Busca avançada



Criar

História

Modelo japonês

História de: Ednamar Maria Cervelin
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/04/2005

Sinopse

Ednamar passou uma infância pobre em Tupã, mudando-se posteriormente para um sítio com a família. Tinha ilusões sobre São Paulo, cidade para a qual migrou, instalando-se em Santo André no ano de 1967. Fez colégio técnico em contabilidade, seu primeiro trabalho foi como costureira. Entrou na Brosol como inspetora de matéria-prima. Acompanhou as greves de 1982-83, as atividades do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Ela comenta as mudanças na profissão de inspetor de qualidade,  e a informatização dos processos de trabalho. 

Tags

História completa

P - Gostaríamos de iniciar a entrevista perguntando seu nome completo, local e data de nascimento.

R - Meu nome é Ednamar Maria Cervelim. Eu nasci em Tupã, estado de São Paulo, no dia 11 de junho de 1960.

P - O nome do seus pais?

R - Antônio José Cervelim. Almeirinda Gomes Cervelim

P - Seus pais faziam o quê? Moravam aonde?

R - Na época em que eu nasci, em Tupã, meu pai tinha um hotel. Mas eu saí de lá eu era catatauzinho, não lembro nome de hotel, nada disso. Minha mãe sempre foi do lar.

P - Eles nasceram aonde?

R - Meu pai nasceu em Divinolândia. Minha mãe nasceu em Bebedouro.

P - E eles foram para Tupã por quê?

R - Não sei.

P - Quantos irmãos?

R - Eu já. Eu tenho 11 irmãos, e eu fui a nona filha do casal.

P - O que lembra da sua infância?

R - A minha infância foi bem assim de pobre mesmo, sabe? Aquele tipo assim, tinha dia que não tinha o que comer. Meus pais às vezes eles deixavam de comer para a gente comer. E era aquela coisa assim de arroz, feijão, ovo frito. Punha tudo numa bacia, dividia, cada um tinha que comer a sua parte, sabe? Foi bem... Depois nós fomos morar no sítio. Tinha aquelas coisas. A gente comia o que se plantava no sítio. Não tinha esse negócio de comer pão de padaria. Então quando o meu pai ia na cidade, de vez em quando, ele trazia aqueles "filé" de pão. Aí era a maior festa para nós. A gente achava aquilo o máximo.

P - O que lembra desse sítio?

R - Eu lembro que a gente sempre tomava um banho de areia. Não sei porque, mas antes de tomar banho de chuveiro. Aqueles chuveiros que a gente colocava água dentro, que subia com a corda, que esquentava a água para pôr no chuveiro. Nós antes disso a gente tinha um ritual que tinha que tomar banho na areia. Tinha um barranco, tinha uma areia branquinha A gente mergulhava lá, tomava banho para depois ir tomar o banho de água. E nós vivíamos assim, no meio do canavial. Brincando com galinha. Essas coisas assim.

P - Você nasceu em Tupã e foi morar nesse sítio?

R - Ãnhãn

P - Esse sítio ficava aonde?

R - Olha, esse sítio chamava Sítio Jurema. Ficava no bairro que também chamava Jurema, e ficava assim a 40 quilômetros de Acri.

P - Interior de São Paulo?

R - Interior de São Paulo.

P - Por que seus pais saíram de Tupã e foram para esse sítio?

R - Não sei dizer. Eu não sei se foi por causa de, para ter uma melhora de vida. Não sei assim o motivo porque eles fizeram isso. Porque sair da cidade para ir para o sítio é uma regressão. Normalmente o pessoal sai do sítio para ir para cidade. (riso) Sei que nós fomos para o sítio, de lá nós tínhamos duas opções.Ou nós viríamos para São Paulo, ou nós iríamos para Vargem Grande Paulista. Aí a opção ficou São Paulo, porque achou que era melhor para o futuro dos filhos.

P - Quando vocês chegaram aqui em São Paulo qual foi a sua impressão da cidade?

R - Bom, nós não queríamos vir para São Paulo de jeito nenhum. A minha mãe teve que convencer a gente. Então arrumou aquelas mentiras assim maravilhosas. Colocou assim como se fosse uma coisa assim do outro mundo, São Paulo.

P - O que ela falava para vocês?

R - Ela falava assim que nós poderíamos vir para cá que aqui também tinha rio. Ia ter um rio que passava no fundo do nosso quintal, que a gente podia nadar. Então ela começou a convencer a gente, ganhar a gente por aí, sabe? Que aqui a gente ia poder usar biquíni. Então a gente falava assim:"Ah, então eu quero biquíni de bolinha." Sabe, todas essas coisinhas. Aí nós chegamos aqui e tivemos a maior decepção. Porque o rio era de esgoto. Quer dizer, a gente não... Não adiantou nada. Chegamos aqui e ficamos tudo revoltado com ela:"Ah, mãe, a senhora enganou a gente, a senhora enganou a gente." Mas aqui a gente já estava aqui. Não podia fazer mais nada. E quando nós viemos para São Paulo nós viemos num caminhão. Aquele negócio Os filhos tudo passando mal. Tudo golfando dentro do caminhão. E dava assim algum recipiente para gente vomitar. Falar assim, coisa feia. Mas, no fim, jogava no meio da estrada, sabe? Então foi assim um sufoco mesmo.

P - Vieram para que região de São Paulo?

R - Nós viemos para Santo André.

P - Seu pai trabalhava com o que, nessa época?

R - Meu pai ele sempre foi assim comerciante. Meu pai sempre foi comerciante. Aí meus irmãos maiorzinhos foram trabalhar de engraxate, outros vendiam banana. E a gente teve que fazer isso daí até a gente pegar uma idade. Em condições de trabalhar em firma só tinha uma irmã. Minha irmã mais velha. Ela foi a que começou a trabalhar logo. O restante é tudo assim, fazendo um bico para viver.

P - Por que seu pai escolheu Santo André?

R - Porque ele tinha uma tia dele que trabalhava, que morava aliás aqui em Santo André. Então, inclusive essa casa que a gente veio morar, essa casa era dela. Meu pai alugou dela, a casa.

P - E ele veio e fazia o que aqui? Comércio?

R - É, ele voltou para o comércio, aqui.

P - Que tipo de comércio?

R - Ele tinha assim bar. O negócio dele sempre foi bar.

P - Você lembra de alguma coisa? Como era o bairro em Santo André?

R - Bom, nós morríamos de vergonha. Bem caipira, mesmo. E eu e a minha irmã nós somos gêmeas. Então isso chamava a atenção de muita gente. Então nós andávamos na rua assim e vinha aquelas pessoas pegar na bochecha da gente:"Ai, que gracinha Que bonitinha" Caipira. A gente olhava uma para outra assim, tentava se esconder, senão começava a chorar. Que a gente não estava acostumada com isso.

P - O bairro era movimentado, era tranqüilo?

R - Era um bairro tranqüilo. Mas assim, porque o bairro ali que eu morava ele nunca foi aquele bairro paradão. Tanto é que as casas que tinham tem até hoje. O pessoal muda a fachada, mas...

P - Você começou a estudar quando?

R - Em 68.

P - Você já morava aqui?

R - Quando em vim para Santo André. Eu vim em 67, comecei a fazer primário em 68.

P - O que você se lembra da escola?

R - Da escola? Quer dizer, o primário eu era assim muito introvertida. Então tinha aqueles problemas de arrumar amizade. Tinha aquelas diferenças. Todo mundo era saidinho, espertinho. E nós não, porque a gente era caipira mesmo. Mas aí a gente foi se enturmando. Depois também na mesma época que eu comecei a fazer primário, né, que a gente estudava, logo, logo, também meus outros irmãos foram passando a fazer, na mesma escola. Então a gente já não se sentia tão sozinho. Então a gente foi pegando jeito.

P - Estudava na mesma sala que a sua irmã?

R - Teve uma fase na escola, foi no colégio. Um ano nós estudamos quatro irmãs na mesma sala de aula.

P - Quatro irmãs?

R - Quatro.

P - E como era?

R - Ah, não era bom não. Porque tudo o que eu fazia elas queriam entregar para a minha mãe.

P - Por que, você era a mais sapeca?

R - É, porque os meninos vinham tudo conversar comigo. E elas achavam que não tinha que ser assim, sabe? Então ela:"Ah, vou contar para a mamãe. Vou te entregar."

P - Sua mãe era muito severa?

R - Minha mãe ela não era assim de bater, sabe? Ela era de dar aquelas olhadas. Sabe aquela pessoa assim que dá aquela olhada para você que você já entende tudo, sabe, murcha a bola e fica na sua? Minha mãe era desse tipo.

P - O que vocês faziam fora da escola?

R - Bom, na época da infância, assim, né, a gente se reunia sempre na minha casa. Reunia toda a turminha, vinha meus primos. Então a gente jogava bola, naquela época, queimada, pulava corda, andava de bicicleta. Todo o final de semana era sagrado isso.

P - E você namorava muito?

R - Sabe que não, menina? Eu não fui muito espertinha para namorar não. Não fui mesmo, viu?

P - Mas saía, ia a bailinhos?

R - É, naquela época tinha bailinho de casa de família, que a gente falava. Que eram as garagens que eles colocavam aquele encerado, fechado. A gente ia em bailinho assim.

P - E freqüentava algum clube?

R - Não, não

P - Lá em Santo André, nessa época, como as pessoas namoravam? Em que lugar?

R - Nos bailinhos de casa de família, a maioria. Porque pessoal da minha idade, da época da minha convivência, fazia isso daí.

P - E o fato de você ter uma irmã gêmea, o pessoal confundia?

R - Confundia. No serviço eles confundiam, eles achavam superestranho. Porque eles viam sempre uma indo em determinado lugar. Por exemplo, assim, uma ia para o banheiro, aí a outra voltava. Então o pessoal falava: "Esse menina é louca. Uma hora ela está com uma roupa. Ela vai no banheiro, ela troca a roupa, ela muda sapato, muda o cabelo. Por que será que ela faz isso?" Aí até que um dia calhou de eu e a minha irmã voltarmos juntas do banheiro. Aí que o pessoal viu que nós éramos duas. Então de louca não tinha nada. Mas eles, nossa, eles começaram a comentar bastante de nós.

P - São muito parecidas?

R - Somos bem parecidas. Não somos assim idênticas. Mas a gente tem, assim, o mesmo traço, cor de cabelo sabe, coisas assim que você tem que prestar bem atenção. Só que nós duas juntas a gente vê que ela é mais baixa que eu. Então você começa a pegar as diferenças.

P - Seus pais nunca confundiram?

R - Meu pai sempre que ia chamar uma, chamava a outra. Essas coisas assim. E nós também, nós duas éramos, nossa, superbriguentas. A gente vivia brigando mesmo de se pegar, aquela coisa assim. Minha mãe ficava louca da vida. "Vocês me deixam louca ainda. Vocês vão me deixar doida." Aí minha mãe ia bater na gente, as duas começavam a rir, sabe, e ficava de bem de novo. Nós estávamos sempre brigando mas sempre juntas. Uma ficava sem a outra, uma logo perguntava, sabe? Eu falava:"Mãe, cadê a Niula?" Ela:"Mãe, cadê a Nina?" Então aquelas coisas assim. Briguentas sim, mas sempre juntas.

P - Como ela se chama?

R - Ela chama Edilamar.

P - Vocês tinham apelido?

R - Tinha. O meu era Nina, o dela era Niula.

P - Por quê?

R - Não sei. Acho que o pessoal achava muito difícil chamar, né, pelo nome. Ednamar, Edilamar. Então resolveram por um apelidinho aí para facilitar as coisas.

P - Na sua casa eram mais mulheres ou mais homens?

R - São seis casais.

P - Depois você continuou estudando?

R - Continuei.

P - O que fez?

R - Aí eu fiz colégio técnico, né, em contabilidade. Foi aí que nós, quatro irmãs, fomos para mesma sala de aula. Estudávamos cinco, no colégio. Só que eu e mais três irmãs optamos por contabilidade e um irmão meu pela química. Mas, era supercontrolado. Tinha gente vigiando de tudo quanto é lado.

P - Por que você escolheu o curso de contabilidade?

R - Acho que foi falta de opção, sabe? Porque contabilidade não tinha nada a ver com a área que eu trabalhava.

P - Mas você já trabalhava ?

R - Já.

P - Aonde você trabalhava?

R - Na Brosol.

P - O que você fazia lá na Brosol?

R - Bom, eu entrei lá, eu trabalhava no controle de qualidade, mas era auxiliar. Auxiliar de controle de qualidade.

P - Foi seu primeiro emprego?

R - Não. Não foi o meu primeiro emprego. Eu trabalhei dois anos numa firminha de confecção.

P - O que fazia nessa firma?

R - Costureira.

P - Você fez algum curso?

R - Não. Porque as peças já vinham cortadas. Você tinha que montar e entregar, né, as peças prontas para o pessoal que encomendava as costuras.

P - Como você conseguiu esse emprego?

R - Como eu consegui? Ah, eu fui procurar emprego, achei esse. Aí eu falei:"Ah, tudo bem."

P - Tinha alguma noção de costura?

R - Não, não. Porque quando eu entrei para trabalhar era mais assim para inspecionar as roupas. Então tinha que controlar se tinha alguma costurinha fora, se tinha falha do overloque, se o botão estava bom, sabe? Tudo essas coisas. Aí depois lá dentro eu comecei... E era para passar também, camisa. E lá dentro fui aprendendo a mexer nas máquinas. Costura reta, máquina de pesponto, no overloque. Então fiquei assim por ali um tempo. Quando eu entrei de férias nessa firma, a Brosol estava admitindo. Aí eu fui na Brosol, fiz o teste e tinha que começar a trabalhar logo, que eles estavam precisando de funcionária assim urgente. Porque naquela época, graças a Deus, eles saíam caçando funcionário para trabalhar. Bem diferente de hoje. Hoje você tem que... E lá eles me admitiram. Aí eu voltei para a empresa que eu trabalhava, pedi para eles me mandarem embora. Fiz acordo. E logo comecei a trabalhar na Brosol.

P - O que a Brosol faz?

R - Quando ela era em São Paulo ela fazia só bomba de gasolina e em Ribeirão ela fazia carburador. Teve uns anos atrás aí que ela comprou fechadura e levantador de vidro para fazer. Estávamos com todos esses produtos em Ribeirão. Só que daí ela vendeu. Foi para Minas essa parte de fecho e fechadura e está aí, no momento, carburador e bomba de gasolina.

P - Aonde ficava a fábrica da Brosol?

R - Na Dutra Rodrigues.

P - Era perto da sua casa?

R - Aqui no Centro?

P - A fábrica da Brosol era perto da sua casa?

R - Não, não era perto não.

P - Como ia para lá?

R - Tem um ônibus da firma.

P - Como era o ambiente de trabalho?

R - Ah, era uma delícia Eu gostava mais de ficar na firma do que ficar em casa.

P - Como era a rotina?

R - Ah, porque quando nós entramos, que eu comecei a trabalhar aqui em São Paulo, o pessoal era muito unido, sabe? Sabe aquele pessoal bem... Um ajudava o outro. Um sempre dava uma força para o outro. Então era assim uma família mesmo. Tinha as meninas também que trabalhavam juntamente comigo. Assim, na mesma sala, aquilo ali era uma festa para nós. Nós não gostávamos de ficar em casa. Chegava final de semana a gente murchava. Porque era, sabe, aquele ambiente gostoso mesmo. Aquela coisa assim de... Parecia irmãos mesmo. E ali a gente se entendia, saía, paquerava na hora do almoço quando saía da firma. Ia ver as lojas. Era assim bem, aquela coisa assim bem descontraída.

P - Quando você era auxiliar, que tipo de trabalho fazia?

R - Praticamente o mesmo.

P - Conta um pouquinho.

R - Eu lembro que quando eu fui fazer o teste, fiz o teste escrito, depois teve teste prático. Me deram assim um tampão de rosca com várias conexões. E eu nunca tinha visto isso. Eu falei:"Bom, vou fazer." Aí colocaram um cartaz assim com todas as medidas que podia ter uma rosca. E você tinha que rosquear e depois voltar contando. Então tinha uma volta, uma volta e meia, uma volta e três quartos, duas voltas. Tudo essas coisas todas assim. Aí me deram acho que umas 100 peças. E eu fui contando e colocando sobre o cartaz, nas colunas correspondentes. Aí depois o encarregado do setor veio e conferiu para ver se estava tudo certo. Aí eu achei aquilo assim o máximo. Porque eu nunca tinha feito essas coisas. Depois também começou a fazer controle assim, parafusos. Então era tudo coisinhas que para mim eram uma novidade. Porque eu nunca tinha mexido com isso. É uma... assim totalmente desconhecida para mim. Mas, valeu

P - Ficou quanto tempo como auxiliar?

R - Olha, acho que eu fiquei uns seis anos. Porque não tinha plano de carreira. Então, depois que foi, estudaram um plano de carreira, a gente já estava em Ribeirão. Aí é que começou, a cada dois anos vinha uma promoção. Ou então quando o chefe pedia uma autorização. Essa promoção de dois anos passou a ser automática.

P - Por que a Brosol foi para Ribeirão?

R - Porque ela já tinha a unidade de carburadores lá. E lá era do Bromberg mesmo.

P - Bromberg quem é?

R - Bromberg é o dono da Brosol

P - Qual é a origem da empresa?

R - Alemã.

P - O seu trabalho era conferir se esses parafusos estavam no tamanho desejado?



R - Eu fazia controle de recebimento de matéria-prima. Então todos os componentes que são usados para bomba ou para gasolina vem assim tipo um lote, fechado. Vem um lote, nós pegávamos, fazíamos uma amostragem desse, desculpe, desse lote e fazia um controle. Aí você pegava um desenho e tinha que ver se estava dentro das especificações do desenho.

P - E tinha que ter alguma especialização para fazer isso? Algum curso? Ou não, mais era a prática?

R - Tem, porque você tem que saber interpretar um desenho. Tem que ver as medidas, o que que você... Através do desenho você vai ver como você vai fazer para chegar naquela medida, qual o sistema que você deve usar. Vamos supor, porque ali você pode fazer uma medição com um projetor, com anel de rosca, com tampão, com calibradores.

P - Que tipo de instrumentos usava nesse trabalho?

R - Bom, eu mexi muito com paquímetro, com micrômetro, com durômetro, com projetor, com graminho. Então são várias, vários equipamentos que você tem.

P - Poderia dizer para que servem esses aparelhos?

R - Para que serve? Bom, paquímetro para você medir alguma coisa assim que não tenha tanta precisão. Porque coisas mais precisas assim, que você precisa de uma coisa assim milesimal, essas coisa toda, dependendo... Você pode medir, se tiver área para você medir, um micrômetro milesimal, tem o micrômetro normalmente usado que é o centesimal, também. projetor. Têm peças que você tem que cortar para você medir. Então você coloca no projetor, que é mais fácil, é o correto, te dá uma medida mais precisa. Tem o espessímetro, para você ver espessura de borracha, essa coisa toda. Tem os pinos, os pinos de rosca. Então por isso que você tem que ter uma idéia, você tem que ter uma noção. Por isso que você participa de cursos para você não ficar assim quebrando muito a cabeça. Você já vê a coisa, já estuda, já olha, você fala:"Oh, o caminho que eu tenho que seguir é esse."

P - Que cursos chegou a fazer como treinamento?

R - Bom, eu fiz leitura e interpretação de desenhos e eu fiz controle de medidas. E dentro da Brosol eles deram alguns cursinhos também.

P - Que tipo de curso?

R - Eles deram... Deixa eu me lembrar o nome. O nome é que é o problema. Eles deram curso de... como é que chama? De melhoria de qualidade, PMQ, o nome desse curso era, que foram também acho que 40 horas. Deram cursos de (SEPE?), que você aprende a trabalhar através de gráficos. Eles davam assim de vez em quando uns cursinhos. E depois, na hora que entrou também, começou a entrar para você mexer tudo por sistemas de computação, eles também deram outro cursinho para o pessoal aprender a manusear os equipamentos.

P - Os cursos eram feitos dentro da empresa?

R - Da própria empresa.

P - Chegou a fazer algum fora da empresa?

R - Não.

P - Que benefícios a Brosol dava?

R - Ultimamente não muitos. Mas teve um tempo que ela dava. Tinha o prêmio assiduidade. Se você não faltasse, você ia assim ganhando um valor que você gastava em vale compras. Vamos supor, meu valor era de 100 reais. Se em um mês eu não faltasse, a Brosol me daria... pagaria 25% dessa compra minha e eu pagaria os 75. No segundo mês eu pagaria 50% e ela pagaria os outros 50%. No terceiro mês eu pagaria os 25% da compra e ela pagaria os 75%. E no próximo mês ela pagaria tudo. E tem os benefícios. Tinha o clube, que ela deixava o pessoal participar. Por exemplo, marcar com um grupo de amigos, você queria ir no clube da Brosol, você participaria. Nas festas de final de ano, e mesmo quando ela fez 25 anos, foi a primeira churrascada que ela deu que foi assim o máximo. O pessoal achou assim sensacional, sabe? E depois todo final de ano ela começou, invés de fazer o almoço tradicional dela de Natal, ela fazia uma confraternização no final do ano. Assim, sabe, com tudo que você tem direito. Frutas à vontade, sorvete à vontade, churrasco, conjuntos de pagode, outro conjunto para tocar os outros sons. Então era uma coisa assim que o pessoal delirava. Era o máximo Ali todo mundo misturava. Não tinha faxineiro, gerente. Ali todo mundo era igual. Todo mundo dançava, todo mundo enchia a cara. Às vezes você via assim aqueles gerentes todo- poderosos, que mal olhava para a gente, chegava ali na festa o cara estava assim amigo de todo mundo, bebia todas, entrava no embalo. Isso daí era superdivertido. O pessoal achava assim demais. E ela fazia sempre assim coberturas com fotos. Então ficava assim aquela coisa bem... Tinha distribuição de brindes para os funcionários. Tinha várias coisas assim interessantes.

P - Na Brosol foi a primeira vez que você teve carteira assinada?

R - Não, na firma ou na outra firminha Edmaldi Galetti eu também tive carteira assinada.

P - Como chamava?

R - Edmaldi Galetti.

P - E os seus chefes, o grupo de amigos da Brosol, como eram?

R - Excelentes Sabe, eu sempre tive chefes que foram amigos mesmo. Não foram aquela coisa de sabe: "Eu mando. Eu quero." Assim não. Sempre teve assim muita conversação, sabe? A gente sempre participou das coisas, dava muitas sugestões. Os amigos, aqueles assim que você podia contar que ali tinha um novo irmão. Você ganhava um irmão. Aquela coisa assim bem união mesmo. Bem família.

P - Você entrou na Brosol em que ano?

R - 1978. Julho de 1978.

P - Ficou seis anos como auxiliar de...

R - De controle.

P - ...de controle. E depois passou a que função?

R - Aí eu fui para inspetor de qualidade, o B. Aí depois passou um determinado tempo, eu fui para A, passou um determinado tempo, eu fui para especializada.

P - Poderia explicar essa diferença?

R - Aí tem diferença de salário. E você, a partir do momento que você vai subindo, vai aumentando mais a responsabilidade. Porque o pessoal fala assim:"Ah, que nem é um inspetor especializado, então eu tenho que fazer isso, então eu tenho que saber fazer aquilo, então eu tenho que fazer aquilo lá, então corre atrás disso." Então eles te jogam os rolos maiores. Porque sabe que você vai ter que aprender a resolver. Se virar. Você vai ter que dar seu jeito, você tem que correr atrás.

P - Quais os problemas mais freqüentes?

R - Os problemas de componentes que davam problema na linha de montagem. Às vezes parava a linha por causa de componentes.

P - Que tipo de componentes?

R - Vamos supor, passa pela nossa área... Passava, tenho que falar assim agora, infelizmente. Passavam pela nossa área todos os componentes que são usados para fabricar uma bomba de gasolina. E na montagem da bomba tinha um desses componentes, vamos supor uma alavanca. Supomos que começa a dar pepino lá na montagem. Aí então o que que o pessoal fazia? Batia e falava:"Ó, não sei, minha linha está parando. O problema está nisso daqui." Aí você tinha que correr atrás, ver de onde era o problema. Se era de tratamento, se era do outro fornecedor, porque que estava daquele jeito, o que que você podia fazer para não deixar a linha parar. Que aí você tinha que se virar. Se você, para você ficar lá escolhendo pecinha, se você, dando um jeito para não parar a linha, você tinha que fazer. O que não podia de jeito nenhum era parar uma linha, ter um atraso na entrega de pedido de cliente. Isso daí, nem pensar. Não podia acontecer de jeito nenhum.

P - Sua jornada de trabalho era de quantas horas?

R - Trabalhava nove ponto seis.

P - . O normal eram oito horas?

R - Hum, hum.

P - Por que você trabalhava...

R - Por causa do sábado. Para não trabalhar de sábado.

P - Qual a sua rotina na empresa?

R - Dependesse do dia. Porque tinha dia que aquilo lá era um inferno. Era gostoso, mas era um inferno. Você não via a hora de sair de lá, você não via a hora de... Agora, tinha dia, não, que era assim aqueles dias bem tranqüilos, bem pacatos, sabe? Tudo normal, não dava aqueles grandes pepinos, tudo você podia ir controlando. Agora, eu gostava mesmo quando dava aquele pepinão da hora, assim. Você se sentia mais útil, sabe? Parecia que você rendia mais, que você...

P - E você entrava a que horas no seu trabalho?

R - Entrava às 7 horas e 15. E saía às 17 horas e 21.

P - Uma hora de almoço?

R - Uma hora de almoço.

P - Almoçavam lá mesmo?

R - Tinha refeitório.

P - E o salário?

R - Eu reclamava quando eu estava lá. Mas eu vi que, hoje em dia eu vejo que as coisas, quando se está fora, aí está pior. (riso) Era bom.

P - Dava para fazer muita coisa com o seu salário?

R - Dava para fazer algumas coisas. É que nem, a gente fala assim:"Muita." É que quanto mais a gente tem, mais a gente quer, não é isso? Mas dava para viver bem, sim. Dava para fazer umas extravagâncias.

P - Sustentava-se sozinha ou tinha que ajudar a família?

R - No começo eu ajudava a minha família. No começo. Até 93, assim, eu ajudei a minha família. Deixei de ajudar quando eu fui morar com o meu amorzão. Aí já ajudava menos. Não que eu abandonei, mas reduzi a ajuda de custo.

P - Quando você conheceu seu companheiro?

R - Ai, desde que eu era criança Isso daí é amor antigo.

P - Conta essa história.

R - Ai, eu tinha acho que uns 12 anos. Ele foi na minha casa. Porque ele era assim meu primo, só que eu não sabia. Assim, primo assim. Porque a mãe dele era prima do meu pai. Aí, a hora que eu vi assim eu falei:"Ai, que será isso?" Tac, tac, tac. O coração batendo. E aquela coisa de :"Quem é? Quem é?", sabe? Quando você olha para uma pessoa assim e... Você fala:"Ai, alguma coisa virou aqui dentro." Então foi essa, sabe, aquela coisa, aquela fissura pela pessoa. Eu achava ele assim o máximo E foi crescendo aquilo, crescendo. Só que eu era novinha. E mesmo quando eu conheci ele, ele era compromissado. E eu também logo comecei namorar. E também logo fiquei noiva. Eu noiva de um lado e ele noivo de outro. Aí teve um dia que eu falei:"Ah, não dá." Porque aí, sabe, quando você começa a misturar todas as estações? Eu ia conversar com o meu noivo, eu chamava o nome dele. Começou a ter todas essas coisinhas, sabe? Quando você está pensando numa pessoa vem a outra conversar com você e começou a ter crise de ciúmes. Meu noivo porque achava que eu estava com ele mas só estava pensando no outro. Que eu chamava o nome dele, chamava o outro. Então começou toda aquelas coisas. Ele começou a ficar com ciúmes também da irmã desse meu primo. Porque eu dava muita atenção para ela e se eu dava muita atenção para ela é porque eu dava muita atenção para os irmãos dela. Então foi, que foi, que foi, eu falei:"Oh, chega" E ele começou a controlar muito minha vida. E não queria mais nem que eu trabalhasse. Ele me propôs até a pagar o dobro do que eu ganhava para eu ficar em casa. Mas eu não tinha que sair de casa. Porque ele não queria. Aí foi foi rolando as coisas. E ele querendo marcar casamento, querendo marcar casamento, querendo marcar casamento. E eu: "Não, vamos esperar. Vamos esperar. Vamos esperar." Até que eu falei:"Não, vamos acabar com isso. Não dá." Sabe quando você convive com uma pessoa mas a pessoa para você não tem mais aquela coisa, emoção. Não tem mais nada. Ele era assim. Fazia parte da minha família para mim. Então um dia eu chamei ele, fui conversar com ele a respeito disso. Ele não se conformou, teve aquelas... Falatório todo. Comentou com a mãe dele. A mãe dele me chamou um dia na casa dela para almoçar. E do jeito dela ela brigou comigo, começou me xingar. Essas coisas. Aquela portuguesada bem, que fala bem, quase não entende. Aí tudo bem. Tentei, tentamos levar mais um tempinho. Aí ele falou bom:"Isso quer dizer porque a gente se vê muito. Então eu vou te ver menos. Quem sabe dá para gente se entender. Voltar a se entender." Mas aí não deu certo mesmo. Aí desistimos. Aí teve aquela fase do:"Ah, vou me matar," sabe? "Eu me mato." E todo dia ia na minha casa pedindo para voltar. Todo dia me mandava flores. Acho que eu nunca ganhei tantas flores na minha vida Porque eu recebia aqueles arranjos, aqueles buquês tão lindos, mas eu não sabia o que eu fazia com aquilo. Eu olhava para as flores, eram muito lindas. Mas eu lembrava o motivo das flores, eu já não gostava. Porque chegava as flores, logo em seguida chegava meu ex-noivo. E falava, e falava... Nisso o Luiz, que era a pessoa assim que batia forte aqui dentro, ele também desistiu da noiva. E a gente começou a se entender. Namoramos acho que uns quatro meses. Mas aquilo foi assim uma tempestade no meio da família. Ninguém se conformava. Ninguém Mas não podia admitir ouvir falar nós dois juntos. Uma porque o pessoal adorava muito meu ex-noivo. Então já considerava ele assim, a pessoa da família. Então já teve essa... O pessoal não aceitava. Não aceitava, por aí. Depois eu comecei a namorar, aceitaram menos ainda. Aí vivemos assim um tempo em pé de guerra. Aí a gente se separou. Ele foi para Minas, Uberaba. Ficou lá acho que uns dez anos. Aí a gente... Ficou lá, nisso a ex-noiva dele foi para lá, no fim eles casaram, tiveram filhos. Aí a gente se reencontrou. A gente se reencontrou, não prestou. Não prestou. E nesse tempo que ele foi para lá e eu fiquei aqui eu não namorava, sabe? Não tinha assim mais aquele interesse. Aí nos reencontramos. Aí, começou. Aí não prestou mesmo. Aí começamos a se envolver, desenvolver, desenvolver. Nisso ele se separou. Daí depois a gente foi morar junto. E aí aconteceu o que aconteceu. Num acidente ele foi embora. Mas ficou saudades.

P - Agora você está sozinha? Não teve filhos?

R - Não, não tive filhos.

P - Você trabalhou 18 anos na empresa?

R - - Hum, hum.

P - Chegou a participar de alguma greve?

R - Participei de várias greves.

P - Você lembra o motivo dessas greves?

R - Olha, eu lembro de uma assim que foi bem marcante. Foi 82, 83, assim que eu achei o máximo, sabe, a greve? Ficamos acho que 40 dias. E no dia que foi determinada a greve, que o pessoal não queria voltar a trabalhar, a empresa tomou uma atitude radical assim. Final de tarde demitiram assim acho que umas 120 pessoas de uma vez, sabe? Então as pessoas voltavam tudo na chapeira para picar o cartão, chega lá tinha o cartão e um papel branco. Tinha umas que nem achava mais o cartão na chapeira. Aí ia perguntar para os chefes, o chefes:"Você foi demitido,"sabe? Aquele tumulto, aquele alvoroço. E o pessoal tentava entrar também de carro próprio. Porque muitas vezes eles barravam os ônibus no meio no caminho. Não deixavam os ônibus chegar até lá. Então as pessoas combinavam assim de ir de carro trabalhar. E eles também, nem carro mais eles estavam admitindo entrar. Então tinha o pessoal do racha que eles jogavam pedra nos carros, sabe? Paravam os carros, fazia todo mundo descer. Faziam... Tinha piquetes muito fortes naquela época. E o pessoal respeitava mais. Hoje em dia às vezes o sindicato fala uma coisa, mas sempre tem aqueles fura- greve. Sempre tem aqueles que dão um jeitinho de dar uma voltinha. E também acho que o sindicato hoje não está tão radical como era tempos atrás. Está mais para conversação.

P - Qual era o motivo da greve?

R - Eu já fiz greve por tanta coisa, minha filha Já fiz greve por equiparação salarial. Já fiz greve por aumento de salário. Vários motivos, já participei.

P - É filiada ao sindicato?

R - Sou.

P - Participou de alguma diretoria do sindicato?

R - Não, não.

P - Chegou a fazer piquete?

R - É, a gente ficava lá no meio do povo. O povo agitando, a gente lá. (riso) E teve uma manifestação que nós fomos até Brasília. Eu participei dessa manifestação, que nós fomos levar uma cartilha do sindicato, né, para melhorar as condições da auto- peças. Mas, foi o maior barato. Gostoso, interessantíssimo

P - O seu trabalho oferece algum perigo? Tem que usar algum tipo de proteção?

R - A gente usava óculos de segurança. Se você for mexer nos produtos com óleo, você usa luva.

P - Desde quando você entrou na empresa ou foi uma conquista posterior?

R - Bom, quando eu entrei já tinha os óculos de segurança. E aí ficou um tempo, o pessoal usou, depois parou de usar. Depois eles voltaram com o equipamento de novo. Mas aí foi uma coisa obrigatória mesmo. Aí o funcionário tinha que ser obrigado. Áreas que precisavam de bota de segurança, tinha que usar bota de segurança. Os óculos, tinha que usar os óculos. Ali eles começaram a punir. A partir dali daí tinha uma punição para quem deixasse de usar os equipamentos de segurança.

P - E as greves que você participou, teve resultados?

R - Teve.

P - O sindicato na época era forte?

R - Bem forte.

P - Lembra das reivindicações mais constantes?

R - Ai... Bom...

P - Por que o sindicato se tornou tão forte, na época?

R - O sindicato que atuava ali naquela região sempre foi um sindicato assim super- respeitado. O pessoal respeitava mesmo porque os caras eles iam mesmo, eles enfrentavam mesmo. Ninguém tinha medo, sabe? Engraçado que um menino que é do sindicato hoje, o Carlos Alberto Grana, ele era funcionário da Brosol. Então a gente começou conhecer ele desde que ele era catatauzinho, que ele veio do Senai para fazer é, como é que sei diz? Estágio na Brosol. Daí, do Senai, ele passou a ser funcionário da Brosol. Que aí conseguiu passar, além de ser estagiário. E ele assim, aquele menininho mirradinho, sabe? Assim tímido, que você não achava que fosse ser a fortaleza que ele é hoje. Porque hoje ele está em... Você abre um jornal, ele está nos jornais e revistas, e dá entrevista. E tem assim, sabe? Fala assim com uma convicção que às vezes você até espanta ver ele falar. Você vê ele em cima de um caminhão de som falando, você fala:"Eu não acredito." Ver uma pessoa que você conheceu assim tão... De repente, cresce. Está sempre no meio dos políticos mesmo. Volta e meia está lá em Brasília. E conversa com um, e conversa com outro. Então, eu achava assim, sabe? Cresceu ali com você. Então ele chamava a gente tudo de mãezona dele, na época que ele entrou na firma. Ele não tinha assim muita amizade. Ele era assim bem tímido. Então a gente começou a se enturmar com ele ali. De repente o cara cresce assim. Vira uma personalidade assim, forte. Que ele fala, ele impõe, ele convence. Eu olho para ele assim eu falo:"Ai, Grana, eu não acredito" (riso).

P - Hoje em dia qual é a sua atividade?

R - Bom, de julho para cá eu sou do lar.

P - Por quê?

R - Ah, eu saí da firma. Você vai procurar emprego, hoje em dia está difícil.

P - Você saiu da Brosol em julho?

R - Em julho.

P - Por quê?

R - Porque teve um... Eles tinham que reduzir custos, então eu fui a escolhida do setor. Não, fui eu, no dia que eu fui, fui eu e uma encarregada, a Márcia, minha encarregada. Ela também foi. Motivo foi por nós duas ganharmos um pouquinho a mais do que as outras pessoas.

P - Por que escolheram da sua área?

R - Eles estavam demitindo assim de todas as áreas. Ia ter demissões. Então ali foi nós duas. A princípio, porque depois foi mais gente depois de nós. Porque teve uma redução muito grande do número de funcionários. A Brosol teve época que estava com 3 mil e poucos funcionários. Hoje ela está com 550.

P - Mas essa função que você fazia de qualidade, continua sendo feita?

R - Continua sendo feita.

P - Mas por pessoas?

R - Continua sendo feita, mas não sei quanto tempo que essa função ainda vai ter duração.

P - Por que?

R - Porque hoje em dia controle de qualidade é uma coisa assim que está em extinção devido aos projetos. Que tem os projetos dos japoneses, aqueles projetos (kanban?). Aquelas coisa que cada funcionário é responsável pela qualidade do que produz. Então isso vai tirando um pouco os inspetores do caminho. Por que se eu tenho que me responsabilizar pelo que eu produzo, por que precisa pagar alguém para verificar se o que eu estou fazendo está certo?

P - Você acha que a sua demissão pode estar dentro desse critério, de que a sua profissão está sendo extinta?

R - É, talvez. Acredito que sim. Porque controle de qualidade o pessoal dava mais valor numa inspeção, dava mais... Era uma coisa assim, como dizer, que tinha mais nome. Que toda firma era obrigada a ter. E o número de inspetores de qualidade da Brosol era um número assim fantástico, sabe? Eles foram cortando, foram cortando - "Não, nessa área aqui não precisa controle de qualidade. Nessa área também dá para reduzir." Então, controle de qualidade mesmo, assim que tem hoje lá mais é para área do recebimento, que era aonde eu trabalhava. Mas, mesmo assim, ficaram poucos lá.

P - Desde que começou seu trabalho, há 18 anos, até o momento em que você ficou na empresa, muita coisa mudou?

R - Ah, mudou.

P - O que mudou na sua rotina?

R - Porque por exemplo, quando eu entrei tinha uns sistemas que você tinha que inspecionar todos os lotes de peças que a Brosol recebia dos fornecedores. Daí um tempo mudou para eles assim, você inspecionava dez lotes, seguidos. Tudo bem, tudo liberado, não deu problema? Não. Aí você ficava mais dez lotes sem controlar. Aí no décimo primeiro lote você voltava a inspecionar. Sem problemas? Você ficaria mais dez lotes sem controlar. Ao passo que, quando eu entrei na Brosol, tudo que entrasse, tudo, era obrigatório controle de qualidade, avaliar.

P - A informática está entrando no ramo?

R - Está. Porque agora você faz pedido de nota fiscal, você tem que passar as cópias das notas tudo para os fornecedores, então tudo por fax. Fazer pedido, devolução também, você que tem que entrar no sistema e fazer.

P - Existem máquinas que substituem uma pessoa no controle de qualidade?

R - Existe acho que uma máquina que ela diminui bem o trabalho do inspetor. Que tem agora nas firmas. O tridimensional, ele faz coisas que a pessoa assim, se fosse para a pessoa fazer, demoraria mais. Seria uma coisa assim mais longa, um trabalho mais demorado. E com a máquina não. Eles fazem um programa da peça, tudo bonitinho. Coloca no computador e esse computador é acoplado nessa máquina e ela vai, a máquina vai medindo. O cara só vai mudando os pontos que ele quer da medida, e vai, o computador vai emitindo o relatório.

P - Mas essa máquina não chega a substituir totalmente?

R - Não, totalmente não. Mas já dá para tirar emprego de muita gente.

P - Com quem que você mora?

R - Bom, eu moro sozinha. Ah, sozinha Eu tenho uma gata agora que mora comigo. Não posso falar que estou tão sozinha mais. (riso) E eu moro em Mauá.

P - Você está procurando emprego?

R - Olha, eu estou dando uma olhada em todas as áreas. Porque na minha área eu andei dando uma observada, eles estão pedindo mais homens. E, para você ter uma idéia, eu ganhava 6 reais e 56 por hora. Hoje os serviços de controle que eu vejo é para ganhar 1 e 43. Então é uma defasagem bem... E outra, eu não sei também. Você convive assim muitos anos dentro de uma firma, quando você sai você não sabe se seria uma boa você voltar de novo em outra firma. Então fica aquele negócio:"Será que compensa eu começar tudo de novo? Eu ficar trancada?" Porque a gente passava o dia, né, praticamente lá dentro. Você se fechar numa firma, você se dedicar, sabe, você aprender a gostar das coisas e das pessoas. E de repente, puf. Vem uma cartinha assim, e você fala: "Puts Tanta dedicação, tanto... Para nada.", sabe? Aí você fica:"Se eu começar de novo e acontecer tudo isso de novo, como é que eu vou me sentir?" Porque você leva assim um baque muito grande, sabe? Pela amizade que você tem. Que ali tinham pessoas ali que trabalhavam comigo, mais ou menos a mesma época que eu. Tinha pessoas que quando eu entrei na Brosol a pessoa já estava. A gente, fazíamos o serviço juntos.

P - Se pudesse voltar atrás mesmo, faria tudo de novo? A mesma profissão?

R - Se fosse para continuar com o mesmo grupo de amigos eu acho que eu voltaria. Porque foi assim uma época muito gostosa. A gente era assim muito irmão mesmo.

P - Você gostava da profissão?

R - Ah, eu gostava. Tinha dia que dava raiva. Mas, tudo bem.

P - E a nível pessoal, você mudaria alguma coisa?

R - Acho que não. Creio que não.

P - E qual é o seu grande sonho?

R - Ah, meu grande sonho Nem sei se eu sonho mais. Meu grande sonho...

P - Você tem algum projeto de vida para os próximos dez anos?

R - Não, viu? Não tenho, não. Eu acho que eu já sonhei tanto na minha vida, já fiz tanto projeto, depois você vê as coisas assim, ó, pãn. Aí você fica assim ó:"Seja o que Deus quiser. O que aparecer aí a gente está, sabe, aceitando. Vamos encarar o que vier." Porque às vezes você faz tantos planos, você sonha, você idealiza, no fim muitas vezes não se concretiza nada. A í vem aquela coisa chata Então... Eu procuro não fazer planos. E uma também que eu acho que tudo que eu planejo não sai do jeito que eu achava que tinha que sair. Então por isso eu prefiro assim, ó, o momento.

P - Agradecemos a sua participação no projeto e vamos encerrar a entrevista. Obrigada.

R - Obrigada vocês. Eu achei super legal estar aqui com vocês.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+