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Moisés Bastos: a feira da minha vida

História de: Moises Bastos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/03/2021

Sinopse

Chegada da Família de Minas Gerais a Bauru. O nascimento, infância alegre e adolescência na cidade de Bauru. Os primeiros estudos nas escolas tradicionais na cidade. O diploma de técnico em Química. Ingresso como vendedor no Grupo Nardi Lopes. A identificação e o sucesso nas atividades comerciais. O trabalho como químico no Laboratório da Ajax, a demissão e a ideia empreendedora. A sociedade com Sr. Conrado, a produção de ovos de codorna e o fornecimento para grandes mercados. A dissolução da sociedade. Arrendamento de chácara e a formação da granja. O trabalho nas feiras livres e o envolvimento na Associação dos Feirantes de Bauru. A visibilização e organização dos feirantes. A abertura do Empório Bastos e o afastamento do comércio de rua.

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História completa

          Sou Moisés Bastos, nascido em Bauru, em 4 de agosto de 1964. O aniversário de Bauru é dia primeiro de agosto, e eu nasci dia 4 de agosto de 1964. Sou bauruense da gema! Meu pai é Moisés Terra Bastos, e minha mãe, Eunice Siqueira Bueno Bastos. Eu tenho um parente, que é o ‘seu’ Irineu Bastos Filho, que é filho de um prefeito e atuou vários anos na Câmara Municipal de Bauru. Ele é historiador e levantou a árvore genealógica da família Bastos, e por isso eu sei que nós viemos de Penacova, Portugal. Meu bisavô, de lá, veio pra Alfenas, Minas Gerais; e de Minas, veio pra Bauru. Então eu sou a quarta geração de fundadores da cidade, onde nós temos a Catedral do Divino Espírito Santo com aquele marco na frente dela – e foi meu bisavô que fincou a cruz do cristianismo ali. Então, eu tenho orgulho de ser bauruense e de fazer parte dessa história.  

          Eu ainda tenho muito de Minas, sabe? De mineiro, de fogão a lenha aceso o dia todo, com o bule de café, bolo. Eu nasci ali pra cima da Nações Unidas, onde aconteceu a explosão quando o presidente Geisel veio pra Bauru. Morava na Caiapós com a Ezequiel Ramos, e ali é carinhosamente chamado de Vila Antártica, por causa da cervejaria da Antártica. Na época, o rio Bauru era céu aberto ali, no começo do portão do estádio da Antártica. E tinha umas muretas altas nas margens, mas era a céu aberto. Depois, ele voltava a ser rio normal, no trilho do trem.

          E eu estudei ali na Escola Paroquial Padre João, que depois virou Colégio La Salle, onde eu me formei em Química. Eu passava ali a pé, beirando o rio, pra tacar pedra, pra colocar moeda no vão da linha do trem - com o calor, o trilho expandia e entortava a moeda. Ali, do lado esquerdo, tinha como se fosse um CEAGESP, só que com chão batido, com aqueles portões grandes de madeira, aqueles caminhões Fenemê, Mercedes, descendo fruta e verdura. Isso fez parte da minha infância, eu vi muito isso. E aos domingos, a gente ia à missa da Nossa Senhora Aparecida, voltava e passava na feira.

          A feira, antigamente, era nas Nações Unidas. Ela começava ali, onde era o campo da Antártica, e virava até onde hoje é a Igreja Quadrangular, que agora é em frente ao shopping. Ali eram os ‘bichos vivos’: leitãozinho, peru, galinha, ganso, angola, pato, marreco... de vez em quando vinha faisão, pavão, codorna. Tinha de tudo ali, sabe? E eu já falava pro meu pai: “Voltando da missa, nós vamos ver os bichos”. Aí eu ia, dava um puxãozinho no rabo do porquinho, pra ele gritar. (risos) Fazia a minha molecagem, e meu pai ia fazer as compras na feira. Eu via comprar óleo no litro, bombeado num tambor de duzentos litros, com a manivelinha, e depois punha a famosa rolha. Tinha os ovos comprados num saquinho de papel, com palha de arroz; legumes a granel; doce a granel. Tinha um rapaz que vendia doce caseiro, naqueles baldões de tudo quanto é doce. O feirante cerealista tirava aquele bolão de dinheiro do bolso, contava pra dar o troco, dava uma lambida no dedo (risos) e voltava o troco.

          Então, com 16 pra 17 anos eu fui contratado por uma empresa do ramo de calçados, que era a Louca Calçados e Confecções, e também descobri que a Química, pra mim, era passado, porque eu tenho sangue de vendedor. Mas eu ainda fui trabalhar na Ajax, fábrica de bateria, no laboratório químico. Só que tiveram um problema lá, e foram mandando as pessoas embora. Nós fomos mandados embora, e o Conrado, companheiro da Ajax, tinha uma chácara. Eu fui fazer uma visita lá, e ele criava codornas, tinha coelhos, tinha franguinho caipira. Depois disso, ele comentou que a chácara estava parada. Aí, eu falei pra ele: “Se eu tivesse uma chácara como a sua, eu não trabalhava de empregado pra ninguém”. Acabei entrando como sócio dele, passei a morar na chácara, e chegamos a ter 6 mil codornas - entregava nos grandes mercados.

          Depois eu arrendei uma chácara pra mim e comecei a trabalhar com o que era meu. Fui aumentando, comecei a fazer entrega, levava pra Piratininga os ovinhos de codorna, pra uma quitanda de um amigo nosso, o Betoni. E um dia ele foi na chácara e falou: “Moisés, você tem muita fruta, não vai perder. Você vai fazer feira”. Aí foi quando eu comecei a fazer feira. Eu comecei com uma mesinha - que ainda não tinha, na época, muito produto pra pôr, que era entressafra de frutas. Mas levava também uma caixa de isopor quando tinha um franguinho caipira, levava um coelhinho vivo pra vender pra criançada, ovos de pata, ovos de galinha caipira. Aí, com o tempo, peguei muita amizade com o pessoal da feira, e um comerciante da minha frente ia mudar de cidade e me escolheu para ficar com a banca dele, bem grande. Eu fui crescendo.

          Hoje faz 26 anos que eu faço feira. E é muito interessante a história da nossa associação: o Doutor Curvello, um advogado renomado bauruense, frequentava a minha banca e pegou amizade comigo. Aí ele viu que a feira estava decaindo, pois os sacolões, em Bauru, estavam em alta, matando o produtor a pau. Ele falou assim: “Moisés, você sabia que existe associação até de prostituta?” Comentei com alguns feirantes da feira da Floriano, e alguns me falaram: “Você está ficando louco! Você não une nunca esse povo”. Só que eu gosto de desafios, eu sou daquele brasileiro que não desiste nunca. Falei com todo mundo que podia, conseguimos: fizemos a primeira reunião. Um contador amigo, Nelson Celso Simoni, que é de associativismo, cooperativa, uma joia rara em nossa vida, orientou a gente, ajudou na reunião de posse. O Nivaldo VittI Guion, in memorian, também foi meu braço direito. E o ‘seu’ Élcio, que foi presidente da Associação dos Apicultores, também ajudou muito a gente, pois fazia a parte burocrática de banco, de correr atrás.

          Depois veio o empório. Empório da Feira. Pois muitos clientes que perdiam a feira me ligavam: “Moisés, você atende aí na sua casa? Eu não fico sem os ovos de galinha feliz”, que são os caipiras, que eu apelidei de ovos de galinha feliz. E aí eles vinham aqui. Mas eu não conseguia atender direito, porque uns vinham à noite, fora de expediente, e a gente tinha que atender. Então, minha esposa, também muito empreendedora, foi fazer dois cursos de coaching em São Paulo, e ela veio com uma mente aberta a respeito de comércio, de vendas. Aí ela comentou: “E se a gente abrisse uma quitandinha, alguma coisa pra vender aí dentro?” Amadurecemos a ideia. Como a gente gosta muito do meio ambiente, encontramos uma moça que fabrica móveis de pallet. O empório é pallet, inteirinho, é tudo aproveitamento de madeira. Por sinal, ficou bem lembrando sítio. Na decoração, nós também temos galinha em cerâmica, quadro de sítio, essas coisas. E aí nós começamos, como bom mineiro: queijos. Eu também faço uma carne seca maravilhosa. Tem vinho, tem suco, tem de tudo. O empório foi uma realização de vida minha e da Lu, certo? Agradeço aos clientes, que nos prestigiaram muito de início. Mas o Empório da Feira é da minha esposa. Eu sou empregado.

          E tem a frase que eu criei, sobre feira, que foi criação minha e da Lu: “Pratique feiraterapia”. E eu criei o seguinte slogan: “Na feira você caminha, bate papo com os amigos e compra produtos de altíssima qualidade”. Então, você pratica feiraterapia. O feirante é consultor, advogado, psicólogo, dá um abraço, chora junto, ri junto, compartilha tudo com o vizinho de feira e com os clientes. Eu tenho cliente que vem almoçar e jantar em casa. Eu tenho vizinho de feira que faz bolo, café, pra esperar a gente. Vira uma nova família, entendeu?

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