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História

"Movimentação do mundo nas suas mãos"

História de: Ellen Thais Novoa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/12/2020

Sinopse

Descendência portuguesa. Cresceu sob os cuidados de seu avô amoroso, sua avó portuguesa e mais rígida e sua mãe batalhadora e independente. Infância estilo "maria moleque”. Escola. Trabalho desde nova. Gravidez. Depressão pós-parto. Faculdade de Psicologia. Porto de Santos. Conferente de Carga. Paixão pelo trabalho, pois sabe a importância que ele tem para o país. Em busca de descobrir novos sonhos.

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História completa

O meu avô é a minha base assim de amor, minha proteção, me trazia como gente, como amor. Eu levo para todo o sempre. A minha mãe  sempre foi muito batalhadora. Eu lembro que ela tinha um fusca, as mulheres não tinham carro, elas não dirigiam, não eram independentes. E minha mãe sempre seguiu essa linha da independência, de sempre lutar pelas coisas dela, e foi sempre muito batalhadora, e me incentivou nessa mesma linha, de que mulher tem que ser independente, tem que ser guerreira, e eu fui seguindo esses passos dela. Eu lembro dela me incentivando sempre a estudar para um concurso público, porque era isso que ia trazer, de repente, a minha estabilidade financeira, que foi o que trouxe isso para ela; de que eu tinha que estudar e trabalhar e nunca servir a um homem de forma que eu me apagasse ou me anulasse, que eu tinha que ter orgulho de ser mulher, sempre, sempre, sempre seguiu nessa linha.

 

Mas assim, eu segui os conselhos dela até a página cinco, né? Porque eu engravidei muito cedo e acabei distorcendo um pouco esse caminho, porque quando você tem vinte anos, ainda terminando a escola, faculdade, aquele período de estudos ainda, você arrumar um filho, solteira, é muito complicado, então acabou dando uma desandada. Que era justamento o que… Que ela tentava que não acontecesse… E não adiantou muito.

 

Sempre fui muito maria-moleque assim, para brincar. Minhas amizades sempre foram mais os meninos. As meninas me excluíam (risos), não sei porquê, mas eu sempre tive… Acho que porque eu não tinha tantos brinquedos de menina, porque eu sempre gostei de uns brinquedos tipo, transformers, carrinhos… O meu pai tinha uma coleção daqueles carrinhos de ferro e ele me deu todos. O meu vô tinha ferramentas desse tamanho, quando ele abria aquilo parecia que brilhava assim, de lindo. “Nossa, para que serve isso? Para o que serve aquilo” e eu brincava com aquelas ferramentas. Eu sempre brinquei mais com as coisas de menino do que de menina e eu acho que por conta disso as minhas amizades sempre foram mais com os meninos. 

É verdade, eu nunca tinha pensado nisso, sabia? Mas os meus trabalhos sempre foram mais masculinos. 

 

Eu trabalho desde os quinze anos. Meu primeiro emprego foi no McDonald, aí depois de lá eu fiz alguns… Fui frentista de posto de gasolina, que eu era amarradona. O primeiro pneu que eu troquei eu adorei. Aí depois eu fui trabalhar numa loja aqui do lado, na Hidrowapess, que é uma assistência técnica de máquina de alta pressão. Então foi quando eu comecei a me envolver com o mundo que realmente me agrada. E fiquei acho que, se não me engano, cinco ou seis anos nessa loja, aí fui mandada embora, aí foi quando eu arrumei o emprego do Porto, aí a minha vida mudou. Aí eu me apaixonei pelo Porto.

 

Eu, de alguma forma, que nem quis ser mecânica de avião, não segui a linha de estudar para isso, mas sempre tive isso dentro de mim, de máquina. Gosto de coisas pesadas, gosto de ver máquinas de grande porte, sempre. Os transformers mexeram comigo (risos). 

 

Aí no Porto, quando eu entrei por um classificado de jornal e fui fazer a entrevista, odiei o que vi, já logo de cara, porque o cais é sujo, é poeira pra tudo quanto é lado, mas passei na entrevista, e eu precisava terminar o meu último ano de faculdade. Eram cinco, eu já tinha feito quatro, fosse o trabalho que fosse, eu ia abraçar pelo salário, para poder terminar, e ainda tinha o sonho de levar a Psicologia como profissão. Aí na primeira semana no cais, foi um horror, eu não conseguia entender aquilo, eu não conseguia entender o que as pessoas falavam, toda aquela linguagem.

 

Eu entrei em um setor chamado Registro, na época, e eu não entendia nada, nada, nem de contêiner e nem documentação, então foi muito impactante, e estava prestes a desistir com aquele peso da faculdade, aí um menino do meu setor me desafiou, eu não lembro exatamente da frase dele, mas ele me desafiou, tipo assim: “Se tu ver que não vai dar, corre”. Eu falei: “Correr eu não vou, cara, porque eu não sou dessas, vou entender esse diacho aqui” e aí eu fui me envolvendo de uma forma que eu comecei a mudar de setor com muita facilidade, mas tudo ainda dentro de escritório, tudo do documental, até que surgiu uma oportunidade no cais, mesmo, que era para Conferente de Carga, o que é assim, bem difícil de entrar. O gerente que eu tinha na época queria além de inserir mulher no cais, que ele era visionário, ele queria colocar mais gente que não tivesse o Ogmo para que se mudassem até o próprio posicionamento em relação aquelas pessoas. 

 

Aí eu fiz essa prova e passei, e fui a única menina… Dentro dos Conferentes de Carga e Descarga de Santos só tinham três meninas concursadas, o resto é tudo homem. Uma morreu, outra não seguiu, seguiu outra profissão e tem uma que é concursada que está atuando até hoje, então a gente só tinha uma mulher naquele momento com Ogmo no cais, e na empresa onde eu trabalhava, zero, nenhuma, então dentro da empresa onde eu fui trabalhar eu fui a primeira, foi muito legal.

 

Foi bem desafiador, porque as pessoas que souberam que eu tinha passado na prova me questionavam: “Você é louca? Você vai para o cais. Primeiro você vai trabalhar de turno, vai trabalhar de madrugada com aquele bando de homem estivador”. Eu falei: “Gente, eu sei me impor, sei me colocar”, mas mesmo assim foi surpreendente para a maioria das pessoas, e muitas deles, inclusive, achavam que eu não ia dar conta. A própria psicóloga que fez, ela foi muito antiética, porque ela me fazendo as questões para poder finalizar o processo seletivo, ela me questionava: “Mas você tem certeza? Eu acho que isso não é trabalho para mulher. Você vai ter que trabalhar na madrugada, vai ter que trabalhar debaixo de chuva”. E eu falava: “Não, eu dou conta, se eu não der conta vai ser mais uma experiência, mas eu sei que eu tenho capacidade para isso e tenho certeza que eu vou bem me encontrar”. Aí chegou o meu primeiro dia no trabalho no cais e 99% das pessoas eram concursadas do Ogmo, entraram só quatro fora do sistema, que era eu e mais três meninos. No primeiro dia um dos senhores do Ogmo, olhou para mim e falou: “Olha, eu não vou te ensinar nada, você nem olhe para mim, porque eu não vou te falar nada do que está acontecendo aqui, se vire”. Eu falei: “Caraca meu… Ferrou, né?” Primeiro porque eu nunca tinha entrada em um navio de carga e aí você se depara com ele lotado de contêiner, aquele bando de homem gritando, tudo pertinente ao trabalho, mas você não entendendo nada, o navio… “Olha, você vai para o primeiro terno”, o que é um terno do navio? Eu não entendi nada e não podia perguntar para ninguém, eu tive que ficar observando durante um tempo para poder visualizar, aí não estava entendo “bulhufas”. Aí um dos senhores do Ogmo acabou me adotando - porque aí acalmaram os ânimos deles - foi o Seu Cleiton, eu devo muito a ele de aprendizado, aliás, muito mesmo. 

 

O trabalho lá é muito desafiador o tempo todo, não tem só contêiner, tem carga geral, a gente embarca e descarrega lanchas, trator, caminhão, peças de avião eu nunca mexi assim… Se veio eu nem soube o que era, porque chega umas peças lá que tu não faz a menor ideia para que serve, mas são peças gigantescas. Aquelas pás eólicas, aquilo tem um comprimento, acho que são 52 metros de comprimento, gigante aquilo, são dois equipamentos levantando aquilo para colocar no navio, é muito louco. E eu fui me apaixonando por isso, por esse mundo, de brincar de batalha naval. Parece simples, mas não é. Assim, é bem desgastante. 

 

O próprio estar lá é um desafio. Estar lá é muito, assim... Eu nunca sofri desrespeito, mas tem algumas situações onde eu não tenho voz porque eu sou mulher. Eu estou certa, eu sei o que eu estou falando, mas eu estou sem voz porque eu sou mulher, isso não é descarado, mas é muito claro para mim, porque chega outra pessoa dez minutos depois, fala a mesma coisa que eu falei e ela: “Ah é, puts, como eu não pensei nisso”. Aí tu olha aquilo e fala: “Caraca meu, não é possível que até hoje pessoas ainda veem essa diferença entre homem e mulher em determinado tipo de trabalho, mas tem.

 

Cada dia no Porto, cada dia no cais é diferente, cada trabalho é diferente. O mesmo navio que veio hoje, que vai vir semana que vem, ele está diferente, porque são… Eu não sei como explicar, mas é diferente… O mesmo trabalho não é o mesmo trabalho. O mesmo navio é trabalhado de forma diferente toda vez que ele vem, porque são outros contêineres, outros portos, outra configuração do desenho do navio, outra configuração de como o pátio está, a retaguarda, então como eu vou trabalhar, se está chegando carreta, se não está, é uma engrenagem tão louca que nada é igual todo dia, na verdade nunca tem um trabalho igual ao outro, e isso é encantador. Assim, eu sou fascinada pelo meu trabalho, sou encantada realmente pelo que eu faço lá. Parece bobo, tira caixinha, coloca caixinha, mas não é só isso, tem toda uma mágica naquilo tudo, naquela movimentação toda. E quando tu para pra pensar que você está recebendo insulina, que tu tá recebendo alimento, que é realmente um comércio internacional, é uma movimentação do mundo ali nas suas mãos, isso é mágico. Eu acho incrível.

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