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História

Moradia para todos

História de: Maria José da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/05/2010

Sinopse

Em seu relato Maria José da Silva relembra momentos de sua infância e juventude, seu trabalho como babá e lojista em São Paulo, e como, mais tarde, se engajou em movimentos sociais para lutar pelo direito à moradia dos ocupantes de Santa Rosa.

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História completa

P/1 — Bom dia! Em primeiro lugar agradecemos sua presença e gostaríamos de começar a entrevista com três perguntas: seu nome completo, o local de nascimento e a data de nascimento, por favor.

 

R — Maria José da Silva, nasci em Panelas, Pernambuco, em 5 de maio de 1970.

 

P/1 — E seus pais, quais são os nomes deles?

 

R — Heleno da Silva, também nascido em Pernambuco, e Josefa Maria da Conceição, também nasceu em Pernambuco.

 

P/1 — Os dois são vivos ainda?

 

R — São.

 

P/1 — E você tem alguma informação a respeito da história dos dois, como eles se conheceram lá em Pernambuco?

 

R — Olha, a história que a minha mãe conta é que, na verdade, o casamento era arranjado pelos pais. Então, ela fala que a minha avó apresentou meu pai a ela, e só falou que ela teria que casar com ele. Se não me engano, aos 24 anos ela se casou, e meu pai tinha 17 anos.

 

P/1 — Nossa, os dois tinham essa diferença de idade?

 

R — É, uma diferença grande de idade.

 

P/1 — E qual a atividade dos dois?

 

R — A minha mãe hoje se encontra aposentada e o meu pai é auxiliar de limpeza.

 

P/1 — E naquela época?

 

R — A minha mãe trabalhava na roça, na lavoura. Sempre trabalharam na roça.

 

P/1 — Qual lembrança você tem dos seus pais, da sua infância, assim, a relação que você mantinha com eles?

 

R — Olha, meu pai saía de madrugada e chegava muito tarde em casa, mas da minha mãe eu lembro mais, porque ela ficava com a gente mais tempo em casa. De manhã, acordava, dava café pra todo mundo, pegava roupa pra lavar no açude, que são aqueles rios, bacias, que lá é chamado de açude, colocava a trouxa nas costas e carregava os filhos junto pra poder fazer esse trabalho. E, além de lavar as roupas de casa, ela também lavava pra fora.

 

P/1 — Entendi. Quantos irmãos você tem?

 

R — Nós éramos 11, só que vivos, hoje, somos oito.

 

P/1 — E qual a sua posição entre os irmãos?

 

R — Eu sou a caçula das mulheres, porque tem um mais novo que eu, sendo homem.

 

P/1 — E os nomes deles todos, você pode falar pra gente?

 

R — (risos) O mais velho é o Manuel Heleno da Silva, Maria do Socorro da Silva, Maria do Carmo da Silva, Antônia Josefa da Silva, Maria Edileusa, eu, Maria José e o meu irmão mais novo, Givanildo.

 

P/1 — Foi numa hora boa, hein? (risos)

 

R — (risos) Acho que não esqueci nenhum.

 

P/1 — Você tem lembrança da sua casa, da infância lá em Pernambuco?

 

R — Tenho poucas. Às vezes, vem na memória uma casa grande, onde não tinha piso, as janelas também eram todas furadinhas, de madeira. Eu sei que era muito alto, que tinha umas madeiras onde minha mãe guardava os alimentos, em cima do telhado. Então, eu me recordo mais ou menos, tenho essas lembranças de lá. Era uma casa assim, muito grande. 

 

P/1 — Como é? Ela deixava os alimentos em cima do telhado? Não entendi.

 

R — É, tipo carne-seca. Tinha umas madeiras sobre o telhado, entre um telhado e a casa e, aí, ela amarrava e colocava lá. Sardinha seca, feijão, arroz, até mesmo pra não deixar no chão, não sei se não tinha um armário, não me lembro se tinha armário, mas muitas das coisas ela guardava lá. E também uma das coisas que ela conta, que era para minhas irmãs não comerem, porque, às vezes, ela saía, deixava a gente sozinho, as dificuldades lá eram grandes, era tudo regradinho, tudo contadinho. Às vezes, ela saía de casa e, se deixasse na altura das crianças, era capaz dela chegar e não encontrar mais nada (risos). Pode ser que seja isso.

 

P/1 — E a infância de um modo geral na sua cidade natal? Como era ser criança lá?

 

R — Olha, eu tenho boas lembranças de lá, porque tinha muito espaço para brincar. Morar no meio do mato, você faz várias brincadeiras, encontra também com os vizinhos... Mas eu me lembro dos espaços, a gente brincava muito de pular do lajedo, que eram aquelas pedras imensas. A gente subia lá no topo e pulava lá embaixo na areia, ou brincava de esconde-esconde no meio dos pés de frutas. Brincava de casinha também, aí a gente pegava tomate verde no pé e brincava com as irmãs de casinha, cozinhando, tinha essa liberdade. 

 

P/1 — Quando você se lembra da sua infância, dessas brincadeiras, da sua casa, qual a recordação querida que você tem, especial, dessa época? Um episódio ou uma pessoa...

 

R — Olha, o que mais me marcou, não sei nem se é boa, mas foi engraçada, foi uma vez que o meu irmão me colocou em cima do ombro dele e pulou de uma dessas pedras, e acabei caindo e quebrando o dente. Foi uma coisa que marcou muito. Naquele tempo acabou sendo perigoso e tudo, mas quando a gente vem revivendo essas histórias, a gente dá muita risada. Eu me lembro muito desse episódio.

 

P/1 — E aí, o seu pai saiu logo cedo pra São Paulo? Ele se mudou pra São Paulo, foi isso que aconteceu?

 

R — É, o meu pai, na verdade, veio antes, deixou a família, minha mãe com todos os meus irmãos, e ele veio pra cá tentar a vida na cidade grande, ele veio sozinho. Nós ficamos lá, se eu não me engano, em torno de uns quatro anos sem ele, ele morando aqui e minha mãe lá, cuidando da gente.

 

P/1 — E você tinha quantos anos quando ele saiu de lá?

 

R — Ah, era pequenininha, devia ter um ano, dois anos, pelo que minha mãe conta. 

 

P/1 — Então você não se lembra dessa partida dele?

 

R — Não.

 

P/1 — Nesses anos ele ia às vezes visitar vocês lá ou não?

 

R — Não. Minha mãe falava que ele mandava dinheiro pra poder sustentar a família. Mas eu não me recordo dela falar dele voltar, ficar lá um tempo e depois vir de novo.

 

P/1 — Então, você passou esses primeiros anos da infância, sem ver o seu pai.

 

R — É, acredito que sim, porque a pouca lembrança que eu tinha dele, foi nesse processo que ele veio pra cá, pra São Paulo.

 

P/1 — E você começou estudando lá em Pernambuco ou só quando veio aqui para São Paulo?

 

R — Não, só quando vim para São Paulo.

 

P/1 — E essa vinda pra cá, como foi?

 

R — Olha, me lembro de que nós chegamos aqui numa época de muito frio. Aí eu já tinha seis anos de idade. Viemos morar no mesmo bairro que hoje a gente ainda mora, o meu pai alugou um barraco de madeira, eram dois cômodos, com poucos móveis, pouco recurso e, como lá no nordeste é muito quente, eu lembro que aqui a gente passou muito frio nessa época, porque a gente veio pra cá com roupa de calor praticamente, vestidinho, essas coisas, então, não foi fácil o início nosso aqui. Foi muito difícil. 

 

P/1 — Você lembra-se da viagem propriamente dita, de lá de Pernambuco até aqui?

 

R — Não, não me lembro. Só sei que a minha mãe fala que foi uma coisa desesperadora, porque ela, sozinha, com oito filhos, todos pequenos, porque a diferença nossa é de um ano para o outro, então, quer dizer, eu era menor, então, era eu no colo, os outros, aquela escadinha seguindo ela. Mas, eu não me lembro.

 

P/1 — E a sua primeira lembrança de São Paulo, qual é?

 

R — Uma coisa assim, você está num outro mundo, muito movimento, muita gente, porque, como eu falei, a gente acostumado no meio do mato, então, casas, prédios, a gente tem essa recordação de quando chega aqui. Uma coisa meio perigosa, fica meio com medo.

 

P/1 — E, qual o bairro mesmo que você chegou?

 

R — Americanópolis.

 

P/1 — Americanópolis. Desde que você mudou pra cá, até hoje é o mesmo bairro?

 

R — É o mesmo bairro, nós já mudamos, nesse processo, mas sempre na mesma região e agora retornamos para o mesmo bairro, numa rua abaixo da que nós chegamos.

 

P/1 — Você estava descrevendo a sua casa, essa primeira casa. Descreve pra mim agora, a sua vizinhança, a sua rua. Você se lembra dessa rua na infância, aqui em Americanópolis?

 

R — Ah, era uma rua de barro, tinha um terreno baldio na frente, eram várias casas, vários barracos construídos de aluguel e com muita criança nas casas.

 

P/1 — E o que essa criançada fazia o dia inteiro lá?

 

R — Brincava o dia inteiro e chupava bala (risos). Nós gostávamos muito de brincar de pega-pega, esconde-esconde, às vezes, brincava de bola d’água: enchia a bexiga de água quando estava verão e ia brincar na rua, brincava de queimada, futebol, soltava pipa, peão, várias brincadeiras. Por ter muita criança, a gente tinha variadas brincadeiras.

 

P/1 — E como foi reencontrar o pai, depois de anos sem vê-lo? Você manteve uma relação boa com ele depois, como era?

 

R — Olha, é que meu pai sempre foi meio seco com a família, não era um pai assim que ficava muito com os filhos, brincava, conversava. Esse, naquela época, era mais o papel da mãe, então o pai a gente só via mesmo cedo ou na hora de dormir, não tinha muita conversa. Mas foi bom estar de volta, de encontro com ele, porque ali estava a família completa, mãe, pai e os irmãos.

 

P/1 — E como vivia todo mundo na sua casa? Não era tudo muito apertado?

 

R — Não muito, no convívio durante o dia, não, agora, pra dormir era complicado, porque eu lembro que tinha duas camas de casal. Uma era do meu pai e da minha mãe e a outra era pra todos os filhos, então, numa cama de casal dormiam seis pessoas, três pra baixo e três pra cima e até mesmo a gente utilizava essa cama por conta do frio, porque, aí, um pertinho do outro esquentava mais e não sentia tanto frio.

 

P/1 — E aí aos poucos como foi? Vocês foram comprando mais camas depois que as crianças foram crescendo?

 

R — Ah, sim. Depois, com o tempo o meu irmão mais velho já começou a trabalhar, deve ter começado com os seus 12 anos de idade e ajudava a vender travesseiro, porque o meu pai aqui também vendia travesseiro, então ele ajudava o meu pai a vender travesseiro na rua, e foram melhorando as condições. Mas eu me lembro que a gente continuou dormindo ainda na cama até velho já. Aí, depois, é lógico, né? Os homens cresceram, então os homens eram separados das mulheres. Mas as mulheres, me lembro que até os meus 13, 14 anos, ainda dormia junto com minhas irmãs, na mesma cama.

 

P/1 — Na mesma casa de quando vocês chegaram?

 

R — Não. Aí, nós já morávamos em outro local.

 

P/1 — Você disse que tinha muitas crianças que ficavam brincando na rua. Então, você teve uma educação livre, sua mãe deixava vocês saírem pra brincar na rua. Como era essa relação de mãe e filha?

 

R — É, minha mãe sempre deixava, porque a rua era de frente pra casa, ela não se preocupava muito, porque da janela, se ela olhasse, ou da porta, já avistava todo mundo ali na rua correndo. Ela sempre deixou a gente à vontade pra brincar, até porque, não tinha espaço dentro de casa, não tinha quintal. O único espaço que a gente tinha era a rua. E também, se ficassem em casa, aquelas crianças todas deixavam minha mãe doida (risos), enlouquecia! 

 

P/1 — Você lembra de alguma arte que você fez nessa época, alguma estripulia específica assim?

 

R — Várias! (risos) Olha, na minha família sempre falam que eu sou um jeito moleque, sempre gostei de brincadeiras de menino. Então, soltava muita pipa, brincava de bolinha de gude, peão. Hoje eu tenho uma cicatriz na perna, que eu estava rodando peão e, aí, bateu na minha perna e cortou. Tenho uma cicatriz aqui em cima também na sobrancelha, que foi jogando futebol com os meus irmãos, eu fui segurar a trave e eles bateram com um bloco, o bloco estourou e cortou a testa. Então, eu tenho várias cicatrizes por aí. (risos)

 

P/1 — As cicatrizes contam as histórias, né?

 

R — Contam (risos).

 

P/1 — E quando é que a escola apareceu na sua vida?

 

R — Eu tinha oito anos de idade, porque eu completo aniversário em maio, então, teve uma época que não se matriculava, era com sete anos completos ou, no caso, entraria com quase oito anos na escola. Então, eu comecei com oito anos, aqui mesmo, em São Paulo.

 

P/1 — Qual era o nome da escola?

 

R — Vicente Rao.

 

P/1 — Lá em Americanópolis?

 

R — Isso.

 

P/1 — Esse começo de vida de estudante, qual era o sonho que você tinha? Você consegue lembrar o que você queria ser quando crescesse, com o que você sonhava? 

 

R — Olha, eu sempre falava que queria ser professora, talvez hoje eu até entenda mais o motivo, tanto é que estou fazendo Pedagogia. Naquele tempo eu falava porque eu achava bonita a profissão de professora e também, talvez, pra não agir da forma que os professores agiam, que era muito castigo, muitas coisas que eu não concordava. Então, eu quando criança, queria ser professora.

 

P/1 — A escola era perto da sua casa?

 

R — Era. A escola era próxima, uns dois quarteirões, na rua de cima praticamente. Eu ia a pé, minha mãe não precisava levar, e o que eu me lembro, na época da escola, tinha as dificuldades, né? Tanto por roupa, como eu tinha falado no início, porque a gente não tinha muita roupa, a gente usava muitas roupas que os outros nos davam e também a questão do material, que naquela época era tudo comprado pelos pais. Então, eu me lembro que, pra eu estudar, eu tinha que esperar a minha irmã chegar da escola para eu poder pegar o material dela, caderno, lápis e borracha, pra poder ir pra escola.

 

P/1 — Qual era a matéria que você mais gostava?

 

R — Matemática.

 

P/1 — E teve alguma professora que foi marcante, especial na sua vida?

 

R — Teve, só que eu não vou recordar o nome (risos), agora eu não lembro do nome dela. Mas ela sempre me incentivava a estudar, porque falava que era só estudando que a gente ia ter uma vida melhor, que não sei o quê, então eu sempre tomava os conselhos dela e ela sempre me ajudava quando eu tinha alguma dificuldade na escola, não só na matéria dela, mas em outras.

 

P/1 — E as amizades na escola? Você guardou alguma amizade dessa época, ou teve alguma amizade especial pra você nesse começo de vida escolar?

 

R — Teve. Eu, até hoje, ainda encontro com várias amigas minhas, que estudaram ou comigo na mesma sala ou na escola e até hoje nós somos amigas, todas mães de família, mas continuamos ainda com a amizade.

 

P/1 — Você ficou muitos anos nesta mesma escola, ou não?

 

R — Não. No Vicente Rao eu fiz até a quinta série e aí, mudei, fui transferida para outro colégio próximo ali do Jardim Miriam, José Nascimento, lá eu fiz até a sexta série, até os meus 12, 13 anos, aí, depois eu parei de estudar pra começar a trabalhar.

 

P/1 — E como foi esse começo de trabalho? Você trabalhou onde?

 

R — Na verdade, eu trabalho já desde os meus oito anos de idade, eu ajudava a minha mãe numa banquinha de doce, vendia bala, chocolate, essas coisas. Com 12 anos, na verdade, eu fui para um serviço mesmo, que teria salário, uma ajuda para poder complementar a renda familiar.

 

P/1 — Então, vamos por parte. Esse começo de trabalho ajudando a mãe, onde ficava essa banquinha?

 

R — Essa banquinha, na época que o meu pai trabalhava num depósito de material, ali na Avenida Cupecê, ele tomava conta e tinha uma casinha nos fundos em que a gente morava, e ali mesmo, como era uma avenida principal, minha mãe colocou uma banquinha de doces pra poder ter um dinheiro a mais, pra gente poder se virar melhor. 

 

P/1 — Então, nessa época, com mais ou menos oito anos de idade, você já tinha mudado daquela primeira casa e morava lá nessa casinha do depósito?

 

R — Já. Morava na casinha do depósito e a gente deve ter ficado uns dois anos nessa primeira casa, quando nós chegamos aqui.

 

P/1 — Aí, você ficou ajudando a sua mãe nessa banquinha em frente e vocês moraram lá quanto tempo?

 

R — Olha, lá nós ficamos em torno de uns quatro anos.

 

P/1 — Que foi o período que o seu pai trabalhou lá?

 

R — Isso, no depósito. Depois na mesma profissão, o mesmo dono, nós mudamos para outra rua na mesma região, que seria na Vila Clara, que também seria um depósito de material com uma casa que nós morávamos e não pagávamos aluguel. E lá também eu ajudava a minha mãe, era também uma vida meio de cigana, sempre procurando ajudar no orçamento. Aí, a gente vendia milho. Ela cozinhava milho e fazia pamonha e eu ficava ajudando por conta de dar troco,que ela é analfabeta, então, ajudava ela no troco, que ela não sabia. 

 

P/1 — E, com 12 anos, você disse que foi o seu primeiro emprego com salário. Onde era esse emprego? O que era?

 

R — Era numa casa de família e eu fui trabalhar de babá. Uma amiga da minha mãe trabalhava de doméstica e ela falou que a patroa dela estava precisando de uma pessoa pra ficar com as crianças. Seria mais acompanhante, né? Hoje a gente fala babá, mas, naquela época, com 12 anos, seria mais acompanhante das crianças. Então, eu fui pra lá, dormia no serviço e ficava com as crianças, com duas.

 

P/1 — E onde era essa casa? Era longe?

 

R — Se eu não me engano, era na Ana Rosa. Naquela época, eu não conhecia nada, então... Mas agora, pelo estudo que eu fiz, era próximo do metrô Ana Rosa.

 

P/1 — Então, era longe pra você ir para o trabalho.

 

R — É, eu ia de ônibus.

 

P/1 — Você ia de ônibus e dormia lá a semana toda?

 

R — Dormia a semana toda e só voltava no final de semana e quando eu ia, na segunda-feira, eu ia com essa amiga da minha mãe.

 

P/1 — Conta pra gente como era esse seu trabalho. O que você fazia com as crianças? Você gostava?

 

R — Ah, eu gostava! Eu ficava mais de acompanhante mesmo, eu ficava brincando com as crianças, assistindo televisão, assistia filmes. Quando eles saíam, eles também me levavam para o shopping, era mais acompanhante, porque sempre teve a empregada da casa, mas, das crianças, era sempre eu que estava por perto. Ia andar de bicicleta, às vezes, eu via as lições deles, ajudava na lição de casa, porque a mãe deles trabalhava, não ficava em casa, ajudava a fazer a lancheira, levava até a escola...

 

P/1 — Isso devia ser mais ou menos no começo dos anos 80, é isso?

 

R — Mais ou menos.

 

P/1 — Nesse tempo todo, que você já estava aqui em São Paulo quase há uns oito, dez anos mais ou menos, você costumava circular pela cidade ou ficava mais no seu bairro? Você ia para o Centro ou não?

 

R — Não. Na verdade, eu sou muito bairrista. Nunca saí do meu bairro, até porque a minha mãe também nunca deixou, né? Então, foi mais por conta deste serviço que o máximo que eu fazia era isso, pegar o ônibus, entrava na casa, e daí também, eu não conhecia muita coisa. Só que aí, com esses passeios eu fui conhecendo mais a cidade, outras regiões. Mas sempre fui muito caseira, muito presa.   

 

P/1 — O que você gostou de conhecer nessa época de São Paulo, que você passeava com eles?

 

R — Ah, eu achava o máximo o shopping, né? As vitrines, as lojas, nunca estava frio, sempre quentinho, então, era um mundo fechado, era outro mundo.

 

P/1 — Você ficou quanto tempo trabalhando lá?

 

R — Eu fiquei em torno de uns três anos.

 

P/1 — Você dormia lá e ficava até sábado? Como era a sua rotina?

 

R — Eu ficava até sábado de manhã, porque aí a mãe das crianças não trabalhava, ela ficava com eles e eu vinha embora no sábado de manhã e voltava segunda-feira, cedo também, com a outra empregada.

 

P/1 — Depois que você saiu, você perdeu o contato com essas crianças ou não?

 

R — Perdi o contato, nunca mais. Mas foi uma vivência diferente, até porque, às vezes eu conto para as pessoas, que eles também acabaram vivendo um pouco o meu mundo também, porque a gente ficava muito tempo junto e teve uma vez que eles tiveram curiosidade de vir também conhecer onde eu morava. Ah, de tanto eu falar, porque eles também perguntavam e já eram crianças de seis, sete anos, então, eles perguntavam: “Como é onde você mora? O que você fez este final de semana?” E eu falava pra eles, que foi logo quando nós fomos morar na Ocupação, que a minha casa não tinha porta, não tinha piso, não tinha luz. Então, eu falava pra eles. Então: “Ah, mas você toma banho gelado? Ah não, eu quero conhecer”. Aí, com a curiosidade, conversando também, a mãe teve a confiança de deixar as crianças irem comigo, e eles vieram conhecer onde eu morava, eles viram uma outra realidade do mundo que eles viviam. E eles adoraram, acabou quase querendo ir todo final de semana, (risos), pra poder ficar lá comigo.

 

P/1 — E o que você fez com eles nessa visita que eles fizeram lá?

 

R — Ah, comeram bolinho de feijão com farinha, eu também trazia pra casa, claras de ovo, porque a gente também fazia gemada pra eles, e eles não utilizavam a clara, e com a clara que eu trazia, fazia suspiro em casa pra família. Aí, com a clara, fiz o suspiro, mostrei pra eles, eles comeram também. Brincaram no barro, coisa que eles não conheciam, de mangueira no meio da viela, brincaram com várias crianças, eles viveram ali uma liberdade. Então, segunda-feira, ninguém queria ir embora pra casa, queria continuar ali. 

 

P/1 — E eles passaram o final de semana lá?

 

R — Passaram. Depois desses, teve vários outros também que sempre que a mãe deixava, eu trazia eles e assim, tinha muita história pra contar dali onde eu morava. 

 

P/1 — Então, pelas contas aqui, você parou de trabalhar nessa casa, você já estava mais ou menos, com uns 15 anos, né?

 

R — Isso.

 

P/1 — Como foi sua entrada na adolescência? Como foi a sua vida de adolescente? Namoro, amizade, mudando a cabeça, o jeito de ver as coisas...

 

R — Olha, eu com aproximadamente 15 anos, nessa idade, eu também já saí de lá e já fui trabalhar em outro local. Eu já fui trabalhar na área de comércio, que era uma loja e não tive muito... O que eu tive que aproveitar e eu aproveitei enquanto criança, porque depois, na adolescência, já foi mais responsabilidade mesmo. Então, quando eu comecei nesse comércio, era praticamente período integral, das oito da manhã, ia chegar em casa oito horas da noite, tinha pouco tempo. Minha mãe, como eu disse, não deixava muito, eu já mocinha, então ela não me deixava muito na rua, tinha poucas amizades, não era muito de sair, quando eu tinha de sair, eu tinha que pedir pra uma das irmãs já casada me levar junto pra poder sair, era praticamente serviço e casa. Aí, já veio também com os problemas do meu pai, que ele é alcoólatra, então, já começou com dificuldades financeiras nessa época, porque, quando foi para morarmos nessa Ocupação, a maioria das minhas irmãs já casaram, pra não ter que ir pra lá, sobramos eu e meus dois irmãos menores e uma outra que já estava de casamento marcado. Aí, chegando lá, ficamos só eu, as crianças, a minha mãe e o meu pai, e praticamente era eu que sustentava a casa, já era uma responsabilidade maior. Já era mais essa coisa de serviço e casa mesmo, não tinha muito lazer.

 

P/1 — Que comércio era esse que você trabalhava?

 

R — Era na loja Le Postiche. Comecei lá, no Shopping Ibirapuera, como estoquista.

 

P/1 — Você trabalhou lá muito tempo?

 

R — Fiquei lá até os meus 17 anos. Em torno de três, quatro anos.

 

P/1 — Quando sobrava um tempinho seu, de vez em quando, qual era o prazer que você tinha?

 

R — Ah, eu dava uma fugidinha, meio escondido da minha mãe: era pra um salão que tinha lá perto de casa, um baile. Todos os meus irmãos frequentavam, mas a minha mãe não deixava eu ir. Eles, por serem homens, tinham uma liberdade maior então, teve uma vez que eu fugi junto com o meu irmão, falei que estava na casa de uma amiga, mas acabei indo lá pra esse salão. Então, era a única diversão que eu tinha. Lembro que eu fui lá umas três, quatro vezes, na matinê, num domingo à tarde, das cinco até às oito da noite.

 

P/1 — E você dançava muito lá?

 

R — Ah, dançava bastante!

 

P/1 — Você lembra as músicas que tocavam?

 

R — Vixi! Era do tempo do Michael Jackson, era samba-rock, no tempo do new age também, né? Tinha vários ritmos. Teve ainda aquele tempo do Menudo, várias lembranças.

 

P/1 — Arrumou algum namorado lá ou não?

 

R — Lá não. Na verdade, eu encontrei lá no salão com um que eu já gostava, que foi o meu primeiro marido, mas já conhecia por morar próximo à rua. A gente meio que marcou o encontro no salão.

 

P/1 — E deu tudo certo?

 

R — Deu. Até que a gente acabou namorando, passaram alguns meses, ele foi me pedir em namoro pro meu pai, depois de um ano, dois anos mais ou menos de relacionamento, a gente se casou.

 

P/1 — Certo. Antes de a gente tratar da sua vida de adulta, de casamento, eu queria fazer uns parênteses e voltar pra essa sua chegada à Ocupação, ainda na infância. Como isso aconteceu na sua vida?

 

R — Olha, na verdade, antes de ir pra Ocupação, a gente estava passando por muita dificuldade, morava de aluguel, como eu disse o meu pai, já com os filhos grandes, acabou meio que deixando de lado essa responsabilidade de ter que bancar os filhos, acabou gastando mesmo o dinheiro com bebida, com essas coisas, a gente se viu numa situação muito difícil. Então, os meus irmãos, dois deles já trabalhavam, só que mesmo assim, o orçamento era muito pequeno para uma família tão grande, a despesa era muito grande. Era aluguel, água, luz, era material escolar, era roupa pra todo mundo, acabava a gente se privando de algumas necessidades básicas, como alimentação. Quando o meu pai optou por vir para essa Ocupação, eu achei que seria legal, pelo fato de não ter que pagar aluguel, que seria um dinheiro a mais que sobraria para poder suprir essas necessidades. Então, eu não achei ruim.

 

P/1 — Essa Ocupação ficava onde?

 

R — Aí, volta lá pra mesma região, lá em Americanópolis.

 

P/1 — E como é que seu pai ficou sabendo dessa Ocupação?

 

R — Um amigo dele que trabalhava junto falou que tinha um terreno que ele tinha ocupado já há algum tempo e ninguém tinha ido lá mexer com ele e por ele saber das dificuldades que a gente estava passando, ele perguntou para o meu pai se ele não queria um pedaço de terra pra poder construir lá, se ele não queria arriscar de tentar construir uma casa e morar lá. Foi aí que veio a ideia do meu pai fazer a ocupação. Ele e mais algumas pessoas, não foi só ele. Nessa época, teve umas quatro, cinco pessoas também que, junto com ele, levantaram os barracos pra ver se dava pra ficar, porque eles tinham medo de alguém vir e tirar, né?

 

P/1 — Quando vocês chegaram lá a primeira vez, como foi? Qual foi a visão que você teve, como era o espaço, o lugar?

 

R — Olha, quando eu fui conhecer lá, na verdade, o meu pai já havia feito um barraco, então já tinha limpado a frente do terreno, porque eu me lembro que era muito mato, tinha muito mato nesse terreno. Então, tinha medo de cobra, rato, tanto é que quando eles foram lá pra construir, acharam muitos desses bichos. Eu ficava meio com medo, mas depois dessa ocupação, dessas quatro ou cinco pessoas, foram desmatando pra poder construir esses barracos então, eu no caso, já me sentia mais aliviada nesse sentido.

 

P/1 — Tinha mais ou menos umas cinco famílias lá?

 

R — Isso, no início.

 

P/1 — E como foi a montagem desse barraco?

 

R — Ah, era construído com madeiras arrumadas dos próprios vizinhos, ou que achava na rua, muitas das vezes, telhas que alguém doava, pra poder completar o telhado. Quando não tinha, quando faltava alguma madeira, era feita com lonas, era uma coisa improvisada, né? Até porque não dava pra investir muito, porque era isso, eles tinham medo de aparecer o dono do terreno e remover a família de lá, então, eles meio que ficaram, o meu pai no caso, ele ficou mais ou menos, dois ou três meses morando nesse barraco, pra ver se ia aparecer alguém ou não, antes de a gente mudar pra lá. A gente esperou um tempo pra ver, porque fazer toda a mudança e depois ser retirado de novo, ia ser complicado.  

 

P/1 — De que tamanho era esse barraco?

 

R — Eu lembro que, depois de construído, depois que eu fui morar lá também, que eu comecei a modificar, fazer quarto, cozinha, eram três quartos, sala e cozinha. 

 

P/1 — Tudo de madeira?

 

R — Tudo de madeira.

 

P/1 — Aí, foram você, mais três irmãos, seu pai e sua mãe, é isso?

 

R — Isso.

 

P/1 — Terra batida, o chão?

 

R — Terra batida.

 

P/1 — E com o tempo foi chegando mais gente lá? Outras pessoas para ocupar o espaço ou não?

 

R — Foram. Não demorou muito tempo, em torno de uns dois meses, foram chegando várias outras pessoas e até mesmo quem morava lá foi cedendo também, porque eu me lembro que o meu pai pegou o terreno da frente, na rua, que era a rua principal. Hoje nós moramos quase no fundo do terreno, porque ele foi cedendo a parte da frente que não era construído, para outras famílias construírem. Então, é uma coisa que foi evoluindo conforme o tempo e, até hoje, as pessoas acabam construindo, fazendo o tal puxadinho, que é para os filhos dos filhos, né?

 

P/1 — E os seus pais estão lá, no mesmo lugar, até hoje?              

 

R — Estão.

 

P/1 — Quantas famílias têm lá hoje neste espaço todo?

 

R — Olha, no último levantamento tinha em torno de 70 famílias.

 

P/1 — E vocês chegaram lá em que ano?

 

R — Hummm... Agora deixa eu reviver aqui a memória! Eu tinha 12 anos, de 12 pra 39 que eu me encontro hoje, vai ter...

 

P/1 — Início dos anos 80?

 

R — Isso.

 

P/1 — E nesse período todo teve algum momento em que o proprietário reivindicou a posse ou que a polícia foi lá, como foi isso?

 

R — Não. Não teve nenhuma reivindicação nesse sentido, ninguém procurou. Aí, depois de estar lá dentro do terreno também, quem acabou indo atrás fui eu, porque depois teve todo esse processo de organização e urbanização desse espaço, aí que nós fomos saber que é terreno de herdeiros, que não teve nenhuma ordem judicial pra desapropriação. Enquanto isso, não teve nenhuma ação desse tipo.

 

P/1 — Então, o seu pai estava se mudando pra lá, você era uma criança ainda, mas com o passar do tempo você começou a se engajar nessa causa da moradia ali?

 

R — Isso. Depois do casamento, também. Não foi um processo automático, demorou um tempo para eu me envolver com o movimento de moradia, com essa causa.

 

P/1 — Quando vocês chegaram lá era tudo de madeira, não devia ter praticamente, nenhuma infraestrutura urbana, né?

 

R — Não, não tinha. Não tinha asfalto, não tinha esgoto, não tinha luz, água era emprestada e ficamos assim por um bom tempo.

 

P/1 — Como é que foi esse processo de melhoria da sua casa, da vizinhança?

 

R — Olha, como do outro lado da rua eram terrenos particulares, o pessoal já tinha acesso a água e a luz e os vizinhos acabaram emprestando. Então, puxava-se lá a água, a encanação de um vizinho e acabava dividindo essas contas. Mas esse processo demorou em torno de um ano, um ano e meio, porque me lembro que a gente passou muito tempo assim, a luz de candeeiro, vela, tomando banho gelado ou esquentando em fogão e depois, com o tempo, como cresceu muito, não dava para os vizinhos também, cederam luz e água pra todo mundo. Aí as pessoas se organizaram pra poder reivindicar isso na Prefeitura, foi feito o pedido para a Eletropaulo, a Sabesp e, aos poucos, eles foram colocando e quem morava no começo da rua, teve acesso, e esse que tinha acesso no começo da rua ia passando para os de trás, um ia puxando a encanação e a fiação dos outros.

 

P/1 — Vocês foram logo os primeiros, porque vocês eram os pioneiros lá.

 

R — Isso. Tanto que é até hoje o registro de água da minha mãe é dela e de mais de 28 famílias, tudo junto, um registro só. Então, agora que nós conseguimos, há seis meses, cada um ter o seu relógio separado. Mas, mesmo assim, ainda tem o quintal da minha mãe, onde moram os meus irmãos, que, a gente fala que é o condomínio fechado (risos), tem sete casas no quintal da minha mãe, e é todo da família. O relógio, ainda tem algumas irmãs que usam.

 

P/1 — Nossa! Então o quintal da sua casa é grande! Tem sete casas no quintal?

 

R — É. Na verdade, foi construindo uma casa em cima da outra, os irmãos que eu falo que fugiram naquela época para não morar, hoje eles vieram, todos correram atrás. (risos) Moram duas irmãs, meu irmão, e a sogra do meu irmão mora em cima. 

 

P/1 — Você falou que, quando chegou à sua casa, aos pouquinhos você foi fazendo algumas mudanças, aumentando aqui... Como que foram acontecendo essas melhorias na sua casa? O que vocês foram reformando?

 

R — Olha, primeiro foi assim, a preocupação com portas, janelas, porque não tinha, ficava ali com os panos pendurados, até mesmo por questão de segurança. Eu me lembro que na hora de comprar esses materiais, foi uma das prioridades, porta e janela. Aí, com o tempo, veio o piso, porque não dava! Você tomava banho de chuveiro, o barro subia nas pernas, ficava complicado. Aí, a segunda opção foi o piso e depois com o tempo nós fomos mudando para alvenaria, fomos construindo aos poucos. Cada mês que sobrava um dinheirinho, comprava tijolo, cimento e guardava até poder levantar uma parede, pra poder melhorar também o visual e morar um pouco melhor. A gente – quando eu falo a gente, eu e a minha mãe –, a gente deixava de comprar algumas coisas pra poder terminar a casa, pra ter condições melhores, pelo menos, para poder dormir. Eu lembro que lá era alto, então fazia muito frio e, por ser de madeira, ter vários buracos, várias brechas, a gente ia escolhendo os cômodos pra ir melhorando. Os primeiros eram os quartos, pra ver se diminuía também a questão do frio da gente.

 

P/1 — Até que tudo ficou mais ajeitadinho.

 

R — Isso. Eu lembro que eu não consegui deixar a ponto de laje. Quando eu saí de lá, ainda era com telha e eu lembro que ventava muito, mas com o tempo, depois, o meu pai foi cobrindo com cimento e deu uma melhorada. Hoje em dia já modificou muito, porque em cima dessa casa que nós morávamos já foi construída outra, já tem uma outra na frente, então, teve uma modificação muito grande.

 

P/1 — E nesse meio tempo você começou o seu namoro? Agora, voltando lá para as escapadas pro salão.

 

R — Certo.

 

P/1 — Você estava lá na Ocupação, e você começou também o seu primeiro namoro.

 

R — Nesta mesma época que eu comecei a trabalhar no shopping, eu me lembro que eu também voltei a estudar, porque aí eu já não dormia mais no serviço. Eu voltei á escola e esse que seria aí o meu namorado também estudava nessa mesma escola. Voltei para o mesmo colégio em que eu iniciei, que foi o Vicente Rao. Comecei a estudar e o conheci e nós começamos a namorar. Então, na verdade, era isso: eu trabalhava, namorava na escola à noite, quando via, ficava um pouquinho depois na saída também, e ele morava em frente à minha rua.

 

P/1 — Já lá nessa rua da Ocupação? Morava em frente?

 

R — Isso, morava em frente.

 

P/1 — E você namorou quanto tempo?

 

R — Olha, foi em torno de um ano e meio, um ano e oito meses, mais ou menos. A gente teve pouco tempo de namoro, porque eu acabei engravidando, né? Então, nessa parte da gravidez, eu acabei saindo de casa e fui morar com a minha irmã.

 

P/1 — Mas houve alguma briga em casa pra você sair assim da casa dos seus pais?

 

R — Ah, sim. O meu pai me expulsou de casa porque ele não aceitou. Então, ele acabou me expulsando de casa, ficou até o meu filho nascer praticamente sem falar comigo, só que nessa época eu sempre continuei ajudando a minha mãe. Porque aí, ficou só minha mãe e os meus dois irmãos pequenos, menores que eu, e o meu pai. Só que o meu pai continuava com a bebida, então, por mais que eu tivesse saído de casa, eu continuei ajudando financeiramente.

 

P/1 — E qual foi a reação da sua mãe com a sua gravidez e com a expulsão de casa?

 

R — Ah, minha mãe não aceitou, né? Na verdade, se fosse por ela, eu teria ficado mesmo grávida, morando em casa, mas aí, era isso, ela obedece muito o meu pai. Ela é daquele tempo em que o homem decidia e a mulher não opinava em nada. Fui morar na rua mesmo, praticamente do outro lado da rua, a gente sempre conversava, quando o meu pai não estava em casa, eu ia na casa dela, almoçava, comia, tomava café, não teve muita diferença. Mas ela ficou muito chateada, porque achava que ele não deveria ter feito aquilo.

 

P/1 — E aí, você se casou quando? Você tinha uns 16 anos nessa época?

 

R — Eu engravidei com 16 pra 17, ele também, por ser novo, foi servir o exército nessa época, então, eu fiquei grávida e sozinha; sem os pais e sem o marido, porque lá no exército ele ficava, às vezes, servindo guarda, então ficava quatro, cinco dias sem vir para casa e ele continuou morando com os pais dele. Porque os pais dele também não aceitaram que eu fosse morar com ele. Acabou ele ficando com os pais e eu ficando com a minha irmã que era recém-casada também.

 

P/1 — E aí, depois de um ano que ele ficou no exército, que vocês puderam ficar juntos?

 

R — Aí, depois de um ano, depois que o meu filho nasceu, a gente pediu licença no exército pra ele sair e poder cuidar da família, trabalhar pra poder ajudar a criar o filho. Aí eles deram essa licença pra ele, porque ele ainda estava no processo de servir o exército. Ele saiu de lá praticamente por conta do filho.

 

P/1 — E o filho seu, como se chama?

 

R — William.

 

P/1 — E como é que foi ser mãe?

 

R — A impressão que eu tinha quando eu cheguei em casa é que eu estava brincando de boneca! (risos) Porque, com 17 anos, eu sempre (choro) cuidei dos meus irmãos, mas quando você vê assim aquela criança, com uma responsabilidade só sua, não caiu a ficha assim, na hora. Só depois de algum tempo que eu vim a me adaptar à vida de ser mãe, viver até mesmo sozinha numa casa, com uma criança, outra criança, porque eu praticamente me achava uma criança. Mas, serviu pra crescer na vida, pra aprender, pra ter responsabilidade, que acho que eu já tinha naquela época e não me arrependo. Não me arrependo. 

 

P/1 — Você morava com a sua irmã ainda?

 

R — Quando ele nasceu, não. Quando ele nasceu, o meu marido já havia saído do exército. Quando ele foi me buscar no hospital, ele já tinha falado com os pais e os pais já tinham cedido um cômodo no quintal onde eles moravam pra gente poder ficar junto. Então, quando eu vim do hospital, já fui direto pra casa onde eu ia morar com o meu filho e com o meu marido.

 

P/1 — Como é que foi esse começo de vida a três?

 

R — Não foi ruim, porque você acaba tendo ali a sua privacidade, você acaba tendo a sua liberdade, você tem que aprender a fazer as coisas sozinha, ou dividir, no caso, com a outra pessoa, mas pra mim não foi ruim. Foi uma fase em que eu tive a minha liberdade, que eu falo que eu comecei ter liberdade, depois do casamento, que eu poderia sair, ir para os lugares, conhecer novos lugares, fazer o que, às vezes, eu queria fazer e era privada. O casamento, pra mim, não foi ruim. Acho que foi o ponto inicial da minha vida mesmo, pra eu poder batalhar pelo que eu queria.

 

P/1 — E o que vocês costumavam fazer? Que programas vocês faziam?

 

R — Bom, o meu marido sempre foi caseiro, então, ele não gostava de sair muito, o tempo todo era do serviço pra casa. Agora eu já passeava mais, saía para casa das minhas irmãs, pra conversar, todas já casadas, também com filhos, às vezes, ia levar as crianças no parque, juntava todas as irmãs também e ia para o parque, muitas vezes no Parque Ibirapuera, um parque próximo que tem lá do meu grupo. O nosso passeio era mais esse. Um pouco ia pro shopping... Esses lugares que as pessoas frequentavam mais. 

 

P/1 — E aí, você parou de trabalhar no shopping com o seu filho?

 

R — Parei. Quando eu engravidei, eu saí de lá, eu nem sabia que estava grávida, na verdade, mas também não quis voltar depois. Mas continuei trabalhando, eu trabalhava em casa mesmo. Até mesmo pra poder ficar com o filho. Eu sempre fui muito assim, sacoleira, então eu vendia várias coisas. Às vezes eram joias, revistas, roupas, eu me virava dessa forma, vendendo sempre alguma coisa. 

 

P/1 — E cuidando do filho.

 

R — E cuidando do filho.

 

P/1 — Ele dava muito trabalho?

 

R — Não, ele era bonzinho. Ele não dava trabalho não.

 

P/1 — E a escola? Teve que parar a escola de novo nessa época?

 

R — Parei a escola de novo nessa época.

 

P/1 — Você estava em que ano?

 

R — Eu estava na oitava série. Eu estava pra terminar já a oitava, aí, eu interrompi novamente.

 

P/1 — Você disse que o seu engajamento na causa da moradia aconteceu mesmo depois que você se casou, que você conheceu seu marido. 

 

R — Isso. Na verdade, não foi bem na época que eu conheci o meu marido. Até então, a gente morava na rua em frente, mas depois que eu me separei dele, que veio a questão da Ocupação. Porque quando eu me separei, eu acabei indo morar de aluguel e foi uma separação com conflitos. A minha mãe pediu para eu voltar pra casa e ficar com eles porque era mais seguro, estava tendo muitas brigas, ele não aceitava a separação. Eu acabei voltando pra casa dos meus pais. E nesse processo eu fui começar a participar do movimento de moradia. Isso depois da separação, na verdade, do terceiro casamento (risos). Que eu casei três vezes! Casei não, morei junto.

 

P/1 — Então, espera aí, deixa só me contextualizar aqui. Você tinha uns 17, 18 anos, estava casada com o pai do seu primeiro filho.

 

R — Isso.

 

P/1 — Você ficou casada com ele quanto tempo?

 

R — Eu fiquei casada com ele seis anos. Aí, eu já tive outra filha com ele.

 

P/1 — Qual o nome dela?

 

R — Caroline.

 

P/1 — E aí você trabalhava em casa, como você estava dizendo, vendendo, com a parte de comércio? 

 

R — Isso.

 

P/1 — E aí, você se separou e já tinha quase uns 25 anos, mais ou menos?

 

R — Mais ou menos.

 

P/1 — E aí, você teve mais dois casamentos depois?

 

R — Depois eu tive mais dois relacionamentos, mas, antes, até mesmo quando eu morava com o primeiro marido, eu parei de trabalhar vendendo as coisas e fui trabalhar fora. Isso, o meu filho já tinha por volta de dois anos de idade.

 

P/1 — Você foi trabalhar onde?

 

R — Eu fui trabalhar num escritório, de recepcionista.

 

P/1 — Lá na zona sul também?

 

R — Não, aí já era na região central e continuava vendendo também, porque era meio período. E foi nessa ida para o escritório que eu comecei a participar dos movimentos, que hoje eu falo, movimento social, que era por creche, porque eu não conseguia vaga na creche pra deixar as crianças. Então, eu comecei essa luta social, a partir do momento que eu fui trabalhar fora, no escritório. 

 

P/1 — E como é que você se engajou nessa causa, na época?

 

R — Eu lembro que nós tínhamos lá uma organização de mulheres, que tem o nome de UBM, União Brasileira de Mulheres. Essas mulheres reivindicavam vagas em creche e eu, já com dois filhos, precisava trabalhar, não tinha vaga e eu não tinha como pagar uma escola particular. Então, eu comecei a participar com elas pra tentar conseguir vagas também para as crianças na creche. Foi a partir dessa movimentação, desse movimento, que eu fui descobrindo essas outras reivindicações, no caso, que seria também a da moradia.   

 

P/1 —Você ficou sabendo como dessa UBM? Era lá no seu bairro ou no centro que você conheceu?

 

R — Lá no bairro tinha o escritório onde elas se reuniam, tinha um núcleo, a gente chama de Núcleo da UBM. Uma das minhas amigas me convidou. Ela era do escritório, aí ela falou: “Eu sei que você está com problema de creche, você não quer participar com a gente? A gente tem um movimento assim, seria bom você também fazer parte, até porque, quanto mais gente melhor pra poder reivindicar as vagas”. Através do convite dela eu fui conhecer o núcleo e acabei participando e me engajando junto com elas. 

 

P/1 — E vocês obtiveram conquistas? Conseguiram alguma das coisas que reivindicaram?

 

R — Olha, muitas mães conseguiram vaga em creche. Eu acabei optando em colocar as crianças na escola, no EMEI, porque no caso, já era na época do EMEI, lá no centro. Eu os levava de manhã, deixava, ia trabalhar e na volta já passava e já pegava. Já fiz meio que um roteiro, se eu deixasse na região, eu não ia conseguir fazer isso. Então, eu consegui lá no centro essas vagas, mas as outras mães, também conseguiram lá. 

 

P/1 — Entendi. Então, você entrou pro movimento social pela porta das causas das mulheres? Com 20 e poucos anos? 

 

R — Isso.

 

P/1 — Aí, depois, você teve mais dois relacionamentos e foi depois do seu terceiro relacionamento que você voltou pra casa?

 

R — Depois do segundo, que eu também morava de aluguel, e com esse segundo eu tive mais uma filha, que é a Stephanie, e fiquei com ele praticamente dois anos, me separei e voltei a morar com a minha mãe.

 

P/1 — Essa segunda separação foi aquela mais problemática que você estava falando?

 

R — Não. A problemática foi a primeira. Na primeira eu fiquei um tempo com a minha mãe, mas depois as coisas se acalmaram, e eu acabei voltando a morar de aluguel. Aí não teve problema. Mas depois, nessa segunda, eu voltei no sentido mais financeiro. Acabei voltando a morar com a minha mãe, porque, com três filhos, nunca recebi pensão de nenhum deles para poder ajudar com as crianças, então eu optei em ficar com a minha mãe, para poder ter condições de render a vida e continuar tocando.

 

P/1 — Isso foi o seu segundo casamento. Agora, eu queria que você contasse pra gente um pouco a sua trajetória no movimento já mais ligado a moradia. Você nos contou agora que já estava ligada nos movimentos sociais por causa da questão da mulher.

 

R — Isso.

 

P/1 — Mas especificamente a questão da moradia, como é que você começou?

 

R — Olha, na questão da moradia, me lembro que teve um assessor, um parlamentar, acho que foi nesse processo, ele me chamou para fazer parte do movimento de moradia. Tinha um processo de reurbanização de favelas e a gente acabou montando uma entidade, uma associação para poder dar andamento nesse processo. Teve todo um cadastro das ocupações, para poder ser regularizado e urbanizado. Essa regularização e a urbanização seriam o quê? As famílias terem direito a um documento de posse e melhorar as condições do espaço, do local: vielas, asfalto, iluminação. Seria uma coisa mais organizada.

 

P/1 — Os seus pais já moravam lá já fazia mais de cinco anos?

 

R — Bem mais.

 

P/1 — Bem mais, né? Quase uns dez anos?

 

R — Isso.

 

P/1 — Imagino que a situação do espaço deve ter melhorado nesses dez anos. Mas, ainda assim, não tinha toda essa estrutura urbana que você mencionou. Não tinha iluminação pública, asfalto?

 

R — Não, ainda não tinha. Tinha várias coisas ainda a conquistar, foi o motivo da gente entrar para fazer parte do movimento. E a segurança. Porque as famílias, não só a nossa, mas as outras, não melhoravam o visual das moradias, com medo, com receio também de ter a desapropriação, então, acabavam não melhorando as construções e ficava sempre aquele impasse, aquela preocupação. Se a gente tivesse as condições de regularizar e urbanizar, seria uma coisa de confiança, mais segura, porque aí as famílias poderiam ter a certeza que poderiam ficar lá e poderiam melhorar suas casas. Investir mais na sua moradia.

 

P/1 — E como esse assessor apareceu na sua vida? Ele estava lá visitando o lugar? Como foi essa história?

 

R — Na verdade, a gente se encontra em várias atividades, por participar de reuniões, a gente tem acesso também, porque eu lembro que na UBM eu também comecei a participar do movimento político, do partido político, você vai conhecendo, vai desencadeando. Esse parlamentar foi numa reunião que eu participei e acabei conhecendo. Por ser um parlamentar, você acaba indo atrás pra ver no que eles podem ajudar. Acho que aí a gente casou essa questão da moradia com a questão do parlamentar.

 

P/1 — Então, você que capitaneou essa relação entre a sua comunidade e o poder público?

 

R — Isso. Eu falo que a gente sempre precisa participar da política. Então, lá na região eles me conhecem como a liderança política. Tudo o que eles precisam, até hoje, eles vêm atrás de mim para poder dar andamento, dar encaminhamento para as questões. Na área de saúde, educação, não só da moradia, né?     

 

P/1 — E como foi esse início do processo de urbanização ali?

 

R — Nós fizemos a reunião, que eles chamam de assembléia, eu convoquei todos os moradores da Ocupação, lá mesmo no terreno onde nós moramos e passei pra eles o que seria esse movimento, o que iria melhorar pra gente, na nossa região. Só que aí, pra participar desse processo, a gente precisaria ter uma entidade e nós criamos a Associação de Moradores, que teve o mesmo nome que a Ocupação, Santa Rosa. A gente deu o mesmo nome pra poder ser reconhecida. Quase todo mês nós fazíamos reunião pra poder passar o processo, ver em que pé estava, como é que estava sendo encaminhado. Nesse sentido a gente teve a proposta de entrar com o pedido da usucapião [direito civil e imobiliário]. Só que, pra entrar com a usucapião coletiva, não poderia ficar nenhuma família de fora, das que moram na Ocupação, e sempre tem um ou dois que acabam não querendo participar. Nesse processo a gente acabou parando. Teve um tempo que a gente ficou sem se reunir, eu avisei para as famílias que não dava para dar encaminhamento naquele processo por conta de algumas famílias que não aceitavam, porque o fato de você regularizar a área, eles achavam que ia ter que pagar água, luz, o mesmo valor que todo mundo, IPTU. Eles têm muito essa preocupação com o custo, porque hoje, praticamente, são taxas mínimas que eles pagam lá. Por conta dessa despesa, algumas famílias acabaram não aceitando e deu uma paralisada nesse processo.

 

P/1 — E como você conseguiu contornar isso?

 

R — Olha, com muita conversa e nós acabamos ainda não dando entrada na usucapião. Na verdade, a Ocupação está inscrita, tem uma lista de espera no projeto da Prefeitura de regularização e urbanização, algumas, no ano passado, foram aprovadas em algumas regiões e já foram feitos esses processos. Só que a Ocupação continua na listagem de espera pra esse projeto, porque a gente ia entrar com o pedido de usucapião. Agora, esse da usucapião, a gente não pode entrar por conta dessas famílias. Se fosse pra dar encaminhamento, teria que ser individual, por família. Aí, o trabalho é dobrado. É melhor você fazer uma coisa com todo mundo, do que cada um ter que fazer o mesmo processo sozinho.   

 

P/1 — Entendi. Agora, uma coisa era a parte da regularização, a parte legal, que teve esses imprevistos, esses problemas. A outra coisa foi a própria urbanização do lugar. Como é que se deu esse processo? 

 

R — Se deu através dessa organização dos moradores, porque, mesmo não tendo esse projeto, a gente acabou se juntando e pedindo as melhorias. Asfalto na rua, pavimentação das vielas, todas elas foram feitas com um mutirão, cada morador juntava ali um saco de cimento, um pouquinho de areia e no final de semana fazia-se um mutirão e também através dos pedidos da Eletropaulo e Sabesp. A gente tirava uma comissão dessas famílias para poder ir atrás dessa melhoria.

 

P/1 — Mas a parte de iluminação chegou lá?

 

R — Chegou. Depois de, se não me engano, dois anos, três anos... Não, tem mais tempo, acho que depois de uns cinco anos veio a parte da iluminação pública, porque, até então, quem tinha era quem pegava emprestado. E a água também foi naquele processo, era um registro pra quem morava na frente e aí foi passando para os de trás.

 

P/1 — Quais você acha que foram os seus maiores desafios lá, à frente dessa associação?

 

R — Foi ver hoje as condições que se encontram, porque era muito degradada a região. Então, a gente não tinha acesso de carro, ambulância, qualquer coisa que você precisasse lá, era muito difícil. Hoje, com a ida do asfalto, você já tem acesso a praticamente tudo, né? É uma compra que você faz no mercado, é um gás que passa na porta, é um transporte, hoje tem duas linhas de ônibus que também foram conquista dos moradores, porque fica numa divisa, entre uma avenida principal e a outra, mas leva de 15 a 20 minutos pra você chegar à avenida principal pra você pegar transporte coletivo. Então, por trabalho coletivo também foi reivindicado e temos duas linhas de ônibus, uma que dá acesso ao metrô e outra que dá acesso ao Terminal Santo Amaro. Essas melhorias assim, a gente vê que valeu a pena. 

 

P/1 — E qual é o maior sonho que você ainda mantém? Assim, qual é o maior desafio, o maior projeto que você mantém dentro do seu engajamento no movimento de moradia? 

 

R — Ter a casa própria. Hoje, tem sete anos que nós montamos o MDM, que é o Movimento Pelo Direito a Moradia, de que eu faço parte da coordenação, nós temos em torno de dez núcleos do movimento em cada região, zona sul, zona leste, até mesmo Santo Amaro, tem quatro ou cinco. Eu organizo um núcleo desse na região da Cidade Ademar onde eu moro. A gente tem lá várias famílias cadastradas, pra poder fazer parte do projeto habitacional. E eu estou inscrita há seis anos no projeto do Guarapiranga, que já tem o terreno, tem a documentação em nome do movimento, só falta mesmo construir. Essa luta que a gente continua pra poder ver se consegue ter nosso sonho realizado. No caso do Guarapiranga, não só o meu, mas de 200 famílias que a área vai comportar. 

 

P/1 — Agora, na Ocupação, onde os seus pais moram hoje, até agora, pelo que eu entendi, eles ainda não têm a documentação?

 

R — Não. Não têm.

 

P/1 — Que é esse problema que continua no processo legal?

 

R — Isso. Com o passar dos anos a gente acaba se envolvendo em várias outras frentes, atividades, responsabilidades, então, tem coisa que a gente não consegue dar encaminhamento e levar em frente. As pessoas agora que estão retomando outras lideranças da Ocupação, estão voltando a esse processo e eles estavam tentando convencer essas outras famílias pra entrar com o processo novamente. Tem todo um trabalho pela frente. Mas é como eles falam lá. A preocupação deles está quase que sanada, porque hoje em dia, mais de 30 anos que as pessoas moram lá, acho que não vão ser mais removidas. Mas, mesmo assim, 70% das famílias que moram lá ainda querem, sim, ter o documento em mãos. Ainda pensam em dar andamento nesse processo pra poder depois dar continuidade em suas moradias. 

 

P/1 — Você deixou a casa dos seus pais, quando você se casou pela terceira vez?

 

R — Isso. Que aí eu já fui com três filhos, e a casa da minha mãe, ela também acabou dividindo para os outros irmãos, então, na verdade, ela mora hoje num quarto e cozinha, já não comportaria eu, o novo companheiro e os filhos. Eu já morava de aluguel. Antes de casar, na verdade, eu já morava de aluguel com os meus filhos, com os três. Aí, eu mudei, mas ainda próximo da região.

 

P/1 — Ali perto?

 

R — Isso, sempre no miolinho, nunca fui pra longe.

 

P/1 — E esse MDM, você participou da fundação desse movimento?

 

R — Participei.

 

P/1 — Sete anos atrás, foi isso ou não?

 

R — Isso, ele foi fundado em 2002. 

 

P/1 — Como foi a criação desse movimento?

 

R — É que eu também faço parte da federação, da Facesp, que é a Federação das Associações Comunitárias do Estado de São Paulo. No ano passado [2009], eu fui eleita como Secretária Geral da Facesp e, por ser uma federação estadual, trabalha com as entidades municipais. Já havia esse trabalho do movimento de moradia, já tinha essa necessidade de organizar essas famílias. Então, teria que ter um movimento para poder dar conta dessa luta. A Facesp carrega todas as bandeiras de luta, educação, saúde, esporte, lazer, e faltava um movimento pra poder cuidar só da questão da moradia. Aí foi que nós criamos o MDM, que cuida só da questão de moradia. E foi criado nesse sentido, para poder cobrar, fazer projetos, organizar a população em prol da moradia, não só da moradia das casas novas, mas também de uma moradia social pra todo mundo. Melhorar as moradias que já tem, porque são muitas ocupações, e o MDM trabalha também nesse sentido, da melhoria das ocupações.

 

P/1 — E nesses sete anos, qual foi a maior conquista do movimento? Não a sua específica lá da primeira ocupação. Do geral do movimento, qual foi a maior conquista? 

 

R — Ter já encaminhado em torno de 50 famílias para seu apartamento. Teve aí os projetos que foram contemplados, algumas dessas famílias, que hoje estão pagando um valor simbólico, moram com qualidade e a intenção é essa. A gente conquistar moradia pra todos, principalmente para os trabalhadores, que tanto precisam dela. Morar em condições melhores.

 

P/1 — E você, pessoalmente, está em vias de conseguir a construção da sua casa, na região do Guarapiranga, é isso?

 

R — Isso. No ano passado a gente teve uma reunião com a Secretaria Municipal de Habitação e o que nos passaram é que, provavelmente, neste ano já se iniciam as obras. E é isso que a gente está esperando que aconteça. Realmente, a gente já vem com essas promessas há sete anos, que vai construir, vai construir e até hoje está ainda na espera.

 

P/1 — E quando você voltou a estudar Lia?

 

R — Olha, eu voltei já com os meus 25, 28 anos, mais ou menos. Meus filhos já estavam maiores, eu ainda estava casada, então o pai ficava com eles à noite pra eu poder estudar, não teve muita dificuldade, nesse sentido. Eu saía do serviço e voltei a estudar. Depois que eu voltei também, eu não parei. Porque aí eu acabei fazendo o supletivo, que era o segundo grau, fiz em dois anos, e depois do supletivo eu já engajei no curso superior. 

 

P/1 — E como foi a emoção de conseguir ficar mais próximo daquele sonho de infância, de ser professora?

 

R — Ah, na minha formatura, parecia uma adolescente, uma criança. Porque eu já me formei com os meus 30, 32, 33 anos. A minha filha, a Carol, que hoje tem 17 anos, falou: “Ai mãe que besteira, fazer formatura, deixa isso, é tão chato”. Eu falei: “Imagina, é uma emoção maior, principalmente a minha, com toda essa minha idade, saber que eu conclui aqui o terceiro ano e que vou batalhar pra entrar numa faculdade. Eu tenho mais é que comemorar!”. Eu lembro que eu comemorei muito a minha formatura, tenho fotos, várias lembranças muito boas. Só que ainda eu fiquei um ano, um ano e meio depois que me formei, fora. Aí, veio depois a possibilidade da bolsa para o curso superior.

 

P/1 — E agora você está em qual ano da faculdade?

 

R — Já estou no 6º semestre. Termino esse ano.

 

P/1 — Que legal! E você faz parte da associação do MDM?

 

R — Isso.

 

P/1 — Você tem ainda algum vínculo com aquela outra federação?

 

R — Sou Secretária Geral.

 

P/1 — Então, não sobra mais tempo pra nada? Você está completamente ligada ao movimento de moradia?

 

R — Isso. Na verdade, eu sou engajada no movimento social. O meu trabalho é esse praticamente, correr atrás das lutas.

 

P/1 — E à noite vai pra escola?

 

R — E à noite vou pra escola.

 

P/1 — Bom, você mora hoje com o seu marido e os seus três filhos?

 

R — Não, hoje eu estou separada.

 

P/1 — Mora você e seus três filhos?

 

R — Isso. Há sete meses eu me separei do terceiro relacionamento e hoje moramos eu e os meus três filhos.

 

P/1 — Qual o maior sonho que você tem pra eles?

 

R — É que eles estudem, se formem, tenham uma profissão e que conquistem, batalhem por uma vida digna, tenham direito a moradia, educação, uma saúde de qualidade, que construam uma família também, é o que eu espero pra eles.

 

P/1 — Você deve visitar a sua mãe regularmente. Quando você chega lá na casa da sua mãe, o que passa pela sua cabeça, depois dos mais de 20 anos, 30 anos que ela está lá, constatando todas as transformações que aconteceram, tanto na sua casa, quanto no entorno. Qual a sensação que você tem ali?

 

R — Olha, mesmo não sendo a moradia adequada, eu acho que é o sonho dela realizado. Da mesma forma que eu tenho o meu, ela até fala que quem realizou esse sonho dela, fui eu (choro), de ter um teto, de ter uma casa. Eu me sinto realizada. Por mais que eu ainda não tenha a minha, mas pelo menos eu pude proporcionar a ela uma moradia onde não passe frio, onde hoje ela pode dormir com a janela aberta se quiser, porque dá pra fechar, então, é isso.

 

P/1 — A gente está encaminhando aqui para o final da entrevista. Antes de terminar, eu queria saber qual foi a sua sensação de vir contar um pouco da sua história de vida pra gente, como você avalia essa experiência aqui?

 

R — Olha, uma coisa que eu nunca havia pensado em fazer, que eu acho que vale muito a pena você reviver os seus tempos. Aí, você vai ver o quanto você fez, o quanto você pode fazer ainda, são coisas que a gente acaba deixando de lado e que é tão importante na nossa vida. Eu nunca pensei em registrar nada disso. Eu acho que todo cidadão deveria fazer, de vez em quando (risos), uma história de vida dele, até pra ele poder depois saber avaliar o que ele deixou de fazer e o que ele pode fazer daqui pra frente. Então, eu achei bacana, vai ficar registrado, não só no vídeo, mas na memória também, e daqui pra frente, a proposta é eu anotar tudo o que eu estou fazendo, pra poder chegar lá na frente eu poder contar com mais lembranças, talvez, para os meus netos. Como é que se deu a minha vida, como é que se passou, o que eu conquistei. Eu acho que tudo valeu a pena. Uma pessoa que sai do interior sem perspectiva nenhuma, chegar e ter toda essa trajetória de luta e saber que hoje muitas coisas se modificaram pra melhor. Que houve muitas conquistas e eu acho que ainda faltam algumas, mas se a gente não correr atrás, se a gente não batalhar pra isso, a gente não vai conseguir também. Então, eu acho que foi bacana, esse trabalho é bom até mesmo dar continuidade, acredito que vocês façam isso, eu achei muito legal da parte de vocês.

 

P/1 — Então, nós três aqui e o Museu da Pessoa de um modo geral agradece você, sua disposição, seu tempo e sua generosidade em compartilhar sua história com a gente, tá bom? Obrigada!

 

R — Obrigada.

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