Busca avançada



Criar

História

Mudando a vida de fora para dentro

História de: Adrieder
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Adrieder é o filho mais velho de três. Na infância, passou pela separação de seus pais, acontecimento que o marcou e o tornou uma criança agressiva e agitada. Encontrou a saída para mudar esse comportamento no judô. O esporte tornou-se, aí, sua grande paixão. Entrou na faculdade de Educação Física e, já na graduação, começou a dar aulas em projetos sociais. Após se formar, continuou nessa área. Foi contratado como professor de Educação Física e judô na escola do SESI, onde acabou conhecendo o Projeto ViraVida. Atualmente participa do projeto, dando as aulas na disciplina de Qualidade de Vida. Sonha com um futuro próspero para seus alunos, e acredita no esporte como um potencial de mudança de vida.

Tags

História completa

A minha infância foi um pouco conturbada. Eu era uma criança muito agressiva e dei muito trabalho aos meus pais. Foi um período em que eles estavam se separando e não sei se estava tomando como minha responsabilidade, se o meu comportamento era daquele jeito porque eu achava que era responsável pela separação deles. Mas eu era muito agressivo e chegou ao ponto de ter que fazer uma atividade física. Era muito trabalhoso mesmo.

 

E acabei entrando no judô. O professor de judô era colega de infância do meu tio mais novo e ele convenceu o meu pai a me dar essa oportunidade. Foi um dos poucos lugares em que recebi elogios, atenção em relação à minha pessoa, em relação ao que eu fazia e foi o que me motivou a modificar o meu comportamento, buscar a educação física e melhorar as minhas notas na escola. Eu acredito que tenha sido um marco, antes e depois do judô. Isso fez com que eu ficasse mais determinado, que ganhasse mais confiança, e me fez realmente querer trabalhar com educação física. 

 

O meu primeiro vestibular foi para jornalismo, mas não consegui entrar na primeira vez. Depois, por conta do envolvimento com o judô, da insistência do meu professor dizendo que seria mais fácil trabalhar na área de Educação Física. Quando entrei no curso eu me identifiquei e acredito que na graduação eu me empenhei mais do que em todos os anos de escola de nível fundamental e médio. Foi o período que eu mais aproveitei porque estava estimulado, tinha me identificado realmente. A questão do retorno, do reconhecimento dos professores que eu tive contato no judô e na faculdade, que me apoiaram bastante. Hoje em dia eu não me vejo fora dessa área.

 

Em relação à carreira, quando entrei na faculdade eu estava trabalhando com meninos de um projeto social. Lá foi o meu laboratório, porque tudo o que estava vivenciando e aprendendo na universidade, eu via de forma diferente. Eu conseguia trazer um pouco para o ambiente da aula e fazer muitos projetos com os meninos; algumas publicações de nível regional, uma de nível nacional, e acredito que foi o meu maior laboratório. Assim, o fato de eu ter me empenhado tanto na universidade foi porque eu aplicava uma boa parte do que eu aprendia com os meus alunos. O que eu tentava passar para eles era justamente essa questão do empenho e da dedicação.

 

Depois, continuei trabalhando em projetos sociais. Em oito anos eu participei de três projetos. O trabalho era com o judô e com a modalidade esportiva. 

 

Em um desses projetos, fui trabalhar em uma turma de meninos que foi bastante difícil. Eu fiquei quase seis meses sem conseguir dar uma aula que não houvesse umas três ou quatro brigas. Isso deu muito trabalho. Eu chegava em casa com dor de cabeça e, de repente, comecei a me deparar com alguns espelhos. Eu via alguns reflexos meus, de quando eu era mais novo. Aí mudei totalmente a metodologia e consegui chamar a atenção dos meninos. Essa turma chegou a ser a maior do projeto. O pessoal das outras turmas queriam migrar para a oficina de judô e houveram alunos que foram campeões regionais, o que acabou chamando a atenção dos outros colegas. Passou a ser uma das melhores turmas e, depois de um tempo, quando eu saí do projeto, era a turma que menos dava trabalho, o que a princípio era o contrário. Os meninos ficaram realmente envolvidos. Acredito que o fato de eu ter olhado para trás, em relação ao que acontecia comigo, ajudou bastante.

 

Mais recentemente, entrei na escola aqui do SESI, trabalhando também com judô em academias e com educação física. Comecei a trabalhar com educação física e hoje tenho turmas de Futsal, de Educação Física e a de Qualidade de Vida, que é do Projeto ViraVida. Portanto, estou de volta a um projeto social e com uma roupagem nova, com um público diferente, uma faixa etária mais avançada. Antes, os alunos tinham até dezesseis e dezessete anos. Agora é a partir dos dezesseis. A conotação e a metodologia são totalmente diferente. As características da turma mudam, e o trabalho também.

 

A diferença do ViraVida é que muitos alunos passaram por agressões físicas, ou tem tabus em relação ao seu corpo, como no caso dos jovens homoafetivos, que nem sempre se identificam com seu corpo. Nestes casos, muitas vezes a criança, o adolescente, o jovem, está tentando se desvencilhar daquilo que o fez passar por sofrimento. O meu trabalho é fazer com que ele reconheça o seu corpo, que ele tenha noção do que aconteceu e dos seus limites e que ele se valorize mais. Os seminários e as palestras ajudam bastante, porque muitas coisas que eles tinham dúvida com relação a atividade física ou com relação a alguns hábitos que muitas vezes eram passados de pai para filho, eles acabam percebendo que podem fazer de outra forma; que podem ter uma postura mais saudável e respeitar mais o seu corpo.

 

A contribuição do ViraVida é oferecer uma perspectiva, uma mudança de vida e novos objetivos a esses alunos. Antes eles não estavam tão motivados a seguir em frente e a tentar dar uma guinada na vida. Alguns já conseguem fazer isso por causa dessa perspectiva diferente que foi mostrada a eles. As pessoas que dão atenção, que se importam, que querem que eles dêem o melhor para que possam usufruir do melhor também. A intenção de todos que estão trabalhando no projeto é que eles tenham o melhor e eu acredito que todo mundo dá o melhor de si para que eles realmente possam melhorar. 

 

Hoje eu acordo e durmo pensando sempre em alguma coisa para  realizar com eles. Estou programando as atividades do segundo semestre e já modifiquei muitas estratégias, justamente para tentar chamar mais a atenção e olhar o lado deles; nós tivemos há pouco uma capacitação no projeto e modifiquei muitas coisas por conta disso. Esse é um dos meus focos. Eu tenho muitas atribuições no SESI, mas mesmo assim acho que dá para conciliar, para pensar bastante e desenvolver uma atividade de qualidade onde eles sintam satisfação. E tem sido recíproco: a atenção, o respeito, o carinho, eu recebo tanto quanto ofereço. Isso tem sido muito gratificante.

 

O meu maior sonho hoje em dia se inspira em um de meus alunos. Ele tem muita identificação com o jornalismo, e foi em frente nessa área. Quero que todos que passem por essa porta e que sentem nessa cadeira consigam se encontrar tanto quanto ele se encontrou. Consigam ter ânimo para buscar, tanto quanto ele está tentando buscar e que consigam se realizar e transformar a sua vida e a de sua família. Esse é o meu maior sonho.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+