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História

Minhas viagens inspiram as minhas histórias

História de: Rogério Andrade Barbosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/09/2008

Sinopse

Rogério Andrade Barbosa nasceu em Campo Belo, MG, em 1947. Autor de inúmeros livros dedicados à literatura infanto-juvenil, conta sua história ao Museu da Pessoa. Desde pequeno teve uma vida errante, se mudando diversas vezes de casa com sua família, uma de suas paixões sempre foi a leitura, que lhe permitia viajar para muitos lugares. Desejando conhecer o mundo, chegou a tentar entrar na marinha mercante, apesar de não ter conseguido passar na prova, lhe surgiu a oportunidade de ser professor na Guiné-Bissau através de um projeto da ONU. Encantado com o lugar e as pessoas, volta ao Brasil inspiradíssimo para escrever e desde então Rogério não parou mais, motivado pela sua paixão pela cultura dos povos.

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História completa

P1 – Rogério, pra começar, eu gostaria que você dissesse seu nome completo...

 

R – O meu nome é Rogério Andrade Barbosa.

 

P1 – O local e a data de nascimento.

 

R – Eu nasci numa cidade que eu não conheço, por incrível que pareça, que se chama Campo Belo, em Minas Gerais.

 

P1 – E a data?

 

R – Foi em 1947.

 

P1 – Você conheceu os avós?

 

R – Eu conheci a avó materna e o avô paterno.

 

P1 – E conta um pouco deles, o nome deles, o que eles faziam?

 

R – Olha, o meu avô paterno era Oscar Barbosa, era baiano, formado naquela famosa escola de medicina de Salvador. Ele era negro, esse é um dado muito importante que até eu tenho tentado buscar mais coisas sobre ele, pelo fato de ele ser negro e já ter estudado numa faculdade. Mas depois, ele optou por Farmácia e se mudou pra Vitória, Espírito Santo, e foi onde meu pai nasceu. A minha avó é do interior de Minas, era, chamava-se Maria e a minha mãe diz que ela era parteira, dizia que tinha até feito meu próprio parto. Ela era casada com um pequeno proprietário de terras, gente muito simples.

 

P1 – E seus pais, o nome deles, o que faziam...

 

R – Meu pai Osmar Barbosa, chamava-se Osmar Barbosa, que ele faleceu tem oito anos, a minha mãe é viva ainda, Elza Andrade Barbosa. A minha mãe, ela nunca exerceu nenhuma profissão, ela casou muito nova, minha mãe casou com catorze anos, imagine só. Meu pai tinha vinte e oito. A gente vê isso hoje em dia. E o meu pai, ele desde cedo gostava muito de ler, de escrever e a família dele toda tinha um lado artístico, mas ele também, após o falecimento da mãe dele, ele entrou num lance que ele tinha que entrar pra carreira sacerdotal. Então, ele foi estudar pra ser padre, estudou durante dez anos no interior de Minas, num seminário. Lá ele chegou a usar até batina, ele tava no último ano quando ele se apaixonou por uma das alunas lá da aula de catecismo e por isso, ele largou a batina. Mas eu sei a história que meu pai me contava que o pai da moça não concordou com o casamento, o meu pai era... não era negro, ele era mulato assim um pouco mais claro, tanto que na certidão de nascimento dele constava que ele era pardo. É estranho esse nome que se dá: pardo. Enquanto ele estudava pra ser padre, então, ele saiu com um conhecimento muito bom de português, latim, inglês, francês. Então ele tirou uma licença de professor e passou a dar aulas. E ali, dando aulas em pequenos colégios no interior de Minas Gerais ele conheceu a minha mãe. Foi assim, então eu nasci. E meu pai... ele sempre foi assim meio errante, eu peguei isso dele, porque o meu pai não parava em lugar nenhum. Ele dava aula em algumas cidades, e não se dava bem, ganhava pouco, dali ele se mudava. Então, eu me lembro que nós moramos em muitas cidades. Nós moramos em Vitória, que era a terra dele, por pouco tempo. O Rio de Janeiro era sempre a nossa base. A gente ia pro Rio, que eu lembro que lá eu comecei a fazer meus estudos primários. Depois, a gente foi de novo pra Minas, pra uma cidade boa, de porte médio, chamada Itajubá. Voltamos pro Rio, do Rio nós fomos pra Cabo Frio. Voltamos pro Rio, do Rio nós fomos pra uma cidade chamada Miracema, do estado do Rio. Voltamos pro Rio e finalmente, meu pai se radicou em Nova Friburgo, que é na Serra Fluminense, lá minha mãe vive até hoje.

 

P2 – Rogério, só um segundo: toda essa trajetória de mudanças, vamos tentar voltar o mais pro princípio, se possível. Conta pra gente uma das primeiras lembranças que você tem. Quando você pensa e se lembra da sua infância, uma imagem, uma situação, um local que te vem à mente, a mais remota possível. Talvez a sua casa, uma das suas casas.

 

R – Mais remota possível que eu tenho é na Urca, o bairro onde eu morei no Rio de Janeiro, onde eu comecei a fazer o ensino primário. Eu me lembro da praia da Urca, da pedra da Urca, a grande montanha ali na Urca. Essas são minhas primeiras lembranças, de brincar na rua, numa pracinha. Agora, engraçado, da escola eu não lembro praticamente nada; a escola foi algo assim que... e eu sempre fui bom aluno, então, assim, não foi nenhum trauma não. Mas, engraçado, eu não tenho lembrança assim da minha primeira professora. Eu fico, assim, muito pasmado quando eu vejo as pessoas que falam nome das primeiras professoras. Talvez seja até por isso que a gente estava sempre mudando, mudando, mudando... e eu não me lembro de nomes de primeira professora.

 

P2 – Você tem irmãos e irmãs?

 

R – Eu tenho um irmão e uma irmã, são mais novos.

 

P2 – Você pode falar o nome deles, por favor.

 

R – Meu irmão se chama Roberto, é professor e minha irmã Rosélia, professora. Eu também fui professor durante muitos anos.

 

P2 – E como é que era a dinâmica familiar dentro desse contexto de mudança, de não ficar muito quieto num lugar só?

 

R – Não, nós estávamos acostumados, talvez porque desde pequenos a nossa vida era essa: mudar de casa, botar a mobília toda em caminhão, chegar numa casa nova e arrumar a mobília toda de novo e daqui a dois, três anos, sair de novo, entendeu? Então, era uma coisa que a gente estava acostumado, achava divertido até.

 

P1 – E essa coisa de perder amigos, não tinha muito essa angústia...

 

R – Não, não. Porque foi mais na fase que a gente era menor, quando já... a gente se fixou mais, foi na adolescência, que foi que a gente se fixou mais em algum lugar. Eu me lembro que essa cidade chamada Miracema, no interior do estado do Rio, nós ali ficamos cinco anos, que foi um período maior, que aquela fase de adolescência. Mas já quando eu terminei o segundo grau, nós voltamos pro Rio novamente.

 

P1 – E em Miracema, conta um pouco como que era sua casa...

 

R – Miracema nós moramos em duas casas: a primeira era uma casa grande, era uma casa boa, tinha quintal e tudo; depois, nós moramos numa outra, na mesma cidade, que era um sobrado alto.

 

P2 – Eu tenho impressão que essas mudanças todas devem ter unido muito a família, chegando em lugares diferentes. Você e seus irmãos, por exemplo, como é que era a relação com eles? Do que vocês brincavam, vocês tinham contato?

 

R – Olha, a minha irmã é praticamente da minha idade, já o meu irmão é dez anos mais novo, o meu irmão foi um irmão temporão. E o meu irmão, ele me acompanhava quando eu ia jogar futebol, ele ia me ver jogar futebol, basquete, essas coisas assim. A minha irmã, pelo fato de ela ser menina, ela tinha vida própria dela lá e eu tinha minhas brincadeiras de rua, essas coisas próprias de menino: jogar futebol, empinar pipa, jogar bolinha de gude. Mas uma coisa muito presente na minha casa sempre... Muita coisa se perdia nessas mudanças. Mas tinham os livros. Que meu pai lia muito; e meu pai escrevia também. Meu pai era poeta também, publicava muita coisa de poesia e na minha casa havia muitos livros, quer dizer, eu aprendi a me tornar um leitor desde muito cedo, influenciado por meu pai. E também por minha mãe, porque minha mãe, embora ela tivesse só o primário, com essa convivência toda que ela teve com meu pai, ela passou a ler muito também. Então, na minha casa havia todo tipo de livro e nós líamos muito. E uma coisa que eu me lembro até hoje, era o fato que quando nós éramos menores e íamos fazer uma visita em casa assim de família e alguém perguntava assim: “As crianças não querem brincar lá fora?”, meu pai dizia: “Se tiver algum livro, alguma revista eles ficam quietos, basta dar um livro, uma revista pra eles.” Quer dizer, desde garoto eu sempre fui aquele chamado rato de biblioteca, o menino que andava sempre com um livro ou uma revista de história em quadrinho também embaixo dos braços. É um hábito que eu mantenho até hoje. Eu viajo muito, tô sempre na estrada, eu peguei esse bicho carpinteiro, tô sempre lendo, tô sempre com um livro no avião, numa rodoviária.

 

P2 – Qual foi o primeiro contato com um livro? A primeira leitura marcante, alguma sugestão do seu pai talvez, uma leitura que te marcou mesmo na infância.

 

R – Olha, talvez uma das leituras mais marcantes, que foram muitas, mas que... foi aquela coleção do Monteiro Lobato, o Sítio do Pica-pau Amarelo... eu me lembro que eu gostava muito, gostava muito mesmo. Mas havia outros autores como Júlio Verne, eu sempre gostava muito de livro de aventura, livros que falavam de viagem, isso era uma coisa assim que me fascinava muito. Mas eu acho que o Monteiro Lobato, aquela coleção dele, isso quando menor, né!

 

P1 – Essa leitura no começo era muito mediada? O seu pai lia pra você? Como que era isso?

 

R – Não, o meu pai... quando pequeno sim, eles liam histórias, liam e contavam histórias, mas depois eu mesmo. É lógico que eles compravam livros, nós ganhávamos muitos livros, era aniversário, Natal, sempre. Sempre tinha um livro no meio dos presentes, o livro sempre fez parte lá de casa. E até entre nós mesmos, quando a gente dá presente de aniversário, até hoje um livro é sempre bem vindo.

 

P1 – Tem algum lugar, uma estante ou uma sala...

 

R – É, o meu pai sempre tinha uma biblioteca que não era muito grande até por causa dessas mudanças costumeiras, mas meu pai sempre tinha uma estante com bastante livros. Uma ou duas ou três estantes dependendo da casa onde nós estivéssemos.

 

P1 – E seus irmãos também liam bastante, então?

 

R – Sim, lá em casa todo mundo, minha mãe, meu irmão, minha irmã, todos somos grandes leitores.

 

P1 – E conta um pouco, fora os livros, das outras brincadeiras que você gostava da época.

 

R – Olha, futebol foi uma coisa que marcou muito, gostava muito de futebol, tanto futebol de campo quanto futebol de salão. Basquete também praticava também, às vezes, era só trocar a camisa. Eu gostava de jogar botão, botão também eu gostava, isso era uma coisa que eu gostava muito. Mas os esportes assim que mais me marcaram foram o basquete e o futebol, futebol de campo e futebol de salão. E depois, mais tarde um pouco, que aí eu comecei a praticar caratê, tai chi, essas coisas assim.

 

P1 – Com essa vida errante, como é que era manter uma paixão por um time assim?

 

R – Por um time?

 

P1 – Você não tava em nenhum estado, você tava mudando o tempo todo.

 

R – Ah sim, mas o meu pai era um botafoguense fanático, era um botafoguense fanático. Nós pegamos isso dele também, embora eu não seja um torcedor fanático, eu torço pelo Botafogo, mas nada de fanatismo. Mas o meu pai era um torcedor daqueles que ficavam ouvindo o jogo num radinho. Então, desde cedo não teve problema de torcer pra um time, onde quer que nós estivéssemos nós éramos Botafogo.

 

P2 – E as lembranças de Miracema já são mais da adolescência...

 

R – Sim.

 

P2 – Ali você já consegue se lembrar com mais detalhe do mundo, vamos dizer assim, do colegial, ali na escola...?

 

R – Sim, sim, sim, claro.

 

P2 – Como que isso vem à sua mente, o ambiente escolar?

 

R – O ambiente escolar?

 

P2 – Na adolescência.

 

R – Vem aquela coisa dos bailes, aqueles bailes que você tinha que ir de terno e gravata pra dançar, baile com orquestra. A escola, os professores, eu ainda peguei aquela escola que eu me lembro que na minha época de catorze anos, mais ou menos, eu me lembro que havia prova oral. Então, você tinha no final do ano, além da prova escrita, você tinha uma prova oral; você tinha que ir lá na frente, sorteava um ponto e o professor te fazia perguntas, isso era o pavor de muita gente, a prova oral. Tinha gente que chegava lá na frente, ficava mudo. Mas eu sempre fui aquele aluno médio, eu nunca fui um excelente aluno nem nunca fui um mau aluno. Até porque tinha uma coisa: porque eu sempre estudava nas escolas onde meu pai dava aulas, geralmente eram escolas particulares. Então, meu pai nos matriculava, porque aí não precisava pagar a mensalidade, não é isso? E ocorria o seguinte: se eu tirasse uma boa nota os colegas diziam pra mim: “Também, filho de professor, tem que tirar nota boa.” Se eu tirasse nota ruim, eles já me encarnavam dizendo: “Se eu fosse filho de professor eu não tirava nota ruim.” Então, eu nunca sabia que nota tirar, então, eu ficava ali na média. Mas tem uma coisa na escola... eu gostava de todas as matérias, mas matemática realmente foi a minha cruz, essa era aquela que eu passava raspando. E a matemática me impediu assim de concretizar uns sonhos que eu tinha de menino, de adolescente. Porque desde garoto, eu viajava nos livros, os livros pra mim sempre foram como se fossem verdadeiros tapetes voadores, me levavam pra lugares distantes, misteriosos. E eu tinha colocado na cabeça que, quando eu crescesse, eu queria ter uma profissão que me permitisse viajar pelo mundo. Então, quando eu terminei o segundo grau, eu fiz uma pesquisa, assim, procurei saber. Então, eu decidi que eu ia entrar pra marinha mercante, que eu ia ser oficial da marinha mercante, porque nessa profissão, eu poderia viajar bastante como eu sempre sonhei. Mas eu fiz provas lá no Rio de Janeiro, passei em todas as matérias, menos em matemática. Aí, no ano seguinte, eu ainda tentei novamente, estudei, fiz cursinho e aquela coisa toda, mas tornei a ser reprovado em matemática. E aí, como eu gostava também, sempre tive uma queda pra estudar idiomas, aí eu fui fazer Letras, fui fazer Letras. Aí, me formei professor de inglês e português.

 

P1 – Voltando um pouquinho, você era aquele aluno... quase todo escritor que vem contar a história lembra que a professora, ou então, as pessoas pediam redação ou então...

 

R – Olha, eu não me lembro desse fato de pedir redação, mas eu sei que eu escrevia bem, todo mundo dizia que eu escrevia bem, que eu escrevia bem. E eu lembro também que garoto eu gostava, gostava de ficar inventando histórias assim na página de trás de um caderno, mas não sonhava em ser escritor, isso nunca passou pela minha cabeça ser escritor. Eu gostava de escrever. Tanto que teve uma fase assim entre catorze, quinze que eu gostava de colecionar selos e eu tinha correspondentes em várias partes do Brasil e também do exterior que a gente trocava selos. E eu me lembro que eu escrevia cartas assim de doze páginas, entendeu? E que às vezes a pessoa que mandava cartas escrevia, na época que não tinha internet, então era a mão. Quer dizer, eu tinha essa coisa em mim, do escrever.

 

P2 – Você se lembra de algumas histórias que você conheceu por essas cartas, que você trocava com pessoas do mundo inteiro?

 

R – Ah, assim, uma história interessante, não. Às vezes, eram pessoas de várias partes, é lógico que as pessoas sempre contavam um pouquinho da sua vida, o que fazia, etc e tal, mas o interesse maior mesmo era filatelia, era trocar os selos. Eu não me lembro de nenhum fato marcante. Com essa coisa da correspondência, eu fui ter fatos marcantes mais tarde agora com os leitores; aí com os leitores eu tenho bastante coisa.

 

P1 – E como que se deu essa passagem dos primeiros livros, Lobato, Júlio Verne pra outros livros? Quais eram os autores que você admirava na adolescência...?

 

R – É lógico, isso aí foi uma coisa progressivamente, você passa aquela fase de Lobato, aí, você entra Júlio Verne, aí, já entra os livros de aventura, Mark Twain. Havia uma coleção chamada Terra, Mar e Ar, livros tipo de Tarzan, era uma série de livros, a Ilha do Tesouro, piratas. Aí, depois você já passa a ler até já por causa da biblioteca do meu pai, aí você já começa a ler... eu comecei a ler Jorge Amado, comecei a ler Graciliano Ramos, que eu gostava, esses eram dois autores que eu gostava quando rapaz, quando adolescente. Esses eram dois autores que eu gostava, principalmente o Graciliano Ramos.

 

P1 – Aí, você vai e resolve fazer Letras, então...

 

R – Aí eu resolvo fazer Letras. E tem essa influência do meu pai também, professor. Meu pai chegava em casa todos os dias com pilhas de provas pra corrigir, às vezes, a gente ajudava a separar as pilhas de provas. Então, talvez por essa influência do meu pai, eu fui ser professor, como os meus irmãos também foram ser. E eu trabalhei no Rio de Janeiro durante muitos anos como professor, trabalhei durante 25 anos. E eu sempre que eu podia, nas férias, eu botava a mochila nas costas e saía viajando pelo Brasil, tinha tenda, gostava de acampar. Então, conheci o Brasil quase todo assim. Passar carnaval em Salvador, festival de inverno em Ouro Preto em Minas Gerais, cheguei a cruzar com alguns colegas aqui a fronteira, Bolívia, Peru, o Trem da Morte. Mas Europa, África, Ásia, isso tava muito longe do meu salário de professor. Mas um belo dia, eu tava lendo um jornal no Rio de Janeiro e eu vejo lá um anúncio que era das Nações Unidas, que dizia assim: que a ONU procurava professores brasileiros para trabalhar na África. Eu falei assim: “Puxa vida, África!” Então, eu me inscrevi a acabei sendo selecionado. A seleção foi na base de entrevista, currículo, ter boa disposição, saúde, aquela coisa toda. E eu fui selecionado. Apresentaram-se mais de mil professores e trinta foram selecionados, trinta professores de várias partes do Brasil. Então, nós fomos trabalhar na Guiné-Bissau, que era uma ex-colônia portuguesa que tinha acabado de obter a independência e que não tinha professores. Que após a saída dos portugueses, os portugueses vão e deixam pra trás um país com 98% de analfabetos. Então, não havia professores qualificados deles, então, eles precisavam de ajuda, mas eles não queriam mais também professores de Portugal, então, por isso que vieram pedir ajuda ao Brasil. E lá fomos nós. E foi assim uma experiência maravilhosa porque eu fiquei lá dois anos. Nós fomos muito bem recebidos, nós éramos professores de história, matemática, geografia, física, química, quer dizer, era uma equipe de primeiro e segundo grau, de todas as matérias. Alguns chegaram lá, não se deram bem com o país, voltaram logo, um, dois meses depois. Um grupo maior ficou. E pro segundo ano, que podia renovar o contrato quem quisesse ficar, ficamos só três: eu, um colega da Bahia e um outro de Santa Catarina. E foi uma experiência assim que você trabalhar num país que acaba de obter independência. Eu me lembro que logo nos primeiros dias, quando eu entrei em sala de aula, as salas eram... estavam abarrotadas de alunos, era média de cinquenta, sessenta alunos em sala de aula. Mas eu nunca tive nenhum problema de disciplina porque os alunos eram muito politizados, quase todos eles tinham tomado parte na luta de libertação. Quer dizer, eles tinham lutado inclusive pra poder estudar, que eles não tinham acesso às escola durante a época do colonialismo. Então essa foi uma experiência que marcou muito a minha vida. E durante esses dois anos na Guiné-Bissau, eu fiz dois grossos diários, essa coisa minha de gostar de escrever e tal. Eu me lembro que na faculdade tinha um pequeno jornal na faculdade, mas era aquela época da ditadura, mas mesmo assim eu lembro que eu fazia algumas matérias pro jornal também. E quando eu voltei da Guiné-Bissau, que eu volto com aqueles dois grossos diários eu vou a uma bienal do livro de São Paulo e eu vi que não tinha quase nada publicado pra crianças aqui no Brasil falando sobre África. Tinha muito pouca coisa: tinha alguns livros do Joel Rufino, basicamente isso, entendeu? E eu falei assim: “Puxa vida! Tanta coisa, escutei tanta coisa, trouxe tanta coisa. Por que não criar uma história?” Então assim, eu fiz uns contos, selecionei uns contos que eu tinha trazido de lá... na época, tinha máquina datilográfica, aquela coisa. Aí, o conselho de algumas pessoas, eu tirei dez cópias, não conhecia ninguém no mundo editorial, e mandei pra dez editoras e fiquei meses esperando uma resposta. Sei que no final de uns oito meses chegaram as primeiras respostas. Eu lembro que eu recebi oito ‘nãos’ e dois ‘sins’. Os dois ’sins’ vieram de duas grandes editoras: uma foi a Ática, outra foi a Melhoramentos. A Melhoramentos, na época, fez uma proposta melhor, que isso era 1986... não, 1987. Em 88 ia ser comemorado o centenário da Abolição da Escravatura, quer dizer, eles tiveram uma sacada genial, principalmente a editora na época chamada Ísis Valéria, ela foi fenomenal. E o livro saiu com ilustrações, fizeram quatro volumes, eram muitas histórias, resolveram dividir o livro e fazer quatro volumes. Essa coleção saiu no começo de 1988 com ilustrações de Ciça Fittipaldi, que é umas das maiores artistas nossas na área de ilustração e ele ganhou todos os prêmios da literatura aquele ano: o melhor livro pra criança, prêmio Jabuti, ele foi vendido pro México, pra Alemanha, pros Estados Unidos. Só no México, ele vendeu mais de 500 mil exemplares pro governo mexicano, que é um grande comprador de livros. Então, eu comecei com o pé direito, mas continuei dando aula, continuei dando aula.

 

P2 – Fala um pouquinho dessas historias, porque eu queria te perguntar um pouquinho do seu cotidiano lá na Guiné-Bissau. Mas aí você já entrou falando do seu retorno e da produção literária baseada nessa experiência lá. Então eu queria que você pudesse falar um pouco dessas duas coisas, porque o que você produziu é reflexo do que você viveu lá.

 

R – É, o meu cotidiano era: eu dava aulas à noite, então, eu tinha o dia inteiro totalmente livre pra mim. E lá eu tinha uma pequena moto, então, eu viajava muito. Ia pro interior do país. Eu ia nas aldeias, ficava observando as pessoas, conversava com as pessoas, as empregadas do hotel, eu conversava muito com elas, tudo que elas falavam eu tomava nota, entendeu? Havia sempre alguém que me contava uma história. Eu também tentava achar alguma coisa assim, alguns livros também antigos que foram escritos pelos missionários que estiveram lá cem anos antes de eu chegar lá, e que tinha recolhido também umas histórias também, e os meus alunos. Então, eu tinha toda assim... muitas informações, fora as informações minhas, visuais, de eu viajar pelo interior, de eu ir pra longe, entendeu? Então, eu voltei com muita coisa. Todos esses dados que eu coletei me deram material suficiente pra escrever várias histórias, entendeu? E que foram a base da pesquisa com a qual eu trabalho até hoje. Quer dizer, eu escrevo todo tipo de livro, mas a metade da minha produção, que eu já to com uns setenta livros publicados, eu diria que uns trinta deles falam sobre a cultura afro-brasileira, africana.

 

P1 – Depois desse primeiro livro, todo esse... foi super-bem recebido e você realmente pensa em ser só escritor.

 

R – Não, depois do primeiro livro, eu continuei dando aulas porque ninguém consegue viver de direitos autorais com um livro só no mercado. Achei legal, achei: “Poxa vida, vendeu...”, mas continuei dando aulas lá no Rio de Janeiro e aos poucos eu fui publicando outros títulos. Fui publicando, fui publicando mais e quando eu já tava assim com uns trinta livros, trinta e poucos livros publicados, isso tem dez anos, há dez anos, e que à medida que você vai publicando mais começa a chegar convites, pra feiras de livro, pra eventos, inclusive eventos até no exterior. E você começa a viajar e já não estava dando pra conciliar as duas coisas, o magistério. Então, eu fiz uma opção, falei assim: “Eu vou tentar. Eu acho que se eu me dedicar totalmente aos livros, eu consigo viver dos direitos autorais.” Então, foi um lance ousado, eu larguei a carreira do magistério, passei a me dedicar realmente, integralmente a escrever, a viajar e a dar palestras, essa coisa toda. E hoje em dia, eu consigo viver só dos direitos autorais, quer dizer, eu não ganho uma fortuna, mas o que eu ganho dá...

 

P2 – Nessa trajetória de mais ou menos trinta livros, que você diz que conseguiu chegar num ponto de poder se dedicar exclusivamente a eles, fala pra gente, cita pra gente alguns marcos desse período. Alguns marcos de lançamentos de livros que foram especiais pra você por alguma razão, alguns destaques nessa sua produção, nessa primeira fase, digamos assim.

 

R – Olha, o grande destaque realmente é o primeiro, era uma série que chamava Bichos da África, esse nome não foi eu que dei, foi a editora que resolveu trocar o nome. Eu não gostei nada porque dava a impressão de ser histórias sobre bichos. Havia muitos contos sobre animais, mas aí, depois eu pedi pra que colocassem pelo menos um subtítulo: Lendas e fábulas da África. E essa é uma coisa interessante: quando você está começando, os primeiros livros, às vezes, você leva essas surpresas, a editora resolve mudar o título e não te avisa. Eu só vi o livro pronto, as ilustrações depois que elas estavam prontos, entendeu? Quer dizer, hoje em dia é totalmente diferente, hoje em dia eu participo ativamente da produção do livro. Meus livros são muito específicos, eu acompanho o trabalho do ilustrador e tudo. Outros livros marcantes... eu ganhei alguns prêmios, mas não nenhum prêmio, assim, que eu diria relevante, eu tive uma indicação ao IBBY [International Board on Books for Young People], que é um congresso que tem de literatura infantil mundial e que a cada ano cada país indica... a cada dois anos, um país indica um livro e um autor e eu também fui há uns quatro anos, eu fui um autor indicado. Mas você tá querendo saber da primeira fase. Na primeira fase, deixe-me ver, na primeira fase, eu tive um livro indicado pra Biblioteca Nacional de Munique, que a cada ano essa biblioteca internacional escolhe quatro, cinco livros de cada país pra fazer parte dessa biblioteca internacional e eu tive um livro indicado.

 

P2 – De repente, um livro marcante, mas não só pela premiação: algum novo tema que você abordou, algum livro que você produziu com base numa história, uma experiência pessoal muito particular, muito forte.

 

R – Eu tenho um livro meu que vendeu muito e continua vendendo que se chama Rômulo e Júlia - Os caras-pintadas, que foi na época do Collor e que eu estava no Rio de Janeiro acompanhando a maior passeata que os estudantes fizeram no Rio de Janeiro, que foi uma passeata que eles colocaram 100 mil estudantes na rua. E eu tava ali assistindo assim maravilhado, ver aquela garotada com o rosto pintado cantando e a polícia vinha do lado assim só escoltando a passeata. Quer dizer, não havia a repressão, diferente da época que eu estava na faculdade e a polícia vinha bater, prender e eu percebi claramente, como havia ali 100 mil jovens de várias escolas do Rio de Janeiro, que rolava também muito assim muito um clima de paquera, de namoro e eu falei assim: “Porque não criar uma história aproveitando esses personagens, mas mostrar a eles o que aconteceu com a geração dos pais deles?” Então, esse livro que se chama Rômulo e Júlia – Os caras-pintadas, o título é proposital porque é pra lembrar Romeu e Julieta que eram filhos de famílias inimigas. Então, na história eu coloco: o Rômulo é um rapaz, um líder estudantil, ele é politizado até porque o pai dele é um jornalista que foi torturado durante a ditadura militar brasileira. E na passeata, ele encontra uma menina que é o oposto dele, que ela foi na passeata porque as amigas levaram, que não entende nada de política, alienada entre aspas e o pai dela é um militar que foi torturador durante a ditadura. Então através de uma história romântica, mas que eu pude tocar em temas sensíveis como tortura, sequestros e desaparecidos políticos. Isso foi um livro também que teve bastante sucesso, ganhou também alguns prêmios.

 

P2 – E como é que foi deixar a sala de aula e se dedicar integralmente?

 

R – Eu sempre gostei de dar aula, sempre tive um relacionamento muito bom com os meus alunos, mas não foi tão assim ruim porque até hoje o meu contato com criança, com jovem, com adolescente é intenso. Você vê hoje aqui, até nessa feira que nós estamos aqui em Paraty, o que tem de crianças aí. A gente vai às escolas, a gente é assediado o tempo todo, é correspondência, é carta, é e-mail hoje em dia. Então, o meu contato com os jovens, até a literatura, porque eu escrevo basicamente pra crianças e jovens, então eu tenho que estar sempre mesmo em contato com eles, se não como você vai escrever um livro com vocabulário deles, ou mais próximo do vocabulário deles, se você não tiver sempre em contato com eles?

 

P1 – Queria que você falasse um pouquinho, assim, desses temas afro, africanos e até afro-brasileiros que você volta pro Brasil, então, você tem uma influência. Por quê? Fora esse segmento de mercado que você vê que era uma coisa que faltava, mas qual a preocupação com isso, pessoal sua?

 

R – Olha, eu tinha uma coisa que estava em mim, pelo fato de eu ser descendente de negros por parte do meu pai. Eu quando garoto, eu vi meu pai ser vítima de racismo, de uma vez de pichação de muro de escola, de comentários de escola, essas coisas todas. E eu sempre tive orgulho de ter o sangue negro nas veias, quer dizer, tudo isso influenciou muito. E quando eu volto ao Rio e que eu tomo consciência de que eu não conhecia bem esse mercado infantil e juvenil, foi por acaso indo numa Bienal e percorrendo e eu começo a escrever na época em que a literatura infanto-juvenil brasileira está dando um salto, que ela faz a grande mudança. Porque a literatura infanto-juvenil, ela ficou marcada muitos anos aqui no Brasil pela tradição europeia mesmo, por aquelas histórias de conto de fadas, quer dizer, o único autor que quebra isso é o Lobato. Mas depois que o Lobato morre, praticamente não surge quase ninguém, só na década aí de... comecinho de 80 que tem um grupo que é o Ziraldo, a Ana Maria Machado, o Joel Rufino, que eles começam a publicar livros com temática brasileira. Eles realmente são os grandes... a Lygia Bojunga também, a Ruth Rocha, eles fazem uma mudança na literatura infanto-juvenil brasileira que passa a falar das coisas brasileiras. Em vez de ser aquela literatura voltada pra Europa, já passa a ser literatura infanto-juvenil brasileira. Quer dizer, eu sou de uma geração depois deles, mas eu já peguei já esse bonde andando, quer dizer, já tava uma coisa forte, a produção literária brasileira já muito forte. Mas eu notei que não havia quase nada sobre África! Ora, nós somos um país onde a maioria da população tem o sangue negro em suas veias, não é isso? O Brasil é o segundo país no mundo com população negra, o primeiro é a Nigéria e depois, é o Brasil. Então, é um absurdo porque a criança ela precisa se ver refletida no livro, se a criança ela é negra ou índia e ela abre um livro e só vê gente loura, ela não se vê refletida naquele livro. Isso acontecia também no cinema, na televisão brasileira que agora que a televisão brasileira tem colocado personagens negros, ocupando papel principal, mas não é muito ainda não. Se você ainda olhar pra propaganda, essa coisa toda, o Brasil ainda exibe uma face muito europeia. E essa face europeia estava exibida nos livros infanto-juvenis. Tirando Ana Maria Machado e Joel Rufino, mas que eram poucos ainda no meio da produção. E eu percebi que havia essa brecha, que não havia especificamente livros falando sobre África. Então eu resolvi escrever até por isso, sabe? Que eu falei assim: “Puxa vida, as nossas crianças precisam saber”, das histórias que tem na África que são tão parecidas com as nossas, lógico: os escravos trouxeram esses contos pra cá, aqui se misturaram. Então foi isso, sabe? Hoje em dia, já há outros autores escrevendo sobre África, como também há sobre os indígenas também, que também não havia quase nada também, o índio quando aparecia era aquele ‘o índio bom é o índio morto’, o índio era um selvagem. Ou então, aqueles livros que o índio era ilustrado como se fosse um índio americano com aquelas roupas e penachos, vestido com se fosse um índio americano. Então, eu acho que a nossa literatura infanto-juvenil, hoje em dia, é uma literatura diversificada e que a criança brasileira, ela se vê refletida nesses livros, nós temos todos os rostos ali.

 

(pausa)

 

P2 – Você tava falando da sua percepção do mercado editorial na década de 80, nessa conquista dessa identidade.

 

R – Sim, uma identidade brasileira que eu acho que hoje ela está bem marcada. Os livros brasileiros têm feito sucesso no exterior, têm ganho vários prêmios, até autores como a Ana Maria Machado ganhou prêmios internacionais, muitos livros nossos são traduzidos, eu mesmo tenho livros traduzidos pro espanhol, pro alemão, pro inglês.

 

P1 – E quais são os temas da cultura africana que você mais procurou abordar assim?

 

R – Eu gosto mais dos contos tradicionais, os contos tradicionais, mas eu faço muito o chamado ‘reconto’. O que é o ‘reconto’? O reconto é você pegar um conto tradicional africano e eu vou tentar recontar esse conto aqui pro brasileiro, pro público brasileiro. Quer dizer, não é uma tradução, não é uma adaptação, porque é o seguinte: quando num conto tradicional lá, o contador numa aldeia seja onde for ele faz referências ao baobá, que é aquela imensa árvore, ele não precisa explicar ao público dele todo o significado que o baobá tem. O baobá é, numas regiões, considerado uma árvore sagrada, em outras, é ali que são enterrados os chefes, os reis antigamente, tem todo esse significado. Então, quando eu conto essa história pro público brasileiro, eu tenho que dar um jeito de inserir na narrativa o que significa o baobá. Num conto tradicional de animais, quando aparece uma tartaruga, a plateia já sabe que vem aí, ou um conto engraçado ou um conto no qual a tartaruga se vai dar bem, ela vai enganar um animal maior. E aí, eu tenho que dar um jeito também na minha forma de escrever, de explicar isso pro público brasileiro. Eu sempre procuro explicar que na África eles têm sempre um respeito pelos mais velhos, quanto mais velho, mais idosa a pessoa, maior o respeito, que eles acham que são pessoas que viveram muitos anos, elas têm muita coisa pra contar, ela tem mais experiência. E como a tartaruga é um bichinho que vive muitos anos sabidamente, pode até cem, mais anos, eles fazem essa associação: se a tartaruga vive muito, ela deve ser muito esperta. Então, nos contos tradicionais ela sempre vence: vence o leão, vence o elefante, isso é bem peculiar no conto tradicional africano. Outra coisa que eu faço também: eu nunca digo: “É uma história africana.”, eu digo: “É uma história de tal povo.” Aí, eu vou dizer qual esse povo, eu dou um jeito de explicar qual é esse povo, eu tento inserir no conto canções desse povo, vou apresentar a forma como esse povo se veste, entendeu? Tudo isso eu tenho mínimo cuidado. Aí, vem a minha pesquisa, vem toda a base que eu venho me dedicando há vinte e poucos anos a esse estudo da cultura africana. Eu gosto muito de fazer... não sei se eu posso.

 

P1 – Claro. 

 

R – Eu lancei agora um livro chamado O Segredo das Tranças e outras histórias africanas que são cinco recontos, cada um deles dos países africanos de língua portuguesa, que são cinco: Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e a Guiné-Bissau. Esse é um livro que eu gosto muito. E um outro que eu fiz, que é uma das minhas preocupações que é a seguinte: sempre que eu conto que já morei na África, etc e tal, as pessoas, a tendência é perguntar: “Ah, você morou na África? Como é a África?” Aí eu tenho que perguntar assim: “Qual África você quer saber?”. Que África é muito grande. “Que região da África você quer saber?” Então, pras crianças, quando são as menores, eu faço questão de explicar pra elas, às vezes pra espanto delas. Que a África tem florestas, tem rios, tem animais, etc. A África tem grandes cidades, cidades com arranha-céu, com shopping, com cinema. E muita gente pergunta: “E tem cinema?”, “Tem shopping?” Então, você tem que explicar, é lógico que com os maiores você tem que falar de todo o passado da África, de falar no Egito, tudo isso. Esse livro que eu lancei agora se chama ”O ABC do continente Africano”, que é um abc mesmo, quer dizer, onde cada letra ela vai falar um pouquinho de alguma coisa da África; pode ser da dança; pode ser da música; pode ser das grandes civilizações; pode ser dos grandes líderes africanos como Mandela; de um rio africano, o Nilo aqui no caso; as grandes civilizações; as grandes metrópoles existentes na África; os problemas de poluição, essas coisas todas. Quer dizer, é um abc mesmo que dá uma visão geral da África. É uma visão mais simplificada, lógico, voltada pra um público mais infantil, mas ele é um abc. Agora, eu não escrevo só sobre África. Como eu viajo muito, eu gosto muito sobre o folclore brasileiro, eu tenho muitos livros sobre as festas tradicionais, sobre o Boi Bumbá, eu tive lá no Boi de Parintins, o Boi de Mamão de Santa Catarina. Quer dizer, eu faço questão de ir nos lugares, eu não faço livro de orelhada, entendeu? Se eu resolvo escrever um livro sobre o Boi de Parintins, eu vou lá, vou lá na ilha de Parintins assistir, anotar, conversar com as pessoas. O Boi de Mamão em Santa Catarina, eu vou lá no Boi de Mamão de Santa Catarina. Se um livro sobre inscrições rupestres no interior do Piauí, lá vou eu pro interior do Piauí. Pra ir lá, vou lá, tiro foto, pesquiso. Eu moro no Rio de Janeiro, uma vez eu fiz um livro sobre supostas inscrições existentes no alto da pedra da Gávea, que é um morro, uma pedra lá no Rio muita alta, de onde os praticantes de asa-delta se jogam, se lançam. E existe uma lenda que lá tem umas lascas na pedra que muitos acreditam que são vestígios da escrita de povos... os fenícios, que os fenícios estiveram no Brasil muito antes de Cabral e deixaram escrito lá uma frase, que alguns juram que aquilo lá ta escrito em fenício. Lá fui eu subir, tem que subir com corda, entendeu, essa coisa toda. Levei quatro horas e meia pra chegar lá em cima. Então, eu gosto de fazer isso. Fiz agora também dois anos uma pesquisa sobre os chineses que trabalharam na estrada Madeira-Mamoré, lá fui eu pra tentar ver se conseguia achar ainda descendentes dos chineses lá na Madeira-Mamoré, fui lá ver os restos dos trilhos no Amazonas, no meio da floresta, quer dizer, eu gosto muito disso. Agora, faço também o chamado livro de aventura, livro de ação que criança gosta, eu faço alguns ambientados aqui no Brasil, posso fazer outros ambientados na África também. Faço até histórias de amor também: esse é um livro novo também, chama-se Meu Primeiro Amor, onde são dois idosos que lembram como foi que eles se conheceram na escola e eles vão lembrando através de bilhetinhos que eles escreveram um pro outro o quanto eles eram apaixonados um pelo outro; só que nenhum dos dois tinha a coragem de contar pro outro. Quer dizer, depende muito. Agora, ideias... bom, eu pra escrever uma história, eu preciso ter uma ideia. Eu sei que tem autores que dizem que sentam em frente ao computador, bate uma letra e a partir daquela letra, eles conseguem ficar sentados olhando praquela letra e vão em frente. Não, eu preciso ter uma ideia básica. Tem gente que tira de sonho, até que sonho realmente é uma boa matéria, mas eu ainda não escrevi, não consegui escrever nada baseado em sonho. As minhas fontes principais são as viagens que eu faço, porque eu, quando garoto, eu viajava nas páginas dos livros, e hoje em dia, eu viajo graças aos meus livros. Então, hoje em dia eu conheço aí muitos países e já estive nos cinco continentes, tive a felicidade de conhecer os cinco continentes. Não conheço todos os países do mundo ainda não, mas ainda chego lá. As viagens me dão muito material, que eu tô sempre com o meu caderninho, tô sempre anotando no meu diário de bordo que eu vou anotando tudo, tudo. Eu cheguei agora de Angola e tô com um diário lá todo anotadinho do que eu vi, do que eu escutei, as histórias que as crianças me contaram lá. Que todos esses lugares assim eu sempre peço pras crianças me contarem histórias delas, histórias tradicionais que os avós contaram pra elas, as tias. Jornal também me dá muita ideia, ainda mais jornal brasileiro que todo dia você abre e tem um crime, tem um sequestro, tem alguma coisa assim. Jornal brasileiro também me dá muita motivação. Eu não sei escrever livro de encomenda, algumas editoras já me solicitaram assim. Não, eu gosto de escrever assim aquilo que eu tô afim, sabe? Então, se eu tenho uma ideia eu tento fazer uma sinopse, pra mim assim, tento fazer duas ou três linhas. A partir dessa sinopse, eu vou pesquisar tudo, dependendo do assunto do livro eu vou pesquisar tudo sobre aquilo, vou correr, vou correr, vou correr bibliotecas, arquivos. Eu tenho uma história que é sobre a invasão dos piratas franceses no Rio, chama-se A Carta do Pirata Francês. E eu fui no Arquivo Nacional e consegui achar a carta que um pirata enviou ao rei na época, lá fui eu conseguir achar a carta. Foi difícil no Arquivo Nacional. Então, eu faço essa pesquisa primeiro: junto o material e aí, só aí que eu vou tentar escrever. E o meu grande segredo, quer dizer, pra mim, o meu método de escrever é esse: eu tento escrever a primeira página, a primeira página pra mim é mais difícil porque eu escrevo para o público infanto-juvenil, que é diferente do público adulto. O adulto, se alguém te emprestar um livro e dizer assim: “Ó, esse livro aqui no começo ele não é muito bom não, mas depois ele fica muito bom.”, você vai tentar ler; se você gosta de ler, você vai. A criança, se ela abrir já na primeira ela não gostar, ela larga, então, eu tenho que dar um jeito de agarrar o leitor logo ali na primeira página, a primeira página é muito importante nesse tipo de literatura que eu faço. Se eu conseguir fazer a primeira página do jeito que eu gosto e que eu acho que tá legal, eu vou em frente; se eu não conseguir realmente eu desisto, aí, eu vejo que eu não vou conseguir fazer aquele livro.

 

P1 – Queria que você pudesse ler algum trechinho de algum dos três que você mostrou aí, se você quiser, um trechinho de um livro.

 

R – Já que eu falei tanto de África... o ‘ABC’ são pequenos textos porque neste abc fala muito as ilustrações também, o texto, ele é curto. E esse é um casamento muito importante no livro infantil: escritor e ilustrador, essa parceria é importantíssima. Então, aqui no verbete África, por exemplo, eu digo assim: “África de florestas, pântanos, desertos, estepes, savanas, rios, mares e montanhas infindáveis. África de monumentos históricos talhados em blocos de pedra. África de modernas e vibrantes metrópoles. África de povos urbanos, agrícolas e pastoris. África de múltiplas etnias, culturas, línguas e religiões.” Quer dizer, num texto curto, eu tento dar uma visão do que é o continente africano, pra não ficar aquela visão estereotipada de África. Na letra b eu coloquei baobá, então eu digo: “Baobá, árvore sagrada e gigantesca, senhora das áridas vastidões. Seu tronco é tão grosso que são necessários vinte homens de mãos dadas para abraçá-lo. Os galhos secos e eriçados parecem raízes em direção ao céu abrasador como se ela tivesse sido plantada de cabeça para baixo. Em algumas localidades, acredita-se que quem tomar um chá feito com suas folhas nunca será devorado por um crocodilo. Por sua sombra acolhedora e pela capacidade de armazenar água, ela é chamada também de árvore da vida, ou simplesmente, de mãe.”

 

P1 – Bonito.

 

P2 – Bonito. Eu queria se você pudesse contar algumas dessas viagens.

 

R – Ó, eu diria assim, a primeira assim, até que foi uma das primeiras viagens pro exterior assim, foi uma experiência bem marcante, foi no famoso Trem da Morte ali na Bolívia. Ele é chamado Trem da Morte porque ele vai tão cheio, tão cheio, tão cheio, inclusive as indígenas elas ocupam até o banheiro, elas jogam assim os panos no banheiro e elas assentam ali, ocupam e não se pode usar o banheiro, inclusive. Ele vai tão cheio, tão cheio, que muita gente passa pro teto que é o lugar mais fresco. Eu, inclusive, fiz isso também, de noite, porque é um trem que vai muito devagar, ela vai muito devagar. E muita gente escorrega ali de noite, dorme ou bebe e cai dali, por isso, que ele é chamado de Trem da Morte. Era chamado, parece que tiraram esse trem agora de circulação. Essa foi uma viagem que me marcou muito porque eu duro, com pouco dinheiro no bolso, mas com muita vontade, viajando assim por um país assim com uma cultura assim tão diferente, tão bonita, que são nossos irmãos aqui bolivianos, peruanos. Depois essa experiência na Guiné-Bissau, que é marcante na minha vida assim, que muda minha vida totalmente, eu me torno um escritor realmente quando eu volto da Guiné-Bissau, quando eu resolvo escrever. A Guiné-Bissau me deu esse pontapé, que eu já tinha dentro de mim, mas que é a Guiné-Bissau que vai despertar. As viagens que eu fiz pelo interior da Guiné conhecendo seus diferentes povos, e não só pela Guiné, porque lá nas férias também eu aproveitava e viajava por países ali por perto, eu viajei por Serra Leoa, por Libéria, por Gâmbia, Senegal, viajando assim de carona com as pessoas, de caminhão, em carroceria de caminhão, entendeu? Numa época em que há vinte anos, há vinte e poucos anos não tinha guerras civis ainda, países como a Libéria e Serra Leoa que, hoje em dia, seriam impossíveis de viajar na maneira como eu viajei. Foi muito marcante. Das viagens recentes, há dois anos, eu tive na China, que a China é tão distante que a gente fica pensando assim que nunca vai chegar, nunca vai ter proximidade. Eu fui lá, era um Congresso de Literatura Infantil e eu fiquei maravilhado realmente com a China, com a potência do país, eu gostei muito. As viagens são muitas. Falando de viagem, eu ficaria aqui a noite toda.

 

P2 – E essa relação que você já mencionou, essa importante relação entre o ilustrador e o autor de literatura infanto-juvenil. Fala um pouquinho qual é a sua experiência pessoal dentro dessa relação, com quem você trabalhou mais ao longo dos anos de carreira...

 

R – Ta, tá.

 

P2 – Como você enxerga mesmo essa complementaridade.

 

R – Bom, eu já escrevo há vinte anos, tenho setenta livros, quer dizer, já trabalhei assim com os grandes nomes da ilustração brasileira. Como eu já tinha dito aqui, no começo, você não opina nada, quem opina é a editora e você só vê seu livro pronto quando chega às suas mãos. Mas à medida que eu fui publicando mais e escrevendo mais e conseguindo nome no mercado, eu já fui conseguindo e que eu também fui conhecendo os ilustradores, eu já fui conhecendo o traço de cada um, de saber: “Esse aqui eu acho que é mais legal pra ilustrar essa história aqui”, eu fui conseguindo fazer... eu tenho algumas boas parcerias. Com quem eu tenho mais livros ilustrados é Ciça Fittipaldi e Graça Lima, as duas ilustraram vários livros meus, livros que ganharam vários prêmios, essas são duas ilustradoras. Mas eu tenho trabalhado com vários ilustradores, são muitos com os quais eu trabalho. E hoje em dia, eu faço questão de conversar com o ilustrador. Às vezes, eles vão na minha casa ou eu vou na casa deles, porque os livros têm uma característica muito própria, entendeu? Por exemplo, uma história africana minha que é passada em determinado país, a ilustração tem que ser as roupas, não daquele país, mas daquele povo, que às vezes, num país africano tem trinta, cinquenta povos e é aquele povo específico. Então, o ilustrador não pode fazer uma ilustração qualquer. Às vezes, ele não tem esse material. Então, eu tenho um banco de dados que eu fui fazendo ao longo dos anos, até das minhas viagens também com fotos, essa coisa toda. Então, eu empresto essas fotos, entendeu? A gente conversa e tudo. E é importantíssimo esse relacionamento autor-ilustrador, é muito importante no livro infantil.

 

P1 – E o relacionamento com o público?

 

R – O público?

 

P1 – O leitor.

 

R – O público... com o público é ótimo, o público é ótimo porque a gente viaja muito, nós visitamos muito escolas onde os livros são adotados, nós somos chamados, até escola onde os livros não são adotados. Porque geralmente nós vamos visitar escolas particulares, são as escolas que podem comprar os livros. Mas, às vezes, escola pública que é a professora só tem um livro na biblioteca, mas às vezes, é amiga minha e me chama, eu vou, entendeu? E agora também tem tido grandes compras do governo. O governo, de cinco anos pra cá, passou a comprar milhões de livros pras escolas públicas. Então, esse relacionamento é muito bom, então, você chega numa escola e eles estão te esperando, eles fazem uma verdadeira festa, eles te fazem mil perguntas e vai acontecendo também um fato interessante: há alguns que já começam a querer escrever pra você, que pede endereço, aquela coisa toda. A gente dá, né, eu dou, eu não me importo não. Aí, alguns escrevem pra você, mas é sempre assim pra pedir um livro. Escreve, pede um livro. Aí, se você mandar, depois daquilo ele já não te escreve mais. Eu tenho alguns correspondentes, eu tenho uma menina de Curitiba que se corresponde comigo desde os doze anos, ela agora ta com dezenove, ta na faculdade. Nunca deixou de me escrever, uma vez por mês. E ela vai ser escritora, ela escreve muito bem, desde os doze ela mantém correspondência comigo.

 

P2 – Que interessante.

 

R – E eu tenho uma menina também que me mandou uma carta muito bonita, pena que eu não esteja aqui com ela, que ela me mandou há uns três anos, dizendo justamente daquele livro que eu falei aqui, Rômulo e Júlia, que é um livro que falava sobre tortura, desaparecidos políticos, que ela dizia que ela queria me contar que aquele livro tinha transformado a vida dela, veja só. Que quando ela tinha doze anos, ela leu o livro pro irmão, o irmão era até mais velho do que ela, mas ela leu o livro pro irmão que o irmão não tava afim de ler. Ela leu o livro pro irmão. E ela gostou tanto da história que ela leu aquilo mais de dez vezes, ela falou que ela sabe o livro de cor. E por causa do meu livro, ela passou a se interessar por Ciências, pela História do Brasil, Ciências Políticas e tudo. Então, ela mandou aquela carta agradecendo, que ela já tinha estado na faculdade, já tava se formando já e ela dizia que isso tudo foi graças ao meu livro. Isso pra mim é fantástico. Agora, hoje em dia tem outro fenômeno que é o e-mail, eu tenho página na internet, aí tem o meu e-mail, eles me mandam pra mim. E acontece o seguinte: agora vêm os espertalhões, nós recebemos muito e-mail de leitor que diz o seguinte assim: “Senhor escritor, por favor, eu tenho prova amanhã. Me mande o resumo de seu livro, por favor.” Quer dizer, eles não querem nem ler, eles querem que você mande o resumo do livro. “Eu tenho prova amanhã.” Eu acho isso um horror, prova de livro. Eu sempre digo: “Não mando resumos. Leia o livro, leia a história que você vai gostar.” Então tem muito assim. E tem muitos que escrevem, quando eles são pequenos eles querem sempre saber assim, perguntas como, eles insistem nessa coisa: “Quantos anos você tem? Você é casado? Você tem filho?”, entendeu? Eu sempre brinco com eles, eu digo: “Escritor não tem idade, depende. Eu posso ter 20, 30, 40, 50, depende do personagem que eu tô escrevendo.” Mas a relação é boa, é boa e é necessária pra nós.

 

P1 – E esse retorno, esse contato estimula a produzir também alguma coisa?

 

R – Ah, estimula, estimula que eles fazem questões, eles perguntam, eles querem saber: “Ah, por que você não escreve um livro sobre isso, um livro sobre aquilo?” E isso acaba sempre te dando ideias também. Mas eu acho que o retorno principal é você chegar numa escola, ver que as crianças leram o seu livro, elas gostaram; que a escola está toda enfeitada com desenhos que elas fizeram sobre aquela história, elas fazem teatro, fazem dança. Acho que esse é o melhor retorno nosso, ver que a gente conseguiu escrever um livro que eles gostaram. Eu escrevo histórias que eu gostaria de ter lido quando eu tinha a idade deles, eu acho que é isso. Eu fui um grande leitor, eu fui um grande leitor porque eu me interessava também por boas histórias. Então, eu acho que o que fascina um leitor é isso, você ler uma história e gostar dela, que o livro não seja chato, não seja enfadonho.

 

P1 – E qual é a sua visão de literatura?

 

R – Não, não. A literatura não é pra ensinar de maneira nenhuma, você pode ter até um livro que aquele determinado assunto acabe sem querer dando um ensinamento ao leitor, não é isso? Mas não fazer aquele livro didático: “Esse livro aqui é pra você aprender a ensinar, a ter respeito aos pais ou... é um livro pra ensinar tal matéria.” Não, jamais.

 

P2 – E dentro desse contexto, como você vê depois desses anos de experiência na literatura infanto-juvenil, como você vê a literatura infanto-juvenil? Quais são aqueles bons caminhos que você acha que devem ser trilhados pela boa literatura infanto-juvenil? Justamente evitando esse didatismo...

 

R – Eu acho que didatismo... eu acho que é uma das coisas principais que sempre tem que estar. Outra coisa também que tem que se evitar, e que, às vezes, a gente encontra ainda, é aquele autor que está começando e que ele acha que pra escrever pra criança é tudo em ‘inho’, entendeu? É o menininho, é a fadinha, é... às vezes é falta de conhecimento, tem gente que quer escrever e às vezes, nem lê o que tem no mercado. E acontece muito também o seguinte: de pessoas me procurarem e dizerem assim: “Olha, tem uma história aqui que meu filho adora, adora que eu conte pra ele.” Mas eu sempre digo: “Olha, qualquer história que a senhora, ou o senhor contar pro seu filho, o seu filho vai adorar, porque criança é assim.” Então, o pai, ele acha, ou a mãe principalmente, acham que só porque ela tem uma história que ela inventou pro filho e que ela conta e que acha que aquilo já vai poder ser publicado. E é um custo você tentar mostrar à pessoa que aquilo que ela conta pro filho ainda não está pronto pra ser publicado, não é? Não é aquilo, entendeu? É como mãe que aparece com o filho de seis anos que escreveu uma historinha. Quando começa a falar que escreveu uma historinha já você percebe, não são uns gênios, assim. É muito difícil uma história escrita por uma criança de seis anos estar pronta pra ser publicada. Pode até acontecer, mas o mercado ele cresceu muito, ele cresceu muito e o autor quando é jovem, é natural essa ânsia nele de querer publicar. E às vezes, ficam nervosos, tem uns que me ligam e dão bronca até no telefone porque eles dizem: “Ninguém quer publicar um autor jovem, eles não querem publicar, eles só querem publicar os autores conhecidos.” Eu sempre dou o meu exemplo, eu falo: “Não.” É lógico, as editoras dão preferência aos nomes conhecidos no mercado, que a editora também, ela precisa vender, ela tem que ganhar, essa coisa toda. Agora, ela tá sempre aberta pra novos autores porque os autores também envelhecem, é preciso ter sempre uma nova geração. Mas a primeira vez, eu sempre brinco nas palestras: “A primeira vez é sempre difícil, a primeira namorada, o primeiro beijo, o primeiro emprego e o primeiro livro também.” Publicar o primeiro livro realmente é difícil, ninguém conhece ainda você. Um bom caminho são os concursos, concursos que tem muitos.

 

P2 – Rogério, e os seus próximos projetos de agora pro futuro?

 

R – Eu estou participando de uma coleção com cinco autores que são contos. É uma coleção que vai ser publicada pela editora Record e ela tem um tema, só um tema que se chama Segredos. Quer dizer, cada volume é um segredo, Segredos de Amor, o outro é Segredos Proibidos, voltado pro público juvenil onde nós estamos tendo liberdade de tocar em temas que, às vezes, são considerados tabus. Às vezes, são temas que as editoras não querem publicar porque acham que não vão vender. Porque o nosso grande comprador na verdade é a escola, se nós fossemos depender de vendas em livrarias, não venderíamos praticamente quase nada. Esse é um país que quase não tem livrarias, então, nós vendemos muito pouco. O nosso grande comprador é a escola, é o governo, e as editoras, às vezes, têm medo de tocar em temas tabus. Então, nessa coleção, que sou eu, o Luiz Antonio Aguiar, o Pedro Bandeira, Rosana Rios e Leo Cunha de Minas Gerais. Então, cada um escreve um conto. Então, eu já escrevi contos, por exemplo, sobre pedofilia, que é um tema, violência, tortura, tudo isso. Quer dizer, cada autor está podendo explorar mais a linguagem, sabe, ter mais liberdade na linguagem. Eu acho que essa está sendo uma experiência interessante. Agora, lógico que todas essas histórias que eu trouxe de Angola, isso vai render um livro tranquilamente.

 

P2 – Estamos caminhando pro final.

 

P1 – Só duas perguntas muito de praxe.

 

R – Tá bom.

 

P1 – Uma, nem tanto. Eu vou dar uma de leitor: você tem filhos?

 

R – Eu tenho dois filhos, moram na Suécia; eu fui casado com uma sueca. Tenho um rapaz e uma moça.

 

P1 – Mas quando eles eram pequenos, isso teve alguma influência na sua obra?

 

R – Não, assim, nunca escrevi nada diretamente pra eles. Tem autor até que começou assim fazendo histórias pros filhos e depois, essa história eles conseguiram publicar. Eu conheço principalmente colegas escritores que escreveram livros assim baseado... ou escreveram pra criança, ou escreveram alguma coisa que aconteceu por causa dos filhos. Mas eu nunca escrevi nada assim diretamente pra eles ou influenciado por eles.

 

P1 – E a pergunta de praxe: tem alguma coisa que você quer complementar, que a gente esqueceu de perguntar, na sua narrativa de vida?

 

R – Não, acho que vocês perguntaram bastante. Acho que o que fica assim bem marcado nessa minha carreira, eu acho que é essa vontade que eu tive sempre de viajar, de conhecer o mundo e que me foi proporcionada primeiro pelos livros. Que eu adorava também muito livro de viagem, de exploradores, livros de viagem. Quer dizer, os livros me abriram esse caminho, me abriram essa porta para o mundo. Eles me fizeram... eu acho que é isso que o leitor também... eu acho que é isso que eu procuro proporcionar aos meus leitores: que meus livros abram novos caminhos pra eles, abram novos mundos, né, que despertem neles novas vontades, novas paixões e novos conhecimentos.

 

P1 – E a última pergunta: o que você achou de contar a história pra gente, aqui pro Museu da Pessoa?

 

R – Eu gostei muito, até porque eu sou um contador de histórias, também gosto de contar histórias também. Então, foi muito bom fazer esse depoimento aqui pra vocês.

 

 

P2 – É um prazer pra gente. 

Memórias da Literatura Infanto-Juvenil 2008 Entrevista de Rogério Andrade Barbosa Entrevistado por Thiago Majolo e Eduardo Barros Pinto Paraty, 04/07/2008. Realização Museu da Pessoa Entrevista MLIJ_HV016 Transcrito por Gabriel Monteiro Revisado por Carolina Mirabeli e Gustavo Kazuo P1 – Rogério, pra começar, eu gostaria que você dissesse seu nome completo... R – O meu nome é Rogério Andrade Barbosa. P1 – O local e a data de nascimento. R – Eu nasci numa cidade que eu não conheço, por incrível que pareça, que se chama Campo Belo, em Minas Gerais. P1 – E a data? R – Foi em 1947. P1 – Você conheceu os avós? R – Eu conheci a avó materna e o avô paterno. P1 – E conta um pouco deles, o nome deles, o que eles faziam? R – Olha, o meu avô paterno era Oscar Barbosa, era baiano, formado naquela famosa escola de medicina de Salvador. Ele era negro, esse é um dado muito importante que até eu tenho tentado buscar mais coisas sobre ele, pelo fato de ele ser negro e já ter estudado numa faculdade. Mas depois, ele optou por Farmácia e se mudou pra Vitória, Espírito Santo, e foi onde meu pai nasceu. A minha avó é do interior de Minas, era, chamava-se Maria e a minha mãe diz que ela era parteira, dizia que tinha até feito meu próprio parto. Ela era casada com um pequeno proprietário de terras, gente muito simples. P1 – E seus pais, o nome deles, o que faziam... R – Meu pai Osmar Barbosa, chamava-se Osmar Barbosa, que ele faleceu tem oito anos, a minha mãe é viva ainda, Elza Andrade Barbosa. A minha mãe, ela nunca exerceu nenhuma profissão, ela casou muito nova, minha mãe casou com catorze anos, imagine só. Meu pai tinha vinte e oito. A gente vê isso hoje em dia. E o meu pai, ele desde cedo gostava muito de ler, de escrever e a família dele toda tinha um lado artístico, mas ele também, após o falecimento da mãe dele, ele entrou num lance que ele tinha que entrar pra carreira sacerdotal. Então, ele foi estudar pra ser padre, estudou durante dez anos no interior de Minas, num seminário. Lá ele chegou a usar até batina, ele tava no último ano quando ele se apaixonou por uma das alunas lá da aula de catecismo e por isso, ele largou a batina. Mas eu sei a história que meu pai me contava que o pai da moça não concordou com o casamento, o meu pai era... não era negro, ele era mulato assim um pouco mais claro, tanto que na certidão de nascimento dele constava que ele era pardo. É estranho esse nome que se dá: pardo. Enquanto ele estudava pra ser padre, então, ele saiu com um conhecimento muito bom de português, latim, inglês, francês. Então ele tirou uma licença de professor e passou a dar aulas. E ali, dando aulas em pequenos colégios no interior de Minas Gerais ele conheceu a minha mãe. Foi assim, então eu nasci. E meu pai... ele sempre foi assim meio errante, eu peguei isso dele, porque o meu pai não parava em lugar nenhum. Ele dava aula em algumas cidades, e não se dava bem, ganhava pouco, dali ele se mudava. Então, eu me lembro que nós moramos em muitas cidades. Nós moramos em Vitória, que era a terra dele, por pouco tempo. O Rio de Janeiro era sempre a nossa base. A gente ia pro Rio, que eu lembro que lá eu comecei a fazer meus estudos primários. Depois, a gente foi de novo pra Minas, pra uma cidade boa, de porte médio, chamada Itajubá. Voltamos pro Rio, do Rio nós fomos pra Cabo Frio. Voltamos pro Rio, do Rio nós fomos pra uma cidade chamada Miracema, do estado do Rio. Voltamos pro Rio e finalmente, meu pai se radicou em Nova Friburgo, que é na Serra Fluminense, lá minha mãe vive até hoje. P2 – Rogério, só um segundo: toda essa trajetória de mudanças, vamos tentar voltar o mais pro princípio, se possível. Conta pra gente uma das primeiras lembranças que você tem. Quando você pensa e se lembra da sua infância, uma imagem, uma situação, um local que te vem à mente, a mais remota possível. Talvez a sua casa, uma das suas casas. R – Mais remota possível que eu tenho é na Urca, o bairro onde eu morei no Rio de Janeiro, onde eu comecei a fazer o ensino primário. Eu me lembro da praia da Urca, da pedra da Urca, a grande montanha ali na Urca. Essas são minhas primeiras lembranças, de brincar na rua, numa pracinha. Agora, engraçado, da escola eu não lembro praticamente nada; a escola foi algo assim que... e eu sempre fui bom aluno, então, assim, não foi nenhum trauma não. Mas, engraçado, eu não tenho lembrança assim da minha primeira professora. Eu fico, assim, muito pasmado quando eu vejo as pessoas que falam nome das primeiras professoras. Talvez seja até por isso que a gente estava sempre mudando, mudando, mudando... e eu não me lembro de nomes de primeira professora. P2 – Você tem irmãos e irmãs? R – Eu tenho um irmão e uma irmã, são mais novos. P2 – Você pode falar o nome deles, por favor. R – Meu irmão se chama Roberto, é professor e minha irmã Rosélia, professora. Eu também fui professor durante muitos anos. P2 – E como é que era a dinâmica familiar dentro desse contexto de mudança, de não ficar muito quieto num lugar só? R – Não, nós estávamos acostumados, talvez porque desde pequenos a nossa vida era essa: mudar de casa, botar a mobília toda em caminhão, chegar numa casa nova e arrumar a mobília toda de novo e daqui a dois, três anos, sair de novo, entendeu? Então, era uma coisa que a gente estava acostumado, achava divertido até. P1 – E essa coisa de perder amigos, não tinha muito essa angústia... R – Não, não. Porque foi mais na fase que a gente era menor, quando já... a gente se fixou mais, foi na adolescência, que foi que a gente se fixou mais em algum lugar. Eu me lembro que essa cidade chamada Miracema, no interior do estado do Rio, nós ali ficamos cinco anos, que foi um período maior, que aquela fase de adolescência. Mas já quando eu terminei o segundo grau, nós voltamos pro Rio novamente. P1 – E em Miracema, conta um pouco como que era sua casa... R – Miracema nós moramos em duas casas: a primeira era uma casa grande, era uma casa boa, tinha quintal e tudo; depois, nós moramos numa outra, na mesma cidade, que era um sobrado alto. P2 – Eu tenho impressão que essas mudanças todas devem ter unido muito a família, chegando em lugares diferentes. Você e seus irmãos, por exemplo, como é que era a relação com eles? Do que vocês brincavam, vocês tinham contato? R – Olha, a minha irmã é praticamente da minha idade, já o meu irmão é dez anos mais novo, o meu irmão foi um irmão temporão. E o meu irmão, ele me acompanhava quando eu ia jogar futebol, ele ia me ver jogar futebol, basquete, essas coisas assim. A minha irmã, pelo fato de ela ser menina, ela tinha vida própria dela lá e eu tinha minhas brincadeiras de rua, essas coisas próprias de menino: jogar futebol, empinar pipa, jogar bolinha de gude. Mas uma coisa muito presente na minha casa sempre... Muita coisa se perdia nessas mudanças. Mas tinham os livros. Que meu pai lia muito; e meu pai escrevia também. Meu pai era poeta também, publicava muita coisa de poesia e na minha casa havia muitos livros, quer dizer, eu aprendi a me tornar um leitor desde muito cedo, influenciado por meu pai. E também por minha mãe, porque minha mãe, embora ela tivesse só o primário, com essa convivência toda que ela teve com meu pai, ela passou a ler muito também. Então, na minha casa havia todo tipo de livro e nós líamos muito. E uma coisa que eu me lembro até hoje, era o fato que quando nós éramos menores e íamos fazer uma visita em casa assim de família e alguém perguntava assim: “As crianças não querem brincar lá fora?”, meu pai dizia: “Se tiver algum livro, alguma revista eles ficam quietos, basta dar um livro, uma revista pra eles.” Quer dizer, desde garoto eu sempre fui aquele chamado rato de biblioteca, o menino que andava sempre com um livro ou uma revista de história em quadrinho também embaixo dos braços. É um hábito que eu mantenho até hoje. Eu viajo muito, tô sempre na estrada, eu peguei esse bicho carpinteiro, tô sempre lendo, tô sempre com um livro no avião, numa rodoviária. P2 – Qual foi o primeiro contato com um livro? A primeira leitura marcante, alguma sugestão do seu pai talvez, uma leitura que te marcou mesmo na infância. R – Olha, talvez uma das leituras mais marcantes, que foram muitas, mas que... foi aquela coleção do Monteiro Lobato, o Sítio do Pica-pau Amarelo... eu me lembro que eu gostava muito, gostava muito mesmo. Mas havia outros autores como Júlio Verne, eu sempre gostava muito de livro de aventura, livros que falavam de viagem, isso era uma coisa assim que me fascinava muito. Mas eu acho que o Monteiro Lobato, aquela coleção dele, isso quando menor, né! P1 – Essa leitura no começo era muito mediada? O seu pai lia pra você? Como que era isso? R – Não, o meu pai... quando pequeno sim, eles liam histórias, liam e contavam histórias, mas depois eu mesmo. É lógico que eles compravam livros, nós ganhávamos muitos livros, era aniversário, Natal, sempre. Sempre tinha um livro no meio dos presentes, o livro sempre fez parte lá de casa. E até entre nós mesmos, quando a gente dá presente de aniversário, até hoje um livro é sempre bem vindo. P1 – Tem algum lugar, uma estante ou uma sala... R – É, o meu pai sempre tinha uma biblioteca que não era muito grande até por causa dessas mudanças costumeiras, mas meu pai sempre tinha uma estante com bastante livros. Uma ou duas ou três estantes dependendo da casa onde nós estivéssemos. P1 – E seus irmãos também liam bastante, então? R – Sim, lá em casa todo mundo, minha mãe, meu irmão, minha irmã, todos somos grandes leitores. P1 – E conta um pouco, fora os livros, das outras brincadeiras que você gostava da época. R – Olha, futebol foi uma coisa que marcou muito, gostava muito de futebol, tanto futebol de campo quanto futebol de salão. Basquete também praticava também, às vezes, era só trocar a camisa. Eu gostava de jogar botão, botão também eu gostava, isso era uma coisa que eu gostava muito. Mas os esportes assim que mais me marcaram foram o basquete e o futebol, futebol de campo e futebol de salão. E depois, mais tarde um pouco, que aí eu comecei a praticar caratê, tai chi, essas coisas assim. P1 – Com essa vida errante, como é que era manter uma paixão por um time assim? R – Por um time? P1 – Você não tava em nenhum estado, você tava mudando o tempo todo. R – Ah sim, mas o meu pai era um botafoguense fanático, era um botafoguense fanático. Nós pegamos isso dele também, embora eu não seja um torcedor fanático, eu torço pelo Botafogo, mas nada de fanatismo. Mas o meu pai era um torcedor daqueles que ficavam ouvindo o jogo num radinho. Então, desde cedo não teve problema de torcer pra um time, onde quer que nós estivéssemos nós éramos Botafogo. P2 – E as lembranças de Miracema já são mais da adolescência... R – Sim. P2 – Ali você já consegue se lembrar com mais detalhe do mundo, vamos dizer assim, do colegial, ali na escola...? R – Sim, sim, sim, claro. P2 – Como que isso vem à sua mente, o ambiente escolar? R – O ambiente escolar? P2 – Na adolescência. R – Vem aquela coisa dos bailes, aqueles bailes que você tinha que ir de terno e gravata pra dançar, baile com orquestra. A escola, os professores, eu ainda peguei aquela escola que eu me lembro que na minha época de catorze anos, mais ou menos, eu me lembro que havia prova oral. Então, você tinha no final do ano, além da prova escrita, você tinha uma prova oral; você tinha que ir lá na frente, sorteava um ponto e o professor te fazia perguntas, isso era o pavor de muita gente, a prova oral. Tinha gente que chegava lá na frente, ficava mudo. Mas eu sempre fui aquele aluno médio, eu nunca fui um excelente aluno nem nunca fui um mau aluno. Até porque tinha uma coisa: porque eu sempre estudava nas escolas onde meu pai dava aulas, geralmente eram escolas particulares. Então, meu pai nos matriculava, porque aí não precisava pagar a mensalidade, não é isso? E ocorria o seguinte: se eu tirasse uma boa nota os colegas diziam pra mim: “Também, filho de professor, tem que tirar nota boa.” Se eu tirasse nota ruim, eles já me encarnavam dizendo: “Se eu fosse filho de professor eu não tirava nota ruim.” Então, eu nunca sabia que nota tirar, então, eu ficava ali na média. Mas tem uma coisa na escola... eu gostava de todas as matérias, mas matemática realmente foi a minha cruz, essa era aquela que eu passava raspando. E a matemática me impediu assim de concretizar uns sonhos que eu tinha de menino, de adolescente. Porque desde garoto, eu viajava nos livros, os livros pra mim sempre foram como se fossem verdadeiros tapetes voadores, me levavam pra lugares distantes, misteriosos. E eu tinha colocado na cabeça que, quando eu crescesse, eu queria ter uma profissão que me permitisse viajar pelo mundo. Então, quando eu terminei o segundo grau, eu fiz uma pesquisa, assim, procurei saber. Então, eu decidi que eu ia entrar pra marinha mercante, que eu ia ser oficial da marinha mercante, porque nessa profissão, eu poderia viajar bastante como eu sempre sonhei. Mas eu fiz provas lá no Rio de Janeiro, passei em todas as matérias, menos em matemática. Aí, no ano seguinte, eu ainda tentei novamente, estudei, fiz cursinho e aquela coisa toda, mas tornei a ser reprovado em matemática. E aí, como eu gostava também, sempre tive uma queda pra estudar idiomas, aí eu fui fazer Letras, fui fazer Letras. Aí, me formei professor de inglês e português. P1 – Voltando um pouquinho, você era aquele aluno... quase todo escritor que vem contar a história lembra que a professora, ou então, as pessoas pediam redação ou então... R – Olha, eu não me lembro desse fato de pedir redação, mas eu sei que eu escrevia bem, todo mundo dizia que eu escrevia bem, que eu escrevia bem. E eu lembro também que garoto eu gostava, gostava de ficar inventando histórias assim na página de trás de um caderno, mas não sonhava em ser escritor, isso nunca passou pela minha cabeça ser escritor. Eu gostava de escrever. Tanto que teve uma fase assim entre catorze, quinze que eu gostava de colecionar selos e eu tinha correspondentes em várias partes do Brasil e também do exterior que a gente trocava selos. E eu me lembro que eu escrevia cartas assim de doze páginas, entendeu? E que às vezes a pessoa que mandava cartas escrevia, na época que não tinha internet, então era a mão. Quer dizer, eu tinha essa coisa em mim, do escrever. P2 – Você se lembra de algumas histórias que você conheceu por essas cartas, que você trocava com pessoas do mundo inteiro? R – Ah, assim, uma história interessante, não. Às vezes, eram pessoas de várias partes, é lógico que as pessoas sempre contavam um pouquinho da sua vida, o que fazia, etc e tal, mas o interesse maior mesmo era filatelia, era trocar os selos. Eu não me lembro de nenhum fato marcante. Com essa coisa da correspondência, eu fui ter fatos marcantes mais tarde agora com os leitores; aí com os leitores eu tenho bastante coisa. P1 – E como que se deu essa passagem dos primeiros livros, Lobato, Júlio Verne pra outros livros? Quais eram os autores que você admirava na adolescência...? R – É lógico, isso aí foi uma coisa progressivamente, você passa aquela fase de Lobato, aí, você entra Júlio Verne, aí, já entra os livros de aventura, Mark Twain. Havia uma coleção chamada Terra, Mar e Ar, livros tipo de Tarzan, era uma série de livros, a Ilha do Tesouro, piratas. Aí, depois você já passa a ler até já por causa da biblioteca do meu pai, aí você já começa a ler... eu comecei a ler Jorge Amado, comecei a ler Graciliano Ramos, que eu gostava, esses eram dois autores que eu gostava quando rapaz, quando adolescente. Esses eram dois autores que eu gostava, principalmente o Graciliano Ramos. P1 – Aí, você vai e resolve fazer Letras, então... R – Aí eu resolvo fazer Letras. E tem essa influência do meu pai também, professor. Meu pai chegava em casa todos os dias com pilhas de provas pra corrigir, às vezes, a gente ajudava a separar as pilhas de provas. Então, talvez por essa influência do meu pai, eu fui ser professor, como os meus irmãos também foram ser. E eu trabalhei no Rio de Janeiro durante muitos anos como professor, trabalhei durante 25 anos. E eu sempre que eu podia, nas férias, eu botava a mochila nas costas e saía viajando pelo Brasil, tinha tenda, gostava de acampar. Então, conheci o Brasil quase todo assim. Passar carnaval em Salvador, festival de inverno em Ouro Preto em Minas Gerais, cheguei a cruzar com alguns colegas aqui a fronteira, Bolívia, Peru, o Trem da Morte. Mas Europa, África, Ásia, isso tava muito longe do meu salário de professor. Mas um belo dia, eu tava lendo um jornal no Rio de Janeiro e eu vejo lá um anúncio que era das Nações Unidas, que dizia assim: que a ONU procurava professores brasileiros para trabalhar na África. Eu falei assim: “Puxa vida, África!” Então, eu me inscrevi a acabei sendo selecionado. A seleção foi na base de entrevista, currículo, ter boa disposição, saúde, aquela coisa toda. E eu fui selecionado. Apresentaram-se mais de mil professores e trinta foram selecionados, trinta professores de várias partes do Brasil. Então, nós fomos trabalhar na Guiné-Bissau, que era uma ex-colônia portuguesa que tinha acabado de obter a independência e que não tinha professores. Que após a saída dos portugueses, os portugueses vão e deixam pra trás um país com 98% de analfabetos. Então, não havia professores qualificados deles, então, eles precisavam de ajuda, mas eles não queriam mais também professores de Portugal, então, por isso que vieram pedir ajuda ao Brasil. E lá fomos nós. E foi assim uma experiência maravilhosa porque eu fiquei lá dois anos. Nós fomos muito bem recebidos, nós éramos professores de história, matemática, geografia, física, química, quer dizer, era uma equipe de primeiro e segundo grau, de todas as matérias. Alguns chegaram lá, não se deram bem com o país, voltaram logo, um, dois meses depois. Um grupo maior ficou. E pro segundo ano, que podia renovar o contrato quem quisesse ficar, ficamos só três: eu, um colega da Bahia e um outro de Santa Catarina. E foi uma experiência assim que você trabalhar num país que acaba de obter independência. Eu me lembro que logo nos primeiros dias, quando eu entrei em sala de aula, as salas eram... estavam abarrotadas de alunos, era média de cinquenta, sessenta alunos em sala de aula. Mas eu nunca tive nenhum problema de disciplina porque os alunos eram muito politizados, quase todos eles tinham tomado parte na luta de libertação. Quer dizer, eles tinham lutado inclusive pra poder estudar, que eles não tinham acesso às escola durante a época do colonialismo. Então essa foi uma experiência que marcou muito a minha vida. E durante esses dois anos na Guiné-Bissau, eu fiz dois grossos diários, essa coisa minha de gostar de escrever e tal. Eu me lembro que na faculdade tinha um pequeno jornal na faculdade, mas era aquela época da ditadura, mas mesmo assim eu lembro que eu fazia algumas matérias pro jornal também. E quando eu voltei da Guiné-Bissau, que eu volto com aqueles dois grossos diários eu vou a uma bienal do livro de São Paulo e eu vi que não tinha quase nada publicado pra crianças aqui no Brasil falando sobre África. Tinha muito pouca coisa: tinha alguns livros do Joel Rufino, basicamente isso, entendeu? E eu falei assim: “Puxa vida! Tanta coisa, escutei tanta coisa, trouxe tanta coisa. Por que não criar uma história?” Então assim, eu fiz uns contos, selecionei uns contos que eu tinha trazido de lá... na época, tinha máquina datilográfica, aquela coisa. Aí, o conselho de algumas pessoas, eu tirei dez cópias, não conhecia ninguém no mundo editorial, e mandei pra dez editoras e fiquei meses esperando uma resposta. Sei que no final de uns oito meses chegaram as primeiras respostas. Eu lembro que eu recebi oito ‘nãos’ e dois ‘sins’. Os dois ’sins’ vieram de duas grandes editoras: uma foi a Ática, outra foi a Melhoramentos. A Melhoramentos, na época, fez uma proposta melhor, que isso era 1986... não, 1987. Em 88 ia ser comemorado o centenário da Abolição da Escravatura, quer dizer, eles tiveram uma sacada genial, principalmente a editora na época chamada Ísis Valéria, ela foi fenomenal. E o livro saiu com ilustrações, fizeram quatro volumes, eram muitas histórias, resolveram dividir o livro e fazer quatro volumes. Essa coleção saiu no começo de 1988 com ilustrações de Ciça Fittipaldi, que é umas das maiores artistas nossas na área de ilustração e ele ganhou todos os prêmios da literatura aquele ano: o melhor livro pra criança, prêmio Jabuti, ele foi vendido pro México, pra Alemanha, pros Estados Unidos. Só no México, ele vendeu mais de 500 mil exemplares pro governo mexicano, que é um grande comprador de livros. Então, eu comecei com o pé direito, mas continuei dando aula, continuei dando aula. P2 – Fala um pouquinho dessas historias, porque eu queria te perguntar um pouquinho do seu cotidiano lá na Guiné-Bissau. Mas aí você já entrou falando do seu retorno e da produção literária baseada nessa experiência lá. Então eu queria que você pudesse falar um pouco dessas duas coisas, porque o que você produziu é reflexo do que você viveu lá. R – É, o meu cotidiano era: eu dava aulas à noite, então, eu tinha o dia inteiro totalmente livre pra mim. E lá eu tinha uma pequena moto, então, eu viajava muito. Ia pro interior do país. Eu ia nas aldeias, ficava observando as pessoas, conversava com as pessoas, as empregadas do hotel, eu conversava muito com elas, tudo que elas falavam eu tomava nota, entendeu? Havia sempre alguém que me contava uma história. Eu também tentava achar alguma coisa assim, alguns livros também antigos que foram escritos pelos missionários que estiveram lá cem anos antes de eu chegar lá, e que tinha recolhido também umas histórias também, e os meus alunos. Então, eu tinha toda assim... muitas informações, fora as informações minhas, visuais, de eu viajar pelo interior, de eu ir pra longe, entendeu? Então, eu voltei com muita coisa. Todos esses dados que eu coletei me deram material suficiente pra escrever várias histórias, entendeu? E que foram a base da pesquisa com a qual eu trabalho até hoje. Quer dizer, eu escrevo todo tipo de livro, mas a metade da minha produção, que eu já to com uns setenta livros publicados, eu diria que uns trinta deles falam sobre a cultura afro-brasileira, africana. P1 – Depois desse primeiro livro, todo esse... foi super-bem recebido e você realmente pensa em ser só escritor. R – Não, depois do primeiro livro, eu continuei dando aulas porque ninguém consegue viver de direitos autorais com um livro só no mercado. Achei legal, achei: “Poxa vida, vendeu...”, mas continuei dando aulas lá no Rio de Janeiro e aos poucos eu fui publicando outros títulos. Fui publicando, fui publicando mais e quando eu já tava assim com uns trinta livros, trinta e poucos livros publicados, isso tem dez anos, há dez anos, e que à medida que você vai publicando mais começa a chegar convites, pra feiras de livro, pra eventos, inclusive eventos até no exterior. E você começa a viajar e já não estava dando pra conciliar as duas coisas, o magistério. Então, eu fiz uma opção, falei assim: “Eu vou tentar. Eu acho que se eu me dedicar totalmente aos livros, eu consigo viver dos direitos autorais.” Então, foi um lance ousado, eu larguei a carreira do magistério, passei a me dedicar realmente, integralmente a escrever, a viajar e a dar palestras, essa coisa toda. E hoje em dia, eu consigo viver só dos direitos autorais, quer dizer, eu não ganho uma fortuna, mas o que eu ganho dá... P2 – Nessa trajetória de mais ou menos trinta livros, que você diz que conseguiu chegar num ponto de poder se dedicar exclusivamente a eles, fala pra gente, cita pra gente alguns marcos desse período. Alguns marcos de lançamentos de livros que foram especiais pra você por alguma razão, alguns destaques nessa sua produção, nessa primeira fase, digamos assim. R – Olha, o grande destaque realmente é o primeiro, era uma série que chamava Bichos da África, esse nome não foi eu que dei, foi a editora que resolveu trocar o nome. Eu não gostei nada porque dava a impressão de ser histórias sobre bichos. Havia muitos contos sobre animais, mas aí, depois eu pedi pra que colocassem pelo menos um subtítulo: Lendas e fábulas da África. E essa é uma coisa interessante: quando você está começando, os primeiros livros, às vezes, você leva essas surpresas, a editora resolve mudar o título e não te avisa. Eu só vi o livro pronto, as ilustrações depois que elas estavam prontos, entendeu? Quer dizer, hoje em dia é totalmente diferente, hoje em dia eu participo ativamente da produção do livro. Meus livros são muito específicos, eu acompanho o trabalho do ilustrador e tudo. Outros livros marcantes... eu ganhei alguns prêmios, mas não nenhum prêmio, assim, que eu diria relevante, eu tive uma indicação ao IBBY [International Board on Books for Young People], que é um congresso que tem de literatura infantil mundial e que a cada ano cada país indica... a cada dois anos, um país indica um livro e um autor e eu também fui há uns quatro anos, eu fui um autor indicado. Mas você tá querendo saber da primeira fase. Na primeira fase, deixe-me ver, na primeira fase, eu tive um livro indicado pra Biblioteca Nacional de Munique, que a cada ano essa biblioteca internacional escolhe quatro, cinco livros de cada país pra fazer parte dessa biblioteca internacional e eu tive um livro indicado. P2 – De repente, um livro marcante, mas não só pela premiação: algum novo tema que você abordou, algum livro que você produziu com base numa história, uma experiência pessoal muito particular, muito forte. R – Eu tenho um livro meu que vendeu muito e continua vendendo que se chama Rômulo e Júlia - Os caras-pintadas, que foi na época do Collor e que eu estava no Rio de Janeiro acompanhando a maior passeata que os estudantes fizeram no Rio de Janeiro, que foi uma passeata que eles colocaram 100 mil estudantes na rua. E eu tava ali assistindo assim maravilhado, ver aquela garotada com o rosto pintado cantando e a polícia vinha do lado assim só escoltando a passeata. Quer dizer, não havia a repressão, diferente da época que eu estava na faculdade e a polícia vinha bater, prender e eu percebi claramente, como havia ali 100 mil jovens de várias escolas do Rio de Janeiro, que rolava também muito assim muito um clima de paquera, de namoro e eu falei assim: “Porque não criar uma história aproveitando esses personagens, mas mostrar a eles o que aconteceu com a geração dos pais deles?” Então, esse livro que se chama Rômulo e Júlia – Os caras-pintadas, o título é proposital porque é pra lembrar Romeu e Julieta que eram filhos de famílias inimigas. Então, na história eu coloco: o Rômulo é um rapaz, um líder estudantil, ele é politizado até porque o pai dele é um jornalista que foi torturado durante a ditadura militar brasileira. E na passeata, ele encontra uma menina que é o oposto dele, que ela foi na passeata porque as amigas levaram, que não entende nada de política, alienada entre aspas e o pai dela é um militar que foi torturador durante a ditadura. Então através de uma história romântica, mas que eu pude tocar em temas sensíveis como tortura, sequestros e desaparecidos políticos. Isso foi um livro também que teve bastante sucesso, ganhou também alguns prêmios. P2 – E como é que foi deixar a sala de aula e se dedicar integralmente? R – Eu sempre gostei de dar aula, sempre tive um relacionamento muito bom com os meus alunos, mas não foi tão assim ruim porque até hoje o meu contato com criança, com jovem, com adolescente é intenso. Você vê hoje aqui, até nessa feira que nós estamos aqui em Paraty, o que tem de crianças aí. A gente vai às escolas, a gente é assediado o tempo todo, é correspondência, é carta, é e-mail hoje em dia. Então, o meu contato com os jovens, até a literatura, porque eu escrevo basicamente pra crianças e jovens, então eu tenho que estar sempre mesmo em contato com eles, se não como você vai escrever um livro com vocabulário deles, ou mais próximo do vocabulário deles, se você não tiver sempre em contato com eles? P1 – Queria que você falasse um pouquinho, assim, desses temas afro, africanos e até afro-brasileiros que você volta pro Brasil, então, você tem uma influência. Por quê? Fora esse segmento de mercado que você vê que era uma coisa que faltava, mas qual a preocupação com isso, pessoal sua? R – Olha, eu tinha uma coisa que estava em mim, pelo fato de eu ser descendente de negros por parte do meu pai. Eu quando garoto, eu vi meu pai ser vítima de racismo, de uma vez de pichação de muro de escola, de comentários de escola, essas coisas todas. E eu sempre tive orgulho de ter o sangue negro nas veias, quer dizer, tudo isso influenciou muito. E quando eu volto ao Rio e que eu tomo consciência de que eu não conhecia bem esse mercado infantil e juvenil, foi por acaso indo numa Bienal e percorrendo e eu começo a escrever na época em que a literatura infanto-juvenil brasileira está dando um salto, que ela faz a grande mudança. Porque a literatura infanto-juvenil, ela ficou marcada muitos anos aqui no Brasil pela tradição europeia mesmo, por aquelas histórias de conto de fadas, quer dizer, o único autor que quebra isso é o Lobato. Mas depois que o Lobato morre, praticamente não surge quase ninguém, só na década aí de... comecinho de 80 que tem um grupo que é o Ziraldo, a Ana Maria Machado, o Joel Rufino, que eles começam a publicar livros com temática brasileira. Eles realmente são os grandes... a Lygia Bojunga também, a Ruth Rocha, eles fazem uma mudança na literatura infanto-juvenil brasileira que passa a falar das coisas brasileiras. Em vez de ser aquela literatura voltada pra Europa, já passa a ser literatura infanto-juvenil brasileira. Quer dizer, eu sou de uma geração depois deles, mas eu já peguei já esse bonde andando, quer dizer, já tava uma coisa forte, a produção literária brasileira já muito forte. Mas eu notei que não havia quase nada sobre África! Ora, nós somos um país onde a maioria da população tem o sangue negro em suas veias, não é isso? O Brasil é o segundo país no mundo com população negra, o primeiro é a Nigéria e depois, é o Brasil. Então, é um absurdo porque a criança ela precisa se ver refletida no livro, se a criança ela é negra ou índia e ela abre um livro e só vê gente loura, ela não se vê refletida naquele livro. Isso acontecia também no cinema, na televisão brasileira que agora que a televisão brasileira tem colocado personagens negros, ocupando papel principal, mas não é muito ainda não. Se você ainda olhar pra propaganda, essa coisa toda, o Brasil ainda exibe uma face muito europeia. E essa face europeia estava exibida nos livros infanto-juvenis. Tirando Ana Maria Machado e Joel Rufino, mas que eram poucos ainda no meio da produção. E eu percebi que havia essa brecha, que não havia especificamente livros falando sobre África. Então eu resolvi escrever até por isso, sabe? Que eu falei assim: “Puxa vida, as nossas crianças precisam saber”, das histórias que tem na África que são tão parecidas com as nossas, lógico: os escravos trouxeram esses contos pra cá, aqui se misturaram. Então foi isso, sabe? Hoje em dia, já há outros autores escrevendo sobre África, como também há sobre os indígenas também, que também não havia quase nada também, o índio quando aparecia era aquele ‘o índio bom é o índio morto’, o índio era um selvagem. Ou então, aqueles livros que o índio era ilustrado como se fosse um índio americano com aquelas roupas e penachos, vestido com se fosse um índio americano. Então, eu acho que a nossa literatura infanto-juvenil, hoje em dia, é uma literatura diversificada e que a criança brasileira, ela se vê refletida nesses livros, nós temos todos os rostos ali. (pausa) P2 – Você tava falando da sua percepção do mercado editorial na década de 80, nessa conquista dessa identidade. R – Sim, uma identidade brasileira que eu acho que hoje ela está bem marcada. Os livros brasileiros têm feito sucesso no exterior, têm ganho vários prêmios, até autores como a Ana Maria Machado ganhou prêmios internacionais, muitos livros nossos são traduzidos, eu mesmo tenho livros traduzidos pro espanhol, pro alemão, pro inglês. P1 – E quais são os temas da cultura africana que você mais procurou abordar assim? R – Eu gosto mais dos contos tradicionais, os contos tradicionais, mas eu faço muito o chamado ‘reconto’. O que é o ‘reconto’? O reconto é você pegar um conto tradicional africano e eu vou tentar recontar esse conto aqui pro brasileiro, pro público brasileiro. Quer dizer, não é uma tradução, não é uma adaptação, porque é o seguinte: quando num conto tradicional lá, o contador numa aldeia seja onde for ele faz referências ao baobá, que é aquela imensa árvore, ele não precisa explicar ao público dele todo o significado que o baobá tem. O baobá é, numas regiões, considerado uma árvore sagrada, em outras, é ali que são enterrados os chefes, os reis antigamente, tem todo esse significado. Então, quando eu conto essa história pro público brasileiro, eu tenho que dar um jeito de inserir na narrativa o que significa o baobá. Num conto tradicional de animais, quando aparece uma tartaruga, a plateia já sabe que vem aí, ou um conto engraçado ou um conto no qual a tartaruga se vai dar bem, ela vai enganar um animal maior. E aí, eu tenho que dar um jeito também na minha forma de escrever, de explicar isso pro público brasileiro. Eu sempre procuro explicar que na África eles têm sempre um respeito pelos mais velhos, quanto mais velho, mais idosa a pessoa, maior o respeito, que eles acham que são pessoas que viveram muitos anos, elas têm muita coisa pra contar, ela tem mais experiência. E como a tartaruga é um bichinho que vive muitos anos sabidamente, pode até cem, mais anos, eles fazem essa associação: se a tartaruga vive muito, ela deve ser muito esperta. Então, nos contos tradicionais ela sempre vence: vence o leão, vence o elefante, isso é bem peculiar no conto tradicional africano. Outra coisa que eu faço também: eu nunca digo: “É uma história africana.”, eu digo: “É uma história de tal povo.” Aí, eu vou dizer qual esse povo, eu dou um jeito de explicar qual é esse povo, eu tento inserir no conto canções desse povo, vou apresentar a forma como esse povo se veste, entendeu? Tudo isso eu tenho mínimo cuidado. Aí, vem a minha pesquisa, vem toda a base que eu venho me dedicando há vinte e poucos anos a esse estudo da cultura africana. Eu gosto muito de fazer... não sei se eu posso. P1 – Claro. R – Eu lancei agora um livro chamado O Segredo das Tranças e outras histórias africanas que são cinco recontos, cada um deles dos países africanos de língua portuguesa, que são cinco: Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e a Guiné-Bissau. Esse é um livro que eu gosto muito. E um outro que eu fiz, que é uma das minhas preocupações que é a seguinte: sempre que eu conto que já morei na África, etc e tal, as pessoas, a tendência é perguntar: “Ah, você morou na África? Como é a África?” Aí eu tenho que perguntar assim: “Qual África você quer saber?”. Que África é muito grande. “Que região da África você quer saber?” Então, pras crianças, quando são as menores, eu faço questão de explicar pra elas, às vezes pra espanto delas. Que a África tem florestas, tem rios, tem animais, etc. A África tem grandes cidades, cidades com arranha-céu, com shopping, com cinema. E muita gente pergunta: “E tem cinema?”, “Tem shopping?” Então, você tem que explicar, é lógico que com os maiores você tem que falar de todo o passado da África, de falar no Egito, tudo isso. Esse livro que eu lancei agora se chama ”O ABC do continente Africano”, que é um abc mesmo, quer dizer, onde cada letra ela vai falar um pouquinho de alguma coisa da África; pode ser da dança; pode ser da música; pode ser das grandes civilizações; pode ser dos grandes líderes africanos como Mandela; de um rio africano, o Nilo aqui no caso; as grandes civilizações; as grandes metrópoles existentes na África; os problemas de poluição, essas coisas todas. Quer dizer, é um abc mesmo que dá uma visão geral da África. É uma visão mais simplificada, lógico, voltada pra um público mais infantil, mas ele é um abc. Agora, eu não escrevo só sobre África. Como eu viajo muito, eu gosto muito sobre o folclore brasileiro, eu tenho muitos livros sobre as festas tradicionais, sobre o Boi Bumbá, eu tive lá no Boi de Parintins, o Boi de Mamão de Santa Catarina. Quer dizer, eu faço questão de ir nos lugares, eu não faço livro de orelhada, entendeu? Se eu resolvo escrever um livro sobre o Boi de Parintins, eu vou lá, vou lá na ilha de Parintins assistir, anotar, conversar com as pessoas. O Boi de Mamão em Santa Catarina, eu vou lá no Boi de Mamão de Santa Catarina. Se um livro sobre inscrições rupestres no interior do Piauí, lá vou eu pro interior do Piauí. Pra ir lá, vou lá, tiro foto, pesquiso. Eu moro no Rio de Janeiro, uma vez eu fiz um livro sobre supostas inscrições existentes no alto da pedra da Gávea, que é um morro, uma pedra lá no Rio muita alta, de onde os praticantes de asa-delta se jogam, se lançam. E existe uma lenda que lá tem umas lascas na pedra que muitos acreditam que são vestígios da escrita de povos... os fenícios, que os fenícios estiveram no Brasil muito antes de Cabral e deixaram escrito lá uma frase, que alguns juram que aquilo lá ta escrito em fenício. Lá fui eu subir, tem que subir com corda, entendeu, essa coisa toda. Levei quatro horas e meia pra chegar lá em cima. Então, eu gosto de fazer isso. Fiz agora também dois anos uma pesquisa sobre os chineses que trabalharam na estrada Madeira-Mamoré, lá fui eu pra tentar ver se conseguia achar ainda descendentes dos chineses lá na Madeira-Mamoré, fui lá ver os restos dos trilhos no Amazonas, no meio da floresta, quer dizer, eu gosto muito disso. Agora, faço também o chamado livro de aventura, livro de ação que criança gosta, eu faço alguns ambientados aqui no Brasil, posso fazer outros ambientados na África também. Faço até histórias de amor também: esse é um livro novo também, chama-se Meu Primeiro Amor, onde são dois idosos que lembram como foi que eles se conheceram na escola e eles vão lembrando através de bilhetinhos que eles escreveram um pro outro o quanto eles eram apaixonados um pelo outro; só que nenhum dos dois tinha a coragem de contar pro outro. Quer dizer, depende muito. Agora, ideias... bom, eu pra escrever uma história, eu preciso ter uma ideia. Eu sei que tem autores que dizem que sentam em frente ao computador, bate uma letra e a partir daquela letra, eles conseguem ficar sentados olhando praquela letra e vão em frente. Não, eu preciso ter uma ideia básica. Tem gente que tira de sonho, até que sonho realmente é uma boa matéria, mas eu ainda não escrevi, não consegui escrever nada baseado em sonho. As minhas fontes principais são as viagens que eu faço, porque eu, quando garoto, eu viajava nas páginas dos livros, e hoje em dia, eu viajo graças aos meus livros. Então, hoje em dia eu conheço aí muitos países e já estive nos cinco continentes, tive a felicidade de conhecer os cinco continentes. Não conheço todos os países do mundo ainda não, mas ainda chego lá. As viagens me dão muito material, que eu tô sempre com o meu caderninho, tô sempre anotando no meu diário de bordo que eu vou anotando tudo, tudo. Eu cheguei agora de Angola e tô com um diário lá todo anotadinho do que eu vi, do que eu escutei, as histórias que as crianças me contaram lá. Que todos esses lugares assim eu sempre peço pras crianças me contarem histórias delas, histórias tradicionais que os avós contaram pra elas, as tias. Jornal também me dá muita ideia, ainda mais jornal brasileiro que todo dia você abre e tem um crime, tem um sequestro, tem alguma coisa assim. Jornal brasileiro também me dá muita motivação. Eu não sei escrever livro de encomenda, algumas editoras já me solicitaram assim. Não, eu gosto de escrever assim aquilo que eu tô afim, sabe? Então, se eu tenho uma ideia eu tento fazer uma sinopse, pra mim assim, tento fazer duas ou três linhas. A partir dessa sinopse, eu vou pesquisar tudo, dependendo do assunto do livro eu vou pesquisar tudo sobre aquilo, vou correr, vou correr, vou correr bibliotecas, arquivos. Eu tenho uma história que é sobre a invasão dos piratas franceses no Rio, chama-se A Carta do Pirata Francês. E eu fui no Arquivo Nacional e consegui achar a carta que um pirata enviou ao rei na época, lá fui eu conseguir achar a carta. Foi difícil no Arquivo Nacional. Então, eu faço essa pesquisa primeiro: junto o material e aí, só aí que eu vou tentar escrever. E o meu grande segredo, quer dizer, pra mim, o meu método de escrever é esse: eu tento escrever a primeira página, a primeira página pra mim é mais difícil porque eu escrevo para o público infanto-juvenil, que é diferente do público adulto. O adulto, se alguém te emprestar um livro e dizer assim: “Ó, esse livro aqui no começo ele não é muito bom não, mas depois ele fica muito bom.”, você vai tentar ler; se você gosta de ler, você vai. A criança, se ela abrir já na primeira ela não gostar, ela larga, então, eu tenho que dar um jeito de agarrar o leitor logo ali na primeira página, a primeira página é muito importante nesse tipo de literatura que eu faço. Se eu conseguir fazer a primeira página do jeito que eu gosto e que eu acho que tá legal, eu vou em frente; se eu não conseguir realmente eu desisto, aí, eu vejo que eu não vou conseguir fazer aquele livro. P1 – Queria que você pudesse ler algum trechinho de algum dos três que você mostrou aí, se você quiser, um trechinho de um livro. R – Já que eu falei tanto de África... o ‘ABC’ são pequenos textos porque neste abc fala muito as ilustrações também, o texto, ele é curto. E esse é um casamento muito importante no livro infantil: escritor e ilustrador, essa parceria é importantíssima. Então, aqui no verbete África, por exemplo, eu digo assim: “África de florestas, pântanos, desertos, estepes, savanas, rios, mares e montanhas infindáveis. África de monumentos históricos talhados em blocos de pedra. África de modernas e vibrantes metrópoles. África de povos urbanos, agrícolas e pastoris. África de múltiplas etnias, culturas, línguas e religiões.” Quer dizer, num texto curto, eu tento dar uma visão do que é o continente africano, pra não ficar aquela visão estereotipada de África. Na letra b eu coloquei baobá, então eu digo: “Baobá, árvore sagrada e gigantesca, senhora das áridas vastidões. Seu tronco é tão grosso que são necessários vinte homens de mãos dadas para abraçá-lo. Os galhos secos e eriçados parecem raízes em direção ao céu abrasador como se ela tivesse sido plantada de cabeça para baixo. Em algumas localidades, acredita-se que quem tomar um chá feito com suas folhas nunca será devorado por um crocodilo. Por sua sombra acolhedora e pela capacidade de armazenar água, ela é chamada também de árvore da vida, ou simplesmente, de mãe.” P1 – Bonito. P2 – Bonito. Eu queria se você pudesse contar algumas dessas viagens. R – Ó, eu diria assim, a primeira assim, até que foi uma das primeiras viagens pro exterior assim, foi uma experiência bem marcante, foi no famoso Trem da Morte ali na Bolívia. Ele é chamado Trem da Morte porque ele vai tão cheio, tão cheio, tão cheio, inclusive as indígenas elas ocupam até o banheiro, elas jogam assim os panos no banheiro e elas assentam ali, ocupam e não se pode usar o banheiro, inclusive. Ele vai tão cheio, tão cheio, que muita gente passa pro teto que é o lugar mais fresco. Eu, inclusive, fiz isso também, de noite, porque é um trem que vai muito devagar, ela vai muito devagar. E muita gente escorrega ali de noite, dorme ou bebe e cai dali, por isso, que ele é chamado de Trem da Morte. Era chamado, parece que tiraram esse trem agora de circulação. Essa foi uma viagem que me marcou muito porque eu duro, com pouco dinheiro no bolso, mas com muita vontade, viajando assim por um país assim com uma cultura assim tão diferente, tão bonita, que são nossos irmãos aqui bolivianos, peruanos. Depois essa experiência na Guiné-Bissau, que é marcante na minha vida assim, que muda minha vida totalmente, eu me torno um escritor realmente quando eu volto da Guiné-Bissau, quando eu resolvo escrever. A Guiné-Bissau me deu esse pontapé, que eu já tinha dentro de mim, mas que é a Guiné-Bissau que vai despertar. As viagens que eu fiz pelo interior da Guiné conhecendo seus diferentes povos, e não só pela Guiné, porque lá nas férias também eu aproveitava e viajava por países ali por perto, eu viajei por Serra Leoa, por Libéria, por Gâmbia, Senegal, viajando assim de carona com as pessoas, de caminhão, em carroceria de caminhão, entendeu? Numa época em que há vinte anos, há vinte e poucos anos não tinha guerras civis ainda, países como a Libéria e Serra Leoa que, hoje em dia, seriam impossíveis de viajar na maneira como eu viajei. Foi muito marcante. Das viagens recentes, há dois anos, eu tive na China, que a China é tão distante que a gente fica pensando assim que nunca vai chegar, nunca vai ter proximidade. Eu fui lá, era um Congresso de Literatura Infantil e eu fiquei maravilhado realmente com a China, com a potência do país, eu gostei muito. As viagens são muitas. Falando de viagem, eu ficaria aqui a noite toda. P2 – E essa relação que você já mencionou, essa importante relação entre o ilustrador e o autor de literatura infanto-juvenil. Fala um pouquinho qual é a sua experiência pessoal dentro dessa relação, com quem você trabalhou mais ao longo dos anos de carreira... R – Ta, tá. P2 – Como você enxerga mesmo essa complementaridade. R – Bom, eu já escrevo há vinte anos, tenho setenta livros, quer dizer, já trabalhei assim com os grandes nomes da ilustração brasileira. Como eu já tinha dito aqui, no começo, você não opina nada, quem opina é a editora e você só vê seu livro pronto quando chega às suas mãos. Mas à medida que eu fui publicando mais e escrevendo mais e conseguindo nome no mercado, eu já fui conseguindo e que eu também fui conhecendo os ilustradores, eu já fui conhecendo o traço de cada um, de saber: “Esse aqui eu acho que é mais legal pra ilustrar essa história aqui”, eu fui conseguindo fazer... eu tenho algumas boas parcerias. Com quem eu tenho mais livros ilustrados é Ciça Fittipaldi e Graça Lima, as duas ilustraram vários livros meus, livros que ganharam vários prêmios, essas são duas ilustradoras. Mas eu tenho trabalhado com vários ilustradores, são muitos com os quais eu trabalho. E hoje em dia, eu faço questão de conversar com o ilustrador. Às vezes, eles vão na minha casa ou eu vou na casa deles, porque os livros têm uma característica muito própria, entendeu? Por exemplo, uma história africana minha que é passada em determinado país, a ilustração tem que ser as roupas, não daquele país, mas daquele povo, que às vezes, num país africano tem trinta, cinquenta povos e é aquele povo específico. Então, o ilustrador não pode fazer uma ilustração qualquer. Às vezes, ele não tem esse material. Então, eu tenho um banco de dados que eu fui fazendo ao longo dos anos, até das minhas viagens também com fotos, essa coisa toda. Então, eu empresto essas fotos, entendeu? A gente conversa e tudo. E é importantíssimo esse relacionamento autor-ilustrador, é muito importante no livro infantil. P1 – E o relacionamento com o público? R – O público?  P1 – O leitor. R – O público... com o público é ótimo, o público é ótimo porque a gente viaja muito, nós visitamos muito escolas onde os livros são adotados, nós somos chamados, até escola onde os livros não são adotados. Porque geralmente nós vamos visitar escolas particulares, são as escolas que podem comprar os livros. Mas, às vezes, escola pública que é a professora só tem um livro na biblioteca, mas às vezes, é amiga minha e me chama, eu vou, entendeu? E agora também tem tido grandes compras do governo. O governo, de cinco anos pra cá, passou a comprar milhões de livros pras escolas públicas. Então, esse relacionamento é muito bom, então, você chega numa escola e eles estão te esperando, eles fazem uma verdadeira festa, eles te fazem mil perguntas e vai acontecendo também um fato interessante: há alguns que já começam a querer escrever pra você, que pede endereço, aquela coisa toda. A gente dá, né, eu dou, eu não me importo não. Aí, alguns escrevem pra você, mas é sempre assim pra pedir um livro. Escreve, pede um livro. Aí, se você mandar, depois daquilo ele já não te escreve mais. Eu tenho alguns correspondentes, eu tenho uma menina de Curitiba que se corresponde comigo desde os doze anos, ela agora ta com dezenove, ta na faculdade. Nunca deixou de me escrever, uma vez por mês. E ela vai ser escritora, ela escreve muito bem, desde os doze ela mantém correspondência comigo. P2 – Que interessante. R – E eu tenho uma menina também que me mandou uma carta muito bonita, pena que eu não esteja aqui com ela, que ela me mandou há uns três anos, dizendo justamente daquele livro que eu falei aqui, Rômulo e Júlia, que é um livro que falava sobre tortura, desaparecidos políticos, que ela dizia que ela queria me contar que aquele livro tinha transformado a vida dela, veja só. Que quando ela tinha doze anos, ela leu o livro pro irmão, o irmão era até mais velho do que ela, mas ela leu o livro pro irmão que o irmão não tava afim de ler. Ela leu o livro pro irmão. E ela gostou tanto da história que ela leu aquilo mais de dez vezes, ela falou que ela sabe o livro de cor. E por causa do meu livro, ela passou a se interessar por Ciências, pela História do Brasil, Ciências Políticas e tudo. Então, ela mandou aquela carta agradecendo, que ela já tinha estado na faculdade, já tava se formando já e ela dizia que isso tudo foi graças ao meu livro. Isso pra mim é fantástico. Agora, hoje em dia tem outro fenômeno que é o e-mail, eu tenho página na internet, aí tem o meu e-mail, eles me mandam pra mim. E acontece o seguinte: agora vêm os espertalhões, nós recebemos muito e-mail de leitor que diz o seguinte assim: “Senhor escritor, por favor, eu tenho prova amanhã. Me mande o resumo de seu livro, por favor.” Quer dizer, eles não querem nem ler, eles querem que você mande o resumo do livro. “Eu tenho prova amanhã.” Eu acho isso um horror, prova de livro. Eu sempre digo: “Não mando resumos. Leia o livro, leia a história que você vai gostar.” Então tem muito assim. E tem muitos que escrevem, quando eles são pequenos eles querem sempre saber assim, perguntas como, eles insistem nessa coisa: “Quantos anos você tem? Você é casado? Você tem filho?”, entendeu? Eu sempre brinco com eles, eu digo: “Escritor não tem idade, depende. Eu posso ter 20, 30, 40, 50, depende do personagem que eu tô escrevendo.” Mas a relação é boa, é boa e é necessária pra nós. P1 – E esse retorno, esse contato estimula a produzir também alguma coisa? R – Ah, estimula, estimula que eles fazem questões, eles perguntam, eles querem saber: “Ah, por que você não escreve um livro sobre isso, um livro sobre aquilo?” E isso acaba sempre te dando ideias também. Mas eu acho que o retorno principal é você chegar numa escola, ver que as crianças leram o seu livro, elas gostaram; que a escola está toda enfeitada com desenhos que elas fizeram sobre aquela história, elas fazem teatro, fazem dança. Acho que esse é o melhor retorno nosso, ver que a gente conseguiu escrever um livro que eles gostaram. Eu escrevo histórias que eu gostaria de ter lido quando eu tinha a idade deles, eu acho que é isso. Eu fui um grande leitor, eu fui um grande leitor porque eu me interessava também por boas histórias. Então, eu acho que o que fascina um leitor é isso, você ler uma história e gostar dela, que o livro não seja chato, não seja enfadonho. P1 – E qual é a sua visão de literatura?   R – Não, não. A literatura não é pra ensinar de maneira nenhuma, você pode ter até um livro que aquele determinado assunto acabe sem querer dando um ensinamento ao leitor, não é isso? Mas não fazer aquele livro didático: “Esse livro aqui é pra você aprender a ensinar, a ter respeito aos pais ou... é um livro pra ensinar tal matéria.” Não, jamais. P2 – E dentro desse contexto, como você vê depois desses anos de experiência na literatura infanto-juvenil, como você vê a literatura infanto-juvenil? Quais são aqueles bons caminhos que você acha que devem ser trilhados pela boa literatura infanto-juvenil? Justamente evitando esse didatismo... R – Eu acho que didatismo... eu acho que é uma das coisas principais que sempre tem que estar. Outra coisa também que tem que se evitar, e que, às vezes, a gente encontra ainda, é aquele autor que está começando e que ele acha que pra escrever pra criança é tudo em ‘inho’, entendeu? É o menininho, é a fadinha, é... às vezes é falta de conhecimento, tem gente que quer escrever e às vezes, nem lê o que tem no mercado. E acontece muito também o seguinte: de pessoas me procurarem e dizerem assim: “Olha, tem uma história aqui que meu filho adora, adora que eu conte pra ele.” Mas eu sempre digo: “Olha, qualquer história que a senhora, ou o senhor contar pro seu filho, o seu filho vai adorar, porque criança é assim.” Então, o pai, ele acha, ou a mãe principalmente, acham que só porque ela tem uma história que ela inventou pro filho e que ela conta e que acha que aquilo já vai poder ser publicado. E é um custo você tentar mostrar à pessoa que aquilo que ela conta pro filho ainda não está pronto pra ser publicado, não é? Não é aquilo, entendeu? É como mãe que aparece com o filho de seis anos que escreveu uma historinha. Quando começa a falar que escreveu uma historinha já você percebe, não são uns gênios, assim. É muito difícil uma história escrita por uma criança de seis anos estar pronta pra ser publicada. Pode até acontecer, mas o mercado ele cresceu muito, ele cresceu muito e o autor quando é jovem, é natural essa ânsia nele de querer publicar. E às vezes, ficam nervosos, tem uns que me ligam e dão bronca até no telefone porque eles dizem: “Ninguém quer publicar um autor jovem, eles não querem publicar, eles só querem publicar os autores conhecidos.” Eu sempre dou o meu exemplo, eu falo: “Não.” É lógico, as editoras dão preferência aos nomes conhecidos no mercado, que a editora também, ela precisa vender, ela tem que ganhar, essa coisa toda. Agora, ela tá sempre aberta pra novos autores porque os autores também envelhecem, é preciso ter sempre uma nova geração. Mas a primeira vez, eu sempre brinco nas palestras: “A primeira vez é sempre difícil, a primeira namorada, o primeiro beijo, o primeiro emprego e o primeiro livro também.” Publicar o primeiro livro realmente é difícil, ninguém conhece ainda você. Um bom caminho são os concursos, concursos que tem muitos. P2 – Rogério, e os seus próximos projetos de agora pro futuro? R – Eu estou participando de uma coleção com cinco autores que são contos. É uma coleção que vai ser publicada pela editora Record e ela tem um tema, só um tema que se chama Segredos. Quer dizer, cada volume é um segredo, Segredos de Amor, o outro é Segredos Proibidos, voltado pro público juvenil onde nós estamos tendo liberdade de tocar em temas que, às vezes, são considerados tabus. Às vezes, são temas que as editoras não querem publicar porque acham que não vão vender. Porque o nosso grande comprador na verdade é a escola, se nós fossemos depender de vendas em livrarias, não venderíamos praticamente quase nada. Esse é um país que quase não tem livrarias, então, nós vendemos muito pouco. O nosso grande comprador é a escola, é o governo, e as editoras, às vezes, têm medo de tocar em temas tabus. Então, nessa coleção, que sou eu, o Luiz Antonio Aguiar, o Pedro Bandeira, Rosana Rios e Leo Cunha de Minas Gerais. Então, cada um escreve um conto. Então, eu já escrevi contos, por exemplo, sobre pedofilia, que é um tema, violência, tortura, tudo isso. Quer dizer, cada autor está podendo explorar mais a linguagem, sabe, ter mais liberdade na linguagem. Eu acho que essa está sendo uma experiência interessante. Agora, lógico que todas essas histórias que eu trouxe de Angola, isso vai render um livro tranquilamente. P2 – Estamos caminhando pro final. P1 – Só duas perguntas muito de praxe. R – Tá bom. P1 – Uma, nem tanto. Eu vou dar uma de leitor: você tem filhos? R – Eu tenho dois filhos, moram na Suécia; eu fui casado com uma sueca. Tenho um rapaz e uma moça. P1 – Mas quando eles eram pequenos, isso teve alguma influência na sua obra? R – Não, assim, nunca escrevi nada diretamente pra eles. Tem autor até que começou assim fazendo histórias pros filhos e depois, essa história eles conseguiram publicar. Eu conheço principalmente colegas escritores que escreveram livros assim baseado... ou escreveram pra criança, ou escreveram alguma coisa que aconteceu por causa dos filhos. Mas eu nunca escrevi nada assim diretamente pra eles ou influenciado por eles. P1 – E a pergunta de praxe: tem alguma coisa que você quer complementar, que a gente esqueceu de perguntar, na sua narrativa de vida? R – Não, acho que vocês perguntaram bastante. Acho que o que fica assim bem marcado nessa minha carreira, eu acho que é essa vontade que eu tive sempre de viajar, de conhecer o mundo e que me foi proporcionada primeiro pelos livros. Que eu adorava também muito livro de viagem, de exploradores, livros de viagem. Quer dizer, os livros me abriram esse caminho, me abriram essa porta para o mundo. Eles me fizeram... eu acho que é isso que o leitor também... eu acho que é isso que eu procuro proporcionar aos meus leitores: que meus livros abram novos caminhos pra eles, abram novos mundos, né, que despertem neles novas vontades, novas paixões e novos conhecimentos. P1 – E a última pergunta: o que você achou de contar a história pra gente, aqui pro Museu da Pessoa? R – Eu gostei muito, até porque eu sou um contador de histórias, também gosto de contar histórias também. Então, foi muito bom fazer esse depoimento aqui pra vocês. P2 – É um prazer pra gente.
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