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História

Motivo de alegria

História de: Robson Donizeti dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/11/2014

Sinopse

Robson nasceu e creceu em Caçapava. Quando criança vivia na zona rural e frequentava a casa dos avós, colonos em uma fazenda da região, de onde tem as melhores lembranças. Seu primeiro emprego foi como pintor e uma das primeiras coisas que comprou com seu salário foi um rádio portátil que levava para todos os lados. Conheceu a esposa em um retiro da igreja e com ela constituiu uma família de três filhos. Trabalhou como conselheiro tutelar e enfrentou muitos desafios na tentativa de ajudar crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Hoje em dia, atua como auxiliar de coordenação na Casa de Acolhimento de Caçapava e se sente satisfeito quando vê o trabalho surtir efeito no cotidiano das crianças e jovens.

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História completa

Meu nome é Robson Donizete dos Santos, eu nasci no dia quatro de abril de 1972, em Caçapava, São Paulo. Meu pai se chama João Alves dos Santos, ele nasceu no dia 17 de agosto de 1946, em Caçapava. Minha mãe se chama Rosa Maria Leandro dos Santos, nasceu no dia dois de março de 1950, na cidade de Jambeiro. Meu pai é aposentado atualmente, minha mãe é do lar, sempre foi do lar, sempre foi de casa. Meu pai foi industriário durante a carreira profissional dele toda, e hoje está aposentado. Ele trabalhou em duas empresas multinacionais: GM e Volkswagen. São bem tranquilos. São pessoas tranquilas, eu acho que herdei isso deles também, tranquilidade, calma pra conversar. São pessoas de personalidade bem calma, bem pacata. Pessoas muito simples também, que foram criadas na roça, na zona rural, no trabalho rural, quando criança e adolescente. Então são pessoas bem simples e temperamento bem tranquilo.

 

A minha infância foi uma infância bastante gostosa. Por meus pais morarem em zona rural, meus avôs eram colonos de fazenda, trabalhavam numa fazenda. Então eu cresci, passei a maior parte da minha infância, até os 12 anos, morando na zona rural. Então meu pai, embora já trabalhasse em indústria, a gente morava na zona rural e a gente cresceu ali no ambiente livre, solto, com bastante brincadeira mesmo própria da época e num local bem gostoso e bem agradável de se viver. Então eu tenho boas lembranças, boas recordações da época de infância por ter vivido nesse local, em zona rural, num local bem arejado, bem gostoso, com bastante espaço pra brincar, pra se divertir. Eu posso dizer que aproveitei bastante. Eu morava numa casa, numa chácara próxima, e a casa dos meus avôs era numa fazenda de criação de gados. Ele era colono, empregado de um fazendeiro. Ele trabalhava e a gente participava da casa, da vida um pouco da fazenda. Então as brincadeiras com primos, com os colegas, amigos ali da idade, eram todas na casa da minha avó. Era uma casa bem ampla, bem arejada também, onde havia um pomar com bastantes frutas, laranjas. A gente gostava muito de se divertir, buscava água na mina, na nascente mesmo de água. Então a gente viveu nessa casa. Tinha bastante espaço também para as brincadeiras, pra gente jogar bola final de tarde, todo dia. Estudava também na roça. Tinha uma escola próxima, a gente estudava ali. Então foi um local bem gostoso, bem bacana, que eu pude aproveitar bem a minha infância.

 

A brincadeira preferida sempre foi o futebol. Desde pequeno sempre foi o futebol. Mas a gente tinha bastante brincadeira interessante, que praticamente a gente não vê hoje em dia. A brincadeira de polícia e ladrão, que uns fugiam, como era bem grande, uns fugiam, outros iam atrás pra procurar, e aí era diversão o dia todo pra poder achar, que a gente tinha bastante espaço pra isso. Brincadeira de peão, de cela, bicicleta mesmo, a gente fazia a brincadeira de andar de bicicleta como se fosse polícia e ladrão, correndo atrás do outro. Então tudo isso fez parte da infância, foram brincadeiras que a gente aproveitou bastante. A gente criava os nossos brinquedos. O meu avô que morava na roça, ele sempre fazia uma espingarda com taquara pra gente jogar mamona no outro, e coisa desse tipo. Então a gente criava. A gente não tinha muito brinquedo, não. Aro, rodinha com taquara e aro pra correr, como se fosse um carrinho. A gente não tinha carrinho, então pegava uma roda e criava um aro com taquara pra poder brincar. Era um dos brinquedos que a gente criava. Só o final do ano que a gente ganhava da empresa que o meu pai trabalhava. Mas durante o ano, a gente criava os brinquedos pra gente poder brincar.

 

A minha mãe, até hoje a gente tem que dar uma fugida pra ir à casa da mãe comer alguma coisa. Mas eu lembro que na época de infância, eu e meu irmão temos um ano só de diferença de idade, nós fazíamos horta no próprio quintal de casa. Como era uma chácara, a gente mesmo cercava, a gente mesmo plantava, a gente mesmo colhia as coisas. A gente aprendeu a fazer isso na escola e começou a desenvolver em casa. E a minha mãe então que cozinhava. E era comida simples, de coisas que a gente mesmo plantava, que a gente mesmo pegava ali. Então todo dia tinha lá uma abobrinha, tinha alguma coisa assim, legumes, ou verduras que a gente plantava. E ela, assim, sempre logo cedo, costume da roça, ela já tava em pé pra fazer o café. Não era comum, a gente não tinha padaria perto, não era comum ter o pão todo dia ali. Então ela sempre improvisava, fazia um bolinho frito, um bolo assado, sempre tava fazendo alguma coisa pra gente tomar café da manhã pra ir pra escola. À tarde a mesma coisa. Então a refeição sempre foi a minha mãe que fez e que a gente guarda com carinho até hoje essa lembrança das refeições que ela fazia.

 

A escola era uma escola muito simples na zona rural, onde tinha uma sala apenas, quando eu comecei. A primeira professora, dona Bernadete, eu lembro até hoje o nome dela. Depois vieram a dona Mariana, professora Mariana, professora Givaldina. São pessoas que passaram pela vida da gente, que a gente tem maior lembrança, maior carinho.

 

A gente ia a pé mesmo. A gente morava próximo à escola. A residência que eu morava era próxima à escola, e a gente ia a pé mesmo, andava a pé mesmo ali no local, no trajeto de casa pra escola e vice-versa. Eram turmas misturadas. E lembro que tinha o primeiro ano e o segundo ano de manhã, à tarde era terceiro e quarto, tudo na mesma sala. Duas séries na mesma sala. Por ser zona rural, tinha poucas casas, eram poucos alunos também, então dava pra fazer isso. Era um nome até estranho para os dias de hoje. Era Escola Estadual de Primeiro Grau Isolada do Bairro do Sapé. Era uma escola isolada mesmo, então tinha um nome um pouco diferente.

 

No primeiro momento de infância, eu queria ser piloto. Eu sempre desenhava avião, queria ser piloto de avião. Mas um sonho que ficou ali na infância, que se perdeu logo. Não me lembro de um motivo, eu lembro que eu gostava muito de avião, de desenhar avião, de ver desenhos animados sobre avião, sobre voo, então eu queria ser piloto nesse primeiro momento aí da infância.

 

Eu quando tinha 12 anos, eu tinha vontade de adquirir as minhas coisas, comprar meu rádio, minha bicicleta. E foi onde eu conheci um senhor, que morava na rua da minha casa, e ele fazia esse trabalho como pintor. E ele sempre punha alguns meninos pra trabalhar com ele. Era uma forma de aprender alguma coisa, tal. E ele punha os meninos pra trabalharem com ele. Foi onde eu comecei. O apelido desse senhor era Tatu, todo mundo o conhecia por Tatu, era um pintor conhecido na cidade. E eu comecei a trabalhar com ele pra poder ter meu dinheiro, poder ter minhas coisas. Eu lembro que eu comprei uma bicicleta nova, porque a que eu tinha era bem velhinha, e comprei um rádio, porque eu adorava ouvir música. Eu comprei um radio bem antigo, preto, que todo mundo já tinha, e tal, pra eu poder ouvir música. Levava para o trabalho, ouvia em casa, o tempo todo ouvindo música. Então foram as primeiras coisas que eu adquiri com o trabalho.

 

Na fase da adolescência, com 17 anos, foi um período de uma mudança maior na minha vida. Foi quando eu comecei a participar da igreja, comecei a participar de atividades religiosas. Eu fiz um retiro de um grupo chamado PLC, Peregrinação de Leigos Cristãos, e a partir desse momento, desse retiro, eu tive uma mudança em vários aspectos da minha vida. E nesse grupo que eu comecei a participar na igreja foi onde eu conheci minha esposa. Ela já participava, ela já era ali da igreja. Foi quando eu a conheci, a gente começou a namorar.

 

Para eu chegar até aqui, na Casa de Acolhimento, eu passei antes por um processo que... Como eu sempre falo, tudo é um aprendizado na vida da gente. Eu fui conselheiro tutelar. Eu me envolvi... Assim, na igreja, eu já trabalhava com crianças, que era a catequese. Eu dava formação para as crianças através da catequese. E houve um período então que quando foi criado o Conselho Tutelar aqui em Caçapava, na década de 90, teve umas duas ou três gestões, e depois, no início do ano 2000, eu me candidatei ao Conselho Tutelar. A gente tem todo um processo antes, tem a comprovação no trabalho da área da criança e do adolescente, e eu me envolvi diretamente na causa da criança e adolescente. Participando do Conselho Municipal da criança e do adolescente, fórum municipal, fórum estadual, e eu comecei a aprofundar mais sobre a área da criança e adolescente. Fiz vários cursos na área. Então eu me candidatei a uma vaga como conselheiro tutelar. É uma eleição pública, a população que vota, e eu acabei entrando no Conselho, fiquei lá por dois mandatos. Essa minha experiência no Conselho Tutelar é que me trouxe aqui hoje. A atual secretária municipal, ela me conhece, conhece o meu trabalho, conhece o meu envolvimento com a causa. E quando eu comecei a trabalhar na administração atual, ela me chamou pra vir trabalhar aqui na Casa e auxiliar de alguma maneira o desenvolvimento aí, o trabalho com as crianças e adolescentes aqui da Casa de Acolhimento.

 

Todo o trabalho, todo o envolvimento no Conselho Tutelar é marcante, porque são histórias, são vidas de crianças e adolescentes que têm os seus direitos violados. São crianças e adolescentes que são vítimas às vezes da própria família, às vezes de terceiros. E a gente tinha que fazer então essa intervenção junto ao Ministério Público pra que garantisse os direitos da criança e adolescente. Então foi um período de muito aprendizado pra mim, de muita experiência. Experiência até assim, difícil vivenciar, mas que precisava vivenciar pra de alguma forma poder atuar ali. Então foi um período de muito aprendizado também pra mim. Então, os maiores problemas que eu via, além da violência, de toda situação que é corriqueiro, que é comum, infelizmente, acontecer, os problemas com adolescentes sempre foram mais complicados, e principalmente quando a gente tinha uma situação com adolescente envolvido com drogas. Teve um caso de um menino que eu cheguei a casa, o pai tinha acorrentado o menino ao sofá pra ele não sair. E a gente teve que fazer uma intervenção bem séria. A gente sabe que isso por lei não poderia acontecer, o pai não poderia fazer isso, mas a gente também se colocou no lugar do pai diante da preocupação, da tentativa de segurar o filho em casa pra não usar mais droga, que o filho estava realmente se acabando nas drogas. E a gente fez o processo pra interná-lo numa clínica de recuperação, a gente fez um acompanhamento. Então esse menino foi muito trabalhoso. Depois que eu saí do Conselho, eu não tive mais notícia, eu não sei hoje como ele está. Mas foi uma situação, uma história que me marcou bastante pelo fato do desespero do pai ter que acorrentar o filho por causa das drogas. Então foi uma situação que a gente teve que fazer uma intervenção bem grande ali nessa situação.

 

Aqui na Casa de Acolhimento, eu vim pra auxiliar a coordenação. Hoje é a dona Rosa que é a coordenadora e eu to aqui auxiliando na coordenação. O trabalho aqui, a gente tem os funcionários, os educadores sociais que cuidam diretamente das crianças, um cuidado direto com eles, e tem outros funcionários de outras áreas da casa. E a gente tá aqui pra coordenar esse trabalho dos educadores e também coordenar o dia a dia da casa, as atividades das crianças, como escola, como cursos que eles fazem, atividades esportivas que eles fazem. Então a gente tá aqui pra orientar esse trabalho, pra coordenar esse trabalho. Então a gente tem procurado fazer isso. Essas crianças são aquelas vitimadas, aquelas que saíram das famílias por uma decisão judicial e que estão aqui pra poder garantir os direitos delas. Até que a justiça tome uma decisão, alguns podem retornar pra família, outros vão pra adoção. Enquanto eles passam esse período, eles aqui têm que todo o cuidado necessário pra uma vida digna, uma vida decente. E é isso que gente procura fazer, isso que a gente procura desenvolver com eles. Então a gente ainda encontra bastante dificuldade nesse aspecto, mas assim, é ao mesmo tempo maravilhoso. É compensador você ver que o seu trabalho, que a sua dedicação de repente surge frutos. Nós temos um adolescente aqui que final de semana agora vai disputar um campeonato mundial de jiu-jítsu. Foi vice-campeão sul-americano e vai disputar o campeonato mundial agora no próximo domingo. Então é um motivo de alegria muito grande pra gente. É uma atividade que ele faz fora da Casa, também por um projeto social, e ele desenvolve essa atividade e tá conseguindo isso, de ser um vice-campeão sul-americano e vai disputar um mundial de jiu-jítsu. Então isso é motivo de alegria, de orgulho pra gente, de ver que o trabalho tá surtindo o seu efeito, tá tendo os seus frutos.

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