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História

Mordido pelo bicho do Varejo

História de: Fernando Gasparini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/02/2021

Sinopse

Trajetória escolar. Curso de Torneiro Mecânico no Senai. Mudança para São Paulo. Curso superior no Centro Universitário FEI em São Bernardo do Campo. Estágio. MBA na Inglaterra. Trajetória no Grupo Pão de Açúcar. Logística e Varejo. Desenvolvimento e automatização do Centro de Distribuição Eletro. Expansão da empresa. Sonho.

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História completa

 

P – Bom, Fernando, boa tarde.

 

R – Boa tarde.

 

P – Pode ficar relaxado. É mais um papo assim. Eu queria que você se apresentasse dizendo o seu nome completo, a cidade e o local e a data do seu nascimento.

 

R – O meu nome completo é Fernando Gasparini Rocha Campos. Eu nasci em Santa Bárbara D’Oeste, em 1969. Interior de São Paulo. E fiquei lá até os quinze anos de idade.

 

P – Os seus pais eram de Santa Bárbara também?

 

R – São de Santa Bárbara. Ainda estão lá, Santa Bárbara. A minha família inteira é de lá. A minha esposa também.

 

P – Como foi tua infância em Santa Bárbara?

 

R – Bom, em Santa Bárbara foi, como eu disse, fiquei lá até os quinze anos. Fiz todo o meu colégio lá. Colégio primário e até a oitava série. A minha família inteira é de lá, então a gente vivia na casa dos meus avós e na casa das minhas tias. São todos de lá também. E até os quinze anos eu fiquei lá. Depois saí. Fui para fazer colegial em Piracicaba, que é bem perto de lá. Mas era um colégio melhor do que tem em Santa Bárbara. A estrutura de Piracicaba é bem melhor que Santa Bárbara. Até hoje é. E terminei o colegial em 1987, em Piracicaba.

 

P – Quando você foi para Piracicaba, você foi com os seus pais?

 

R – Não.

 

P – A família inteira se mudou? Não?

 

R – Não, eu viajava todo dia. Como é perto então a gente, nós fretávamos um ônibus para estudar no Colégio Objetivo de Piracicaba. Então todo dia a gente ia e voltava, né? E eu ainda fazia o Senai à noite em Americana. Então por um ano fiz essa vida bastante corrida. No segundo colegial eu fiz isso. Então eu fazia o colegial em Piracicaba e o Senai à noite em Americana.

 

P – O que é que você fazia no Senai?

 

R – Fiz Torneiro Mecânico, né? Meu pai fez Torneiro Mecânico. Meu pai era gerente, na época, da Romi, empresa nacional que até hoje está aí forte no mercado. Faz injetoras. Meu pai trabalhou na Romi por vinte e seis anos. Então foi meio que uma herança do meu pai fazer Senai. Eu também queria porque é uma escola formadora muito forte. Até hoje é, né? Muito importante no interior essa escola. Eu fiz, me agregou muito. Mas eu resolvi fazer a faculdade mesmo. Terminar toda a minha graduação, né, não partindo para o trabalho já. Meu pai me propiciou isso: até terminar a minha faculdade eu não trabalhei. Meu pai, era um ponto de honra para ele, que eu fizesse a minha faculdade sem trabalhar. Ao contrário dele que foi uma vida muito mais dura que a minha. Então meu pai, graças a Deus, e minha mãe conseguiram me dar toda a estrutura para me formar bem e ter uma vida, uma carreira boa para a frente.

 

P – E você tem irmãos?

 

R – Tenho uma irmã dois anos mais velha que eu.

 

P – E quando que você decidiu fazer a faculdade? Que faculdade que você fez? E por que é que você escolheu o curso?

 

R – Bom, eu fiz a FEI aqui em São Bernardo. Entrei na FEI em 1988. Eu sempre quis fazer Engenharia desde pequeno, sempre gostei de Engenharia, de projeto, essas coisas. Prestei a FEi, passei na FEI. É uma Faculdade muito conceituada, ainda é, uma das melhores do Brasil. E eu parti para a FEI em 1987, terminei em 1993. Me agregou muito a faculdade. Foi muito boa. Era o curso que eu queria fazer mesmo. Só confirmei tudo que eu pensava antes e durante o curso me motivou bastante. Era um curso bastante interessante. Casou com tudo o que eu queria. Era exatamente o que eu imaginava para mim.

 

P – Então nessa dinâmica de estudos, você era um menino quieto assim, você não era um…

 

R – Não, eu sempre fui quieto. Eu sempre fui uma pessoa quieta, estudava o que precisava estudar. Eu sempre quieto. Eu sempre me dediquei ao que eu fazia com muita garra.

 

P – Quando você veio para São Paulo?

 

R – Eu vim para São Paulo em 1987. Eu não conhecia a cidade quase que nada. Fui fazer o curso, vim com dois amigos meus. Ficamos em uma casa aqui no Butantã. E a gente ia para São Bernardo todo dia na Faculdade. Nós ficamos no Butantã porque esse amigo meu tinha uma casa no Butantã. Porque a gente economizava o dinheiro do aluguel, compensava gastar com o carro. Mas no final de tudo a gente acabou, resolvemos, alugamos uma casa lá. Um apartamento em São Bernardo e nós ficamos lá por mais uns quatro anos.

 

P – Qual foi a imagem que você teve de São Paulo quando chegou aqui?

 

R – Ah, para mim era um tabu vir para São Paulo. Era uma, nossa, vir do interior para São Paulo era uma coisa totalmente, era um mundo diferente. Com certeza ia ser um desafio para mim muito forte. E foi. Mas São Paulo para mim sempre foi a cidade que eu imaginava crescer, que eu imaginava ter a carreira e ter a experiência que eu queria ter. Então, São Paulo para mim, casou o que eu imaginava de São Paulo com o que eu realmente vivenciei aqui na realidade, no dia a dia. Desde 1987 até 1996 que eu fiquei aqui em São Paulo sem voltar para Santa Bárbara, um final de semana ou outro para ver minha mãe, para ver minha família. Mas a partir de 1987 eu vivi São Paulo quase que noventa por cento do meu tempo aí.

 

P – Quando você chegou em São Paulo você já conhecia o Pão de Açúcar?

 

R – Não, não conhecia o Pão de Açúcar. É interessante que em 1991 eu tive uma proposta, não é proposta, teve um programa de estágio do Carrefour – nosso caro concorrente – e eu tinha, me inscrevi para ir. Acabei não passando. Eles mandam a cartinha que a oportunidade não tinha se aberto naquela época. Eu sabia que o varejo era muito, como dizia um ex-chefe meu, muito dinâmico. (riso) Mas, que era um desafio. Que era muito, você tem que ter uma garra, você tem que ter uma força de vontade violenta. Não conhecia, eu conhecia as lojas do Pão de Açúcar de nome. O Jumbo Eletro que tem em Piracicaba e que eu ia com o meu pai quase que todo final de semana. Eu lembro que naquela época o meu pai se esforçava por fazer tudo. Mas não tinha, era tudo muito caro. E toda vez – eu lembro tão bem – ficava imaginando, sonhando com uma furadeira nova que tinha no Jumbo Eletro. Então o Jumbo Eletro também era muita, assim de inovação. De coisas de variedade, de abundância. Então para mim o Pão de Açúcar me lembrava isso. O Jumbo Eletro que no fim mudou tanto, né, que hoje está aí no Extra Eletro.

 

P – Era uma coisa moderna, né?

 

R – Era uma coisa moderna. Era uma coisa assim, nossa, para São Paulo, para a gente mostrava muita abundância. Muita, vamos chamar energia, vai. Coisas novas, você ia ter, ia ser outro mundo se você tivesse comprando em uma loja ou tendo, adquirindo os produtos da rede. Para a gente era gratificante ir nessa loja.

 

P – Era objeto de consumo.

 

R – Objeto de consumo, exatamente.

 

P – E como você foi, veio para o Pão de Açúcar? Quando que você começou trabalhar aqui? Como que você fez a seleção?

 

R – Então, eu na faculdade entrei no programa de estágio na Monark. Bicicletas Monark. Eu fiquei lá na Monark, eu entrei em 1992 na Monark como estagiário. Eu fiquei por dois anos como estagiário. Me formei e eles me efetivaram. Eu optei por não fazer uma pós-graduação logo depois da faculdade. Eu optei por ganhar um pouco de experiência para partir de algo muito mais forte. Muito mais formador. Depois de um certo tempo de, de uma certa experiência de trabalho. Então, fiz um programa, eu fiz um plano de carreira que eu, para mim assim, pessoalmente, foi muito, eu me, quando eu olho para trás eu falo assim: “Deu tudo certo”. Então eu me formei. Fui fiz lá na Monark, fiquei dois, três anos na Monark. Em 1996 eu fiz uma aplicação para, um application para fazer um MBA fora, na Inglaterra. Acabei passando. Fui, fiz o curso. Foi muito bom para a minha formação. Muito forte. Então eu vim para o Pão de Açúcar, voltei para um programa de trainee que o Pão de Açúcar tinha para MBA’s, em 1997.

 

P – O MBA você fez na Inglaterra?

 

R – Na Inglaterra. Aí eu voltei, quando eu voltei em setembro. Em novembro, 17 de novembro de 1997 comecei a trabalhar no Pão de Açúcar. Foi assim para mim foi uma virada total assim do que eu tinha imaginado até. Que eu tinha imaginado voltar para uma multinacional, né, alguma coisa. Mas o Pão de Açúcar foi tanto assim, me mostrou tanta garra, tanta vontade de crescer, tanta obsessão pelo “para a frente, vamos para a frente”. Eu lembro, eu entrei no Pão de Açúcar tinha vinte mil funcionários eu acho. Mais ou menos esse número. Hoje está com sessenta mil. E naquela época me venderam uma coisa muito, e é: “Olha, vamos crescer muito rápido. Tem muito desafio. É motivante”. Mas o que mais me chamou a atenção no Pão de Açúcar não é a, necessariamente, os desafios. Que é tudo muito motivante. Porque tem desafio, tem desafio que é chato. Mas todos os desafios que tinha no Pão de Açúcar eram muito motivantes para mim. Então eu fui muito, muito feliz na escolha que eu fiz na época. Eu lembro muito bem a Lígia, eu ainda tive um papo com a Lígia depois. Que a Lígia está aí na empresa. Ela falou: “Você fez a escolha certa”. E uma pessoa muito forte aqui no Pão de Açúcar, uma pessoa que eu, o Seu Augusto Cruz me falou uma vez: “Se você for mordido pelo pernilongo, pelo bicho do varejo, você vai gamar”. Mas não demorou nem um mês eu já estava gamado pelo Varejo mais do que quando a gente tinha entrado. Então foi muito bom.

 

P – E o que é que você veio fazer? Você passou pelo trainee de MBA e qual foi a função que você acabou ficando?

 

R – Então, eu sempre vim _______ no Pão de Açúcar para trabalhar com Logística. Eu sempre gostei muito de Logística. Um trabalho que eu fiz no Monark era voltado para Logística, sistemas de reposição, tudo isso. E eu entrei no Pão de Açúcar focando Logística. Porque Varejo não, para mim, eu enxergo Varejo como uma Logística. Como, nada acontece se o produto não estiver na gôndola. E para o produto chegar na gôndola é, um monte de coisas acontece atrás disso. Com fornecedores, com reposição. Com todo um sistema atrás e violento. Que envolve muita tecnologia, muito conhecimento, muito processo. Muita gente, muita inteligência atrás disso. Então sempre me atraiu muito a Logística. E eu vim para o Pão de Açúcar focando a Logística. E o programa de MBA que existia, que me atraiu bastante é que você vem a conhecer a empresa como um todo. Daí a focar em uma área que eu estava me candidatando. E eu tinha a oportunidade então de aprender como era o Varejo para depois focar em uma área. E foi exatamente o que aconteceu. Entrei fiz, fiquei oito meses em loja do Eletro, Extra, Pão de Açúcar. Rodei todas as bandeiras. Vim para a sede, fiquei um pouco na diretoria, um pouco, muito rapidamente pela comercial. Mas eu tive um trabalho muito forte para ser feito no CD, na Central de Distribuição do Eletro em 1997. Foi aí que começou toda a minha, todo o meu desenvolvimento na Logística. Então o CD Eletro, quando eu fui convidado para trabalhar no CD Eletro, era um CD que estava muito para trás na questão de tecnologia. Porque os outros CDs da companhia, nós tínhamos que nos equiparar rapidamente, porque o crescimento da empresa era muito forte, projetado para aquela categoria. Então eu entrei com essa atividade: “Vamos informatizar o CD Eletro”. Fazer a logística do Eletro acontecer porque estava muito engatinhando diante da Mercearia, das demais categorias. E aí começou, eu comecei a desenvolver o CD, fui para lá. Ainda não conhecia nada. Me amparei muito nas pessoas que a empresa tinha em Logística. Aprendi muito com elas. Com outras pessoas já velhas de casa. Conhecia bastante coisas. E fui desenvolvendo. O CD não tinha nem e-mail. Não tinha nem computador para fazer planilha. Nada disso.

 

P – Como funcionava?

 

R – Era tudo no papel ainda. Inteiro no papel. Não tinha nada, nada, nada. Era só a nota que era impressa automaticamente. Mas todo processo para trás era manual. Usava-se muito, muito giz para marcar produto. Para a gente falar com tal cliente. Então, assim, tinha muita coisa para fazer. E isso me motivou e a coisa que eu gostava de fazer. E a partir daí nós começamos em 1997 a desenvolver o CD. Em 1997 fiz muito pouca coisa porque já era final de ano, não tinha muito o que fazer. Deixei correr o final do ano, deixamos correr. Em 1998 foi um grande ano de muita mudança no Eletro. Muita coisa nova entrou. Cada projeto que ia entrando era um ponto, era muito gostoso. Hoje, hoje dia 27 a Informática entregou mais dois projetos que não têm nada a ver com o trabalho que eu estou fazendo agora. Cada projetinho que eu, cada passo que eu dou é uma satisfação pessoal minha. Mas aquela, muita coisa foi acontecendo uma em cima da outra…

 

P – Que medidas que foram sendo tomadas nesse período que você acha que foram relevantes e decisivas?

 

R – Bom, primeiro que a Companhia naquela época tinha acabado de comprar lojas da concorrência, do Eletro, né? _________ agora. Lojas de shopping então para se estruturar. Então o crescimento para aquela categoria projetada era muito forte, nós tínhamos como desenvolver. A gente não ia conseguir fazer o que a gente fez em 1998 e em 1999 se não tivéssemos nos desenvolvido antes com a mesma estrutura, pelo custo que a gente fez. E então as medidas foram: “Olha, vamos crescer. Vocês aí atrás façam a base nossa que nós vamos crescer. Se estruturem para a gente crescer”. A Companhia tinha acabado de centralizar todo o Eletro também, que eram as lojas Extra. Compravam a parte do comercial do Eletro na época. Decidiram centralizar, então o volume cresceu muito rápido. Então o CD começou a transferir muito mais, quase que dobrou a transferência em menos de um ano. Então foram coisas assim, uma atrás da outra. O crescimento de vendas até 2000, cresceu muito rápido. Em 1998, 1999 nós fizemos um projeto para saber por quanto tempo duraria aquela central de distribuição, o D2. Que hoje é frigorificado. Pelos nossos projetos não passaria de 2000. Dezembro de 2002. Nós então partimos para uma construção de um outro CD específico para o Eletro naquela época, que era um, estava um boom do Eletro naquela época, né? Nós, como outros também CDs, nós conseguimos CDs em Fortaleza naquela época em 2000. Abrimos Polvilho para FLV [Frutas, Legumes e Verduras], Goiânia que era, hoje é FLV, era só bazar. Então foi um ano, de 1998 para 2000 foi um ano de muita expansão da Companhia como um todo e para a rede logística da Companhia como um todo. Então foi muita evolução, muita tecnologia. O CD do Eletro, de 1997 para 1999, ele se automatizou inteiro. É todo ele automático. A separação no coletor para produtos de alto valor agregado. Antigamente era tudo na mão com romaneios. Então nós ganhamos muito com isso, nós passamos para entregar, nós entregávamos em 1997, oitocentos, novecentos pedidos de venda por dia. Geladeiras que você, nós chegamos a entregar em 2000, quanto mil e duzentos pedidos por dia, Dia das Mães. Então são coisas assim, são crescimentos absurdos em dois anos e foi muita coisa que foi entrando.

 

P – Como funciona a Logística hoje assim? Onde que fica o CD aqui de São Paulo? Tem várias cidades.

 

R – Tem. Bom, então, como eu disse, em 1998 para 2000 foi um ano de expansão regional também do Pão de Açúcar. De 2000 para 2002, vamos dizer assim, foi um ano de maturação, né? Um ano de, quando a gente consolidou a rede logística como um todo. Mesmo porque, também, quando a economia deu uma desacelerada, então a gente teve tempo para pensar. Então vamos reestruturar, né? Tanto que a gente fechou Polvilho, botamos FLV onde que era o bazar. O bazar foi para dentro do Eletro, que era só Eletro virou, Eletro e Não Alimentos. De Eletro passou para Não Alimentos. O têxtil que tinha um CD na Castelo Branco também fechou e foi para dentro do CD 6, que é o Não Alimentos hoje. Tem um CD que foi construído só para ser Eletro. Ele passou a ser um CD Não Alimentos. Tem todas as categorias Não Alimentos de um Pão de Açúcar dentro de um CD único. Então nós consolidamos muito. A rede de logística se maturou. Então hoje nós temos CDs regionais em Fortaleza, em Recife, Rio de Janeiro, Brasília e Paraná. Em São Paulo nós temos o CD 1, que é a Mercearia. Que tem a líquida e a seca. Temos o D 2, que é frigorificados. E temos Goiânia que é FLV. E temos de peixes agora, que acabou de ser inaugurado, e Holambra que é só de flores. Que também nós inauguramos ela em 2002.

 

P – Fica em Holambra?

 

R – Fica em Holambra. Ele fica lá em Holambra dentro da cooperativa de Holambra onde todos os produtores vendem, né? Uma cooperativa que vende flor. E foi em 2002 que nós fomos lá, fizemos o projeto. Inauguramos lá, fizemos o CD lá dentro. Inauguramos dia 9 de dezembro, ano passado. Uma loucura. Abrimos em menos de quinze dias, estava operando. Começamos com quatro lojas, um projeto pequeno. E, hoje, flores eu diria que é uma das vantagens competitivas que o Pão de Açúcar tem perante a concorrência.

 

P – E distribui isso para São Paulo inteiro?

 

R – São Paulo, eu não estou mais na categoria Não Alimentos, mas São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro também já está. Mas assim nós começamos, porque flor você compra que vem em carrinho, né? Nós começamos comprando dez carrinhos. Hoje são duzentos e cinquenta por dia. Então, na média, né? Pelo último número que eu vi. Mas assim, dá um orgulho olhar porque, pô, o CD em menos de quinze dias foi levantado, e hoje é uma vantagem competitiva que a CBD [Companhia Brasileira de Distribuição] tem. Então o poder que a Companhia tem de ir lá, descobrir novas categorias, novos mercados para entrar. São nichos, verdadeiros nichos para entrar. E a gente vai lá com volume e vai lá em compra. Ou aluga, ou desenvolve. A flexibilidade que a gente tem é muito forte. é isso que motiva.

 

P – E hoje você está trabalhando especificamente na parte de mercearia?

 

R – É. Hoje, em abril de 2003 desse ano nós fizemos uma reestruturação na Logística e eu saí do Não Alimentos. Porque eu estava lá por cinco anos e fui para a parte de gestão de estoque de Mercearia. Gestão de estoques e abastecimento de Mercearia. Que também é uma coisa muito motivante. É o negócio da empresa a Mercearia, né? É o core business. E onde também tem muita coisa para ser desenvolvida, já desenvolvemos bastante coisa esse ano. E muita que se desenvolver o ano que vem, para a frente. Então tem muita coisa para ser feita também. E para mim foi assim uma, um tipo de uma, vai, uma promoção. Porque eu saí de um negócio que eu já estava, conhecia tudo, tinha muito o que fazer também mas não, eu não ia ter um crescimento profissional e pessoal tão rápido como eu estou tendo agora. Em uma nova área, uma nova, um novo desafio.

 

P – Qual foi o momento mais marcante que você experimentou no Pão de Açúcar desde que você entrou?

 

R – Com certeza foi a inauguração do CD 6, o novo CD de Eletro em 2000. É um projeto que começou em janeiro de 1999. Ele durou um ano inteiro de 2000. A construção, o projeto, os cronogramas. Todo o planejamento de mudança do CD. Eu lembro que, a gente em janeiro de 1999, nós falamos dia quinze de setembro está entrando o primeiro veículo no CD. Dia quinze entrou o primeiro veículo do CD. Foi muito gratificante porque, e foi marcante porque foi uma coisa muito planejada. Deu uma coisa errada só no final, nós contornamos. Mas assim, foi muito, essa foi marcante. Porque um projeto que começou que teve início meio e fim. E foi muito, muito, muito forte.

 

P – Quantas pessoas trabalham em um CD hoje?

 

R – Na Mercearia tem mais de duas mil pessoas. Nos três turnos.

 

P – Como que é o processo da Logística assim? Dá um, rápido para mim. Como que funciona?

 

R – Bom, começa lá do fornecedor, né?

 

P – Hum, hum.

 

R – Desde lá o Comercial fechando as compras, junto com a seção de categoria definindo a linha. É aqui que vai ser comprado. Então, o fornecedor, ele é contatado, o pedido é feito. Todo o sistema parametrizado para com o perfil do fornecedor. O que é perfil do fornecedor? É prazo de entrega, quanto tempo, qual vai ser a demanda daquele produto na Companhia. Com isso nós definimos qual é o ciclo de entrega para o fornecedor. Quantas vezes eu vou pedir para esse fornecedor em uma semana. Ou, quinzenalmente, depende da demanda do produto. Tudo começa de uma definição clara de qual vai ser o perfil da compra daquele fornecedor. Mediante isso nós parametrizamos o sistema, começamos a fazer pedido para o fornecedor. O sistema, ele é, tem um sistema que ele foi construído para não ter ruptura. Em loja ou no CD mesmo, evitando ruptura. Então é tudo parametrizado e todo o sistema de pedidos começa. Ou seja, o fornecedor abastece o CD mediante as normas internas de abastecimento. A mercadoria entra no CD, é consolidada, né? As lojas pedem para a gente diariamente. Tem loja que pede diariamente. Tem loja que pede três vezes por semana. De acordo com o volume de venda da loja. Também temos que otimizar veículos, né, o frete também, o frete é cinquenta por cento do custo da logística. Então assim, um olho no peixe e outro no gato. Você olha o estoque e frete. Qual que é o melhor casamento disso para você ter o menor custo total. As lojas por sua vez, elas pedem de acordo com a venda também. Então a loja vende, vendeu dez caixas, repõe dez caixas. Vendeu dez caixas…

 

P – Isso tudo é informatizado?

 

R – Tudo informatizado. Não tem, pouca ação humana. O que a gente nota é onde o ser humano põe a mão alguma coisa dá errada. Então o sistema é feito para ninguém pôr a mão. Para ele rodar naturalmente. Então o caminho nosso da Logística é automatizar o máximo possível. Minimizando a interferência de qualquer pessoa. Então o nosso objetivo maior o que é que é? O Comercial compra, negocia. Esse é o que o Comercial tem que fazer: negociar. Ter preço, ter volume, ter condições. E todo o resto é feito automaticamente sem que ninguém ponha a mão. Esse é o objetivo.

 

P – Esse sistema também tem sinergia com os fornecedores?

 

R – Tem.

 

P – Tem informatização?

 

R – Todo ele é, todos os pedidos trafegam via EDI ou PDANET. Todo ele é automático. Também não tem mais aquele negócio de papel, nada disso.

 

P – O fornecedor já sabe quando está…

 

R – Já sabe, tem os dias certinhos que ele recebe, o horário que ele recebe. Nós estamos também melhorando todo o sistema de pedidos, né? Entrando mais forte com cross-docking, que é mercadoria sem o estoque no CD. Eu peço o que a loja vendeu e abasteço a loja rapidamente. Sem estoque na Central de Distribuição. Isso reduz o estoque da Companhia abruptamente. Se nós não tivéssemos cross-docking hoje nós estaríamos com certeza em torno de seis a sete milhões a mais do estoque que nós temos hoje nas Centrais de Distribuição. Isso é hoje, se nós pegarmos o estoque atual da Central de Distribuição hoje isso é quase cinco, seis por cento a mais do estoque que nós teríamos na Central de Distribuição sem trânsito.

 

P – Puxa.

 

R – Então, esse dinheiro aplicado, a gente imagina os ganhos que a CBD está tendo com esse processo. Nossa ideia para o ano que vem é avançar mais forte com isso.

 

P – Como que você definiria o Abílio Diniz?

 

R – Abílio Diniz? (riso) Nossa. Uma pessoa que tem a garra, uma pessoa que tem a visão. Ele sabe os pontos que tem que cobrar. Ele sabe motivar as pessoas. Ele sabe dizer: “Olha, vamos se mexer que não é bem por aí”. É, igual hoje na plenária: “Tudo bem, a venda está um pouco baixa mas espera aí: concorrência não está... espera aí os grandes dizem isso. Vamos se mexer. Vamos comer a parte que nos é, do mercado que é nossa”. Uma frase que ele fala que esboça como que é ele: “Tudo bem que eu quero que os outros, né, se for dar errado dê para os outros. Para nós não. Então a nossa parte é a nossa parte e aqui ninguém toma. Então eu fico preocupado quando os outros começam a crescer e a gente fica para trás. Se a gente está crescendo pouco mas os outros também estão crescendo conosco, aí tudo bem. Mas o que eu quero mesmo é crescer mais que os outros”. O Abílio eu acho que é assim: se você pode ganhar um jogo de três a zero, legal, vamos ganhar de três a zero. Ele prefere ganhar de três a zero do que ganhar de quatro a um, né? Porque acho que ele tomou um gol, ele não gosta de tomar gol. Então eu acho que ele prefere ganhar de três a zero, mas não tomar nenhum gol.

 

P – Você disse que você foi mordido pelo bicho do varejo. O que é que você aprendeu com o Varejo? Com a dinâmica, com essas pessoas que têm uma formação longa no, tem muita gente antiga aqui? Tem muita gente que está há mais de vinte. Passou por momentos que você não pegou. Por exemplo a crise dos anos noventa. O que é que você aprendeu para…

 

R – Que a gente tem que se mexer. O Varejo não é igual a uma indústria que você sai, entra às oito e sai às cinco e meia, sabe? O Varejo te morde de uma certa maneira que você quer ver número, você quer ver a venda. Você quer ver acontecer. Você quer ver o sorriso na cara de um cliente, no rosto de um cliente quando ele sai. Ele quer ver, você quer ver ele satisfeito. Então o maior objetivo para mim assim é ver todo dia o número de ruptura caindo, o estoque caindo. É isso que eu, sabe, então o casamento dos números perfeitos que dá uma vantagem para a Companhia. O que eu aprendi com o Varejo, com essas pessoas que me ensinaram muito é isso. Você tem que ser dinâmico, você tem que ser rápido. Você não pode se acomodar porque a concorrência vem para cima. Então a qualidade de vida que você tem é, pô, é o que você conquista dia a dia aqui dentro.

 

P – Você tem algum grande sonho, Fernando?

 

R – Grande sonho? É, eu ainda não cheguei aonde eu queria chegar aqui dentro. Então eu vou lutar muito para chegar aonde eu queria. Onde está meu plano, aonde que desde o que eu desenhei. E porque eu lutei, porque eu estudei para isso. Então eu ainda não cheguei ainda. Mas tenho plena consciência que tem todas as condições para chegar.

 

P – O que você achou de poder contar um pouquinho da tua experiência aqui com a gente?

 

R – É, muito legal, muito gratificante. Eu acho que a Companhia, é mais um reconhecimento da Companhia, né? Meu nome não apareceu por acaso. Está aqui, não fui eu que escolhi. Eu fui mandado, falou: “Ó, vai lá. Vai dar um depoimento que é interessante”. Eu acho que é um reconhecimento da empresa. Para mim é gratificante isso. Sempre que eu for convidado eu vou estar por aqui. Porque o Pão de Açúcar é um negócio que eu te falei desde o início, né? Motivante. Ele é motivante, porque quando você olha para trás, você vê o quanto você já andou. Nossa, não tem, olha, você olhar três, quatro anos para trás tem tanta coisa que a gente fez em três, quatro anos. Até menos que isso. Um ano, que não tinha. E hoje estamos aí. A gente acha que está com as melhores coisas do mundo, sabe? Está alinhado com tudo. Eu estive fora e vi muita coisa fora. Tem muita coisa que nós somos melhores que os outros. Nós não somos melhores ainda porque aqui no Brasil infelizmente o custo do capital é muito alto. E para você automatizar mais do que a gente está automatizado não vale a pena. Mas o que eles têm lá fora é a automatização que nós não temos por uma questão de retorno de investimento, só. Mas a parte de tecnologia, a parte de inteligência aplicada em todos os processos, seja em Venda, seja em Logística, seja em Marketing é uma coisa estupenda que nós temos. E, mas eu acho que, então eu vejo assim, quando você olha o futuro tem muito mais coisa para fazer. Então isso é o que motiva. Tudo o que a gente andou e olha o quanto tem para ser feito ainda. E o mais motivante: a Companhia te favorece a fazer isso. Ela te motiva, ela te incentiva: “Não, vai lá, faz”. Vamos lá e sempre tem coisa para ser feita. Não tem nada que engesse. Isso é que é motivante.

 

P – Muito bem.

 

R – Tá?

 

P – Obrigada Fernando pela sua…

 

R – Nada.



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