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História

Mudança de vida com a alimentação orgânica

História de: Márcia Cristina Magalhães Monteiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/11/2014

Sinopse

Márcia Cristina Magalhães Monteiro foi adotada por Antonio Seabra Monteiro e Genoveva Magalhães Monteiro na cidade em que nasceu, Belém do Pará. Ele trabalhava em uma empresa de aviação e ela era dona de casa e já tinham mais de 50 anos e três filhos bem mais velhos do que a menina nascida em 2 de setembro de 1964. Márcia se mudou para São Paulo para fugir da superproteção da mãe, trabalhou, fez faculdade e descobriu que seu talento é cozinhar. Mais ainda, descobriu que a alimentação orgânica e saudável é sua missão.

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História completa

Meu nome é Márcia Cristina Magalhães Monteiro. Nasci em Belém do Pará, em 1964, no dia dois de setembro. Meus pais eram velhos (risos). Eles me adotaram, meu pai já tinha 56 anos de idade e minha mãe, 54. Então a diferença de idade era muito grande, mas todo o amor que eu poderia receber deles eu recebi. A minha mãe era doméstica e o meu pai era tesoureiro numa empresa de aviação paraense.


A infância foi muito boa. Eu brinquei bastante, morava num bairro bastante bucólico em Belém do Pará. Tinha amiguinhos. Isso até uns cinco anos de idade. Depois disso eu precisei morar com a minha irmã por motivo de saúde da minha mãe e eu morei em prédio. Aí já foi um pouco mais difícil pra mim, que já era acostumada a morar em casa, foi bem dificultoso, eu senti bastante. Como eu passei a ser uma criança quase sozinha, eu me infiltrei no esporte lá na escola. E foi aí que eu entrei pro handebol e fui pra seleção paraense, viajei e tudo mudou. Mas continuei sempre estudando. Estudei até os 18 anos, me formei no segundo grau, foi quando eu fiz um curso técnico em contabilidade e com 20 anos eu vim embora pra São Paulo.


Eu vim pra São Paulo porque a minha mãe tinha uma super proteção comigo. Apesar desse problema que ela tinha, ela não deixava eu viver a minha vida. Ela não saía da casa da minha irmã, sempre queria cuidar de mim, era aquela proteção. Isso me sufocava, não fazia eu crescer como pessoa, eu sentia que isso me atrapalhava. E um belo dia eu disse: “Eu vou embora”, eu já trabalhava com 18 anos, numa empresa de água, e decidi viver minha vida em São Paulo. Porque São Paulo é o sonho de todo mundo que é do Norte e Nordeste. São Paulo é a terra das oportunidades. Eu achei que eu ia ter minha oportunidade aqui. O estudo seria melhor, o trabalho seria melhor, eu conseguiria mais rápido a minha independência. Eu vim pra cá com 20 anos, prestei vestibular pra PUC, passei, só que eu não consegui concluir o curso porque era muito caro pra mim. Eu comecei a me apaixonar pela cultura da cidade. São Paulo oferecia uma vida cultural bastante fácil, abrangente, teatros de graça, exposições. E comecei a fazer amigos, fiz bastante amigos.


Meu primeiro emprego foi de assistente de sindicato. Era um nome imenso que até hoje eu não decorei, mas era dos hidráulicos de São Paulo. Fui morar numa república e nesse emprego eu ganhava muito pouco, dava só pra pagar a vaga que eu ficava. E eu não sabia cozinhar, não sabia fazer nada, porque a minha mãe fazia tudo pra mim. Passei dois meses fazendo miojo com ovo cozido que era a única coisa que eu sabia fazer. E foi daí que veio a coisa de aprender a cozinhar, de me virar. Depois de dois meses eu consegui um bom emprego. Eu trabalhei dois meses nesse sindicato e depois eu consegui entrar na AEG-Telefunken, como assistente fiscal. Foi aí que eu consegui pagar uma faculdade em Administração, consegui sair da república, fui dividir um apartamento.

 

Depois eu entrei no Laboratório Roche, trabalhei na Yopa Gelato, não me sentia mais feliz trabalhando com papelada, com números, todo mês a mesma coisa. Aí comecei a me especializar em automação industrial. Eu fiz curso de Tecnologia nessa área e trabalhei a vida inteira com isso, até o ano retrasado.


Eu tinha um sonho de ter um restaurante. Eu não sabia cozinhar, só sabia fazer miojo, mas fui aprendendo a cozinhar. Descobri esse talento em mim. Eu cozinhava pros amigos, eles iam na minha casa: “Ah, vou fazer um estrogonofe” “Vou fazer uma lasanha”, e eu fazia com muito prazer isso. E sempre diziam: “Márcia, por que você não abre um restaurante? Você cozinha tão bem”, eu inventava coisas. Eu fiz um curso de gastrônoma no Senac de quatro meses. Então meu sonho era esse, eu vou realizar esse sonho. Pensava, num restaurante rústico, um bistrô. Então eu dizia: “Um dia eu vou trabalhar com o que eu gosto”. E foi quando eu descobri os orgânicos, indo ao Parque da Água Branca. Um belo domingo fui lá com uma companheira minha, ela também curtia essas coisas, era mais natureba. Fui e me encantei, achei muito bacana, aí comecei a participar de palestras pra entender mais do assunto. Me filiei à AAO, que é a Associação de Alimentos Orgânicos e eu participava de todas as palestras deles, seminários. Comecei a me inteirar e ver que aquilo era realmente um caminho para uma vida saudável. Eu percebi é que não tinha mercado que fornecesse pra essas pessoas que consomem orgânico. Tipo um almoço, uma lasanha, um estrogonofe. E elas diziam: “Márcia, puxa vida, não tem quem forneça”. E quem fornecia era muito caro. E aí eu descobri um balcão que vende orgânicos no Ceagesp, se você compra de grande quantidade sai muito mais barato e você pode repassar isso pro seu produto que acaba não saindo tão caro. Aí eu comecei. E trabalhando, trabalhando. Tinha que ganhar dinheiro, com isso ainda não dava pra ganhar dinheiro, não dava para eu parar. E foi até que no ano retrasado, eu morava em São Paulo, no bairro da Saúde, eu conheci a Bete. Eu já tava cheia de São Paulo, não aguentava mais aquele trânsito. O trânsito me irritava profundamente. Tudo eu precisava de carro. Eu disse: “Olha, quer saber? Acho que tá na hora de trabalhar com o que eu gosto. Minha idade tá chegando, puxa vida, to chegando aos 50, meio século de existência e vou trabalhar sempre com o que eu não gosto? Não vou fazer minha realização pessoal que é trabalhar com alimentos!”. E foi que eu sai da empresa, aí disse assim: “Vou comprar um apartamento”, eu tinha umas economias. Eu me livrando do aluguel já é o suficiente.


Foi quando eu abri uma quitanda orgânica, chamada Sabor Autêntico. Só que não deu certo, mas não fluía porque a gente não tinha o conhecimento de pessoas, que nem todo mundo: “Ah, orgânico é caro. Vou comprar no convencional que é mais barato”. Eram poucos pedidos e não atendia aquela meta que a gente tava querendo. Surgiu a ideia de colocar uma feira orgânica em São Bernardo, que não tinha, uma feirinha com os produtores, os agricultores de orgânicos. Começamos a participar com o grupo que estava organizando. E através disso foi que nós começamos a Rede, que foi um curso que teve no CTR, que é a Central de Trabalho e Renda. Tava tendo um curso de Mulheres Empreendedoras na parte de alimentos. A gente começou a conhecer, se envolver, eu gostei, vi que a característica da Economia Solidária é uma distribuição de renda justa, que é de ajudar as mulheres empreendedoras que estão fora do mercado de trabalho, que têm os seus talentos pra colocar no mercado. Foi quando eu conheci o Consulado. E aí o Consulado me apresentou o grupo, a Cia de Mulheres, assessorado por eles. O Cia de Mulheres já existia há dois anos. Eu fui apenas mais uma integrante lá. Cheguei lá levando receitas orgânicas pra oferecer pro mercado.


O Consulado oferece mais cursos de empreendedorismo mesmo, de Plano de Negócios, de como você dirigir o seu negócio. O Consulado, nossa, eu não saberia viver sem elas. O Consulado é muito bacana com a gente. Dá todo o apoio. O último presente nosso agora foi um forno turbo no valor de três mil e 600 reais que elas colocaram lá na nossa cozinha porque a nossa demanda aumentou muito. Então assim, o Consulado dá muito, mas muito apoio pra gente. Agora, a parte de conhecimento de orgânicos é por minha conta, eu corro atrás. Leio muito na internet, leio muitos livros, procuro estar sempre indo nas hortas me inteirar desse assunto. Eu falo que como crescimento eu tive um crescimento pessoal muito grande, emocionalmente, mudou muito a minha vida, mas muito mesmo. Que eu falo que eu trabalhei até dois anos atrás por dinheiro e hoje eu trabalho por amor. Porque o amor que eu tenho nesse trabalho, pra mim vai me trazer uma recompensa, eu não penso no dinheiro, se ele vai me trazer. Dinheiro todo mundo precisa, mas eu sei que eu trabalhando com essa dedicação que eu tenho, que o grupo está se empenhando, que tá aceitando as minhas ideias e o mercado está aceitando, isso vai trazer o retorno financeiro pra gente. Eu entrei com essa filosofia. Eu tive até alguns atritos diante do grupo com isso porque: “Ah imagina, orgânico não vai dar certo, orgânico é caro. Orgânico não vai trazer o dinheiro”. Pelo contrário, é o que tá hoje dando sustentação pro grupo, é o que tá fazendo o grupo ser reconhecido. Então hoje elas reconhecem que foi uma boa pedida ter entrado com os orgânicos. E eu me sinto muito, muito feliz, realizada. Financeiramente, pra mim, ainda não tenho retorno, mas incrível, isso não está me preocupando, não é uma coisa que me tira o sono. Não. Eu me preparei pra isso, pra recomeçar, porque pra mim foi um recomeço mesmo, esqueci tudo o que eu vivi da vida profissional, não tenho mais a ver com aquilo, pra mim é uma vida nova, meu primeiro emprego. E eu estou conquistando isso a passos pequenos, mas estou conquistando. Todo dia eu conquisto alguma coisa.


O maior desafio é ser reconhecida no município e no Estado de São Paulo como fornecedora de alimentação saudável e ter o respaldo do público, ter a resposta do público pra isso. Porque nós estamos trabalhando pra isso. A gente quer crescer diante dessa filosofia, da alimentação com qualidade e com saúde. O nosso desafio é esse, chegar até o final do ano com um bom salário, um salário digno. Não vai ser um salário milionário, mas um salário digno que todas fiquem felizes, que trabalhem mesmo por amor, e sabendo que trabalhando por amor elas vão ter essa recompensa. Recompensa financeira vai vir, que todo mundo precisa, são mulheres que realmente precisam. São aposentadas, mulheres que têm maridos inválidos em casa e que precisam, não têm uma renda, não têm de onde tirar, só ali do grupo.


Hoje o que é importante pra mim é que o grupo cresça. Que esse meu sonho e o sonho dessas mulheres que estão comigo se tornem realidade, porque nós estamos juntas. Que nossos sonhos se tornem realidade, a gente trabalha muito isso. Nós estamos aqui realizando um sonho, temos que agarrar essa oportunidade, que é esse respaldo, esse apoio que o Consulado dá pra gente, e isso não se encontra por aí. É difícil. Uma pessoa que teve uma sorte de cair num grupo ao qual você não tem patrão, você pode resolver os seus problemas, você não tem ninguém que fica te pressionando. Você trabalha com liberdade, com amor, com dedicação. E você sabe que você tá trabalhando pra você, pro seu crescimento. Você não está trabalhando em função de uma indústria que só visa lucro, você está se realizando mesmo. Então esse é o meu sonho, é minha inspiração. E o Consulado me inspira muito, então, eu tenho me inspirado muito no Consulado.

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