmo, né? Aí, quando eu decidi estudar de novo nesse meio processo, quem me incentivou foi o Breno Di Grado. Aí fui fazer o Técnico em Contabilidade com bolsa do SENAC. O SENAC pagou os três anos de estudo pra mim, né? Aliás, eu devo, profissionalmente tudo que eu devo eu devo ao SENAC porque ele pagou esses três anos de estudo, pagou cursinho, pagou faculdade toda. No fim, o SENAC estava meio duro de dinheiro não pagou integral, mas pagou parcialmente. Mandou eu fazer pós-graduação na França, pós-graduação na Suíça e pagou Getúlio Vargas, quer dizer, eu retorno aqui o que eu recebi. Mas esses dez anos era um negócio estranho. Quando eu comecei a trabalhar lá na gráfica o Presidente era o Brasílio Machado Neto, que também é uma figura: deputado federal, família tradicional, eles tinham gráfica, lojas Assunção era da família, gráfica não sei o que das quantas, era aquela coisa, quer dizer, um homem, sabe, daqueles que você só ouve falar, né, quando via, falava: não existe, essa coisa não existe. Quem tomava conta da gráfica era um senhor de muita idade chamado Randolfo Homem de Mello, família Homem de Mello tradicional, até nome de rua tem. Randolfo Homem de Mello era um homem magrinho, bengalinha, de óculão escuro, não conseguia enxergar um elefante a dez metros de distância, porque ele tinha um óculão assim. Aliás, tem um acidente, um dia ele foi ler um papel em cima da minha mesa e furou com um espeto o nariz dele, né, porque ele não enxergava, ele tirou o óculos pra ler assim, antigamente como de bar, né, um espeto com papelzinho pendurado, olha o bilhetinho, enfiava lá e no fim do dia você pegava... ele foi ler o que estava escrito e furou, podia ter ficado cego. O coitado morreu atropelado porque não viu o carro vindo, o cara buzinou, quando ele olhou "pum!", atropelou. E precisava de um Diretor pra gráfica, aí chamaram o Clóvis Cesário Oliveira, aquela coisa santa, que foi Diretor da gráfica do SENAC onde foi um cão, que onde eu passei, onde eu comi o pão que o chamado diabo amassou, né, não só eu como outros também que trabalhavam por lá. E naquela oportunidade me arrumaram um auxiliar, José de Souza Valentim, que hoje é superintendente administrativo da Federação do Comércio, o Valentim. Valentim era um menino, menino, era mais novo do que eu, era um menino. Porque eu também era um menino naquela época, tinha vinte anos, que coisa, né, um garoto. O Valentim trabalhou comigo muito tempo depois saiu. E eu arrumei um padrinho, um padrinho chamado Moacyr Calil, das fotografias que eu lhe deixei está lá o Moacyr Calil. E Moacyr Calil ele era vinte anos mais velho do que eu, nasceu no mesmo dia: 2 de outubro de 22. Eu nasci em 42, ele em 22. Nós tínhamos muita afinidade, aliás, gênio igual, né, igual também, grosso, grosseiro que era uma barbaridade, sem osso na língua, né, fala tudo o que pensa, né? E o Calil apadrinhava, né, apadrinhava, eu chorava com o Calil porque o Clóvis era um negócio terrível, né, era um... tinha todos os defeitos, que mal me perdoe mas era um corrupto de primeira linha, né? Ele tinha uma gráfica dele e as ações da gráfica do SENAC era em função da gráfica dele. Você comprava papel se ele precisasse, comprava tipo se ele precisasse, essas coisas. Vendia máquina que ele mesmo comprava, sabe? Então ele dizia assim: "Essa máquina não presta, vamos vender, fazer um leilão." Aí fazia um leilão que você ia ver era o cunhado que tinha comprado, o sobrinho. Era um negócio terrível. E o SENAC inteiro sabia disso, o Oliver sabia disso e a turma que trabalhava com Oliver sabia disso, mas nunca ninguém queria tomar uma atitude porque é um negócio meio complicado, sabe? Fica naquela de escândalo, confusão. Só quando o Oliver saiu que o Amin entrou, que o Amin começou a fazer uma pressão pra ele tirar fora, mas não era muito fácil você demitir um Diretor que era amigo de não sei quem das quantas e no fim, um dia acabou saindo. Mas a gráfica era o cocô da mosca do cavalo do bandido, sabe, aquele resto que está lá que ninguém quer

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Então era uma revolta porque o SENAC chegava assim, 9 de julho, por exemplo, vamos trabalhar, mas por que vamos trabalhar? Trabalha no 9 de julho, é funcionário público. Então tinha ponto facultativo no governo, o SENAC não trabalhava. E na gráfica o pessoal fica p. da vida porque não tinha nada que ver com isso, né? Trabalha, não trabalha, aquilo foi um negócio terrível. E naquela oportunidade o contador da gráfica era o Nivaldo Constantino Santarelli, que trabalha até hoje na casa. Nivaldo assim é o tipo de pessoa que você quando descreve, qualquer mulher se entusiasma pelo Nivaldo, né? É loiro, quarentão, hoje é cinquentão, bem de vida, olho azul, bem estabilizado. Aí você fala: "Aquele é o homem da minha vida, né?" Só que essas coisas não batem, não encaixam direito, ficam meio esquisitas, o Nivaldo é... não vou dizer que é o tipo que as mulheres gostam, né? O Nivaldo é solteiro até hoje, é solteirão até hoje. E o Nivaldo foi convidado pra assumir a contabilidade do SENAC na Rua Dr. Vila Nova. E na contabilidade do SENAC já tinha um contador chamado Eros Amadeus Fernandes, que era outro louco de pedra. Louco de pedra mesmo, rasgava dinheiro, tal. E o Nivaldo foi trabalhar, ficou acho que uns quatro, cinco dias, uma manhã ele abriu a gaveta e tinha uma macumba dentro da gaveta, macumba dentro da gaveta, e o Nivaldo fugiu, nunca mais voltou na sede, nunca mais ele foi na Dr. Vila Nova. Ele foi depois de muitos anos, né? Nunca mais, ele ficou em trauma, ficou hospitalizado, ele teve um choque traumático terrível. E ele voltou pra gráfica foi ficar no meu lugar, né? E aí aquela coisa, né, um relacionamento terrível. E o Clóvis, como era um homem muito fino, ele instigava essas coisas, né, instigava, sabe? Aí em 73 o Amin assumiu a direção regional, né, do SENAC no lugar do seu Oliver, com muito trauma, muito trauma, foi traumático, apesar de eu estar fora, mas eu ouvi as pessoas dizerem, né? Porque o Brasílio Machado Neto morreu em 69, acho que ele faleceu e assumiu a presidência o Papa Júnior, né, que era um garoto de uns 25 anos com todas aquelas ideias tresloucadas, a primeira coisa que foi fazer foi tirar o senhor Oliver. E tirou o senhor Oliver que era um homem impoluto e até hoje assim um homem de grande conhecimento e uma relação muito grande com as pessoas, né, e botou o Amin Aur que era do SESC, que foi o maior choque ainda. Quer dizer, tira um cara daqui, tira o Oliver, todo mundo pensou que ele ia botar um outro, não, trouxe o Oliver... trouxe o Amin Aur. O Amin Aur faz o quê? Traz a equipe toda do SESC, né? E ficou um negócio assim, se contar não acredita, né? O que ele fez? Ele tirou todos os diretores de divisão na época e botou o pessoal dele. Então ele botou o Danilo em Recursos Humanos, o Professor Décio que está aí até hoje no lugar do Professor Ordoñes, botou outro não sei no lugar de não sei quem. Nas escolas do SENAC, hoje chamada escolas do SENAC, ele começou a botar as pessoas que ele conhecia, então ele pôs o Barquim em São Carlos e não demitiu. Porque o Amin, ele é um fulano, ele é um cara, vamos dizer, maquiavélico é pouco, é pouco para dizer o que o Amin é. Ele preferia conviver assim nessa divergência. Ele dizia: "Ah, é um processo emulativo." Emulativo não, era um processo de confronto, né? E ele nunca dizia claro as coisas, né, eu brigava com ele porque eu falava abertamente: "Você é um covarde porque você não fala claro o que você quer." Então você imagina. Então o que ele fez? Então ele botou fulano como Diretor da escola, por exemplo, o Barquim lá em São Carlos e pegou o que era Diretor e botou de Assistente. Isso ele fez em São Carlos, em Marília, em Ribeirão Preto, em Santos, então em todas unidades do SENAC. Então você tem um grupo de velhos, né, velhos entre aspas, e tinha os meninos do Amin, que era a garotada que estava chegando, de 25 anos, 26 anos, que era todo o pessoal que ele conhecia do SESC, que o Amin tinha sido Diretor da unidade móvel do SESC. O Décio está aí até hoje, o Professor Juvenal que veio aqui também trabalhava. Essa turma veio toda. E você imagina o que é trabalhar num lugar que você era Diretor, de repente você perde o seu status. Porque o problema todo não é você só deixar de trabalhar, mas você perder o seu status na sua cidade, porque qualquer cidade do interior é o padre, o delegado, o prefeito e o Diretor do SENAC. Então eles perdiam o seu status. Isso demorou assim uns dez anos. Viver com essa coisa, sabe, com grupos, e um grupo queria ferrar o outro grupo e nego queria fazer e tá, tá. E nego sempre esperando o jeito de aprontar a cama pra tirar, mandar o cara embora, pra fazer acordo, pra mandar embora, sabe? Então cada um que saía era um processo traumático. E na sede é a mesma coisa, a chamada sede do departamento regional era a mesma coisa. Ele tirou os fulanos, tirou o senhor Frascino, que era um Diretor Administrativo, veja, o Diretor Administrativo ele mandou ser Chefe de Escritório da Avenida Tiradentes, quer dizer, rebaixa o indivíduo, né? Tirou o Ordoñes e afastou, tirou o outro. E ficou todo mundo, aquela coisa terrível, um grupo assim, um confronto terrível, né, terrível. E isso ele sendo um fulano que não era efetivo porque o Oliver saiu, mas não foi embora do SENAC, ele ficou interinamente um ano. Então foi uma fase terrível, né? E a única pessoa estranha a esse grupo que não era amigo do Amin, nem de ninguém, quem era? Eu. Convidado pelo Plínio Guimarães Moraes pra ser assistente dele no departamento pessoal do SENAC. Aí nessa fase que eu me integrei no SENAC de uma vez, né? Inclusive coisas que a gente não sabia. Mas foi um parto, até o Amin sair, um parto. Tanto é que o último cara que quem demitiu fui eu, quer dizer, o Amin já tinha saído do SENAC, saído do SENAC não, tinha saído da diretoria regional, eu era o Diretor Regional, mandei embora, fiz um acordo com o Ribas Branco que era Diretor de Taubaté, quer dizer, dez anos esse processo pra botar as pessoas traumatizadas. Nego começou a beber, cara que queria se matar, sabe? Foi assim a coisa mais terrível, o processo, a fase mais negra, né, que o SENAC acho que passou na sua história em termos de grupo interno, de grupo interno, externamente não tanto, mas foi assim. E eu fui pra sede, trabalhar na sede, pra ser assistente do Plínio do departamento pessoal e de material, cujo departamento pessoal só tinha mulheres. E normalmente no SENAC, hoje tem um pouco, mas a mulher tem um emprego, ela não tem um trabalho, ela tem um emprego, né? Então eram todas auxiliares do departamento pessoal que eram todas casadas que estavam lá para receber um salário e engrossar seu orçamento familiar, né? Então quem era a Chefe do Departamento Pessoal era a dona Ciomara. Dona Ciomara sentava aqui, a senhora aqui e as moças de frente pra ela, acho que umas oito ou dez, não me lembro quantas, como uma escolinha, e pra ir no banheiro tinha a plaquinha, tinha a plaquinha pendurada escrita WC. Então o fulano vai no banheiro, pega a plaquinha, vai, quando voltava pendura de novo. E ela era um cão de guarda, né, um cão de guarda. O dia em que eu cheguei eu falei pro Plínio: "Eu não aguento isso." "Você tem cartaz pra fazer o que você quiser." Bom, Ciomara trabalhou comigo seis meses e pediu a conta, pediu pra aposentar, né? Nós brigávamos todo dia, todo dia, aquelas coisas terríveis, era uma desorganização. O esquema do trabalho hoje dos Docentes, dos Professores, surgiu de ideia minha porque não era possível, era uma coisa, porque você não dá conta o que é que era. O fulano era contratado pra dar curso, então ele dava curso de arranjos florais, dava um curso de datilografia, tinha curso de... era um contrato totalmente irregular, era uma zona do diabo. O dia em que essa senhora foi embora eu consegui arrombar a gaveta dela e tinha pelo menos uns 1.500 contratos na gaveta dela que não tinham sido nem registrados. Porque era uma coisa, não dá pra contar o que é que era. E aquilo foi sendo organizado, né, e o Amin tinha também o esforço da organização, né, pra mudar a estrutura organizacional, tal. E eu realmente dei uma sorte porque pouco depois o Plínio foi convidado pra ir pra Fundação Padre Anchieta pra ser Diretor Administrativo junto com o Erich, que foi ser Diretor de Contabilidade. E eu fiquei no lugar dele. Aí o Plínio quando voltou, não voltou pro meu lugar e eu fiquei como Diretor do Departamento Pessoal apesar da não querência do Amin, né? Ele não queria, mas não tinha saída, não tinha outro pra pôr, ficar no lugar, né? Aí fizeram uma nova estrutura de coordenadores, coordenador de recursos humanos que englobava umas divisões, coordenador de administração que englobava outras divisões, coordenador de formação profissional, que outras divisões. E o coordenador de recursos humanos era o senhor Danilo, que é Diretor Regional do SESC hoje, que brigou com o superintendente de pessoal que era o Professor Dellape, que é até hoje, e o Dellape pediu que ele saísse, né? O Danilo saiu e eu fiquei no lugar dele. Aí começou assim uma fase que hoje eu analiso melhor, uma fase diferente no SENAC, né, porque todo mundo no SENAC era professor, por isso me chamam de professor eu fico doente, eu não sou professor, dei aula porque eu passava fome no SENAC, ganhava pouco, tinha que dar aula de noite, mas eu não sou professor mesmo de carreira, tinha só uma autorização do MEC para dar aula. Aliás, quem me arrumou para dar aula foi o senhor Fernando dos Prazeres que já fez uma entrevista aqui. Eu era colega de trabalho da mulher dele, a Luzia. Nós dávamos aula num colégio no Tatuapé. Dei aula três anos porque ganhava pouco. Era uma fase terrível porque era só o grupo de cima, o grupo de baixo estava lascado, né? E era complicado, né? "Ah, professor, professor, professor." Então todo mundo no SENAC era filósofo, psicólogo, pedagogo, administrar que é bom, neca de pitibiriba, né? Eu comecei, como eu disse, não sabia nada. O que é quadro de segundo grau? Eu não sabia nada dessas coisas, então comecei a fazer perguntas cretinas, né? E as coisas começaram a mudar de figura, começaram a mudar de figura mesmo, começou a mudar o disco porque era outra noção de tempo. Eu estava recém-saído da faculdade, eu saí em 73 da faculdade, né, 72 último ano, eu peguei a fase de 68, sabe, de polícia parar na rua, levantar a mão, de tomar cassetete, apanhava nem sabia porque que era, né, aquela fase negra da Revolução aí, né, nem sabia o que era, não participava, aliás, eu nunca fui afeito a participações políticas em diretório acadêmico, nunca fui nisso aí, às vezes entrava de gaiato, né? E com ideias novas de SENAC, né? Eu sempre tive uma ponta de orgulho de ter superado um problema seríssimo, né, de ter parado de estudar, voltado de novo, ter passado de novo. E o SENAC começou a ter uma evolução muito diferente na área de recursos humanos. Eu arrumei uma moça que trabalhava comigo, a Márcia Cristina Paranhos Olmos, que é advogada, depois saiu do SENAC, mas a gente começou a mexer naquelas coisas todas, né? A relação de contratação das pessoas, sabe, esses acertos, esse negócio de ficar enrolando não era comigo, que não é até hoje, de ficar a dar a entender que não era bem assim. Eu criei alguns amigos e muitos inimigos, né? E as coisas foram mudando de figura. Mas o relacionamento no SENAC era um marasmo apesar da revolução. Quando o Papa Júnior assumiu, né, o Papa Júnior quando assumiu era um tresloucado, né, era um déspota esclarecido, né? Um dia ele reuniu todo mundo na sede e falou assim: "A partir de agora nós vamos formar 300 mil alunos por ano." Sendo que fazia oito mil, três mil, quatro mil, era tudo cursinho regular, ginásio do Estado, e não sei mais o que, tudo cópia do ginásio do Estado, funcionário público, virou um caos, né? Aí que começou a briga com o Oliver e ele resolveu substituir o Oliver e botar o Amin. Aí virou uma coisa, aí virou um caos administrativo no SENAC. Turma nova, gente nova, ideias velhas com processos novos e o Papa pressionava, né? Ele apesar de tresloucado ele tinha umas coisas assim arrojadíssimas, né? Eu lembro de umas reuniões do SENAC que as avaliações, se fazia avaliação, se tinha carteirinha escolar, tinha diário de classe, tinha professor, férias escolares, tinha férias lá, o SENAC não trabalhava nas férias, ele acabou, acabou com essa coisa, essa brincadeira, pressionado pelo governo chamado revolucionário que achava que o SENAC não tinha que fazer nada que o Estado fazia, né, tipo ginásio do Estado, essas coisas, os cursos técnicos em contabilidade e tinha que fazer outra coisa, o tal supletivo profissional, ou coisa parecida. Aí virou o caos, né, porque a cabeça deles era outra, né? E o Amin veio nesse meio processo, mas também não, não foi nem ficou, ficou no meio termo. Quer dizer, o Amin ficou dez anos da vida dele no SENAC administrando conflitos, né, de pessoas que ainda estavam, gerentes que mudavam, sabe, pessoas que ele botou no lugar que não deram certo também. E virou esse caos. E eu fiquei nesse marasmo até o Amin sair. Passou por toda essa história, essas confusões todas, sabe? Os que mandavam deixaram de mandar. Você já imaginou você trabalhar num lugar que o cara que era teu chefe não é mais, você é chefe dele agora. E não uma relação tranquila, né? É uma relação de força, de mar, você está fora, sabe? Você não manda mais nada, sabe, e não entra. Cara que tinha a salinha, eu falei que tinha uma salinha, entrava de manhã, sentava, ia embora e não fazia mais nada. Quer dizer, era a tortura mental. Alguns se desprenderam tipo o Diretor de Santos que passou a beber e morreu de alcoólatra, né, todo dia ele chorava porque tinha perdido o posto de Diretor, né, Diretor de escola. É complicado isso.

 

P/1 - E depois, quando é que você assumiu a direção regional do SENAC? Foi logo depois desse cargo ou você assumiu mais um outro cargo?

 

R - Eu, de coordenador de recursos humanos, que, aliás, o Amin achava que eu não tinha competência pra isso, mas não tinha peito de tirar também por causa do doutor Dellape. Eu falava isso pro Amin: "Você não tira porque você não tem peito, tem medo de brigar com o cara." Porque o Dellape, nós somos amigos, né, amigos, amigos, nós temos um relacionamento há muitos anos, vinte e poucos anos, né? Mas a satisfação dele que ele fosse coordenador de administração porque ele achava que o cara que administra, que tem um curso de administração, ele falava: "Não, a sua formação educacional é para ser administrador de contabilidade, de material, da engenharia", essas coisas todas, né? E recursos humanos tinha que ser, quem toca recursos humanos? Psicólogo, filósofo, essas coisas que ficam esse eterno marasmo, né? E na primeira chance ele mudou mesmo. O Erich saiu, eu fiquei no lugar do Erich e o Danilo passou, voltou a ser coordenador de recursos humanos, né? E eu fiquei até o final. Aí que o Papa Júnior é candidato, candidato a senador. Que o Papa Júnior, eu acho que ele tem algumas qualidades, mas ele tem um defeito muito grande, ele tem até hoje, eu nunca falei isso pra ele porque ele nunca me deu liberdade pra falar isso e nós não somos amigos pra tal ponto. Mas ele era muito incensado, sabe, ele gostava e gosta de ser incensado. Então ele vivia cercado de uma entourage: "Você é maravilhoso, você é lindo, você é inteligente, você é isso, você é aquilo, você aquilo outro, aquilo outro." E foi uma fase muito ruim do SENAC porque o Amin não tinha peito de enfrentar e quem mandava no SENAC eram os asseclas do Papa Júnior, umas moças de um comportamento meio estranho, sabe, uns caras meio esquisitos, né, de comportamento duvidoso assim, né, não que elas fossem feias, aliás mulheres maravilhosas, né, mas de comportamento meio estranho. E ficou aquela coisa porque ele não falava e o Amin não interpretava, as reuniões com o doutor Papa eram um negócio terrível, você nunca sabia o que ia acontecer. Você acredita que numa Páscoa ele convocou num domingo de Páscoa todos nós pra fazer uma reunião em São Pedro? Eu era casado, eu estava passando a Páscoa com a minha sogra em Mogi-Mirim, recebi um telefonema em Mogi-Mirim, tive que tomar um carro às dez horas da manhã pra fazer uma reunião na hora do almoço em São Pedro porque o Papa queria reunir todo mundo do SENAC. E se reunia pra quê? Pra nada, pra fazer aquele circo, era um trauma. O Juvenal Alvarenga tremia. Todos nós tremíamos, não sabíamos o que ia acontecer. Você podia ser promovido e ganhar uma viagem pra Suíça ou podia ser mandado embora, era um negócio terrível. E o Amin ficava naquela de interpretar: "O doutor Papa quis dizer isso." Porque o Amin também vivia no limbo, né, vivia no limbo. Então a administração do Papa Júnior era um negócio terrível, terrível. Mas algumas coisas ele chacoalhou senão o SENAC seria um ginásio do Estado até hoje se não fosse esse negócio dos trezentos mil que todo mundo era contra, ele superou tudo isso, né? O problema não é só o fato de você ter a borrasca, né, é o que vem junto, né, os raios, as enchentes, é o que vem junto. Então era o que acontecia com o Papa, o que vinha atrás era um negócio terrível, né, as pessoas futricavam, era uma entourage que você não imagina, é futrica, nego falava de não sei mais das quantas, uma mulherada meio estranha. E foi muito difícil essa administração. E ele incensado, incensado saiu candidato a senador. Se queria fazer carreira política devia ter entrado pra ser deputado federal, deputado estadual, não. E ele se juntou com quem? Com quem? Dez centavos pra quem descobrir com quem. Paulo Maluf, Paulo Maluf. O Paulo Maluf, eu tenho pouco relacionamento com ele, aliás, poucas vezes nós conversamos mas o cara é raposa, né? É raposa, tinhoso, tem quinhentos anos de janela de vida pública e conseguiu convencer o Papa Júnior a sair como senador e ele sair como deputado federal. E o Papa Júnior na oportunidade, pelo menos é a história que conta, na oportunidade ele: "Você é um cara superior, senador da república, né, e quem... Paulo Maluf é um mero deputado federal." Só que o Paulo Maluf é muito esperto, percebeu que o SESC e SENAC têm uma puta de uma estrutura no Estado inteiro, né, e o Paulo Maluf tem dinheiro. Então juntou a fome com a vontade de comer. No começo o Papa Júnior dizia: "Isso aqui é só pra entrar na área política." No fim, ele começou a acreditar que ele ia ganhar então virou aquele nonsense porque todo mundo sabia que ele não tinha a menor chance porque ele concorria com Adhemar de Barros Filho, com Blota Jr., não sei mais quem, aquele senador Severo Gomes, sabe, tudo gente macaco velho. Então o chavão dele era assim: "Força jovem no SENAC", "Força Jovem no SENAC." Arrumaram uma casa lá na Avenida Europa, montaram um QG e ele faz o quê? Ele convida pra trabalhar com ele, convida pra trabalhar com ele o Professor Cabral que era o Chefe de Gabinete do Amin, né? O seu Cabral era metido em política, o pai era político, e o Professor Donadão, que é marido da Professora Pilar, trabalhar lá na coordenação. Viveram uns dias de cão, né, manja aquele filme "Dia de Cão"? É igualzinho. Porque eram coisas terríveis. Eu lembro que uma vez o Dorival, ele mandou o Dorival dar um cheque pra um fulano pagar uma coisa que eu não sei o que é, não anotou: "Dá um cheque teu." E o Dorival pegou o cheque e deu um cheque assim de um montão de dinheiro que eu sei que tamanho tinha, né, pro prefeito. "Chega lá em São Paulo põe na tua conta." Chegou em São Paulo não pôs na conta, né? E toca o Dorival correr atrás do cheque, sustar cheque, né? Essas coisas assim, foi uma fase dentro do SENAC de quase um ano, não vou dizer que foi uma fase negra não, mas foi uma coisa divertida. Trabalhava muito, mas divertia, com histórias assim terríveis, né? Montou-se um escritório, sabe, pra fazer relações políticas, e o Vanin, o Vanin que é amigo do Dorival, amigo da gente também. E o Vanin que era o encarregado de conversar com os caras que pediam emprego. Então você ouvia coisas assim fantásticas, contava histórias pro indivíduo que o cara dava emprego pra você, né? Ele ia pedir emprego e saía chorando com dó de você. E a gente viveu, aprendeu muito. Eu acho, na época eu era tesoureiro da campanha dele, era o PC dele. Não era bem PC porque eu não mandava nada, né, só controlava as contas dele, né? E a gente chegava assim, dava dinheiro pro sujeito e pedia recibo, mas você vê a inocência. O prefeito de não sei de onde, o cara vinha pedir, não lembro o dinheiro o que é que era 100 contos, 100 mil cruzeiros, 100 qualquer coisa, aí o Papa ligava: "Olha, está autorizado dar pro senhor Benedito lá 100, 100 mil cruzeiros, ele vai passar e pegar aí." Ele passava e chegava, tudo dinheiro, não tinha cheque, né, então você dava o dinheiro pro cara e dava o recibo: "Não vou assinar recibo, aqui é só na palavra." Como jogo do bicho. Quando começaram a falar no negócio do PC Farias, eu falei: "Mas é assim que funciona, você não tem comprovante, você tem que acreditar na palavra do fulano, coisas assim de louco." Eu lembro do Fernando dos Prazeres que deu uma entrevista aqui, deu um carro que ele estava usando pra prefeita de Itariri, qualquer coisa parecida: "Dá o carro pra ela." Ele deu a chave com os documentos e foi embora e ela ficou com o carro dele, que não era dele, era do Papa. Então foi essa fase meio esquisita, né, que depois que passou, a gente senta hoje, a gente senta pra tomar uma cerveja a gente dá risada até hoje. Quando a Pilar falou que o Papa Júnior vai fazer uma entrevista, foi quatro horas de conversa e riso. A gente rala de dar risada porque virou jocoso, mas era meio traumático na época da campanha. Ele acreditou que ia ser candidato. Eu era, na campanha dele eu passei a ser coordenador, eu tinha um carro, veja, um carrão com rádio, com rádio. Eu me comunicava com o Estado inteiro. Eu era um treco na campanha, eu era um troço, não só eu, como o Décio, o Danilo e outros mais, nós éramos assim top de linha, né? Porque tinha um rádio, eu falava no rádio: "Atenção rádio, está acontecendo isso, está acontecendo aquilo." E muita gente trabalhando com a gente. A minha mulher estava grávida da minha filha, da Flávia, estava grávida da Flávia, e ela falou: "Não estou fazendo nada, vou dar uma mão pra você." E eu fui coordenar a área do Pari. E quando terminou, eu lembro que o motorista levou a Salete pra casa e eu fui pro comitê central lá na Avenida Europa e lá que eu percebi que o que começou de uma brincadeira virou um negócio sério. Quando começaram a abrir as urnas, né, que o Severo Gomes e não sei mais quem passou na frente, os caras começaram a chorar e o Papa começou a ficar nervoso. Os caras diziam: "Estão roubando." Aquele bando de gente em volta, isso é tão nonsense, sabe? Eu cansado que nem um cão, tinha acordado quatro horas da manhã ou três horas da manhã, não sei o que, e o pessoal chorando porque o Papa não conseguia, não tinha voto, abria a urna, todo mundo tinha, menos ele. Diziam: "Estão roubando e não sei mais o quê." E mesmo assim ele teve setecentos mil votos, seiscentos e cinquenta mil votos, que hoje ele fala que foi um milhão e duzentos mil, ele já dobrou por conta. Quem conta um conto aumenta um ponto, já virou um milhão e não sei quanto aí, né, em todo o Estado. Se ele tivesse sido deputado federal ele tinha ganho, né, tinha ganho. Mas ali que eu comecei a perceber que aquilo era uma verdade, né? E virou uma coisa terrível. E como o furacão Andrews, teve suas sequelas, ele caiu fora e veio tudo junto, né, veio tudo junto. E na época ele precisou se afastar da diretoria, da presidência, e botou quem? Abram Szajman, nosso amigo que está aí até hoje. E todo mundo já sabia que ele seria o Presidente, né, sabia que ia ser o Presidente. E a gente tem um relacionamento muito grande com o Abram e ele, tal como eu, acho que a gente se dá bem porque nós temos mais ou menos a mesma característica, ele não sinaliza, ele fala, não tem aquele algo, deixou a entender, ele fala. "Vai acontecer isso aqui." E o Amin se recusava a fazer, né? "Ah, isso eu não faço". Então estava na cara que ele estava fora, o Amin já sabia que estava fora. E ele me convidou, quando ele assumiu, a primeira coisa, ele me convidou pra ficar como Diretor Regional. E foi essa coisa aí, era vinte quilos mais magro, fumava quatro maços de cigarro por dia e tinha o cabelo mais escuro um pouquinho na época, né?

 

P/1 - Eu queria que você falasse um pouco da estrutura atual do SENAC porque aconteceram várias modificações no SENAC, na estrutura do SENAC, né, o término das escolas, o surgimento dos cursos... Eu queria que você falasse um pouco na estrutura do SENAC e dessas modificações. Eu queria que você analisasse as fases do SENAC.

 

R - Bom, antes de entrar na estrutura atual, eu preciso falar um pouquinho da estrutura anterior, né? A estrutura anterior era o seguinte: um Diretor Regional, que era o Oliver Gomes da Cunha, e um Diretor adjunto, um Diretor Adjunto. O Diretor adjunto variava de acordo com o humor, né? Era um acerto, né, porque ninguém... era uma panela, né? É mais ou menos como sindicato, né, o cara é Presidente hoje, vice amanhã, depois ele volta pra ser Presidente e as coisas são assim. E a estrutura do SENAC era uma estrutura dessas quadradinhas que existem até hoje, né, Diretor Regional, Chefe de Gabinete, aquelas coisas estranhas aí. E tinha a figura do Diretor Adjunto, cuja responsabilidade do Diretor Adjunto era cuidar das coisas de somenos importância no SENAC, que era administrar porque naquela época não era importante isso aí, administrar, pessoal, recursos humanos, treinar, contabilidade, isso não era importante. O importante é que você tinha uma contabilidade certinha que ninguém pudesse vir encher o seu saco, tipo Tribunal de Contas, Conselho Fiscal, etc. O Oliver era o grande homem e quem tomava conta, quem era o fulano que administrava pelo menos a parte administrável do SENAC era o Professor Barros. O Professor Barros, foi o Professor Barros, depois saiu o Barros e entrou o doutor Haroldo Cruz Hirth, que era o Diretor Administrativo, depois saiu, entrou o Frascino, botou o Barros de novo, essas coisas meio estranhas. E a preocupação do Diretor Regional nunca foi nem com a parte administrativa, nem com a parte técnica, que é o grande problema, que foi o grande problema do SENAC até eu entrar. Porque o Oliver era figura assim de altos relacionamentos, né, e outros, um tomava conta da área administrativa e a área técnica, chamada técnica, os chamados cursos e não sei o que mais da conta e outras coisas mais, com aquela visão meio acabrunhada, né, do que era a educação, ficava na mão do Professor Torres ou do Professor Ordoñes, ou na mão de outros mais aí, né? Com aquela estrutura de formação profissional, mas não muito clara, um negócio meio complicado que ninguém conseguiu entender. E essa estrutura que o SENAC funcionava, e o Oliver era o... quando encontrava ele no elevador: "Oh, esse que é o Oliver, nossa." É um cara simpático na medida do possível, né? Tinham aquelas, essas coisas de relacionamento. No dia do... uma vez por mês ele reunia as pessoas que faziam aniversário e almoçavam com ele, aquela coisa, aquela mesa, aquela tranquilidade, todo mundo à vontade pra conversar. Ele numa ponta querendo puxar conversa e os caras da outra ponta querendo ir embora, sabe, aquelas coisas meio complicadas. E era esse o relacionamento que nós tínhamos. E no final do ano ele fazia uma... aliás, é tradicional o SENAC até hoje, você reúne, antigamente eram só os Diretores das escolas, hoje a gente abre a festa pra todo mundo. Os Diretores da escola tinham uma festinha e esse era o contato que a gente tinha com o Oliver, que era o grande nome. E o Oliver saiu, né, foi traumático, a saída foi uma coisa terrível, desgastante, e eu que estava de fora, que não participei do processo diretamente, via as coisas e as pessoas falavam comigo: "Mas era muito dedicado." Eu, nessa altura do campeonato eu já tinha dez anos de casa, né? E as pessoas falavam, reclamavam, choravam: "O que é que fizeram comigo?" Aquelas coisas, um negócio que não dá pra lembrar aqui agora. Isso me ensinou, sabe, a não enrolar as pessoas. "Vai mandar embora? Vai embora. O que é que você quer fazer?" Eu me lembro: "Hoje você vai ter uma função importante, você vai ser Assessor da presidência." O chamado aspone, você vai ser nada. E o fulano achava, queria que o cara acreditasse que ia ser assim, sabe, e assim aconteceu com vários deles e vários, né? Ia ser Assistente, um negócio terrível, era melhor mandar o cara embora, fazer um acordo com o indivíduo ou senão deixa o cara em casa, ele fica em casa e paga o salário do indivíduo. Aliás, o SENAC tem um até hoje, o Henrique Machado Neto, o engenheiro Henrique Machado não quis sair do SENAC e então eu fiz um acordo com ele: "Henrique, você fica na sua casa e eu pago o teu salário." É melhor do que você traumatizar, botar o cara num canto. Eu acho que é um respeito humano. Aquilo é meio complicado, sabe, fica trauma, foi uma fase terrível. E o Amin veio com uma estrutura tentando resolver que também não resolveu porque o Amin também é muito covarde, não tomava atitudes mais drásticas e ficou sempre a mesma coisa. Quando o Abram assumiu, quando assumiu, aqui eu vou dizer uma coisa que pouca gente sabe, antes mesmo dele assumir ele já tinha me convidado eu, o Professor Danilo, o Euclides Rigobelo que estão no SESC hoje pra fazer uma nova estrutura pro SENAC e outra pro SESC. Que era coordenadoria com divisões, porque o negócio é dar cargo pras pessoas, né? Porque o Amin tinha uns amigos que tinham que ficar num posto, não que eles fossem incompetentes, tipo o Carlito, o Cabral, o Dorival, e não tinha lugar pra todo mundo. Então se montou uma estrutura de coordenadorias, né, coordenadoria de recursos humanos, de administração, de formação profissional, que é pra dar coordenadores, que são postos maiores e as diretorias, pra poder agrupar as pessoas, todas elas nos seus devidos lugares. E virou uma estrutura graficamente de primeiro mundo e inadequada para a organização. E os primeiros estudos voltou todo mundo ao que era, Diretor Regional, parte técnica, administrativa, "tum, tum", acabou com a figura do Diretor, não tem mais, Diretor de escola, mais nada, isso aqui e passou todo mundo a ser Gerente, como fosse uma empresa, né, essa conceituação mais de empresa, né? E dali a estrutura foi evoluindo, evoluindo, o que é hoje, né, tem uma estrutura, tem superintendências técnicas de operação e de desenvolvimento, aliás, administrativa e desenvolvimento de operação que é a evolução da estrutura que existiu até dois anos atrás, um ano e meio atrás. E o grande problema da estrutura quando o Abram assumiu é que vai sobrar gente. Aí que o carro pegou, né? Foi a grande crise que o SENAC teve, né? E a grande crise que o SENAC teve foi o seguinte: nós fizemos um acordo, Danilo ia ser Diretor do SESC, só que o Abram não podia tomar uma atitude porque ele estava interinamente ainda, ele estava no lugar do Papa e ia ser eleito no mês de fevereiro. Mas ele já assinava cheque, fazia tudo, era o Presidente de fato, não de direito, mas de fato. Então ele começou a tomar essas providências antes. E o Danilo já tinha sido convidado pra ser Diretor do SESC, só que ele não podia ir porque tinha um Diretor do SESC que era o senhor Barata. Então nós fizemos um acordo, o Danilo falou: "Eu fico na diretoria regional do SENAC, o Amin sai, e eu fico na diretoria regional do SENAC." E nós acertamos dessa forma. Então eu fiquei como superintendente de administração e o Décio, que está comigo até hoje, ficou como superintendente técnico, já numa estrutura que já tinha sido programada. Só que estava numa meleca geral, né? Então eu e o Décio que fomos encarregados de fazer uma limpa no SENAC na oportunidade que mandamos 550 embora. E não tinha muita conversa, né, ou vai ou quebra.

 

A coisa era tão séria que nós fomos no Banco Nacional, eu e o Galina, Galina que é o coordenador do SESC hoje, pendurar o papagaio com o aval do Abram Szajman pra pagar a Previdência Social. Vê que situação nós estávamos de dinheiro. Naquela época você pagava e os bancos tinham trinta dias, ou quarenta dias, não sei, pra repassar pro governo federal, né? O que o cara fez? Ele deu um carimbo na... carimbou como recebido, quitou a guia minha e nós pagamos daí dias depois, mediante o aval de uma duplicata assinada pelo Abram Szajman, empenhada pela empresa dele. Vê que coisa, né? A que situação estava o SENAC. E isso aí, o Amin era Diretor Regional, era o finzinho. E ele se recusava a tomar alguma providência. Então ele sabia que já estava fora, né? Eu cheguei pro Amin e falei: "Amin, a partir de quando o Abram assumir eu vou ser Diretor Regional disso aqui, porque está acertado." E aí ele tentou fazer uma saída menos traumatizada. Em termos de SENAC foi um trauma também, porque você manda pessoas embora, uma porrada de nego incompetente, sabe, as pessoas às vezes não eram competentes, mas não estavam de acordo com aquilo que fosse. Foi complicadíssimo, foi complicadíssimo porque é uma outra visão de administração, né, outra linha de administração, programas, coisas. Porque existia na administração do Amin uma coordenadoria de planejamento que, aliás, nunca planejou nada. Então um fato histórico, né, o Décio que era o coordenador de planejamento, fizemos uma reunião, o SENAC tinha uma unidade na Galvão Bueno, fizemos uma reunião na Galvão Bueno sobre planejamento, e o Amin, como sempre estava fora, na Secretaria de Educação, qualquer coisa parecida, o Amin chegou atrasado, falou: "Isso tudo é besteira." Depois de oito horas de acerto: "Ah, isso tudo é besteira, o planejamento é no dia-a-dia." Aí virou o caos, você não tinha moral de fazer mais nada, era complicado, era complicado essa coisa.

 

P/1 - Eu queria que você falasse um pouco da expansão, vamos dizer assim, geográfica do SENAC. Da quantidade de... exatamente essa expansão do SENAC, né?

 

R - Expansão física você quer dizer, né? Bom, eu lembro agora que o Covas assumiu, né, ele fala: "Nós precisamos organizar a casa pra fazer alguma coisa", era exatamente a mesma coisa, como é que você pode fazer alguma coisa num governo de Estado, qualquer empresa, se você está quebrado? Como você vai expandir, fazer alguma coisa? Não tem nada, você está quebrado, você mandou 40% do seu quadro embora, você não tem dinheiro nem pra fazer uma folha de pagamento, você ficava rezando pro dinheiro, pro mês não terminar, sabe? Porque tem uma meleca terrível que era o recebimento de dinheiro pelo SENAC, sabe, a coisa era meio complicada, é até hoje, estão dizendo que vão tirar de novo: "Vamos tirar os recursos do SENAC", desde que eu estou lá eu ouço falar a mesma coisa, né, que vai cortar, agora vai tirar para limpar a folha, o chamado Custo Brasil aí. Não que eu não esteja preocupado, porque não sou nenhum tonto, nenhum insensível. Mas eu acho que as coisas se resolvem de uma outra forma, com alguns traumas, mas se resolvem de uma outra forma meio complicada. E eu lembro do Abram falando: "Temos que fazer alguma coisa." Só que levamos oito meses, pô, pra poder organizar as coisas: mandar nego embora, demitir fulano, cortar quadro, acabar com alguns benefícios que o SENAC tinha. Foi tão sério que o SENAC vendeu os carros que tinha, carro, linha telefônica, é raspar tacho de panela mesmo. Alguns benefícios que o SENAC tinha tiramos, adicional de produtividade que o SENAC tinha, não tem mais, aliás, cortou e não voltou mais. Os pagamentos que eram feitos no dia 25, 28 do mês passaram a serem feitos no dia 10, porque era um negócio ilógico. Eu não sei de que nome eles me chamavam, né, mas é, coisas absurdas que não entrava na cabeça de ninguém que você receba o salário dia 25, né, você paga o empregado no dia 25 e só no dia 10 do mês seguinte. Não existe isso no mundo e no SENAC não tinha também. Então ele estava sempre a reboque, né, ele recebia a arrecadação compulsória no dia 10, vou chutar uma data aqui mais ou menos, e pagava no dia 25, quinze dias antes. Então ele estava sempre precisando deixar dinheiro sobrando pra poder pagar e essas coisas foram acabando e as pessoas começaram a chiar. Pô, perdeu telefone, perdeu carro, perdeu não sei o que, foi mandado embora, isso é o caos. É filho disso pra cima, né, ou qualquer coisa parecida, né? Depois de organizado o que é que nós fizemos, né? Professor Décio, eu e o Professor Clairton sentamos, vamos fazer um plano, um planejamento, cheguei do Nordeste: "Vamos planejar o que nós vamos fazer na década de 80." E começou com essas coisas aqui, né, expansão da rede física na Grande São Paulo porque não existia, né, era só no interior, essa política de você especializar as unidades porque tudo tinha tudo, era meio complicado, né, você precisava de novidades, trabalhar de um forma mais racional. Como limpou o prédio, aquele prédio inteirinho era da administração, era SESC, SENAC e Federação do Comércio, a Federação e o SESC saíram, foram para a Avenida Paulista, nós mandamos todo mundo embora, nós ficamos com dois andares. Parecia, lembra um filme do Jack Nicholson que ele tem, ele está, acho que chama "O Iluminado" que ele vai tomar conta de um hotel no inverno, era igualzinho o prédio do SENAC: dois andares, dez apagados e dois acesos, era um negócio assim, era "O Iluminado" o prédio. E aí que nós começamos a criar unidades de Informática. E aí o que é que nós vamos fazer? Aí como a necessidade é a mãe da criatividade a gente achou melhor perder algum tempo pensando do que ter que consertar depois. Então se planejou abrir unidades em São Paulo, nos quatros cantos possíveis, e na Grande São Paulo também. Começamos a entrar numa área diferenciada que era a de rádio, de informática, de televisão, etc., que acabou acontecendo até hoje, né? E a primeira unidade que a gente inaugurou foi a de Santo Amaro num predinho alugado, um predinho que tinha 900 metros aí, sabe, com o Professor Mário Covas que era o prefeito na oportunidade, né? E começou por aí, expandiu, aí vai criando unidade por unidade.

 

P/1 - Qual é o objetivo da área especializada, Salgado?

 

R - Bom, o primeiro começou por uma questão de custo, né? Eu tenho que ter uma estrutura, naquela época não tinha estrutura na Francisco Matarazzo, aqui vizinho, que tinha área de escritório, cabeleireiro, "pererém", tudo igual. Na Tiradentes a mesma coisa, na 24 de Maio tinha a mesma coisa. E a gente começou a perceber, sabe, que você, como era meio desorganizado, quando uma era uma, como se fossem coisas independentes. Então o curso de Cabelo, por exemplo, da Tiradentes não tinha nada que ver com o daqui porque era meio desorganizado, né? Então a gente chegou à conclusão o seguinte: que era mais fácil você fazer, você reduzir, né, a sua área de atuação e aprofundar de uma forma melhor. Aí ficam só os cursos e você aprofunda. E a gente reorganizou de novo e começou a fazer unidades especializadas aqui em São Paulo, porque é fácil de localizar. Você quer fazer curso de Cabeleireiro? Então você fica aqui na Francisco Matarazzo que na época era. Você quer fazer Escritório, você vai na 24 de Maio, se você quer fazer outra coisa, você vai não sei pra onde. Esse foi o princípio. Primeiro por uma questão de economia, né? Nós percebemos que nós podemos reduzir esse quadro nessa brincadeira em 20%, né, não precisava ter mais um bando de gente. Isso é fácil falando aqui assim, né, mas isso é complicado porque tinha curso, investimento, as pessoas não aceitavam. Passou a ter uma briga muito grande, né, passou a ter uma briga muito grande. Porque, voltando atrás um pouquinho, eu lembro que quando eu assumi a coordenadoria de recursos humanos, que a dona Adelina era a psicóloga do SENAC, uma pessoa falou assim: "Ó, o Salgado vai ser o novo coordenador de recursos humanos." Aí a dona Adelina falou: "Ai, Deus meu", lembro até hoje: "Ai, Deus meu." Eu falei: "Por que dona Adelina?" "Só que normalmente é um psicólogo, um filósofo..." Acabou, naquela época já tinha acabado e aquilo virou um trauma, uma coisa. E quando eu assumi a diretoria regional foi a mesma coisa, pra mim conversar com o Professor Cordão, porque é um negócio, é um papo de louco, porque ele falava uma coisa, eu falava outra. Ele falava em decreto-lei, eu falava em outra coisa, eu falava em custo, ele falava em regulamento, não sei o que das quantas, eu falava em produção, então uma coisa meio de louco. E as coisas passaram a ter uma configuração mais empresarial, não ao ponto que a gente quer, né, e a gente conseguiu uma configuração mais empresarial. E ficou meio complicado porque as pessoas, não só as pessoas não aceitavam, porque nós tínhamos dois, não vamos dizer inimigos que é muito forte, nós tínhamos a clientela que não estava acostumada com isso, que vinha no SENAC pra pagar 10 mil réis num cursinho qualquer e não completava e tinha a clientela interna que eram contra, os chamados técnicos: "Que agora, porque não sei o que, que tal hora, aqueles projetos, objetivos da validação, da convalidação do QP- IV, QP- V, não sei mais o que das quantas", do diabo que o carregue. Acabou, tudo isso no fim era um circo montado, né? Então tinha o pessoal interno, que até hoje tem ainda, né, aqueles que não comungam da ideia, aqueles que acham que o SENAC está aqui pra botar todo o seu dinheiro pra fazer educação no latu-sensu, pegar o indivíduo da sarjeta e transformar o cara num Einstein, porque você vai dar todos os conhecimentos, vai dar todos os recursos e não vai cobrar nada porque o conhecimento não deve ser cobrado, deve ser transmitido, vai botar isso. E tem aqueles caras que... à todo custo, né, todo custo. Alguns fatos assim interessantes que quando começou o SENAC ter problemas financeiros começaram a ter ideias, né, as ideias. E tem umas bem jocosas, né? O Professor Ribas Branco, que era Diretor no SENAC de Taubaté, todo mundo reclamava que o SENAC, até hoje reclama ainda, o SENAC tem uma grande quantidade de salas ociosas, né? E numa das reuniões ele falou: "Resolvi o meu problema de sala ociosa. Em Taubaté não tem mais sala ociosa." Aí todo mundo: "Mas como é que é?" "Não, simplesmente o seguinte: ó neguinho, eu tinha oito salas e só tenho quatro salas agora." Ele derrubou, sério, sem brincadeira, derrubou as paredes e aumentou o tamanho das salas, ele tinha oito salas, agora ele tem só quatro, as quatro tinha gente, não tinha mais problema. (risos) O outro lá em Araraquara, então o SENAC começou com problemas, ele começou a vender rifa, fazer quermesse dentro do SENAC pra arrecadar dinheiro, sabe, essas coisas que as pessoas não têm muita noção. O grande problema que o quadro geral do SENAC, o quadro de estufa, aquele que seria a ação âncora da organização tinha um pensamento público. E não é, eu estou falando agora de 1980, não estou falando 45, falei 80. Quer dizer, vem desde os idos tempos do Oliver, do Alpínolo Lopes Casali, essa turma toda que vem aí que a cabeça só, não tem a mínima preocupação administrativa com as coisas, não tem a mínima preocupação com custos, não tem a mínima preocupação com a clientela que era o fato principal da coisa. Aluno é aluno, aluno aqui é servil, sabe, não se discutia, hoje, começava, hoje nós tratamos o cliente SENAC como um adulto porque a maioria da clientela do SENAC é clientela adulta. E naquele tempo, apesar de ser uma clientela adulta, eles tratavam como criança, sala de aula, carteirinha, diário de classe, chama a atenção, aulinha de 45 minutos, sabe, essas coisas complicadas. Quando eu entrei no SENAC nas salas de aula tinham espias, né, que o fulano, o Diretor lá ligava e ouvia o cara lá dando aula, um quadradinho na porta pra ficar vendo, sabe essas coisas, tinha bedel, então essa mentalidade não mudou muito. Então as pessoas que geriam tinham grandes ideias educacionais, aliás, eu tenho algumas dúvidas a respeito e por isso chegou ao local que chegou, não tinham nenhuma preocupação com custo, com o atendimento da clientela, sabe? Aquilo como é qualquer funcionário público, estacionamento para os funcionários e os clientes fora. E essa batalha pra você começar a mudar é complicado.

 

P/1 - Você acha então que o perfil da pessoa que procura o SENAC hoje é diferente do perfil das pessoas que procuravam antigamente?

 

R - Ah, com certeza, com certeza. Inclusive a gama de serviços que o SENAC oferece hoje é totalmente diferenciada, né, do que oferecia no começo da minha administração e no começo que eu entrei no SENAC. No começo que eu entrei no SENAC era o Ginásio Comercial, né? O cara fazia o Técnico em Contabilidade, Secretariado, de não sei mais o que de administração, era escola regular, né, de três anos, etc. Que era a grande grita porque as pessoas não queriam que terminasse, porque é cômodo. Você fazia de graça, dava uma, aliás, o SENAC sempre se pautou pela qualidade do seu trabalho, né, aliás, reconhecido em qualquer lugar. Era cômodo, você abria vagas, né, o pessoal vinha, se matriculava e você tinha o ano inteiro. Hoje você tem que sair correndo atrás do cliente, você tem que fazer seminário, tem que ficar atento no mercado qual é o assunto que está em moda pra você trabalhar, é Internet que vai funcionar, é assim que funciona. O SENAC teve uma evolução muito grande como evoluiu o país nos últimos dez anos não só porque eu estou no SENAC, mas porque as coisas foram facilitadas, né? Essas novas programações que ninguém dava bola, mas isso aqui não, ficava discutindo, o SENAC discutia muito, o Décio que lembra sempre isso pra mim, discutia muito competência: "Ah, isso aqui não é competência do SENAC fazer, isso aqui não é competência, isso aqui é de não sei quem, não, isso aqui é bancário, não, isso aqui é de indústria, isso aqui é de não sei quem." E com isso você arrumava desculpas pra não fazer nada. Eu lembro há uns quatro anos atrás que nós pegamos o chamado decreto do SENAC, não tem nada proibido, não existe nada, é um negócio tão geral que você pode fazer o que você quiser menos imprimir dinheiro, o resto você faz o que você quer. Você faz primeiro grau, segundo grau, terceiro grau, você faz o que você quiser, profissionaliza, não profissionaliza e daí pra frente. Então a gente implantou curso de terceiro grau que agora está ampliando, a área de Rádio, de Televisão, coisas que ninguém falava, Computação, ó, computação. E as grandes, quando a gente conseguiu a firmar o pé e começamos a expandir ou se firmar aqui no estado, inclusive nem na cidade, no estado com as unidades especializadas, com unidades novas, aquele prédio da Vila Nova lá tem hoje, está tudo ali, o que era administração virou unidade educacional, unidade operacional. E aquela grande cabeça que era a Vila Nova, não tem mais, não existe mais, hoje a administração se restringe a dois andares. Está tudo alocado nas unidades, né, quer operacional, quer especializada. E a gente achava também que o SENAC tem uma estrutura que tudo deveria estar centralizado que nós mudamos também, né, demorou pra mudar, mas mudou tudo. A área de Hotelaria fica com técnico que está lá na salinha na Vila Nova, no sétimo andar ou no quinto, a área de Administração está com o seu fulano. Hoje não, hoje está na área especializada, se tem que ter alguém com conhecimento, tem que estar na área especializada, que tem uma função corporativa também de disseminar o conhecimento, né? E a gente acha que a unidade que é especializada, e isso até agora funciona, ela é especializada para aquilo, é pra aquilo lá mesmo. Você já imaginou se aqui além do estúdio tivesse uma lanchonete, uma empresa de transporte e um banco. Virou o caos, né? Na medida em que você só faz uma coisa, você tem que fazer e fazer bem, né, ou você está fora do mercado. Começamos a ter concorrentes, hoje a gente tem concorrentes, né, o Sebrae, o Senai, começa a fazer a mesma coisa. O Senai tem um problema sério de estrutura porque ele está numa fase que nós tivemos há dez anos atrás, né? O Senai não sabe o que fazer. O custo do curso de fresador, torneiro mecânico é uma coisa tremendamente absurda. Que as pessoas criticam hoje, mas o Estado não suprime, né? Eu, há três anos atrás, fiz uma, não, três anos não, há dois anos, eu fiz uma reunião com o secretário de Ciência e Tecnologia, doutor Daiben, na época era o doutor Daiben, não sei bem o nome do indivíduo, e o Diretor Regional do Senai era o Jurandyr, Professor Jurandyr. Eles queriam passar pra gente as 97 ou 95 escolas técnicas que eram federais, passou pro estado, foi pra Secretaria da Educação ninguém quis pegar, foi pra Ciência e Tecnologia ninguém quis pegar, hoje está na Paula Souza. Então você sente o que é que é uma escola técnica do Estado. É um negócio vergonhoso, doloroso e doentio. Eles dão curso de informática hoje ainda, pô, com cuspe e giz, três anos, três anos, curso técnico em processamento de dados. Não tem equipamento, curso de ferramenteiro, de não sei o que das quantas, porque é tudo misturado no prédio, né, tem área de comércio, tem área de serviço, uma coisa. Que o pessoal do SENAC: "Não pode, esse equipamento que está mostrado aqui faz uns oitenta anos que não usa mais." Então o Estado não suprime e critica, né, porque gasta muito, os profissionais querem luxo, estou cansado de ouvir isso aqui, né, no SENAC: "Porque gastou dinheiro?" Não é isso, é que se você quer dar alguma coisa com qualidade, você tem que gastar dinheiro, up to date, senão você está lascado aí. Se não, sabe o que nós estamos fazendo hoje? Curso de taquigrafia ainda até hoje. Datilografia, não estamos nessa, né? Então você tem obrigação de administrar a transição, isso a gente sempre pensou dessa forma. Tem que ter o fulano que tira a gelatina ainda? Quando o cara for fazer o curso de Auxiliar de Contabilidade do SENAC, ele deve saber que tem empresa, lá o bar do senhor Benedito que tira curso com gelatina ainda, e tem cara que tem possibilidades, ele tem que saber disso. Você não pode simplesmente esquecer o chamado passado porque o passado não está morto ainda, ele está vivo ainda pra algumas faixas das organizações, né? E o Estado critica hoje, é muito dinheiro desviado, mas não faz, não faz. Não faz porque não tem competência, não tem agilidade, não tem vontade pra poder fazer.

 

P/1 - Essas áreas especializadas, qual é a estrutura assim, como é que é a relação da área especializada com a rede? Eu queria que você falasse um pouquinho a respeito disso e, pelo que você estava falando, Salgado, vocês estão muito preocupados com a tecnologia, né, com o desenvolvimento, de como está ocorrendo esse processo todo. Como é que vocês, por exemplo, um curso, a ideia de um curso que vocês vão testar no mercado, como é que vocês fazem isso? É ligado à toda a rede?

 

R - Não, não. Normalmente as coisas mais significativas, né, são testadas aqui na unidade especializada geralmente ou testada numa unidade polivalente com a supervisão direta da especializada. Se der certo é passado para o resto da rede. Porque tem problemas seríssimos, né? Você fala: "O cara montou um curso, o seminário X, depois foi lá e montou", é complicadíssimo. Existe toda uma estrutura técnica por trás, uma estrutura administrativa fantástica, né? E normalmente é assim, funciona, o que não impede que a unidade polivalente no interior do estado também tenha a sua capacidade de testar alguma coisa lá. E por isso também, nós temos no SENAC dois tipos de investimentos, nós temos o investimento corpóreo, que é o físico, o palpável, os prédios, os equipamentos, etc., e nós temos os investimentos incorpóreos que são os investimentos do conhecimento. Então você tem, você acha que nós podemos fazer um curso de, não vamos falar em curso, vamos fazer agora uma feira, uma feira de franchising, só que uma feira através de, em vez de nós fazermos, as pessoas forem visitar, porque nós chegamos à seguinte conclusão: esse caso é um caso real. O que é que é a feira de franchising? Está escrito lá McDonald’s e tem um cara sentado e você vai perguntar como é que funciona o franchising do McDonald’s e o cara "blá, blá", o que está escrito no folheto. Então nós achamos o seguinte: vamos fazer o contrário, nós vamos filmar o fulano falando sobre o McDonald’s aqui, ou a Pakalolo ou a Pneus Hermes, não sei das quantas, nós vamos juntar tudo num vídeo de duas horas lá e vamos passar via televisão. Esse tipo de coisa quem vai operacionalizar é a nossa unidade de Tecnologia do Varejo, os custos desse processo não serão dele, existe uma, não vamos dizer uma verba porque verba é muito de funcionário público, mas alguém paga o que não entra no custo da unidade. Então é um investimento. Isso vai dar certo, não vai dar certo, não sei. Isso vai criar um esquema de trabalho que vai ter uma sobra técnica, né, que você ou dá continuidade ao processo ou você para por ali porque não deu ou você corrige o processo. Todas as unidades que nós implantamos até agora, diferente do que era antigamente, você implanta, esse prédio na Francisco Matarazzo é um prédio típico, montaram o prédio e depois jogaram para o SENAC administrar, agora tem esse prédio aqui você vai lá e faz. A primeira, uma das primeiras coisas que a gente fez quando a gente assumiu a diretoria regional foi reformar esse prédio inteirinho porque não servia pra nada, né? É um prédio que ganhou prêmio no Japão pela estrutura arquitetônica, só que você entra, você fica louco porque todo o barulho da Francisco Matarazzo vai pra dentro do predião. Nós estamos fechando hoje e botando ar condicionado. Então era uma situação diferente, né, é diferente de hoje, você testa, né? Pra uma unidade virar uma unidade sozinha ela já teve um processo de maturação junto com outra unidade há muito tempo, né? Era uma unidade de Moda e Beleza, né? Até Moda se firmar, firmou, "pum", ela sai sozinha. É o contrário, em vez do pessoal: "Agora monta a unidade." Não. Televisão, nós estamos com produtos de televisão e estamos juntando, já fizemos videoconferência, estamos fazendo processo não sei o que das quantas. Deu certo, cai fora e aí passa a ter a sua autonomia, já vem não com conhecimento total, mas já vem com uma bagagem, né, sabe? Porque as pessoas assumem sem conhecimento, às vezes, administrativo, de mercado, e isso a gente está disposto a investir nisso. A Editora SENAC é o mesmo caso, embora as outras especializadas, Varejo foi a mesma coisa, na parte de Administração, né, virou uma unidade especializada e o CTN também. E é assim que funciona, eu acho que é assim que funciona e os que trabalhavam comigo concordam pelo menos em nível de diretoria regional, né? Porque é mais fácil você criar aquele embrião, é como cachorrinho novo, né? Enquanto ele mamar você deixa ele lá, a hora que ele for suficiente, adulto pra cair fora você desloca ele, né?

 

P/1 - Eu queria que você falasse das perspectivas de crescimento e modernização do SENAC pro futuro. Como é que está de hoje pra...?

 

R - É um pouco difícil você trabalhar no SENAC com planejamento, né? Não no SENAC, mas em educação no país, porque cada um que sobe, o Paulo Renato tem ideia, outro tem outra ideia e pinta essas coisas de fechar, acabar, é muito difícil. E o processo do planejamento educacional não é pro ano que vem, não é não, são processos longos, né? A menina dos olhos do SENAC hoje é a televisão como meio de transmissão de conhecimento e a gente tem ciência que a televisão é um meio que deve ser trabalhado como show, né? Porque nós temos experiências internacionais que o indivíduo chega lá e como eu estou aqui sentado, e põe uma câmera na frente e "pô, pô, pô, pô, pô". Isso é bom pra quem está falando, agora o fulano que está sentado lá no auditório vendo aquela coisa falando ali é um negócio muito terrível, né? Então a gente quer, faz o show, né, mas o show como atrativo de televisão, né? Imagina o Sílvio Santos sentado falando sem nada, né, é um negócio complicado. E a gente tem um tratamento na televisão diferente do que o Estado quer dar, o Fernando Henrique Cardoso, é diferente. Então só que isso é um processo muito longo, tem que discutir dois anos, talvez mais quatro antes de sair. Então essa é uma perspectiva que a gente acha que é o futuro por dois motivos, né, primeiro porque é uma tecnologia rápida, é cara, né, é cara, mas o custo-benefício é fantástico, né? Você já imaginou o dia que eu puder trazer pra fazer uma entrevista aqui em São Paulo o senhor Henry Kissinger ou o senhor George Bush que está falando por aí? Em vez de levar pra algum lugar boto aqui em São Paulo e boto cem mil pessoas pra ver no estado e posso fazer interativo, o cara pergunta lá e responde aqui, faz lá. Não é igual ao "Você Decide" não, é aquele esqueminha mesmo, o cara fala lá e eu respondo aqui sem ter necessidade de se deslocar, é o fim, é o fim do mundo. Porque pra quem trabalhou com educação à distância, com tele-educação, como nós trabalhamos com livrinho, você vai, responde, isso é uma operação fantástica. Enquanto o SENAI nacional, ou o SENAC nacional trabalha com a chamada tele-educação, nós já estamos na televisão, não tem mais tele-educação. Então esse vai ser o futuro do conhecimento, o futuro do escritório também que você fica em casa, né, vai trabalhar na sua casa, vai, tem que resolver um problema, um problema de que trabalhar no escritório não vai ser simplesmente desenvolver o seu trabalho, mas ter um relacionamento com as pessoas também, como é que você vai fazer? E a televisão a mesma coisa? Como é que você vai ter esse relacionamento aqui, como é que vai ser essa coisa? São coisas que serão resolvidas, a expansão física do SENAC acho que ela já está limitada por vários motivos, o principal, tem 38, mas eu vou dizer um só que é o que mata, o motivo financeiro, né, porque cada vez que você constrói um prédio, porque nós temos outra filosofia também, você tem que botar gente e isso é uma sangria nos teus recursos que não crescem. Se monta uma unidade como Limeira você tem que botar cinquenta pessoas, cinquenta pessoas é uma folha de pagamento de cem mil reais, eu não sei, estou chutando um valor qualquer. E o que ela gera não é isso. Tanto é que uma das metas do SENAC nessa proposta estratégica é a autossuficiência da unidade, como faz qualquer país do mundo, até recentemente nos Estados Unidos. É o seguinte: o cara investe a fundo perdido e a operação alguém tem que pagar, né? Nessa falácia política que nós estamos aqui que o cara compra o ônibus e não quer que o nego pague o custo da passagem. O que acontece a curto prazo ele acaba o processo. E esse processo de autossuficiência é complicado porque tem uma ação política, enquanto nós não chegarmos a esse limite, qualquer expansão do SENAC é sacrificante. Porque é uma sangria, é como se fosse vários furinhos na caixa, né, você tem vários furinhos na caixa, sai pouquinho? Sai pouquinho, mas vai saindo, uma hora a caixa esvazia. Então nós temos que arrumar outros sistemas, esquemas, né? Vê, hoje nós não construímos, o último estertor de construção do SENAC no interior é Limeira. Que agora nós fazemos o seguinte: a prefeitura dá um prédio, a gente reforma e trabalha, não tem mais terreno. Tem terrenos do SENAC que têm vinte mil metros quadrados tipo Sorocaba, tipo Presidente Prudente, cada terreninho de dez mil réis o SENAC põe três mil dólares em cima, o cara acha que quer mandar em nós ainda. Então vê, essas coisas você só chega no ponto como está hoje depois de muita cabeçada, muita experiência, e o processo educacional é a mesma coisa. Há perspectivas para o ano que vem, mas ano que vem tem que estar fazendo, hoje é aperfeiçoar o que é possível, né? Você tem que, a evolução é mais ou menos natural e você tem que acompanhá-la, né, porque senão nós corremos o risco de fazermos uma proposta com 35 páginas datilografadas com belíssimas palavras que não se realizam. O processo de informatização hoje é um processo permanente no SENAC, não tem mais retrocesso, né? Sabe, quando você falou: sossegou, nós estamos com 1.500 equipamentos de microcomputadores, estou chutando um número redondo, sossegou não, nego tem a quarta geração, quinta geração tem que começar a trocar. Quando você troca tem que preparar as pessoas que aí estão. Ah, mas não criou nada novo? Não criou nada novo no esquema, não dá pra criar novo também, isso aqui não é bolo de aniversário que você cria novo, né? Os processos vão evoluindo, né? É Hotelaria que nós trabalhamos há 25 anos com hotelaria, fez 25 anos na semana passada no Grande Hotel São Pedro, mas quem tinha aluno caçado na FEBEM à laço e quem tem hoje pessoal de nível superior fazendo curso de cozinheiro-chefe em convênio com CIAE [Centro Integrado de Atendimento ao Estudante] dos Estados Unidos, é um passo! Mas não criou nada! Como não criou nada?! Criou sim, é que é lento, essa coisa é lenta, é só no governo, federal principalmente, que as coisas mudam, à partir de agora escola padrão. Aí muda o secretário: não, agora não é escola padrão, agora é não sei mais o que das quantas, agora é televisão na sala de aula. Conversa. Votei no Fernando Henrique mas me arrependo. Muda as coisas, não, agora vamos botar uma televisão em cada lugar, vamos botar televisão no Acre, no Piauí e o fulano vai falar aqui e o cara vai aprender. Não vai aprender, o cara passa fome, o cara tem outras prioridades na vida, o professor que vai receber a informação lá no Piauí, no Acre, não sei onde, em Rondônia ganha dez mil réis por mês. Então é discurso, e o SENAC não tem discurso. O Abram costuma dizer: "Esse ano qual é a novidade?" "Não tem, neguinho, esse ano não tem, esse ano acabou." É regime de emagrecimento, né? Você tem 140 quilos pra você perder uns 40, por exemplo, o Jô Soares, né, eu vi o Jô Soares ontem e ele disse que perdeu 37 quilos, eu não vi diferença, né? O cara perde 40 quilos maior bico! Pra perder os próximos dez e talvez os próximos cinco, pior, chega um pouco no limite da coisa tem que ter não só de manutenção, mas você tem que criar alguma coisa, mas as coisas são antes, tipo televisão o exemplo que eu te dou. Área de Informática, área de Moda, você quer negócio mais complicado que área de Moda? Aí você começa a trabalhar na área de Moda, por exemplo, com tudo aquilo que você pode, faz convênio internacional, manda a Marilda pra Paris, e faz com a dona fulaninha, o cara vem de lá pra cá. E tudo isso pro cara ver: "Isso aqui é um bico." Bico nada, tem uma coisa aí atrás, pô, que área de Moda é área de Moda, né? "Não criou mais nada, ah, não evolui." Como não evolui? É a mesma coisa, às vezes a gente é muito ruim, critica o Senai: "Ah, o Senai é aquele que fica dando aqueles cursinhos de três anos." O Senai hoje tem mecatrônica, tem uns negócios fantásticos, tem uns convênios com a JICA do Japão [Japanese International Cooperation Agency] que você não acredita. O nome é o mesmo, sabe? Só que o processo é coisa fantástica. Ah, vai fazer televisão, todo mundo faz televisão, o Sebrae também tem. Não tem, Sebrae não tem, Sebrae tem um horário na televisão que é diferente, né? Esses pequenas empresas, médias empresas, médias empresas e pequenos negócios e não sei o que das quantas, tem um horário na televisão. Agora, quero ver produzir um programa como nós fazemos, né? Quero ver você pegar um bando de cabeleireiros e fazer como nós fizemos agora que os caras é assim, como a empregada lá em casa que vai fazer o bolo, põe um pouquinho, mas o que é um pouquinho? O quê? Não tem medida? Não é uma colher, uma xícara, um grama, um quilo, põe um pouquinho. O cabeleireiro diz: "Ah, você corta um dedo." E o que é cortar um dedo, sabe? É uma relação meio complicada, né, e você pegar isso e transformar numa cena educacional que o cara que está do lado de lá saber que um pouquinho ou um dedo é tanto, vai muito. Ah, isso é cabeleireiro, não é bem assim, as coisas não são bem assim, os processos são mais lentos, né? Se o Estado trabalhasse com objetivos como o SENAC trabalha, o Senai também trabalha, não estou criticando, longe de mim isso aí, acho que os problemas educacionais do país estavam resolvidos, né? Se não ficasse com ações pontuais, né, como tem todo dia você ouve um cara falar uma besteira na televisão ou no jornal. Ou você fazer reunião com o secretário do estado e ele: "Olha, nós compramos quinhentos microcomputadores e queria que o SENAC ajudasse a treinar o fulano." Bom, primeiro, que computador você comprou? Aí vai ver que é um amigo de não sei quem que não sei quem que fez a coisa e comprou, ou senão pra gastar verba, sabe essas coisas? A verba se não usar esse ano pode cortar o ano esse aqui. Quer dizer, não tem um processo, um programa, então joga no SENAC pra treinar fulano, já cansei de fazer convênios e acordos com o estado, com o município, com o governo federal que não resulta em nada porque ninguém está disposto a fazer nada. Porque só querem uma ação política, ah, o tíquete do leite, o tíquete do pão, o tíquete de não sei o que das quantas, do vale transporte, as ações políticas partidárias se misturam com as ações políticas educacionais, né? Então quando você fala em perspectivas do SENAC eu também não sei, eu sei que as que estão aqui não serão como serão as do ano que vem. E nós temos um processo muito significativo e avançado de planejamento que eu teria que ter quatro horas só pra explicar como é que aquilo funciona. Qual é o processo participativo que as coisas fazem, existem, se planeja, você tem ações, você tem várias ações que você tenta enquadrar a administração da organização de uma forma melhor e mesmo assim fura. Fura cada rombo do tamanho de um elefante, fura, porque nem sempre as pessoas que estão participando desse processo estão participando, não vou dizer nem com consciência, mas estão participando ativamente porque ao primeiro aperto que dá lá em Araraquara o pessoal não faz mais aquilo, faz, põe de outro jeito e muda. Então é um processo permanente, só que a gente procura fazer de uma forma possível. Sabe, as reuniões que o SENAC faz hoje. Diferente das reuniões que se faziam antigamente, pô, as reuniões são reuniões de trabalho, você se reúne pra discutir esse assunto. E procura, se não acontece, não resulta num trabalho melhor porque não dá pra fazer, não é por falta de esforço das pessoas, né, que participam. Porque é complicado na medida em que você, a estrutura organizacional hoje que nós mudamos porque não conseguimos mais ter um relacionamento com sessenta pessoas. Hoje nós regionalizamos e discutimos com nove, dez só, que por sua vez discute com mais meia dúzia cada um. Você há de convir que eu não posso conversar com o cara de Taubaté, até eu chegar em Taubaté já teve tanto ruído nesse meio que o amarelo já virou roxo lá embaixo, né? E isso também é um processo traumático que é permanente, a maior vontade do SENAC é a permanente evolução. Por vários motivos, né, ou porque a gente acha que é assim, que é um motivo muito forte, ou porque existe uma pressão externa, tipo isso: vão cortar os recursos e não sabe o que vai acontecer, ou porque existe esse, é o de menor significado o processo que as pessoas pedem as coisas. Certo grau de clientela, certa faixa de clientela, é uma clientela adulta, né, que sabe o que quer, que vem pagar um seminário do SENAC de seiscentos dólares, setecentos dólares, setecentos reais, que quer um resultado, não tem mais brincadeira. Nós temos um exemplo significativo, uma das primeiras ações que a gente fez quando assumiu a diretoria regional foi transformar a sala de datilografia que fazia parte de alguma coisa, numa sala separada. A datilografia era parte do Curso de Escritório entre aspas. O cara ia lá fazer Datilografia: "Ah, mas o número de evasão." Não existe evasão em datilografia meu filho! "Ah, porque tem que ter 200 toques, 180 toques, 500 toques." Não existe. Datilografia é o seguinte: é uma ação operacional que eu vou fazer até eu me satisfazer. Se eu for um aluno do Mackenzie que quero bater apostila, pra mim 50 e tantos toques, 60 toques é mais do que suficiente. Se estiver prestando um concurso público pra ser escriturário na Polícia Federal, não sei o que da onde, eu preciso dar 200 toques. E a hora que eu atingir 200 toques eu caio fora, a hora que eu atingir 60 eu caio fora. "Ah, evadiu, 80% de evasão." Evasão nada, o cliente se satisfez então vai embora. "Então não pode dar diploma, não pode dar certificado." Sabe essas coisas meio loucas, isso aí nós procuramos acabar. Outra coisa que a gente fez: a Datilografia custava cinco reais por mês, vai pagar setenta hoje. Porque você, um exemplo, você tem dois filhos, né, tem essas crianças aqui enchendo o saco, vai estudar Datilografia no SENAC, matricula a criança de tarde no SENAC pra encher o saco. Você pode ver qual a garotada que funciona, as salas de datilografia, tem meia dúzia espalhada por aí, o cara está na faixa de quatorze anos, quinze anos. Diz: "Ah, vou começar a trabalhar." Faz o quê? Datilografia. Então virou uma festa, você paga, investe uma fortuna em máquina e o fulano vai lá pra brincar. Então começou a cobrar caro, mudou o perfil da clientela. As pessoas quando pagam passam a frequentar, é como bolsa de estudo: você dá integral, raras exceções o cara fica. Eu tenho, nós damos bolsas de estudo no SENAC às bordoadas, né, por questões políticas, por questões sociais. Deu de graça, nego, o cara pede pra fazer línguas, por exemplo, faz uma justificativa terrível, você dá um curso de línguas, de inglês pro indivíduo, ele faz o primeiro estágio e no segundo ele vai embora. Não tem que pagar nenhum do bolso dele, tanto faz como fez, né? Então é um negócio meio complicado, e Datilografia deu uma experiência muito grande pra gente nisso, né, se você paga o cara valoriza. A namorada é difícil, né, a namorada é difícil.

 

P/1 - Quais os convênios internacionais que o SENAC mantém, Salgado?

 

R - Bom. A gente botou nas nossas perspectivas de trabalho qualquer ação com qualquer país, de preferência os mais evoluídos, pra gente é muito benéfica. Nós temos convênios muito específicos como CIAE - Culinary Institute of America, que você, nós pagamos um royalty e eles passam o material do curso de cozinheiro-chefe. Nós temos convênio assim com a Universidade de Cornell, um convênio geral, pra fazer qualquer coisa porque tal lá como cá também existe uma burocracia, precisa ter um papel assinado, né, pra poder trabalhar. Veja os professores que vieram aqui e não tinham visto e mandaram de volta os caras, botaram no avião e mandaram de volta. A questão burocrática. Então nós temos convênio com San Diego, nós temos convênios com algumas escolas da França, com a Esmod [Escola Superior de Artes e Técnicas da Moda], aí não, é outra, não é bem um convênio, é um contrato, essa é uma figura de convênio, mas é um contrato porque você recebe material e paga, então é um contrato, não é um convênio. E a gente está procurando cada vez mais, com a Alemanha, com os Estados Unidos nós temos com San Diego, nós temos com algumas universidades de São Paulo, com o Estado de São Paulo, com a USP, com a Fundação Getúlio Vargas. É o exemplo do jogador de tênis, o jogador de tênis nunca quer jogar com o mais fraco que ele porque acha que perde a técnica, quer sempre com o primeiro do top. E o SENAC faz a mesma coisa, né, tem que se juntar com pessoas que têm maior conhecimento. E temos também algumas ações com pessoas que têm menos conhecimento que a gente, nós tivemos uma missão na África do Sul na semana passada, fazendo uma entrevista lá no SENAC de duas horas e meia, como é que funciona o SENAC, eles estão a fim de botar qualquer coisa profissionalizante tipo o Senai, SENAC na África do Sul. Quer dizer, ao invés de você copiar, os caras vêm copiar de você também porque eles têm a mesma perspectiva; vamos procurar aonde, no Moçambique, não, vamos pro Brasil pra ver se tem alguma ação. Aliás, na América do Sul todos têm o sistema igual ao do SENAC só que às vezes é do governo, às vezes Senai e SENAC junto, mas todos inspirados no mesmo sistema de formação profissional, né?

 

P/1 - Bom, Salgado, pra ir encerrando eu queria que você falasse: se você pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de vida o que você mudaria?

 

R - Eu não mudaria nada. Eu sou um, embora não pareça, sou um espiritualista e sou uma pessoa que acha mais adequada a vida na forma espírita, né? Eu acho que as pessoas além dos crédulos naturais da chamada religião ou filosofia como queira, eu acho que as coisas que acontecem são predeterminadas, e eu não mudaria nada porque com certeza qualquer mudança que eu fizesse na vida teria consequências drásticas que não estão no meu livro de vida, né, no meu livro de vida. Os traumas, eu sou um cara meio calejado e eu até comentei com vocês aqui, eu não costumo guardar as coisas do passado porque eu acho que as alegrias são efêmeras e as tristezas são mais fortes, né, então não gosto de guardar essas coisas. Eu já fui casado duas vezes e os meus filhos do primeiro casamento morreram num acidente os dois, e eu já tive problemas muitos sérios. E esse ar desgastado com 50 não é de graça, não, eu não mudaria nada. Eu penso, pra você ter uma ideia, eu perdi as minhas crianças em 87 e eu falo: "Puxa vida eu tenho 53 e se eu tivesse 40 eu teria que passar por tudo aquilo de novo." Então eu não mudaria nada, exatamente como está aí, sabe? Porque eu acho que qualquer desvio, é uma rota, às vezes você vê uns filmes aí "De Volta para o Futuro" que o cara pegou um caderninho. Conhece mais ou menos a história, né? Ele pegou um caderno de beisebol e ele sabia todos os resultados de jogo que ia acontecer, né? Você não pode mudar essas coisas, eu não mudaria nada, deixaria exatamente como está. Eu sou muito grato pelo SENAC, onde fiz minha vida, tive todas as minhas alegrias e meus sofrimentos no SENAC. O SENAC me deu muito, mas eu dei muito mais pro SENAC, tudo que eu sou, dos conhecimentos, as viagens pra Europa, os cursos internacionais, que são poucos no país que podem dizer que fizeram, né, cursos na Suíça, na França e conhecimentos, etc., e o SENAC me proporcionou. Em contrapartida eu trabalhei muito pro SENAC que isso tenha, né? E sempre achei que era... o SENAC era o último ano. "Esse ano aqui é o último ano." Teve uma fase na minha vida quando o Haroldo Cruz Hirth, que Deus o tenha, era o Diretor Administrativo que judiava muito, as pessoas tinham pouco relacionamento, o que era lá de baixo não era da casta, sabe, nem fazia parte do grupo lá de cima. Ele pressionava, eu era casado, tinha casado recente, a minha mulher estava grávida e ele me pressionava pra assinar a opção pelo Fundo de Garantia. Hoje as pessoas são promovidas no SENAC de uma forma tranquila, tranquila e por merecimento, não tem pompa. Antigamente eram dois anos pra promover o cara, pra dar um salariozinho de nada, né, pro indivíduo. E ele pressionou: "Ou você assina a opção do Fundo de Garantia ou eu não te promovo." Isso é uma coisa que me marcou profundamente, né, quer dizer, eu fui coagido a fazer uma coisa que eu não queria. Por outro lado você veja como as coisas são, por outro lado, hoje eu tenho um apartamento que eu moro há quinze anos devo ao chamado Fundo de Garantia. Se eu tivesse como alguns outros amigos que estão no SENAC que não optaram, que estão com o Fundo de Garantia lá com um bilhão de dinheiro lá porque não é optante. Então você vê que as coisas todas têm uma relação. Então eu não mudaria nada, absolutamente nada.

 

P/1 - E pra terminar eu queria que você falasse o que você achou dessa experiência de ter contado a sua história de vida e a sua trajetória de vida no SENAC pra gente.

 

R - Puxa vida, eu fiquei preocupado ontem. Ontem eu recebi uma cartinha. Nós decidimos juntamente quais eram as pessoas que participariam do processo. Eu fiquei preocupado ontem: o que eu vou contar? Eu nunca parei pra pensar, raramente eu paro pra pensar. E comecei lembrar as coisas, o não sei o que das quantas e tal. Eu acho, não é o meu caso com franqueza, mas pessoas que vivem do passado, curtem o passado, como amigos que eu tenho que o cara tem a primeira fotografia de quando ele chutou a primeira bola. Tem gente que gosta disso aí e vive, eu não vivo isso porque eu acho que o que passou, passou. E eu comecei a pensar e a ponderar, se eu tiver que falar tudo aquilo que eu passei eu vou ficar cinco horas lá embaixo, vou ficar cinco horas porque tem coisas aqui que a gente acabou não conversando. Por outro lado me assusta um pouco também porque eu já estou fazendo parte da história, nego, parte da história, e vejo a minha filha falar em Getúlio Vargas e hoje eu me arrepio: "Mas eu conheci esse homem, neguinho." Eu conheci esse homem, Getúlio Vargas, e agora vai fazer o aniversário de morte dele esse ano aqui, em 54 quando ele se matou. Aliás, o meu pai morreu em julho, Getúlio Vargas se matou em agosto, fiz parte da história e começo a ficar preocupado porque estou ficando velho, né? Começo a ver essas fotografias todas aí que a Pilar separou, tal, o cabelo estava mais escuro, vinte quilos mais magro, eu fumava que nem um desgraçado naquela época, larguei de fumar. Mas eu acho que é um processo importante porque o SENAC até agora, até agora que eu digo o passado recente, era uma instituição sem memória, nada. Se estivéssemos fazendo esse processo há dez anos atrás era muito mais fácil, mais barato, era tudo melhor, não é? Eu acho que tem que ser, eu acho uma experiência interessante que você tem o privilégio de conversar sobre algumas coisas e lembrar de alguns fatos que você não lembrava mais. Porque graças a Deus ainda estou... eu tenho a memória recente e a memória passada, não é que nem a minha mãe, né, que só tem a passada, não lembra o que comeu ontem, mas lembra que em 1922 aconteceu não sei o que lá em Itu, sabe essas coisas. Eu acho que é muito importante.

 

P/1 - A gente queria agradecer a sua presença. E é isso.

 

P/2 - Muito obrigada.

 

R - Eu é que agradeço.

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