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História

Moldado em fogo: da guerra à arte

História de: Adriano Colangelo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/07/2007

Sinopse

Adriano Colangelo demonstra toda sua garra e a vontade de viver. Ele conta sobre sua infância durante a Segunda Guerra Mundial, quando descobriu sua vocação artística ao desenhar suas impressões sobre os abrigos antiaéreos. Após presenciar a barbárie, veio ao Brasil com o objetivo de conhecer a terra de seu pai. Com ele, estudou Dante Alighieri para compreender o período de transição que passavam (do inferno ao purgatório, em busca do reencontro com a espiritualidade, o paraíso).

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História completa

P/1 – Adriano, bom dia.


R – Bom dia. Bom dia pra vocês também.

P/1 – Bom, iniciando a nossa entrevista aqui no Ponto de Cultura do Museu da Pessoa, primeiramente a sua identificação, o seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Meu nome completo é Adriano Colangelo mesmo. Eu nasci no dia 19 de abril de 1934 no sul da Itália, na cidade de Taranto, da região da Puglia, que é uma região muito interessante, porque ela é a fusão de populações autóctones dos _______ salentinos, dos sanitas e dos italiotas. São pré-romanos, evidentemente, pré-cristão também, é claro. E junto com a dominação dos gregos, porque o sul da Itália, da Campagna, Calábria, Puglia, Sicília, foi colônia grega.

P/1 – Falando um pouco sobre a sua família, qual o nome dos seus pais e dos seus avós, Adriano?

R – Nome? O nome do meu pai era Giuseppe e o nome do meu avô por parte de pai, Antônio. Antônio Colangelo. Inclusive nós temos uma tradição, meu pai, como eu disse pra você, Maurício, nasceu em São Paulo. Nós temos uma tradição e uma conexão muito forte com a América Latina, no caso com o Brasil. Particularmente com São Paulo. Meu avô Antônio veio quase que junto com a família Matarazzo. Tanto que o meu pai, depois da guerra, encontrava-se com alguns familiares da família Matarazzo lá na Itália. Meu pai não veio mais, porque meu pai fez a carreira militar. Ele viveu até uns 15 anos de idade em São Paulo, no bairro da Barra Funda onde tinha pastifício, tinha mercearia, foi expandindo. E depois ele com a família fizeram um vai e vem. Ficaram muito ricos e fizeram um vai e vem com a Itália, porque eram raízes, eram de lá. Meu pai se formou em engenharia civil, depois ingressou na carreira militar. Tanto que ele começou como oficial e pegou a campanha da Rússia, da Frente Oriental, quando a Itália era aliada da Alemanha, do Japão, o Eixo, ele foi obrigado, por ele ser de uma engenharia militar especial ligada com a marinha italiana, então ele foi pra frente russa, fez quatro anos de campanha na Rússia. Ele fez uma retirada de 4.300 quilômetros a pé. A divisão dele, que era uma divisão de engenharia, Divisão Piccheno, a metade foi dizimada, mas ele conseguiu voltar. Por isso que apesar do que se diz por aí, eu tenho muito orgulho de ser filho de militar, porque ele me ensinou muita coisa. Em primeiro lugar: a ética; segundo lugar, amor à família; terceiro lugar, amor à pátria; quarto, não ter preconceito. Tanto que nós temos duas pátrias e com muito orgulho: Itália e Brasil.

P/1 – A origem da sua família é italiana, basicamente.

R – Sim. Exatamente.

P/1 – E o senhor tem irmãos?

R – Como?

P/1 – O senhor tem irmãos?

R – Eu tenho um irmão que é engenheiro de pontes, estradas, ferrovias e motores em Roma. Ele foi responsável, porque agora já se aposentou, por dois projetos principais do metrô romano. E tenho outro irmão que se formou advogado na Itália, veio pro Brasil, ficou 12 anos no Brasil, depois foi contratado pelo governo canadense e se formou no Canadá como PhD de Sociologia. Também está aposentado. E ele escreveu um livro muito interessante, meu irmão, Solo senza sole, isso significa: Sozinha sem sol. Um jogo de palavras em relação às mulheres italianas imigrantes, sobretudo em Toronto. Elas estão trabalhando, estão ganhando e tudo mais, mas estão sozinhas, estão sem sol por causa do clima.

P/1 – Fala um pouco da sua infância, Adriano, como é que era em casa, a família.

R – Olha, é uma pergunta interessante porque dá possibilidade de ver do meu ponto de partida até o momento que eu estou aqui com vocês. Considerando que eu tenho, como eu disse há pouco, uma ótima memória. Olha, infância pré-bélica foi muito interessante porque meu pai era um homem muito culto e a minha mãe era típica mamma italiana, né? Napolitana. Mas que deu em casa as bases afetivas, eram pessoas duras, nem tanto agressiva, mas dura, que deu uma formação muito afetiva, mas no afetivo não pegajoso, não lacrimejante. O afetivo objetivo, eu diria quase que um pouco seco. Meu pai deu formação cultural e uma formação, eu diria, não tanto militar no sentido de guerra, mas uma formação um pouco guerreira. Isso é, antes de tudo se respeite. Seja educado, mas não leve desaforo. Então, em casa havia essa bipolaridade do afetivo forte e do afetivo culto, firme. Quando veio a guerra... A minha infância foi, eu tinha dois irmãos, foi bonita, tranquila. A gente naquela época morava em Nápoles, porque a divisão do meu pai, a engenharia militar pela marinha, estava no porto de Nápoles. Eles já dirigiam um escritório lá. Foi bonita, nada de muito especial. Educação sólida em casa. Inclusive a obrigação de se alimentar bem, com alimentação mais forte do que a alimentação tropical por causa do frio. Lá o frio é pesado. Quando estourou a guerra, olha, se virou uma página branca e veio uma página preta. Eu tive contato, tanto com meus irmãos e minha mãe, com o inferno. Tanto que eu não conseguia entender que o ser humano que deu um Weber, que deu um Villa-Lobos, que deu um Beethoven, que deu um Stravinsky como na Rússia, pudesse carregar tanto ódio e tanta estupidez daquilo que eu fui obrigado a assistir. Apesar de que eu estou me sentindo muito à vontade com vocês, tem coisas que eu vi tão horríveis e degradantes em relação ao ser humano, que vão morrer comigo. Eu nunca vou falar, porque como ser humano, eu sentiria vergonha de ter assistido, de ter sofrido, direta ou indiretamente, aquilo que aconteceu.

P/1 – Como que era o cotidiano na época da guerra?

R – Olha, Maurício, uma bela pergunta. Você não pode ter nervos durante a guerra, durante uma revolução, durante aquilo que está acontecendo no oriente médio, porque não acaba mais. Porque se você fica nervoso, se você fica emocional, parece que você chama desgraça. Então eu fui educado desde criança a me dominar, apesar de que eu batia os dentes de medo. A guerra começou em 1939, com invasão das tropas nazis da Polônia. E os bombardeios em Nápoles, no caso, começaram em 1940, 41. Durante o dia era normal, você não podia pensar que viesse um alarme e os aviões destruindo tudo. Não podia. Senão a nação parava. Então nós fomos forjados, nós desta nossa geração, não da geração de vocês de lá, que às vezes até se esquecem que a Itália de hoje deve a nós e nem tanto a eles. Eles deveriam ter muito mais respeito e amor pela pátria porque nós aguentamos o tranco e eles ficam às vezes até um pouco arrogantezinhos, né? Um pouquinho. Não muito, mas o suficiente pra, às vezes, incomodar. Durante o dia, era vida normal. À noite começavam os medos, porque de noite vinham a aviação militar inglesa pra bombardear. Principalmente porque os ingleses se comportavam de maneira muito correta. Eles só visavam os objetivos militares. Agora, de noite a gente ao lado da cama, dormia vestido, tinha uma malinha, quando soava o alarme, tinha que pegar a malinha, voar pela escada e entrar no refúgio. Isso durante quase toda a noite. Isto aumentou com os bombardeiros das forças armadas da aviação militar norte-americana, que era bombardeiro a tapete, destruiu bairros e tudo mais. Nesse interim, meu pai, com o qual eu estava muito ligado, porque ele é um homem muito culto, né? E homem severo, mas homem alegre, simpático. Homem forte, um guerreiro. Quando ele foi chamado pra ir pra Rússia foi um horror, porque eu fiquei com meus irmãos sozinhos com minha mãe. Chegava o governo naquela época, pagava regularmente a parte nossa por direito do salário, mas começou a faltar comida. Começou a fome. Aí não podia ligar o aquecimento central. Frio. Humilhações. Seja pela loucura nazifascista, seja depois pela humilhação de nossa pátria, nosso solo, nossos monumentos, nosso coração ser invadido, com consequência lógica da guerra, né? Isto foi me ensinando também outra coisa, quando os refúgios dos prédios não eram mais suficientes, porque às vezes os bombardeiros eram tão violentos que desabavam os prédios, considerando que os prédios na Europa não são muito altos, né? Tinha gente que morria lá embaixo. Então a gente tinha que correr em ruas buscando túneis, tipo Túnel Nove de Julho, porque era mais seguro. Então no trajeto, não quero entrar em detalhe porque é horrível, você não podia olhar para gente que era metralhada, era morta, que caía, que gritava, porque senão você morria junto. Considerando que naquela época eu tinha uns sete, oito, nove anos de idade. A guerra terminou em 1945, eu tinha 11. Então eu tive que aprender a me dominar e, por incrível que parece, a ajudar minha mãe, era uma mulher, né, e a cuidar dos meus irmãos e vice-versa. Só que disso eu me orgulho muito. É que eu fui forjado numa fornalha de fogo, ou eu quebrava, ou me tornava gente. Tornei-me gente em todos os sentidos. Primeiro lugar, eu preciso deles e eles precisam de mim. Eu preciso de vocês e vocês precisam de mim. Então qual é a consequência natural disso? Respeito recíproco, até que provem o contrário lá fora. Isto é, humanidade, entrar em contato com o próximo com um sorriso, mas nunca esquecer que aqui dentro tem um guerreiro de ascendência greco-romana e com muito orgulho disso. Então o que acontece? Isso que dá um modelo que depois que meu pai voltou da Rússia e nós conseguimos sobreviver, eu me lembro de uma coisa fortíssima. Fortíssima, nobre, bonita, digna. Meu pai voltou, aquela confusão, aquela loucura, né? As escolas já estavam começando a funcionar e a Itália, com a garra de sempre do nosso povo, começou a se levantar. Meu pai, eu tinha naquela época uns 14, 15 anos, disse: “Agora você vai voltar a ser italiano. Vai ter orgulho da tua gente. Perdemos porque tínhamos que perder, pela loucura total, mas agora você vai estudar comigo A Divina Comédia, do Dante Alighieri toda noite durante três anos”. Então nós passamos a estudar o Inferno de Dante, o Purgatório e o Paraíso. Por que isso? Meu pai foi genial, né? Porque o inferno, olha de onde nós estamos saindo, agora estamos indo para um limbo, que é o purgatório, pra encontrar no paraíso não somente a paz, a luz, a espiritualidade, mas Beatriz. O que é? O reencontro da alma com a espiritualidade. Foi uma escola fabulosa. E meu pai dizia: “Não esquece que eu nasci no Brasil. Nós, família Colangelo, temos duas pátrias, não é a primeira e a segunda. Não. Seria soberbia isso. Seriam as duas, lado a lado, que é aí com o Brasil. Então um dia você vai conhecer a minha terra e um dia, quem sabe você encontra lá aquilo que você procura se por acaso a Itália” – a Europa pós-guerra era difícil – “não te der”. Então imagina, depois da guerra a escola que eu tive. Não somente com professores, com gente que estava ainda viva, né? Mas como não dizer: “Vamos arregaçar as mangas!”. Vamos olhar pros escombros. Vamos olhar pras ruínas que isto é um inferno, mas vamos entrar no Museu Filangieri em Nápoles pra ver qual é a pré-história daquela região do nosso país e vamos entrar na Galleria degli Uffizipra ver Sandro Botticelli, vamos ao Teatro San Carlo pra ouvir Giuseppe Verdi, Puccini, Ottorino Respighi, Cláudio Monteverdi e vamos começar a dizer: “Espera aí. Tudo bem. Perdemos a guerra e aprendemos uma lição, aquilo que não se deve fazer. O ódio, né? E vamos reerguer”. É isso que nós fizemos após a guerra. Foi um percurso terrível. Se o Gabriel me perguntasse: “Você voltaria a fazer aquilo?” “Sem dúvida. Com certeza”. Porque é assim que se fazem os homens, nós, machões, os homens. Se você coloca um machão nesse percurso, a primeira coisa que ele vai fazer é chamar a mamãe porque ele está morrendo de medo. Você tem que chamar a mamãe numa oração. A Virgem Maria, se você é católico. A mãe pátria. Mas não chorar porque chorar é um luxo. Chora depois.

P/1 – E como que era a escola na época da guerra e depois?

R – Uma beleza. Uma maravilha. Outra... Escola era fantástica. Fantástica. Orgulho-me muito daqueles anos porque eu estudei a fundo ciências, religião e tudo mais. História da arte que era uma das matérias principais, literatura italiana, literatura grega, literatura latina. Eu estudei durante oito anos diariamente, de segunda a sexta, latim e grego. Tanto que, apesar de que a memória do idioma falhou um pouco, eu posso ler o grego arcaico correntemente. Ler. E o latim também que não tem problema. Isso me deu, como eu te disse na antessala, uma base lindíssima pra etimologia das palavras. Por exemplo, como eu estava falando pra você, pontifex, pontífice, o que quer dizer isso? Pontifex, fex, facere de fazer, pons, ponte, aquele que faz a ponte, a ligação entre céu e a terra. Pronto. Uma base humanística extraordinária que um povo latino como o nosso aqui do Brasil, o nosso verde e amarelo, deveria voltar a estudar, porque isso não é quadrado, isso não é velharia. Não é conservadorismo. Isso é a nossa tradição, porque estudando isso, se entende melhor um Guimarães Rosa, um Machado de Assis. Aí vai entender porque um homem tão culto como Heitor Villa-Lobos levou o Brasil para o mundo, porque ele teve uma formação espetacular no Rio de Janeiro, seja em casa, como nas escolas, e foi fazer aquilo que ele chamava muito bem, “o segundo descobrimento do Brasil”, andando pelo interior do Brasil durante quase três anos. Porque aí você tem uma base, a base da pirâmide. Hoje em dia na juventude temos pessoas extraordinárias que poderiam ser brasileiros fantásticos, eles não têm base. É um crime isso. Meu Deus do céu, vamos voltar, ao lado da informática que eu curto muito, eu gosto muito, vamos estudar o porquê da figura do jagunço do Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. Vamos estudar o porquê do contadino [agricultor], do camponês italiano que faz artesanato, que faz aquela comida ou porque no interior tem aquela comida típica brasileira, o arroz tropeiro. Isto é cultura. Isto é pátria. Mas a raiz é do latino e raiz mais anterior é do grego.

P/1 – E na escola o senhor fez o ensino médio, como é que foi a formação?

R – Eu fiz o asilo infantil, o ensino médio, eu fiz o ginásio aqui naquilo que chamávamos de ginásio clássico, que seria a madureza clássica, como já se chamava no Brasil quando eu cheguei aqui, que hoje se chamaria de ciências humanas. Eu parei na madureza clássica porque não tinha interesse em nenhuma carreira universitária. Eu desenhava muito, eu já pintava muito por minha conta. Eu sempre fui, em termos, quando era necessário, um autodidata feroz. Porque se eu tivesse uma formação universitária, por exemplo, na história da arte, eu não teria como matéria, que deveria estar, a história da música, a história da literatura. A arte e a cultura são um corpo só, não são uma parte. Então eu andei estudando música, fui levado aos teatros da Itália pelos meus pais, sempre. Eu lembro que uma vez eles me falaram, eu tinha uns 17 anos, já era grandinho: “Olha, você vai ter que enfrentar um ciclo de óperas muito duro, muito difícil, mas você tem que assistir”. Que é a Golden Ring, O Anel de Nibelungo, Richard Wagner no Teatro San Carlos que tem em Nápoles, que tinha uma acústica fenomenal. Realmente era uma parada. Eram bastante duros, difícil, porque os diálogos cantados às vezes eram muito longos, em alemão, tinha o folheto com a tradução e tudo mais. Agora, você imagina, nesse sentido eu tenho uma memória e uma cultura musical muito grande por mérito dos meus pais. E também pelo meu amor pela arte naquela época. Naquela época eu lembro que eu assisti, não somente pelo Wagner, aos grandes tenores, sopranos, barítonos, corais e regente de orquestra como _______, Arturo Toscanini, a grande norueguesa soprano Kirsten Flagstad, a alemã Elisabeth Schwarzkopf, a Renata Tebaldi, o Franco Corelli, o Giuseppe di Stefano, sabe? Os grandes violinistas e pianistas, o alemão Walter Gieseking, o ______, o romeno Dinu Lipatti, que era um intérprete de Chopin assim, extraordinário. E naquela época, vocês vão ficar contentes como brasileiros, que nós somos, eu já ouvia a obra do Heitor Villa-Lobos, naquela época a televisão na Itália ainda não tinha se desenvolvido, mas tinha um programa radiofônico chamado _______ Programa, onde houve um ciclo de todas bachianas, depois de toda obra de piano, imagina só, de toda obra de violão, as cirandas. Enfim, todo um universo de arte, de beleza que foi a luz posterior às trevas da guerra. Quer dizer, houve equilíbrio!

P/1 – Voltando um pouco, Adriano, o senhor poderia contar um pouco sobre os seus amigos, tanto na época de infância como na juventude. Como é que era a questão da amizade na época de guerra, depois?

R – Maurício, olha, pergunta ótima também. Naquela época não havia malícia. Amizade era uma coisa muito pura, tanto que os amiguinhos, quando eu tinha sete, oito anos, dez anos, a gente ia de braços dados ou de mão dadas. Sinal de amizade, de bom coleguismo. A gente jogava, batia bola, imagina se na Itália não se batia bola. Sempre, né? Futebol, ginástica, tudo mais. A gente era muito identificado com esportes físicos, com ginástica, exercício físico, natação, basquete e tudo mais. E quando era o momento de uma festinha, não eram festinhas como se diz por aí, que não é verdade, reprimidas. Eram festas educadas, à vontade. Você é moleque, então seja moleque, só que não ofenda, não xingue, não quebre essa máquina. Porque aí era uma linha dura, que eu acredito que seja necessária. Hoje em dia se liberou demais. O que tem? Confusão. Antes era kósmos, em termos gregos, isso é, ordem. Ordem não é sinônimo de repressão militar, nem de tirania, é sinônimo de equação matemática, de equilíbrio entre as partes. Hoje em dia temos o caos. Temos crianças belíssimas perdidas, drogadas que pra onde vão? Nem os pais sabem. Então a infância era muito bonita nesse sentido. Mesmo durante a guerra havia um coleguismo de um apoiar o outro. Tanto que eu tive um mérito histórico como início de carreira artística que os meus primeiros desenhos foram nos refúgios antiaéreos. Eu fiz uma verdadeira alquimia comigo mesmo, porque eu tremia assim, né? Imagina, vinha um avião, aquilo uuuuu, jejejeje, começa a metralhar, puxa, não tem nem como rezar porque o barulho era ensurdecedor. Então eu me transformei. Peguei um bloco, um lápis, uma canetinha, eu comecei a desenhar, por exemplo, a tua posição com a perna cruzada, a tua mão forte, o relógio, o canto da tua boca que esboça um sorriso, a atenção dele, a curiosidade dele com olhos abertos. Veja que eu faço uma leitura rápida. Eu desenhava, desenhava , os coleguinhas vinham e perguntavam que eu quase esquecia do barulho das bombas. Enquanto que os velhos só dormiam, as mulheres rezavam, jovens que tinham limitações físicas, por isso não foram para o fronte, que tinham medo, queriam sair, eram indignados. Era um mural, mas um mural de uma humanidade extraordinária, entende? Porque você via o medo, a covardia, todas as emoções humanas estavam assim, muito bem acentuadas e à flor da pele. Só que isso estreitava muito as amizades, eram amizades belíssimas. Seja na infância, depois a gente se reencontrou no colégio, a guerra, aquela gritaria italiana de alegria, de abraços, de beijos, naquela época beijar um colega, não tinha malícia. Eu gosto dele, qual é o problema de beijar no rosto? Se tinha algum caso de “gayismo” ou não sei o quê, era uma coisa muito discreta, era aceita em silêncio, eu diria até com certa elegância. Bom, é assim e tudo bem, apesar de que o governo fascista era repressor. Sabe, é italiano, é brasileiro. “Tudo bem. Não faça mais isso. Vê se não vai fazer isso”. Era aquele jeitinho ítalo-brasileiro que lá também tem. E a relação depois com os amigos, depois da guerra, era uma identificação muito forte, uma “neo-identificação” com nossa cultura e um tremendo amor pelo esporte. Tanto que fui um ótimo futebolista. Errei de carreira porque nesta época eu seria, sem dúvida, muito rico. Era meia esquerda, eu fui artilheiro durante dois anos numa divisão menor do mesmo time. Meu irmão jogava na meia direita, eu jogava com a famosa camisa dez. Muito bom, orgulho-me disso, futebol é uma coisa muito sadia, muito boa, empolga! Enfim, uma coisa positiva.

P/1 – Adriano, aproveitando um pouco o tema, como é que era a relação com a mãe italiana? Como que era essa relação com os filhos?

R – Olha, a mãe... É outra pergunta muito interessante isso. Aliás, entre parênteses, estou muito contente em estar aqui porque são perguntas arejadas e são perguntas inteligentes. Eu não sou muito fácil de elogiar, nem estou jogando confete, mas são perguntas inteligentes. Aqui se tem uma ideia da mãe italiana que é circunscrita à mãe italiana do sul, que é um limite. La mamma, la mamma, la mamma. Mas espera, as nossas mães não são somente choronas, gordas, que passam o dia inteiro fazendo comida, fazendo pão, fazendo macarrão e à noite passa a noite inteira meio dormindo e fazendo filhos. Não é nada disso. A mãe italiana é uma mãe carinhosa, dura, é uma mãe que sabe conduzir muito bem o lar, às vezes ela tem que ser repressiva porque o italiano é foguete, o italiano é espoleta. A nossa raça é uma mistura de raças que se juntou numa península, até a questão da importância da cultura, entre parênteses, que é 95% terra vulcânica. Então nós somos criados entre o mar, somos marinheiros, as montanhas, somos alpinos e somos criados no meio de enxofre, de fumaça, de fogo, de gênios fortes. A nossa sombra, como máfia, como totalitarismo, é a sombra muito pesada, somos conscientes disso. Mas a nossa luz é uma luz solar. Tanto que a definição muito bem do nosso povo de um escritor italiano, napolitano chamado Giuseppe Marotta, que definiu, sobretudo, o povo italiano do sul como gli alunni del sole, os alunos do sol. Só que aqui, por exemplo, nas novelas, é uma coisa que me incomoda um pouco, porque é limitada, se faz só, quando se faz uma propaganda da Itália, se faz Tarantella, Tarantella, Tarantella. Espera, Tarantella é só Nápoles, um pouco sul. Mas nós temos cantos alpinos, os quais eu participei, lindíssimos, cantos de montanhas muito parecidos com os famosos coros russos, isso era gente do frio. Então aqui tem um estereótipo que limita muito, porque a mãe italiana quando é pra ir pra um teatro é uma mulher muito elegante, mesmo sendo de origem socialmente, socioeconomicamente um pouco mais simples. Mesmo assim feita limpa e perfumada, aparece bem do jeito dela, do gosto dela. Ela é elegante, boa companheira, boa amante. Porque, já repararam, a mãe italiana é la mamma que nós conhecemos, mas ela como amante é uma Sophia Loren. São mulheres bonitas, sensuais, envolventes, ciumentas, inteligentes e fortes. Por isso que o nosso povo sempre se levanta: por mérito da mãe. Claro que tem pessoas que são reprimidas, veja o catolicismo exagerou um pouquinho, família: “É o pecado, é não sei o quê”. Italiano é o povo mais pagão que existe, né? Pelas nossas culturas pré-cristãs, pelo amor à boa comida, ao futebol, amor ao sexo, à cultura, então nós somos polivalentes. Só pra encerrar, a mãe italiana é uma das colunas do nosso edifício, a outra coluna é o pai, sem dúvida.

P/1 – Você começou falando do início da pintura nos refúgios, nos abrigos na segunda guerra. Como é que foi, como que se desenvolveu na sua alma a questão da pintura? Como é que foi a...

R – Da pintura?

P/1 – Isso.

R – Outra boa pergunta. Aí entra o fator materno. Meu pai tinha que trabalhar, a Itália estava se levantando muito bem, então nas horas vagas... Apesar de que eu tinha que estudar bastante em casa, porque a gente tinha muitas matérias. Minha mãe me pegava e toda semana me levava pra um museu em Nápoles. Depois fomos morar em Roma. Então imagina o que aconteceu quando eu vi a Capela Sistina. Eu tinha uns 17, 18 anos, 16, por aí. Nesta faixa etária. Toda semana. Ou então toda semana me levava, mesmo que fosse num espetáculo não de classe A, mas de classe B, classe C e classe D, um concerto, uma ópera. Ela me explicava antes, se eu fazia uma pergunta tinha o olhar da Almerinda fulminava como dizer: “Agora não, é pra fazer e fica quieto”. Além do mais eu aprendi a disciplina, a não dar risada, a bocejar e aplaudir na hora errada no meio de um concerto. Então percebe que forja? Por isso que estou gostando muito das perguntas. Porque veja, infância antes da guerra é tranquila, serena. O inferno. Agora já estou no purgatório, da importância de ter lido a Divina Comédia. E quando eu ouvi Botticelli, quando eu vi os artistas pré-históricos, as estátuas romanas, os monumentos gregos com aquela beleza, aquele equilíbrio, pra mim foi um... Não foi um choque. Porque minha mãe tinha inteligência suficiente de me explicar e me mostrar aos poucos. Então foi como abrir um zíper do coração e da mente, por isso que a etimologia da palavra sentimento, muito interessante, porque ele é sentir como a mente. É uma oitava musical. Comecei a perceber que tinha beleza, que tinha ordem, que tinha idealismo, que a arte plástica era quase como uma filosofia visual. Porque minha mãe, e depois em casa meu pai, explicavam não somente a forma e as origens de uma arte, que seja da Lombardia, da Toscana, da Campagna, mas o conteúdo de uma alma individual daquele artista, seja músico ou pintor, o conteúdo da alma coletiva do nosso povo.

P/1 – O senhor se especializou em pirografia [pintura impressa a fogo], né? Você poderia explicar um pouco essa...

R – Olha, eu pintava com... Eu pintei muito bem, fiz a minha primeira exposição em Nápoles, tivemos sucesso, eu ganhei muito dinheiro bem ganho, porque eu pintava bem. Principalmente que eu era um clássico. De tanto ver os clássicos, notadamente o clássico está no sangue também. Nós somos uma cultura clássica não conservadora, mas uma cultura clássica sem dúvida porque o classicismo é um estado de espírito, entende? Tanto como os povos semitas não têm o culto da imagem, nós temos o culto da imagem que é antropocentrismo. Eles têm o teocentrismo, percebe? Então eu vim para o Brasil não pra fazer a América, porque não fiz a América do ponto de vista econômico. O que me deixa em certo sentido vivo com dignidade, lógico, eu e a minha mulher. Não lamento isso, porque eu fui ao Brasil pra conhecer a minha pátria paralela, como filho de brasileiro e também pra conhecer uma natureza diferente. Porque a natureza italiana, que é esplendorosa, todo mundo lá já pintou. Então eu queria horizontes plásticos, visuais, de panorama, de natureza, de Gaia, mãe terra. Eu pintei, fiz exposições. A minha primeira exposição foi em 1950, puxa vida, 58, na Galeria Prestes Maia, que naquela época era da prefeitura. Depois eu comecei a entrar um pouco em crise, porque eu estava crescendo culturalmente, continuei a estudar, dessa vez como autodidata, com a base que a Itália e meus pais me deram. Sabe quando você, Gabriel, quando você percebe que você está gaguejando, você não está falando, que você está falando como os outros, como renascentista, eu pintava como Leonardo, Michelangelo. Sempre tive um desenho muito bom. Puxa, mas não sou eu. Sou e não sou. Estou continuando a tradição italiana. E comecei a entrar em uma crise. Até que um dia, nos verões lindíssimos de São Paulo, que eram uma beleza, né? Imagina que na Praça República estava assim de pássaros. Naquela época tinha vários pássaros que cantavam, natureza. Encontrava-me com os amigos depois da chuva. Chuva era das quatro e 15 até às quatro e 25. A chuva tropical, né? E depois parava, o sol voltava e o São Paulo é um quadro. Eu andei lá, eu tomava meu café. Naquela época eu fumava meu cachimbinho. Eu, puxa vida, tudo isto é cor, tudo isto eu estou pintando, mas não quero pintar mais. Aí passei na frente de uma casa de arquitetura, desenho, decoração, uma casa espetacular chamada Casa Franco. Avenida Ipiranga, Praça República. Uma casa grande. Onde eu entrava lá, era de casa, fazia festa. Tinha um calor humano naquela época que hoje se perdeu um pouco. Então eu entrei, vi tudo, fuçando, aí certa hora: “Deixa ver na vitrine o que tem de novo”. Aí eu olhei, olhei, olhei, eu digo: “Bom, eu vou embora”. Mas alguma coisa me segurava. Eu sempre fui muito intuitivo, eu sempre respeitei muito a minha intuição. Certa hora eu vi uma caixa. Essa é uma caixa. O que é isso? Com várias temperaturas, um fio elétrico e uma caneta. Pirógrafo. Eu sou signo de Áries, fogo, com uma constelação de fogo muito forte no meu mapa. Eu dei um berro. Eu vou desenhar a fogo. Entrei como um furacão, comprei o pirógrafo, voei pra casa, peguei um pedaço de madeira, comecei na madeira, e daí eu não parei mais. Eu tenho 40... Bom, quase 50 anos em pirografia. Depois eu acoplei a pirografia com as cores. Continuando, certa hora veio outra crise criativa, graças a Deus, que aí você é obrigado a se renovar. Meus pais me disseram também uma coisa muito importante: “Nunca se acomode”. Quando é a hora certa vem uma crise, não tem problema. Maravilha. Crise quer dizer fratura, mas quer dizer também renovação. Então eu comecei a sentir, pelo fato de começar a ir à natureza, viajar muito pelo interior, este Brasil que é uma loucura de cores, de cores intensas, de cores suaves, de formas. A forma de uma árvore, a forma de uma famosa morena, bem diferente da italiana, da alemã, sabe? Quais as que são atraentes e chocantes no sentido outro povo, outra cultura, outra etnia. Aí um dia eu comprei vários tubos... Eu não quis fazer óleo, porque óleo com fogo não combina, né? Nanquim. Aí comecei a criar, sempre intuitivamente, pegando papel fabriano, cartão fabriano, ou papel canson brasileiro, naquela época já existia, eu usei também de gramatura maior e a colocar as cores e deixá-las secar. Eu vinha com o pirógrafo em cima. Aí eu fiz outra descoberta, que o fogo altera a composição química da cor. Então, vamos dizer, um laranja com o fogo se torna marrom. Pronto. Outro panorama que abriu na minha frente. Aí mergulhei de cabeça não somente na madeira, mas também na pirografia sobre papel, sobre cartão.

P/1 – E o senhor realizou exposições, né?

R – Eu fiz exposições nos melhores lugares de São Paulo e posso dizer em alguns lugares do Brasil. Porque eu expus... A minha caminhada começou na Galeria Prestes Maia, na época tinha a galeria de artes com pessoas extraordinárias, Galeria Atrium, da Emi Bonfim, a Atrium, uma que era da Emi Bonfim, esposa do Paulo, famoso poeta, meu grande amigo Paulo Bonfim. A Galeria Estreia, que era do Stéfano, um vienense, um judeu vienense muito simpático que abriu a livraria Cosmos, famosíssima na época. Era a Livraria Cultura daquela época. Então as galerias... Eu fui um dos primeiros a expor no Embu, na Praça República. Eu, em 1964, coisa que isso não é lembrada e isso me deixa um pouco triste, apesar da repressão militar que era, imagina. Onde eu morava, na Vila Santo Antônio de Barra Funda, que era a vila do meu avô, eu fui o primeiro no Brasil a fazer manifestações de arte ao ar livre. Eu criei, né? 1964. Em casa tenho toda a documentação disso. Primeira semana de arte ao ar livre, onde tinha exposição de quadro nas paredes das casas, porque era época da primavera, não tinha muita chuva, não. Era setembro. É isso mesmo, setembro. Tinha escultura, recital de poesia com a recomendação de não fazer política, nada, e fomos corretíssimos. Coral. Tinha o Quinteto Ackerman, fizemos música de câmara dentro do meu ateliê, na minha casa, que estava na vila. Corais com o famoso regente daquela época, que era um brasileiro filho de alemães, Klaus Dieter Wolf. Fizemos coisas esplendorosas. E a segunda semana, um ano, um ano e meio depois, foi a Semana de Arte Sacra, corais sacro, música sacra, tema sacro. Um esplendor. A terceira foi de arte e artesanato. Tanto que eu fiz reuniões culturais e artísticas de alto nível. Na minha casa, durante cinco anos seguidos eu não saí de sábado, da minha casa. Meus filhos tiveram uma formação, porque tinha três filhos, agora tenho dois porque um morreu por causa do cigarro. Pulmão, câncer no pulmão, aí ele foi. Bom, tudo bem. Eles foram educados no meio de arte, de poesia, de cultura, de palestra, de música. Quer dizer, em realidade aquilo se tornou tão famoso que se transformou numa universidade livre. Uma coisa que me deu uma emoção extraordinária, que na nossa vila tinha uma família de pretos. Gente muito humilde, que trabalhava, dava duro para crescer, estudar. De tanto frequentar, de tanto ouvir os nossos programas, as nossas reuniões, um dia um rapaz, que já estava estudando Direito disse: “Olha, por mérito seu, eu comprei o long play”. Eu digo: “Puxa, que bom. O que é?” “A Sagração da Primavera do Stravinsky”. Aí ele não parou mais de comprar discos. Educação, percebe? A educação precisa de dinheiro, investimento... Que nada. O que precisa é vontade. Garra, porque você num metro quadrado você pode fazer alguma coisa. Não posso fazer uma construção, então faça um tijolo, mas faça aquele tijolo bem feito, os outros vão continuar. Então houve uma caminhada não somente numa direção. Eu abri gradualmente o leque das minhas atividades. Aí fui pra Embu, fui convidado pra expor em outras galerias. Em 1970, só pra encurtar, que tem um histórico muito grande, 1970 eu fiz uma exposição interessantíssima na Galeria Tora em Ipanema, no bairro Ipanema, em 1970. Aí conheci o Vinícius na praia, quem fez apresentação foi um artista plástico estudioso, crítico, carioca simpaticíssimo Oscar Araripe. E naquela época tinha um conjunto de música popular que eu sempre gostei muito, que eram os herdeiros do famoso Sérgio Mendes, chamava esse conjunto era Brazucas, que foram na minha exposição. Então imagina que maravilho que era aquilo. O Brasil naquela época não era um país, era um sonho. Em tudo. Não havia luta de classe, não havia ódio, não havia inimizade, não havia racismo, não havia elitismo. Havia uma pirâmide que estava se formando. Somente que não deram tempo pra essas pirâmides se formarem, não do ponto de vista político, odeio política, política foi causa de coisas terríveis, mas de um povo fazer uma amálgama. Juntar-se, ajeitar-se e se encaixar. Depois escolher o próprio caminho, não os caminhos impingidos de fora. A América Latina não precisa disso, copiar os erros de fora com as consequências sociais que nós conhecemos, repressão e tudo mais. Tanto que na minha primeira exposição coletiva na Barra Funda, primeira semana de arte da Barra Funda, nós fizemos os cartazes a mão com silk screen e tudo mais. Certa hora veio uma perua com uns caras mal encarados, uns 15 assim, as mãos no bolso: “O que é isso?”. Falavam até palavrão. Era o Dops, né? “Ah, somos o Dops. O que é isso? É o gringo.” “Não. Entra na casa, pode entrar. Tem livro de arte, Botticelli. Pode entrar, não tem problema”. No fim eles gostaram e assinaram o livro de presença. “Isto aí que se faz arte”. E foram embora. Então quando você coloca a arte acima de qualquer ideologia, você educa o povo muito mais do que obrigar e amarrar a arte a uma ideologia. Não interessa se direita ou de esquerda, de cima, de baixo ou de centro. Villa-Lobos quando estava na natureza pensava no Brasil, pensava na terra dele, pensava na etnia, na etnofonia. Não precisa amarrar isso a uma ideologia qualquer que seja o lado. Porque o povo precisa ser levado acima das lutas de classe, acima das ideologias que estão os erros de lá fora. América Latina é jovem, ela precisa achar o próprio caminho, dizer: “Olha, dá licença, isso aqui eu vou estudar e tudo mais, mas eu vou achar o meu caminho porque eu sou brasileiro, eu sou latino-americano. Não sou europeu, não sou americano, não sou soviético, russo, nada. Eu sou brasileiro, eu sei qual é o meu caminho”. Mas como achar o caminho? Leia Guimarães Rosa e escute Villa Lobos. Possivelmente com o mini cassete dentro da floresta. Aí você percebe, puxa vida: “I am”. Eu sou. E o caminho vem de consequência. Lógico. Claro.

P/1 – E além da pirografia você encaminhou por outros caminhos da arte?

R – Sim. Olha, eu sempre fui, eu não sabia, músico nato, no sentido de musicólogo. Sempre ouvia os programas, inclusive me lembro de um programa maravilhoso da Rádio Gazeta que deveria ser reeditado, gravado e fazer um documento histórico excepcional, que era todas as tardes, às 16 horas, as músicas dos mestres. A introdução era uma suíte de Bach. Imagina. E naquela época tinha uma pequena editora, olha o que era o Brasil daquela época, que fez umas edições fantásticas, populares, a baixíssimo preço, sobre todos os compositores de música clássica. Todos. E eu tenho um aparte dessa coleção. Então o que acontece? Música, música, música, eu comecei a sentir vontade de tocar um instrumento. Na Itália, eu toquei piano durante quatro anos, tocava bem, pra senhoras elegantes e perfumadas ouvirem Chopin. Mas não era, isso não era bem o meu caminho. Sinceramente não. Eu queria alguma coisa de mais, como foi com a pirografia. Então eu saí do piano, passei pro violão no Brasil, estudei violão, mas também não convencia. Até que um dia eu entrei em contato com alguns músicos que tinham conjunto de flauta doce. Naquela época quem dirigiu e fundou este conjunto foi um músico extraordinário, eu fui aluno dele, que atualmente está no Brasil desenvolvendo um programa, projetos lindíssimos de música clássica brasileira, que é o Ricardo Kanji. Então eu: “Ricardo, já sou velho, pelo amor de Deus”. Tinha uns 30 e poucos anos: “Eu quero aprender...”. Eu percebia a flauta, né? Aí fiquei aprendendo flauta de bico, aquele que os alemães chamam de flauta block, durante uns quatro ou cinco anos. Também fiquei insatisfeito. Até que eu andei, pra fazer pesquisa de campo, energia assim em relação à Gaia, à mãe terra, interessava-me o ambiente, energia, antropologia. Eu sempre tive avidez do conhecimento, porque o conhecimento não é pra mostrar, conhecimento não precisa mostrar. Tudo bem não mostrar, dá-me uma profunda alegria o conhecimento, a cultura, o estudar. Pra mim é fonte realmente de gioia, como a gente chama em italiano, de felicidade. Gioia é um pouco mais que a felicidade. Então através disso, eu fui uma vez ler qual é que podia ser o instrumento, aí vi a flauta transversal desse tamanho, eu fiquei com medo. “Meu Deus, aprender isso!” Aí um músico me disse: “Não. Por que não?”. Naquela época eu tinha 54 anos. Eu falei: “Compro ou não compro? Estudo ou não estudo?”. Era um pouco de autocrítica, né? Aí comecei a estudar. Os professores: “Você tem tendência”. Aí eu não parei mais. Fiz o meu primeiro recital, estudei com ótimos mestres brasileiros paulistanos aqui de flauta. O primeiro foi o Paulo Flores, depois o segundo foi um amor de pessoa, Marco Antônio Cancello. Posteriormente eu estudei um pouquinho com o Toninho Carrasqueira. Senti um pouco mais como se toca o popular. Em seguida uma grande mestra, uma moça chamada Clarissa Bomfim Andrade. E hoje eu tenho, com muito orgulho, com muita alegria, uma professora excepcional, como não se deve ter preconceito de idade e uma coisa bonita o fato de ser aluno dela. Ela tem 27 anos. Eu tenho 73. E nós temos programa, que inclusive eu trouxe pra vocês nesta pasta, já sofisticado. Por quê? Porque eu recebi tanto estímulo destes mestres, tanto: “Vai. Vai em frente!” que eu comecei a estudar seriamente. Tanto que eu posso me considerar um bom diletante, um bom flautista amador. Apesar de que a minha mestra é terrível. Ela diz: “Tem que estudar mais que eu quero te levar não sei aonde”. Mas eu descobri que sou músico. Então o quadro com esta idade se completa. Eu sou escritor também, escrevi livro sempre sobre arte. Eu fui colaborador da Revista Planeta durante muitos anos, escrevi artigos muito importantes em termos da cultura universal. Eu escrevi sobre Leonardo, um dos primeiros ensaios mundiais diferentes. Escrevi sobre catedrais góticas, escrevi sobre Dante Alighieri, Castaneda, que naquela época era muito de moda. Eu escrevi sobre várias coisas. Simbologia... Porque andei estudando também o lado esotérico da cultura, frequentando várias linhas esotéricas, mas nunca me envolvendo porque eu sempre fui muito independente. Até que encontrei pessoas realmente de uma estatura respeitável que me abriram as portas em relação a raízes espirituais da nossa cultura, cristã e pré-cristã, e no caso da cultura xamânica do Brasil e da Argentina. Eu frequentei e estudei, que é um patrimônio lindíssimo e que também não deveria, não deverá ser perdido de jeito nenhum.

P/1 – Em paralelo a isso, como que era o cotidiano aqui em São Paulo? Questão de lazer, esporte...

R – Ah, tinha acesso. Tinha acesso, era fácil, era barato. O cinema na década de 60 era um barato, porque você não podia entrar no cinema sem gravata, porque tinha um tigrão na porta: “O senhor vai me desculpar, mas sem gravata o senhor não vai entrar”. Eu digo: “Mas o que eu faço com o calor?” “Então faça a gentileza de fechar o colarinho”. Manga curta, fechar o colarinho. Era muito divertido. Sempre tinha filmes muito bons nos cinemas. No centro da cidade eram cinemas de classe no sentido, não no sentido elitista social, no sentido educativo, porque tinha os filmes de _______, histórias de amor e tudo mais. Tinha filmes belíssimos do Mazzaropi. Tinha filmes muito bonitos da Vera Cruz. Tinha filmes italianos, começaram a chegar as enxurradas dos filmes italianos, realismo, de _______, enfim, de Nino Manfredi, Alberto Sordi. Tudo isso que tinha público. O (restaurante?), naquela época eu ensinava história da arte num instituto magnífico. Magnífico, não querendo exagerar nos adjetivos, que era o IAD, Instituto de Artes e Decoração que estava na Paulista com a Angélica, prédio inteiro fundado por um italiano, senhor Bianchi. Era uma maravilha porque lá se ensinava arte de coração. História do mobiliário, história dos estilos, uma coisa elitíssima. Uma universidade de alto nível. Lá eu ensinava história da arte. Naquela época os meus filhos estavam começando a crescer, então tinha que trabalhar, não se vivia... Ninguém nunca viveu de arte, né? Então eu lembro que, como uma das coisas de lazer, depois da aula eu entrava, às vezes de manhã, às vezes de tarde, às vezes de manhã e de tarde, às vezes até à noite, era um tour de force, eu saía de lá do IAD, descia a Consolação que não tinha nenhum problema de assalto. A minha mulher, naquela época, mais os meus filhos, me esperavam em casa pro jantar, mas dava fome. Então eu entrava no Sujinho daquela época, onde tinha um sanduíche de churrasco assim, imbatível. Imagina se não parava lá. Então essa era uma parte do lazer, um boteco limpo e gostoso. Naquela época tinha polícia, tinha mulatonas, tinha boêmios. Era uma mistura nunca agressiva. Aí eu fazia a minha parada lá, depois ia a pé pra casa. E o lazer de noite de sábado, depois do cinema era o passeio na Barão de Itapetininga, que tinha café, cafezinho, lancheria, loja de moda aberta. Era muito gostoso. Era uma cidade aonde os imigrantes, os paulistanos, os primeiros nordestinos, primeiros baianos que chegavam pra trabalhar e tudo mais, não havia nenhum problema de intolerância. Imagina. De jeito nenhum. Não existia isso no Brasil. Por isso que eu detesto política. Política traz Thánatos, que é a morte. A convivência respeitosa traz o Bios, isso é, a vida que pode se transformar em Eros. Não no sentido de erotismo, mas no sentido da convivência, da alegria e de subir, né? A Era do Aquário, acredito que o político vai desaparecer, porque ele é uma figura profundamente anti-histórica, a meu ver, e letal.

P/1 – Aproveitando um pouco o tema. Foi muito grande o impacto entre São Paulo e a Itália? 

R – Sim.

P/1 – A vida, as pessoas. Foi muito grande? O senhor se adaptou rapidamente?

R – Não. Não houve uma adaptação porque o contraste, por exemplo, das estações, pra mim os primeiros anos foram em certos aspectos, os quais eu vou citar um dos principais, senão o principal daquela época. Era um Natal com 30 graus de calor. Dava um aperto no coração. Eu quero neve. Eu quero frio. Eu quero bondinho. Eu quero a Missa do Galo, toda fechadinha, onde a gente se encontra com os amigos depois, vai tomar um conhaque, um chocolate quente no canto com calor. Isso começou, não a me desequilibrar, mas me deixar um pouco triste. Puxa, onde é que está o meu Natal de Roma, de Nápoles, das montanhas, com os pastores que descem com aqueles instrumentos típicos, a zamponha, como nós chamamos, gaita de fole. Não é somente dos escoceses, é uma tradição dos franceses, dos italianos. O que é a italiana unilateral, né? Nossa, as montanhas eles desciam com música de Natal que foram a base secular dos concertos de Natal, de Arcangelo Corelli da época da Arouca. Percebe? Sabe, não pode negar nada, porque você nega uma coisa, antes de negar veja qual é a origem. É como os camponeses alemães que inspiraram Bach quando ele ia pelo interior. O Pixinguinha que é a base do Villa-Lobos. Então você precisa aceitar, ver, criticar. Não a crítica negativa, destrutiva, corrosiva. Não. Não. Não. Você tem que ver, isso é importante? Sim. Então poupe. Não diga que é coisa de velho, de velharia porque isso é um preconceito que traz o ódio e traz a destruição. Olha, só um adendo, Maurício, Bagdá, pelo amor de Deus, uma das cidades mais antigas do mundo, a estupidez humana que estão fazendo. Não dá pra aceitar.

P/1 – E os livros que o senhor escreveu, Adriano, como é que...

R – Como?

P/1 – Os livros que você escreveu, os artigos. Poderia falar sobre eles?

R – Sim. Outra pergunta interessante. Olha, os livros... Eu sempre fui um europeísta e um ocidentalista. Percebi que isso era um limite. Então eu fiz quatro anos de Zen, fiz Tao Te Ching também em São Paulo pra conhecer os orientais, a cultura deles, então isto me abriu o leque definitivamente. Naquela época havia uma onda de orientalismo muito forte. Era quase de moda ir a restaurante japonês, ir ao bairro oriental assistir filme de samurai, filme de gueixa e tudo mais. Eu escrevi alguma coisa, eu fiz uma matéria em homenagem, na Planeta, em homenagem ao meu mestre de taekwondo chamado Cho Sung Min, faixa preta nono grau de taekwondo. Primeira matéria foi sobre taekwondo. Depois escrevi um pouco sobre budismo e tudo mais, até que percebi que nós ocidentais, nós europeus, como nossa tradição estamos sendo esquecidos como se somente o oriente tivesse a sua luz. Então eu lembrei, coisa de cultura básica, dos meus estudos com meus pais, toda a nossa tradição, e percebi que havia entrelinhas, uma luz exotérica, uma luz espiritual fortíssima. Pesquisei seriamente como, modéstia parte, sempre eu faço. Descobri catedrais góticas, catedrais romanas, a diferença entre Saint Bernard de Clairvaux, Bernardo de Claraval e São Francisco, San Francesco d’Assisi. As raízes romanas tem um preconceito assim, injusto. Romano era não sei o quê, era invasor. Um monte de besteiras que tiveram assombra. Mas não se deve negar de um povo nunca a sua luz, que isto é injusto. E além do mais indicando uma grave falha de conhecimento histórico. Então naquela época eu tive prazer de conhecer um grande sujeito, uma pessoa extraordinária chamada Ignácio de Loyola, que naquela época era diretor editor da Planeta. Conheci, tudo mais, Planeta, tudo mais, digo: “Puxa, interessante”. Ele foi, conversamos, fez uma entrevista e naquela época havia também uma relação muito humana entre aquele que oferece os seus serviços e aquele que pode pagar ou um cachê ou um salário. Não havia esse exército de secretário, de formar um verdadeiro Muro de Berlim, que você injustamente não tem acesso a um editor, ou não tem acesso a um jornal. Nisso eu sempre vou tirar o chapéu para o Estado de São Paulo onde durante anos a fio, até recentemente, eu fui recebido sempre com classe, elegância, respeito e me diziam elegantemente: “Isto não dá pra fazer”. Ou então diziam: “Faça”. E se faz, meu Deus do céu, quantos brasileiros de grande valor que tem na frente um Muro de Berlim das secretárias. Por que ele não pode contribuir pra cultura? Porque uma secretária decide que não foi com a cara dele? Isso é injusto, do ponto de vista social e cultural. Então eu comecei a oferecer: “Olha, Ignácio, eu tenho um estudo feito sobre as catedrais góticas”. Ele leu: “Vou publicar”. Então imagina a minha emoção. Aí eu escrevi sobre Leonardo, sobre Dante Alighieri. Do ponto de vista não somente literário, estético e histórico, mas do ponto de vista... Olha, espera. Aquilo que o Carl Jung diz superconsciente, consciente, subconsciente, o Dante Alighieri na Idade Média mostrou: Paraíso, Purgatório e Inferno. E o Michelangelo Buonarroti não mostrou isso no juízo final? O superconsciente não tem aquele Cristo, consciente que é a imagem do purgatório e o inferno? A cultura é uma, por quê? Porque a espiritualidade de um povo é uma. E quando um povo tem uma raiz espiritual que seja religiosa ou não, as religiões não devem ser intolerantes, você percebe que ele está dizendo alguma coisa que a cultura dele pode ser igual dentro de uma floresta. Amor pela terra, amor pela pátria, amor pela natureza, amor pelo céu. Nós chamamos de Pai Eterno, os peles vermelhas chamam de Manitu. Qual é o problema? Aí dá a possibilidade do encontro e fazer, aí sim, o pontífice. Fazer a ponte entre os povos. Você idealiza, precisa salvar a Terra, porque senão vai virar um inteiro Iraque. E a Terra, inclusive, é como Gaia. Nós somos a espécie que está dando sinais de demência, porque nós estamos destruindo a moradia, a morada, o lugar, o santuário onde moramos. O animal não faz isso.

P/1 – Poderia falar um pouco da sua família, Adriano? Você estava falando dos seus filhos, a sua esposa, como conheceu sua esposa.

R – Eu conheci a minha esposa na... Naquela época era Livraria Brasiliense. Uma beleza a Livraria Brasiliense. Parece-me que era da família Prado. Foi lá, conheci, eu vi uma argentina, a mãe dos meus filhos é argentina, ainda está viva, graças a Deus. E conversamos, fomos a bailinhos, naquela época reunia os amigos pra ouvir um pouco de música, dançar um pouquinho o ie-ie-iê daquela época, como bons jovens. Então decidimos ficar juntos, casar, tivemos três filhos e certa hora houve naturalmente um entardecer, um crepúsculo e um fim. A gente se separou, divorciou, apesar de que convivemos durante 18 anos. Naquela época o meu irmão morava no fundo da vila conosco, casado com uma espanhola. Então havia aquela coisa um pouco das ruas italianas de convivência. Tinha aquela família de pretos e tínhamos nós, imigrantes, e tinha outra família que era de origem portuguesa. O vizinho tinha um barzinho português: “Ó, entra”. E naquela época tinha uma coisa inesquecível. Atrás das porteiras da Barra Funda, tinha a Barra Funda que era mais modesta, então uma vez, a gente colocava as cadeiras fora da vila no verão, aí eu vi uma música, são os músicos. Era um conjunto de pessoal preto, mulato, brancos, que estavam tocando música, fazendo seresta na Barra Funda. Tocando sambas da Barra Funda de Abraham Moles, do Adoniran Barbosa. Ele passava: “Oh, patrão, como é que é? Tudo bem?”. Aí me lembro de que a minha tia oferecia algum sanduíche de presunto, um guaraná, eles sentavam, confraternizam e começavam a tocar. Era cavaquinho, era violão, era flautinha. Eles se entusiasmavam, começavam a dançar. Isso era a nossa distração. Não precisava se firmar na frente de uma televisão assim, porque não tem outra coisa. Não tem? Faça. Essa gente humilde fazia e fazia cultura brasileira, base. Então eu aprendi com eles ritmos, movimentos, coreografias diferentes, que não é nenhuma vergonha enquanto você toca uma flauta, você mexer o corpo. Isso não quer dizer que é fresco, quente, frio, que não sei o quê. Simplesmente você está cantando com o corpo, que eu aprendi com as artes marciais e até eu saí na avenida pra participar do carnaval.

P/1 – E como que foi essa experiência do carnaval?

R – Fantástica. Só que as mulatas quase acabaram comigo, porque eu via toda aquela fartura na minha frente, o que eu fiz de mal pra ter tanto estímulo, né? Mas que também com ela, depois quando eu me separei eu tive casos assim, muito bonitos com pessoas morenas e que foi uma experiência também interessante. Isto é, uma experiência grandiosa. Mas porque era desejo, era intensidade, sexualidade. Não somente isso que o sexo não é pecado. É que elas me ensinaram isso. Elas eram e são tão espontâneas, tão alegres, tão bacanas mesmo, que eu percebi que se podia fazer de tudo com respeito recíproco, sem ser quadrado, e isso dava alegria, porque sexo é fusão. Sexo é união. Sexo de dois se faz um e de um vem a unicidade, então é sagrado. Isto foi uma escola extraordinária, que eu como europeu, como italiano... As italianas também são extraordinárias mestras, mas depois da guerra havia muito forte repressão. O Brasil, em comparação, era muito mais avançado, muito mais livre, muito mais espontâneo, muito mais descontraído. Facciamo l’amore. Facciamo l’amore. Vamos fazer amor? Eu lembro que tinha uma morena espetacular, chama-se Ivana, que ela tirava meu sarro, porque naquela época eu era mais miudinho, mais pálido: “Ô neném, como é? Entra aqui neném. Puxa, estou com uma vontade de fazer amor com você. Vem cá neném”. Eu nenenzinho entrando lá dentro, aquele monumento. Era escola de vida, não é somente prazer. De jeito nenhum. Era escola de vida que eu saía de lá com uma inspiração abrindo as oitavas musicais, dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó, né? Cria ecos e abria a minha cabeça. Meu Deus, este país, este povo é fantástico. Por quê? Porque eles são espontâneos. Eles não têm problemas. Olha, Maurício e Gabriel, não se tinha problema naquela época. Era um país que tinha uma fisionomia própria, até simplesmente um desejo recíproco entre um moço e uma moça. Aí depois disso, quando me separei, a minha vida modificou, fiquei... Abalou bastante morar em outro lugar longe das minhas crianças e tudo mais. Mas sempre mantive uma relação, assim, a mais civilizada possível com a minha ex-mulher e com as crianças. Depois cresceram, acharam o caminho deles. E meu filho Leonardo, o primeiro chamado Leonardo, era um belo rapaz, mas tinha um problema sério, fumava, fumava. Fumou, fumou, fumou, ele foi pra Itália pra estudar hotelaria, foi pra França estudar hotelaria, voltou, tosse, tosse, câncer no pulmão. Pum. Primeiro de maio de 1989 ele foi. Então isso foi um abalo muito grande em termo de família como você, porque diz puxa, vida, eu fumava cachimbo. Eu falei pra ele: “Fuma charutinho, cigarrilha, mas não cigarro, pô”. Mas ele, sabe, trabalhava, era muito... Não é que ele era ansioso, ele era muito ativo e com 30 e pouco, acho que era mais ou menos essa idade ele se foi. Mas tudo bem. Tudo bem, fomos lá dar a maior força nos últimos momentos dele, isso foi um episódio chocante da minha vida. Mas eu também aprendi que, tudo bem, o Leonardo foi, mas que a alma dele, isto foi outra aprendizagem não religiosa, mas mágica, esotérica, que a alma dele continuava nesta viagem pelo cosmos. Não se deve ter esta visão material que acaba com tudo. Nada acaba no cosmos. Até uma galáxia que se transforma num holocausto, a poeira cósmica é um material básico pra fazer uma estrela, pra fazer um planeta, pra fazer um asteroide. Isso vai se transformando e transformando. Isso deu pra enfrentar este choque de uma maneira mais serena e mais madura do ponto de vista interno.

P/1 – E os outros filhos?

R – O meu filho Rafaelo se formou em jornalismo na Cásper Líbero, foi jornalista na Folha de São Paulo. A minha filha Antonela estudou muito moda. Agora minha filha Antonela justamente faz um mês que ela decidiu de ir morar na Itália, está trabalhando em Ancona na região das Marcas na Itália central, está trabalhando lá num lugar pra começar a aprender melhor o italiano. O italiano ela falava bastante bem, o problema do italiano não é falar, é escrever. Escrever é complicado. Precisa praticar bastante porque encheu de verbos irregulares, né? E aí a convivência com eles foi interessante porque eles entenderam e não entenderam. Houve assim algum atrito, alguma incompreensão, mas finalmente um foi, o segundo filho tomou o rumo dele, casou, tem vida própria. A Antonela foi pra Itália e nesse intervalo eu tive várias experiências amorosas, passionais que foram necessárias porque com cada mulher... Não que eu fosse mulherengo. Era solteiro, era mais jovem, tinha necessidade desta atividade física e amorosa natural, né? De desenvolver e de aprender. Cada mulher eu aprendi e aprendi muito, mesmo em paixões muito fortes que eu tive. Agora, foi muito interessante, minha atual companheira, porque eu fui convidado uma vez para dar um pequeno curso, um workshop de história da arte em Chapecó. Então eu fui lá, fui hospedado num hotel, auditório cheio, um monte de gente e estava a coordenadora, disse: “Olha, eu preciso te apresentar uma pessoa muito especial, uma professora de educação artística”. Aí eu me virei, vi um mulherão na minha frente, uma loira de olhos azuis, alta, um metro e 80, eu digo: “Esta vai ser a minha catedral gótica”. (risos) Primeira coisa que eu fiz, tem anel? Não tem. Opa. Lá vai. _______ italiano fazer o cerco e deu certo. Estamos juntos, graças a Deus, há 18 anos. Companheira espetacular.

P/1 – Então, Adriano, poderia contar um pouco como é que foi a adaptação à alimentação, ao idioma?

R – O idioma, português, eu acho, o português de Portugal um pouco anasalado, um pouco fechado. Quando falam rapidamente um pouco difícil de entender. Apesar de que o lusitano tem um perfil próprio, eu gosto muito de Portugal, eu conheço Lisboa, Porto, Braga, onde tem aquele monumento lindíssimo que é o Escadório das Virtudes, toda assim que é uma beleza. Comida, gente, aquele espírito de navegadores. E o brasileiro eu tive um pouco de dificuldade em pronunciar o “ao” com acento circunflexo, ão. Eu falava Brandao. Mas não é Brandao. É Brandão. Brandão. Então é um pouco anasalado e um pouco labial. Eu tive certa dificuldade. Uma coisa que eu não conseguia entender o porquê era você. Mas de onde vem esse você? Não é português, não é nada. Aí eu fui estudar, né? Aí vem do vossa mercê, que parece que vem de uma expressão do dialeto do sul da Itália que seria ________. Mas depois fui embora, tudo mais, o português descobri que o brasileiro é um idioma muito rico, aí pra aprofundar e aprender mais eu comecei a ler autores brasileiros difíceis como Machado de Assis. Não de entender, um pouco prolixo, né? Aí a glória foi Guimarães Rosa, a poesia foi com um grande amigo meu, poeta e escritor que era José Mauro de Vasconcelos, que escreveu vários livros, o livro “Rosinha, minha canoa” que é uma joia, deveria ser reeditado. Aí eu percebi a beleza do português também através das músicas. Naquela época eu curtia, tinha uma paixão, então eu curtia muito as fossas da Maysa. “Estava lá... Eu sei, você sabe que a distância não existe...”. Eu digo: “É, mas ela está longe”. Haja fossa, dor de cotovelo. Samba canção é uma beleza, uma coisa lindíssima! Mas eu estranhava um pouco a diferença, porque depois uma coisa que eu comecei a sentir dor, dor, sabe? Dor no coração. Quando eu vi o Brasil começar a escorregar. Ai meu Deus do céu, como me custou isso a continuar a viver aqui. Porque eu conheci um sonho. Repito: um sonho. Depois digo: “Mas espera, não façam os mesmos erros que nós fizemos na Europa, que outros fizeram na Ásia”. Pelo amor de Deus. Luta de classe, ódio, repressão, morte, tortura. A natureza humana tem uma sombra que é piche, sabe? Não é possível. Não faça isso. Mas infelizmente foi feito. Várias vezes eu quis ir embora. E virou um país que tinha um pouco de corrupção, né? Corromper-se, a corrupção política, luta de classe, e digo: “Mas não faça isso”. Não precisa, sabe, um jovem como o Brasil, que um belo jovem ou a bela moça não precisa passar por isso. Não repita, não copie as nossas sombras e as nossas porcarias que isso traz ódio. Olha o morro. O morro do meu Rio de Janeiro onde depois da minha exposição Tora em Ipanema, um grupo de amigos me convidou a subir o morro, porque todo aquele pessoal fez uma representação amadorística lindíssima do Otelo, de Shakespeare. Olha, gente, o que era o Brasil. Agora você não pode subir o morro porque é morto, nem sabe quem  quer te matar. Meu Deus, vamos tirar isso do corpo do Brasil, da terra brasiliense. Não precisa. Então várias vezes eu fiquei, como diria o Catulo da Paixão Cearense, “rasga o coração e encontrarás a dor”. Eu achei. Desta degradação, desta queda. Meu Deus do céu, gente, não precisa. Não precisa. Mas qual é a solução? Mergulha na cultura brasileira. Ouça as composições de piano do Ernesto Nazareth. Escute o Urubu de Tom Jobim. O Villa-Lobos, Floresta do Amazonas. Vamos começar a sentir orgulho de ser brasileiro. Por que não? Qual é o problema? Um país que em 400 anos deu coisas fantásticas. Mas vamos recusar o lixo de fora. Não precisa. Eu insisto até a exaustão: não precisa. O brasileiro não precisa disso. Mas qual é o nosso caminho? Recusar o lixo e um procurar dialogar com o outro: “Qual é a sua necessidade?” “É esta.” “Tudo bem. Vamos fazer assim, vamos fazer assim...”. Com os nossos intelectuais, com os nossos estudiosos, há uma condição, que não tenha a cor política, porque senão vai complicar e afundar de novo, como, infelizmente, ainda está acontecendo. Isto me dói muito. Demais. Olha, às vezes eu tenho vontade de ir embora, é triste dizer isso, pra não ver esse sonho ser degradado ainda mais. Dói-me demais. É Catulo da Paixão Cearense. Demais. Dói demais. Eu fico porque eu sou teimoso, de áries, mas acredito. Isto aqui pode dar certo. Por isso que uma coisa muito bonita que eu estou fazendo aqui em casa, na minha casa de Vila Romana, que no fundo tenho uma edícula pequena, então eu lá, quando tem coisa que minha mulher faz, e minha mulher é educadora, professora de educação artística e geometria, às vezes trabalha no computador, não pode se distrair com meus sonhos, vocalise, e comecei a ter aula lá com a minha maestra. Com a Bebel Ribeiro, esta menina espetacular. E lá eu me reúno com os meus guerreiros treinando. Eu falei: “Bebel, já pensou dar pequenos saraus aqui?”. Eu estou transformando aquela salinha de 20 pessoas numa pequena sala de música de concerto. O último concerto que fizemos foi Concierto Latinoamericano, com os aspectos melhores uruguaios, argentinos e brasileiros. Quer dizer, fazer. “Mas não vai ninguém”. No começo tinha quatro, cinco pessoas, agora tem 30. De gente que gosta, de gente que se interessa. E o que é? Uma coisa brasileira feita na Vila Romana. Ítalo-brasileira em São Paulo, tocando não somente Bach, Beethoven, Vivaldi. Vamos tocar uma milonga uruguaia de um anônimo que é uma beleza e vamos dizer: “Olha, gente, isto é teu. Ouviu? Então cultiva. Em casa compra folclore uruguaio”. Tocamos Viola Enluarada. Pelo amor de Deus, vamos comprar um Milton e ouvir. É o caminho. Eu não comecei com os escombros? No meio dos escombros a ouvir meu pai recitar a Divina Comédia? E olha aonde eu cheguei. Por isso que eu falei no começo: não troco a minha idade, de jeito nenhum, de forma alguma. Porque eu cresci e aprendi a amar os países e no caso amar a pátria paralela que é o Brasil. Só que o Brasil tem que abrir, inovar e voltar pro próprio caminho. Não achar o próprio caminho, o Brasil tem um sendeiro luminoso, como diria um músico argentino. Tem e é muito bonito. Desviamo-nos, precisamos voltar. Correção de nota, Maurício.

P/1 – E a comida brasileira? O arroz, o feijão, feijoada. Como que...

R – Gostosíssima. Sobretudo eu me lembro... Outra pergunta interessante. Eu lembro que quando eu trabalhava na Matarazzo, naquela época trabalhava no Centro da cidade naquele prédio do Matarazzo que hoje é outra instituição. Aí lá pra Dom José de Barros que tinha cinema, era um luxo, gostosíssimo, tinha restaurante que tinha um típico prato paulista que hoje infelizmente sumiu, que era o virado à paulista. Tinha uma omelete, tinha uma saladinha, tinha coisa picante, tinha o pão, tinha ovo frito, tinha um bife de carne verdadeira, gostosa, tinha arroz, tinha feijão. Aquilo alimentava muito bem. Eu me adaptei porque no começo eu fiz um erro de comer a comida italiana pesada mesmo no verão. Não pode fazer isso. Meu colesterol... Mas no frio você não tem colesterol? Não, porque no frio você é obrigado a caminhar bastante, você queima gorduras. É isso que é interessante. Aqui você sua, sua, sua a pele. Então o que acontece? Você precisa ter uma alimentação balanceada que é o ideal, no caso do brasileiro, que é arroz, feijão, um bife, uma salada, o verde inclusive como cor, fruta da estação. É o certo. Depois eu conheci, como comecei a conhecer a comida do interior, aí puxa, foi comida de Minas, arroz tropeiro, todas aquelas coisas que depois andei largando um pouco por causa da gordura. Os churrascos do sul, dos gaúchos do Rio Grande do Sul que eu conheço, fui. Inclusive fiz um trabalho para o laboratório Degli Angeli sobre as missões. Publicaram, distribuíram pelos médicos do mundo inteiro da Degli Angeli, onde tinha o laboratório Degli Angeli. Um churrasco, uma comida típica fabulosa. Era muito gostoso. Em Santos, as peixadas, comer camarão, comer peixe. Era uma festa. Depois eu percebi uma coisa interessante, que com a idade avançando eu como, minha mulher cozinha muito bem a cozinha brasileira e alemã, porque ela é de origem sueco-alemã, também com aquela torre de um metro e 80, né? Eu comecei certa hora a sentir falta do macarrão, que eu tinha diminuído. Por quê? Porque com a idade você começa a perder um pouco a energia, aí o macarrão tem carboidrato. Descobri o pão italiano, não o pão de padaria, o pão italiano da Bexiga que pro carboidrato, como eu tenho muita atividade intensa mental muito forte e de vez em quando preciso comer uma bela pastaciutta, né, que faz bem. (risos) É sério.

P/1 – Você já abordou disso, Adriano, mas queria reforçar um pouco. Como que era a convivência com os outros italianos aqui em São Paulo e os outros imigrantes?

R – Uma pergunta interessantíssima. Antes havia mais união, porque eram somente imigrantes. Com a chegada das grandes multinacionais e tudo mais, começaram a chegar managers e executivos que bem no comecinho tinha pessoal mais da minha faixa etária, nossa faixa etária, era na Pirelli, a Fiat e tudo o mais. Mas com o passar do tempo o aspecto que eu acho não muito simpático da globalização, houve uma distância. Houve uma distância desnecessária que não era assim. Na década de 50, 60 até 70 havia um aglutinamento. Até assim, no ciclo italiano, isso, outro instituto de cultura, no consulado. Hoje em dia... É a transformação dos tempos, né? Onde, em função de uma emotividade afetiva, se preferiu uma eficiência dura e seca. Gostei muito da tua pergunta, porque aconteceu uma coisa triste, os imigrantes se fragmentaram. Um grupo está no Brás, outro está na Mooca, outro está na Barra Funda, outro está na Vila Romana, outro está na Lapa. Só que tem o seguinte, como escreveu aquele ex-ministro, uma matéria no Estadão, possivelmente você deva ter lido, Os velhos italianos estão morrendo, do Rubens Ricupero. Uma matéria espetacular. Morrem os velhos, os jovens vão fazer o quê? Fazer macarrão? Não. Ele estuda informática, estuda engenharia, estuda arquitetura moderna, decoração, porque ele tem que ver o que ele faz, porque a globalização é feroz, é implacável. Mesmo que ele tenha um coração italiano, vai comer o macarrão da mamma, ele tem que criar, casa-se, os filhos pra ganhar dinheiro, sobreviver. Porque esta loucura da economia, neste sentido é interessante, coisa que acompanho sempre, o programa O Aprendiz. Já assistiram? Onde se vê que se faz uma seleção pra ser secretário, pra ser executivo e tudo mais. Se você vê aquele jovem… Na cama feita na TV Record, inclusive hoje a noite tem uma fase eliminatória, e como o jovem simpático, diferente, graça diferente, na hora de ser escolhido é uma luta feroz. Isto foi negativo em relação aos imigrantes porque às vezes eu sinto, não somente saudade, mas eu sinto que meus velhos colegas e amigos, alguns não quiseram saber mais de Brasil, voltaram pra Itália. Ganharam dinheiro, não ficaram necessariamente ricos, e voltaram. Outros se mandaram pro interior. Fecharam-se num sítio, numa chácara com os caipiras, estão lá. Outros faleceram. Então eu sinto um pouco de solidão, da solidão afetiva. Porque antes era impossível almoçar sozinho. Hoje em dia tem dias que eu almoço sozinho, que minha mulher dá aula o dia inteiro, por quê? Porque os amigos, como eu disse, dispersaram. Se você vai ao Bexiga, sim, tem aquela italianada, aquele cara: “Ô, Palmeiras, pô, está um horror e tal”. Mas não é aquela coisa mais culta. Não em termo de erudição, em termo de dizer: “Puxa vida, você vê que agora tem uma ópera italiana? Vamos assistir”. O operário, enfim, o barbeiro, o cabeleireiro ia assistir no Teatro Municipal, a gente se encontrava: “Ô, você viu que bonito o Benito Maresca?”, que era o tenor daquela época. O Armando Belardi, como dirigiu bem, o Benito Maresca como cantou bem. “Pô, vamos comer uma pizza? Vamos comer uma pizza?”. Percebe? A cultura tinha uma continuação através da pizza, que era uma pizza bem feita, não era uma sola com óleo diesel em cima, que é um horror, se você não tomar cuidado fica doente, né? Então eu posso dizer que talvez eu seja um dos últimos representantes de imigrantes de paulistanos de artista estudioso que se não tomar cuidado se extingue. Aí é uma perda terrível para o Brasil. Terrível. Não somente por nós estou insinuando que é terrível, que eu sou imigrante, sou italiano, europeu. Não. O Brasil é um país humanista, o Brasil é um país de músicos, um país de poetas. É um país que tem um povo, o povo sem ser comunista, socialista, nada disso, o povo eu me identifico muito, porque atrás de um taxista que está mal encarado: “Aonde é que o senhor quer ir?”. Se eu converso eu percebo que ele está numa defesa, mas na realidade ele é uma pessoa que tem uma humanidade, uma experiência belíssima. Isto está se perdendo.

P/1 – Adriano, fala um pouco da sua opção pelo esporte...

R – Ah, sim. Bom, sempre eu fui um esportista. Depois da guerra, eu estava subalimentado, né? Então faltava. A guerra tinha acabado, aquela festa, aquela alegria, mas faltava comida. Porque os campos, as indústrias de macarrão, de pão, padarias estavam quase tudo semidestruídos. Então nós tínhamos... O meu pai trazia uma mochila com um pouco de comida do quartel onde ele estava lutando, e o povo italiano sempre foi... Bom, isso é tradição greco-romana, né? Um povo de esportistas. Haja vista que, modéstia parte, nas Olimpíadas a gente sempre se coloca bem. Então lembro que um médico disse: “Olha, você precisa desenvolver melhor. Seu osso está com pouco cálcio, tua musculatura...”. Eu era uma espiga de grão, de trigo, magro, orelhudo, parecia aquela figura do José Maurício, né? O Cebolinha. “O que preciso fazer, doutor?” “Faça esporte.” Eu gostava. Então eu comecei a fazer esporte, ginástica na escola eu comecei a frequentar mais. Aí comecei a fazer futebol. Fui indo, fui indo, fui indo. Na Itália eu fiz um pouquinho de judô, um pouquinho de jiu-jitsu, percebi que era perigoso como artista plástico, porque eram às vezes posições violentas, né? Aí vim aqui, fui ao Palmeiras treinar futebol nos juvenis, no Palestra e aí fui indo. Fui indo até que quando eu comecei a me desenvolver como artista e como um pesquisador estudioso cultural e estudioso espiritual, espiritualista, passando... Passei pelo candomblé, pela umbanda, mesa branca, Kardec, antroposofia. Eu passei por todos os caminhos para aprender. Não me ligar, pra aprender. Falei: “Meu Deus do céu, estou começando a sentir falta do treino físico”. Aí eu fiz ginástica, voltei para o futebol, mas já não era o suficiente. Eu precisava de uma coisa mais forte. Aí eu fiz um pouco de judô, com um amigo meu francês um pouco de jiu-jitsu, passei um pouquinho pelo caratê até que finalmente um amigo alemão me diz: “Olha, veio uma nova luta alemã, o taekwondo, que é uma coisa assim duríssima. Acho que você vai gostar”. Eu fui lá, assisti, era um treinamento militar, três horas diárias. Então imagina. Ah, eu entrei. Só que no começo parecia um manequim, era todo duro. Aí o mestre, o mestre Cho disse: “Olha, não se preocupe. Você, pela tua idade...” naquela época eu tinha uns 35 pra 36 anos. “Você vai se soltar”. Ah, então quando eu me soltei entrava na luta, fraturei pé, fraturei costela, clavícula, porque era contato direto. Não era nada de carícias, não. Era realmente chute, soco, cotovelada. A gente dava e retribuíam. Aí foi uma transformação, uma química fantástica. Eu levantei um voo, porque eu sempre quis ser um homem da renascença. Isto é, um homem integrado baseado na tradição integrada dos gregos, Pitágoras e Platão e dos romanos que têm também essa tradição. Aí foi uma maravilha. Eu não paro de treinar. Eu tenho o meu grupo, meu grupo de guerreiros, que a gente treina, luta. Agora eu estou lutando menos por causa da flauta, que a flauta prevê ter uma agilidade que às vezes o contato direto deixa os músculos um pouco duros, um pouco rígidos e não pode. Aí eu segui, segui, segui, eu não paro de treinar e quando eu posso, com eles, com a minha mulher, a gente vai à natureza, anda bastante, subir em árvores, caminhar pelas montanhas. Isto é absolutamente natural, tanto que eu fiz o meu check-up faz nem uma semana, que eu fiz exame de esteira. Esteira que fala? Aquele que você...

P/1 – Sim.

R – Bom, eu fui até o fim sem nenhum problema. Estava só um pouquinho ofegante, meu coração estava ótimo. Por que, Maurício? Porque pra amar os outros, você precisa primeiro amar a si mesmo. E como? Puxa, faça esporte, treine, sue, transpire, desintoxique. Aí pra eu amar uma pessoa é difícil, precisa ver primeiro quem veio, é fácil amar, eu gosto dele? Eu gosto. Sem oscilações. Se a resposta está no mesmo plano. Pronto. O meu melhor amigo é um amigo italiano que conheço aqui faz 46 anos. Nunca brigamos. Criamos polêmicas, sim. Os meus guerreiros são fantásticos. É um grupo, estamos juntos há 22 anos. Nunca tivemos desentendimento. Por quê? Porque flui. É uma orquestra. Cada um com seu instrumento, a sua maneira de lutar, de meditar, mas é uma orquestra. Então afina, né?

P/1 – Adriano, se o senhor pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, o que o senhor mudaria?

R – Nada. Caminho fantástico. Com todo o sofrimento necessário. Sofrimento ou você quebra, ou você cresce. Uma civilização nunca se faz com gente mole, gente que evita o perigo, que evita o desafio, que evita se apaixonar. Já repararam que tem pessoas que têm medo de amar porque não sabem... Não somente não se entregam, mas não sabem como se entregar. Às vezes tá na frente de um mulherão, fica aqui um salame, aí não sabe o que fazer. Salame em italiano é sinônimo de bobo! “O que eu faço?” “Escuta, você não praticou, a outra vai achar ruim.” Então é um percurso... Eu não mudaria, não. De jeito nenhum. Eu posso dizer isso, Maurício, sem presunção porque eu não me poupo. Se você me telefona em casa a uma e meia da manhã, estou lá estudando, estou na frente do computador ou na frente da minha mesa fazendo pirografia, ou fazendo escalas musicais com a minha flauta. Ou estudando. Ultimamente achei oportuno estudar astronomia numa revista. Não faculdade, que isso não tenho condições. Astronomia, o que é o universo, o que é astrofísica, o que é a Eta Carinae, uma estrela muito perigosa que está por aí, ainda bem que ela não está alinhada com a Terra. Precisa saber que isto significa energia, energia significa energia do nosso planeta que é um ser vivo. Eu sou um ser vivo. Então isso tem uma conexão, isto está em transformação. É saber. Por isso que eu não mudaria o meu percurso. Mesmo os erros que eu fiz, eu aprendi muito. Eu aprendi muito com o meu primeiro casamento, com a minha mulher porque ela errou e eu errei, mas eu aprendi uma coisa muito importante em relação ao universo feminino. Aquilo que não se deve fazer com uma mulher. Apesar de que eu sempre fui muito correto, mas eu tive minhas falhas. Porque o universo feminino é um universo importantíssimo. Não somente a morena violão de biquíni branco da praia. É a Monalisa também. É a Arminda, companheira do Villa-Lobos que o ajudou a crescer. E não é somente a mãe, la mamma, mas é também a companheira, a amante. Você teve um caso, o caso durou um mês, mas naquele mês eu aprendi o que as outras não me ensinaram. Não tem ingratidão. O universo feminino é importantíssimo. Elas estão uma fera conosco, porque nós fomos no mundo inteiro machistas, repressor, o pai, o marido, a amante. Deus me livre. Elas são... É a Monalisa e a morena. Uma oitava musical lindíssima, que no fundo é a mesma coisa, né? Uma é abstrata e a outra concreta. Nós precisamos delas, com certeza. Não do ponto de vista de uma dependência, mas como está o signo do aquário. Duas linhas que estão juntas. Diferente da época de peixes, os peixes, se você vir em qualquer jornal, ela não se encontra, ela está em linhas opostas, enquanto que a era do aquário estão ombro a ombro.

P/1 – Adriano, o que o senhor achou de ter participado desta entrevista?

R – Como?

P/1 – O que o senhor achou de ter participado desta entrevista aqui no Museu da Pessoa?

R – Olha, primeira coisa que me impressionou bem, que eu observo muito e aprendi com alguns mestres a fazer a leitura do corpo de uma situação, de um muro, de uma parede, inclusive como artista plástico, a localização. A localização muito boa, o lugar ensolarado. Fui muito bem atendido por telefone, pela Ana, olha, gentileza, eficiência, cordialidade, que isso é muito importante. Porque isto é o á-bê-cê pra fazer a ponte. E quando eu entrei, eu entrei e tinha a Rita, que se chama aquela morena, uma bela morena, a gente falando, que me recebeu com um belo sorriso. Eu digo: “Aqui vai dar certo”. Comecei a checar o astral, né? Aí depois apareceram vocês e eu checando sempre. Eu não sou espião, não. É uma cordialidade muito grande, perguntas que me deixaram muito à vontade.

P/1 – O senhor gostaria de dizer mais alguma coisa que não foi abordada na entrevista?

R – Podem me fazer um favor? Orgulhem-se de serem brasileiros latino-americanos. Só isso.

P/1 – Então em nome do Museu da Pessoa e do Ponto de Cultura, agradecemos a sua entrevista.

R – Obrigado.

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