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Minhas mãos sujas de óleo

História de: Ticiana Nogueira
Autor: Ticiana Nogueira
Publicado em: 02/12/2019

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Recebi a notícia que o óleo chegou em uma praia mais pro sul da Bahia. Sou graduanda em biologia, e durante 3 anos fiz iniciação científica trabalhando com ecologia de praias. Eu sabia o que isso significava, sabia o quanto isso ia ser impactante pra os organismos que vivem na areia e como isso se estenderia. Senti uma angústia e desespero em agir o mais rápido possível, de qualquer forma. Simplesmente ficamos esperando. Todos os dias acordávamos cedo para ter notícia da situação das praias e, um belo dia, ele chegou. Foi avistado no litoral norte da Bahia. Fui com umas amigas o mais rápido possível. Chegamos lá e havia fragmentos do óleo na areia. Pensei: “nossa, pelo menos é menos do que eu pensava”. Eu estava enganada. Alguns dias depois de termos ajudado na limpeza no litoral norte, fomos para uma praia em salvador. Usando luvas compradas no mercado e máscara de pano. Quando chegamos no local eu fiquei em choque. Não conseguia dizer nada, eu não tinha controle das lágrimas descendo sob o meu rosto. Simplesmente não sabíamos o que fazer, por onde começar. Havia manchas de 5 metros de largura estendida pela areia, todas as pedras cobertas por óleo, em um certo ponto eu não conseguia ver a água, era só óleo. Minha amiga olhou pra mim e disse: “É, vamos lá”. Ficamos a manhã toda limpando o máximo que podíamos, foram toneladas de óleo, era desesperador, cansativo, e parecia que não tinha fim. Foi uma das cenas mais tristes que já presenciei. Alguns dias depois eu e minhas amigas passamos muito mal por conta da exposição ao óleo, chegamos no hospital e demos nosso relato, o médico pareceu não se importar muito. Eram constantes socos que lavávamos do Estado. O médico menosprezando nossa situação, o governo omisso, estávamos sujando nossa mão de óleo em frente ao desespero de salvar nossa vidas, nosso trabalho, e nada era feito. Porém, ajudar durante dias na limpeza do óleo, sujar minhas mãos e vê tantos outros foi triste, já que é dever do estado, mas ao mesmo tempo me preencheu de alguma forma. Eu estava dando a minha vida por aquilo é sempre darei.

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