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História

Misticismo, natureza e história

História de: Vanessa Maria Soares Lopes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/10/2013

Sinopse

Infância imersa em misticismo, religião e superstição. Lembranças do racismo vivenciada pela família. Falta de desejo de frequentar a escola e a incentivação dos colegas de classe. Definição de pastorinhas e seu papel na cidade. Início e fim da Ancita, uma organização de moradores que foi trocado por serviços terceirizados. Uma explicação sobre as atividades oferecidas pelo parque, entre elas, uma travessia noturna sob a lua cheia. Manifestação cultural e religiosa: o congado.

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História completa

P/1 – Bom, só pra identificação, qual que é o seu nome, o local e a data do seu nascimento?


R – Meu nome?


P/1 – Seu nome completo, o local e a data de nascimento.


R – Meu nome é Vanessa Maria Soares Lopes, o nome de casada, nasci dia 21 de janeiro de 1984, moro em Quinta do Sumidouro.


P/1 – Nascida em Quinta do Sumidouro?


R – Nascida em Quinta do Sumidouro.


P/1 – Maravilha, Vanessa, antes de começar falando você mesma eu queria conversar um pouco sobre a sua família, suas raízes, você conheceu seus avós, você conhece a história da sua família?


R – Os pais da minha mãe eram nascidos, né, meu avô e minha avó, casados, moravam num local que era chamado de Fazenda da Fortuna, próximo de, um pouco pra lá de Baldim, a gente tem, próximo aqui da região também, e lá nessa fazenda minha mãe era filha única, né, dos meus avós, ela contava muitas coisas, muitos casos, da vivência deles lá, inclusive depois que eles vieram, que ela casou com meu pai mesmo eles falavam, começavam a cafifar ela que era Fazenda da Fortuna porque lá tinha muita fortuna. E aí a criação dela lá foi uma criação bem escassa, não tinha muita coisa, a minha mãe mesmo, ela não sabe nem ler e nem escrever, né, então a gente que às vezes ensina pra ela as coisas lá em casa, a gente até incentivou ela a estudar uma vez, ela não quis, não quis estudar. E os meus avós, pais da minha mãe, eu convivi com eles muito tempo, inclusive eu gostava muito da minha avó, a mãe da minha mãe, a gente passava muito tempo com ela lá, ela trançava o meu cabelo, inclusive ela passava uma baba de quiabo que ela fazia lá pra trançar o cabelo, né, que o cabelo era muito ruim, né, então a gente tinha que, vivia com o cabelo trançado, né. E aí ela pegava um pedaço de corda lá, de umas tiras de pano e fazia a gente sentar no chão, ela sentava e aquilo ela ia penteando o cabelo da gente e trançando o cabelo, se a gente mexesse ela dava uma pentada na cabeça da gente, minha avó era assim, mesmo assim eu gostava muito dela. Meu avô era, já era um pouco, assim, reservado, gostava de comer uma carninha, um torresminho com café, sempre que, na época que ele plantava, que ele morava no fundo do quintal lá de casa e a casa dele era feita de adobe e pau a pique que a gente mesmo tinha feito na época, né, foi até uma brincadeira, a gente brincando lá e fazendo a casa dele. E aí ele plantava alface, né, e andu, feijão andu, aí quando tinha minha avó cozinhava o feijão andu e a gente comia, né, o feijão de uma farofa de feijão andu com quiabo ou a gente, minha avó fazia fubá suado e ele fritava, minha avó fritava o bife de carne de porco e a gente comia o fubá suado com carne de porco e a salada de alface, aí era muito bom nessa época. Aí, mas minha avó, mãe do meu pai, e meu avô, pai do meu pai, o pai eu não cheguei a conhecer, não, o pai do meu pai morreu quando ele tinha 12 anos, já minha avó já era mais reservada, mais sistemática, ela era benzedeira, parteira também, chamava Dona Isaura. Os pais da minha mãe chamavam Perila, Senhora Perila e Seu Antônio Gonçalves Coelho, a gente costumava chamar ele assim, e minha avó Isaura conhecida por todo mundo que mora aqui na região, ela foi parteira na época e vinha gente até mesmo de São Paulo pra benzer com ela aqui. Então uma benzeção que ela tinha que não passou pra ninguém, né, em vida, então ninguém sabe o método que ela tinha de fazer uma benzeção no joelho, as pessoas que tinham problema no joelho, né, então costurar o joelho com novelo de linha, aí chegava lá com o joelho quebrado e ela ia costurando, de repente a pessoa saía de lá andando, ou chegava no outro dia o pessoal vinha pra agradecer que o joelho tinha sido curado. E a benzeção de sol na cabeça, colocava um pano branco na cabeça da pessoa, virava um vidrinho, né, de vidro cheio d’água em cima da cabeça da pessoa e ia benzendo, aí nisso ia subindo aquelas bolhas assim na água e aí terminando ela virava assim com o pano o vidro e jogava a água ao redor da pessoa, isso benzendo de sol na cabeça. Mas a minha avó era mais quieta, ela não era muito de conversa, inclusive quando a gente ia pra igreja, a gente chegava lá ela dava beliscão na gente, a gente não podia ficar falando dentro da igreja, então ela dava cada beliscão na gente que dava pra deixar um sinalzinho.


P/1 – Mas essas histórias, por exemplo, você acompanhou, você chegou a ver ela fazendo essa...?


R – Sim, sim, muitas vezes, até mesmo às vezes eu ficava, quando eu tava pequena, e eu ficava curiosa porque que ela ficava costurando aquilo no joelho das pessoas lá, ou que ela ficava benzendo com aqueles negócio na cabeça, colocando aquele vidro com água na cabeça, aí a gente perguntava pra ela, ela não respondia, não, ela: “Não, não é nada, não, menina”.


P/1 – Vocês perguntavam com quem que ela aprendeu, por exemplo?


R – Então, minha tia contava, né, que tinha, a gente tinha pessoas na nossa família que eram escravos, né, inclusive eu acho que a avó dela no caso era escrava, então elas aprenderam muita coisa, né, aí a gente fala que teve regiões que tinha quilombo, minha avó era escrava numa fazenda que tinha do outro lado do Rio das Velhas, né, então acho que ela pode ter pegado isso dos avós dela mesmo, né, não só ela, na época tinha outras pessoas, mas as pessoas recorriam mais a ela, que ela tinha mais conhecimento disso.


P/1 – Entendi, tinha outras pessoas na cidade que você se lembra que também eram parteira, benzedeira?


R – Sim, tinha.


P/1 – Ou homens também?


R – Tinha, tinha até o meu padrinho mesmo, que ele chamava Antônio da Viga, já falecido também, ele era muito conhecedor também disso, muitas pessoas iam lá benzer, inclusive a morte dele foi, tem um mistério, ninguém sabe dizer, que ele era uma pessoa muito saudável, de repente adoeceu e faleceu rapidamente, e ele era meu padrinho de batismo. Eu lembro que um dia eu tava grávida do meu menino e eu cheguei lá pra benzer e aí ele simplesmente falou assim: “Olha, quando o seu menino crescer nunca fale pra ele que ele foi gerado de costas”, aí eu nunca entendi, falei assim: “Mas nunca falar pra ele que ele foi gerado de costas?”, “Não, um dia você vai entender”, até hoje eu não entendi muita coisa, não, mas quem sabe mais tarde eu vou entender isso. E sempre, eu já fui festeira uma vez que era festa de todos os santos aqui, que eu era festeira de São Sebastião, aí na semana da festa eu fui lá benzer também, aí eu cheguei lá e ele falou assim: “Ó, seja bem vinda, São Sebastião tá do seu lado”, aí eu falei assim: “Nossa”, aí ele falou assim: “É, enquanto você tiver nessa festa ele vai ficar do seu lado”. Aí ele benzia e os dizeres lá que ele fazia, alguns dizeres ele falava em voz alta, outros não, e sempre com um terço ou um rosário na mão pra benzer, ou com um ramo de algum tipo de folha, como a gente tem a folha, não tô me lembrando agora, mas tem algumas ervas que eram utilizadas, né, o alecrim da horta, alecrim do campo, guiné, folha de arruda era muito utilizado pra eles benzer com esse tipo de folha.


P/1 – Você não aprendeu?


R – Não.


P/1 – Nada?


R – Não, eu só aprendi só uma que a gente, isso ela sempre passava, que a gente tava íngua na perna, às vezes a gente dava uma íngua, o pessoal, eu não sei se você já ouviu falar disso, né, íngua, é um inchaço que dá na coxa, né, bem nas virilha mesmo, fica, vai inchando e quando você anda fica repuxando, chama íngua. Aí minha avó, essa avó Isaura, ensinou pra gente assim: “Não, então vou fazer uma simpatia que vai acabar com isso, pé no pilão, íngua na mão, fui em Roma e voltei são”, aí desse jeito a gente fazia, pé no pilão, aqueles pilãozinho que usa pra socar, pra fazer fubá, pra fazer cocada, que a gente utilizava, então a gente punha lá o pé no pilão e falava os dizeres aí de repente saía, sumia. E outra coisa era cobreiro, né, eles pegavam lá no fogão de lenha que a gente tinha, pegava o fogão lá, a cinza, espalhava num lugar assim e a gente colocava o pé, né, aí: “Corte. Corte o quê? Cobreiro, rabo, meio, cabeça, fora”, aí a gente ia, passava a faca no pé, no formato que tava seu pé, ia fazendo os cortes, os quadradinhos, aí fazia isso, depois você ia lá, passava a cinza de novo e colocava o pé e fazia a mesma coisa, pra tirar aquele cobreiro, cobreiro de aranha. Essas coisas simples assim que ela ensinava pra gente na época ou então se algum bichinho, né, picasse a gente, tipo aranha: “Ah, corta batata e coloca lá no lugar onde foi picado”, tinha muito costume disso também, eu não sabia se melhorava, mas a gente colocava.


P/1 – Você faz isso até hoje?


R – Ah, eu não faço, não [risos].


P/1 – Ah, é, por que, o que aconteceu?


R – Ah, é que antes a gente tinha uma, um pensamento assim daquela superstição, a superstição da minha avó era a minha superstição, então se ela falava que acontecia a gente tinha medo, né, então a gente fazia, hoje não, se fala, se tem uma picada de um bicho, não, vou lá na farmácia e compro o remédio, tomo um Fenergan, alguma coisa do tipo, não é, e assim, mas hoje a gente tem outros pensamentos. A criação da gente foi muito, muito focada nessa parte de superstições, a minha tia mesmo, a irmão do meu pai, ela sempre falava com a gente assim: “Olha, quando você for namorar não deixa o homem pegar na sua mão, não, porque se ele pegar na sua mão ele pega o corpo inteiro”, aí ela falava assim pra gente, né: “Se ele sentar num lugar não senta, não, senta não que você vai ficar grávida”. Isso é muita coisa era falado essa época, né, e a gente foi crescendo com aquele pensamento, até chegar o ponto, a gente mais velha, a gente: “Ah, não é nada disso”, é tantas coisas que a gente passa quando a gente, com os pais da gente nessas épocas aí, que hoje a gente, se a gente for olhar, se as adolescentes de hoje for passar por isso elas não dá conta, não [risos].


P/1 – Me fala, essa questão dessa superstição, ela era uma coisa que era presente geral, era só na sua família ou era todo mundo tinha, seus vizinhos, seus amigos, era uma coisa da cidade?


R – Olha, das pessoas que moram há mais tempo todo mundo tinha superstição, todo mundo, inclusive tá chovendo, por exemplo, tá caindo aquele tanto de raio, relampejando, você não sai na rua, não pode sair na rua, esconde as unhas porque as unhas pode atrair o raio, né, fecha a boca, não pode ficar conversando porque senão você atrai o raio, não fica aí na frente do espelho, não, que senão você atrai o raio, isso era a minha avó, o meu pai lá em casa também a mesma coisa, então não podia conversar, até conversar também atraia os raios. Era essa superstição e muitas, né, às vezes você acaba de jantar, por exemplo, aí depois de umas meia hora você queria comer de novo, você não podia porque se você remontasse a comida você ia vomitar, isso era superstição, não acontecia isso [risos], mas eles, na visão deles, né, e sempre assim [risos]. Mas a gente seguia esses aprendizados que eles passavam pra gente, num ponto era até bom porque a gente vê que muita coisa tem muito a ver com o que a gente estuda hoje, muita coisa que eles ensinaram pra gente, antes a gente achava que era: “Ah, isso não acontece, isso não é verdade”, mas com certeza acontece sim, algumas coisas [risos].


P/1 – Algumas coisas estranhas existem, né?


R – É, algumas coisas têm sentido que eles falam, têm sentido.


P/1 – Me fala uma coisa, me fala um pouco dos seus pais, seus avós, né, você falou um pouco da sua família, e os seus pais, o seu pai, por exemplo.


R – Ah, meu pai, ele é mais rígido.


P/1 – Veio daqui também, nasceu aqui?


R – Meu pai é nascido aqui, ele nasceu praticamente lá numa fazenda lá do outro lado do rio, numa casinha que não é essa que a gente mora hoje, mas uma outra casinha, a casinha onde eu moro hoje é a casa que era da minha avó, que é feita de adobe e pau a pique, e aí meu avô sempre também eles contam, né, eu não conheci, mas eles falam que ele também era bem rígido. Meu pai, ele trabalha com... levando coisas pro Ceasa, tipo verdura, jiló, quiabo, a gente, desde pequeno a gente trabalhou na roça com meu pai, até que eu fui começar depois de mais velha, mas os meus irmãos todos eles desde novinho já trabalhava na roça, eu tenho mais duas irmãs, né, e dois irmãos, são cinco no total, que a gente tem, se tivesse todo mundo aí vivo seriam uns nove, né, que a gente, todo mundo. Mas nós sempre, né, sempre acompanhou o meu pai na época da roça, levantava muito cedo, tipo às seis horas da manhã, cinco horas da manhã mamãe já tava com a comida pronta, já pra sair pra roça, aí meus irmãos levantava, né, arrumava ali a marmita e ia pra roça, e meu pai plantava quatro mil pé de jiló, cinco mil pé de berinjela e assim também de quiabo. E aí eles de manhã cedo saíam, todo mundo, meus irmãos, minhas irmãs e ia, chegava lá, ficava o dia inteiro, ficava da cintura pra baixo com o corpo molhado, até umas duas horas da tarde, aí quando dava umas quatro horas, cinco horas eles estavam chegando em casa, e assim, todo dia a mesma coisa e foi indo. Que na época da escola mesmo eu lembro que a minha mãe montou, tinha um pacote de arroz e aí ela montou tipo de um bornal pro meu irmão levar os cadernos, né, pra escola, aí ele pega, coloca os cadernos dentro desse bornal e vai pra escola, né, e eles iam a pé e era lá em Fidalgo, bem longe, né. Aí nessa época eles chegaram até o ponto de desistir, eles não quiseram mais estudar, muitos deles foram estudar só até a quinta série, meu irmão mais novo, ele estudou até o sétimo ano, né, a sétima série, aí depois também não quis continuar, ficou mais trabalhando mesmo. E aí era, assim, na visão nossa era muito sofrimento, né, ainda mais a gente achava, igual, era um aprendizado que a gente tinha de esforço, a gente aprendeu muita coisa, igual, plantar, essas coisas, a gente sabe muito, entende muito disso, que o meu pai passou pra gente, e eu também, depois que eu já fiquei mais velha, aí já fui ajudando ele também na roça. Inclusive tem até um fato ocorrido na época que eu plantava pé de jiló, aí tinha que colocar adubo perto do pé e aí tinha que ter uma distância de um metro, né, de palmo ali e eu colocava sempre perto, aí no outro dia chegava lá os pés de jiló tava tudo morto, né, eu matei os pés de jiló todos, aí ele xingava, xingava e partia pra cima, batia mesmo porque matei os pés de jiló dele tudo. E, assim, e nunca tive raiva do meu pai, ele já fez muitas coisas com a gente, eu nunca tive raiva porque eu acho que o que ele passa pra gente é ensinamento, que o que a gente já passou lá em casa, eu e meus irmãos, até mesmo a minha mãe, né, se fosse um adolescente de hoje em dia ele não passaria. Igual hoje, o meu filho, eu não faço isso com ele, o que eu passei eu não faço igual, que eu acho que eu não devo, que a vivência dele hoje é diferente, se eu for passar isso pra ele, ele vai [risos], vai me crucificar, vai querer ir embora [risos], ele não vai querer ficar lá em casa, não, e aí era muito, assim, era muito trabalho, né, eu fui a única lá em casa que continuou os estudos, que formei o ensino médio, né.


P/1 – Mas me conta como foi, porque também era longe, né, era o mesmo problema.


R – Era.


P/1 – Como que isso foi se resolvendo, por exemplo?


R – Então, na época dos meus irmãos não tinha ônibus, então eles iam a pé, na minha época aí já começou a ter, né, um ônibus que levava, pegava a gente na praça lá da Quinta e levava pra Fidalgo, aí já tinha já esse ônibus, e aí, é sempre assim, e muitas coisas aconteciam, né, que desanimaram os meus irmãos na época, principalmente uma vez que a diretora daqui da região [risos], um fato ocorrido, inclusive o meu irmão tem 36 anos e tem gente aí que tem mais de 40 é a mesma diretora, ela não saiu até hoje [risos], já tem muito tempo. E aí lá teve um fato que ocorreu que meus irmãos nunca tinha presenciado isso, uma coisa tipo discriminando assim eles lá, que na época o meu pai não tinha tanta condição de comprar as coisas pra gente, então roupa, sapato, caderno, inclusive as roupas lá em casa era dividida, né, então se ganhava uma roupa a gente dividia entre a gente, minha irmã mesmo quando ganhou um tênis, nossa, ela chorou quando alguém pisou no pé dela, ela ficou chorando demais, que era um tênis branco, né, e ela, foi o único tênis que ela tinha ganhado. E meu pai não tinha condição, já teve vezes do meu pai deixar de comer pra gente comer, né, isso naquela época era muito difícil, e aí, um fato lá na escola que ele não tinha, meu irmão não tinha lápis e não tinha caderno e faltava um lápis e um caderno e aí ele pediu pra diretora, a diretora não quis dar, falou que não tinha, não tinha nenhum, aí foi um que já tinha uma classe mais alta, foi pedir pra ela e ela deu. Aí ele ficou horrorizado, ficou achando assim, um absurdo, né: “Mas será que é por causa da minha cor de pele?”, ele chegou lá em casa, até chorou na época, mas aí a gente passa, eles nada, eu não deixo isso acontecer, que eu já tive fatos de pessoas discriminarem a gente, até mesmo no meu trabalho atual.


P/1 – Mesmo aqui?


R – Mesmo aqui, e assim, a gente, eu chego, bola pra frente, faço de conta que nem aconteceu, aquele ali é um pobre coitado, sabe, né, não sabendo que a raça dele é a mesma da minha.


P/1 – A gente pode retomar isso, mas antes eu queria falar um pouco dessa escola, porque você ia estudar e voltava pra trabalhar depois?


R – Não, a gente...


P/1 – Ou você só ficou estudando e o pessoal da sua família continuou trabalhando, como foi a sua, eu queria saber um pouco dessa sua infância, assim, como foi esse período?


R – Então, quando eu fiquei mais, assim, no ponto, eu tava com uns 13, 14 anos, teve uma, eu estudava, né, no caso eu estudava à noite, né, então durante o dia eu trabalhava com o meu pai, né, na roça, aí à tarde eu chegava, arrumava e ia, né, pra escola, isso rapidinho, que naquela época também nós não tinha banheiro, então imagina cinco pessoas lá em casa, tomar banho na bacia, não tinha banheiro, tinha o banheiro que era do lado de fora, estilo uma latrina, lá no fundo do quintal. Então se a gente quisesse ir no banheiro de noite todo mundo, tinha que acordar todo mundo pra ir de noite lá no banheiro, e quando ia tomar banho, era fogão de lenha, a gente esquentava uma água no fogão de lenha, tinha que esperar um por um tomar banho, jogar a água fora, depois colocar água pra tomar banho na bacia. Era até bom tomar banho na bacia [risos], mas a bacia era pequena, mais ou menos desse tamanho assim, aí a gente foi crescendo, a gente não foi cabendo mais na bacia, né, os meus irmãos, o meu irmão pequeno ainda cabia, a gente ficava só com a parte, a gente falava que ia tomar banho de assento porque o restante deixa sem tomar banho, sem lavar [risos]. E nessa época foi assim, era trabalhar durante o dia e estudava à noite, mas minhas irmãs mesmo, quando ela parou de estudar foi só começando a trabalhar em casa de família, elas trabalhavam de dona de casa, né. Minha irmã do meio mesmo, que ela chama Valeriana, a gente chama ela de Chica, ela trabalhava numa casa lá em Pedro Leopoldo, cuidando do senhor lá, trabalhou lá muitos anos, né, e lá ela cuidava desse senhor, tinha a filha desse senhor lá que não gostava muito dela na época. Minha irmã Ângela também, que é a minha irmã mais velha, trabalhava aqui na casa de uma dona também, né, na casa de família, desde pequena também, desde nova também trabalhando na casa de família e meus irmãos, eles sempre ajudaram o meu pai, né, exceto o meu irmão mais novo, que só depois que ele foi passar a trabalhar com o meu pai, né. Mas o meu irmão mais velho, quando ele passou a largar, né, parar de trabalhar com o meu pai pra seguir uma outra função que ganhasse mais, aí eu comecei a ajudar meu pai, aí apanhava abacate, a gente apanhava, ia pra roça, a gente apanhava várias coisas. E aí teve um fato, que a gente já tava mais velho, né, todo mundo, que a gente também apanhava manga pra levar pro Ceasa e, assim, ia todo mundo, era os quatro irmãos e nós ia apanhar, os mais velhos, né, aí o meu pai tinha uma lona amarela que a gente ia pra um lugar cheio de manga e, assim, o papai subia no pé de manga e nós lá embaixo com a lona, a lona quadrada, então dava quatro pontas, cada ponta pra cada irmão, então ficava cada um, nós pegava a ponta, virava nas costas, esticava a lona, aí o meu pai balançava ali o pé de manga e caía às manga lá dentro da lona, pra não estragar a manga. Aí ele parava de balançar, a gente descia a lona, colocava as mangas dentro da caixa e aí ia arrastando ela pro canto, depois a gente pegava a lona de novo, ele balançava e caía as mangas dentro da lona e assim a gente colocava na caixa e seguia, e fazia assim, teve vários lugares que a gente já foi que, de meter medo.


P/1 – Você ia também?


R – Ia, e o meu pai tinha uma caminhonete que o meu pai era fera, feroz na caminhonete, ele pegava ela, ele corria demais da conta, a gente foi parar em grotas, aquilo era marimbondo, a gente tomava pregada de marimbondo e voltava com a boca toda inchada, com o olho inchado, quando a gente ia apanhar manga. E, assim, é o lugar onde era chamada de, tinha um lugar que chamava João Belo, que ele plantou e tinha um lugar que chamava Monjolo, que é bem aqui, próximo de um lugar que chama Bebedouro, aí nisso ele balançava os pés de manga pra gente pegar manga, só que o lugar era inclinado, então a manga ia toda pra baixo, descia tudo, e lá embaixo tinha um córrego, aí as mangas ia tudo pra dentro do córrego, então a gente entrava dentro do córrego pra pegar as mangas pra por na caixa e levar, subir esse morro até lá em cima com as mangas na caixa. E meu pai sempre fazia isso, a gente enchia as caixa e ele que levava as caixa cheia de manga até lá em cima e era longe, e ele, a gente falava: “Não, pai, o senhor vai machucar”, “Não, eu sou muito eu ainda, né, eu sou muito eu, eu aguento, eu sou muito eu ainda”.


P/1 – E depois pra ir vender vocês também iam, a família toda?


R – Não, aí já ia só meu pai.


P/1 – Ia pra feira, ia pro Ceasa também, não?


R – Ele levava pro Ceasa, mas aí só ia o meu pai, só ele, aí ia pro caminhão, arrumava um saco, era um saco, colocava coberta, colchonete, e aí ele ia lá pro Ceasa, daí ia na terça e ficava na quarta o dia todo, à noite ele voltava, aí a noite que ele chegava já era festa, né, que ia trazer muita coisa, né, dinheiro, aí ia trazer legume, batata, tomate, aí era uma beleza, e toda vez era assim.


P/1 – Quer dizer então que toda quarta à noite vocês tinham festa, é isso?


R – [risos] Exatamente, a gente tinha aquela festa, assim, bem reservada, não podia fazer muito barulho, não, que papai não gostava muito de barulho.


P/1 – Vanessa, me conta uma coisa, como é que você conseguiu manter os estudos até o final, como que isso foi possível, você se interessou, você teve professor que te ajudou, você gostava de ir na escola, o que foi?


R – Ah, eu gostava de ir na escola, mas tinha vezes que não dava vontade, não, que chegava muito cansada, às vezes a gente chegava, um sol quente danado, chegava até com o rosto ardendo de tanto ficar no sol, às vezes não dava vontade de ir, não, mas eu ia, aí, assim, os colegas ficavam falando pra mim continuar, aí fui continuando, estudando por mim mesma. Às vezes tinha coisa que eu não sabia e eu perguntava pro meu pai, ele respondia pra mim algumas coisa, né, que eu achava que ele tinha, pelo tempo, que ele estudou até a quarta série, o meu pai, mas ele sabia coisa que eu tava na oitava série e tava estudando, então muitas coisas ele também me ajudava, mas eu por impulso meu mesmo, que se eu fosse deixar pelo cansaço eu tinha desistido igual meus irmãos, que era muito cansativo.


P/1 – Sua família, assim, apoiou ou queria você trabalhando mais?


R – Não, apoiou, mas sempre assim, ajudando em casa e estudando também, né, e sempre assim, mas eu acho que naquela época também a gente não tinha muita coisa, que o desejo dos meus irmãos mesmo era de comprar alguma coisa, meu pai não tinha condição de comprar, um armário, por exemplo, a gente não tinha um armário, a gente tinha uma prateleira. Nós não tínhamos televisão, né, igual o povo, outras pessoas tinham na época, né, aí comprou uma televisão preta e branca, que numa, num dia que a gente tava assistindo um filme lá em casa ela queimou [risos], a gente teve que comprar outra, aí minha irmã comprou uma melhorzinha, a cores. E assim, foi mais aquele desejo de querer comprar as coisas pra minha mãe, né, que a minha mãe cozinhava no fogão de lenha, né, era cansativo, tinha que levantar de manhã cedo, pegar lenha, acender o fogo, esquentar água pra depois fazer o café, fazer a comida, acho que o desejo dos meus irmãos mesmo era mais esse, de ter dinheiro pra comprar as coisas pra casa e foi eles mesmo, minha irmã mesmo é a primeira que deu um armário pra minha mãe, né, inclusive o armário tá lá em casa até hoje, tem anos que tá o armário lá.


P/1 – Você lembra desse dia?


R – Lembro.


P/1 – Como foi?


R – Ah, eles trouxeram o armário, foi uma felicidade, a minha mãe adorou, aí nós fomos montar o armário, aí ele, a gente colocou ele assim e falou: “Não, tá faltando alguma coisa, tem que ter um pé”, aí a gente foi colocar o pezinho no armário, ficou lá, limpava todo dia, de tarde ela arrumava toda a cozinha, aí a gente falou: “Então nós vamos ter que tirar o fogão de lenha, senão vai ficar todo preto o armário, né. Mas tirar o fogão de lenha, onde é que vai cozinhar? Tem que comprar um fogão”. Aí de repente minha irmã vai e compra um fogão pra ela, fogão de seis bocas, durou um tempão também, só foi trocar depois que já tava todo arregaçado, já, a chama, o fogo já tava saindo pro lado assim da chaminha, mas eu acho que o mais daquela época foi esse desejo delas de ter.


P/1 – Vocês todos moravam juntos, na mesma casa?


R – Na mesma casa.


P/1 – Seus irmãos todos?


R – Todos.


P/1 – Mesmo esses que foram trabalhando pra fora?


R – Era uma casa, lá em casa.


P/1 – Como que era? Descreve pra gente essa casa.


R – A casa, uma varandinha pequena, que a gente chama de alpendre, o alpendre com a sala e dois quartos, o quarto da minha mãe e do meu pai e o quarto que era pro cinco irmãos, né, então eu dormia com a minha irmã, meu irmão dormia com a minha outra irmã e tinha uma outra cama, era tudo embolado, tudo embolado dentro do quarto, e nesse quarto mesmo a gente tomava banho também, tudo lá, tudo amontoado. Aí tinha um guarda-roupa velho lá de sucupira, que ficava no quarto da minha mãe, então todas as roupas de nós tudo ficava dentro do guarda-roupa da minha mãe, era uma bagunça [risos], uma bagunça mesmo, e aí depois, que hoje tem um banheiro, tem outro quarto, meu irmão fez outro quarto, puxou um quarto lá também.


P/1 – Mas é o mesmo lugar?


R – É o mesmo lugar.


P/1 – Aonde que é, qual que é o endereço, qual que é a casa?


R – Ah, fica lá na Rua Nossa Senhora das Dores, número 72.


P/1 – Número 72, desde muito tempo, é isso?


R – Desde muito tempo, a casa tá lá, só tem um aumentado assim pro fundo, mas a frente continua a mesma coisa, não mudou nada.


P/1 – Entendi, e a cidade em si, lembrando, assim, quando você era criança, mudou muito do que é hoje?


R – Olha, a cidade em si mudou pra caramba, desde a época aí dos meus irmãos mesmo, era estrada de chão, né, cascalho, aí depois que foi ali asfaltando, né, igual tá lá hoje, o salão paroquial fica do lado lá da casa da minha mãe, o salão da igreja, não tinha nada daquilo, foi construído, tem algumas casas lá também que não tinha. E o crescimento, assim, antigamente a gente tinha um estilo de vida, um jeito, né, então a população tá crescendo tanto, tá vindo tanta gente que é de fora e não tão procurando saber como que a gente vive, como que é a história do lugar. Que antigamente a gente podia sair de casa, deixar a casa aberta, a gente saía de casa: “Ó, dá uma olhada aí pra mim que eu to saindo”, aí chegava tava tudo lá, hoje se a gente sair e deixar tudo aberto chega em casa não tem nada [risos], saiu tudo, já roubou tudo, então hoje tem que ficar de olho, então mudou muita coisa de lá até hoje.


P/1 – Eu vou perguntar mais sobre isso, mas vamos pensar então naquela cidade do passado, né, tinha aquelas figuras da cidade, aqueles personagens, como, por exemplo, a sua avó, né, que era, enfim, tinha uns personagens típicos assim, bem característicos da cidade, conhecidos ou aquele político, ou mesmo, enfim, padre, ou, sabe, ou o professor ou, tinha, você lembra disso, ou mesmo aquele morador de rua ou?


R – Se ainda tem?


P/1 – Não, daquele período.


R – Daquele período?


P/1 – Você lembra daquela época, se tinha esses personagens?


R – Olha, eu sou um pouco mais nova, né, mas já tinha sim, tinha, uma leve lembrança assim, dá pra lembrar sim de alguns que já tinha sim.


P/1 – De quem, por exemplo?


R – Ah, acho que mais a minha avó, tinha o, como é que ele chama? O Zé Afonso, tinha, a gente chama de, eu não vou lembrar o nome dela aqui, eu tava muito pequena, tinha a Dona Geordita, que era uma senhorinha que é mãe de uma dona, vizinha lá de casa também, que ela chama Dona Eva, essas pessoas dá pra lembrar.


P/1 – Eram seus vizinhos?


R – É, Dona Geordita morava na Quinta, morou um pouco mais distante, mas tinha o Zé Afonso que mora lá perto de casa, é vizinho lá.


P/1 – Por que você pensou nessas pessoas?


R – Ah, eu não sei [risos], acho que é o que veio agora, assim, de lembrança mesmo, que ela, essa Dona Geordita mesmo, ela é uma das integrantes das pastorinhas, né, na época que existia as pastorinhas aqui, essa época eu nem sei contar muito direitinho pra você, não, porque era bem pra trás.


P/1 – Eu também não sei o que é, o que é as pastorinhas?


R – Pastorinhas era um grupo de senhoras, se vestiam do mesmo jeito, os vestidos eram do mesmo jeito, o canto delas com flores na cabeça, eram, não sei te falar direito, né, elas são uma parte bem além.


P/1 – É quase um sonho, é isso?


R – Ih, longe mesmo, muito longe.


P/1 – Vem cá, e os seus amigos, amigos de infância, continuam aí, você lembra?


R – Olha, naquela época.


P/1 – Conta um pouco sobre os seus amigos.


R – [risos] Então, olha, a gente, eu tinha umas amizades na época, assim, mas, assim, os amigos não eram muito amigo, não, amigos da onça [risos], é porque teve um fato, que a gente sempre ia em festa, toda festa que tinha ia todo mundo, era eu, tem que citar nome? [risos] Eu e mais cinco amigas, não vou falar o nome delas, não, se não elas vão ficar bravas comigo, então teve, uma delas, que eu vou falar o nome dela, que era Raquel, que ela morava perto de casa, eu tava fazendo, lá em casa ninguém nunca teve festa de 15 anos, meu irmão teve festa de 15 anos, pro meu pai os homens eram os deuses, né. E aí ele, a gente falou: “Não, vamos fazer um almoço de 15 anos”, aí minha mãe resolveu fazer um almoço, a minha irmã fez um bolo gelado e minha mãe fez uma comida, tutu, macarronada, maionese e eu chamei as amigas pra ir lá em casa almoçar, beleza, fiquei lá esperando as amigas chegar, né, e aí chegou essa Raquel, que é vizinha, que era amiga também, e aí ela chegou lá, beleza, e eu tô esperando as meninas chegar pra cantar parabéns e elas nada, eu esperando e elas nada. Depois alguém chega e fala: “Elas foram lá pra Serra do Cipó”, falei assim: “Ah, quê?”, e eu: “Quê? Eu fiz esse tanto de comida e elas não veio aqui pro meu aniversário”, eu falei assim: “Nó, que amigas que são essas”, né, eu até chorei, que eu tinha feito o trem tudo e nenhuma delas veio. Aí ficou a Raquel, eu falei assim: “Essa é amiga mesmo porque é a única que ficou”, né, hoje eu não tenho nem muito contato com ela, ela mora em Belo Horizonte, estuda lá, trabalha lá, faz Ciências Contábeis, e assim, quando ela vem a gente tem um contato, conversa um pouquinho ali, mas já acabou aquela, né, aquela afinidade que a gente tinha na época. Também cada um agora cuida da vida dele, né, agora, as outras, cada uma delas casou também, tem filhos, né, então não ficou, né, pra trás a amizade, né, mesmo com elas ter feito isso comigo, né, a gente ainda conversa, a gente passeia, às vezes a gente marca passeio, a gente vai passear, mas aí o que acontece? A gente vai ficando mais velha e as amizades vão renovando também, né, hoje a gente tem outras pessoas.


P/1 – Você tocou no assunto, né, desse estudo em Belo Horizonte, né, você, depois que você terminou o ensino médio você foi prestar faculdade?


R – É, eu faço uma faculdade a distância.


P/1 – Como que é, do quê? Conta um pouco pra gente o que você tá estudando.


R – Eu faço História atualmente, né, eu to no segundo período de História, e eu achei que era uma área que ia, praticamente ia dar sequência no que eu trabalho aqui, né, que é na área do turismo, mas de qualquer forma usa História também, então nesse ponto eu acho que era pra acrescentar mais, né, o conhecimento, aprender mais um pouquinho sobre História, né, procuro, eu já comprei um monte de livros, entendeu, até mesmo o parque mesmo, que a gente trabalha no parque mesmo, né, a gente às vezes fica influenciado de querer estudar mais, de querer estudar e aí vou seguindo.


P/1 – Eu vou tocar no assunto desse parque, desse estudo, tal, me fala uma coisa, ainda ficando nessa parte do seu, enfim, do seu dia a dia, tal, uma família dessa, numerosa, cheia de homens, como que foi, assim, o seu, enfim, como que você começou a namorar, quando você começou a sair, ter mais independência, como foi esse processo assim, ou os seus pais eram tranquilos?


R – Não, ih, independência é difícil lá em casa, inclusive as minhas irmãs, quando elas começaram a namorar ficava o casal de namorados de um lado, eu ficava no meio e a minha mãe do outro pra vigiar, quando ia sair pra alguma festa minha mãe tinha que ir junto, nós não podíamos ir sozinha, não, o meu pai não deixava, e aí assim, sempre assim. A gente ia em festa, se a gente demorasse muito ele chegava lá, meu pai chegava lá pra buscar a gente e sempre a minha mãe ali, como bode expiatório da gente e o tempo todo e a gente queria, às vezes a gente chorava pra sair, o meu pai não deixava a gente sair, não, não tinha muito essa liberdade assim. Quando eu comecei a namorar mesmo era a mesma coisa, eu sentava com o namorado, que é o meu atual marido agora, de um lado, minha mãe do outro, vigiando, não podia sair, não.


P/1 – Como é que você conheceu ele?


R – Ah, ele, primeiro ele morava, eu morava no Baldo, a região que chama aqui, e aí nós conhecemos lá na Lapinha, né, por acaso, né, eu perguntei, apesar que eu não queria, né, me envolver, não era com ele, era com outro [risos], né.


P/1 – Tá gravado, hein.


R – Não era com ele, era com outro, mas ele sabe disso, ele sabe, não era com ele, era com outro, mas acabou ficando com ele e aí fiquei e aí eu to casada, né, mas isso depois de uns cinco, seis anos, né, e tinha aquela questão de namorar, de casar, de noivar primeiro, de ficar noivando, né, lá em casa, ir lá fazer, pedir a mão em casamento, ele foi lá em casa com o pai dele pra pedir a mão em casamento [risos], coisa que nem usa mais, né, nem, você não vê falar isso mais, as pessoas fazem isso, né.


P/1 – E o seu pai?


R – Meu pai, foi, não, beleza, falou que é casamento beleza, né, agora se fosse pra me amigar, nossa, meu Deus do céu, a casa ia cair, se eu tivesse grávida então, porque foi o caso, né, nossa Deus, era difícil, mas eu casei grávida, mas não, assim, eu tava com uns dois meses mais ou menos, eu não tinha barriga, não aparecia nada, quatro meses, nada de barriga, nada, nada. Eu casei de barriga retinha, o vestido ficou ajeitadinho, ajeitadinho em mim, e assim, depois de muito tempo veio Alan, hoje já tá aí com sete anos, já sete anos de casada também. E a minha infância a gente não teve muita liberdade, não, é, a gente teve mais, era, meu pai não deixava a gente fazer isso, pra ele moça não podia andar sozinha e nem ir em festa, a não ser que fosse acompanhada, meu irmão às vezes ia com a gente, nem ele não deixava ir sozinho com a gente, minha mãe sempre tinha que ir. Aí a minha irmã, que era um pouco mais espevitada, a minha irmã mais velha, essa aí, minha filha, essa já [risos] passava por cima e ia, né, nas festas escondido, né, e meu pai chegava, brigava com ela mesmo, que ela não podia ter feito isso, mas aí a minha vivência é essa [risos].


P/1 – Posso perguntar como foi o dia do seu casamento, você consegue contar pra gente, como foi esse dia?


R – Nossa!


P/1 – Foi um dia...


R – Olha, foi um dia assim.


P/1 – Como foi?


R – Diferente, muito diferente, primeiro que a gente convidou 300 pessoas, foram 300 convidados, teve que convidar a família inteira, a Quinta inteira, Fidalgo, Quinta, Lapinha, mandamos Sedex pra Barbacena, que era dos parente do meu marido Clayton, 300 convidados, e, assim, a gente foi montar, né, os convites, né, as ruas, aí a gente coloca a rua, rua tal: “Quem que nós não pode esquecer daqui?”, aí ia colocando, a gente ia na rua e colocava fulano, fulano, fulano, pra não esquecer ninguém, aí ia na rua tal, aí colocava fulano, fulano, e assim que a gente fazia, não esquecemos ninguém. Aí no dia da festa, aquele monte de comida, né, três pernil, 300 quilos de arroz, era comida demais da conta e aquele monte de gente e aí eu apertada lá pra fazer a comida, pra, né, e aí já tava dando a hora de eu ir arrumar, já era o quê? Duas horas da tarde, cadê o marido pra, né, o noivo pra poder me ajudar ali? Tava aqui na lagoa tomando banho, na época a lagoa tava cheia, né, podia nadar, naquela época podia nadar, ele tava aqui nadando na lagoa e eu lá cuidando de tudo, quando o maquiador chegou pra me arrumar, quatro horas da tarde eu tava lá, suja de carvão, com a unha toda esgarçada [risos], e ele aqui tomando banho na lagoa, eu falei assim: “Ah, que beleza, também vou atrasar na hora que eu chegar” [risos], atrasei bastante, cheguei era umas nove horas, foi marcado pra oito, demorei mais uma hora mais ou menos.


P/1 – Fazer com calma.


R – Com calma, serena, nem suei [risos].


P/2 – Qual igreja?


R – Casei lá na capela Nossa Senhora do Rosário, essa mais antiga daqui, eu fiz a decoração do jeito que eu queria, eu queria com flores naturais, toda a igreja, toda decorada com flor natural, quem decorou foi o padre que ia celebrar o casamento, era o Padre Kleber, e assim foi um casamento muito bonito, né, eu achei [risos], né, eu fiquei mais emocionada de ver o noivo lá esperando depois de uma hora, foi bacana.


P/1 – E os seus pais, ficaram emocionados?


R – Meus pais? Meu pai não foi, não entrou na igreja, não, ele ficou do lado de fora, nas minhas irmãs nenhuma ele entrou, nenhuma delas ele entrou no casamento delas, quem entrou foi meus irmãos, inclusive quem entrou comigo foi o meu irmão mais velho, e ele ficou do lado de fora da igreja, o meu pai, ficou numa pilastrazinha que tem em frente a igreja ali, ficou lá sentado. Aí uma única foto que eu consegui tirar, que eu saí da igreja, cheguei, ele tava até chorando lá na beirada assim, eu tirei foto com ele, coisa que ele nem gostava de tirar foto.


P/2 – Por que ele não foi?


R – Nunca foi, nenhuma das três, nem dos meus irmãos ele não foi, o meu irmão mais velho, é uma coisa que é uma coisa dele, né.


P/1 – Mas ele é católico?


R – Meu pai é católico, mas é uma coisa dele, ele é bem sistemático [risos].


P/1 – Interessante.


R – Bem sistemático, mas foi bom.


P/1 – E a festa foi até a noite?


R – Nossa, até madrugada, duas horas da manhã [risos].


P/1 – Muito bom, e me fala, e esse trabalho, né, você trabalhava com os seus pais, né, quando que você, você trabalhou em outras coisas antes de tá aqui, profissionalmente assim, você trabalhava sempre com a sua família, né?


R – É.


P/1 – Quando que você saiu, parou de trabalhar com aquilo ou eu não sei, o outro trabalho que você teve já foi aqui no parque ou foi?


R – Não, em 2007 eu fiz, eu comecei a trabalhar pela prefeitura, aí eu comecei a trabalhar na creche como educadora infantil, né, auxiliar de educadora, aí lá, aí eu comecei a mexer com as crianças, lá a gente teve alguns cursos com o Brincante, né, lá dentro, pra trabalhar com criança e, assim, foi muito bom aquela relação com as crianças, né, os meninos lá, a gente fazia uns trabalhinhos com eles, trabalhei lá de 2007 até 2008, né. E aí aquele, aquela questão de fazer o curso com o Brincante, de relacionar com criança, de saber falar com a criança, aquilo ali teve, eu ouvi falar na época que ia ter um curso de condutor na Lapinha, aí na época eu falei assim: “Ah, trabalhar de guia, não quero trabalhar com isso, não”, né, e eu não fiz a inscrição, quem fez a inscrição foi meu marido, Clayton que fez. Aí ele falou assim: “Ó, eu fiz a inscrição pra você, vai começar hoje o curso”, “Quê?”, eu falei assim: “Ah, não vou, não”, ele falou assim: “Você vai sim”, “Ah, nem, trabalhar de guia, ficar andando no meio do mato com os outros, povo chato”, aí eu falei assim: “Ah, não”, “Vai sim, que é uma experiência boa”, eu falei assim: “Não custa nada, né, vou lá, se eu não gostar eu saio”, aí beleza, comecei. O curso durou um ano e oito, quase oito meses de curso, aí teve curso de espeleologia, fauna, flora, arqueologia, paleontologia, espeleologia também teve, nosso professor era Lobo, lá de São Paulo também e, assim, e o curso era 30 pessoas pra fazer a inscrição, só sobraram 14 no final, né, 14 ou 15.


P/1 – Trinta da região, pessoas da região?


R – Das regiões de Fidalgo, Quinta e Lapinha.


P/1 – E as aulas eram dadas...?


R – À noite lá na Lapinha.


P/1 – Mas pelo grupo da, um grupo que vinha de fora ou era?


R – Isso, era um, quem fez na época foram os parceiros do parque, né, o Parque Estadual do Sumidouro, Circuito das Grutas, na época, IEF (Instituto Estadual de Florestas), também teve uma empresa de turismo lá de Lagoa Santa, que era Verusca e Daniela que tomavam conta na época, que elas que deram, né, o curso pra gente, elas que começaram ali. E assim, técnicas de condução, técnicas de cultura, psicólogo, a gente teve, né, um curso com psicólogo pra gente saber lidar com a emoção, com pessoas que chegam, né, brigam com a gente, assim, na hora do, a gente tá lá, chega uma pessoa e a pessoa às vezes não tá passando por um momento muito bom, aí em vez de você fazer um passeio mais rápido você tava lá falando, falando, falando, falando, falando, aí de repente a pessoa bum, joga tudo em você, aí você tem que tá com o psicológico bom pra receber aquilo, pra não destratar a pessoa, tudo isso a gente recebeu, né, de ensinamento. E, assim, o curso foi muito bom, depois disso a gente veio, montou uma associação de condutores, que é Acita, Associação de Condutores de Itararé, significa Acita, né, e aí a gente começou a trabalhar em 2011, final, dia 11 de junho de 2011, aí a gente começou lá na gruta da Lapinha, ninguém sabia nada, nada, nada, assim, sabia das coisas, né, da condução, das técnicas que os professores tinham dado pra gente, até primeiros socorros a gente fez. Aí beleza, aí viemos, tinha pessoas que já estavam há mais tempo, já tinha um curso que tinha feito antes, então eles já sabiam, né, como, né, como guiar um turista aqui, a gente não sabia nada e aí a gente pegava, né, com eles, aos poucos, ou às vezes a gente observava, eu anotava tudo que eles falavam. A gente tem o nosso professor de Fauna e Flora, foi Lauro, lá de Fidalgo mesmo, é o mais velho, ele passava pra gente muitas, também muitas técnicas também lá de condução, a história aqui da trilha, a formação, as pinturas rupestres, e assim a gente ia, e cada dia a gente, hoje já mudou tudo, a gente já teve curso de ética e postura, a gente tem palestra de espeleologia, né, sobre a gente lidar também com essa fauna que a gente tem aqui no parque, e cada dia mais a gente vai estudando, saber mais.


P/1 – Mas as formações, elas são dadas pela prefeitura, é por vários, quem que organiza isso?


R – Aí é o estado.


P/1 – É o estado.


R – É o estado, é o IEF e o parque, né.


P/1 – Você é funcionária do estado então?


R – É com empresa terceirizada do estado, mas é, hoje o parque, ele, assim, de alguma forma ele ajudou sim, né, em alguma forma ali da gente tá aprendendo, da gente tá, o que a gente conhece hoje a gente pode agradecer um pouco isso ao parque sim, mas hoje existe, né, pessoas que já saíram, né, o parque também perdeu muitos funcionários que poderiam ser bons, né, poderiam tá aí, que é pessoas que sabiam também bastante. No caso da Acita também, de 14 da Acita hoje só sobraram dois, né, que aí já veio uma empresa privada que foi pegar aí o parque que a Acita teve que acabar, a gente não continuou mais, todo mundo saiu, só sobrou eu e uma moça lá da Lapinha.


P/1 – Você foi contratada por essa nova empresa que chegou?


R – Sim, mas os outros também foram contratados, mas teve alguns incidentes e questões, né, pessoais deles, eles saíram e aí continuar, tem dois anos que eu trabalho aqui já.


P/1 – Você disse que História você queria complementar, né, essa formação aqui, ela tá te ajudando, quais são as relações que você tá vendo do seu curso, por exemplo, pra aplicar aqui com a monitoria, com esse pessoal?


R – Então, eu acho que a gente vai ter, eu vou ter mais uma resposta mais certa, né, na área da História, porque tudo é muito aquela questão, assim, a gente lê muito livro e no livro não fala exatamente, né, então, aquilo que você coleta de informação, é uma apostila: “Ah, fulano disse isso. Não, mas quem falou? De qual livro foi tirado?”. Então o curso mesmo é pra isso, a gente falar o real, o que aconteceu mesmo, então vou tá mais certa de falar: “Não, aconteceu isso em tal data, ele veio aqui, fez isso” e aí eu vou tá mais certa do que eu tô falando.


P/1 – Ótimo, então chegamos num momento importantíssimo da nossa entrevista, vamos perguntar sobre o parque então, vamos lá, você conhece a história desse parque acho que melhor que ninguém aqui, não é? Qual que é a história desse parque, você pode contar pra gente?


R – Então...


P/1 – Aliás, não só a história, né, dele como parque, né, mas depois você vai contar pra gente o que nós temos no parque.


R – Então, em termos geológicos a gente pode falar que aqui tem 15 mil anos, em termos geológicos, as regiões, né, e mais de 400 anos, na época dos bandeirantes, os bandeirantes vieram pra essa região a procura de pedras preciosas, né, Fernão Dias, a gente tem a casa que foi como ponto de apoio pra passagem das tropas deles, ele não morou na casa. Mas o parque foi criado na época, né, em 1º de janeiro de 1980, como medida de compensação pela construção do aeroporto de Confins, atual Tancredo Neves, então teve que ser criada uma área de preservação ambiental, né, pra compensar toda a área degradada pra construção daquele aeroporto, então hoje a gente tem o Parque Estadual do Sumidouro, que foi implantado. Eu acho que ele foi bom, assim, entre aspas, num ponto, a gente tem a criação de uma área de preservação ambiental que vai proteger, né, algumas espécies, árvores, bichos e a própria água, né, de bactérias ou de qualquer outro tipo de crescimento desordenado de uma certa comunidade, né, mas a gente pode colocar assim, beneficia uma parte, mas a outra parte fica sem nada, né. Então hoje a gente tem a criação do parque, né, que é bom pra natureza, mas será que é bom pra natureza o ser humano não ter contato com ela? Né, na visão das pessoas que tem hoje devido à implantação do parque, então eu acho que foi bom, muito bom, mas eu acho que pode ser melhor mais pra frente, né.


P/1 – Só pra entender porque, bom, você não tinha nem nascido, né?


R – Não.


P/1 – Quando criaram o parque em si, mas, enfim, toda a região que abrange esse parque foi proibido o uso dele, é isso, as pessoas tiveram que sair da região onde é parque, como foi esse processo, você conhece?


R – Então...


P/1 – Tem até hoje problemas em relação a isso?


R – Tem problemas, assim, da não aceitação das pessoas diante do parque, né, mas hoje a gente tem pessoas que perderam terrenos, boa parte dos seus terrenos, né, com a implantação do parque, a implantação dele, talvez a linha do parque passa ali dentro do terreno dessas pessoas, mas aí se for colocar, né, na época do decreto de 80, toda a área onde a gente vive, inclusive onde eu moro, a gente teria que sair, que o parque, ele, a linha dele ia pegar toda a comunidade, então teria que ser todo mundo, né, teria que todo mundo sair daqui. Mas aí teve um novo decreto, aí esse outro decreto foi elaborado que as comunidades ficariam no entorno, né, mas muitas pessoas aí teve que, no caso, na época, então nós vamos ter que fazer o seguinte, então uma coisa a gente vai ter que deixar, as pessoas não vão poder usufruir. Igual a gente tem, pelo o que eu vi, já vi falando muito tempo atrás, a Rua Zé Mineiro, que é a rua que vai até Sobrado, seria uma rua, uma região que as pessoas que moram lá teriam que ser desapropriadas, pra não ser desapropriadas eles pegaram uma parte da lagoa, que é aonde a gente ia ter acesso, então aí hoje a lagoa toda, quando ela tá cheia ninguém pode entrar, ninguém pode nadar, né, por causa que toda a lagoa hoje é do parque, mas porque, pra não tirar as pessoas que moravam na região lá do Zé Mineiro. Mas depois houve estudos, né, coleta da água, foi visto aí que tem bactérias, têm uma espécie de alga que pode causar coceira, então pode causar a morte de alguém, né, então a gente não sabe qual que é a proporção dessa bactéria dentro do organismo da pessoa, então foi vetado o nado, não pode nadar, não pode pescar, ah, pescar de varinha pode, mas tem que ter um plano de manejo, tem que ter um projeto, né, então tem tudo isso, então hoje tem que existir.


P/1 – Existe esse plano de manejo, um projeto pra essa área?


R – Ó, plano de manejo tem e tem até mesmo um projeto de pesca, que na época da Acita a gente elaborou um projeto de pesca pra uma pesca consciente, né, dos próprios pescadores vim pescar e eles mesmo olhar a lagoa, sabe, outras pessoas que vierem, ou jogar lixo, eles também conscientizar, pra trazer a comunidade pra dentro do parque, que é o que não tá acontecendo, né.


P/1 – Não tá acontecendo?


R – Não, não, aconteceu de afastar, né, as pessoas tomaram raiva, né, porque ninguém falou nada, ninguém tomou iniciativa, então as pessoas vão ficando com mais raiva em vez de gostar do parque, elas gostam da implantação da área de preservação, só que eles não gostam da maneira que tá andando, porque podia a comunidade beneficiar de alguma coisa, a escola daqui precisa de muita coisa, né. As crianças daqui não têm o que fazer, né, se tivesse uma quadra de esporte, por exemplo, se tivesse incentivo, tivesse lá uma aula de dança pros meninos, pras meninas, balé, tivesse alguma coisa desse tipo pros meninos fazerem, provavelmente ninguém ia se interessar de ficar falando do parque ou qualquer coisa do tipo, eles só ia elogiar porque aí ia ser iniciativa deles, mas a gente acredita que quem sabe mais a tarde, mais a frente, quem sabe eles não mudam essa ideia na sua cabeça?


P/1 – Mas a comunidade, ela frequenta o parque?


R – Frequentou com a implantação na época, muitas pessoas vieram, muitas não gostaram, outras foram barradas porque na época tinha que pagar, depois falaram: “Não, não pode, pessoas da comunidade não paga”, até que eles entendessem, né, que pessoas da comunidade não paga, aí eles falaram: “Não, vamos lá visitar, já que não paga nada, né”, então vieram, algumas pessoas vieram. Mas tem gente que nunca foi, nunca foi na gruta, tem menino aí que nunca veio na lagoa, nunca veio, né, meu menino veio que eu, quando eu tava na época da Acita eu trazia ele comigo, ele vinha comigo na trilha, aí ele vinha, mas tem menino que nunca veio aqui, nem sabe.


P/1 – Você tá citando bastante essa época da Acita, eu queria entender melhor então, porque assim, vocês foram formados pelo estado, né, com o curso de monitoria, daí vocês mesmos tiveram uma iniciativa de criar uma organização.


R – Isso, uma associação.


P/1 – Vocês moradores, comunidade, quiseram fazer uma organização, é isso?


R – Isso.


P/1 – E depois ela, por pressão externa, assim, vocês tiveram que parar, é isso, vocês foram, digamos, contratados por uma terceirizada?


R – Isso, a ideia era contratar os condutores pra essa empresa, só que aí a Acita ia acabar.


P/1 – Entendi, e os projetos que vocês tinham todos, por exemplo, de conscientização...


R – Tudo foi por água abaixo.


P/1 – Tudo foi por água abaixo.


R – Acabou tudo.


P/1 – E essa nova gestão do parque não tem nenhum projeto de conscientização ambiental com a comunidade ou é só Polícia Florestal?


R – Ter, tem, mas ainda não saiu do papel.


P/1 – Entendi.


R – Ter, tem, mas tem a questão, vamos amadurecer essa ideia, aí fica amadurecendo e no final apodreceu, virou matéria orgânica e ninguém os utilizou, ter, tem, e muitos projetos, até a gente mesmo já passou vários projetos pra eles já, pro parque, muita coisa, tem muitos projetos, muitos, têm projetos demais, só falta pôr em prática.


P/1 – Entendi, então vamos lá, Vanessa, você conhece bem, né, a área do parque, conta pra gente o que nós temos aqui no parque pra ir conhecer, que é imperdível, conta pra gente o que tem e o que, eu imagino que até tenha lugares que sejam um acesso privado só pra vocês, né?


R – Sim.


P/1 – Não pro público porque não tem estrutura, conta um pouco o que nós temos aqui.


R – Então, nós temos, aqui nesse ponto a gente tem esse paredão, né, com pintura rupestre datada de quatro a sete mil anos, a tradição é chamada de tradição planalto, as figuras que a gente vai ver, figuras de bichos, risquinhos, o que eles poderiam ta manifestando aí nessas pinturas, a gente vai ver os risquinhos, né, ali naquela parte, mais pra ali também. Podemos observar aqui a lagoa, né, nesse momento tá seca, uma lagoa seca, mas ela tem uma recarga sazonal, então nesse período aí ela fica seca mesmo, na época de período do outono até o inverno, né. Então na época agora da primavera, nas primeiras chuvas ela volta a encher de novo, né, então a gente tem só o córrego, né, neste momento, passando aí, e aí a gente pega, quando ela enche muito ela pega toda essa extremidade aqui, ela fica bem bonita, a gente tem até uma marca ali pra mostrar ela, quando a lagoa vem, né, há um tempo atrás também. E a gente tem a trilha, esse já é um ponto da trilha que a gente tá aqui agora, dá dois quilômetros, uma hora e meia de caminhada, né, ou pode chegar a duas horas de caminhada nessa trilha, dependendo do grupo ali, né, as perguntas ou o interesse do grupo. E também tem a Gruta do Sumidouro, que ela fica nessa trilha também, a gente não entra nessa trilha, a trilha é mais pra pesquisa hoje, onde o Peter Lund encontrou o fóssil do homem de Lagoa Santa, temos a Gruta da Lapinha, que tá inserida dentro do parque, né, uma gruta também muito bonita, com 40 metros de profundidade, 511 metros de extensão, formação de caverna com cerca de 70 milhões de anos, né. E aí a gente tem todo esse atrativo e também a trilha da travessia, que é onde atravessa da região de Pedro Leopoldo, que é essa daqui, pra Lagoa Santa, então dá três horas e meia, podendo chegar a cinco horas de caminhada, passando nessa travessia e saindo da gruta pra cá, e vários outros atrativos que em breve pode ter aí a travessia noturna na lua cheia, que ainda não tá aberta ainda essa visitação.


P/1 – Ah, é, o que vai ser isso?


R – Na lua cheia.


P/1 – Lua cheia e vai fazer as mesmas trilhas, só que na lua cheia?


R – Isso, na lua cheia.


P/1 – Interessante.


R – Vai ser um atrativo mais pra frente.


P/1 – Você falou que tinha bandeirantes na história também, mas não é dentro do parque, é outra?


R – Não, é dentro do parque, tá na história também, você visita o parque, você vai conhecer uma região, né, uma formação rochosa, né, com calcário e vai também conhecer um pouco da história do bandeirante Fernão Dias, né, que é esse bandeirante.


P/1 – Se mistura com a história daqui, né?


R – Isso.


P/1 – Qual que é a história dessa cidade, assim, como surgiu, você conhece isso, como que surgiu esse povoado aqui, como foi?


R – Então, o povoado foi criado na época do bandeirante mesmo, quando Fernão Dias chegou aqui, ele chegou com aproximadamente 400 homens ou 600 homens, né, a gente tem a região, ele veio no século XVII, né, o Fernão Dias, aí fundou o Arraial do Sumidouro na época, né, a gente tem aí as regiões de Quinta, Fidalgo e Lapinha, que eram as mesmas regiões, era uma só, né. Só que aí a gente, né, através de pesquisas que a gente já fez a gente viu que o bandeirante não morou nessa casa, a casa era ponto de troca de ferramentas, de alimentos, caminho da Estrada Real, naquela época também tinha, o Fernão Dias tinha dois filhos, que era o José Dias, filho legítimo dele, e o Garcia Rodrigues, que era o filho adotivo, né, então conviveram também na época deles aqui na região. Nós temos aqui também, atrás aqui, Fidalgo, né, essa região também demarca também a passagem de Dom Rodrigo Castelo Branco, um fidalgo, né, aí a gente tem, que ele foi morto, assassinado na região, que dá o nome, né, da região até então, como dizem nas histórias aí, como ele era o fidalgo, passa a ser chamado de Fidalgo, significa filho de algo, né, pessoas de posses, e aí demarca a passagem. Até hoje a gente vê pessoas aí que têm uma mistura, têm uma história, pessoas que têm parentes aí, que os avós eram portugueses, que os parentes deles eram turcos, pessoas que naquela época moravam nessa região de Fidalgo, né, então aqui na Quinta tem muito incidência de pessoas que tinham parentesco, que eram escravos, né, que eram índios, né, então pessoas que foram trazidas na época do bandeirante.


P/1 – E depois com a exploração, teve exploração de ouro, teve exploração?


R – Sim.


P/1 – Essa região foi uma região que se achou coisas?


R – Então, até que diz as histórias que sim, que ele encontrou muito ouro aí na região, né, levou todo esse ouro pra Portugal, mas tem até uma lenda que o pessoal conta, uma lenda, não sei se é verdade, pessoas mais antigas costumam contar, né.


P/1 – Vamos lá.


R – Eles falam que o Fernão Dias, quando ele tava, né, caçando o ouro dele aí, ele não conseguiu levar tudo, aí ele escondeu o ouro, metade desse ouro dentro de uma caverna, aí o Peter Lund, quando ele veio pra essa região aqui de Lagoa Santa, na época, por acaso ele chega em Lagoa Santa e começa a pesquisar aí as cavernas, encontrando fósseis, ossadas, né, de animais, ele encontra essa caverna que tá com o ouro de Fernão Dias. Aí dizem as histórias que ele usou, Peter Lund usou esse ouro de Fernão Dias e comprou todos os instrumentos da Banda Santa Cecília, que é uma banda que tem lá em Lagos Santa hoje, a banda existe até hoje, né, a banda, os instrumentos todos foram comprados pelo ouro que foi encontrado dentro dessa caverna, que era de Fernão Dias, ninguém sabe se é verdade, mas são as histórias [risos].


P/2 – Fernão Dias veio no século XVII, e o Peter Lund?


R – Peter Lund no século, 1835, século XVIII.


P/1 – Dezenove.


R – É, XIX, 1835 ele chega a região de Lagoa Santa, né, até então pra estudar botânica e zoologia, ele não era paleontólogo, hoje ele é considerado o pai da paleontologia brasileira, ele só desperta um novo olhar pra paleontologia a partir do momento que ele chega em Curvelo, né, uma região que já tinha um dinamarquês lá na época, Peter Klaus. Esse Peter Klaus extraía salitre de caverna, fabricava pólvora, adubo e mostra pro Peter Lund ossadas que ele tinha encontrado em cavernas, Peter Lund até chega a ajudar ele muitas vezes lá, né, a encontrar ossos dentro de cavernas, só que aí foi alimentando o interesse de Peter Lund de querer estudar paleontologia, de querer estudar fósseis, né. Ele sai da região de Curvelo, pede ali, né, pro Andreas Brandt, que é um norueguês que acompanhava Peter Klaus na época, pra vir aqui pra Lagoa Santa junto com ele, já que ele era um desenhista, naquela época não tinha máquina fotográfica, então o trabalho desse Andreas Brandt seria interessante pro Peter Lund e aí ele vem com o Peter Lund aqui pra Lagoa Santa e aí ele começa pesquisar caverna, que deu um total de 800 cavernas pesquisadas por ele e ele encontrou 12 mil ossadas de animais da megafauna e também de seres humanos. Então a gente pode ver  aqui é uma região que tem árvores bem grandes, né, é um local com um paredão imenso, que existiu animais que tinham cinco metros de altura, com 300 de comprimento, tinha o tigre de sabre com 300 metros de comprimento e 3 metros de altura aproximadamente, um tatu que era do tamanho de um fusca viveu aqui nessa região, do tamanho de um fusquinha, né, chamado de gliptodonte, mastodonte, que era os mamutes brasileiros, viveram aqui também nessa região. Então a gente tem essas espécies, né, hoje a gente tem o gambá, tem a capivara, que são compostas dos animais da megafauna, viveram também nessa região, então essa região aí não acaba a história, não [risos].


P/1 – Muito bom, me fala uma coisa, me conta como é o seu dia normal, me conta um dia normal de trabalho.


P/2 – Em relação ao parque ainda, você tá aqui na comunidade, envolvida, né, sua família já tá aqui há um tempo e você trabalha no parque, como é que você lida com isso? As pessoas não te veem, às vezes como, podem te ver como: “Ah, ela é representante do parque, ela é representante da comunidade”, como é que você lida com isso, Vanessa?


R – Então, é um pouco complicado às vezes, eles, às vezes eles chegam a falar, né, que quem trabalha com turismo é vagabundo, já vi até assim, um político que mora aqui na região da Quinta me chamou assim, até, no momento até estressei com ele, e ele, nas reuniões da associação mesmo, que acontece aqui na região, na Quinta, quando a gente vai na reunião sempre, em vez, o foco da reunião é uma coisa, aí eu cheguei, sentei, o foco já é o parque: “Ai, que o parque é isso, ai, que o parque é aquilo, ai, que as pessoas que trabalham lá são vagabundas, ai, que as pessoas que trabalham lá não tem uma boa índole” e assim vai, insultando, sabe. E aí, e eu sempre vou, né, e tô lá, o povo tá insultando, eu tô lá, só que aí, igual a gente às vezes elabora o projeto, a gente fala: “Vamos caminhar juntos”, né, com a associação, mas a associação tem uma mentalidade pequena demais, que o foco dela é só parque, acha que só o parque, só o que existe. Aí às vezes eu deparo assim, confrontando com eles, que às vezes eu faço isso, [risos] eu confronto eles às vezes, igual uma vez, a gente queria fazer uma festa das crianças no natal e aí a associação não ajudou em nada, nem tinha associação na época, né, aí a gente pediu, o pessoal do parque na época, né, o pessoal doou o pão e aí a gente fez uma coisinha simples na praça, né, tanta gente ajudou que era tanta coisa pra pouco menino, né. E aí a gente: “Não, vamos fazer outra coisa, vamos fazer um bingo gastronômico, que a gente vai arrecadar fundos e vamos ali e com o dinheiro a gente compra os brinquedos”, a gente fez uma coisa do nada, a comunidade que ajudou, a gente não gastou nada. E aí a gente fez, eu e a Elza, que é uma moradora aqui da Quinta, eu e a Elza, a gente juntou, a Elza até caminhou até mais do que eu, ganhou até mais coisa do que eu, e a gente fez o bingo gastronômico, né, arrecadamos uma quantia boa, mais de dois mil reais, e com esses dois mil reais nós compramos todos, ali os presentes pra mais de 200 crianças, parece que deu umas 300 crianças, de zero a 12 anos, nós compramos pra eles todos. Aí a gente: “O que que a gente vai fazer?”, “Vamos fazer um jantar”, “Ah, não, vamos fazer um almoço”, aí resolvemos fazer um almoço: “Mas como é que nós vamos fazer?, né, não tem dinheiro mais, já gastamos o dinheiro todo comprando presente”, “Não, eu vou dar isso”, aí o outro falava: “Não, eu vou dar isso aqui” e aí todo mundo juntou, cada um deu uma coisa, no final a gente fez um almoço e aí demos os presentes no natal, fizemos um almoço pras crianças e demos presente pra todo mundo, ninguém saiu sem um presente. Aí quando foi no outro ano, aí a associação já fez de outra forma, aí já queria fazer uma coisa mais assim, eu falei assim: “Olha, por que não chamou a gente, né? Que a gente fez uma coisa tão legal, por que que não caminhou junto ali, por que que não continuou, não deu continuidade?”, aí eu falei assim: “Não, então porque eles querem fazer uma coisa que falar: “Não, foi eu que fiz”, né, não é assim, associação, comunidade, comunidade, associação. A mesma coisa o parque, parque, comunidade, comunidade, parque, então se não tiver esse andamento, não tiver essa liga não vai ter jeito, que aí não vai colar, não.


P/2 – O que tá faltando pra essa liga na sua visão?


R – O que tá faltando hoje é diálogo, não da comunidade, mas do pessoal do parque, que eu acho que falta principalmente isso, chegar pra eles e deixar eles, eles, o pessoal do parque vai ouvir e a comunidade vai falar, depois que todo mundo falar, desabafou, beleza, então a gente vai mandar, agora a gente vai falar um pouquinho o que que a gente vai fazer na visão de vocês.


P/1 – Quais são as reivindicações, assim, que são colocadas, quais são as questões principais, por que tanta raiva? Você fala que você chega, as pessoas já te tratam mal, por que, qual que é a reivindicação?


R – Uma das coisas é a pedreira, né, que a gente tem as pedreiras aqui, que as pessoas, a maioria das pessoas na época trabalhavam com isso, pessoas que ganhavam dinheiro com isso, né, sustentando a família deles com a pedreira, de alguma forma a implantação do parque, eles acham que foi o parque que tirou as pedreiras, só que não foi o parque, isso foi uma questão que já há mais tempo. As pessoas não parou pra pensar que o povo quer preservar, as pessoas agora tão caindo em si que tem que preservar o planeta se não nós vamos matar o planeta, então a implantação do parque foi só, como se diz, né, um pontapé pra eles simplesmente chegar e pronto: “Não vai poder mexer em pedreira mais e agora vocês vão ter que trabalhar somente com isso aqui”, né, com o restante da pedra que tem lá nas serrarias e só. E aí isso surgiu brigas, até hoje tem isso, brigas demais, e tá quieto, né, as pessoas tão mais quietas porque aos poucos, o promotor, né, o promotor que tá na causa aí, fala que é só regularizar documentação, né, deles, tem a documentação que tá mais pendente, de alguns que mexem com isso, questões de pedreiras estarem próximas de nascentes. Então eles vão preservar mesmo essa parte aí, né, é mais que certo, e existe essa discussão até hoje por causa mais disso, por causa dessa questão da pedreira que tirou praticamente o trabalho da maioria das pessoas aqui da região.


P/2 – Quantas, mais ou menos, pedreiras foram fechadas?


R – Olha, eu não sei te dizer, mas eu não sei te dizer, muita, eram muitas.


P/1 – Mas, assim, hoje a cidade, o que gira mais os empregos, por exemplo, o pessoal da região que trabalha, trabalha mais no quê? Porque antes, pelo jeito, o papel das pedreiras era importante, tirou, o que esse pessoal, a maioria...?


R – Então, tem as pessoas que trabalham mais na, tem supermercados, o pessoal que trabalha em caixa de supermercado, têm as indústrias, né, que a gente tem aí.


P/1 – As indústrias?


R – É, as indústrias, cimenteira, que a gente tem, né, a Camargo Corrêa, temos também a Holcim, né, que também empregou muita gente também, tem a própria prefeitura, tem vários funcionários aqui da região que trabalham na prefeitura, então dali algumas pessoas montam o seu próprio negócio, acabam montando, se não tem ali uma opção acabam montando seu próprio negocinho, eu mesma tenho um carrinho de cachorro quente, nas horas vagas eu trabalho com cachorro quente [risos], e assim a gente vai, fazendo dessa forma.


P/1 – A chegada dessas indústrias mudou muito aqui a cidade?


R – Olha, aqui nessa parte aqui eu não falo, assim, você tá falando em questão de emprego?


P/1 – É, de tudo, né, desde infraestrutura ou até chegar mais gente, enfim, até o assalto, né, por causa do crescimento da cidade, eu não sei, o que muda quando começam a vir, elas começaram a vir quando, essas empresas pra cá?


R – Ih, tem muito tempo, eu nem sei a data, nem sei a data, mas tem muito tempo, mas desde lá pra cá ela teve muito crescimento, a cidade, Pedro Leopoldo mesmo cresceu muito, até aqui mesmo a gente sente, mas aqui já tem uma questão que é um lugar mais afastado, as pessoas querem mais fazer sítio, fazer casas, né, de chácaras, aqui já não pode tá fazendo certos tipos de coisa que o Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] vai lá e embarga, né. E, assim, o crescimento, né, beneficiou uma parte e acabou criticando outra, que a gente, como eu falei, a gente saía de casa, deixava a casa aberta e hoje a gente não pode fazer isso, né, então hoje já presenciei pessoas, né, tiroteio lá perto de casa, pessoas, assim, que brigam violentamente às vezes, coisas que a gente não se via tanto, né, coisas, assim, absurdas a gente vê hoje, coisas que não se via, então o crescimento pode ter beneficiado muita coisa, né, numa parte e acabou criticando outra.


P/1 – Entendi. Eu vou fazer uma pergunta super fácil, tá, pra retomar já assim, pá. O que é congado?


R – O que é o congado? Nossa, você apertou sem me abraçar agora, então eu não sou muito uma pessoa boa, indicada pra falar pra você isso, o que é o congado, o que é o congado? Pra mim, na minha visão, eu não sei, essa não seria a resposta, pra mim é uma manifestação dos negros, então em épocas passadas, hoje a gente vê muito em filmes, né, que mostra essa vivência desses povos, né, muitas épocas passadas, dos escravos, que depois de uma colheita muito, né, de muito tempo, muito cansativa, sol a sol, acordando madrugada, eles sempre iam comemorar, acabou a colheita, acabou a escravidão, acabou tudo, né. E aí eles comemoravam com os sons de tambores, com danças, com cantos que só eles sabiam fazer, então a gente conviveu, eu mesmo convivi muito com a Gema também, que era uma rainha conga, já falecida, ela sempre falava isso, né, inclusive ela sempre falava que a rainha, ela tem que dançar rodando a saia do vestido, né. A gente tem, as pessoas, tem umas rainhas que costumam fazer isso, que é a rainha conga e aí é uma dança que eles fazem nesse momento ali de, é como se estivesse liberto daquela colheita ali, né, acordando todo dia de manhã e indo pra lida no sol quente ou às vezes tomando chibatadas no tronco, né, eu acho que seria mais ou menos isso.


P/1 – Legal, mas ainda não sei direito, você falou rainha, você falou manifesto, dança, eu ainda preciso de mais elementos, como que é, por exemplo, vamos lá, que dia que é, quando, é o ano todo, é em qualquer época, em determinada data?


P/2 – Santos


P/1 – São santos, não tem santos?


R – Então, o dia da Nossa Senhora do Rosário é no dia 7 de outubro, Nossa Senhora do Rosário, né, é a rainha dos negros, protetora dos negros, né, considerada na visão deles, mas acontece no segundo domingo de setembro de todos os anos, segundo domingo de setembro, a gente tem na região uma festa do congado, né, aqui a gente chama guarda de congo Chico Rei, né. Todos os anos a mesma coisa, o mesmo trajeto que eles fazem, exceto os locais onde vai ocorrer a festividade, então cada ano muda o rei de ano e a rainha de ano, né, então se for olhar em épocas passadas quem reinava era só o rei congo e a rainha congo, aí o rei congo e a rainha congo deu o direito pra outras pessoas reinarem, que é o que a gente tem hoje, rei de ano e rainha de ano, a cada ano troca ou é o mesmo, pode às vezes ser o mesmo, mas é muito raro de acontecer. Mas a gente tem esse ano um rei e uma rainha e o ano que vem já tem outro, inclusive eles vão tá na festa amanhã, que a gente tem a festa aqui do congado, né, eles vão tá aqui na festa, o rei e a rainha de ano do ano que vem, então eles já vão tá acompanhando a festa, né, caso vocês observar quem seria, esses vão tá junto com os reis de ano, com o rei de ano e com a rainha conga, com o rei congo também, ali no meio das rainhas. Eles acompanham toda a festa, pra na segunda-feira ter a coroação, que aí a descoroação dos reis de ano pra coroação do rei de ano do ano que vem, aí é todo um ritual que eu não sabia nem te dizer, porque é uma coisa que só os capitão de guarda vão falar pra você [risos].


P/1 – Ou seja, tem vários personagens.


R – Vários.


P/1 – Mas você participa?


R – Ah, eu sou dançante, dançante, a vestimenta lá em épocas passadas seria um saiote, descalça, com uma calça azul por baixo e uma camisa branca, e o saiote seria azul também, escuro, e o capacete feito de penas de galinha, esse era a vestimenta, né, hoje tem, já tá mais moderna, né, a gente tem tá com tênis branquinho, a calça branca, camisa branca e um bonezinho azul e fitas com várias cores no corpo, aí esse é o dançante. Agora os capitão não, os capitão já vão parecendo uns capitão da marinha, com quepe, toda uma vestimenta mais parecido com uma guarda real de Portugal na época passadas, todo de branco ali, então a gente tem essa vestimenta que são pelos capitão. Então cada capitão tem uma função ali, cada capitão tem um nome, capitão embaixador, capitão, né, que vai seguir ali, que vai a frente, na frente com uma espada, então cada um tem uma função, cada um faz uma coisa.


P/1 – A cidade toda participa, como que você começou a participar da festa do congado, por exemplo?


R – Ah, desde pequenininha, uns dez anos, eu e as amigas, né, a gente dançava, desde a época da coroação, coroando na igreja e dançando também no congado e aí teve uma época que eu parei de dançar, não vestia mais, agora que eu to começando de novo.


P/1 – Mas quem ensinou isso, quem, porque é aberto, é isso, quem quiser ir?


R – Não, não, sempre ali mais a família, né, predomina muito a família ali, tem outras pessoas também, mas ali muito a família, a minha família é que tem, tem ali aquele reino, reino que a gente chama o congado, né, e minha avó, minha tia sempre ensinava, sempre falava assim o que a gente tinha que fazer. Por exemplo, a gente vai, as pessoas que vai sempre vai com uma buchinha de proteção, sempre vai com dente de alho, pimenta, folha de guiné enrolada num paninho, aquilo você põe no bolso, primeiro, pra queimar os olhos do rabudo ou pra espantar o rabudo por causa do alho, ou pra não ganhar olho gordo ali na folha de guiné, seria, a gente faz essa buchinha e leva, o rosário, terço, sempre tem esse costume, as pessoas ir assim.


P/1 – Entendi, então você aprendeu com a sua família, a sua família sempre participou dessa festa?


R – Sim, a minha mãe já cantava, era quinta voz, a minha tia mesmo, que faleceu, passou a coroa dela pra minha irmã, que é a rainha Santa Ifigênia, meu irmão também é dançante, a namorada dele é dançante, a minha mãe eu não sei se ela vai vestir esse ano, mas ela veste também.


P/1 – Então, Vanessa, deixa eu ver se eu entendi, né, é assim, é uma festa, né, que você fala das suas origens, né, fala que, enfim, terminava uma colheita, por exemplo, que os negros, né, no passado já faziam.


R – Sim.


P/1 – Que tem uma afluência que vem de longe, assim, é isso?


R – Isso.


P/1 – Pelo o que você me falou tem várias pessoas aí, né, você já falou de vários personagens.


R – Vários.


P/1 – Eu não sei o que é a Santa Ifigênia, não entendi nada, eu queria mesmo, assim, saber como que é essa festa, como que ela funciona, então começa às sete horas da manhã, começa às dez da noite, o que é o começo, o que é o meio, o que são todas essas pessoas, você sabe me explicar isso?


R – Então, cada, tem a Rainha Santa Ifigênia e do São Benedito que dão firmeza pro reino, né, tão sempre em oração pra não deixar o reino, né, ali, ocorrer alguma coisa, né, digamos alguma coisa errada ali, eles estão sempre ali firme na oração, os outros também fazem o mesmo processo de tá acompanhando, não sei te falar direitinho qual seria a função de cada um ali realmente dentro de um congado, né, na visão do congado. Mas acontece, começa sete horas da manhã, acorda cedo e vai até o dia todo, às cinco horas da tarde teria uma procissão que retorna, aí tem o doce do rei congo no domingo, aí vai cortejo, depois que sai todo ali, todo mundo já comeu o doce, vai, desce a guarda.


P/1 – Mas sete da manhã a gente se encontra aonde, que eu quero ir?


R – Ih, lá na praça, na praça da Quinta do Sumidouro.


P/1 – Então todo mundo que vai, que participa vai pra praça às sete horas da manhã?


R – Sete horas da manhã, segundo domingo de setembro.


P/1 – E aí eu vou pra onde?


R – E aí já reúne, a guarda sai, vai buscar todos.


P/1 – A guarda, o pessoal que vem.


R – A guarda daqui, daqui da Quinta.


P/1 – Que é o que você tava falando que parece um marinheiro?


R – Isso, vai.


P/1 – Que é o reinado?


R – O reinado, isso, vai buscar todos os reis e rainhas em casa, a guarda vai buscar todo mundo, depois que buscou todos os reis e rainhas vamos tomar café, depois que tomou o café, que a guarda vai chegar lá o café já vai tá prontinho na mesa, aí depois que tomou o café vai pra igreja, lá na igreja vai ter a missa, depois da missa tem aí, o pessoal costuma pagar promessa ou vai direto pro almoço, depende muito. Depois do almoço volta pra missa da tarde, né, no domingo, aí provavelmente pode ser uma missa conga ou pode ser uma missa normal, e aí depois da missa a procissão, vai na procissão, volta pra igreja, aí tem todo ali o trajeto, o cortejo e depois vai comer o doce do rei congo e a guarda desce pra encerrar aquele dia do domingo. Aí na segunda-feira começa tudo de novo, sete horas da manhã vai buscar todos os reis e rainhas, né, em casa, né, e vai tomar o café e assim por diante, só que à noite aí é diferente, aí começa vim ali, já começa a fazer aquele, todo um círculo de oração, né, pra poder fazer as descoroações desses reis de ano pra coroar os reis de ano do ano que vem. Aí eles já fazem o canto, é um canto mais devagar, é um canto mais melódico, aí tem uma oração que a rainha Santa Ifigênia faz, a rainha do povo faz, o São Benedito faz, né, e aí faz-se ali a descoroação pela rainha conga e pelo rei congo, são eles que fazem a descoroação e a coroação. Aí manda, tem toda uma cerimônia, manda ajoelhar primeiro, né, vai ajoelhar ali a senhora, vai ajoelhar o senhor e depois ela vai tirar o cetro da mão, depois vai tirar a capa, depois vai tirar a coroa, por último tira a coroa e a mesma coisa dos outros reis quando vai ser coroado, vai vir o cetro, vai vir o manto e depois por último a coroa, isso encerrando a segunda-feira, que aí a guarda já canta de uma forma, encerrando a festa, bem bacana, e aí encerra também com o doce da rainha conga [risos].


P/1 – Entendi, só umas curiosidades, assim, primeiro, quem que escolhe, ele escolhe quem ele quiser, o rei ou a comunidade escolhe essas pessoas, como que é?


R – Não, as pessoas da comunidade procuram o congado, o reino, né, aí fala, às vezes é promessa, às vezes as pessoas: “Não, eu queria ser o rei de ano do ano que vem”, a maioria das pessoas são promessas, a maioria delas: “Ai, eu tenho uma promessa pra cumprir, tem como eu ser encaixada pra mim ser rainha em tal ano?”, né, eles vão olhar lá qual ano que tem, né. E aí inclusive a minha irmã vai ser rainha em 2015 [risos], 2015, ela pega pra 2014, o ano que vem, pra ser rainha em 2015, pra reinar em 2015 e assim vai, deve ter reis e rainhas aí mais pra frente, aí já agendado, já.


P/1 – Você já foi?


R – Não, nunca fui, é uma festa muito pesada [risos].


P/1 – É?


R – É.


P/2 – Pesada em que sentido?


R – Ah, porque a rainha tem que fazer a comida pra mais de três mil pessoas, né, e assim, a maioria das pessoas é por promessa, né, muito raramente a pessoa vai querer ser rei ou ser rainha ali porque quer, porque achou bonito, muito raro, sempre mais é por promessa mesmo, e a maioria dessas pessoas que fazem isso conseguem, a promessa é alcançada, porque é uma festa que, uma festa cansativa, então você tem que colocar isso tudo ali que você tá precisando, que você tá passando por um momento da sua vida ali, a festa vai te dar tanta força, tanta força que no final acabou, não tem, mais nada [risos].


P/1 – Mas a comunidade ajuda a fazer esse almoço?


R – Ajuda, a comunidade fazendo almoço, ajuda a dar os negócios, mantimentos pra fazer, né, o arroz, feijão, as pessoas doam, doam bastante.


P/1 – Ao longo dessas procissões se reza, se canta, como que é, são ladainhas?


R – Reza, no caso aqui no domingo quem reza, quem canta, quem toca são as guardas, né, esse domingo mesmo a gente vai ter aí mais de dez guardas, então quem faz todo esse trajeto são eles, então fica, né, o padre, né,  se tiver o padre ele vai entoando uma oração de Pai Nosso, de Ave Maria, o pessoal todo acompanha, aí as guardas vão tocando.


P/1 – Você sabe um canto?


R – Um canto?


P/1 – Ao longo do, que acontece no congado, você sabe algum canto?


R – Ih, meu Deus.


P/1 – Abracei de novo sem apertar.


R – É isso aí, exatamente.


P/1 – Ou o contrário.


R – Ah, deixa eu ver.


P/1 – Tá fazendo cara de quem sabe, essa é uma cara de quem sabe.


R – Eu vou ter que puxar, vou ter que lembrar.


P/1 – Pega um ali, tá escondendo o jogo.


R – Eu vou ter que lembrar.


P/1 – Anos de congado, minha gente.


R – Ah, deixa eu ver: (entrevistada canta)  “Senhora rainha, chega na janela, senhora rainha, chega na janela, venha ver a rosa, flor de laranjeira”, é um trem assim [risos], não to lembrando agora [risos], deu branco.


P/1 – Muito legal. Bom, então, Vanessa, a gente tá indo pra uma, enfim, já fechando, tá, a nossa entrevista, só algumas últimas perguntinhas, acho que a gente podia primeiro essa questão, né, do projeto, né.


P/2 – Então, a gente queria saber um pouco mais, assim, como você tá com a gente desde o início, participou desde a primeira reunião, tá super envolvida, né, tá ajudando pra caramba, saber um pouco da sua expectativa, qual a sua expectativa mesmo, da Vanessa, em relação ao projeto e como que o projeto pode contribuir pra facilitar esse diálogo que você falou que é o que falta, o que tá precisando tanto aí na relação comunidade, parque, associação, enfim.


R – Eu acho que esse projeto às vezes pode mostrar pra algumas pessoas, né, como que é a identidade das pessoas que moram aqui dentro, às vezes ninguém conhece, ninguém sabe, às vezes, né, saber um pouquinho da história do congado, né, quem sabe ajudar mais a manter essa tradição, a cultura, né, que a gente tem nessa região, que já tem muito tempo que acontece, né. Eu acho que o projeto, ele pode vir a ajudar dar continuidade a coisas que já vêm acontecendo aqui na região, mas que a gente pode dizer sim, as pessoas estavam um pouquinho, assim, desmotivadas, então isso pode vir como incentivo, né, as pessoas quererem, né, mais, quererem fazer o ano que vem, por exemplo, querer fazer uma coisa diferente, querer resgatar uma coisa, assim, que numa fase, né, já vem tempo, que é uma missa conga mesmo, que é uma coisa emocionante, quem sabe, né, isso pode ta alimentando. Mas eu acho que a expectativa do projeto, pelas pessoas que já fizeram entrevista com a gente lá, que a gente presenciou, a expectativa delas é boa, então elas já tão, assim, ansiosas pro dia que tudo estiver prontinho e até eu mesmo, que eu acho que vai ficar muito bacana e acho que as pessoas vão ver um pouquinho da região delas, um pouquinho da beleza que tem, as pessoas é capaz de ficar até surpresa, né, até: “Nossa, tem isso aqui, nossa”.


P/1 – “Nossa, era assim”, né?


R – É desse jeito, é capaz, bem capaz.


P/1 – Me fala uma coisa, pra você hoje qual é a coisa mais importante, pra você hoje?


R – A coisa mais importante? Nossa, a coisa mais importante, minha família, minha família é o mais importante, meu pai, minha mãe, meus irmãos, minhas irmãs, sobrinhos, sobrinhas, marido, filho, né, tudo é mais importante porque a base, a estrutura de uma pessoa é a partir da família, se você não tem uma família, assim, digamos, se você não conversa, se você não tem uma afetividade com a sua família talvez a sua estrutura não seria uma estrutura muito boa, até mesmo a sua cabeça, poderia se tornar uma pessoa mal humorada, pessoa pra baixo, e, assim, mesmo com tantas coisas que acontecem lá em casa eu ainda gosto da minha família, sinto falta, né, mas eu acho que tudo é a família.


P/1 – Qual que é o seu sonho hoje, o seu maior sonho, quando você fala: “Nossa, eu queria tanto”?


R – Então, é, eu tinha um sonho, eu não tenho mais, não, [risos] que é impossível, eu não tenho mais esse sonho, não, antes eu tinha um sonho de ser cantora, muito tempo atrás, mas [risos] eu não tenho mais.


P/1 – Entendi, porque vocês viram como ela canta bem, né, entendi.


P/2 – Tá se escondendo, tem que ter um pouco mais prática.


R – É como se diz, né, eu fiquei, a gente tem, às vezes a gente tem um sonho, mas é difícil de acontecer, entendeu, aí acaba você desistindo, aí eu desisti, agora o sonho mesmo que eu tenho, eu não falo, assim, um sonho de minha família tá bem, meu pai tá bem, minha mãe tá bem, meu filho tá bem, meu marido tá bem, todo mundo dentro de casa, da minha família, todos estarem bem, tá ótimo.


P/1 – Legal, pra terminar, o que você achou de contar um pouco a sua história?


R – O que que eu achei? Ah, diferente [risos], isso é, pra falar a verdade tô com vergonha [risos], a cabeça tá até doendo de vergonha, mas é uma coisa assim, eu nem pensava em fazer isso não, um dia, não [risos], mas achei bacana porque a gente volta um pouquinho lá pra trás, né, a gente começa a pensar, tanta coisa passou, né, ainda bem que passou porque se tivesse até agora acho que eu não ia suportar, não [risos], mas acho que foi bom, muito bom, ótimo.


P/1 – Quer registrar uma música? Qualquer uma que você quiser, aquela que você mais gosta, aquela que você canta tomando banho, você fala: “Puxa”.


R – [risos] Eu nem canto quando eu tô tomando banho, difícil, agora eu vou ficar com vergonha, deixa eu ver, tem uma música que a gente costuma cantar na época do congado, que a gente tinha muito costume de cantar quando era um coral que a gente tinha, que é o coral Revelação de Maria e eu fiz a música, né, coloquei uma letra numa outra música. Era mais ou menos assim: ( entrevistada canta) “Aleluia, aleluia, ela é rainha deste lugar, aleluia, aleluia, se eu nome é santo, santo, digno de honrar e de louvor, cheia de graça, cheia de amor, santo, santo, digno de honrar e de louvor, cheia de graça, cheia de amor, amém”, a gente cantava pra Nossa Senhora.


P/1 – Muito bom, em nome do Museu da Pessoa e da Camargo Corrêa  muito obrigado pela entrevista.


R – De nada.


- - - FINAL DA ENTREVISTA - - -

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