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História

Motorista das crianças

História de: Plácido Ferreira Braga
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/04/2020

Sinopse

Infância em Paracatu (MG). Primeiros trabalhos. Mudança para São Paulo. Trabalhos como motorista. Aposentadoria. Como motorista dos filhos de Ermírio de Moraes. Grupo Votorantim. Casamento. Política.

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História completa

P/1 - Soraya Moura

P/2 - Danilo Lopez

R - Plácido Ferreira Braga



P/1 - Bom, senhor Plácido, eu gostaria que o senhor falasse o seu nome completo, a cidade onde nasceu e a data do seu nascimento.

 

R - Perfeito. Quer dizer que eu tenho que falar novamente?

 

P/1 - Novamente.

 

R - Meu nome é Plácido Ferreira Braga, nasci em 1º de maio de 1918, [na] cidade [de] Paracatu, Minas Gerais.

 

P/1 - Ótimo. Seu Plácido, como que era um pouco lá a sua cidade, o que o senhor fazia lá em Paracatu?

 

R - Lá em Paracatu, eu trabalhava junto com o meu pai, ferreiro, mas não gostava. (risos) Queima muito.

 

P/1 - É? Mas como era?

 

R - A gente fazia, não é do seu tempo de conhecer, fazia ferragem para carro de boi. Você, na sua época, e vocês todos aí, não existia isso. (risos) Então lá a gente fazia a coisa; era prego, chapa, tudo isso para fazer a ferragem do carro.

 

P/2 - Mas trabalhava só você e o seu pai?

 

R - É, trabalhávamos juntos. Então, quando era na ocasião da coisa, que era a hora mais sagrada, de a gente colocar as chapas, fazia a fogueira, um fogueirão assim, e tinha a turma que vinha para assar mandioca junto, lá. E aí, quando a gente terminava de colocar a chapa, porque era tudo redondo. A roda, então, ela [ficava] quente, quase queimando, e depois a gente punha o prego e batia.

 

P/1 - O senhor era menino nessa época?

 

R - Era, uns 6 anos, mais ou menos. O tempo que mais eu trabalhei com meu pai foi nessa época, depois achei que não dava. Muito quente, viu? E outra, puxar a coisa, como que dá o nome? Me esqueci agora. Para puxar, quem puxava era a gente, o velho não puxava, não. A gente é que tinha que puxar para poder fazer o fogo. Era tudo ferro quente, mas eles ficavam da cor de ouro, por exemplo - o ferro ficava. E, também, fazia marca para os fazendeiros, a gente fazia. Por exemplo, JC - o cara queria. Pegava, fazia, dava um trabalho tremendo para soldar ferro com ferro. Não era bolinho, não. (risos)

 

P/1 - E era em casa, era uma produção artesanal em casa?

 

R - Era em casa. Tinha a oficina grande, assim, e tudo, tinha quantidade de martelo, marreta, tudo isso que precisava, bigorna - que você não sabe nem o que é.

 

P/1 - Eu sei!

 

R - Sabe o que é bigorna?

 

P/1 - Não é aquela coisa de ferro? É, eu sei. (risos) Não é do meu tempo, mas eu sei. (risos)

 

R - Leu?

 

P/1 - Li, vi uma fotografia.

 

R - E a gente fazia tudo quanto é serviço de coisa: ferrão para cutucar o pobre do boi que está no carro, dá uma cutucada nele; fazia também aquele, como é que chama? Fuzil. Sabe o que é fuzil? Não sabe.

 

P/1 - Não, fuzil eu sei que é arma.

 

R - Fuzil é arma. Não, esse é um pedacinho de aço, a gente batia ele e coisa, e aqueles caras lá de fazenda acendiam cigarro, punham um pedaço de chifre de boi, né, enchia de algodão queimado e uma pedra. Isso a gente fazia muito para vender, e vendia bastante.

 

P/1 - Olha, e usava como se fosse um acendedor?

 

R - É.

 

P/1 - Que coisa!

 

R - Aí o cara pegava, o cara com o cigarro, não dava labareda, era só a brasa, uma espécie de brasa, algodão queimado. E depois a gente fazia também qualquer serviçozinho: espingarda, a gente consertava; revólver, a gente consertava. Quer dizer, essas coisas a gente trabalhava, fazia. Aí depois eu fui embora para Pirapora, Estado de Minas, também muito pior do que minha cidade. (risos) Lá eu cheguei a roubar.

 

P/1 - É mesmo?

 

R - É, leite e pão.

 

P/1 - O senhor foi sozinho, com a cara e a coragem?

 

R - Sozinho, eu e a minha cabeça dura. Porque não tinha necessidade, mas a gente chega um certo tempo que a gente banca o bobo, o trouxa, e acha que lá fora é melhor do que a casa da gente, mas não é não, viu, eu penei muito. O cara colocou o leite e pão nas casas - não era só numa casa que foi não -, aí então quando chegava, eu pegava um litro de leite e um pão para poder me manter. Isso eu fiz diversas vezes. E dormia, porque lá em Pirapora existe muito essas casas que têm, como se diz, do lado de fora? Como é que dá o nome?

 

P/1 - Varanda?

 

R - Não, não, do lado de fora mesmo, de coisa, espécie de alpendre, para entrada, né? Eu acabava dormindo na casa de um, de outro. Esperava os caras irem dormir, né? Arrumei um cachorro. Você vê, até isso a gente arruma, viu? Arrumei um cachorro amigo.

 

P/1 - Tem que ter uma companhia, né, penar sozinho?!

 

R - É, uma companhia, penei bastante, então eu dividia meu leite e o pão com ele. (risos)

 

P/1 - E quanto tempo o senhor ficou assim?

 

R - Ah, fiquei mais ou menos assim uns 2 anos.

 

P/1 - Nossa!

 

R - Depois meu pai pegou um cara lá que tinha um caminhão e me trouxe na marra para voltar. Ele, o cara do caminhão, conhecido lá da minha terra, chegou e falou: “Escuta, você quer me ajudar a entregar essa carga?” Aí peguei e fui. Depois, ele me pegou, pôs no meio, ele e um outro, não pude sair. Aí não teve jeito, viu? (risos) Fui obrigado a ir para casa mesmo. E nessa ocasião eu trabalhava lá no coisa, caiu uma pétala de ferro aqui e quase que apodrece.

 

P/1 - Nossa!

 

R - Estava inchado, assim. Por isso que eu não queria ir embora, voltar. Aí chegou em casa, o velho pegou uma serrinha, amolou, passou no álcool, chegou e saiu aquela quantidade de coisa ruim. Depois foi indo [e] fui melhorando. Eu acabei saindo de lá, mas quando eu vim para aqui, já vim com um emprego, não vim assim a João Ninguém, não.

 

P/1 - Mas o senhor estava me falando que fazia serenata lá? Conta um pouco dessa história da serenata.

 

R – Ah, sim, a gente fazia serenata com a turminha lá, tinha uns caras que tocavam bem e gostava, porque se não gosta, não adianta. Fazia serenata quase todo sábado, né? E a senhora ficou admirada de dizer que precisava tirar licença. (risos) A gente tinha que chegar no delegado e pedir licença, aí ele autorizava por escrito e a gente ia fazer a serenata. E eu fiquei bem conhecido com o delegado, que ele dizia: “Olha, o dia que você estiver, não precisa de fazer, não precisa de vir aqui para pedir licença, não, porque eu confio em você, você controla o pessoal”. Eu não bebia [e] ia aguentar aquela turma, era preciso gostar mesmo do negócio, né? E os caras bebiam pra chuchu. E quando era, mais ou menos, 3 horas e pouco, sempre tem um bacana... Sabe o que é bacana?

 

P/2 - Não sei se é o mesmo que eu estou pensando.

 

R - Cara rico, aqueles caras ricos que tinham e chamavam a gente para ir tocar na casa dele. Aí ele dava bebida, comida, a gente ficava até 4, 5 horas da manhã lá, dentro da casa dele. Sempre acontecia isso.

 

P/2 - O senhor tocava o quê?

 

R - Eu tocava os outros. (risos) Eu não tocava nada, mas eu é que controlava eles na bebida. Eu andava com uma garrafa de pinga no bolso, para dar para eles, né, mas eu não bebia. Então controlava. E eu gostava, o chato é que eu gostava de acompanhar. Não tocava instrumento nenhum. E tinha saxofone, pistão, clarinete, aquele banjo, cavaquinho, violão, tinha tudo, era boa a coisa. Hoje em dia, eu acho que não tem mais igual aquele coisa, não.

 

P/1 - Ninguém faz mais serenata.

 

R - Para cantar para as mocinhas lá.

 

P/1 - E quem escolhia as mocinhas?

 

R - Quem escolhia?

 

P/1 - Vocês?

 

R - Não, elas escolhiam a gente. (risos)

 

P/1 - É sempre assim.

 

R - É, elas que escolhiam a gente para namorar. Mas tudo isso é passageiro, o negócio que a gente queria era farra, fazer a serenata. O gostoso era andar com o pessoal cantando.

 

P/2 - Isso, o senhor tinha quantos anos?

 

R - Isso eu deveria ter - foi quando eu voltei de coisa - de 17 para 18, mais ou menos. Porque depois é que eu vim para cá.

 

P/1 - E como é que o senhor veio para São Paulo, como que foi essa decisão de vir?

 

R - A decisão é que uma família, Botelho, de lá de Paracatu, tinha muita amizade comigo, então ele abriu um restaurante aqui na Rua São Vicente de Paula e me chamou para vim trabalhar aí com ele. Eu então vim trabalhar com ele aí. Depois que eles resolveram, foram embora, eu passei a tirar a carta de motorista e fui trabalhar de motorista na praça. Depois disso, saí da praça. Não havia ladrão nessa época, não havia, você podia ficar em qualquer lugar que não havia problema aqui de o cara pegar e coisa. Quantas vezes eu dormi dentro do carro. Porque a gente pegava um freguês lá pelas 2:30, 3 horas da manhã, a cerração era tanta que não dava para você voltar - mas não dava mesmo, a cerração era triste -, então a gente pegava, dormia no carro, e não tinha coisa nenhuma. E um belo dia eu deixei de dirigir na praça porque dois caras queriam me pegar, eu dei sorte porque tinha muita amizade com um investigador, um delegado aí. Eu trabalhava mais direto com esse delegado, nós éramos muito amigos, sempre à noite ele ia para lá fazer farra. As mulheres...

 

P/1 - O senhor era danado, pelo jeito, né? (risos)

 

R - Então, nós estávamos sempre juntos. E um dia ele estava lá no ponto - nessa ocasião, eu trabalhava com um Ford 1941, e eu tinha uma luz forte, aí chegou esses dois: “Então, escuta, pode me servir?” Falei: “Pode sim!” Subiram, e eu tinha a mania de antes acender a luz. Quando eu acendi a luz, ele estava perto, arrancou o berro e meteu nos dois. Ele disse: “Plácido, não vai levar esses caras!” Aí puseram eles para fora do carro, mandou eu dar uma revista nele, né? Eles tinham uma barra de ferro: “O que vocês iam fazer?” “Não, a gente ia dar só uma coisa nele e tomar”. Mas acontece que não tinha ladrão, viu, nessa época não tinha ladrão. Aí eu comecei [a] pensar: “Ah, vou largar da praça!” Aí comecei a trabalhar em casa particular e [depois], acabei chegando aí na Votorantim.

 

P/1 - Na Votorantim. E como é que foi, como é que o senhor chegou lá na família?

 

R - Eu cheguei na família simplesmente assim: eu trabalhei primeiro numa casa de família com o dono da... Como é que chama aquela coisa que tem ali no Bexiga, aquele teatro que tem ali no Bexiga, como é que chama?

 

P/1 - Não é o Sérgio Cardoso?

 

R - Não. É um teatro conhecido, antigo, e até hoje tem ainda esse teatro. Puxa, como é que foge da memória? Onde eu conheci a Tônia Carrero, conheci uma quantidade desses artistas que trabalhava lá. Teatro Brasileiro de Comédia.

 

P/1 - TBC!

 

R - TBC. Eu trabalhava com o dono, né, então a gente sempre tinha uma entradazinha e coisa, né? Depois dele é que eu fui para casa desse Serrador, Companhia de Cinema. Também uma família muito boa, principalmente ela, uma pessoa muito distinta e gostava muito de mim. E eu, todo sábado, ela pegava e mandava eu comprar umas coisas no Fasano. Naquela ocasião, o Fasano era o Can-Can. (risos) Aí ela pegou, me dava o dinheiro para mandar comprar as coisas [e] as sobras, o que sobrava, ela nunca pegava. Tanto é que sábado eu sempre tinha dinheiro, porque a sobra que tinha - eu não me lembro a quantidade de coisa -, eu sei que ela dava. E na hora de ir embora, 2 horas, mais ou menos, ela pegava e dava duas entradas do cinema. Eles eram o dono do Serrador.

 

P/1 - Então o senhor frequentou muito teatro e, depois, muito cinema?

 

R - Depois muito cinema, é sim. Quer dizer, tudo.

 

P/1 - E devia ser bem diferente lá da sua cidade, deve ter sido uma mudança, um susto?

 

R - Uh, Nossa Senhora, completamente. Aí eu fui pedir para ela para poder... Aí que entra a Riosan. Tinha um senhor por nome Alcides, que é lá da minha terra, ele era não sei o que da parte da administração, e me chamou umas três vezes para trabalhar lá, e eu falei: “Ah, eu não vou, não!” Quando foi a última vez, eu peguei, fui lá e falei: “Bom, depois eu vou lá conversar com vocês.” Aí eu falei com a madame lá, né, ela falou: “Bom, faz o seguinte: quarta-feira eu não tenho jogo, não vou para a casa de ninguém, eles vêm jogar aqui. Você pode ir." Aí eu peguei e ela falou: “Pode ir com o Cadillac.” Eu quase caí de costas. A patroa deixar eu sair assim.

 

P/1 - Cadillac?

 

R - Cadillac. Nessa ocasião, o Cadillac era a última palavra de carro. Tanto é que quando eu cheguei lá na companhia, lá na Riosan, veio todo mundo olhar o carro, né, porque para cá não tinha isso. Aí eu peguei, combinei com eles, foi um ordenado bem melhor, mesmo, [do] que ela me pagava. Aí eu voltei, falei com eles: “Faça assim [e] assim.” Aí ela falou: “Bom, o senhor não vai me deixar?” Eu falei: “Não, vou esperar até a senhora arrumar um [novo]." Gente boa [e] eu vou fazer sujeira? De jeito nenhum. Aí arrumou um motorista, e ela falou: “Olha, vou falar para ele que ele vai ficar aqui um mês. Se, por exemplo, você não der certo lá, pode voltar que o emprego é seu.” Mas, felizmente, deu certo, fui trabalhar na diretoria, né, motorista da diretoria. Depois, um dia, não sei se foi 2 anos, ou 3 anos que eu estava lá, doutor Ermírio chegou, precisava de um motorista para a casa dele. Pegou e me levou, eu fui lá.

 

P/1 - Isso na casa do Ermírio?

 

R - Na casa do Ermírio. Da companhia dele, eu fui para a casa, né, registrado na Mineira de Metais, na companhia dele, que justamente Seu Ademar é que tomava conta desse setor. Então, pegou e fui experimentar. Quando foi no segundo, terceiro, doutor Ermírio falou se lá em Osasco tinha alfaiate bom. Eu falei: “Tem!” Ele falou: “Então manda fazer dois ternos." Ah, imediatamente cheguei, mandei fazer. E acabou que o cara que não queria que eu fosse pra lá teve que pagar, né, porque o diretor, que eu trabalhava com ele, disse que não aconselhava minha ida pra lá. Você vê como é que são as coisas? E eu trabalhava pra chuchu pra ele. Todo mundo ganhava hora extra, o único que não ganhava hora extra era eu. Eu disse: “Escuta, por que o senhor não paga?”, “É que eu não posso mostrar isso lá no 'coisa' para o doutor Ermírio, 'não sei o quê'". E foi indo assim. Justamente quando o doutor Ermírio chegou lá e escolheu eu, ele falou que não aconselhava. Mas é que tinha um outro diretor, que era também muito amigo do doutor Ermírio, pegou e falou para ele assim: “Ermírio, pode levar que eu me responsabilizo por ele." Esse foi bacana comigo. Aí eu fui para lá, fui indo, passando os dias [e] fiquei lá quase 30 anos.

 

P/1 - Só com a família, aí já estava só com a família?

 

R - É, mas só com a família. Mas eles são muito bons, muito gente fina, mesmo. Você vê, eu aposentei quando tinha 65 anos, porque tinha perdido 8 anos que não pagavam o tal do Iapetec [Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Estivadores e Transportes de Cargas], né, não tive uma pessoa para me orientar. Hoje eu oriento todos, tudo que é rapazinho, eu corro e digo: “Escuta, paga, porque depois você vai ver que parece que não, mas serve.” E eu não tive orientação de ninguém, quer dizer: “Ah, vou pagar depois!” O soldado chegava, apertava a gente, a gente dava um dinheirinho para ele, né, para poder... E a gente nunca estava certo, quer dizer, pra mim foi ruim, perdi 8 anos. Aí aposentei por idade, mas continuei trabalhando lá sem registrar. Os caras falavam: “Mas você é besta, poxa vida, manda eles te registrar 'que não sei o quê'!” Eu digo: “Ah, eu quero é trabalhar!” Pra mim foi a melhor coisa que eu fiz, não querer arrumar enguiço com eles, porque se eu tivesse arrumado enguiço, querer receber, eu estava bombardeado, né? Hoje é que eu vejo que eles foram sinceros comigo, não pagaram, mas me ajudam. Se eu estou doente é só ligar para lá e eles mandam lá pra o Beneficência Portuguesa, eu não pago nada. É o doutor Ermírio que paga, porque lá é o seguinte: Votorantim, todo mundo, convênio Votorantim, mas todas as pessoas, cada um que manda, o doutor Antônio cobra, mas cobra mesmo. Eu sei porque eu tenho contato com o pessoal do escritório e que vem a conta lá para eles pagarem. Então, se eu tivesse feito alguma coisa errada, não gostasse, como é que eu ia fazer? Porque esse tal do INPS, a gente vai tratar lá, pelo amor de Deus, é uma tristeza. Felizmente, eu tenho essa vantagem. E outra, é de primeira, não é geral não, é quarto separado e tudo. São muito bons.

 

[Pausa]

 

R - Mas então, como eu estava dizendo, eles são muito bons e eu só tenho que agradecer. Quando eu saí eles falaram que iam me dar um “X”, né, depois ele chegou e falou: “Olha Plácido, é melhor fazer o seguinte: você pega esse “X” que nós vamos dar para você [e] torra ele. Você tem filhos, os filhos vão querer isso, aquilo e acaba torrando. Então, é melhor você fazer o seguinte: todo mês eu deposito um “X” para você na sua conta." E para mim a melhor coisa que aconteceu foi isso. Porque se eu pego o dinheiro, vamos dizer, que naquela época dava uns 50 mil - como o outro recebeu, o outro saiu na mesma coisa e recebeu 50 mil. Se eu tivesse pego esse 50 mil, hoje eu estava daquele jeito: quando chegasse no fim do mês, eu não teria. Porque o que eu ganho, o INPS, aliás, INSS, 300 reais. Quer dizer, e eles então me ajudam.

 

P/1 - Como que era o cotidiano do seu trabalho com eles?

 

R - Com eles?

 

P/1 - É.

 

R - Era... Depois eu passei mais a trabalhar com as crianças. Ela arrumou, justamente, eu que arrumei um motorista para ela.

 

P/1 - Ela?

 

R - A Dona Ana, a mulher do doutor Ermírio. E eu passei a só ficar só com as crianças.

 

P/1 - As crianças eram a Ana Helena...?

 

R - Ana Helena, Ricardo e o Fábio. Era três quando eu cheguei lá, mas tudo uma escadinha pequena, né? Depois eu fui buscar na maternidade, fui buscar a Ana Paula, depois Marcos, depois a Luciana. Fui buscar na maternidade. Não, eu estou enganado: Fábio, Ricardo, Ana Helena, três. Eles têm sete, eu busquei quatro. É, busquei quatro. Agora eu estou tentando lembrar o nome do primeiro. Foi Marcos, depois a Paula, depois... Puxa, se eu não lembrar o nome dele vai ser ruim, viu? (risos) É, porque ele é muito meu amigo. Agora a cabeça não está dando para lembrar.

 

P/2 - Não é o Ricardo?

 

R - Não, o Ricardo já tinha. Era Ricardo, Ana Helena, Fábio, Marcos - esse é que eu não lembro -, Paula e Luciana. Mas não deu ainda não, viu, preciso lembrar o nome do... Puxa vida, se ele ver uma entrevista dessa e não falar o nome dele!

 

P/1 - Daqui a pouco vem, a gente completa. (risos)

 

R - Puxa vida, a cabeça não...

 

P/1 - Não era Ermírio também, José?

 

R - Poxa vida, como é que a gente dá um branco assim? Esqueci. O pior é que eu vou lá sempre, encontro com ele. (risos) Como é que a gente perde a noção, assim, da coisa?

 

P/1 - Volta, daqui a pouco volta.

 

R - Puxa vida, que chato agora não falar o nome dele. (pausa) É, não veio.

 

P/1 - Daqui a pouco vem.

 

R - Não veio, daqui a pouco vem. O chato, sabe o que é? Eu vou lá, encontro com eles todos, e agora esqueci o nome.

 

P/1 - A memória volta, daqui a pouco ela volta.

 

R - Amanhã eu ligo para vocês para dizer o nome. (risos)

 

P/1 - Está bom.

 

R - É interessante.

 

P/1 - E o senhor tinha essa loucura com sete crianças, para lá e para cá, o dia inteiro?

 

R - Pra lá e pra cá. Muitas vezes eu estava almoçando, algum deles chegava e dizia: “Eu tenho aula particular agora!” Para mim não estava dizendo nada, deixava o prato, nunca fiz cara feia. Quando precisava dele, ele estava comendo, Nossa Senhora, fazia o maior escarcéu. Eu digo “Ah!” Eu acho que foi uma das coisas que ajudou muito, né, porque eu não tinha, assim, um estado de nervos de dizer: “Não, eu preciso de...” Não, eu pegava, largava alegremente a coisa, ia lá, pegava. Mas isso não foi uma, nem duas, nem três, foram diversas vezes que acontecia isso. Aula particular, tem isso, aquilo, e na casa de um colega, rápido, num aniversário. Eu tomava conta deles, ia para a fazenda com eles. E um dia aconteceu uma coisa chata com eles, começaram brigar entre eles [e] eu falei: “Para!” Um defendendo o outro e acabou... Aí eu encostei o carro e falei: “Quando vocês pararem, aí nós vamos embora!” Aí quando eles pararam, eu peguei o carro, cheguei lá, falei com a patroa, com a madame: “Olha, não posso ficar aqui por isso, isso e isso. Eles não me obedecem, e não me obedecendo, como é que eu vou ficar tomando conta deles?” Aí ela falou para o doutor Ermírio, e ele disse: “Plácido, quando for assim, pode bater!” Eu digo: “Eu não bato nos meus filhos, vou bater no filho dos outros?!” “Não, pode bater, é por minha conta, pode bater!” Falei: “Tá bom!” Quer dizer, depois desse dia acalmou tudo. A gente ia para fazenda e eu dizia: “Olha, quando for às tantas horas vocês estejam aqui”. Eu sozinho, os patrões estavam para cá. Mas a responsabilidade era tanta, viu, que o coração ficava daquele jeito. Porque estando lá à noite, tudo bem, mas eles tinham mania de pegar o cavalo e ir para não sei aonde, longe para chuchu. Então, eu falava com eles e eles, felizmente, me obedeciam. Quando era naquele horário estava tudo aparecendo. Para mim era: “Ah, que alívio!” É interessante, viu, a gente sentia meio culpado de alguma coisa, se acontecesse, mas, felizmente, deu tudo certo e eles procuraram também me ajudar. Tanto é que no feriado e coisa, eles iam para Campos do Jordão, eu ficava com eles, eles iam lá para o Hotel... Como é que eles chamam o hotel lá, um grande hotel que tem em Campos do Jordão?

 

P/1 - Hotel Nevada?

 

R - Não, o outro, um maior que tem lá. Eles iam encontrar com as menininhas e ficavam até 4 horas da manhã, e eu deitado no carro com a coberta, né, levava a coberta para poder cobrir, porque lá faz frio. É gostoso, viu?

 

P/1 - Então o senhor sabia tudo o que acontecia por baixo dos panos. (risos)

 

R - É. Eles, então, quando chegavam, sabiam onde eu deixava o carro, batiam [no vidro e] eu levantava. Quando era 8 horas da manhã, eu acordava para ir pegar o pão e o leite. Quando a gente passava assim parecia um lençol branco, né, porque a casa deles é lá no Morro do Elefante, e parecia coisa que puseram num lençol branco, assim, na estrada. Maravilha. E eu gostava, viu, de lá.

 

P/1 - O senhor conheceu o Senador?

 

R - Se eu conheci? Conheci. O pai deles, né?

 

P/1 - É.

 

R - Conheci. Um homem muito inteligente, como eu estava dizendo, de uma cabeça fora do comum. E quem puxou mais, assim, para a coisa, com ele, foi doutor Antônio. Doutor Antônio é um crânio, um homem de uma cabeça... É, puxou o pai. Tanto é que eles, além disso, têm a união, né? Eles entraram em acordo para um só representar todos. Por que que Matarazzo caiu? Justamente por causa disso: falta de união. Cada um queria morder mais do que o outro, e foi o que aconteceu. Já com eles, não, a união fez a força. E hoje em dia é uma potência, mas potência mesmo. Não é porque trabalhei com eles que eu digo, não, é que todo mundo sabe que é uma potência. E a gente fica satisfeito com isso, deles terem sorte, dos filhos terem sorte. Os filhos acompanham piamente a educação que eles deram. Deu sorte, não tem nenhum que... Não. Eu estava no carro com um amigo deles, com eles e amigos, e tinha amigos deles que... Mas eles, não. Nem fumar eles não gostam. São de uma coisa fora de série, viu? Muita sorte dos pais ter os filhos da maneira que têm. Porque rico, sabe como é que é, rico é rico. (risos) Filho de rico é fogo, viu?

 

P/1 - É pior ainda.

 

R - Mas eles, não.

 

P/1 - E a família sempre muito unida, todos?

 

R - E a família unida, o que é a base essencial.

 

P/1 - E os mais novos gostavam de ir nas fábricas conhecer, ou a empresa era bem distante do dia a dia deles?

 

R - Dos filhos, dos meninos?

 

R - É.

 

R - Não, começou "coisar" depois de 18 anos, aí cada um começou a pegar um bico aqui, outro ali. Cláudio. (risos) É, Cláudio. Mas eles não deram trabalho para os pais. Nem doutor José, nem doutor Antônio, nem doutor Ermírio, nem dona Maria Helena. Impressionante, viu? Todos eles são de um comportamento fora de série. E é difícil, muito difícil isso em família rica.

 

P/1 - E eles transmitiam para os filhos aquela coisa do trabalho, da simplicidade?

 

R - Basta só dizer que eu levei muitas chamadas do doutor.

 

P/1 - Doutor Ermírio ou doutor Antônio?

 

R - Doutor Ermírio. Por causa que os meninos pediam para ensinar a dirigir, e eu ensinava, e o doutor dava bronca. Porque lá é o seguinte: o cara só pega um carro para dirigir depois de 18 anos, é que ele pega o carro para dirigir, porque antes não deixava. E eu dava a eles o carro para dirigir, né, mas eu dizia: “Olha, cuidado, porque vai prejudicar você e a mim. Chega lá, você sabe como que seu pai é, né?” E eles então não faziam bobagem. Todos eles, eu...

 

P/1 - Era severo, o pai era severo?

 

R - É. Eu ensinei. E outra, não tem, assim, a gente está convivendo junto, então: “Deixa eles aprenderem, vai aprender mesmo, de todo jeito”. (risos)

 

P/1 - O senhor morava na casa com eles, ou não?

 

R - Não.

 

P/1 - Quando o senhor veio para São Paulo, foi morar onde?

 

R - Quando eu vim para São Paulo, eu vim morar... Espera aí, como é que chama aquela rua que tem ali no Centro da cidade? Aí dá para vocês falarem o nome. Eu digo ali no centro, no centro mesmo.

 

P/1 - São João, Ipiranga?

 

R - Não, mais para lá.

 

P/2 - São Bento?

 

R - Quase que você acerta. Perto da São Bento.

 

P/1 - Líbero Badaró?

 

R - Não, Líbero Badaró é bem mais para cá.

 

P/1 - XV de Novembro?

 

R - Não, paralela, está ali, é naquele centrinho. Puxa vida, essa eu já não lembro mesmo o nome, mas se falar eu sei. (risos) Eu estava dizendo que eu não tenho vergonha de falar o que aconteceu comigo, a primeira vez aqui. O cara que foi me buscar no ônibus, na estação, ele veio ali passando pelo Viaduto do Chá, eu olhei, assim, a Rua Direita, perguntei a ele assim: “Escuta, tem procissão?” (risos) Devido àquela multidão. Olha, naquela época, 1941, 1942, deve ser por aí, aquela multidão de gente. Eu estou acostumado lá na minha terra que só tinha muita gente quando tinha procissão, né? Ele falou: “Não, é gente andando para lá e para cá, não é procissão não." Eu falo isso, mas não fiquei com vergonha.

 

P/1 - Devia ser muito diferente, né, a sua cidade?

 

R - Uh, pelo amor de Deus. Puxa vida, como é que chama a rua? É naquele meio ali, depois do...

 

P/1 - Barão de Itapetininga?

 

R - Não, é depois. Tem a São Bento, que é assim, e ela, que é assim. Puxa vida.

 

P/1 - Depois da São Bento?

 

R - É. Foi o primeiro lugar que eu fui morar aqui.

 

P/1 - Foi pensão?

 

R - Uma pensão.

 

P/1 - Sozinho, o senhor veio sozinho?

 

R - Não... Eu vim sozinho, mas vim encontrar com esse moço e ele ficou comigo, morava lá e me arrumou também um cômodo lá, um quarto. Foi o primeiro lugar que eu dormi aqui em São Paulo, foi justamente no Centro da cidade. Como é que chama? Meu Deus do céu. (pausa) Estou pensando como é que... Só sei que era bem ali no Centro, perto, justamente é perto dessa Rua Direita, que é uma rua mais torta que pode existir na vida, e tem o nome de Rua Direita. É justamente naquele setor ali. Foi o primeiro lugar que eu dormi.

 

P/1 - O senhor casou aqui em São Paulo?

 

R - Casei aqui. Como é que chama? (pausa) Ah, não dá para lembrar o nome não, estou tentando, tentando, mas não dá. E é um nome pequeno, viu?

 

P/2 - Sete de Abril?

 

R - Aí, tá vendo.

 

P/1 - Sete de Abril?

 

R - Sete de Abril.

 

P/1 - Mas a Sete de Abril é do outro lado, não é?

 

R - Não, é naquele setor ali, a Sete de Abril. Isso mesmo, foi o primeiro lugar que eu fui morar.

 

P/2 - Como que era lá?

 

R - A Sete de Abril?

 

P/2 - É. Como que era essa região em 1940?

 

R - Não, mas tinha movimento, viu, sempre tinha movimento. Tinha bastante pensão por ali, mas tinha movimento, a Sete de Abril. Como hoje, hoje é moribundo, né?

 

P/1 - O senhor sozinho aqui em São Paulo, fazia o quê? Como lazer, como o senhor começou a se integrar, conhecer as pessoas, passear?

 

R – Ah, comecei a trabalhar, e nessa pensão tinha uma senhora, gozado, que me deu uma bronca tremenda, viu? Sabe por quê? Porque eu, humilde, querendo ser educado, fui pegar o ônibus junto com ela para nós irmos no Mercadão fazer umas compras, né, e eu deixei uma senhora passar. Ela falou: “Aqui não é como lá na sua terra não, aqui é cada um para si e Deus para todos! Não pode fazer isso não!” Mas no duro, porque acabou não indo naquele ônibus, encheu e eu tive que esperar outro. (risos)

 

P/1 - Foi ser cavalheiro, perdeu o ônibus. (risos)

 

R - Você vê que interessante: depois eu vi que ela tinha razão, eu não fiquei chateado com ela não, porque ela tinha razão, não pode mesmo. Aqui é cada um para si e Deus por todos. Mas eu como bobo e querendo ser educado, deixei a madame passar, deixei as pessoas passarem na frente, né? Depois eu vi que ela é que estava certa, não pode.

 

P/1 - É, deve ter sido... E da sua terra, o que o senhor lembra mais, o que ficou mais na sua memória lá de Piracatu?

 

R - Pira, não!

 

P/1 - Paracatu!

 

R - Pará. Pira, peixe, catu, gostoso.

 

P/1 - Ah, Paracatu. Era uma cidade bem rural, bem...

 

R - É, a cidade não tem muita (conta?) de contar lá, não.

 

P/1 - O senhor queria era fugir de lá, né, esquecer? (risos)

 

R - Eu sempre fugi de lá.

 

P/2 - Desde criança?

 

R - Não, criança não. Eu gostava de jogar bola, e meu pai me batia, na vista dos outros, no campo, ia pegar.

 

P/1 - Para não jogar bola ou por que jogava mal? (risos)

 

R - Não, para não jogar bola. É a criação da coisa, né? E porque o outro irmão era mais caseiro, mais junto com ele, e eu já tinha a memória, não sei se avançada ou atrasada, né, de ser liberal, não gostava de segurar, não. Eu gostava de ser livre, fazer aquilo que eu queria fazer, e o velho não aceitava. Eu apanhei muito quando era criança, e bem. Meu pai chegou a me amarrar numa mesa, num tronco de uma mesa. Se é hoje, ele ia para a cadeia. É, ele me amarrou com corrente, para não sair - que no interior tinha aquelas mesas feitas de madeira. Em vez de fazer três mesas com aquela madeira, faz uma só, né, muito forte. Ele então uma ocasião me amarrava. Eu falei: “Não dá, [é] a hora que eu sair daqui, eu vou fugir”. Aquela idade besta.

 

P/1 - Quantos irmãos vocês eram?

 

R - Nós éramos Francisco, Efigênia e Emília, três. Morreu Emília, morreu Efigênia, só tenho o irmão que está vivo. Também já está... Agora mesmo, aliás, o ano passado, eu fui no aniversário dele, arrumei uma quirelinha aí, então me deram uma passagem de avião até Brasília; de Brasília, eu fui de ônibus. Foi uma festa muito linda a dele. Porque ele é o tipo do cara que não sai da igreja, a turma chama ele de Frei Banha. (risos) É porque o apelido dele é Banha, então a turma chama ele de Frei Banha. Tanto que foi uma festa muito bonita que fizeram para ele lá em Paracatu, muito bonita mesmo, uma homenagem linda no aniversário dele.

 

P/1 - Quantos anos ele fez? Ele é mais velho do que o senhor, ou mais novo?

 

R - Mais novo, ele agora está com 81, foi o ano passado. Mas aquele sim, aquele de igreja.

 

P/1 - Ele ficou lá em Paracatu?

 

R - Ele ficou. Ah, ele nunca saiu, não, ele nunca foi revoltado.

 

P/1 - Rebelde.

 

R - Eu que fui.

 

P/1 - Mas se deu bem, né, seu Plácido?

 

R - É, aqui está tudo bem.

 

P/1 - Conta como o senhor se casou aqui em São Paulo, como o senhor conheceu a sua esposa?

 

R - Eu casei, assim, quase na marra, né? (risos) Sabe por quê? Porque eu tinha uma garota em Belo Horizonte, ela me esperou 10 anos para casar. Eu acabei um dia falando para ela: “Ah, não dá não, viu, eu vou acabar casando lá em São Paulo!” 

 

P/1 - 10 anos? Deixou a noiva na mão?

 

R - A noiva, nada. As duas, 10 anos cada uma. Porque a Luzia eu conheci ela carregando um garoto, um sobrinho dela, dentro de uma sacola. (risos) Foi quando eu conheci ela. Uma garota, tanto é que ela é mais nova do que eu 12 anos. E a outra também era 12 anos. E essa de Belo Horizonte era muito bonita, morena, bonita mesmo. Mas beleza não põe na mesa. A outra daqui, estava aqui, falou: “Eu vou pegar esse negrão!” Aqui está mais fácil, né? (risos)

 

P/1 - O senhor casou com quantos anos?

 

R - Ah, já tinha já uma porrada de anos, já tinha... (pausa) Ah, não me lembro.

 

P/1 - Mas já era bem adulto?

 

R - Já, já. Agora ela deve estar com 60 e lá vai pedrada, né? Quer dizer, eu sou 12 anos mais velho do que ela. Quando eu conheci, ela era criança. É que não tinha jeito com a outra, e nem com aquelas lá de Paracatu.

 

P/1 - Aquelas ficaram com raiva, né?

 

R - Aquelas. Sabe por quê? Preconceito. Aquelas de Paracatu, tudo. Tanto que até hoje tem uma delas lá, está já de idade, fala assim: “Não, eu não vou lá ver ele, não. Eu esperei ele muito tempo!” (risos) Eu digo: “Ah, mas eu nem sabia que você estava me esperando!”

 

P/1 - Que bonito, que história bonita, a vida inteira ficou esperando.

 

R - É, ela disse que ficou me esperando. Gozado, quando não é, não adianta. Não adianta, não era para casar.

 

P/1 - O senhor falou de preconceito. O senhor sentiu muito essa coisa do preconceito quando chegou aqui em São Paulo?

 

R - Se eu assisti?

 

P/1 - Sentiu, o senhor sentiu?

 

R - Ah, senti. Senti mais do que... Lá em Paracatu não "coisa", mas aqui o preconceito é muito maior.

 

P/1 - Era difícil para o senhor a questão de trabalho?

 

R - De tudo, de tudo.

 

P/1 - De tudo? O senhor lembra de alguma coisa, assim, que marcou?

 

R - Não, não. Para mim eu sempre fui um cara de sorte, nunca tive assim, de serviço, de coisa, não. Felizmente, não.

 

P/1 - Mas sentia na rua?

 

R - É, onde eu estava, estava bem, me senti bem, não tinha essa coisa. Agora, em termos de namorada, isso sim, aí o preconceito era muito alto, os pais não gostavam. E teve pais que queria que eu casasse com a filha deles. Aqui na São Vicente, aí, morava aí na São Vicente de Paula. E o pai dela queria de todo jeito que eu casasse, chegou a me entregar ela. É, chegou me entregar, pelo que ele fez, viu, chegou entregar. Mas eu sempre tive aquele negócio na cabeça, não sei o que é: nunca fazer mal à filha de ninguém. Sempre eu tive isso na cabeça, desde crianção, aquela mulherada, aquela coisa, fazer mal para a filha dos outros, nunca. Mas não passava mesmo oportunidade de ver isso, não. Eu não sei se eu era bobo ou o que era, mas eu me sinto bem assim, quer dizer, eu deito e durmo sem: “Eu fiz mal para fulana. Ela está aí, olha o estado dela.” É a natureza mesmo.

 

P/1 - Mas o senhor era namorador, pelo jeito?

 

R - Era. Eu dava muita sorte. Não é que eu namorava, eu dava sorte. (risos)

 

P/1 - Seu Plácido, o que o senhor acha dessa experiência de lembrar um pouco da sua vida e repassar, o que o senhor achou disso?

 

R - Ah, muito bom. Recordar é viver. É bom, sim.

 

P/1 - E um balanço desses 30 anos? O que o senhor acha que ficou mais marcado nesses 30 anos que o senhor esteve ligado à família, trabalhando com eles, o que marcou mais, o que o senhor guarda como uma lembrança boa?

 

R - Lembrança boa foi eu ter saído de lá de onde eu estava, da praça, depois passei a trabalhar com essa família do TBC, depois essa família do Cine Serrador e depois a família do doutor Ermírio. Quer dizer, esses quatro, a única coisa que eu gostaria que não tivesse acontecido foi a praça, porque praça não é boa, não, principalmente agora. Antes ainda dava para quebrar um galho, agora não dá não.

 

P/1 - Agora o senhor só está descansando.

 

R - Muito arriscado. Se, por exemplo, a senhora chegar para mim e falar: “Escuta, você quer trabalhar com esse carro aí?” Eu digo duas coisas: “As vistas não ajudam; e outra: praça para mim, não”. Nunca hei de pegar, porque a praça não é bom. Tem momentos bons, ruins, tem um monte de coisa. O bom mesmo foi as famílias que eu trabalhei, esses foram bons.

 

P/1 - O senhor estava falando que o doutor José se abateu muito com o período da eleição lá em Pernambuco. O que o senhor lembra, mais ou menos, desse período dele, nessa fase?

 

R - Bom, na fase do coisa, o que eu fiquei sabendo que teve, porque lá, infelizmente, é ainda cabresto. Quem ganha eleições não é o candidato, não é coisa, é... Como é que dá o nome do cara que toma conta dos peões?

 

P/1 - O capataz?

 

R - Quase capataz. O nome mais ou menos é esse. Como é que dá o nome?

 

P/2 - Acima do capataz?

 

R - É o... (risos)

 

P/1 - Daqui a pouco vem. (risos)

 

R - Como é o nome desse pessoal que chega, vai no comitê, vira para lá, fala com o eleitor?

 

P/1 - O cabo eleitoral?

 

R - O cabo eleitoral, justamente. Assim disseram que lá o cara que ganhou, pegou e comprou os cabos eleitorais, em poucos dias. E quando foi, porque todo mundo achava que ele ia ser reeleito, ele acabou não sendo, porque o cabo eleitoral... Porque lá não é como aqui. Por exemplo: eu voto em quem eu quero, a senhora vota em quem quer. Lá não, lá é no regime do cabo eleitoral.

 

P/1 - Cabresto.

 

R - E é onde ele entrou pelo cano.

 

P/2 - Os coronéis, né?

 

R - É. Mesmo os “cabra” disseram que ele foi ótimo para Pernambuco. E depois disso, depois que ele perdeu as eleições, ele não foi mais aquele doutor José. Foi caindo [e] caindo, até morreu de desgosto.

 

P/1 - É? O senhor acha que foi por causa do desgosto muito grande?

 

R - Eu acho, desgosto. Porque dinheiro não é, outras coisas também não é, foi justamente desgosto de ter perdido. Por quê? Porque ele não era político, ele era administrador, sabia fazer as coisas. Porque o político, não. Você não vê o Maluf, perde hoje, ganha amanhã, não toma vergonha, volta novamente, e assim por diante. Não só o Maluf, todos esses. Tem aquele lá do PMDB, como é o nome dele?

 

P/2 - Quércia?

 

R - Quércia. O Quércia teve a audácia de dizer que ia por um guarda em cada casa. (risos) É muito... É, ele falou na ocasião da política, da eleição, ele disse: “É, eu vou por um guarda na porta da casa de cada um de vocês!” Eu digo: “Como é que é tão descarado assim?” E acha que a gente compra uma dessa. (risos)

 

P/1 - Tem gente que engole, né?

 

R - E o pior é que tem.

 

P/1 - Tem. (risos)

 

P/1 - Quer perguntar mais alguma coisa?

 

P/2 - Eu acho que o senhor podia contar alguma coisa desses 30 anos, porque eu acho que deve ter tido alguma coisa interessante nessas noites em que foi levar os filhos para as festas. Não teve algum momento que houve alguma situação engraçada, alguma situação inusitada?

 

R - Não, sempre normal. É, com eles não. Felizmente, sempre normal, não teve nada assim, que eu lembre, de ter qualquer coisa, não. Nem aqui, nem em Campos do Jordão, nem em Bertioga, tudo sempre a mesma coisa. Não teve nada, assim, de anormal com eles. Felizmente, eu dei muita sorte. (risos) É, eu dei muita sorte. Eu estava com eles, tudo bem, graças a Deus [que] não aconteceu nada de ruim. A única coisa de ruim que aconteceu, não foi com eles. O Ricardo me pediu para levar uma namorada dele no Centro da cidade e, justamente, passando aí no Anhangabaú, os caras chegam e tomam o relógio dela. Eu estava sem relógio e ele falou assim: “Negrão, tu não serve nem para ter relógio, rapaz!” (risos) Foi a única vez que as pernas balançaram. É, no duro, interessante. Depois daquele choque de coisa, o cara com o revólver em cima, ah, bambeou as pernas. E depois para poder dirigir o carro? Ela [era] justamente do Rio Grande do Sul, essa garota. Eu falei: “Escuta, alguma coisa deu errado, o vidro deve estar aberto - estava aberto -, porque senão...” E o pior é o seguinte, que eu acho o gozado: é que todo mundo vendo, viu, naquele movimento, todo mundo olhando, mas ninguém pôde fazer nada. Mesmo que queira, não pôde. fazer nada. Só a polícia, né?

 

P/1 - Existia uma preocupação da família, já naquela época, com a segurança? Porque hoje em dia tem essa coisa de sequestro. Mas, naquela época, já existia uma preocupação de segurança?

 

R - Não, não. Interessante, não. E outra coisa também, que você falou uma coisa a respeito deles, eu não sei, eles não têm segurança. Eles deveriam ter, eu acho que principalmente agora. Naquela época, não, mas agora eles deveriam de ter segurança. Cada um sai com o seu carro.

 

P/1 - Eles são muito simples, né, na forma de ser?

 

R - É, só o Cláudio. Não, o Cláudio, o Fábio, Dona - a patroa lá -, que tem carro blindado. Mas os outros não têm, não ligam não. E deveria. Eles também dão muita sorte, né, é questão de sorte também. Porque a gente vê cada coisa aí, momentos aí que dão uma tristeza. Só o Marcos, um cara pegou ele dentro de casa.

 

P/1 - O Marcos?

 

R - O filho do doutor Ermírio. Mas acabou descobrindo quem era, um cara, ex-guarda, e ele queria pegar o Ricardo. Se ele pega o Ricardo, ele mata o Ricardo. Sabe por quê? Porque o Ricardo não mandou ele embora, mas mandou ele para trabalhar aqui no Jaguaré, no cimento, naquele pó, aquele pó cinza. Ele então pegou raiva do Ricardo. Se ele encontra o Ricardo, ele matava, mas ele foi lá, pegou o Marcos, levou. Depois, esse cara que é deputado, como é o nome dele? Que foi Delegado da Federal? Tuma. O Tuma que chegou, que descobriu, procurou descobrir tudo. Tanto que quando eu cheguei lá, não queria deixar eu entrar. Eu não sabia, né, cheguei e não queriam deixar eu entrar. Aí, não sei se foi o doutor Ermírio quem foi e falou: “Não, deixa ele." Fui para trabalhar, né, normalmente, aí ele veio me perguntar umas coisas. Eu falei: “Ih, está muito longe”.

 

P/1 - Então foi uma pessoa do cimento? O senhor conheceu essas fábricas de cimento que o senhor falou?

 

R - Conhecer quem?

 

P/1 - As fábricas.

 

R - As fábricas? Conheci diversas.

 

P/1 - E era terrível mesmo essa coisa de trabalhar com cimento?

 

R - Mas o que acontece é o seguinte: não pôs ele para trabalhar no cimento, pôs ele na guarda. Quer dizer, ele tinha que ir. E o pó não quer saber se é eu ou se é você, né, ele abrange. Aquele lado do pó é... Tanto que lá precisa andar de máscara. É aí no Jaguaré, cimento, né? Mas eu acho que o cara, dos anos, já deve ter saído, já tem muitos anos isso. Mas que foi chato foi, viu? A gente fica com dó. Eles não queriam matar o cara. Então o Tuma colocou uns cara varrendo a rua. Quando descobriu onde estava, varrendo a rua, na hora de receber o dinheiro o cara: “Tac”. Não na cabeça do cara, bem assim encostado, para balançar o cara, na hora de receber o dinheiro. Aí a turma chegou, ajuntou e pegou o cara.

 

P/1 - Aí pegaram?

 

R - Aí pegaram, levaram. O cara teve que dizer a posição onde que o Marcos estava, aí eles entraram, caíram em cima do Marcos. A polícia.

 

P/1 - Quanto tempo ele ficou assim, o senhor se lembra?

 

R - Ficou eu acho que uns quatro dias. É, eu acho que foi uns quatro dias. Não me lembro bem se foi, só lembro que eles trabalharam rapidamente. E o pior é que o cara gostava do Marcos, porque sempre descia para bater papo com os guardas lá, e coisa. Ele reconheceu o revólver, um revólver pequeno que o cara tinha.

 

P/1 - Nossa!

 

R - Mas é o que eu digo: graças a Deus ele não encontrou com o Ricardo, porque se ele pega o Ricardo, a bronca que ele estava do Ricardo... Mas cara bobo, viu? Cara bobo para fazer uma bobagem dessa, uma besteira dessa. Sabia que não ia muito longe não, como não foi.

 

P/1 - Que mais, seu Plácido? Alguma coisa que o senhor gostaria de contar para a gente?

 

R - Olha, já falei por demais. (risos) Eu estou parecendo papagaio, já falei demais.

 

P/1 - Mas essa é a ideia, é deixar o senhor à vontade, o tempo que quiser.

 

R - Não, não, eu acho que está bom, viu?

 

P/1 - É?

 

R - Tá bom.

 

P/1 - Então o senhor gostou?

 

R - Gostei, fiquei satisfeito.

 

P/1 - Então, para a gente foi um prazer.

 

R - Puxa, é quase 5 horas [da tarde], como passam as horas.

 

P/1 - Então, muito obrigada pela sua disposição, sua participação.

 

R - Obrigado vocês, por me tolerar tanto tempo. (risos)

 

[Fim do depoimento]

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