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História

Mosaico feito de gente

História de: João Marcos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2020

Sinopse

Frequenta o Centro. Passagem e a trabalho. Conhece figuras interessantes. Sem sempre gosta da região. Trabalha com menores em situação de rua. Vive situações engraçadas nesse contexto. Concertos aos domingos no Teatro Municipal. Boa impressão do projeto de entrevistas.

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História completa

P1: Boa tarde.

 

R: Boa tarde 

 

P1: Por favor, seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R: João Marcos, 16 de junho de 1960, tenho 40 anos e nasci aqui em São Paulo.

 

P1: Você frequenta o Centro de São Paulo?

 

R: Eu sempre frequentei, às vezes de passagem, às vezes a trabalho mesmo, né...

 

P1: Você conseguiria definir a área, os locais que você passa mais, os prédios, praças?

 

R: Eu trabalhava no Parque D. Pedro II. Então sempre descia na Praça da Sé, no metrô, e ia lá pro Parque D. Pedro. Era um trabalho com menores de rua. É trabalho bem representativo do Centro. 

 

P1: Ainda trabalha com isso?

 

R: Não, não trabalho mais. Não tenho mais saúde, resistência física.

 

P1: Durante aquela época em que você trabalhou, algumas pessoas no Centro de São Paulo te chamaram a atenção?

 

R: Sim, me lembro bem, não chegava a ser um pedinte. Meio que aleijado, braços e pernas curtinhas que ficava tocando pandeiro para arrecadar dinheiro. Tocava com uma garra e era uma coisa assim: “taca, tacataca, tacatá.” As pessoas paravam para ver o cara todo deformado e a gente deixava um troco lá. Era um cara que não se entregava. Ele estava na luta.

 

P1: Que local era esse, você se lembra?

 

R: Era perto do largo São Bento, bem perto. Ele tocava com uma gana, era o trabalho dele, vinha no Centro trabalhar mesmo, não vinha pedir dinheiro. Castigava o pandeiro e cantava junto entre bizarro e esforçado. Era uma coisa [pausa].

 

P1: Ainda existe?

 

R: Não. Faz muito tempo que não vejo. Deve estar tocando em outras plagas.

 

P1: Um local, um prédio, uma praça, alguma coisa que te faça bem ou que te faça mal, mas alguma coisa que te marque bastante aqui no Centro.

 

R:  Ah! Tem alguns pontos que me marcaram: o Teatro Municipal. A gente ouvia os concertos nas escadarias. Os concertos eram nos domingos de manhã. O Teatro Municipal dava umas opções interessantes de concertos.

   Uma casa de mate. Eu era louco por mate com leite. Não sei se foram eles que inventaram, mas a gente ia lá, eu e um amigo, tomar mate com leite. Um amigo que morava no Centro, na Santa EfE o filé do Moraes. Hoje a gente foi almoçar no Moraes do Centro. Tem o da Alameda Santos, mas o do Centro é o do Centro. Tudo bem, as calçadas fedem e isso é desagradável. A mulher está grávida. Essas coisas desse tipo. Mas continua sendo o bom e velho filé do Moraes, adaptado à nova realidade, tem pratos mais econômicos, mas é muito bom. Aquele filé com alho e agrião junto. É bom demais [risos].

 

P1:  Começa dar fome na gente.

 

R1: É, dá fome na gente.

 

P1: No Centro de toda cidade existe um som característico, música que chamou a atenção. Como você pode caracterizar isso aqui em São Paulo?

 

R1: Burburinho, balburdia, mistura de sons. É um Centro muito vivo e muito caótico. Os camelôs gritando. É uma mistura. Mistura sons agradáveis com sons desagradáveis, cheiros agradáveis com cheiros desagradáveis. É uma balburdia. Às vezes me incomoda e às vezes, quando estou mais receptivo, eu ouço, cheiro, observo. 

 

P1: Nesse trabalho que você fez com os meninos de rua, teve algum caso especial que aconteceu, alguma interação interessante?

 

R1: Tem muita coisa, mas que chamava a atenção era de como essa moçadinha de rua, quer dizer, o Centro era a casa deles mesmo. Eu é que estava visitando a casa deles e não eram eles que estavam vindo a meu local de trabalho. Era onde eles se drogavam, riam, brigavam, pariam. Me lembro uma vez que eu atendi a uma criança, sou médico: “ah! tio, vou trazer para você dar uma olhada.” Falei: “pô! deve ser uma coitadinha.” Uma criança linda. Veio a mãe, era uma mocinha que tinha entre 14 e 15 anos. Veio a mãe com as amigas que moravam juntas no mesmo mocó, como eles chamavam. A criança era extremamente bem olhada. Cuidada, bonita. Todo grupinho se mobilizava para essa criança ter tudo. Eu esperava uma criança toda perebenta e nada, um bebê Johnson [risos]. Bebê Johnson do mocó.

 

P1: Que coisa interessante.

 

R1: É.

 

P1: Conta mais algum caso assim [pausa].

 

R1: A gente tinha um professor no projeto na Escola Oficina do Projeto Montoro. O professor era um negão chamado Fumaça. Ele dava aulas de dança, mas uma dança toda coordenadinha, meio militar. Era muito engraçado ver a moçadinha perfilada e, de repente, um se desperfilava e saía sambando. Aí começava a se desarranjar e o outro começava a sambar também. Então o exército estava sambando. Aí o Fumaça que estava lá, um cara muito bom. Ai o Fumaça falava: “vamos botar ordem nisso aqui! Volta aqui para a linha, não é para dançar isso aqui não! Aqui tem uma linha, tem uma coreografia”. Aí voltava lá, tentando botar limite! Eu achava muito engraçado, saboroso. Tem muita coisa lá, pena que acabou o projeto com essa coisa de troca de governo. 

 

P1: Há muito tempo que acabou?

 

R1: Faz tempo isso. Era um projeto da Lucy Montoro. Primeira Dama no Governo de Franco Montoro. A menina nos olhos, mas que pena.

 

P1: Como você está vendo a revitalização do Centro hoje?

 

R1: Olha, eu acho ótimo, porque tem tantos prédios bonitos e que estão mal cuidados. Poxa! Se alguém cuidasse um pouquinho. Eu acho que dá pra transformar o Centro de um mero lugar de passagem em um lugar que dê prazer. O órgão maravilhoso do mosteiro de São Bento. O órgão da Sé que restauraram agora. Na mesma hora que o pessoal fala que é um câncer que se espalha, o contrário também acontece. Às vezes tem coisas boas que começam com um núcleo, por exemplo começou no Anhangabaú e de repente podem estar se espalhando coisas boas.

 

P1: E essa exposição que está acontecendo agora, o que você acha dela?

 

R1: Ah! Estou muito bem impressionado. A gente está começando aqui pelo subsolo. Que legal! Essas histórias são muito vivas. Esses depoimentos são de pessoas para quem o Centro não é um lugar de passagem. É um lugar de convívio e de trabalho. O rapaz que coloca o banquinho no orelhão para as pessoas telefonarem com mais conforto. É gente que vive aqui e que capta as coisas e que visivelmente quer melhorar isso aqui. Eu estou me sentindo ótimo. Dá vontade de frequentar mais o Centro, tendo lugares e oportunidades como este.

 

P1: Está certo, então. 

 

R1: Eu é que agradeço.

 

“--- FIM DA ENTREVISTA --- “

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