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História

Mírian – de vencer a quase morte a dar vida aos arranjos florais

História de: Mirian Tatsumi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Mírian Tatsumi nasceu pelas mãos do pai e sobreviveu pela graça de Deus. Primeiro, quando se livrou de uma infecção; depois se recuperou do ataque de um cão feroz; por fim, um atropelamento – esteve em coma, realizou a experiência de quase morte. Fez Relações Públicas, trabalhou dez anos na Japan Airlines, conheceu o marido, seu casamento foi monumental; em breve iria viver no Japão. Lá nasceu o filho, o segundo – a primeira já tinha quase nove anos. A doença da mãe e a estratégia de preparar o filho para a sucessão, levou-a a permanecer dez meses aqui, dois meses em Tóquio. Lá aprendeu arranjos florais – ikebana, Mami Flower, fushigi, oshibana. Tornou-se professora desta última. Acalenta o sonho de desenvolver a Arte com criatividade e cores que só encontra aqui. Ao longo da vida conheceu o sofrimento; hoje, no entanto, se fortalece com a energia das flores.

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História completa

Mírian Sanae Ueda Tatsumi é o meu nome completo. Nasci em Ribeirão Pires – SP – em 09. 04.1957. Ueda, de solteira, vem de mais de 500 anos; meus avós paternos eram grandes plantadores de arroz. Vim ao mundo pelas mãos de meu pai, não dava para esperar a parteira. Vai daí que sempre fui o xodó dele. Mas, inexperiente, ele esqueceu de esterilizar a tesoura: cortou o umbigo, infeccionou e eu quase morri. Meu pai era de Hiroshima, no Japão, aquela da bomba atômica – foi um sobrevivente. Nem radiação o atingiu. Morreu com 56 anos, num assalto, no Brasil. Era de família rica. Minha avó tinha o colegial completo, um espanto para a época. Morreu com 104 anos. Meu tio mais velho era da guarda imperial, morreu na guerra. O segundo irmão herdou tudo e ele nem estudar podia, pois estava às vésperas de ir para o Exército. Já outros irmãos abaixo dele estudaram em Universidades – Tóquio, Nova Iorque, Harvard. Desiludido, ele cedeu à ilusão de migrar para o Brasil, espécie de terra prometida, “onde se plantando tudo dá”. Casou e veio – um casamento arranjado. Minha mãe era professora de ábaco, vivia muito bem. Aqui no Brasil os primeiros tempos foram duríssimos – mamãe chegou a trabalhar descalça por não ter como comprar calçado. Foram para o Mato Grosso. Cortavam árvores que nem 14 pessoas, de mãos dadas, conseguiam abraçar. Muito sofrimento, muitos bichos, ela grávida, foram para Ribeirão Pires, onde todos os filhos nasceram. Aí, a tragédia que não pôde ser evitada – meu irmão morreu envenenado com agrotóxico. (…) a gente rezava, tinha um altarzinho. E sempre orando por ele. O caixão lacrado, com janelinha. De tanto antibiótico que tomou, cabelo e unhas continuaram a crescer. Diziam que ele tinha virado anjo. Meus pais trabalhavam numa chácara – o dono era meu padrinho – e a gente cuidava dos coelhos, dos porcos, das galinhas. Mas foi um cão, que não gostava de criança, que quase me matou. Mordeu na cabeça, nos braços… E eu pequenininha, magrinha, seis ou 7 anos. Mais ou menos um ano depois, fui atropelada. Quase todas as costelas quebradas, o braço virado assim, o rosto afundado no esgoto – fui lançada para cima e me espatifei no chão. Cinco dias em coma. Passei pela experiência de sair do corpo. Eu estava fora do corpo e lá de cima eu via minha mãe debruçada sobre o meu corpo, chorando. Depois me vi subindo uma escadaria e uma voz dizia: “Volte, volte”. De repente, clareou. . O curioso é que eu não falava Português nessa época - em casa era só Japonês - e eu não sabia o significado de “Volte!” E foi justamente lá no hospital que eu aprendi o Português, graças principalmente a uma menina que estava internada lá – havia perdido os dois bracinhos. E então eu me tornei muito mais forte, porque eu era, em verdade, superprotegida por tudo que já havia acontecido comigo. Mas aí, houve um crime envolvendo um psicopata, um tarado, no caminho entre a chácara e a escola – vitimou uma menina de uma outra família japonesa – e minha mãe achou que era demais. Saímos da chácara. Viemos para São Paulo, minha mãe tornou-se costureira e resolveu ter outro filho. E eu já estava recuperada, ajudei a cuidar da irmãzinha que chegou. E, na escola, passei a praticar atletismo para fortalecer, jogar vôlei… Meu avô se emocionou quando me viu correr. E assim, a gente foi vivendo. Mal, mas foi. Poderia até viver bem, mas meu pai não deixou a minha mãe trabalhar, ciúmes e tal, que a Cooperativa de Cotia a havia convidado porque ela disputou e venceu um campeonato de ábaco. Era boa em cálculos. Mas, com a graça de Deus, houve o tempo em que as coisas melhoraram, meus irmãos foram para empresas grandes, eu fui para a Faculdade, e já no terceiro ano, estava na Japan Airlines. Logo eu estava formada em Comunicação e Relações Públicas. Até me lembro de que estava na JAL e era frequente ir ao Japão. Meu avô me encomendava e eu trazia de lá, pele de tubarão. Ele era espadeiro – fazia aquela espada Katana, de artes marciais. Esse avó e minha avó foram fundamentais nos piores momentos, quando a gente não tinha quase o que comer. Nossa vida foi difícil, por muito tempo – a mãe era bem pé no chão, mas o pai era gastador, viciado em corrida de cavalo. Só mesmo viúva é que minha mãe viveu: estudou piano, notas musicais, professora de música, de karaokê, jurada… E a vida seguiu. Eu fiquei 10 anos na JAL, até que fui embora para o Japão – já estava casada, tinha uma filha. Meu marido é engenheiro, com muita credibilidade. Nosso casamento seguiu todas as regras da tradição – até porque meu avô ainda era vivo – e foi um casamento… 750 convidados, limousine para levar na igreja, gente que veio do Japão, especialmente. Uma festa muito grande. (…) do Japão, minha avó mandou kimono – de seda vermelha, com borboletas brancas – e quando a terceira neta, que é o meu caso, se casa com o mesmo vestido, tem muita sorte. Aí, antes de voltarmos definitivamente do Japão – inclusive, o meu marido acaba de adquirir uma empresa, filial, na verdade, de uma corporação que resolveu sair do Brasil depois de 15 anos, por causa da corrupção – veio um período em que eu passava dez meses no Brasil e dois meses no Japão. É que lá no Japão, a minha filha já com oito para nove anos, nasceu o meu segundo filho. E, aos cinco anos, eu o trouxe para cá para ele começar a estudar. E também, coincidentemente, minha mãe teve o retorno de um câncer e eu vinha cuidar dela. No Japão, estudando e trabalhando, ficavam meu marido e minha filha. Como era menino, mudou o plano (…) porque menino é que vai herdar as propriedades. Então ( o meu marido) achou melhor o menino estudar primeiro no Brasil, depois estudar fora. Porque se fizer o inverso (…) não vai ter maturidade para entender o jeitinho brasileiro, esse sócio-econômico-político brasileiro . E aí, quando eu ia para o Japão, por dois meses, era muito trabalho para deixar tudo em ordem – o meu marido e a filha não tinham tempo e lá no Japão praticamente não tem empregada doméstica… Mas, além de todo o trabalho, era também uma festa – feijoada, maçãs enormes, arroz, laranja, tudo para os estudantes brasileiros lá. E aí, eu frequentava a igreja protestante; fazia, ao mesmo tempo, a Sophia University, a Universidade Católica lá de Tókio; promovia reuniões para ajudar o pessoal, com pastelzinho, brigadeiro, pão francês com mortadela, que eu levava daqui. E fazia arranjos florais; ikebana; aprendi Mami Flower; fushigi; oshibana. Hoje sou professora de oshibana adaptado à criatividade, às cores, à liberdade brasileira. Essa mesma liberdade que, às vezes, se choca com regras estabelecidas, tanto na Arte quanto na sociedade. Que o diga minha filha, reconhecidamente independente, que resolveu casar-se – somente ela e o marido, sem olhar a tradição e sem chamar a família. Casou-se com um latino. Mas nós fizemos o casamento deles aqui no Brasil e eles foram para o Rio, em lua de mel. O que nós ganhamos com isso? Honramos a tradição e ficamos todo aquele tempo com nosso neto. E eles, enquanto isso, mergulharam e subiram favela. Adoraram. Meus dois sonhos: que o meu filho… Que eu possa vê-lo encaminhado; e que eu consiga desenvolver uma série de coisas em oshibana.

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