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História de: Deusenir Pereira da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/11/2004

Sinopse

Nascida no município de Peixe (TO), Deusenir, mais conhecida pelo apelido “Morena”, vivia com a família na lavoura quando, aos oito anos de idade, seu pai faleceu. Por conta das dificuldades financeiras, sua mãe resolveu se mudar para o município de Aliança (PE), onde ela, mais tarde, se inscreveu e entrou no PACS, Programa de Agentes Comunitários de Saúde. Morena conta como ela e o Programa mudaram a vida das pessoas, e como ela própria mudou sua mentalidade após criar empatia com a história dos outros.

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História completa

P/1 - Fala aí como é o seu nome inteiro.

 

R - Deusenir Pereira da Silva Borges, me chamam de Morena.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Bom, eu ganhei vários apelidos. Quando eu nasci, meu tio disse que eu era Preta, e foi o primeiro apelido que ganhei, no dia que eu nasci.

 

P/1 - Morena, quando você nasceu, o que aconteceu?

 

R - Meu tio descobriu que eu era mais morena do que os outros, e me colocou o primeiro apelido que eu ganhei, que foi de Preta. Depois, quando eu cresci − eu não uso mais o meu apelido − eles começaram a me chamar de Morena, porque acharam que o meu nome era muito difícil, “Deusenir”.

 

P/1 - E o seu nome é por causa de que?

 

R - A minha mãe, acho que ela começou. Ela colocou o nome do meu irmão mais velho, Daniel, e ela quis seguir o “D”, aí a segunda, Deuselina, a terceira Deusenir, e se não morresse um que nasceu, ela tinha prosseguido com o D.

 

P/1 - E como era no nome da sua mãe?

 

R - O nome da minha mãe − ela ainda é viva − é Joselina Alves da Silva. O meu pai é que faleceu.

 

P/1 - Como ele se chamava?

 

R - Nelson Pereira da Silva.

 

P/1 - Você nasceu onde?

 

R - Eu nasci numa fazenda chamada Brejão, no município de Peixe.

 

P/1 - Aqui em Goiás?

 

R - Goiás, Goiás. [Atual Tocantins]

 

P/1 - Peixe é perto de onde?

 

R – Peixe... Ele é perto... É fora da [rodovia] BR. Gurupi, entra assim... Você não conhece a cidade de Peixe?

 

P/1 - É uma cidade?

 

R - É uma cidade.

 

P/1 - Você nasceu nessa fazenda perto dessa cidade.

 

R - Perto dessa cidade.

 

P/1 - E seu pai trabalhava na fazenda?

 

R – É, meu pai herdou do meu avô um pedacinho de terra, e nós ficamos morando lá distante de Peixe, oito léguas, corresponde a vários quilômetros.

 

P/1 - Em que ano você nasceu?

 

R - Eu nasci em 1964, 3 de setembro.

 

P/1 - Aí seu pai tinha esse pedaço de terra. O que ele fazia nesse pedaço de terra?

 

R - Nós criávamos porco, criávamos animais. Ele plantava, tinha plantação de cana, banana, mandioca, arroz, feijão, e a gente sobrevivia daquilo que nós plantávamos.

 

P/1 - E aí?

 

R - E aí, quando eu tinha oito anos, meu pai morreu. Minha mãe − eu já tinha seis irmãos − achou muito difícil criar nós ali, naquela cidade, naquela fazenda, e ela quis mudar para cidade, e escolheu Aliança para morar. Nós chegamos aqui em 73.

 

P/1 - Vocês vieram aqui para fazer o que?

 

R - Minha mãe primeiro, veio na frente. Comprou a casa e deixou  nós lá. Fechou o negócio com um homem doutor, fechou o negócio com a fazenda, vendeu a fazenda. Nós tínhamos terreno, comprou a casa aqui e nós nos mudamos para cá.

 

P/1 - E os seus avós ficaram onde?

 

R - Meus avós já estavam muito distante, eles já tinham mudado,  estavam no município de Araguaína, ________.

 

P/1 - Ah, então veio só sua mãe e os filhos. E quando chegaram aqui, o que ela foi fazer?

 

R - Ah, ela sofreu bastante, foi trabalhar pra nos criar, porque meu irmão mais velho tinha 14 anos, ficou só um ano conosco e voltou para fazenda onde ficaram nossos parentes, e minha mãe ficou com os filhos. Ela foi colher arroz, colher feijão, fazer farinha, foi sobreviver. Até que ela conseguiu montar um quiosquinho e desse quiosquinho ela criou os filhos.

 

P/1 - E o que é que ela vendia?

 

R - Vendia frutas, verduras, doces, bolos...

 

P/1 - E com base nisso ela foi criando vocês.

 

R - Com base nisso. Quando nós fomos crescendo, fomos arrumando serviço de doméstica, e fomos ajudando.

 

P/1 - Você foi para a escola?

 

R - Fui. Todos nós fomos para a escola. Ela sempre falava que o primário ela dava para nós, e o restante nós íamos tentar, quem quisesse. Ela cumpriu com a palavra, para todos que quiseram ela deu a quarta série. Quando eu terminei a quarta série, eu já trabalhava fora, como doméstica, eu trabalhava com a minha madrinha, ela tinha um armazém, e eu trabalhava de doméstica na casa dela. Ela me ensinou a fazer várias coisas, fazer bolo, doces, comidas, salgados, me ensinou de tudo que ela sabia. A partir daí eu já peguei base para seguir em frente. Aí eu fui para Gurupi, trabalhei mais um ano de doméstica. Fui para São Paulo, fiquei três anos lá, lá eu fiz um pouco de tudo, trabalhei em lavanderia, em fábrica, trabalhei de doméstica.

 

P/1 - E você foi para São Paulo por quê?

 

R - (Riso) Na época minha irmã mais velha já morava lá, e como lá empregada doméstica ganhava um salário − aqui eu ganhava menos de meio − ela me chamou pra eu ir para lá, pra gente ajudar minha mãe. Eu mandava de lá... Mandava metade do meu salário para minha mãe.

 

P/1 - Você ficou três anos lá?

 

R - Fiquei três anos lá. Voltei, voltei para passear aqui, aí já consegui emprego com facilidade, sabia fazer muita coisa, fui trabalhar em uma churrascaria por um tempo. Acabei casando...

 

P/1 - Aí você casou aqui.

 

R - Casei aqui.

 

P/1 - Você casou com que idade?

 

R – Vinte e seis anos.

 

P/1 - Demorou?

 

R - Demorei.

 

P/1 - Teve quantos filhos?

 

R - Casei depois que tive meus filhos todos. Juntei com a idade de 26 anos. Casei, tem o quê? Três anos que eu casei, nem tudo isso, não tem. Casei por opção... Não dá mais para separar, então vamos fazer as coisas certas.

 

P/1 - Você tem quantos filhos?

 

R - Tenho três filhos.

 

P/1 - E seu marido trabalha aqui também?

 

R - Trabalha, ele trabalha na fazenda, é diarista, trabalha... Lavrador, vamos chamar assim.

 

P/1 - E aí, Morena, como foi que você entrou no Programa?

 

R - Eu entrei no Programa já vai fazer dois anos agora em novembro, está faltando uns meses, tem um ano e alguns meses que nós entramos. (ruído de motor). Eu não fiquei sabendo, quando vieram apresentaram o Programa na cidade, eu não estava sabendo desse Programa, mas estavam fazendo inscrições, a minha irmã... Eu estava trabalhando no colégio, tinha saído também do colégio, questões políticas, porque um governo que sai, o outro faz o que ele quer, aí eu saí. Saí, e minha irmã falou assim: “Por que você não vai se inscrever lá nesse Programa?” Eu falei: “Ah, eu não sei o que é esse trabalho, eu não gosto de fazer coisa que eu não sei.” “Não, pelo jeito que estão falando vai dar certo para você”, porque eu já faço um trabalho evangélico de visitar as pessoas, há oito anos eu sou evangélica. Então eu fiquei assim, fui me inscrever, sem motivação, mas fui. Fiquei surpresa quando passei. Minhas colegas vieram aqui para dizer que eu tinha passado, fiquei muito surpresa, não esperava, eu não tinha feito por onde merecer, achei que tinha muita gente mais capacitada do que eu lá, mas acabei aceitando de braços, porque é uma coisa que eu gosto de fazer.

 

P/1 - Faz quanto tempo isso?

 

R - Bem, foi em novembro do ano passado, de 95, que foram as provas. Nós começamos a trabalhar em 22 de novembro, quer dizer que já tem um ano, já tem um ano e seis meses.

 

P/1 - Aí você entrou e como foi o seu primeiro dia de trabalho?

 

R - Ah, eu estava assim... Nós tivemos uma semana de treinamento, o primeiro passo da gente foi cadastrar as famílias, foi o primeiro passo, e eu fui bem. Comecei a gostar do meu trabalho, fiquei muito ansiosa, mas ao mesmo tempo preocupada, porque não sabia o que realmente eu ia fazer, qual que era a minha função ali, como se diz, eu estava pisando no chão que não era meu. Mas com o passar do tempo... Eu faço muita pergunta, eu dava uma força muito grande, porque sempre que eu tinha dúvidas eu procurava para ela se estava certo, se estava errado, e ela “dá um tempo, vai dando um tempo que você vai chegando lá”, e eu fui descobrindo que realmente, eu trabalho...

 

P/1 - E como é que você descreveria esse trabalho?

R - É um trabalho muito bom, que a gente tem que ter muita prática de chegar nas pessoas, ganhar a confiança delas, conquistar, porque no momento em que você entra na comunidade, eles acham que você vai resolver os problemas deles. Se eles têm um problema, contam logo ali, e você vai olhar para o problema com carinho, de todos os ângulos, para ver como ajudar aquela pessoa. Você tem, antes de mais nada... Porque nós prestamos serviços, mas ainda não somos profissionais, temos que pôr um pé atrás, e não adiante. Temos que examinar cada caso, levar para quem tem competência para resolver, então encaminho aquele caso para quem realmente tem competência para resolver.

 

P/1 - Me conta um caso que te aconteceu.

 

R - Um dos primeiros casos que surgiu na minha comunidade, quando comecei a trabalhar, foi a questão de uma carvoeira. Ela estava próxima às casas, e a carvoeira solta muita fumaça − o terreno foi doado pela prefeitura − então começou a irritar os olhos das crianças. Começaram, as crianças, a apresentar aquela doença que vai acabando o ar, não sei como chama aquilo, e a vizinhança inteira estava com problema com a carvoeira. Eles começaram a falar para mim... Dez horas da noite eles passavam aqui com as crianças para o hospital... E eu disse: “Não, a gente vai lutar juntos” e comecei, na primeira reunião que teve do Conselho de Saúde eu participei para eles. O problema nós teríamos que tomar uma atitude, eles ficaram a par, passei pra o secretário da Saúde o problema também, da comunidade, e eles foram jogando, fazendo jogo de cintura, até que eu encontrei um rapaz, muito assim, interessado na comunidade. Ele ligou para o Ramos, o Ramos veio, fez uma visita, e pediu que se achasse outro local para a carvoeira , que retirasse a  carvoeira do meio da  comunidade.

 

P/1 - E resolveu o problema...

 

R - Resolveu. Foi muita luta, muitas reuniões, muita insistência, mas graças a Deus resolveu.

 

P/1 - E depois, assim, com as gestantes, algum caso que você pegou...

 

R – Peguei. Tive uma vez uma gestante que, quando comecei a trabalhar, ela tinha 14 anos. Menor [de idade] e não queria, de maneira alguma, fazer o pré-natal. Eu comecei a conversar com ela, explicar para ela. Encaminhava, ia com ela para o posto de saúde fazer o exame, falando da importância, tudo. Graças a Deus ela teve a criança com 15 anos, mas saudável, não tiveram problema nem ela, nem a criança. Mas ah, foi a maior dificuldade, por  ela se opor, oferecer resistência, por ela ser muito criança não queria fazer o pré-natal de maneira alguma. Eu fui explicando para ela, encontrei também criança com peso baixo, que a mãe não ligava para a criança...

 

P/1 - E como é que é isso? Tinha muita criança desnutrida quando você começou?

 

R - Tinha um pouco, não era muito. A maioria estava assim, acima da prioridade que é o que  a gente prescreve todo mês, que é mais de dois anos, dois anos e pouco, né? Mas encontrei um que, além dele ser desnutrido, tinha problema de fraqueza. Tinha enfraquecido os ossos, então ele não... Arrastava, não caminhava, e a mãe nem se importava em tirar ele da rede, ele ficava dia inteirinho e à noite.

 

P/1 - E ela não dava comida para ele?

 

R - Dava comida lá na rede. Sabe, não dedicava afeto, carinho para ele, então eu fui trabalhar com ela, com a mentalidade dela, para ela mudar a mentalidade, e trabalhar com a multimistura, que foi o que apresentei, porque a multimistura, com todo aquele cálcio né... Ensinando tudo. Tinha que fazer, levar na mão e acompanhar para ver se realmente ela estava dando para a criança. Logo ele subiu, ele arrastou, e ... Hoje ele ainda não tem dois anos, mas já levanta, porque ele nem ficava em pé. Se colocasse ele em pé, ele sentava. Ele chorava, parecia que as perninhas dele doíam.

 

P/1 - Ah, coitadinho...

 

R - Pois é, porque na mentalidade dela, ele tinha que fazer fisioterapia, e ela não tinha condições. Falei: “Você mesma pode fazer a fisioterapia, vamos fazer”, aí eu ensinava os remédios. Falei: “Olha, eu deixei um trabalho assim porque a minha filha estava mal cuidada nas mãos de babá, então você pode cuidar dele, você vai ser a médica dele.”

 

P/1 - E aí ela aprendeu isso?

R - Ai ela aprendeu, aprendeu a fazer os exercícios. Falei: “pode brincar bastante com ele, e não ponha ele no chão antes que o sol esquente”, e fui ensinando os meios para ela cuidar, então hoje ele é uma criança superativa, saudável e bonita.

 

P/1 - Mas por que você acha que uma mãe deixa de cuidar, assim.

 

R - Ah, isso é um problema da comunidade, porque na comunidade, ele acha que é pobre, ele já é discriminado, não tem força para lutar. Então, às vezes, não tem comida ali, ele olha, não tem comida, ele acha que o resto nada interessa, e a gente tem que incentivar aquela pessoa a descobrir os meios dele de continuar a vida, porque pode faltar comida num dia, mas no outro dia aparece. A gente tem que transmitir assim, essa força, essa inspiração.

 

P/1 - E Morena, o que é que você viu que mudou desde que você começou o trabalho até agora? Você acha que mudou alguma coisa? Vamos por partes. Na sua vida.

 

R – Bom, a minha vida mudou muito, viu? Porque eu aprendi coisas, coisas assim, que eu não dava importância e comecei a dar importância. Valorizar a vida, a família, a educação dos meus filhos, me interessar mais pela educação deles, me dedicar mais às pessoas, porque eu era desligada... Se alguém me procurasse, bem, senão eu não ia atrás, era problema deles, não problema meu, entendeu? Mas hoje eu sinto que é problema meu, tenho que passar para eles que é problema de cada um, quando vêm falar assim, “Oi, Morena, está acontecendo isso, isso e isso.” Eu digo: “E você tomou que providências? Você também faz parte da comunidade, você também pode ajudar a comunidade. Nós vamos ajudar. Você deu o primeiro passo? Qual seria o primeiro passo?” Então eu já incentivo, né? Está lá a paciente, sofrendo para ganhar neném, eu não ensino eles a virem aqui em casa para eu buscar a ambulância, eu incentivo eles para irem buscar sozinhos, caminhar sozinho. Digo: “Ó, a ambulância fica lá, você tem que falar com fulano”, então é assim. Quando eu chego lá eles já foram e já voltaram, não precisam mais de mim. Antes não, o tempo todo eu que tinha que ir atrás da ambulância, tinha que ir buscar lá na casa. Ah, dependendo de mim, não... Ele tem que caminhar, a gente tem que incentivar e mostrar o caminho para eles caminharem sozinhos, acho muito importante. Tem que caminhar, buscar o interesse. Então acho que mudou muito essa minha mentalidade.

 

P/1 - E você acha que a comunidade também mudou?

 

R - Também. Acho que mudou muito, mesmo. A maneira deles se comportar... Antes tinha o problema da bebedeira da comunidade, “Ihh!”, eles pediam para beber, e não têm para comer, chega lá e eles não têm nada. Consegui doação de um filtro, no outro dia tomaram uma bebedeira lá na casa, quebraram o filtro. Mas o que é isso? Como vai crescer essa comunidade? A prostituição, jovens sem informação... A gente começou a trabalhar em cima das palestras sobre a gravidez, a AIDS [Síndrome da Imunodeficiência Adquirida], [sobre] como educar, palestra com a doutora, com a coordenadora. A gente foi trabalhando e mostrando para eles que, ao invés de comprar bebida, devia primeiro comprar comida, o pão tinha que vir em primeiro lugar.

 

P/1 - Mas eles ouvem isso?

 

R - Ah, ouvem. Eles mudaram completamente. A gente não atinge cem  por cento, mas eu acredito que... (barulhos). 

 

P/1 - Você acha que quem muda mais, o homem ou a mulher?

 

R - A mulher, a gente tem mais acesso à mulher. Os homens a gente conversa, mas eles ficam com receio. Quando a gente conversa uma vez com eles, eles inventam uma desculpa lá, vão levando. Eu já estou sabendo do problema e eles pedem para eu não tocar no assunto. Eu chego, faço um rodeiozinho. Uma vez um bebeu e foi parar no hospital com cólica de fígado, eu cheguei na casa dele e disse: “Ah, eu soube que o senhor estava hospitalizado”, e ele disse: “Pois é, uma cobrinha me mordeu bem aqui, e eu fui pro hospital só de susto.” (risos) Eu disse: “Não acredito não, me conta outra.” Eu disse que ia checar no hospital e ele ficou todo nervoso, porque não pode, é muito perigoso, não tem dois dias que você foi mordido por cobra e você está comendo ovos? É coisa assim, sabe... Mas ele não quer dizer que foi porque ele bebeu.

 

P/1- E no Programa , o que você mudou, desde que começou? Mudou alguma coisa?

 

R – Mudou, mudou bastante.

 

P/1 - O que é que foi?

 

R – Assim, primeiro passo, eu não sabia nem o que era o Programa. A gente passou a conhecer o Programa, cada atividade, o trabalho com as crianças, com a gestante, cresceu bastante. As vacinas, porque era realmente assustador o desinteresse pelas vacinas nas crianças, o pessoal não levava, aquele desinteresse... Só nas campanhas. Então agora não, tem as campanhas e eles vacinam tudo em dia. Então mudou bastante. Dificilmente, quando você vê uma gestante... Primeiro ela já foi lá na  médica, agora ela já vem com o cartão. E eu vou chegando, assim, encontrando um meio para falar com ela, mas ela já vem com o cartão. Já mudou né? Muito.

 

P/1 – É, mudou bastante. Então como você faz para ir trabalhar, você vai como?

 

R - Vou de bicicleta. Antes eu ia a pé, mas graças a Deus aqui na cidade recebemos bicicleta, então vou de bicicleta.

 

P/1 - Isso mudou o que no seu dia-a-dia?

 

R - Mudou muito. Porque, por exemplo, tinha dia que de eu [ia] fazer duas visitas, exigia era oito. Quando chegava no final, eu fazia uma, duas, porque era o tempo de chegar lá, tinha que voltar para fazer almoço, cuidar  das crianças, agora não. Eu vou, menos tempo, pegar área que mais _______ , né? Antes eu tinha que marcar uma reunião, levava uma semana para reunir o pessoal, e eu reúno o pessoal em um dia, mais facilidade.

 

P/1 - O que mais vocês ganharam de material?

 

R - Ganhamos o termômetro, o cronômetro, a mochila, ganhamos a fita métrica, a jaqueta, e todos os materiais.

 

P/1 - Fora a bicicleta, qual a coisa mais importante que você ganhou que facilitou a sua vida?

 

R - A mochila, porque os materiais não amassam. Põe dentro da mochila, a maior facilidade, você joga nas costas. Se não, você balança de um lado, põe em uma sacola... Caía, com chuva molhava... (voz ao fundo)

 

P/1 - Espera só um minutinho (PAUSA). Então a mochila ajudou à beça?

 

R – “Ihh”, bota tudo nas costas e vai embora.

 

P/1 - E você leva esse caderninho também?

 

R - Levo o caderninho para anotações. A gente pesa, mede com o centímetro, o que dá a gente faz anotações. Quando precisa a gente usa o termômetro para tirar a temperatura. Quando a criança está bem a gente não usa...

 

P/1 - E qual o problema maior que tem, as crianças ou a comunidade, que você acha, de saúde? Qual a maior dificuldade que você tem?

 

R – É... Da mamadeira. A gente incentiva, trabalha com a gestante desde o primeiro mês de gestação, preparando tudo para ela só amamentar. Só que quando vai , a criança começa a chorar e vem a avó, vem a tia: “Não, a criança está com fome, está com fome”, quando chega lá, ela já está dando mamadeira. Então a gente tem o maior trabalho para orientar, entusiasmo, e quando chega lá a avó...

 

P/1 - E conta para mim uma coisa. Você disse que muita gente é muito carente, e aí opta pela mamadeira, tem dinheiro para comprar leite...

 

R - Olha, fica aquele sofrimento. Eu tenho visitado uma... A mãe tirou o peito dela com uns quatro meses e deixou com a avó. E sumiu. A avó ficou dando mamadeira para a menina e ela quase... Foi internada três vezes na regional de Gurupi, com desidratação mesmo, daquelas... Mamadeira, não esteriliza mamadeira, pega diarréia, faz o mingau lá de qualquer jeito, fogão caipira pega fumaça, lá, então é isso, estava com diarreia. Como se diz? As moscas... Não é lugar adequado, limpinho, as moscas... Chega lá, dá mamadeira para a criança e depois deixa a mamadeira suja lá. Quando chega a hora de dar para a criança, só vai lá, lava “chuc, chuc, chuc”, pegou, deu.  Aí não tem como, a gente fala: “mãe, já que você está dando mamadeira, esteriliza o material para que essa criança não pegue outra infecção, outra diarreia, não desidrate...” Agora tem mãe, o seguinte, chega na (inaudível) “eu quero a solução, o leite está acabando eu quero que você me ajude aí...” “toma uma colher, um copo de leite...”, estou dando uns exemplos. Com os resultados, aí melhorou. Tem uma mãe que hoje falou: “A criança está com oito meses, ela não come mais nada”, “não, mãe, agora tenha paciência que ela vai comer a sopinha”, “não quer a sopinha, e eu não deixei... Trabalhei bastante, não foi hospitalizada nem uma vez, nunca teve uma diarreia, essa criança é sempre saudável, ou é gripe.”

 

P/1 - Mas esse é o ponto que o pessoal reage mais? No leite?

 

R - No leite. “Ihh”, eles querem  porque querem empurrar a mamadeira. Aí eu chego lá eles até se assustam.

 

P/1 - Eles têm medo de você?

 

R - Vai ver é porque a gente trabalhou, pedia bastante, eles querem esconder. Quando a gente chega lá que pega no pulo mesmo, eu falo: “Quanta mamadeira você está dando” “Ah, estou dando só duas, de manhã e de tarde, mas continuo dando o peito.” Eu não falo nada né, mas insisto: “Continua dando o peito...” Estimulo mesmo a dar menos mamadeira, para não ter problema com o hospital. Quer dizer que os índices de internação com diarreia aqui , acredito que diminuiu bastante depois que começamos com o Programa.

 

P/1 - Morena, me diga uma coisa: o que você gostaria que acontecesse daqui pra frente na sua vida? Você trabalhando com o Programa...

 

R - Gostaria que o Programa fosse... Porque hoje nós prestamos serviço, nós não somos profissionais de saúde... Que fosse um trabalho fixo, como profissional, porque nós ainda  não temos. E que a gente tivesse assim, estabilidade, segurança, material didático. A gente trabalha, aproveitando, não temos recursos.

 

P/1 - Você que fez esses cartazes? Muito bonitinho...

 

R - Foi, eu e outra colega que tem facilidade, nós mesmas bolamos e aproveitamos o material das campanhas, das próprias campanhas, que a gente aproveita para dar as palestras. Quer dizer que a gente está, como se diz, ainda não temos força suficiente para atender a comunidade como ela espera, né.

 

P/1 - O que eles mais esperam de você, Morena?

 

R - Ah, eu acho que está difícil falar o que eles esperam de mim (risos), acho que eles esperam mais é compreensão, porque realmente, isso que eu digo para eles sempre que eles vão conversar comigo, eu dedico toda a atenção, tento transmitir segurança para eles.

 

P/1 -  Mas eles contam para você todos os problemas da vida deles?

 

R - Todos, todos. Eu tenho que sentar ao lado do diabético, ele falou para mim que a médica passou regime para ele. Como é que ele ia fazer esse regime se na casa dele ele só comia arroz, feijão e carne − quando aparecia − aí eu não sabia. Eu vou estudar cada caso direitinho para ver, para conversar com ele, como sempre faço. Era um senhor de idade, já. Todo o caso eu estudo, vou com a doutora ver a possibilidade que eu possa orientar melhor e ver as condições para ele encarar o problema.

 

P/1 - Está bom. Eu tenho que fazer uma ficha contigo, tem alguma coisa que você queria dizer assim, mais...

 

R - Tá. Eu gostaria de agradecer a todos vocês que estiveram aqui, da coordenação, do PACS [Programa de Agentes Comunitários de Saúde], da Abifarma também, que mandou material. Foi muito útil, muito bom. Quero agradecer em nome de todos os agentes, porque todos estão contentes, satisfeitos, alegres. Quando a gente vê que eles tratam com carinho o material, e quando a gente se encontra nas reuniões mensais, fala: “Nossa o seu está mais novo, o que está acontecendo com a minha, que está mais branca... Minha bicicleta que caiu o _____”, que a gente vê que trata as coisas com carinho, então queria agradecer em nome de todos, foi muito bom para nós.

 

P/1 - Tá bom, obrigada.

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