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História de: Patricia Cavalcanti Lobaccaro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/02/2021

Sinopse

Patricia conta dos tempos de juventude quando ingressou no curso de arquitetura e da sua ida para Nova Iorque para realização de cursos e trabalhos onde também conheceu seu marido. Ela conta também do seu ingresso na BrazilFoundation e de como a instituição arrecada dinheiro para ajudar a promover igualdade, justiça social e oportunidade para todos os brasileiros.

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História completa

P/1 – Patrícia, bom dia. R – Bom dia. P/1 – Gostaria de começar a entrevista pedindo que você nos diga seu nome completo, o local e data de nascimento. R – Meu nome de solteira completo é Patrícia Furtado de Albuquerque Cavalcanti, nasci em São Paulo em 29 de outubro de 1970. P/1 – Diga-me o nome dos seus pais e dos seus avós. R – O meu pai, Antônio Furtado de Albuquerque Cavalcanti, filho de Olinda... O sobrenome de solteira, Olinda ______ (Tomazini?), e meu avô, Antônio Maria Furtado de Albuquerque Cavalcanti. E minha mãe, Sônia Maria. Nome de solteira, Sônia Maria Pannunzio de Barros, filha de Raul Ferreira de Barros e Maria da Luz Leda Pannunzio de Barros. P/1 – E a atividade dos seus pais, Patrícia? R – Meu pai é médico, minha mãe se formou em Matemática, mas nunca exerceu. Teve seis filhos, depois que os filhos cresceram ela, por um tempo, foi professora de balé, depois disso ela fez faculdade de Educação Física e hoje ela é professora de Pilates. P/1 – Bem interessante. Você é qual na escala? R – Eu sou a segunda mais velha. P/1 – A segunda mais velha? Diga-me o nome dos seus irmãos, por favor. R – O irmão mais velho é Vitor, depois tenho eu, Patrícia, terceiro é o Murilo, o quarto é o Conrado, daí o quinto e o sexto, gêmeos, Helena e Euclides. P/1 – Olha só. E como foi sua infância com tanto irmão? Foi bom? R – Foi muito bom. Muito boa. P/1 – Vocês brincavam juntos ou cada um tinha sua turma? Como era? R – Cada um tinha seus amigos na escola, mas nas tardes depois da escola a gente sempre brincava em casa, muito juntos. Férias sempre juntos, a gente tinha primos, a família era muito grande, mas foi muito bom. A gente brigava um monte também, mas é muito bom ter família grande. P/1 – E vocês moravam em casa ou em apartamento? Onde você morava? Morou? R – A primeira casa que eu morei que eu tenho lembranças, era uma casinha na Rua Ouro Branco em São Paulo, que é uma rua sem saída. E naquela época eram casinhas, hoje em dia são prédios. Por ser uma rua sem saída eu lembro, eu tenho memória de ter vizinhas e de brincar na rua. E eu tenho vagas lembranças dessa rua, mas quando nasceram os gêmeos, eu tinha cinco anos mais ou menos, ficou pequena a casa, eram seis filhos de repente e a gente mudou pra uma casa na Rua Veneza em São Paulo. Foi lá que eu passei a minha vida inteira até os 28 anos quando eu fui pra Nova Iorque. Daí de lá nunca mais voltei. Mas eu, basicamente, cresci e vivi na Rua Veneza e era uma casa... Tinha um quintal bem grande, mas era cimentado e eu me lembro de brincar muito com os irmãos, correr, jogar futebol, andar de bicicleta e cair muitas vezes naquele cimento, esfolar o joelho muitas vezes. P/1 – E sua mãe... Quem acompanhava mais vocês? Quem era mais assim, autoridade em casa? Sua mãe? Seu pai? R – Meu pai médico. E desde que eu conheço meu pai por gente ele sempre trabalhou 12 horas por dia, inclusive muitas vezes de plantão, finais de semana. A gente às vezes ia para o sítio do meu avô, era felicidade que a gente ia ficar com o papai, às vezes ele tinha que sair. A gente ia jogar futebol com papai, ia fazer alguma coisa com papai e ele recebia um chamado e tinha que atender. Então a gente passava muito mais tempo com a minha mãe do que com meu pai, mas as horas com meu pai eram... A gente passava a semana inteira esperando e meu pai era meu ídolo, e acho que de todos os irmãos. E talvez, justamente, porque a gente tivesse tão pouco tempo com ele e a gente valorizava mais. Minha mãe tava no dia-a-dia, então era muita bronca, era muita coisa. Hoje eu, como mãe, sei como é difícil educar. Meu pai não tinha que fazer essa coisa de bronca do dia-a-dia: “Tá atrasado. Faz isso. Faz aquilo. Tem que comer a comida”. Ou, sei lá, enfim. P/1 – Patrícia, e na escola o que você se lembra? Onde você estudou? Conta-me onde você estudou, qual é o nome da escola. R – O prezinho, eu me lembro também, tenho lembranças muito vagas. Era uma escola chamada Serelepe e eu me lembro de que eu fui visitar a escola depois de adulta. Pareceu-me tão pequenininha. Eu me lembro de que tinha um pátio enorme, uma escadaria pra subir, a escadaria eram três degraus, mas eu acho que naquele tamanho o senso de proporção era... Eu me lembro de que era tudo bem diferente do que eu imaginei. Daí com cinco anos eu estudei na Escola Morumbi, do pré até a oitava série. Depois eu estudei no Colégio Santa Cruz durante o colegial. P/1 – E ia você e seus irmãos também tudo na mesma escola? R – Todos. Na Escola Morumbi todos estudavam na mesma escola e a gente ia no mesmo carro. Nosso carro era uma Caravan. Uma Caravan, o banco da frente era inteiro, então era a minha mãe, eu e meu irmão na frente, e os quatro menores atrás. Naquela época não tinha aquela coisa de cinto de segurança individual, tudo era mais... Não tinha o trânsito, nem acidente de carro como tem hoje. Mas a gente ia no mesmo carro e... Enfim, depois quando eu mudei de colégio, na verdade meus irmãos vieram comigo para o outro colégio, então... P/1 – E isso dava uma segurança, né, Patrícia? Você estudar no mesmo colégio durante muito tempo, ter seus irmãos ali em volta, você já conhece os professores, vai conhecendo, tem uma relação muito próxima, não é não? R – Os irmãos, a gente não tinha... A não ser o meu irmão mais velho e o irmão mais novo logo abaixo de mim, os menores eram em outro prédio, não tinha muito contato a não ser no carro na hora de ir ou de voltar da escola. E depois, quando eu tava no colegial, os horários já eram outros, então a gente já não voltava todo mundo junto. Mas... P/1 – Mas essa permanência no mesmo colégio durante muito tempo, isso dá certa tranquilidade, né? R – Eu acho que a segurança... Realmente nossa família é muito grande, minha mãe tem seis irmãos, com ela, sete. Meu pai tem seis irmãos, com ele, sete. Tinha doze tios, sem contar os esposos. Muitos primos, muitos primos de segundo grau, então foi aquela coisa de ter uma estrutura familiar assim, grande, sólida. Eu acho que isso, com certeza, talvez mais importante do que o fato de que meus irmãos estavam no mesmo colégio. P/1 – E o que você gostava de estudar também lá? Quais eram suas matérias prediletas? Um professor que te marcou. R – Na Escola Morumbi eu não gostei da escola. P/1 – Ah é? R – Era uma escola rígida. Era uma escola pequena, então eram duas classes só, cada classe tinha 20 e poucas pessoas. Então durante muitos anos eram sempre aquelas mesmas pessoas. Eu só percebi o quanto eu não gostava da escola quando eu mudei de escola no colegial e aquela outra escola era muito melhor. Mas um professor que me marcou no primário era o professor Marcão, de Ciências, e eu acho que ele marcou gerações de pessoas que estudaram naquela escola. E de matérias que eu gostava, eu sempre fui muito boa em Matemática, minha mãe fez faculdade de Matemática, todos os meus irmãos... Acho que Matemática e Ciências Exatas eu sempre tive mais facilidade do que matérias... Português eu sempre tive dificuldade de escrever e fazer redação. Eu escrevo, mas não é uma coisa tão natural pra mim. P/1 – E assim, depois no outro colégio você achou que foi bem melhor, você se... R – No outro colégio foram acho que os três melhores anos da minha juventude, infância e juventude, foram os três anos que eu passei no Santa Cruz. Era um colégio... Para entrar no colégio tive que prestar um vestibulinho, era por mérito, tinham milhares de candidatos e poucas vagas, e eu passei. Então assim, o nível de alunos que entravam era muito alto, intelectualmente falando. Eram seis turmas pra cada ano, de 42 pessoas em cada. Então eram 250 alunos, eu vinha de uma escola que tinha 40 alunos para uma escola que tinha 240. E na Escola Morumbi era fácil, eu tirava 10 em tudo, nove, dez, não tirava nota abaixo de oito, nunca tirei. E no outro colégio eu me lembro de quando eu entrei no primeiro colegial eu tirei meu primeiro cinco, que era inaceitável e eu peguei minha primeira recuperação, era outro nível de exigir. Depois eu consegui pegar o jeito da escola e minhas notas melhoraram, mas daí eu percebi que o colégio que eu tava antes era mais fraco. P/1 – E essa turma enorme, essa quantidade de turma, essa garotada toda, isso também era bacana? Você fez muito amigo? R – Muito amigo. Eu tenho, provavelmente, mais amigos hoje do colegial do que da faculdade e sem dúvida muito mais do que da escola anterior. São pessoas que até hoje eu converso, falo e tenho relacionamento. P/1 – E você foi muito namoradeira? O que você gostava de fazer ____________. R – Ah, namoradeira. Na Escola Morumbi, era outro problema. Não tinha homem, eram 40 pessoas... A turma tinha 20 e poucas pessoas, eram 20 mulheres e cinco ou seis meninos. Então não tinha, não sobrava. Mas daí no colegial foi aquela coisa, porque além daqueles rapazes... Era bem dividido, metade homem, metade mulher. Além daqueles do primeiro colegial, tinham os rapazes do segundo e os do terceiro. Então era aquela coisa: “Nossa, quanta gente legal”. Mas eu não fui, assim, muito de namorar porque meu pai era muito ciumento, comigo ele foi ciumento, porque eu era a filha mais velha. Com a minha irmã, que era cinco anos mais nova, ele já não... Com os filhos mais novos ele deu uma... P/1 – Relaxou. R – Relaxou. Mas comigo ele foi muito mais rigoroso e não aceitava. P/1 – Controlava. R – Não permitia. Só depois de mais velha. O primeiro namorado que eu levei em casa e que ele conheceu, eu já tava na faculdade. P/1 – Olha só. R – Não que eu não tivesse saído com alguns meninos. P/1 – Mas era meio _______ R – Não era oficialmente. Não era oficial. P/1 – Sua mãe dava cobertura? R – Sem dúvida. Mas, enfim, acho que ele teve um problema de aceitar, não com os meus irmãos homens, mas acho que comigo, primeira filha, não sei. E então... P/1 – Tava aprendendo ainda como é sentir isso. Patrícia, e também dessa fase, você já tava pensando o que você queria fazer, escolhendo também um curso, já _________ pré-vestibular, como foi sua escolha? R – Eu fiz... Olha, também olhando pra trás, eu fiz Arquitetura, passei no vestibular superfácil na verdade. P/1 – E como você escolheu: “Vou fazer Arquitetura”? Como foi essa sua escolha? R – Se você resolver fazer Direito você tem que começar tudo de novo. E eu acho que é um sistema errado, um jovem com 16 não sabe. Eu gosto, sempre gostei de Arquitetura, mas eu não... A prática da profissão, na realidade, não era exatamente o que eu imaginava que ela seria com 16, 17. Mas prestei vestibular, entrei na USP, cursei os cinco anos, fiz estágio, trabalhei desde os 18, sempre trabalhei. P/1 – Foi por vontade sua ou... Como foi? Você que procurou? R – Primeiro eu queria acho que ter uma renda, assim, um mês do meu dinheirinho de estágio é uma coisa de querer ter liberdade e não ser só estudante. Mas, sem dúvida, desde o primeiro estágio que eu consegui que era, na verdade, com um primo da minha mãe que era decorador, eu percebi que eu aprendi muito mais no trabalho do que na faculdade. Principalmente na USP, era uma coisa muito teórica, pouco relacionada à prática da profissão no dia-a-dia, mas eu acho que as discussões filosóficas na faculdade com certeza foram importantes. Naquele momento acho que eu não tinha maturidade, conhecimento, entendimento para absorver aquelas informações. Mas eu me lembro até hoje de determinadas aulas que discutiam estilos de arquitetura, ou história da urbanização e coisa que hoje, 20 anos, mais de 20 anos depois, hoje fazem mais sentido com a vivência que eu tenho do que naquela época específica. P/1 – E de alguma forma isso ficou, isso faz parte da sua formação. R – Não, com certeza ficou. P/1 – E aí você... Então assim, esse seu primeiro emprego foi ligado à decoração. R – O primeiro emprego foi ligado à decoração. Isso teve um marco muito importante porque depois, profissionalmente, eu só fui exercer principalmente design de interiores .Minha carreira foi inteira mais em interiores, que era o que eu descobri que eu gostava de fazer mais do que arquitetura em si. P/1 – E aí você acabou a faculdade, como você foi... Você já estava também trabalhando em algum lugar? R – Então, eu sempre trabalhei. Durante a faculdade inteira eu trabalhei. Depois da faculdade continuei trabalhando. P/1 – O que você considera o seu primeiro emprego assim mais formal? Esse do seu primo... Do seu tio? R – [Esse do meu tio, que na verdade é primo. Esse. Eu fiquei... P/1 – Você tinha quantos anos? R – 18. P/1 – Nossa. R – Eu tava no segundo ano da faculdade. E teve um impacto no meu estilo de design. Ele falou assim... Ele era arquiteto, naquela época não existia faculdade no Brasil de ou de Decoração, existiam cursos de decoração que não eram considerados... P/1 – Reconhecidos. R – Reconhecidos. Então ele mesmo era um arquiteto e falava assim pra mim: “Quando você fizer um projeto, mesmo que você não siga , você vai fazer a arquitetura, sempre pensa no layout de como vão ser os móveis, de como vai ser a circulação”. Porque ele falou: “Eu não consigo mobiliar alguns projetos de casa que eu mesmo fiz, porque às vezes as portas não dão certo com o ambiente” ele falou “É importante pensar na escala do prédio e do edifício como um todo, mas pensa na escala de quem estará usando aquele ambiente e como você organizaria os espaços internos”. E durante a minha carreira, durante os outros anos de faculdade eu sempre pensei no interior. Pensar, obviamente, as duas coisas: num edifício como um todo, mas com um foco especial no interior. E que é uma coisa... Às vezes a gente pegava apartamento para decorar. Durante a minha carreira inteira em outros trabalhos: “Por que o arquiteto fez isso? Essa porta tá no lugar errado”. Se ele tivesse pensado na parte interior da... Se ele tivesse tido um pensamento diferente ele não teria projetado o apartamento daquela forma. Então foi legal ter feito esse estágio com 18. P/1 – Patrícia, diga qual o momento você decidiu ir pra Nova Iorque fazer um aperfeiçoamento. R – [Então, eu sempre quis viajar. Meus irmãos tiveram a oportunidade de fazer intercâmbio e eu entrei na faculdade, muito uma coisa depois da outra, não tive chance de viajar e morar fora como outros meus irmãos puderam. Sempre quis, mas com 23 eu fiquei noiva e daí quando fiquei noiva de um rapaz em São Paulo... P/1 – Ele era da faculdade também ou não? R – Não. Não. Ele era publicitário. Eu fiquei três anos noiva, então uma vez que eu fiquei noiva eu tava guardando meu dinheirinho pra casar e meus planos naqueles anos eram de casar. Quando o noivado não deu certo, eu tinha 27 anos, tinha meu dinheiro economizado, porque eu achava que ia casar e eu sempre tinha querido fazer esse curso, depois aquela coisa de ter término de um noivado, falei: “Ai, que saber? Eu vou pra Nova Iorque...”. P/1 – Dá um tempo. R – P/1 – E ele é ligado à mesma área que a sua ou não? R – Não. Meu marido trabalhava num banco, na época. Meu marido é da área financeira. P/1 – Você pode me dizer o nome dele? R – Nicholas Lobaccaro. Americano, nascido em Nova Iorque, não na cidade, mas no Estado de Nova Iorque. P/1 – Veio meio assim, também de paixão, daí vem uma virada na vida, né? R – Então, no começo a gente se conhecia, mas não começou a namorar logo em seguida, depois foi mais ou menos depois de seis meses. Mas eu não achava que eu fosse nem casar com ele e nem morar o resto da minha vida nos Estados Unidos. Eu achava que eu tava lá por um tempo determinado e... Mas, enfim. P/1 – E quando você casou você casou muito... No ano seguinte ou não? R – Não. Demorou dois anos e meio depois. Depois que eu trabalhei com o Sig teve uma época que o... Não sei o que aconteceu com o dólar, o dólar era um pra um e teve uma desvalorização que ficou dois pra um, e o escritório dele ficou muito parado porque ficou inviável para os brasileiros que estavam fazendo um apartamento lá, ou, muitos clientes compravam coisas, tecidos, ou até móveis lá para os projetos daqui. Ficou inviável e muito parado o escritório, mas naquela altura eu já tinha um namorado, tava super feliz morando em Nova Iorque. Então eu saí daquele trabalho, mas consegui outro trabalho num escritório americano, chamava Belsey and Associates. Eu adorei esse trabalho... P/1 – Perdão, você pode só repetir? R – Eu trabalhei com um arquiteto chamado Bill Belsey, o escritório chamava Belsey and Associates. Eu gostei muito desse trabalho porque com o Sig eu só trabalhava com brasileiros, os clientes eram brasileiros, eu falava praticamente só português, a menos quando eu tava lidando com lojas. Era praticamente um trabalho só residencial, que era uma área que eu já tinha experiência de ter feito praticamente só isso durante minha carreira no Brasil. E esse trabalho nesse escritório a gente fazia... 80% dos projetos eram comerciais de escritórios, clientes todos americanos, grandes companhias e prédios na Park Avenue. Primeiro projeto grande que eu fiz lá foi no Chrysler Building, que é um prédio que eu adoro, que é um ícone. E difícil, inclusive, fazer reforma lá, porque o prédio é tombado. Então tem mil regras de coisas que você não pode alterar. Mas daí eu senti assim, eu tava de verdade, aquele foi meu primeiro emprego de verdade em Nova Iorque, super, inclusive, puxado. P/1 – Às exigências diferentes também __________. R - Super Diferentes em todos os tipos de... Postura profissional. Enfim, eu apanhei um pouco no começo. Maneira de se vestir, coisas... Uma vez, eu me lembro de que eu fui numa obra de sandália, um sapatinho assim, aberto, não podia porque tem todo o problema de... P/1 – Regra de segurança. R – Regra de segurança, porque daí se tem algum problema, se eu pisar num prego, não sei o quê, posso processar o empreiteiro da obra porque eu me machuquei, mas enfim, coisas que eu... Você não sabe. No Brasil as pessoas trabalham na obra de havaiana, lá é tudo bota, é tudo... Enfim, mas você não pode nem visitar a obra dependendo da roupa que você tá usando. P/1 – E outros códigos, né? Até de... Os próprios clientes também. R – Em tudo. Primeiro era tudo diferente. No Brasil a gente projeta em metros, em centímetros, então eu sabia de cor que porta é porta de 60, porta de 70, porta de 80. São padrões assim, você sabe de cor qual o tamanho de um sofá, tem desse tamanho, desse, desse, qual é a profundidade. Daí de repente é tudo em pés e polegadas. Então assim, uma porta de 32 polegadas eu não sabia dizer se isso era grande ou pequena, se cabia ou não cabia. Aquele número 32 não quer dizer nada até que depois você pega o jeito e chega uma hora que você... Eu sabia mais as medidas em pés e polegadas do que... P/1 – Já passa a pensar nessa outra... R – Tem código de incêndio muito importante também, os corredores são dimensionados baseados na ocupação, quantas pessoas têm naquele espaço, baseado em quantas pessoas tem que evacuar numa situação de emergência, o corredor tem que ser dimensionado de acordo. E coisas que no Brasil eu não... P/1 – Muito detalhe, né? R – É. E o código de obras completamente diferente do Brasil. Eu tive que aprender também. Então foi o emprego que eu mais aprendi, fiquei acho que uns três anos lá. P/1 – Patrícia, conta-me do seu casamento. Sua família foi? Foi um casamento formal? Foi... Como foi? O que... R – O meu casamento... O meu relacionamento com ele dava super certo porque ele viajava, eu não tinha noção que eu ia passar o resto da minha vida em Nova Iorque, eu achava que eu tava lá feliz da vida aprendendo o máximo possível, uma oportunidade de emprego. E ele viajava muito a trabalho, às vezes ele ficava duas, três semanas fora e voltava. Então quando ele tava na cidade era ótimos estar com ele e quando ele não tava eu tinha uma turma muito grande de amigos, era muito bom porque eu tinha liberdade, tava focada na minha carreira. Então não era aquele namoro grudado. Ele tinha a carreira dele e a gente se dava super bem, quando a gente tava junto era ótimo. E daí chegou um momento, em 2000, que meu visto de trabalho ia terminar e era justamente... Na verdade era em 2000. Não. Mentira. Meu visto ia acabar em 2000, mas chegou no final de 2000, em outubro de 2000 era o ano que eu ia fazer 30 anos. Então eu tava assim: “Eu preciso decidir a minha vida. Ou vou ficar aqui, ou vou voltar para o Brasil. Meu visto vai acabar, o que eu vou fazer? Eu vou renovar nesse emprego, mas já tô há três anos, também o que eu tinha que ter tirado de proveito desse emprego, o que eu tinha que aprender eu já aprendi”. Então eu tava assim, na verdade, bastante inclinada a voltar para o Brasil. E no dia do meu aniversário de 30 anos, eu faço aniversário no dia 29 de outubro, então é véspera de Halloween, eu fui comemorar meu aniversário numa festa de Halloween, todo mundo fantasiado, nesse dia ele me pediu em casamento. E americano, quando pede em casamento, ajoelha e não sei o quê. Ele ajoelhou no meio de uma boate, todo mundo vestido de monstro e coisas de Halloween e ele me pediu em casamento. Eu falei: “Aqui?”. E na hora ele me pediu em casamento e demorou uns 15 minutos pra eu aceitar, porque daí passou tudo assim na minha vida: “Se eu casar com ele eu vou morar o resto da minha vida aqui, eu vou ter meus filhos aqui, mas aí eu vou ter meus filhos longe da minha mãe, daí meus filhos vão crescer aqui, não vão conhecer os primos que vão morar lá”. Então, na verdade, enquanto eu o namorava eu não tava pensando se ia ser pra sempre, senão ia ser pra sempre, mas naquele momento que ele me pediu em casamento, eu falei assim: “Eu o amo, eu amo essa cidade, mas se eu casar eu vou ficar aqui pra sempre”. Mas aí eu aceitei, fiquei feliz da vida. Eu me lembro de que no dia seguinte eu tava noiva, eu ia casar. Ah, daí eu tive uma condição, eu tinha ficado três anos noiva no Brasil, com aliança no dedo e não tinha casado, eu falei: “Eu não quero ficar noiva, eu já fui noiva. Eu caso, mas noiva eu não quero ficar. Quando a gente pode casar?”. Ele falou: “Quando você quiser”. Daí eu marquei a data para seis meses depois, porque era o dia que igreja podia, a gente casou em São Paulo, eu falei: “Eu quero casar no Brasil, eu não quero ficar noiva, já fui noiva”. P/1 – Pular essa parte. R – Quero pular o noivado. E foi só o tempo de seis meses de organizar, ver a data. E ele aceitou casar no Brasil, achou superlegal ter casado no Brasil, ele adora o Brasil. P/1 – Ele já conhecia? Já tinha vindo aqui? R – Muitas vezes. P/1 – É? R – O melhor amigo dele morava em São Paulo, então ele já tinha vindo umas 20 vezes a trabalho, ou para visitar o amigo. Ele tinha... Quando eu o conheci, foi uma das coisas que me chamou atenção nele, ele tinha uma coleção de CDs de música brasileira muito maior do que a minha. Ele já tinha ido a lugares do Brasil, nordeste, que até hoje ainda eu não fui. Ele conhecia mais o Brasil afora do que eu. P/1 – Que bonitinho. R – Eu falei: “Como é que você tem mais CDs de música brasileira do que eu tenho?”. Então ele sempre amou o Brasil. P/1 – Patrícia, e o nome Lobaccaro é origem... R – Italiana. P/1 – Italiana. R – Ele é neto de imigrantes italianos que foram pra Nova Iorque, assim como os imigrantes italianos vieram ao Brasil procurar um... P/1 - ____________ R - Enfim, uma vida nova. E ele é neto de imigrante italiano tanto por parte de pai quanto por parte de mãe. P/1 – E isso também tem uma familiaridade também maior, esse lado mais italiano que a gente tem _________. R – Ahã. A família... É muito parecido o jeito que as famílias se encontram. A família dele é enorme também, eles fazem aquelas festas de família que vem um monte de gente. Acho que é mais parecido. P/1 – Você teve neném logo? Como foi? R – Não. Eu tive filho só em 2005, meus filhos nasceram, então... P/1 – Deu pra também aproveitar. R – Ahã. P/1 – ________ também chegando, como é que você... E você continuou a trabalhar também depois de casada? R – Então, em algum momento eu tenho que falar como é que a Brazilfoundation entrou na minha vida e foi naquela época, em 2001. Foi em 2001, foi um ano que muita... P/1 – Foi em 2001 já? R – Em 2001 foi um ano que muita coisa aconteceu. Primeira coisa... P/1 – [Você se casou em 2001? R – Eu me casei em maio de 2001. Primeira coisa que aconteceu naquele ano, que é uma coisa que praticamente ninguém sabe, acho que só o meu marido sabe disso, que eu nunca falei pra ninguém sobre isso. Eu tava feliz da vida, noiva, ia casar, planejando o casamento e aquela fase supergostosa da vida, era fevereiro, ele tinha uma conferência em Miami e eu fui passar o fim de semana lá com ele. Primeiro a conferência era Palm Beach, daí eu fui encontrá-lo em Palm Beach, passei um dia lá e daí a gente alugou um carro pra dirigir até Miami pra passar o fim de semana. Fevereiro é inverno em Nova Iorque e Miami é quente, é sempre uma... Toda vez que ele tinha essa conferência durante anos eu fui com ele, que era a oportunidade de passar cinco dias num lugar... P/1 – Dar uma escapada do frio. R – Escapar do frio. E quando a gente alugou o carro, por um acaso a carteira de motorista dele tinha vencido e eu tinha que guiar o carro, até aí tudo bem, tava eu guiando o carro naquela estrada de... Tem umas, pelo menos, cinco pistas de cada lado, tava na pista mais rápida e tinha um velhinho no carro, que ele ia... Eu tava vendo-o no retrovisor que ele se aproximava, eu tava de olho, mas como eu não podia passar por ali, que eu já tava na pista mais rápida, eu não tinha o que fazer, não podia mais... Tinha um carro na minha frente, eu tava vendo que ele tava dirigindo bem mal ali na minha cola. Uma hora ele veio e o meu marido viu que ele ia bater, ele pegou a direção e fez assim: tsss. Só que eu tava, provavelmente, a 100 ou 120 por hora, o carro desgovernou, eu rodei, eu rodei, eu atravessei as cinco pistas, eu cheguei a ver os carros vindo em cima de mim, depois eu virei para o outro lado, eu vi os carros vindo de novo. E enfim, naquele momento, assim, tudo passa... É tudo em câmera lenta, o negócio não durou, provavelmente, mais do que cinco segundos, mas eu... Você vê os carros vindo e tudo passa pela sua cabeça, a primeira coisa foi assim... Primeiro eu achei que ia morrer, depois: “Não, se eu morrer tudo bem, mas e se eu matar alguém? Se o carro vai bater e se eu machucar alguém? E se eu matar alguém? E se...”. Enfim, tava tudo dando certo, eu falei: “Ah, tava...”. Sabe? Tudo tava dando certo, eu ia casar, tava morando em Nova Iorque, tava feliz, tava tudo bem. E daí naquele momento, eu não sei quais são as probabilidades, você atravessar as cinco pistas três vezes, olhar para os carros de trás, virar, olhar de novo, olhar de novo e não aconteceu nada comigo. Mas eu fiquei muito abalada, depois que o carro desgovernou, eu não conseguia nem... P/1 – Imagino. R – Mexer-me e sair de lá, ele teve que guiar até Miami. Eu me lembro de entrar o quarto do hotel e ficar embaixo do cobertor durante um dia, daí eu liguei para o cara do hotel, falei: “Arruma-me uma missa. Eu quero ir a uma missa, eu preciso ir à igreja”. Eles me arrumaram uma missa em espanhol, nunca tinha ido. E na hora que eu tava rodando eu senti muito a presença da minha avó, minha avó era uma pessoa muito boa, muito religiosa, ela que me levou à missa a primeira vez, eu senti a presença dela. Eu acho que como se ela tivesse me salvado, mas eu falei assim: “Não, se eu tiver a chance de viver eu tenho que fazer alguma coisa, eu tenho que usar a minha vida pra fazer alguma coisa boa”. Daí, enfim, isso foi em fevereiro e aquilo assim, eu acho que foi um milagre de nada ter acontecido. Em março eu casei. Mas minha vida tava assim, muito corrida, porque eu trabalhava no trabalho, arrumando casamento, lua de mel. Na verdade que queria fazer alguma coisa, mas não cheguei a fazer nada. Em julho de 2001 uma amiga minha chamada Fabiene veio me falar de uma fundação: “Ah, tem uma fundação, que chama Brazilfoundation, que vai arrecadar dinheiro para ajudar o Brasil. Só que pra fundação existir eles têm que encontrar dez pessoas que doem 500 dólares”. Eu falei: “Eu vou doar 500...”. Ela até veio me pedir pra eu doar 500 dólares. Eu falei: “Mas o que eles fazem? Que projetos eles apoiam?”. E não tinha, em 2001, nenhum projeto apoiado. E eu achei interessante, mas eu não doei dinheiro, na verdade eu perguntei: “Que projetos eles apoiam? O que eles fazem?”. E a resposta dela, na época, foi muito vaga e eu achei assim, uma coisa meio... P/1 – Vaga. R – Vaga. E não tinha, realmente, começado. A fundação não tinha apoiado, naquele momento, nenhum projeto ainda. P/1 – A fundação tava começando. R – Tava começando. Então eu ouvi falar, mas eu não participei de cara. Eu sei que... Daí teve, em 2001, em setembro caíram as torres, teve o ataque e o escritório teve uma recessão logo após, o escritório em que eu trabalhava, todos os projetos ficaram... Como se fala em português isso? . Parada. Deu uma parada e eu ia lá e não tinha trabalho pra fazer. De qualquer maneira meu visto ia expirar dali há um mês, então eu falei: “Vai acabar meu visto mesmo”. Daí eu tava esperando sair meu ... P/1 – [Lá você já tava casada? R – Tinha casado em maio, mas não tinha saído o . Daí eu saí do trabalho, porque não tinha mais nada pra fazer, tava uma fase muito ruim para o escritório. E daí, por um tempo eu fiquei sem fazer nada porque eu tava esperando sair o meu pra daí com o seria mais fácil eu conseguir outro emprego. Daí essa minha amiga Fabiene tinha me falado que a irmã dela era voluntária na Brazilfoundation, daí eu mandei um e-mail, falei: “Olha, eu tenho tempo, eu quero ajudar, tá aqui o meu nome”. E escrevi um e-mail, os contatei, nunca ninguém me respondeu, mas eu tentei. No ano seguinte, em 2002, ninguém me respondeu o e-mail, mas eu acho que meu e-mail caiu num banco de dados, que depois daquilo eu recebi um convite pra ir a uma palestra na casa da Leona, era a Thereza Lobo falando de alfabetização solidária e da Comunitas, que era a ONG da dona Ruth. Eu recebi o convite: “Ah, interessante”. Naquela época eu já tava trabalhando de novo, inclusive. Na época que eu não tava trabalhando ninguém me quis, depois que eu tava ocupada de novo... Fui à palestra e eu achei muito interessante. Ela foi falar de alfabetização, falou que o programa deles era muito mais barato do que o programa do governo, é muito baseado no voluntariado, e estatísticas de alfabetização no país. Eu achei muito interessante, não só a palestra, mas o fato de que tinha algo acontecendo ali, deviam ter umas 60 pessoas no apartamento. Foi, obviamente, importante conhecer outras pessoas, outros brasileiros que eu não conhecia e pessoas estavam discutindo não só problemas, mas as soluções pra que... Achei aquilo muito interessante e foi a primeira vez que eu conheci a Leona, falei: “Leona, o que eu posso fazer pra ajudar?”. Daí ela falou: “Ah, tem outras pessoas jovens que estão querendo organizar uma festa pra arrecadar dinheiro”. Daí quando eu vi as outras pessoas jovens eram duas amigas minhas, a Ana Flávia ________ e a Vanessa. E a gente fez uma festa e daí naquela época, já em 2002, a fundação tinha apoiado quatro projetos. Então ok. A gente vai fazer uma festa, arrecadar dinheiro. Quais eram as possibilidades? Tinha um projeto em Nova Iguaçu, tinha um no sul da Bahia, que eu não lembro o nome, mas era alguma coisa de educação sexual de meninas. Tinha... Qual era o outro? Não me lembro. Ah, eu acho que era o __________, eu não me lembro de qual era o terceiro, mas o quarto projeto era o ICA, que é o Instituto da Criança e do Adolescente de Mogi Mirim. Eu vi as fotos, era a foto daquele dos palhacinhos, que é uma foto que a gente até hoje... É aquela ali. Enfim, eram só quatro projetos que tinham no portfólio de projetos da fundação, na hora era o ICA. Vamos fazer uma festa pra apoiar o ICA. E o projeto que a Brazilfoundation tava apoiando no ICA era um projeto que chamava . Então a nossa festa era a festa , a gente arrumou uma boate, acho que o ingresso que a gente cobrou era 30 dólares, mas a pessoa, se quisesse, podia doar mais. Teve uma pessoa que, inclusive, doou cinco mil. E a gente fez a festa... P/1 – Vocês convidaram... R – Jovens. Gente jovem. Na época... P/1 – Da roda de vocês, ________. R – Eu já era casada, a Vanessa era casada, a Flávia não tinha casado, mas ninguém tinha filhos ainda. Era gente solteira ou jovens recém-casados, era gente... Jovens profissionais estavam lá, ou estudando, ou trabalhando. P/1 – Maior parte brasileira. R – Não só, porque tinham americanos. Meu marido é americano, ele convidou todos os amigos, b , todo mundo queria ir à festa. Foi meio a meio, homens e mulheres totalmente , cabiam 360 pessoas, a gente vendeu os 360 convites antecipados. Tinha gente que no dia veio à porta e ficou de porta. P/1 – Foi onde? R – Foi numa boate que nem existe mais, chamava . E a gente arrecadou... Acho que a gente arrecadou 19 mil, mas aí o cara deu cinco mil. Então na verdade foi mais de 20 mil. Daí a gente falou pra Suzane, ela falou que... Na verdade ela já tava meio que esperando doar 15 mil dólares para o ICA, porque a gente não sabia dessa outra doação que chegou. Então a gente deu... Naquela época o dólar era três, mais de três, 15 mil dólares eram muito dinheiro porque, inclusive, o projeto original que a gente apoiou o ICA, o valor doado foi dez mil dólares. Então o dinheiro que a gente deu, os 15 mil era mais do que eles já tinham ganhado e o resto a Suzane falou: “Vocês não querem por no fundo do projeto de seleção do ano que vem?”. A gente pôs no fundo de... Aquele extra foi para o fundo de projetos de 2003, que foi um ano, inclusive, super importante na nossa seleção. Daí o ICA... Eu achei super legal, porque eles não só receberam o dinheiro, eles tiveram que fazer um projeto, o que eles iam fazer com aquele dinheiro. E a gente teve acesso a ler essa informação e o que eles iam fazer, com o dinheiro eles iam expandir a metodologia deles para as escolas públicas, que é uma coisa que eles fazem até hoje. Então isso é multiplicar o número de crianças atendidas pelo projeto, significativamente. E daí isso foi a festa, foi no final de 2002, fui para o Brasil passar o Natal. No comecinho de 2003 eu fui visitar o ICA, eu fui com a Roberta Mazzariol, foi o primeiro projeto que eu visitei e a gente foi super bem recebidas. Cafezinho, pão de queijo, daí as crianças fizeram uma apresentação de circo, teve toda uma apresentação especial que foi feita pra gente. E foi muito legal ver na prática o que a gente já conhecia em Nova Iorque pela foto dos palhacinhos. Conheci, eu me lembro, o menino dos palhacinhos, é o Genilson, eu me lembro de tê-lo conhecido. P/1 – Isso que eu queria te perguntar. É muito diferente você vislumbrar um projeto, imaginar um projeto de longe do que você tá ali vendo de perto. Isso mudou a sua ______________________. R – Não, é óbvio que eu já tinha confiança de que, tendo lido, principalmente, eles iam receber o apoio, mas eles tiveram que fazer um projeto, o que eles vão fazer com o dinheiro. E aquilo tava muito bem explicado na proposta. Eu já senti confiança no trabalho da fundação vendo o próprio processo, mas você ver indo lá, na prática, cria acho que um vínculo emocional que você não é capaz de formar só estando lá e conhecendo aquilo por foto. São histórias de pessoas de verdade, enfim, que o projeto tá atingindo e melhorando, dando oportunidade. E eu gostei muito de ter ido ver o projeto. E naquele mesmo mês, de janeiro de 2003, eu recebi um telefonema da Leona, uma pessoa chamada Malu Millerman soube da Brazilfoundation, foi falar com a Leona e falou: “Tem tantas... Todas as fundações aqui nos Estados Unidos, o jeito que elas arrecadam dinheiro elas fazem um jantar de gala. Por que você não faz um gala brasileiro? Tem gala mexicano, tem gala de todos os países, têm todo o tipo de evento para todas, mas não existe um gala beneficente para o Brasil”. Então a Malu deu essa ideia pra Leona e a Leona gostou da ideia e convocou uma série de pessoas pra fazerem parte do comitê de organização dessa festa. E ela convidou: eu, a Vanessa e a Flávia, que tínhamos organizado a festa dos jovens, pra ser a ala jovem do comitê. Isso foi há oito anos. Então há oito anos eu fazia parte da ala jovem, agora já não mais. Então... P/1 – Aí você se animou, gostou da ideia. R – Não, daí eu falei: “Com maior prazer, o que eu puder fazer”. E daí, na verdade, eu já tinha ficado muito impressionada com o projeto que eu visitei e tal. E muito mais do que ajudar na organização do evento, o que eu fiz, todo mundo que eu conhecia, na verdade, eu comecei a mobilizar em torno da fundação. Então a primeira pessoa foi minha cunhada, ela era diretora da Máquina da Notícia, que é uma empresa que faz comunicação institucional, assessoria de imprensa etc e tal. Eu falei: “A gente vai fazer um gala beneficente, enfim, é importante pra gente conseguir patrocínio que tenha imprensa. Será que vocês conseguem um apoio? Como vocês podem fazer?”. Daí a Roberta... Eu não me lembro se a Leona foi. A Roberta, naquela época, a Roberta Mazzariol, que é diretora financeira da fundação em Nova Iorque, a Roberta tava passando muito tempo em São Paulo, naquela época solteira, antes de casar, antes de ter filhos. A Roberta foi ter uma reunião com a Máquina da Notícia, foi falar da BrazilFoundation e eles totalmente compraram a ideia, falou: “Ok. Vamos ajudar vocês”. E a primeira coisa que a Máquina da Notícia fez pra Brazilfoundation foi apresentar a TAM. P/1 – Uma grande... R – Então a TAM era cliente da Máquina e eles acharam que a TAM poderia ter um relacionamento, alguma coisa ligada a projetos sociais que seria bom. Eles fizeram essa aproximação com a TAM que é uma parceria que dura até hoje e uma parceria, inclusive, fundamental para o tipo de trabalho que a gente faz. Não seria possível a gente apoiar projetos no Brasil inteiro, visitar projetos e trazer os projetos para os workshops de treinamento se não fosse por essa parceria. Eu acho que até hoje é a parceria mais importante que a gente tem e surgiu desse contato que eu fiz com a minha cunhada. E, além disso, eles apresentaram a fundação para vários jornalistas na época. P/1 – Diga-me o nome da sua cunhada. R – Ana Cavalcanti. E, além disso, eles toparam fazer assessoria de imprensa do gala de graça e isso fez toda a diferença, porque quando eu falava com possíveis patrocinadores, ou personalidades que poderiam ir à festa, eu falava: “A gente tá com a assessoria da Máquina da Notícia”. Isso abria: “Olha, a Máquina da Notícia tá fazendo o evento”. Então assim, era a primeira vez, mas aquilo deu uma credibilidade a mais e atraiu interesse de várias pessoas. Eu me lembro que era fevereiro, meu marido tinha aquela mesma conferência em Miami, falei: “Leona, eu to indo pra Miami”. Ela já tinha pensado em ir pra Miami falar sobre Brazilfoundation, quem sabe criar um núcleo de brasileiros em Miami que pudesse se interessar em ajudar o Brasil. Ela falou assim: “Então eu vou também”. E eu me lembro de ter ido para Miami com a Leona e a gente foi conhecer o Romero Britto, foi quando a gente pediu pra ele doar um quadro pra ser leiloado e a imagem do convite. Então o nosso primeiro gala teve convite desenhado pelo Romero Britto. Enfim, o relacionamento com a Máquina da Notícia durou, inclusive outra coisa muito importante que eles fizeram pra fundação foi organizar o primeiro evento de doação de projetos na Fiesp. A Fiesp também era cliente da Máquina da Notícia e eles conseguiram um espaço de graça pra fazer a entrega de doações, conseguiram as passagens para os projetos irem. Na verdade, nesse ano, então já era 2003, o nosso... A gente pôs isso no nosso da história. 2003 foi um ano, um marco muito importante na fundação, que foi a primeira seleção grande de projetos, foi o primeiro evento de entrega de doações, que foi o da Fiesp e em Nova Iorque foi o primeiro gala. Então as coisas começaram a tomar forma naquele ano. E, enfim, além disso, convenci meu marido a comprar uma mesa no gala, falei: “Você tem que convidar todos os seus amigos”. E ele vendeu um monte de tickets de mesas. Quando eu vi tinha conseguido assessoria imprensa, conseguido a imagem do convite, conseguido a parceria da TAM, o negócio da Fiesp, as coisas que aconteceram e uma grande parte da arrecadação mesmo do gala veio por contatos que eu fiz. E o primeiro gala então foi em setembro de 2003, logo em seguida a Leona me convidou: “Você não quer fazer parte da diretoria do como diretora de...”. Meu título era . E é expansão, né? Falou: “Você não quer ser?”. Falei: “Eu fiquei super honrada de ser convidada pra ser diretora”. Todo o conselho diretor da fundação é voluntário, então... Roberta era diretora financeira, Marcelo era diretor jurídico e eu fui a terceira pessoa que se juntou ao conselho como diretora de eventos. E assim fiquei até o ano passado. P/1 – Então, só que vamos com calma. Esse primeiro gala foi aonde? R – O primeiro gala foi num lugar chamado . E a Malu Millerman, que foi a pessoa que deu a ideia da Leona pra fazer o gala, ela era só membro, desse e a doação que ela fez foi ter doado o espaço. Então a fundação não precisou pagar o aluguel e nem nada. Foi a doação que ela fez. E o lugar cabia um pouco mais de 300 pessoas, também... Ainda antes do evento a gente tinha acho que só, das 30 e poucas mesas que a gente tinha, acho que tinham 17 só que estavam vendidas três semanas antes do evento... Quer que eu pare? P/1 – Não. Só pra você... Acaba essa frase pra virar a fita. R – Então o negócio não tava assim... Tava indo, mas era a primeira vez, então você tem que pedir pra dez empresas patrocinarem pra talvez uma estar. E tava difícil, eu falei com o Marquinhos, que depois veio se tornar um , falei: “Marquinhos, como a gente promove esse evento? A gente tem que fazer alguma coisa, colocar na imprensa, o negócio tem que pegar”. Daí: “Por que a gente não faz um coquetel de lançamento do gala?”. Então foi na minha casa, eu abri minha casa e o Marcos conhecia todas as modelos. Ele levou Luciana Curtis, Marcelle Bittar, Carol Bittencourt e Ana Cláudia Michels. Foram elas, daí foi um fotógrafo brasileiro que trabalha no New York Post. Ele tirou uma foto das quatro modelos, no dia seguinte tava no Post “Vai ter um gala brasileiro, não sei o quê, nã nã nã”. No dia seguinte o telefone não parava de tocar e em duas semanas... A gente demorou um ano inteiro pra vender 17 mesas, as últimas quase 20 mesas a gente vendeu em duas semanas depois que saiu a notinha no New York Post. (troca de fita) P/1 – Então você tava contando dessa primeira ______. R – Teve o primeiro gala. E uma coisa, eu não pude ir ao evento da Fiesp por causa de trabalho. Eu não me lembro o porquê eu não pude ir, mas eu queria muito ter ido, mas eu convidei... Minha irmã foi e eu me lembro de que ela falou pra mim que ela gostou muito de tudo que ela viu. E eu sei que o ICA, mas uma vez, o ICA que vem desde a primeira festa, desde a primeira seleção, o ICA fez a apresentação de circo na entrega dos projetos e cada um dos projetos acho que se apresentou. Minha irmã falou que ela ficou muito emocionada na festa e ela disse que ela gostou muito do que ela viu. Eu sei que eu me senti super orgulhosa e contente de ter podido contribuir pra que aquilo acontecesse, enfim, seja por causa da TAM, ou por causa da própria Fiesp, enfim. E de longe... P/1 – A arrecadação também do primeiro gala foi... R – A arrecadação do primeiro gala, que foi em setembro, só foi doada no ano seguinte, em 2004. P/1 – Mas vocês ficaram contentes com o resultado do primeiro gala? Como foi? R – Lógico. Com certeza. Não só fiquei contente, como daí em 2004 eu vim aqui pro Rio de Janeiro para o evento de entrega das doações. Porque eu queria conhecer os projetos que iam ser contemplados com aquela doação. Eu também fiquei muito impressionada. Eu me lembro de ter conhecido Raquel Barros da Lua Nova naquele ano. Foi muito interessante. Cada um dos gestores de projeto se apresentou e falou o que eles estavam fazendo e uma das coisas que me chamou a atenção foi que era tão diversificado, o que eles estavam fazendo em termos de geográficos do Brasil, em termos de problemas. Era quase que ver um mapa do Brasil, pessoas de lugares completamente diferentes, com situações completamente diferentes, dedicando-se e fazendo coisas que estavam melhorando as suas comunidades. Eles não se conheciam entre si antes disso, mas todos eles acho que tinham uma coisa muito importante em comum. Eu achei que aquelas pessoas tinham algo muito especial. Eu vim em 2004 e vim em 2005. Acho que em 2004 eu não lembro se... Eu acho que foi o coral de Sant'ana que fez a apresentação, também achei muito legal ter visto isso. Eu participei das oficinas com os projetos que não eram exatamente ainda como elas são feitas hoje. Hoje é um sistema um pouco mais sofisticado talvez, com apostilas e tal. P/1 – As oficinas de capacitação? R – De capacitação. Mas eu participei durante aqueles dois, três dias e foi muito importante pra entender o trabalho que a fundação tava fazendo aqui no Brasil. Conhecendo as histórias das pessoas, ver o impacto que aquilo tava tendo, quer dizer, valia a pena. Não é nem um pouco fácil organizar um gala, ou pedir dinheiro, ou arrecadar fundos. É um trabalho difícil porque a maioria das pessoas com quem você vai conversar não tem a receptividade inicial. Então requer muito tempo, muita dedicação, mas eu tive a convicção conhecendo, vendo de perto, que valia a pena, que era muito importante. P/1 – Esse seu contato com os projetos, pra você também, além de pessoalmente, foi importante também para você poder vender essa ideia lá fora? R – Com certeza absoluta. E outra coisa também, eu acho que eu senti muita vontade de participar das atividades da fundação é porque era meu contato com o Brasil, porque meu marido é americano, a família dele é de lá. Quando eu fiz essa escolha de morar lá e de não estar aqui, uma coisa que pra mim fazia sentido. Era uma desculpa a mais pra vir aqui, pra participar. Quando eu vim participar desse encontro eu vim só pra isso. Não tinha outra razão de estar vindo pro Brasil naquela época. Então é uma desculpa a mais e vir pra cá, de estar no seu país, de poder visitar os seus pais, enfim. P/1 – Mas foi assim, esse início foi uma coisa que você foi se envolvendo aos poucos ou... R – Era dos primeiros nove anos... Não. Oito anos. Foi sempre um trabalho voluntário, eu tinha o meu trabalho. P/1 – Mas você estabelecia um cotidiano de trabalho ou não? R – Então, depois que minha carreira profissional evoluiu que eu abri meu próprio estúdio. Na verdade aconteceu de uma forma não tão planejada. Surgiu a oportunidade de meu marido e eu compramos um apartamento, eu queria reformar, mobiliar e ter acesso aos descontos de profissional. Então eu perguntei pro advogado: “O que eu posso fazer, o que envolve eu abrir uma empresa?”. Ele falou assim: “É só isso. Você tem que ter um americano como sócio, mas no caso é seu marido, você já tem o G C , você já tem os papéis. Eu preciso só consultar se o nome não existe”. Mas minha empresa tinha o meu nome, então obviamente que tudo bem. Foi relativamente simples abrir uma empresa e daí com a empresa aberta eu podia ter acesso aos descontos das lojas, mas antes que eu pudesse me dar conta eu já tinha clientes. Então como eu trabalhava pra mim mesma, eu tinha flexibilidade de horário. Eu o trabalho, enfim, como membro do , meu trabalho era muito focado em eventos, principalmente o gala. Então tinham três meses do ano que tinham mais trabalho do que eu gostaria, porque atrapalhava o meu escritório, sem dúvida nenhuma, sempre atrapalhou, mas o resto do ano era um pouco mais tranquilo. Então dava pra levar as duas coisas até que chegaram os meus filhos. Daí ficou complicado. P/1 – Antes de chegar, deixa-me só contar desse início. A Brazilfoundation tava funcionando onde? Como é que era a estrutura? Quem mais participava? Como é que era essa equipe? R – Em 2003... Tanto em 2002 quando eu reorganizei aquela festa pro ICA como durante o ano de 2003 inteiro a fundação era na casa da Leona, não existia nenhum funcionário, todo mundo era voluntário. Depois com aquela arrecadação... Na verdade antes, foi logo depois do primeiro gala, a gente tinha condição financeira e já precisava, porque era muito trabalho, de contratar uma pessoa como funcionária. Mas essa pessoa começou a trabalhar logo depois do primeiro gala, mas ela trabalhava na casa da Leona ainda. Daí a gente teve condições, e também já não cabia mais na casa da Leona, tava atrapalhando a vida pessoal dela, e eu como arquiteta mais uma vez contribui, fui procurar os espaços junto com a Roberta. A gente encontrou um lugar que não tinha nem parede, não tava pronto. Fiz o projeto de graça pra fundação e algumas coisas a gente tinha que pagar, o dono do prédio constrói as paredes e as portas no lugar que você pedir. Ele fez, mas algumas... P/1 – Então era um prédio em construção ainda. R – Não. O espaço estava vazio. O prédio já é um prédio antigo, mas o espaço interior era vazio. Daí algumas coisas eram à parte, por exemplo, todo o cabeamento de computador a gente tinha que pagar pelos custos e não tinha dinheiro. Então eu mais uma vez fiz uma festa, nesse caso era pra arrecadar recursos pra gente poder financiar as obras... Não eram as obras. A casca já tava pronta, mas pra pagar os custos extras da construção. P/1 – E da obra mesmo, né? Botar piso e _____ R – É. Tinham algumas coisas que não estavam inclusas. Tem uma porta de correr aqui do escritório que não estava inclusa. Então a gente fez uma festinha, arrecadou dinheiro, foi suficiente. A partir de acho que foi outubro de 2004, o escritório abriu. P/1 – E onde ele se localiza? R – Ele se localiza no número 345 da Sétima Avenida, entre a 29 e a 30, no 14º andar. Naquela época então a gente tinha uma única funcionária, que era a Danyela Moron, que eu espero que seja alguém que a gente entreviste nesse processo inclusive, e as demais pessoas que frequentavam, iam ao escritório eram voluntários. E assim foi indo. P/1 – E aí vocês permanecem nesse mesmo escritório... R – Até hoje. Até hoje estamos lá. P/1 – E vamos também andando, então, quer dizer, até antes do gala você também foi a promotora do primeiro evento desse da festa do Carpe Diem. R – Sim. Não sozinha, mas sim. P/1 – Eu queria que você me desse assim, a gente gostaria até de prolongar um pouquinho mais, mas dentro do seu horário, qual foi desses galas, como é que foi das edições do gala que você se lembra, pra manter no mesmo clima de evento, que foi marcante pra você? Qual foi o que deu mais trabalho? _____________ R - [Mais trabalho todos, mas principalmente o do ano passado. P/1 – Por quê? R – Minha carreira foi embora. Não precisa por essa parte. Acho que o gala que eu mais gostei, sem contar o do ano passado, foi o gala que eu acho, se não me engano foi o terceiro, em 2005 quando veio a orquestra da Grota. Ele foi assim mágico, aquele gala. Em todos os sentidos deu tudo certo, as pessoas não estavam imaginando. Teve um jantar e de repente a certa altura do jantar entraram sete meninos, por entre as mesas, tocando o violino, aquela música linda e depois aquela música de violino vira samba. Eles começaram a dançar samba com violino e batuque e foi um negócio assim, as pessoas não estavam imaginando. Eu não estava imaginando que... Ficou todo mundo encantado, emocionado, encantado com aquilo. Depois quem fez a atração musical foi a Margareth Menezes. Todo mundo dançou até acabar, as pessoas não queriam sair. Os sete meninos da Grota sambavam. A Margareth Menezes tocando, eles com aquele samba no pé, todo mundo dançando junto com eles. Eu acho que esse ano... Eu me lembro de ficar arrepiada na hora que eles entraram. No ano seguinte foi muito legal também que foi outro ano que a gente trouxe o Vidança. Foi muito bonita a apresentação que eles fizeram. Todo mundo adorou. E daí o gala do ano passado foi uma coisa assim, em outro patamar, enfim. P/1 – Mas por quê? Vocês fizeram maior? Por que deu mais trabalho? R – O que aconteceu, a gente no ano de 2009 convidou Nizan Guanaes para ir ao gala, ele foi como convidado. Ele é um dos maiores publicitários do Brasil, ele se especializa em reposicionamento de marca, se tem alguma marca que está num patamar o que ele faz é levar aquilo pra cima. É a especialidade dele. Ele viu o evento, ele gostou, ele achou interessantíssimo a gente ter 500 pessoas ali que estavam contribuindo para ajudar o Brasil. O público diversificado, tinha gente de todos os setores, a gente sempre... Isso é uma coisa muito mérito da Leona. O sonho dela, o objetivo dela, um deles, era construir uma comunidade de doadores lá que pudesse contribuir para um Brasil melhor, e que cada pessoa pudesse fazer o que fosse possível. Tem pessoas que obviamente iam contribuir com dinheiro, tem pessoas que poderiam contribuir com seu tempo sendo voluntárias. Tem pessoas que são artistas, poderiam contribuir com seu talento, por exemplo, tocando no evento sem cobrar um cachê ou doando uma tela para um leilão. Tem pessoas que poderiam contribuir com contatos. E ela sempre quis, o que ela queria fazer, o que ela conseguiu fazer, criar essa comunidade de pessoas e então nos nossos galas a gente sempre teve representação de vários setores da comunidade, desde diplomatas, cônsules, embaixadores sempre vieram. Acadêmicos, sempre a gente teve apoio dos médicos brasileiros que moram lá, sempre fizemos uma mesa de médicos. Artistas, modelos, enfim, pessoas da indústria da moda, pessoas de finanças. É uma coisa muito interessante. Acho que o que o Nizan viu aquele dia eram 500 pessoas reunidas pra ajudar, pessoas de diferentes setores. Mas ele falou assim: “Tá legal, mas poderia ser muito melhor. E o Brasil está se reposicionando no cenário internacional, vocês estão fazendo um gala brasileiro. Pro Brasil isso poderia ser uma coisa um pouco mais profissional, maior”. Ele achou também que a gente tava arrecadando muito pouco dinheiro, fazendo todo aquele evento que tinha imprensa e tinha personalidades e aquilo arrecadava 300... 350 mil dólares foi o máximo que a gente arrecadou antes do Nizan. Ele falou assim: “Você tem que arrecadar no mínimo um milhão, mas de preferência dois”. E ele fez. Ele fez, mas não foi a custa de pouco trabalho. Enfim, nessa época a Leona tinha começado o Fundo Carioca, foi uma época de muita transição em 2010 para fundação. A gente começou... 2008 teve a crise econômica. 2009 foi um ano que a gente arrecadou menos dinheiro do que o normal, além disso, o dólar aos poucos foi perdendo valor. Então a gente começou o ano de 2010 com uma reunião do conselho e a Leona falando: “Não temos dinheiro pra chegar até o final do ano”. Inclusive ela chegou pros funcionários do escritório e falou: “Eu tenho dinheiro pra pagar o salário de vocês só até o meio do ano. Depois disso infelizmente não tenho como manter vocês aqui”. Então ao mesmo tempo em que a fundação estava com essa dificuldade financeira porque a gente perdeu todos os apoios que a gente tinha de fundações, a gente não... P/1 – Por causa da crise? R – Por causa da crise, sem dúvida nenhuma e também porque o Brasil sofreu menos com a crise do que os Estados Unidos e Europa. Então as fundações americanas e europeias que também perderam dinheiros de seus investimentos e seus fundos patrimoniais etc e tal, acharam que o Brasil era considerado rico e que precisava menos do que África ou Caribe e outros lugares. Não só a Brazilfoundation perdeu o apoio institucional que a gente tinha de fundações, como na verdade muitas outras organizações perderam esse apoio. Então a gente começou o ano de 2010 quase falidos, sem saber se ia poder terminar o ano. Por outro lado a Leona teve a ideia de fundar o Fundo Carioca e se dedicar a isso, e o escritório de Nova Iorque na verdade ia passar seis meses por ano no Brasil, não tinha ninguém cuidando do escritório. Por outro lado entrou o Nizan pra pegar o gala, revolucionar e colocar num... Quando eu vi eu tava trabalhando . Mais uma vez que eu comecei o negócio não podia abandonar na metade, porque se eu abandonasse na metade, quem ia fazer? Não sozinha, tinha sempre todos os outros , todo mundo sempre ajudou, sempre tivemos voluntários, um comitê do gala, pessoas que nos ajudaram. Mas eu fui recusando me ligar mais porque eu to reformando um apartamento. Por outro lado teve um boom de brasileiros comprando apartamentos em Nova Iorque porque o dólar baixou muito, a economia aqui tava boa. Então brasileiros iam comprar apartamentos lá, comecei a receber um monte de ligações pra fazer projetos e reformas e eu não podia aceitar: “Sinto muito, não tenho tempo agora. Talvez a partir de outubro”. E eu recusei três clientes durante o processo de organização do gala do ano passado. Daí nessa mesma época de começo de 2010, quando a Leona falou ao que depois de dez anos, diante dessa situação financeira difícil, ela queria por motivos pessoais passar mais tempo no Rio, tinha começado o Fundo Carioca que era o novo sonho dela. Ela disse aos diretores que estava na hora da diretoria encontrar outra pessoa pra liderar a fundação. Na verdade naquela época ela disse que como presidente e CO. Eu tava fazendo o gala, não passou pela minha cabeça que eu ia aceitar essa posição até que naturalmente o meu escritório já não conseguia dar conta, mas três pessoas vieram perguntar pra mim se eu não consideraria assumir o posto dela. Além disso... P/1 – _________ do conselho ou voluntário... R – Um funcionário, um voluntário. Enfim, várias pessoas vieram perguntar. Daí eu fui falar com o meu marido, eu falei: “Nick, na prática eu tô me dedicando muito mais a isso do que ao meu escritório. Eu percebo que o meu coração tá aqui, mas do que ele tá em fazer reformas”. O dia-a-dia de arquitetura tem uma parte legal, a parte criativa, mas a parte de obra tem muita coisa chata. Coisas, por exemplo, você sair pra escolher o azulejo com a cliente. Já não tinha muita vontade de fazer isso mais. Meu coração, estava totalmente envolvida com isso e eu perguntei: “O que você acha?” Já não tá dando certo meus filhos, mais o meu escritório, mais a minha fundação. Eu tava super cansada, esgotada, estressada. Eu falei: “Nick, alguma coisa eu tenho que abrir mão”. Já tava claro que, ou eu tinha que desistir da fundação e não fazer mais nada pra fundação... Até que daí surgiu a coisa: “E se eu desistir do meu escritório?”. Eu falei: “Nick, o que você acha?”. Ele falou assim: “Eu tenho acompanhado você por oito anos, eu sei o quanto você deu de você pra isso e quanto você gosta dessa fundação que você ajudou a construir. Eu acho que não tem nada melhor que você possa fazer com o seu tempo”. Ele falou: “Eu te apoio no que eu puder, se você não for ganhar um salário você não precisa”. Enfim, nunca ganhei muito com... Meu marido sempre ganhou muito mais do que eu. Ele falou: “Você tem o meu total apoio. Se for isso que você decidir, você conte comigo, mas quem tem que decidir é você”. Daí eu conversei com a Leona e falei: “Leona, eu já to fazendo isso praticamente que há oito anos, o que você acha se eu... Você me consideraria como sua substituta?”. Ela ficou emocionada, quando eu conversei com ela, ela falou: “Acho que não posso pensar numa pessoa melhor e mais dedicada do que você”. Daí eu comecei um processo de entrevistas com todos os diretores. Queriam saber o porquê eu tava fazendo isso, quais que eram os meus planos. P/1 – Você passou por uma ________? R – Passei. Enfim, daí eu larguei o meu escritório e aqui estou. Eu achava, na verdade, que não tava dando certo ter os filhos, a carreira, fundação como voluntária. Eu tinha que abrir mão de uma coisa e eu achei que a minha vida ia ficar mais fácil quando eu largasse o escritório e fosse fazer uma coisa só. Pelo menos to fazendo uma coisa só. Isso não aconteceu. Na verdade eu to muito mais... Minha vida do jeito que eu conhecia já não existe mais, o trabalho é muito puxado, é muita responsabilidade, mas eu tenho muito orgulho do que eu tô fazendo. Ter ido pra Itatiaia dessa vez foi espetacular essa experiência. P/1 – Eu queria que você explicasse também como é que foi, o que é o encontro em Itatiaia pra gente deixar registrado. R – Então, o encontro em Itatiaia, primeiro eram todos os projetos que a gente tinha apoiado. Então eu já conhecia, ou eu tinha ido visitar pessoalmente, ou eu tinha conhecido o líder do projeto em alguma das oficinas que eu participei, ou pelo menos eu conhecia... P/1 – [Só pra gente historiar um pouquinho, o encontro em Itatiaia foi marcado... Você veio especialmente... R – A gente veio especialmente. P/1 – Era proposta pelos dez anos, de comemoração dos dez anos. R – Isso foi no começo desse ano quando a Susane inclusive pela primeira vez que ela explicou o que ela queria fazer no projeto de dez anos, eu achei, eu fui muito... Eu adorei a ideia de a gente não abrir um edital pra todo mundo, a gente só abriu o edital pros projetos que a gente já tinha apoiado e parar um pouco. O que a gente fez em dez anos? O que deu certo? O que não deu? Como é que a gente pode se posicionar pros próximos dez? Vamos olhar pro que a gente fez e aprender com os erros e com acertos. Não tem como a gente avaliar o impacto que a gente teve sem entender o impacto que os projetos tiveram dentro daquilo que eles fizeram, e qual foi o papel que a Brazilfoundation teve no crescimento dessas instituições. Então eu achei muito interessante a gente não abrir o edital geral e focar, olhar um pouco pro passado e pra nossa história para poder projetar o que vinha pela frente. P/1 - __________________ do que um planejamento estratégico? R – Com certeza também. Então eu fiquei já encantada logo de cara de receber as fichas, graças ao Cláudio Tostes. Pedi pro Thiago: “Pede as fichas”. Eu tinha recebido uma como exemplo, eu fiquei encantada de ler aquela ficha. Eu li mais de 60 daquelas fichas. Foi impressionante... P/1 – Mas são as fichas de instituição? Só pra eu também entender. R – A gente só abriu o edital pra instituições que já tinham sido apoiadas antes. P/1 – Então era _____________ R -125 instituições. Não. Do projeto de dez anos. 125 instituições se inscreveram. Tinham 60 ou 65 finalistas e a gente escolheu 20. Mas dentro daquela ficha de inscrição tinham perguntas assim: “Qual foi o impacto direto que o apoio da Brazilfoundation teve na sua instituição? Qual foi o impacto indireto que o apoio da Brazilfoundation teve? Que tipo de parcerias vocês conseguiram obter após o apoio? E que tipo de prêmios ou reconhecimentos vocês conseguiram ter depois do apoio”. E foi só em alguns parágrafos descritivos, isso ainda na primeira parte da seleção, eram perguntas bem diretas, mas era uma ficha razoavelmente curta. Foi muito interessante pegar projetos: “Olha o ICA”. Em 2002 eles foram apoiados, daí fez a festa. Eles receberam o segundo apoio. Olha onde eles estão, eles atendem incluindo as escolas públicas que eles têm até hoje o convênio, que é onde eles fazem as aulas de arte dentro das escolas. Eles atendem não sei quantas crianças, enfim. Eu pude ler histórias do Manoel de Andrade, que era um projeto que a gente conhecia, ele esteve em Nova Iorque dando uma palestra. Ele colocou, naquela época da ficha, eram 400 pessoas na faculdade do interior do Ceará. Falei: “Gente, 400. Eles começaram com três e agora são 400”. Esse cara tá mudando a demografia da região dele. Era uma região onde ele foi o primeiro daquela cidadezinha a ir pra faculdade, e o único, e agora os jovens... Tem dois mil alunos estudando e tem 400 na faculdade. Inclusive em Itatiaia depois ele disse que não são mais 400, são 500. Agora são 500. Então eu fiquei encantada só por ter lido as fichas e ter visto. Eu achei que o impacto que os projetos tiveram, nem todos, mas a maioria teve, foi muito maior do que o esperado. O trabalho que a gente fez em Nova Iorque em grande parte um trabalho voluntário, de um grupo relativamente pequeno de pessoas, como isso teve resultados reais. Eu achava também que eu não devia ser a única pessoa de Nova Iorque a poder ir pra Itatiaia e ver, estar com aqueles projetos e conhecer de perto. Então foi a primeira vez que eu levei, a gente levou dois funcionários do escritório de Nova Iorque pra irem conhecer e pra eles também foi uma experiência muito importante. P/1 – Quem veio? R – Veio o Thiago Guimarães e a Mariana Castro. Infelizmente a gente ainda não conseguiu trazer, uma das grandes metas que eu tenho pra fundação é conseguir aproximar o doador ou o voluntário que tá lá diretamente ao projeto. Então a gente quer, se possível, trazer mais projetos apoiados pela gente pra darem palestras e estarem lá. A gente já fez isso algumas vezes, mas o mais importante é conseguir com que eles venham ao Brasil visitar. A gente quer organizar algum tipo de viagem. Eu acho que é muito, muito importante. P/1 – O perfil desse doador que você quer trazer aqui pra ele conhecer mesmo o que ele tá ajudando, ver de perto, como é que é esse perfil, Patrícia? __________ falar desse... R – [Tem pessoas que estão doando e dando o seu tempo há oito, nove anos e que nunca visitaram o projeto. São pessoas que têm uma... Como eu posso dizer? São pessoas que são responsáveis tanto quanto eu, ou tanto quanto a Leona, pelo que a gente conseguiu fazer. Muitos são nossos diretores e que por causa de trabalho e da correria não sobra tempo, enfim. Muitos dos nossos diretores, que são todos voluntários, nunca conheceram o projeto. Então, por exemplo, tem... E grande parte dos nossos doadores são fiéis e doam desde o começo. Desde o primeiro gala continuam vindo. Então existem pessoas que há oito anos contribuem, nove anos. Ou pessoas mais recentes que estão há dois, três anos envolvidas e que gostariam, se tivessem a chance de ter o contato e visualizar isso de perto, poderiam ter um envolvimento com a fundação ainda maior. P/1 – Até realizar melhor o bem que ela tá fazendo, né? Pra ela ter noção... R – Com certeza. P/1 – Mas eu queria saber mais assim, perfil, como é que é dessas pessoas que têm contribuído e tal. R – O perfil. Eu acho que em termos de voluntários e grande doadores, a maior parte é da minha geração. As pessoas que tem menos de 30 ou estão estudando, ou talvez não tenha tantas pessoas dessa faixa etária morando em Nova Iorque, que estão na faixa da faculdade. Pessoas acima de certa idade também participam menos. Eu acho que a faixa etária mais ativa enquanto tanto como voluntários quanto doadores, eu acho que está entre 35 e 45 anos. Mas temos alguns doadores e alguns diretores também de mais de 50 ou 60 que são muito importantes, mas a faixa etária principal eu acho que é a minha. P/1 – E são pessoas que estão há muito tempo em Nova Iorque? R – Em termos do que elas fazem... Uma vez eu e a Leona estivemos em Miami, naquela viagem a gente teve uma reunião com o cônsul brasileiro em Miami na época, Lúcio Pires de Amorim. Ele disse que a comunidade brasileira na Flórida tinha quatro tipos de pessoas: um eram os muito, muito ricos, inatingíveis, que não tem acesso e que não frequentam eventos da comunidade. Muitos inclusive estão lá meio fugidos, talvez com problemas com a lei no Brasil e estão lá, então não se misturam, mas são os que mais têm dinheiro; daí tem a comunidade de jovens profissionais, a comunidade profissional. São pessoas que estão lá com visto de trabalho, às vezes foram pra lá porque foram estudar, então são pessoas que têm curso superior, estudaram no Brasil ou lá, ou foram fazer pós-graduação, mas têm um trabalho e estão lá legalmente; depois tem o grupo de pessoas que vieram há décadas atrás, ás vezes ilegalmente ou até legalmente, mas que hoje estão em situação legal e são donos de comércio local, já têm filhos aqui. Então é o dono do restaurante brasileiro, é o dono da agência de turismo; e a enorme maioria dos brasileiros são ilegais. Então o grupo nosso de doadores e voluntários é o grupo dos profissionais. Não são nem os super ricos, também não são os ilegais. E a gente tem suporte e apoio também da comunidade do terceiro grupo, que é o grupo que está há mais tempo e que veio pra ficar, abrir negócios. A gente tem bastante apoio desse grupo também, esse é o grupo que a gente tem mais acesso. P/1 – Queria voltar ao gala do ano passado que foi mais trabalhoso e que você falou que foi o que a gente acabou conseguindo arrecadar mais com a ajuda do Nizan. Qual foi o diferencial que ele teve pra arrecadar mais, e eu queria daí puxar também pra se falar sobre o Fundo Patrimonial. R – Primeiro ele ensinou pra gente que a gente... A gente arrecadava dinheiro vendendo mesas ou tickets pro evento. Ele falou: “Não. Você tem que arrecadar patrocínio. O custo do evento tem que ser financiado por patrocínio”. E ele explicou: “Mesa é mesa. A pessoa tá comprando o ingresso pra estar lá. Patrocínio ele tá pagando pra marca dele estar associada ao evento”. Então a primeira coisa que ele fez foi levantar patrocínios que não tinham nada a ver com ingresso e acesso a participar do evento, e todos os patrocínios ele foi que obteve. As mesas ele nos ajudou a vender muitas, mais muitas. A gente tem um público cativo que vai todo ano, então a gente fez a nossa parte em termos das mesas. Enfim, a gente arrecadou um milhão de dólares antes de o evento começar e ele falou assim: “Eu vou subir no palco e vou pedir doações”. Para isso ele tem que dar o exemplo, ele falou: “Eu vou subir no palco, vou falar que vou dar cem mil”. Enfim, ele fez o sócio dele falar: “Você vai dar mais cem e aí a gente vai vendo se outras pessoas contribuem”. E a gente conseguiu com ele ali no palco mais um milhão e cem, que nem todo mundo pagou imediatamente, a pessoa quando a doação é grande pode pagar em parcelas, enfim. Mas a ideia do Fundo Patrimonial foi... Às vezes as coisas têm que acontecer do jeito que elas têm que acontecer. A fundação completou dez anos. Em dez anos o que a gente fez no Brasil, a gente tem um respeito muito grande do terceiro setor e internacionalmente a gente tem um respeito muito grande também. Então a instituição é muito respeitada. A gente sabe nesses dez anos, a gente tá fazendo esse trabalho de avaliação, mas muito antes de começar a gente sabe qual é a nossa vocação, a gente sabe o que a gente faz bem. Em dez anos a gente já tem uma credibilidade, a gente sabe que a gente tá aqui pra ficar. Mas por outro lado a nossa situação financeira é ainda frágil, porque todos os anos a gente tem que arrecadar dinheiro, o que a gente tem a gente doa e daí começa o ano seguinte com zero tudo de novo. E se acontece algum problema, como uma crise econômica, e a gente perde apoios, a gente... O caminho seria ter esse fundo patrimonial que pudesse garantir a sustentabilidade da fundação em longo prazo. O jeito que o fundo patrimonial funciona o dinheiro fica aplicado num fundo e só o rendimento financeiro daquela aplicação, só os juros são desembolsados anualmente. Então a fundação, no dia que a gente conseguir construir esse fundo, vai ter uma renda mínima que garanta o funcionamento, não só o funcionamento mínimo das operações da fundação, mas também o apoio mínimo anual a projetos. Daí qualquer coisa que a gente arrecadar além daquilo é extra e a gente pode apoiar mais projetos, mas pelo menos o funcionamento mínimo da organização a gente teria uma garantia que teria em longo prazo. Então é algo que a gente tem que focar em fazer, mas eu acho que... P/1 – Vocês têm um objetivo, vamos chegar até tanto que isso já... Já tem esse cálculo? R – Eu tenho minhas metas. Eu gostaria de ter pelo menos 25 milhões de reais no Brasil e cinco milhões de dólares em Nova Iorque. P/1 – É uma meta ambiciosa. R – É uma meta grande. P/1 – E vocês estão em campanha, mas já deu o início com... R – Já deu o início. A gente tem um milhão e cem mil não totalmente pagos ainda, mas em , não sei como chama isso em português. Pessoas que se comprometeram a fazer a doação, a gente tem um milhão e cem mil dólares. P/1 – A ideia é continuar essa campanha? R – Eu acho que com certeza é continuar a campanha. Eu acho que só vai ser possível, eu não sei se isso devia fazer parte da memória da fundação _____________ que ainda não são totalmente discutidos com o , mas eu vou falar quais são os meus planos mesmo assim. P/1 – Eu acho que é sua visão pro futuro, né? R – Visão pro futuro. Não é uma ideia minha, é simplesmente o jeito que outras fundações que têm fazem. Principalmente fundações comunitárias. A Brazilfoundation tem o perfil, é muito parecida com uma fundação comunitária. É criar subfundos dentro do no nome de uma pessoa ou no nome de uma empresa. Eu quero encontrar no Brasil 20 ou 25 pessoas que me deem um milhão de reais. A pessoa não vai querer doar um milhão de reais e não saber o que vai ser feito com o dinheiro, e não ter nenhum reconhecimento por aquela doação. Então isso é assim que é feito lá por outras fundações que têm . Então eu criaria um subfundo no nem de um doador “senhor Fulano de Tal” e criar um fundo, que pode ser um fundo simplesmente com o nome dele ou da empresa dele, ou um fundo temático. Então o “Fundo José da Silva de Educação” com ênfase ou prioridade para que aquilo apoie um projeto de educação de jovens, segunda prioridade pra tal coisa. Ele pode escolher. Então se aquele um milhão de reais foram investidos, o rendimento financeiro, vamos supor que fosse 8% ao ano, seria 80 mil reais. Seria possível apoiar um projeto por um ano inteiro, não só incluindo o valor dado ao projeto, mas o custo de monitoramento, seleção, avaliação, capacitação que é importantíssimo, o valor agregado àquela doação. Então todo ano um projeto seria apoiado em nome desse doador. O doador receberia uma pasta com uma ficha desse projeto: “Esse ano o projeto doado com o Fundo José da Silva de Educação é este” tem a fotinha, uma descrição. Ele vai ser convidado a vir aqui no evento de entrega dos projetos, ele vai poder conhecer a pessoa, se ele quiser ele poderia visitar a pessoa. E todo ano, pra sempre, se o dinheiro for investido direito como deve ser, vai ter um projeto em nome dele doado... Então se a gente conseguir 20 pessoas que criem 20 subfundos ou empresas, é possível a gente dar e começar o ano com 20 projetos selecionados e qualquer outro recurso adicional que a gente arrecade serão mais projetos. Mas pelo menos 20, que é uma seleção mínima, a gente poderia ter. Realmente achar que um doador vai fazer uma doação desse tamanho e não vai querer receber nenhum feedback e nenhum reconhecimento é realmente... Não existe, eu acho, outro caminho. Ou a gente vai arrecadar doações pequenas que vão demorar muito pra gente conseguir chegar ao valor que a gente quer, ou a gente tem que fazer uma ponte melhor entre o doador e os projetos. E é uma forma do cara que for doar essa quantia ter um legado, legado dele que ele quer deixar para posteridade é que todo ano pra sempre vai ter um projeto apoiado em nome dele. P/1 – Isso já é o seu planejamento, essas ideias já estão... R - Não. Isso é uma meta minha. Mas não é ideia minha. P/1 - ___________________ de olhar pra fundação ___________... R – [Na verdade não é uma ideia minha porque isso é como é feito lá fora. Tem como New York Community Trust, que foi fundada pelos Rockefellers, pelos... Os principais filantropos quando fundaram esse New York Community Trust, era uma fundação comunitária que só apoia projetos de Nova Iorque. É como a Brazilfoundation, não tem os seus próprios projetos, apoia projetos de terceiros e tem subfundos no nome de pessoas que doaram. Esse subfundo apoia artes. Esse outro subfundo apoia tal coisa. E é assim que é feito lá. P/1 – Mas é um modelo que você mais ou menos tem a sua _____________ R – É um modelo. Outra coisa muito próxima de mim, meu marido estudou na Universidade da Pensilvânia, na escola de business de Wharton e como o chefe do meu marido é responsável pelo , pela arrecadação de recursos da universidade, obviamente que o chefe do meu marido foi lá convencer o meu marido a fazer uma doação pro fundo de bolsas da universidade. Então era um fundo, dentro do de bolsas teria um subfundo no nome do meu marido pra que todo ano um aluno tivesse um apoio financeiro na sua... É um nesse apoio. O meu marido falou assim: “Eu tenho que fazer uma doação desse valor” era um valor enorme “Só que eu posso pagar em cinco anos, mas o que você acha?”. Porque era um valor grande, ele foi me consultar, mas ele falou: “Eu não posso escolher o aluno que vai receber a bolsa todo ano, mas eu posso escolher o tipo de aluno”. Eu falei: “Então que seja um aluno brasileiro”. Então eu aceitei. Já estamos no terceiro ano que um aluno brasileiro ganha uma bolsa na Universidade de Wharton e como é que é feito? Vem a pastinha com a ficha, a foto do aluno, o currículo do aluno e uma carta do aluno agradecendo pela oportunidade daquela bolsa. Daí os organizadores da universidade fazem um coquetel onde os bolsistas, os alunos, vão conhecer as pessoas que estão dando a bolsa. Então foi... Desde a primeira vez que a gente foi conhecer o nosso aluno apoiado, que a gente não tem... Quem escolhe o aluno é a universidade, mas depois que ele é escolhido pelos méritos e pelos critérios da universidade a gente tem a oportunidade de conhecer. E tem sido uma experiência super recompensadora, a gente nem terminou de pagar ainda as parcelas da doação, mas pro doador é muito importante ele ter e saber o que é aquele dinheiro, a quem aquilo tá beneficiando. Então no caso da fundação é a mesma coisa. P/1 – É mais completo, né? R – Se a gente for pedir doações num nível grande desse porte, a gente tem que poder dar esse feedback pro doador. Então a ideia, o sonho é esse de fazer um fundo patrimonial mínimo. Não que a gente vá parar de fazer a arrecadação de dinheiro além disso, mas aí o que a gente conseguir por fora fica sendo a mais. P/1 – Eu vou encaminhando mais ou menos pra gente fechar, estou meio preocupada com o seu horário, eu queria que você pensasse desde que você conheceu o seu primeiro contato com a Brazilfoundation até hoje, além das suas mudanças, o que mudou também na fundação? O que você acha assim que... R - Eu acho que o que eu vejo principalmente que mudou demais foi o terceiro setor no Brasil. Eu acho que o terceiro setor evoluiu demais. Outra coisa que mudou muito foi a própria... P/1 - Mudou como? R – Eu acho que... P/1 – Você acha que tá mais organizado? Como foi? O que aconteceu? R – Eu acho que em tudo. Eu acho que o terceiro setor ficou mais profissional. Hoje quando a gente recebe propostas dos projetos eles sabem o que escrever, a gente recebe aquilo em versão digital, impresso em impressora, acho que nos primeiros anos vinha com escrito manuscrito. A tecnologia evoluiu, às vezes era difícil monitorar, acompanhar os projetos porque eles não tinham telefone celular, era difícil de achar. Acho que a tecnologia evoluiu. No começo, lá em Nova Iorque a gente queria saber informações sobre projetos e não vinha nada do Brasil. Cadê foto? Não tem foto. Cadê não sei o quê? E os projetos não tinham website, então a gente não podia olhar no website o projeto e ver o que ele tava fazendo. Hoje a maioria dos projetos tem site, muitos deles têm sites talvez até melhores do que o nosso. Eles têm blogs, os gestores de projeto têm Twitter. A gente os segue no Twitter. Então eu acho que uma parte foi a tecnologia que permitiu isso, mas é possível hoje estando lá dos Estados Unidos acompanhar, ver o que os projetos estão fazendo. Eu acho que o terceiro setor está mais profissionalizado, eu acho que evoluiu também a filantropia. Eu sei que muita gente não gosta dessa palavra, mas eu acho que ela existe e só tem a crescer. Os brasileiros antes faziam pequenas doações para causas imediatas, ou doar coisas pequenas: “Vou doar a minha geladeira. Vou doar as roupas que não uso mais. Vou fazer uma doação de 50 reais pra aquela creche”. E hoje em dia não. Eu acho que os brasileiros fazem investimentos na pessoa física. Não estou nem falando de empresas aqui no Brasil de portes muito maiores e não só simplesmente doar por doar, mas o doador de hoje quer participar, quer conhecer e talvez doar mais do que o seu dinheiro. Talvez poder contribuir com outros recursos que ele tenha pra determinados projetos. Então eu acho que a filantropia brasileira tem muito que evoluir, mas já mudou muito. Eu acho que existia também uma desconfiança muito grande com relação ao terceiro setor e hoje existem muitas organizações boas e sérias. Eu acho que um pouco daquela desconfiança já não existe tanto. E também em termos de planos para fundação, a fundação ainda é muito baseada em Nova Iorque e no Brasil e o que eu vejo acontecer nos próximos cinco, dez anos é que a fundação vai se tornar uma organização global, vai ter presença em outros países. Com certeza uma presença maior em outros estados dos Estados Unidos. Mas uma vez eu acho que hoje a comunicação e a tecnologia permitem que isso seja feito hoje, talvez há dez anos não fosse possível. O que mais que você gostaria que eu fechasse? P/1 – Quando você olha pra Brazilfoundation, o que você acha que é o diferencial dela das outras fundações, instituições? R – Eu acho que em tudo. Desde a primeira vez que eu conheci a Leona, ela me disse isso há oito, nove anos, eu acho que isso vale até hoje, ela me disse que o objetivo da Brazil Foundation eram três: um era construir uma comunidade de doadores que se importasse, quisesse doar e fazer o que pudesse fazer pra ajudar em termos de construir a comunidade. É uma coisa que a gente faz, sempre fez e até hoje faz e vai continuar fazendo, é um diferencial. E ela disse isso pra mim também no começo, as pessoas que estão em Nova Iorque é por um determinado período, estão aqui pra estudar ou pra um trabalho e vão voltar pro Brasil. Então ela queria que quando as pessoas voltassem pro Brasil, que elas continuassem apoiando. Isso aconteceu, enorme parte dos nossos doadores e voluntários voltando pra cá estão envolvidos com algum tipo de causa social como doadores ou voluntários. Então na verdade plantar uma semente na pessoa para que ela possa dar algo de si pra que tenha... Na construção de um mundo mais justo. A outra coisa que ela disse, todo mundo acha que a Brazil Foundation arrecada dinheiro para projetos sociais, mas então não é só arrecadar o dinheiro, mas sim construir a comunidade de pessoas interessadas em ajudar. A outra parte é garantir com que o dinheiro que essas pessoas estão investindo tenha impacto. Então como você garante isso? Só simplesmente dar o dinheiro para instituição não faz tanta coisa e não tem muito impacto. O diferencial é o apoio institucional. Como verificar que o dinheiro do doador está sendo bem empregado? Primeiro a gente nunca fez uma doação a uma instituição sem ter visitado. Depois além de ter visitado a gente acompanha o projeto durante um ano inteiro. Os recursos doados são dados em três parcelas. Então a segunda parcela só sai mediante relatórios, mediante resultados, enfim. Então a gente acompanha o desenvolvimento do projeto por um ano inteiro. E depois a outra parte importantíssima é o trabalho de capacitação. Então simplesmente você só dar, como a gente foca em organizações pequenas e médias, só dar o dinheiro não é... E mesmo acompanhar, às vezes as instituições não têm as ferramentas necessárias pra conseguirem implementar o projeto que eles se propuserem. Então a gente descobriu isso no começo, que só dar o dinheiro não era suficiente. Então o trabalho de capacitação dos projetos que evoluiu muito nesses anos é a combinação de tudo. É a capacitação que dá as ferramentas necessárias pros projetos, é o acompanhamento e a parceria. Na verdade a fundação não está simplesmente doando. A fundação é parceira da instituição na implementação do projeto. Então eu acho que o diferencial é esse: o doador tem a segurança de que o dinheiro que ele tá doando está sendo muito bem acompanhado de perto e que o impacto daquilo vai ser medido e acompanhado. Então eu acho que os diferenciais da fundação são esses. Mais a última coisa que eu queria falar, recentemente quando eu assumi a posição de CO na fundação eu perguntei pra Leona. Porque a fundação é ideia dela, é o legado dela, eu to lá fazendo o meu trabalho, mas a visão sempre foi dela. Eu falei: “Leona, qual é a sua visão? Qual é a visão da Brazilfoundation?”. Daí ela falou assim, era em inglês, ela disse: “A Brazil de opportunity for all”. É um Brasil com oportunidade para todos. E essa é a visão... Ela não hesitou pra falar. Eu perguntei: “Leona, qual é a sua visão?” “Um Brasil com oportunidade para todos”. Eu acho que essa é a visão que a gente tem que ter pelos próximos cinco ou dez, é isso que tem que guiar o que a gente vai fazer. A gente pode adaptar a capacitação, o modelo de apoio, a gente pode mudar a forma de arrecadação, arrecadar de um jeito, mas o objetivo e o nosso guia eu acho que é gerar oportunidade para todos. P/1 – Eu queria também voltar um pedacinho pessoal, a gente comentou dos seus filhos, mas você acabou ________ dos filhos. Você _______________ R - [Tenho dois filhos, são gêmeos. P/1 – Ah, você teve gêmeos? R – Gêmeos. Antônio e Leonardo. Nasceram no dia 16 de junho de 2005. Quase morri no parto. Então eu tenho a visão de que... Eu não sei se eu vou chegar aos 70 como a Leona, como a Suzane, eu não sei se... E as duas estão nos 70 cheias de energia. Eu acho que a vida é curta, eu não sei quanto tempo eu vou ter, mas eu já tive cara a cara com a morte. Na primeira vez não aconteceu nada, mas na segunda vez eu quase fui. A vida é curta e o que a gente pode fazer, a gente tem que fazer agora. Não tem que: “Ah, daqui a dez anos ou daqui a cinco anos...”. O que eu pretendo é eu fazer o que eu puder, da forma que eu puder, agora e pro futuro... Enfim. P/1 – Imagina. Mas você me disse o nome dos gêmeos? R – Antônio e Leonardo. P/1 – Antônio e Leonardo. Estão com seis aninhos. R – Fizeram seis. P/1 – Eu queria saber se tem alguma coisa a mais que você gostaria de deixar registrado. Como eu tava falando, teria muito mais coisa, mas pra respeitar o seu horário... Eu queria saber se você gostaria de deixar algo mais registrado. R – Eu espero que... Tem muitas pessoas que contribuíram pra trajetória da Brazil Foundation que poucas pessoas até conhecem. Tem várias pessoas que eu gostaria de sugerir que fossem entrevistadas. Eu acho que aqui no Brasil as pessoas não têm noção dos sacrifícios até pessoais que pessoas fizeram lá pra ajudar a construir a fundação. Tem pessoas que como eu disse apoiam a gente faz oito anos e que ninguém aqui sabe quem é. Enfim, eu acho que esse processo de resgate da memória institucional vai ser muito importante. Ter informação dos projetos, entender melhor a trajetória deles e ter esse tipo de acesso a informação que a gente nunca teve, eu acho que é um momento espetacular. A ideia do Museu da Pessoa estar envolvido com a metodologia, eu acho que no começo eu fiquei assim, falei: “Nossa, Susane, a gente vai focar seus resgates da memória?”. Eu não tinha entendido o propósito. Não tem como a gente entender a nossa trajetória e avaliar os resultados sem ter passado por esse processo. Eu acho que a pausa pra reflexão é muito importante. Eu to louca pra ter mais informações das pessoas que vão ser entrevistadas aqui, as pessoas que desenvolveram a metodologia. Enfim, quero conhecer mais sobre a história das pessoas que trabalham aqui hoje, o envolvimento delas. Eu acho que tem muitas oportunidades e acho que... P/1 – Eu queria agradecer a sua entrevista. Eu fico com pena de não ter mais tempo. R – Obrigada, Márcia.

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