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História

Minhas escolas e professoras

História de: Erika Doniani
Autor: Carlos Eduardo Fernandes Junior
Publicado em: 10/07/2019

Sinopse

 Em seu depoimento, Erika conta como passou sua infância até os dois anos de idade no sítio em Nova Aliança, interior de São Paulo, morando junto com os avós materno, pelos quais nutre um imenso carinho, regado de lindas e emocionantes lembranças durante suas existências. Quando fez dois anos, seus pais vieram para São Paulo, capital, com intuito de mudar o percurso da vida de lavrador que o campo lhes oferecia. Conta que mudaram-se para uma casa muito pequena e escura, e que sentia muita saudade de seus avós. Seus pais lutaram bastante e conseguiram melhor de vida, conquistaram sua casa e sempre a orientou, e incentivou  e oportunizou que estudasse para que tivesse um futuro melhor que o deles e uma vida menos sofrida. Sempre foi dedicada e esforçava-se nos estudos e conta que juntamente com suas amigas no final do ensino fundamental tinham ambições de entrar na Etec Camargo Aranha, no curso de secretariado, mas para isso contaram com o apoio e dedicação de uma professora muito querida de matemática, que ensinava a esse pequeno grupo os mistérios dessa disciplina, numa casa em obras, sobre uma mesa de madeira de construção e cavaletes, graciosamente todas as tardes. Graças à ajuda da professora Norma as quatro meninas conseguiram passar no Vestibulinho e cursaram por três anos secretariado. Seu universo começou a expandir.  No ultimo ano do curso Erika conta que começou a fazer estágio na Secretaria do Trabalho e após um ano já conseguiu trabalhar na área. Relata que optou pelo curso de Geografia para sua graduação, por gostar muito dessa disciplina e ambicionava fazer estudo de campo pelo mundo. Enquanto concluía sua graduação foi promovida e um dos lugares que trabalhou foi um banco, local onde começou a diversificar suas atividades profissionais, atuando na área de marketing. Trabalhou também de forma esporádica ministrando aulas no período noturno para alunos do ensino médio e para jovens e adultos. O banco faliu e como não tinha formação acadêmica nessa área, voltou-se para a educação, inscrevendo-se numa escola próxima sua casa. Conta que nesse mesmo ano casou-se, e assim seguiu seu curso como professora de geografia. Teve dois filhos, um menino e uma menina. Trabalhava em escolas estaduais e depois prestou concurso para trabalhar na Prefeitura, e está na educação há quase 30 anos. Relata que nos últimos anos passou a trabalhar como coordenadora pedagógica e atualmente como assistente de diretor de escola, na EMEF Infante Dom Henrique, onde considera exercer atividades que visam contribuir para novos rumos da educação, juntamente com seus companheiros de equipe e demais profissionais da escola.  Conta que a escola está localizada numa rua muito peculiar, com vários equipamentos sociais, o estádio da Portuguesa e uma comunidade, conhecida como ‘Vila’. Aos olhos estrangeiros uma rua muito perigosa, cheia de indigentes, aos olhos um pouco mais atentos, uma rua frágil, repleta de sofrimento e vulnerabilidade. Essa é a realidade da maioria dos alunos e seus familiares. Pessoas que moram num balão de indiferença, preconceito, descaso, abandono. Relata que esses alunos chegam à escola para conquistarem um novo significado na vida, num primeiro momento talvez não saibam dizer sequer qual é, mas aos poucos eles vão desabrochando e começam a ver o mundo não só do pequeno balão onde residem. Conta que a equipe da EMEF Infante Dom Henrique, futura EMEF Espaço Bitita, após analisarem os dados, estudar sobre a comunidade, verificarem as aprendizagens dos alunos, estão implantando novas propostas para melhorar as aprendizagens dos estudantes. Sonhos altos, tanto quanto aqueles que desejam para todos, não só do entorno, mas para todo país. Relata que já poderia aposentar, e que mesmo com forte desejo de conhecer vários continentes, entre eles a Europa, vai continuar trabalhando mais alguns anos, e quem sabe consiga contribuir mais um pouquinho para esse lindo projeto da unidade. 

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História completa

Eu gostava de ir à escola porque adorava as professoras. Eu lembro muito o sol e do verde. Eu ficava muito nos ambientes externos da escola. Eu não lembro eu estar muito dentro da sala. E quando estava dentro da sala, sempre tinha alguma coisa legal para fazer. Então, tirando as vezes que a gente inventava de cortar cabelo dos colegas, ou cortarem o nosso, escondido debaixo da mesa, mas era tudo muito gostoso. Eu lembro muito da harmonia, me lembro das festas juninas que a gente dançava. Eu gostava de dançar, era muito alegre. Então era muito vivo, muita alegria.

 

Aí eu fui estudar no Frederico (escola) e fiquei lá da primeira à oitava série na época, o tempo todo lá. Também gostava muito. Já tinha bastante regras, mas eu nunca tive muito problema quanto a regras. Eu sempre fui muito assim, até pacata. Até estava lembrando outro dia de uma história que eu tinha uma amiguinha no primeiro ano, acho que a Anita era a professora. Eu adorava a professora Anita e acho que eu só lembro o nome dela e de outra professora. Acontecia que normalmente uns coleguinhas meus ficavam na sala de aula, porque não terminavam a lição, e eles não iam para o intervalo, pois ficavam no intervalo fazendo lição. E eu um dia falei assim: “Bom, eu vou errar, porque eu fico aqui com eles”. Poxa! Mas a professora me deu uma bronca, mas uma bronca! Eu fiquei de castigo aquele dia, mas também nunca mais errei de propósito.

 

Mas eu me lembro de outro nome de professora, Cássia, uma professora de Ciência, mas acho que já era terceiro ano. Essa professora trabalhava com aqueles cadernos de 200 folhas pequenos. Este caderno era cheio de questões que a gente tinha que copiar. Eu odiava. E a prova, a gente tinha que decorar aquilo tudo. Eu odiava aquilo. E eu tinha uma professora de Artes que era maravilhosa. Quando eu estava na oitava série, a professora Noemi, de Matemática fez uma coisa incrível. A gente estava estudando para entrar na Etec. Eu e mais algumas amigas. Meu tio tinha um terreno vizinho e estava construindo. Tinha um cômodo em obras. E a gente conversando com essa professora Noemi, ela falou assim: “Se vocês quiserem, eu dou aula para vocês”. Eu falei: “Mas vai dar onde?”. Daí eu tive a ideia: vou perguntar para o meu tio se a gente pode ir àquele lugar, àquela obra. Era uma obra. A gente pegou dois cavaletes, colocou umas tábuas, deu o endereço para a professora e a professora foi! Ela deu aula meses para a gente fora do horário dela, e a gente foi muito bem na prova, tudo, graças a professora Noemi.

 

Éramos quatro amigas, e umas pessoas que às vezes queriam ir às aulas no meio da obra. Eu queria muito encontrar essa professora na minha vida para agradecer. Porque eu acho que na época eu não tinha o discernimento do que era aquilo, o que ela fez. Gente, ela não cobrou nada, era o tempo livre dela e ela foi ajudar a gente. Assim, maravilhosa! Ela era séria e muito legal. Era época de ditadura, depois eu fui entender porque eu tinha tanto que decorar tanta coisa, principalmente de Geografia e História. Mas lembro que eu ia estudar de avental, avental branco...

 

Erika Doniani Dias, professora, nascida em Nova Aliança (SP), em 3 de maio de 1967.

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