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História

"Minha vida virou música”

História de: Alfredo Bello (Luis Alfredo Coutinho Souto)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/06/2018

Sinopse

Alfredo Bello, conhecido também como DJ Tudo, relata que quando criança morou em várias cidades, por isso teve uma infância agitada. Conta que durante sua adolescência foi atleta, lutava karatê e fazia parte de um time de handball, participou do movimento punk e anarquista. Conta algumas experiências durante a faculdade, época em que ele diz que foi muito viva e criativa, expõe suas opiniões sobre a cidade de Brasília,  fala sobre seus trabalhos de quando ainda era moço, sobre sua paixão pela música e pelos livros e sobre seus projetos profissionais, como o de registro de cultura tradicional brasileira.

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História completa

P/1 – Então, para começar a gente queria que você falasse o seu nome completo primeiro e o nome fictício também.


R – Meu nome é Luis Alfredo Coutinho Souto, de batismo. E meu nome de cidadão artista público é Alfredo Bello. E às vezes  DJ Tudo, quando eu ponho música para o povo dançar. Mas eu faço isso pouco.


P/1 – Tá. Fala para a gente o local e a data de nascimento.


R – Nasci em Juiz de Fora, Minas Gerais. Cinco de janeiro de 72.


P/1 – Nome dos seus pais e local de nascimento.


R – Meu pai é o Luis Carlos Jesus Souto. Ele é de Belém do Pará. E minha mãe é Terezinha Pereira Coutinho, nascida em Santos Dumont, Minas Gerais.


P/1 – Conta um pouco o que eles faziam, como se conheceram.


R – Bem, meu pai era mascate, caixeiro viajante. Ele vendia coisas na rua, de porta em porta. Depois começou a vender em loja, produto de Ovomaltine, várias coisas. Ele conheceu minha mãe em Santos Dumont. Foi trabalhar e minha mãe foi, nasceu em Santos Dumont, na roça, num lugar chamado Jacuba, porque na época nem chamava Santos Dumont, chamava Palmeiras de alguma coisa. Virou Santos Dumont por causa da fama do Santos Dumont, que nasceu lá. Ela estudou até aqui em São Paulo para freira, mas aí depois teve muitas funções. Acho que a época que eles casaram ela era telefonista. Ela aposentou como funcionária pública em Brasília. E hoje é aposentada e agente de saúde. Meu pai é falecido.


P/1 – E você tem lembrança dos avós?


R – Não, não, infelizmente eu não tive. O pai do meu pai faleceu quando ele era bebê, antes dele nascer, ele estava na barriga. A mãe da minha mãe faleceu antes de eu nascer. O pai da minha mãe - eu estou fazendo uma confusão, mas tá ótimo - o pai da minha mãe faleceu no dia que eu fiz oito meses. E minha avó, a mãe do meu pai, ela faleceu [quando] eu já tinha 13 anos, mas eu nunca tinha tido contato, porque minha mãe fugiu com a gente do meu pai, né? Aquela coisa típica brasileira.


P/1 – E irmãos, você tem?


R – Eu tenho - tenho que contar - tenho quatro irmãs. Tenho duas mais velhas, uma por parte de pai, que eu conheci bem depois. E tem uma irmã que tem 20 e poucos anos, e tenho uma irmã de 11 anos. Quatro irmãs.


P/1 – Essa mais velha, o que é que ela faz?


R – Minhas irmãs mais velhas moram as duas em Recife. Uma é auditora do Tribunal Regional do Trabalho em Recife, e a outra é atendente desses call centers. Lá, as duas em Recife.


P/1 – Como é que era a convivência com eles na infância?


R – Com as minhas irmãs? É, era boa, mas assim, aquela coisa de irmão mais novo, né? Um pouco complicado. Elas [tinham] seis, sete anos, mais velhas. Volta e meia [a gente] brigava. Quando comecei a crescer eu fazia karatê, dava uns “paus” feios nas minhas irmãs, mas foi melhorando. Agora que a gente já é quase todo mundo velho, já está cada vez mais perene a relação com elas.


P/1 – E a casa, descreve um pouco a casa. O espaço físico. Como é que era? Era grande, pequeno, como é que...


R – Nossa, na verdade a gente morou em vários lugares. Quer dizer, eu nasci em Minas, a minha mãe saiu de Juiz de Fora [quando] eu tinha dois para três anos. A gente foi parar na Cidade Eclética. Eu não lembro. Morei dois anos nesse lugar. Eu, na verdade, quase que apaguei da minha cabeça, foi uma fase muito complicada na minha vida. Eu não lembro da casa, exatamente é isso. Eu não lembro, porque eu lembro que eu tinha sonhos com comida. Era um negócio... Uma história maluca. Quando a gente foi morar num lugar chamado Santo Antonio Descoberto, onde minha mãe mora agora de novo, aí eu lembro da casa. É uma casa de madeira. Eu lembro que a gente chegou lá no dia do meu aniversário de cinco ou seis, cinco anos. Cheguei lá e [era] uma casa de madeira, bem simples. É um lugar até hoje, é um entorno de Brasília, uma cidade dormitório. Lembro dessa casa. A gente morou um tempo, depois morou em outras casas. Mas essa casa era uma casa muito simples. Assim, depois a gente morou em Brasília, num lugar chamado Ceilândia no subúrbio de Brasília. Também era uma casa, mas eu não sei, não é uma coisa, sala, quarto, nada muito importante, descrição.


P/1 – E nesse período anterior, que você disse que era meio difícil, qual eram as questões?


R – Não, a gente foi morar nesse lugar chamado Cidade Eclética, até as pessoas falam como lugar de comunidade alternativa, mas era um lugar de estrutura social, de uma estratificação social muito rígida. Minha mãe era enfermeira, mas mesmo assim a gente… A comida era num refeitório. Eu lembro que eu não aguentava comer. Eu quase, realmente, eu quase morri de... Era muito ruim assim. Foi uma época muito complicada da minha vida porque eu sonhava com o Homem de Seis Milhões de Dólares, porque estava começando aquele seriado que tinha, eu lembro que eu sonhava com ele me dando comida. Era o meu herói, então ele me dava comida. Por isso que eu estou te falando, o dia que eu cheguei na outra casa, que minha mãe cozinhou, foi um dia muito marcante na minha vida. Porque eu lembro que esse dia, a partir desse dia, eu voltei a ser uma pessoa assim. Lembro de brincar… Por isso que estou te falando, esse lugar chamado Cidade Eclética que eu vivi dois anos.


P/1 – E você lembra qual era a comida que ela cozinhou quando chegou?


R – Ah, não, não lembro exatamente. Talvez devesse ter angu. Porque minha mãe fazendo angu... A gente não mora perto, quando ela quer me deixar com vontade de ir para a casa dela, ela fala: "Ah, estou fazendo angu." Angu com feijão, qualquer coisa assim. Coisa de mineiro, né, que nós somos.


P/1 – Depois dessa mudança conta um pouco da infância. Amigos, por exemplo, amigos, escola, como é que era isso?


R – É, olha... Depois que eu saí lá de Cidade Eclética, a gente morou em Santo Antonio Descoberto, foi a época que eu comecei a estudar. A gente ficou lá de cinco, cinco aos oito anos eu morei lá, quase nove. Eu tinha amigos em escola, mas assim, isso é uma fase muito novo também. Não tenho muita, menino de rua, pescar, aprender, eu lembro que aprendi a nadar engolindo peixinho. É uma coisa que você já deve ter ouvido falar, de muita gente contar essa história que é uma coisa. Essa época foi muito rápida, não tenho muita memória. Lembro que depois fui morar na Ceilândia, que eu estou falando. Morei em Taguatinga e Ceilândia. Aí eu já consegui ter mais, montar relações mesmo de época que... Igual a Ceilândia eu morei, nossa, deixa eu tentar contar, eu morei uns 13 anos talvez. É, por aí. Uns 13 a 15 anos na Ceilândia. Eu cheguei lá e fiz a quarta série. Lembro que da quinta série até a oitava era uma turma só. A gente tinha amigo, tudo. Mas é, também não sobrou ninguém nessa época, porque eu também saí de lá, né? E mesmo também nessa época eu comecei a me afastar das pessoas, porque na adolescência eu, eu fui punk, né? Teve uma fase assim, e aí mesmo depois de ter sido punk, virei anarquista. O pessoal ficava muito assustado comigo, não assustado, mas lembro depois de voltar já tendo formado na universidade lá e o pessoal falou: "E aí, o que é que você fez da vida?". Gente que eu não via há 10 anos, mãe de amigo, eu falei: "Ah, fiz universidade." Ela falava: "Você fez universidade?" Depois, no final, talvez só eu de uma turma de 30, 40 pessoas, infelizmente, fui o único a fazer universidade.

Mas nessa época, o que eu lembro bastante é que eu jogava handball. A gente tinha o melhor time de handball estudantil de Brasília… Durante três anos, foi esse. Durante quatro anos foi o time do Centro Educacional V. Brasília é tudo letra e número, né? Eu morava no P – Norte, na época era o final de Brasília. Era Finlândia, eu lembro que a gente falava: "O fim da Ceilândia", mas agora depois já tem QNQ, QNR, e por aí vai. Lembro que eu era atleta. Fiz ginástica olímpica, karatê, fiz bastante atividade esportiva. Estou até precisando voltar a fazer.


P/1 – Nunca pensou em seguir?


R – Quando estava fazendo o segundo grau eu pensei em... Porque tinha um time em Santa Maria no Rio Grande do Sul, que era o melhor time de handball na época. Lembro que fui assistir um campeonato e perguntei para os caras como é que era a coisa da universidade, porque eu ia bem na escola, assim, sem estudar eu conseguia ir bem em nota. Tinha coisas de exatas, ia super bem. Aí eu pensei: "Pô, vou para Santa Maria para poder jogar handball." Mas aí que tá, o handball hoje está até muito melhor, mas era um esporte muito, muito amador, né? Ao mesmo tempo nessa época eu comecei a me envolver em questões, me interessar por questões sociais… Falei que eu fiz parte de Movimento Punk, essas coisas, você começa a ver o lado social das coisas. Os amigos também, que tinha herdado das minhas irmãs. Comecei a... No lugar onde não se tem, lá nesse bairro que eu morava não tem teatro não tem nada. São cidades, mesmo o subúrbio de Brasília são cidades dormitórios, não têm uma vida cultural. Conheci uns amigos porque comecei a ter muito contato com livro também.  Comecei a ler, ouvir muita música. E isso também foi me afastando do... Da minha turma de amigos porque eu andava com pessoas que eram dez anos, oito mais velhas do que eu, aí também fui afastando. E me interessei por Ciências Sociais. Entrei no CEUB, uma faculdade particular horrorosa, quase desisti de estudar por causa disso. Lembro que tinha um professor de Economia que ele… Ele de família, deviam ser muito ricos, aí foram assassinados quando teve revolução na Romênia. Ele dava um livro de Matemática, de Economia que era de pergunta e resposta com a resposta no final. Igual uma palavra cruzada. Era horroroso. Eu quase desisti. Isso eu tinha 16 anos.

Voltando, minha mãe quando me botou na escola... Entrei com seis anos na escola. Ela fez uma “maracutaia” de falar: "Não, mas não sei o que". E eu, realmente, com três anos já tinha aprendido a ler e escrever. Ela tinha uma tática que eu vi ela usando agora com a minha irmãzinha que é estar no elevador, no ônibus... Aquela letrinha é do Carrefour, ou qualquer coisa. Rapidinho alfabetiza, com forma lúdica de alfabetização. Eu entrei com seis anos. Quando eu fui entrar na universidade eu entrei com, agora eu não estou, não sei se foi com 16. Quando é que termina o segundo grau, com quantos anos normalmente?


P/2 – 17, 18.


R – É 17. Não, então foi com 16 que eu terminei. Com 17 eu entrei nessa universidade. Tive uma crise e era particular. Aí minha mãe falou: "Termina pelo menos o primeiro semestre." Eu não conseguia. Tinha um professor da matéria que eu queria, que era Sociologia, o curso que eu queria fazer, e era evangélico. Totalmente radical. A gente chamava ele até de Chuveirinho, porque ele cuspia nos alunos. Cara, era um curso... E eu também não fiz inscrição na universidade pública porque, realmente, era uma coisa tão distante, como continua. A coisa de uma pessoa no subúrbio entrar na universidade assim, que eu nem sabia. Naquela época era mais distante ainda as informações. Se a gente pensa em, isso foi em que ano? 89. Dezoito anos pra cá as informações melhoraram, né? A circulação delas, a qualidade nem tanto (risos). E aí eu entrei no CEUB, não consegui fazer o primeiro semestre, depois fui para a UnB. Um ano depois eu fiz o vestibular e entrei em Sociologia. Foi no primeiro semestre de 1990. Eu tinha 18 anos, entrei igual todo mundo.


P/2 – O que a gente vê muito em Brasília… Nessa época, no final de década de 80 que teve aquela explosão da música e tal. Você participou, você vivenciou isso ou  porque você estava…?


R – Vivenciei, bem lembrado. É, não, vivenciei. Assim foi a época que, primeiro, que Brasília é uma coisa que não tem nada, né? Então as pessoas, o rock... Realmente eu ia em show de várias coisas. Eu tive banda até,  é até uma outra, é um capítulo, a coisa da música que a gente vai voltar. Eu trabalhei no Ministério do Trabalho aí trabalhei um ano exatamente. Peguei um Fundo de Garantia comprei um baixo elétrico, porque um amigo falou que ia tocar isso, como todo mundo começa assim em música no Brasil, porque não tem escola de música e as pessoas começam tocando para depois virar músico, para depois estudar música. E aí com 14 anos eu comecei a brincar. Com 15 eu fiz parte do Movimento Punk, duma tentativa. Quer dizer, depois virou uma tentativa de uma construção de um Movimento Anarquista no Brasil, que também não deu certo. Mas eu lembro que eu viajei, fui para o Pará dar palestra, vim pra São Paulo, dei uma circulada nisso. Aí eu entrei na universidade em 1990,  na UnB, estudei dois anos e meio de Ciências Sociais e depois eu transferi para Música. Lembro que o que me marcou foi que eu entrei numa crise na universidade com os professores que eu tinha aí eu falei: "Não vou ficar aqui não", porque eu vi umas pessoas que - é uma coisa meio viciosa - ele faz graduação, depois faz mestrado, faz doutorado e aí ele vira professor lá. Só que assim, a tese dele é sobre lá dentro, sobre o pensamento de não sei o quê. Não tem nada a ver com o mundo. Cria uma redoma e ficam eles lá falando do mundo para eles, sobre eles. E aí eu entrei numa crise. Eu quase fui para História, mas nessa época eu já era músico, eu tocava. Não era músico profissional, mas eu tocava em várias bandas. E aí eu transferi meu curso para Contrabaixo, bacharelado em Contrabaixo Acústico. É o curso que eu realmente me formei. Em 91 eu entrei na Escola de Música de Brasília, ao mesmo tempo que eu estava na universidade estudando Sociologia comecei a estudar contrabaixo, mas sério, né? Porque eu já tocava desde 86, eu já tinha o instrumento. Mas aí em 91 eu comecei a levar, comecei a estudar contrabaixo. Estudava um pouco porque aquele instrumento grande dói a mão pra você conseguir [tocar]. Eu estudava 20 minutos. Uma semana depois estudava meia hora. Isso de segunda a sexta. Depois de seis meses eu estudava oito horas por dia já. A crise que eu tive em Ciências Sociais eu canalizei tudo para música. Aí minha vida virou música. Hoje em dia toda a minha vida gira em torno da música. E, na verdade, ampliando agora, a coisa da cultura que a música faz parte.


P/1 – Só voltando um pouco, Alfredo, você estava falando muito da importância do lúdico, nessa coisa de não ser quadrado. Na sua casa, na sua infância, a sua mãe, a educação dos seus pais, tinha muita história, coisa de assombração ou história, histórias lúdicas que fizeram você aprender alguma coisa?


R – Olha, minha mãe ela até… Às vezes fica se culpando, mas minha mãe tinha que trabalhar. Então assim, eu fui criado sem meu pai, minha mãe fugiu do meu pai quando eu tinha três anos, em Juiz de Fora. E eu não tive muito esse acompanhamento educacional da minha mãe.


P/1 – Mas eu digo, não digo educacional no sentido formal, mais informal. História, ou amigos que contam. Como é, as coisas...


R – Não, não, não tive. Fui criado num lugar muito sem nada. Brasília é um lugar... E principalmente o subúrbio de Brasília é mais. Você pode até de repente ter algum lugar que tem comunidades que, sei lá, migrou 15 famílias de Patos de Minas, uma coisa que tem muito mineiro de Patos em Brasília, ou no Cruzeiro que tem os cariocas. Você pode até ter uma estrutura social mais próxima de uma comunidade. Mas Brasília é muito, muito “terra de ninguém”. Então na verdade essa coisa de raiz pra mim... Eu estou buscando sozinho agora.


P/1 – Essa coisa da infância, de brincadeira, por exemplo, o que é que era assim?


R – Não, acho que como jogava muito bola, corria. Assim, chegou um momento, no meio da infância, que o esporte tomou uma dimensão muito grande. Mas eu não, assim, não tive muito, eu não tive uma infância das melhores. Era um menino meio, eu era magro, pequeno. Assim é meio engraçado, porque eu cresci hoje, sou grande mas, acho que talvez foi por causa do esporte. Eu era magro, pequeno, feio, tinha uma coisa que era meio um patinho feio. E chegou um momento que eu comecei a tirar... Eu era o melhor aluno de Exatas da escola, aí os caras queriam me bater, uma vez porque eu não tive que... Eram seis turmas de quinta série e todo mundo  tinha que copiar a tabuada inteira e eu não tive que fazer isso. E os caras... Ai por sorte eu fazia karatê. Aí veio um dos caras mais... Que eu morava no subúrbio já. Eu não tinha noção, mas já tinha malandragem, essas coisas, só que lá agora está muito perigoso mesmo. Na época não tinha tráfico, não tinha nada no P – Norte. E aí veio um cara me tomar satisfação por causa da Matemática. Eu lembro que eu estava com essas, esses uniformes de, uniforme não, essas coisas de atleta. Minha mãe me deu aquela da… Que tem uma trança, uma listrinha aqui, aqui. Eu [estava] todo… Me sentindo todo felizinho na escola. O cara chegou... E lá é muita lama, não tinha asfalto nenhum lá. O cara botou a lama na minha perna assim. Nossa, eu lembro que, a coisa do sangue subir. E aí eu fazia karatê, dei um golpe de perna. Eu girei assim: paf, bati. Aí o cara cuspiu sangue, eu falei: "E agora?" Aí o cara ficou assim… Me olhou e saiu correndo. Eu virei meio, fiquei meio que... Me esqueceram assim. Eu continuava do meu jeito, mas ninguém mais se preocupava comigo, porque eu bati no cara e eu poderia de repente... Sendo que eu era o maior “bunda-mole”, não brigava nada. Eu lembro que eu ia fazer exame... Eu fiz karatê, quase formei em faixa-preta, eu fiz até faixa-marrom. E aí quando você faz a mudança de faixa você tem que fazer a sequência do movimento, que chama kata, e  a coisa da luta. Lembro que na hora da luta era terrível, porque eu não me sentia impelido a dar golpe - é claro que você não precisa machucar a pessoa, você chegar perto, mas eu não me sentia assim. Eu ficava perguntando: "O que é que eu estou fazendo aqui, né?" - ao mesmo tempo que a sequência dos movimentos, eu pegava uns livros japoneses, eu sabia coisa de quarto Dan. De, coisa que talvez quase ninguém soubesse no Brasil. Eu lembro que na época a gente circulava bastante, lembro de vir para Minas, para o Rio, para assistir. Uma vez eu ganhei um campeonato Centro-Oeste de Kata. É bastante história. (riso)


P/1 – E como que chegou essa história do punk na sua vida. Conta um pouco a trajetória.


R – Olha, foi por causa da música também. Eu lembro que eu tinha 14 anos, eu trabalhava no Ministério do Trabalho.


P/1 – Conta essa história então um pouco antes. Como é que você chegou até o Ministério do Trabalho com 14 anos?


R – Bem, minha mãe é uma pessoa que, muito simples, né? Terezinha Pereira Coutinho. E ela trabalhava no Ministério. Ela aposentou como funcionária pública e a minha irmã já estava trabalhando lá, a minha irmã mais velha. E aí assim, aquela coisa de família simples que o filho tem que aprender trabalhar para se sustentar. E o que aconteceu? Minha mãe conseguiu um trabalho para mim de office-boy lá, com 14 anos. Daí eu trabalhava não exatamente no Ministério, porque no Ministério não poderia. Eu trabalhava na FUNDALC - Fundação Lindolfo Collor, que é o avô do Fernando Collor. Um cara que matou no Senado, um desses calhordas da história do Brasil, né? Trabalhei um ano no Ministério do Trabalho. Tinha um contato com o Max, um cara que, até eu... Engraçado, o irmão dele, o Bacalhau, que é o baterista do Ultraje a Rigor, do Little Quail, um cara músico, um cara até importante. Aí o Max, o irmão dele trabalhava na UNDALC também e ele estudou na universidade com os caras de todas essas bandas: Plebe Rude, _______, e eu comecei a ter mais contato com essa coisa do rock, rock Brasília. Não só rock Brasília dos anos 80, mas também até essas... Coisa que agora é comum, mas na época você ouvir rock inglês, ouvir outras coisas, era difícil. Eu tinha fita k-7 de ensaio do Legião Urbana, do não sei que do show da Plebe Rude não sei a onde. Eu ouvia tudo isso, comecei a ter contato. Fui descobrindo a coisa da música punk, e ao mesmo tempo a coisa social, do pensamento social. E as coisas meio que se juntaram, durante um tempo.


P/1 – E como é que era essa turma aí do pessoal?


R – Olha, eu conheci o pessoal… Porque na verdade teve essa primeira geração do Rock Brasília que era todo mundo Plano Piloto, né? Filho de diplomata, que era os caras. Aí depois eu fui de uma geração já de punk do subúrbio e a gente tinha um grupo, a gente criou um grupo que era - essa história é até bem interessante - chamava CRU - Consciência, Radicalismo e União. É até engraçado, porque hoje eu tenho um trabalho musical chamado Projeto Cru. Até no disco a gente gravou uma música em homenagem à essa época. E era um grupo de, sei lá, oito, nove pessoas, só que chegou num contexto que a gente quase não ouvia música mais. A gente se encontrava para ler textos anarquistas clássicos. Era muito engraçado. E a gente conseguiu uma vez, junto com o pessoal do Partido Verde, a gente organizou uma manifestação anti-militar em Brasília no Sete de Setembro, que eles tiveram que mudar - isso é bem interessante - eles mudaram. Antes o desfile militar era no eixão, era um lugar cheio de casa, agora eles botaram no Setor Militar, que agora eles têm mais controle. Porque a gente fez uma bagunça, uma algazarra, levou umas faixas: "Quanto mais armas mais forme." E conseguiu chamar um bando de secundaristas, de estudantes. Quando viu tinha sei lá, umas 50 faixas no meio das pessoas. Todo mundo ia, só que levantava, né? Distribuindo panfleto. E isso durou uns dois, três anos da minha vida. E foi muito importante porque tem várias pessoas dessa época que ainda são super amigos. E aí eu tinha uma banda chamada Pastel e Caldo-de-Cana, talvez fosse a única coisa típica de Brasília. Era ir na rodoviária comer pastel e caldo-de-cana.


P/1 – E como é que era, do que é que era?


R – Banda punk, né? Só que era mais um pouco mais engraçada. Chamava (risos) Pastel e Caldo-de-Cana.


P/1 – Nessa época de mais politização sua, o que você teve de influência, o que você vê de influência daquela época para agora assim, que é importante?


R – Foi muito importante. Eu continuo tendo uma visão, tudo que eu faço hoje assim... Eu tenho uma visão crítica do mundo - a gente ainda vai chegar nas coisas que eu faço hoje - mas foi super importante para ter essa noção do social mesmo, noção de classe, de tudo que eu fui aprendendo nessa época. Eu lia muito, sei lá. Eu devo ter encaixotado em casa mais de mil livros (risos)... Até tem umas histórias… É, os livros não vamos contar não (risos).


P/1 – Ah, por que não? Conte algumas histórias pra gente.


R – Não, não. (risos)


P/1 – Não?


R – (risos) Não. O Monteiro Lobato, né? "Um país se faz de homens e livros". Homens que roubam livros e livros roubados. Toda propriedade é um roubo, né? Não vou falar mais não. (risos)


P/1 – Tinha algum objetivo? Por que se juntava essa galera? Conta um pouco as coisas.


R – Não, era essa coisa do ideário punk, só que foi mudando para o ideário anarquista, só que ainda era muito romântico, essa coisa de mudar o mundo daquele jeito, como era pensado o mundo no início do século passado, só que isso não existe. É impressionante, porque eu acho que a leitura do… A crítica do mundo anarquista é a mais pertinente mesmo. Realmente, toda, toda propriedade é um roubo mesmo. Enquanto a pessoa puder ter uma propriedade própria, vai ter desigualdade, vai ter rico, vai ter pobre, vai ter classe, vai ter um explorando o outro, aí vão inventar por causa da cor, por causa da religião. Assim, não tem outro jeito. Enquanto não for comunitário… e estamos numa época cada vez menos comunitária. Acho, talvez, pelo menos do que a gente tem conhecimento do mundo, é a época mais egoísta, porque [ocorre] o contrário, cada um se matando para conseguir as coisas.


P/1 – E esse pessoal, o que eles viraram? Você sabe?


R – Sei… Antes disso, na verdade, também cheguei a tocar, tive uma outra banda chamada Escroteiros (risos). A gente tocou, no aniversário de 45 anos da Bomba de Hiroshima, a gente tocou aqui na Estação da Luz, no Parque da Luz, em 89. Até lembro disso. O Pastel endoidou. Tem o Neném. O Neném ainda é porteiro. O Robson trabalha em gráfica. E tem o Marcão que é designer - eu estou lembrando assim, algumas pessoas - e tem um que a gente é muito amigo, o Sidney, o Sidão, ele era meio que o líder da época. O Sidão a gente é muito amigo. Ele é arte-educador, é poeta. Ele fez um livro com cd. Um projeto lindo que até a gente fez junto. A gente continua, sei lá, eu fiquei sabendo ontem que eu vou ser o padrinho da filha dele que nasceu. E tem o Marcão, que eu falei que é designer também. O Paulo também é designer. Tem muito designer, engraçado. É, o Paulo virou designer. Tem umas pessoas que, eu lembro do B12, o Ricardo, os caras viraram gente comum, assim. Eu tenho notícia por ter algumas pessoas, mas assim...


P/2 – Eu percebi assim que nessa época que você tinha essas primeiras bandas vocês, apesar de estar lá em Brasília, vocês já estavam, e falar que era uma coisa mais isolada, você veio tocar em São Paulo. Como é que era essa integração com outras bandas? _____________


R – Não, era muito difícil. Nos anos 80 a coisa da informação era muito difícil, não tinha internet. Então tinha essa dificuldade, mas tem uma coisa do underground mesmo, de troca. Por exemplo, a gente tinha catálogo de fita k-7 da Finlândia, a gente juntava dinheiro e comprava. Vinha a fita k-7 de uma banda da Finlândia assim ou daqui de São Paulo. Eu lembro de ir em Belo Horizonte para fazer encontro de estudante secundarista, eu ia lá na Cogumelo comprar disco. Não tinha muito intercâmbio, era uma coisa bem difícil. Não só o que se fazia de punk, mas de nada. Não tinha. Isso só começou a ter mesmo nos anos 90. Depois dessa banda eu tive uma banda que era meio de rock gótico, chamada Pompas Fúnebres, é um romance do Jean Genet. Era bem “intelectualóide” mesmo, bem “cabeçudona”. É até engraçado, fizeram esse negócio de Orkut, fizeram uma comunidade. Ficam colocando umas perguntas, porque é uma coisa que não teve registro nenhum.

Agora os caras vão fazer uma coletânea virtual. Em 96 fizeram uma coletânea de música dark e colocaram, só que foi na entressafra de Brasília, de bandas. Então era uma coisa totalmente underground. A gente tocava em alguns lugares em Brasília, mas não teve visão nenhuma, né? Aí depois em 92 pra 93 eu montei uma banda chamada Os Cachorros das Cachorras, aí já era uma outra coisa que tem a ver com a coisa: o que é os anos 80 e os anos 90? Os anos 90 a gente já começa a olhar para o Brasil. Os anos 80 a referência é ouvir rock inglês, essas coisas. Nos anos 90 já estava ouvindo muita música brasileira, já gostava da época do punk, mas depois eu fui aprofundando. Quer dizer, continuo aprofundando cada vez mais. E a gente tinha uma banda chamada Os Cachorros das Cachorras, aí a gente tocou na Alemanha, tocou “n” vezes aqui em São Paulo, no Rio. Fizemos disco, é até engraçado, hoje você encontra esse disco, teve mil cópias. Você encontra nesses blogs de música para baixar. Aí um disco raro, de uma banda que existiu. De vez em quando alguém me manda um link de site, né? Com essa banda a gente andou mais ainda. Eu conheci um bando de gente por causa dessa banda e expandi bastante. E foi uma banda já da geração que saía muita banda de Brasília, que era Raimundos, nem lembro, Little Quail, a gente já é dessa geração de bandas. Eu lembro que foi a última gravação que o Nelson Gonçalves fez em vida. Só que é surreal. A gente gravou ele numa barbearia falando um negócio mais maluco do mundo, né?


P/1 – O que ele falou?


R – Não, falando de telefone. A música era um bolero falando da namorada, da distância, do telefone, de copinho de iogurte. Era uma viagem. Aí ele falava: "Pra falar contigo, ______, eu fico aqui ouvindo o Lá 440. É tipo o barulho do telefone." bem surreal.


P/1 – E você saiu de casa com que idade?


R – Quando eu entrei na universidade, fazendo Sociologia, eu morava na Ceilândia, né? E a universidade é no Plano Piloto. Eu ficava uma hora e meia para ir, uma hora e meia para voltar. E aí chegou uma época que ficou difícil. Em final de 91 eu  fui morar com um amigo, dividi apartamento, depois dividi casa, na verdade. A gente nem pagava, era uma história que aconteceu de uma casa, de um apartamento funcional. Brasília tinha muito, nem sei como é que é agora. Mas uma pessoa entrou de licença e um apartamento funcional vagou e a gente só tinha que pagar o condomínio. Depois eu fui morar num alojamento. Morei seis, quatro, cinco, eu morei seis anos no alojamento da Universidade de Brasília. Eu tinha quase uma tarja de patrimônio assim (risos). Essa época da Universidade de Brasília foi a época muito, muito viva, muito criativa. Eu lembro que aí começou milhões de coisas. Tinha o Centro Acadêmico que a gente organizou, a gente viajava. Eu viajei para dois festivais de Arte e Cultura da UNE, pela UnB. Indo como pessoa, como estudante e também com essa banda. A gente tocou as duas vezes, isso em Ouro Preto em 90 e, não, 93, 92. 92 a gente não tocou porque ainda não existia.


P/1 – Mas conta um pouco então dessa vida de estudante. O que foi que marcou tanto assim?


R – Não, é que foi a época criativa. Eu morava no alojamento e ficava no Departamento de Música. Esse grupo dos Cachorros e as Cachorras foi quase que montado dentro da UnB. Mais da metade eram alunos da Música. Eu lembro que tinha um quarteto de jazz, tinha orquestra de câmara, tinha uma big band no campus. Lembro que essa orquestra de câmara a gente saía tocando. Tinha lançamento de praça na Química - exemplo assim - aí iam lá e chamavam a gente, a gente tocava música, uma orquestra. Eu lembro que pegava o seguinte: botava o baixo acústico nas costas, nessa mão o banco. Ia cada um com um instrumento e tocava. Teve vezes da gente tocar duas vezes. Eu lembro de sarau de Centro Acadêmico de Antropologia, que era uma porra louquice. Estava o bando de maluco e estava a gente tocando. E foi uma coisa muito legal. Lembro que no semestre a gente tocou, sei lá, umas 35, 40 vezes. Eu lembro que a gente conseguiu uma praça, eles fizeram uma reforma no Departamento de Música por causa de uma atuação que a gente fez. Aí, puta, eu fazia trilha de filme de amigo. Assim, umas coisas... Foi uma experiência muito rica. E de vivência também na universidade, né? Inclusive agora está cada vez pior, né, a universidade. E principalmente o Departamento de Música. Música está, quer dizer, muito evangélico, de cabeça fechada. E também já tinha um departamento... Na música, até uma época a gente não estuda música brasileira, nem música popular, nem música erudita brasileira. Nem Villa-Lobos a gente via na universidade. Tudo, muita coisa eu consegui de conhecimento por fora da universidade. Mas assim, foi um espaço muito interessante de viver lá, o lugar. Até tinha o Centro Acadêmico, mas o pessoal também chamava de Casa do Alfredo.


P/1 – É?


R – É, porque eu vivia lá, né? Tinha gente que achava... Porque assim, eu só ia em casa no alojamento para dormir. Eu ficava estudando contrabaixo, ensaiava com todas as minhas bandas lá. Aí tinha gente que achava que eu morava lá também. Era muito engraçado.


P/1 – Uma coisa que eu fico muito curioso quando eu falo com músicos: essa coisa de estudar oito horas por dia. Isso é o que? Uma coisa solitária, uma coisa com banda?


R – Não, não, solitário. O estudo de instrumento é uma coisa solitária. Mas dependendo de como for é uma coisa... Quer dizer, é uma coisa saudável também, pra alma. Pelo menos pra mim nessa época. Igual eu falei: entrei numa crise em 91 com a Sociologia. Eu lembro que eu li Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, do Max Weber e aquilo ajudou a entrar em crise com o mundo. Falar: "Caramba, é isso mesmo." Assim, de entrar em choque com as coisas. Como eu falei, eu comecei a estudar contrabaixo um pouquinho porque doía, mas dentro de alguns meses eu estudava oito horas por dia. Porque foi uma coisa que me salvou. Foi minha, foi minha igreja evangélica, né?


P/1 – Aí as leituras deram uma rareada, uma diminuída, assim?


R – O quê?


P/1 – Quando começou a parte da música muito forte as leituras que eram muito...


R – É, não, com certeza. Na verdade depois disso eu lia mais nas férias, porque não tinha sala de aula. Eu continuava estudando, mas aí não tinha sala de aula. Aí eu conseguia ler. E começou a ficar mais leitura relacionada com música mesmo, para estudar.


P/1 – A sua vontade era ser músico profissional em que sentido?


R – Olha, eu lembro que na época eu ainda sonhava em tocar em orquestra, mesmo. Coisa que eu fiz ainda. Talvez quando eu formasse se eu tivesse ficado no Brasil eu estaria tocando numa orquestra. Antes de ser músico eu já toco, antes de entrar na universidade eu já tocava música popular. Minha vontade era ser músico, assim como eu sou hoje.


P/2 – Voltando um pouquinho só. Você disse no começo da entrevista que você trabalhou com 14 anos numa, no Ministério do Trabalho...


R – É, que até é uma coisa interessante. Fala.


P/2 – Não, pode falar.


R – É, foi uma coisa muito boa para mim, pra ajudar o que eu faço hoje, que eu trabalhei de arquivista. Eu cuidava de um arquivo móvel. Eram umas gavetas gigantes que rodavam de 10 mil fichas do Diário Oficial. Então assim, tinham três forma do Diário Oficial ser arquivado. Era muito criativo, então pra mim foi muito bom. Porque hoje, sei lá, eu tenho oito mil LPs, e aí é muito fácil para mim organizar. Eu chego numa biblioteca, em nenhum lugar ninguém precisa muito... Só quando eu estou com pressa ou então é muito grande um sebo que eu vou comprar livro, eu pergunto: "Onde é que tem tal sessão?" Mas assim, normalmente, eu cuidava de um arquivo de 10 mil fichas. Aí foi uma, foi uma experiência muito boa para mim de arquivista.


P/2 – E aí assim, a partir desses 14 anos você continuou trabalhando, teve outros empregos?


R – Eu tive, mas foi esporádico.


P/2 – Aí quando começa a carreira de músico profissional mesmo, essa transição de uma carreira, de outras coisas...


R – Em função de outras? Olha, quando eu entro na universidade, quando eu transfiro já meu curso de... Eu transferi em final de 92, quando eu transferi eu já estava tocando nessa orquestra de câmara da universidade e na big band. E aí assim, eu tinha duas bolsas, que eram muito pequenas. Mas assim, eu lembro que eu pagava três reais de aluguel e 50 centavos por refeição na universidade, né? Porque eu era aluno carente, tinha isso, não sei como é que chama agora. E aí o morador do alojamento pagava três reais por mês. Então assim, lembro que eu trabalhava com isso e conseguia juntar dinheiro, eu conseguia comprar. E fazia esses conjuntos que eu tinha, e também acompanhava cantor, fazia uma gravação ou outra. Já fui me tornando músico profissional nessa época.


P/1 – Eu queria saber, Alfredo, como que surgiu o apelido Alfredo Bello?


R – Não, não é apelido. Na verdade é um... Tem uma música do Bob Dylan chamada Hurricane, né? E tem uma versão brasileira da Cida Moreyra, era o Alfredo Bello o nome do personagem. E um amigo falou isso uma vez, e quando eu vi já tinha ficado, né?


P/1 – De quem a gravação do, do...?


R – Da Cida Moreyra, da versão do Bob Dylan. Só que durante a época dos Cachorros das Cachorras, era Alfredog Soryano. E aí até hoje tem gente em Brasília que me chama de, o Chico César mesmo, que eu conheci na época dos Cachorros, ele até hoje ainda me chama de Alfredog, e outras pessoas. Em Brasília ainda se eu volto é Alfredog ainda. Mesmo eu saí de lá há muitos anos mas continua Alfredog.


P/1 – Então você se formou e mudou já?


R – Isso. Eu formei em julho, em dezembro eu vim embora para São Paulo. Formei em julho de 98, fiz o recital de formatura, que você toca. O trabalho final de curso de instrumento, de gestão, é um recital. Eu toquei Bach, Kurcewicz, Villa-Lobos, Radamés Gnattali, eu lembro. Foi em julho de 98. Aí eu já estava namorando com a Simone Soul, baterista e percussionista. Em dezembro de 98 eu mudei pra São Paulo. E estou aqui há nove anos, quase.


P/1 – Mas veio pra, qual era o objetivo?


R – O objetivo assim, é que eu vi que em Brasília não dava pra mim mais. E aí a gente já estava namorando, aquela coisa paixão louca, eu não conseguia  ficar longe. Aí eu forjei minha vinda pra cá, né? Aí vim em dezembro de 98 pra cá. Assim, querendo ser... Pensava de repente procurar uma orquestra aqui, alguma coisa pra tocar e continuar fazendo música popular. Só que quando a gente foi fazer o primeiro disco, a gente fez um cd dos Cachorros das Cachorras. E aí quando começou essa coisa de fazer o disco eu comecei a pensar a música de uma forma diferente. Eu vi o disco tentando entender... A gente já tinha feito umas experiências de demo, de fita demo, né? De gravar em estúdio algumas vezes. Também coisa de disco dos outros, de participar. Você começa a ter uma vivência de estúdio. E aí eu sei que o processo de fazer esse disco me deu uma, uma certa, um certo prazer, uma coisa de estar em estúdio fazendo. Eu lembro que eu falei: "Puta...". E de conhecer gente, ler um pouco, tal. Fui me aproximando dessa coisa de, do disco, de ter estúdio, de produzir. Mesmo em Brasília eu produzi um trabalho de um amigo chamado Lula, que não saiu, mas foi ótimo, porque o pai dele era dono de uma agência de viagem, e eu namorando com a Simone, aí sempre tinha passagem de avião pra Simone (risos) ir pra São Paulo, ir pra Brasília. Era na época que a gente estava namorando, 98. Quando eu vim pra cá, comecei a tocar com um artista aqui, ia fazer coisas. Uma coisa que eu já comecei a fazer paralelamente na universidade... É que a gente organizava muitas festas. Só que é um pouco diferente dessas festas da universidade aqui da USP. É uma coisa mais, um pouquinho menor, assim, pra menos gente. Às vezes só pro povo estudante da universidade, que já é muito. E muitas vezes eu me via na situação de ficar colocando música, né? Aí, sei lá, de 99 pra cá eu  comecei a fazer isso com um pouco mais de freqüência. Aí eu inventei um nome, porque DJ é um negócio meio... Acho meio engraçado. Eu inventei o DJ Tudo. A gente falou brincando, e ficamos rindo, aí falou: "É esse nome mesmo." Aí de vez em quando eu sou o DJ Tudo. E uma coisa também daquela época de Brasília... Eu comecei com o hábito de colecionar discos. Saí de Brasília devia ter uns mil LPs, vim pra cá, pra São Paulo, que você encontra muito mais, e comecei a comprar disco. E viajando também eu, nossa, eu tenho hoje uns oito mil e tantos LPs em casa. Coleção boa. E também ser DJ é uma forma de pegar essa música e trocar com todo mundo. Inclusive é uma coisa que eu tenho feito pouco, mas como eu tenho site eu tenho vontade de fazer um, fazer uns podcasts desse tipo de coisa. Ou até fazer rádio virtual. Isso eu vou, em algum momento eu vou conseguir fazer isso.


P/1 – E, mas essa coleção era, era uma coisa que você comprava porque queria mesmo escutar ou era uma, qual era?


R – Não, pra escutar música. Assim, eu tenho prazer em escutar música, né? E aí eu comecei, disco de jazz, música clássica, música popular brasileira, rock eu tinha ainda na época. Sei lá, fui comprando. Black music, forró, tudo, tudo. Comecei já tinha uns mil discos trouxe pra cá e continuei comprando. Eu lembro de uma vez ficar um mês em Pernambuco, em janeiro de 2001, de trazer 300 LPs pra cá. Porque também é muito barato assim. Você viaja você paga um real, 50 centavos. É bem interessante. Tem muita coisa que não está, não dá para baixar em MP3, principalmente de música brasileira, que você não encontra no mundo. Aí eu montei uma... Ao mesmo tempo que eu fui comprando esses discos durante seis meses antes de eu me formar, eu fiquei na casa de uma amiga que viajou. Eu estava morando na universidade, só que eu precisava de paz. Assim, sei lá, de estar mais com a cabeça. Porque tinha que fazer recital de formatura. Eu consegui ir para o apartamento de uma amiga que foi ser embaixadora na África, não lembro qual país. Aí tinha um apartamento e eu fui morar. Quando eu cheguei lá, limpando um quarto, um cômodo, eu achei uma coleção de discos de música tradicional do mundo que um antropólogo chamado Terry deixou na casa dela pra ela dar uma olhada. Nossa, e aquilo, eu ficava ouvindo, aquilo mexeu muito comigo. Isso foi em 98. Tem um outro fator também, desde 93 eu comecei a passar Carnaval em Recife. E eu comecei a me interessar muito por música tradicional, por cultura tradicional. Cultura popular, como as pessoas chamam. Todo ano eu ia pro Carnaval de Recife, né? Aí, puta, acordava cedo ficava vendo maracatu, afoxé. Comecei a conhecer essas coisas. Já morando aqui em São Paulo, a partir de 2000, comecei a gravar. A viajar por alguma situação aqui em São Paulo, ou ir pra Pernambuco - que eu já gravei muita coisa - ou Minas Gerais. Começou a ampliar a coisa, desses registros de música tradicional que eu faço. Aí eu criei um selo, comecei a fazer discos disso. Criei um site, tem uns sete, oito meses, onde eu coloco, eu disponibilizo pra audição essas músicas. Quer dizer, uma pequena parte desse acervo, que já está em 650 horas de... Eu viajo muito, por causa desse interesse naqueles discos e o interesse que eu já tinha. Eu comecei a registrar, a fazer gravação e paralelamente aqui em São Paulo eu fui virando produtor de discos. Eu montei um estúdio. De 2000, 2001 pra cá eu produzi uns 30 discos de MPB, rock, música instrumental, música eletrônica, terreiro. Nossa, tenho que lembrar até de mais coisas. De new age, de várias coisas. Eu virei produtor de discos também, é uma forma que eu falei… Porque eu comecei aquele trabalho com a banda e aí peguei gosto. É gostoso estar em estúdio. Eu comecei a fazer isso. E tem o selo Mundo Melhor, que eu falei que eu criei e que já lancei, até ontem, oito discos, seis de música tradicional e dois de trabalho contemporâneo, que é do Projeto Cru que eu falei, e um outro chamado Batucajé.


P/1 – E quando começou essa idéia de lidar com música que não seja tocando, ou seja  produzindo, seja pesquisando, teve algum conflito assim: "Pô, será que eu sou..."?


R – Não, não. Não porque eu acho que faz parte também. Estou falando, eu  comecei a pensar em produzir música quando eu ia fazer um disco da minha banda. E nessas produções que eu faço, 99% eu toco quando é de música popular, não música tradicional, não cultura tradicional. Quando é música de músico assim mesmo, que é feito no estúdio, 99% das coisas eu toco. Até foi uma coisa muito interessante, porque em estúdio você, sei lá, eu nunca tinha gravado o violão. Eu toco violão bem simples, mas aí tem disco do Otto que tem lá, você pega e tem eu tocando violão. Tem um disco de um cantor, eu toco percussão, eu faço teclado. Você começa... Porque também às vezes é coisa que exige menos aprimoramento técnico, não precisa virtuosismo, aí você resolve ali na hora mesmo pra fazer. Você vai vendo, você vai descobrindo também como que você faz, o que precisa, os macetes de estúdio, você vai descobrindo fazendo.


P/1 – Descreve como que surge o selo, a idéia, as pessoas que apoiaram. Como é que foi a história?


R – O que aconteceu é o seguinte: eu já estava gravando essas coisas desde 2000 e aí eu já tinha até procurado o Itaú, umas outras pessoas nessa idéia… Eu vi que eles tinham lançado disco, de tentar "Pô, eu estou registrando umas coisas." "Ah, legal." Falaram assim, mas não sei o que, mas aí vingou nada. E eu registrando, eu viajando. Eu tocava com o Otto nessa época, então eu estava indo muito pra Pernambuco, ia pra não sei o que, fazia uma ponte pra gravar não sei o que. Gravando muita coisa. E me veio... Uma vez eu conversei com um cara, um médico rico pernambucano que diz que gosta de cultura pernambucana. Ele falou: "Ah,  vamos..." E falei: "Eu tenho uns materiais aqui registrados, vamos fazer um disco dessas coisas?" Ele falou: "Ah, vamos, eu te compro tantos discos." Eu falei: "Ah, legal." Aí articulei todo mundo. Já tinhas gravações: "Então vamos fazer." "Vamos." e quando eu procuro o cara, o cara falou: "Não, só vou, só vou dar tanto." Eu falei: "Ixe, não dá." O que é que eu fiz? Eu tentei vender umas cotas, foi complicado. Vendi umas cotas, sendo que eu comprei a maioria, né? Eu fiz dois discos de maracatus: um rural e um maracatu Nação de Recife. Aí saiu em 2004, depois em 2005 saiu um disco Caroço do Maranhão. Depois em 2006 saiu um outro disco de um maracatu, do mesmo maracatu chamado Maracatu Nação Encanto da Alegria. Aí saiu os dois trabalhos, que são duas séries, chama Brasil Passado e Futuro, que é essa coisa de música tradicional, e o Novas Estruturas, é a coisa de trabalho contemporâneo, é Projeto Cru e o outro chamado Batucajé. Eu quero, por exemplo, por esse selo, ano que vem fazer um disco de DJ, a gente vai fazer uns discos de improvisação, porque na verdade também não vai nem ser mais cd físico, a gente vai vender só pela internet ou deixar pra download mesmo. Esses discos de música tradicional que, realmente, eu estou fazendo mais. Depois disso, saiu esse ano um disco dos índios Pankararu, que são uns índios de Pernambuco que moram numa favela em São Paulo. E saiu uma Guarda de Moçambique de Nova Gameleira, de Belo Horizonte, é um grupo de congada de Belo Horizonte. Todos esses discos estão pra... Você pode ouvir eles inteiros no site. Eu ainda não consegui organizar direito para deixar tudo em PDF também para as pessoas baixarem os textos. Música tradicional eu acho delicado essa coisa de baixar porque assim a minha música eu posso fazer o que eu quiser, mas aquela música não é nem só daquela pessoa. Aí tem gente que fala: "Mas é do mundo." mas aí também vira o samba do crioulo doido. Já teve o caso desse Caroço da Dona Elza, não do disco, mas de uma outra gravação que ela fez que um percussionista famoso chamado Aírton Moreira usou no disco sem dar crédito, sem nada. Foi uma história. Aí eu consegui ligar… Ele é espírita… Eu mandei um e-mail falando que o pessoal também era muito espírita e [que era] pra ele acertar, para o pessoal não fechar os caminhos espirituais dele. Aí ele mandou o dinheiro pra ela. Mas assim, eu tou falando, é por isso que eu vejo que é muito delicado. Eu não tenho ainda coragem... Um dia eu posso até mudar de idéia, de pegar e botar essas músicas pra download, mas as pessoas podem. E além dos discos, a maioria desses discos têm 70 minutos - o de Moçambique tem 77 minutos - tem pedaços de festas que eu vou. No site, no selomundomelhor.org dá pra ouvir. Tem um textinho que eu fiz e fotos. Aí você deve ter mais ou menos umas 60 horas de música disponibilizadas lá pra audição. Estou tentando... Quer dizer, tentei já algumas vezes a coisa de patrocínio, pra fazer isso. Mas discos eu continuo fazendo. Vai sair disco de afoxé de Pernambuco, que é um negócio muito bonito. Vai sair umas baianas de Coqueiro Seco de Alagoas. Vai ser uma banda de pífano que é lá de Caruaru, não é a Banda de Pífano famosa de Caruaru que mora aqui há muito tempo. Chama Princesa do Agreste. Vai sair uma Banda de Congo do Espírito Santo, vai sair um Moçambique do interior de São Paulo, vai sair um Terno de Congo de Goiânia. Vão sair vários discos totalmente ainda sem patrocínio, sem parceria pública ou privada. Eu consegui fazer, de algum jeito eu consegui, com dinheiro meu... Arrumando apresentação pra eles aí consegui uma parte do dinheiro. Esse ano eu organizei, teve a Virada Cultural, aí eu organizei uma Missa Conga na Virada Cultural, é uma missa de cultura negra. Foi feita na Igreja Nossa Senhora do Rosário e vieram os grupos. Eles teriam um cachê, eu falei: "Olha, eu completo o dinheiro e a gente faz mil discos." Aí eu fiz o disco, gravo, escrevo o texto, às vezes tem um fotógrafo amigo que viaja comigo, às vezes não. Aí eu também tiro foto, eu escrevo texto e estou fazendo esses discos.


P/1 – Em paralelo ao estúdio então?


R – É. O estúdio é sobrevivência. Não sobrevivência, mas é da onde eu... E músico também, porque na verdade eu sou músico profissional. Eu tenho esses trabalhos que eu falei. Produzi um disco do Junior Barreto, Ortinho, de vários cantores, aí eu faço shows também como músico e DJ também. Eu faço bem menos, mas eu faço festas, eventos, às vezes. Eu fiz em Brasília durante quatro, cinco anos - já tem um tempo que eu não faço - umas festas chamadas Afro-Futurismo,  aí discotecava e tinha performance. Era bem maluco. Em Brasília ficaram bem conhecidas essas festas.


P/2 – Esses registros começaram justamente por uma coisa mais de você querer registrar pra você, assim, né?


R – Não só pra mim, mas eu sabia já a importância que isso tem, do registro. E uma coisa que eu sempre faço, desde o primeiro registro, dou cópia pra eles. Então, por exemplo, se eu perder meu acervo hoje 99, 98% talvez eu consiga cópia nas comunidades a onde eu fui. Quer dizer, não sei quanto tempo, o cd tem tempo de vida útil, ainda mais que eu faço um cd que não é fabricado, eu faço uma cópia e levo pra eles. Mas assim, por exemplo, eu estou indo agora para Catalão aí eu volto pra essa festa que tem lá há cinco, seis anos. No segundo ano, eu levava a cópia pra eles do segundo. Eu vou pra um lugar que eu nunca fui a primeira vez, e tem congado, tem uma coisa, aí eu levo uns CDs e dou pra uns capitães de brinde, que você já faz uma política de boa vizinhança. É uma coisa que as pessoas não fazem mesmo. E assim, eu não ganho bolsa pra fazer isso, agora que eu estou começando. Esse dos índios foi o primeiro dinheiro que eu ganhei na minha vida com registro de cultura tradicional, porque o disco foi feito com... Eles conseguiram uma lei do estado aí eu ganhei um cachê, que na verdade eu também tive que dividir porque eles tinham que arrumar o CNPJ deles (risos) e eu já arrumei uma grana de uma parte do meu cachê pra eles. Mas eu ganhei. Mas assim, tem muito essa coisa das pessoas vão lá, copiam, fazem não sei o quê.

Vi um filme sobre Dança de São Gonçalo, de um grupo de Olímpia. Aí vou lá em Olímpia esse ano e pergunto pra eles: "Você sabe de um filme?" O cara nem imaginava. Um cara foi lá, fez um filme que é até bonito, o cara não ganhou dinheiro com esse filme. Mas acho que o mínimo que ele deveria fazer era mandar uma cópia. Aí o crédito tem, mas o cara não sabe que foi feito o filme. Ou então aquela Música do Brasil, do Hermano Vianna, que cada dia eu descubro mais gente que parou a vida um dia... E outra coisa, normalmente, pra algumas situações eu paro para fazer o registro, mas em 90% não. Então assim, eu não paro ninguém para poder fazer aquilo. Eles estão fazendo o que eles vão fazer do mesmo jeito, que eles estariam fazendo.


P/2 – Como é essa relação com as pessoas que você vai registrar uma festa, como é que se dá isso? Ou como é a escolha?


R – Olha, eu não sei como, mas foi. Por exemplo congada, eu comecei em Aparecida do Norte, que é a maior festa, lá não tem congado, mas é a maior festa do Brasil. É a Festa de São Benedito. E aí lá tem os grupos de Minas, eles te convidam, você vai para Minas, Belo Horizonte, você conhece o grupo de Lafaiete, aí eu vou para Catalão, eu conheci um grupo de Goiânia. Aí você vai pra festa de Goiânia, você conhece o de Goiás Velho. São várias formas de... Você lê um livro, você lê uma matéria, você chega num telefone, liga pra não sei quem, acha. Liga na prefeitura, pega o contato da pessoa. Não sei, são várias formas de se chegar num tipo de manifestação. Eu nunca fui direito para o Sul, eu preciso ir. Eu estou tentando programar para ir pra festa de Santa Catarina, em maio, no Rio Grande do Sul. São coisas que vão, vão caminhando, né? Assim, não tem uma forma exata desse contato. E uma coisa legal também que eu sou muito amigo dessas pessoas.


P/2 – É, justamente, como é a relação com essas pessoas?


R – Nossa, amigo mesmo. De ligar, conversar, ficar feliz quando encontra. Agora esse final de semana eu fui para o Espírito Santo para uma festa de congada, eu estive lá dois anos atrás no Natal deles. Quando eu cheguei lá, nossa, porque eles estão acostumados [com] a gente se encontrar em outros lugares. Eu fui visitar umas pessoas em casa. É super enriquecedor pra mim, e pra eles também é gratificante a questão do respeito, de serem tratados com respeito. É só coisa boa. Pra eles eu acho que também é legal. Porque também tem a coisa do impacto de uma pessoa que vai de fora para os adolescentes: "O que é que esse cara está querendo fazer?" Dependendo como for, isso pode mexer positivamente e negativamente. Eu tento [fazer com que] seja positivo, né, a forma, porque sempre é um elemento externo, mas isso sempre vai estar acontecendo. No mundo de hoje não existe mais lugar fechado, então você tem que tentar influenciar da melhor forma possível, e é respeitando, dando essa coisa da cópia. É interessante essa coisa da memória afetiva, de você ver gente chorando. Uma vez eu fui entregar para uma folia de reis uma cópia do cd e era uma pessoa que eu fui o primeiro ano, então eu estava indo no segundo. Eu não conhecia eles. Quando eu dei o disco foi um chororô porque a pessoa que estava cantando aquela gravação tinha morrido a pouco tempo. E aí eu nem sabia, não entendi nada. Aí eu perguntei: "Mas o que é que foi?" ele falou: "Não, ele morreu tem um mês, esse cara, o capitão." que era o capitão da folia. Então, eu, de alguma forma estou ajudando eles a fazer a história pessoal deles. É uma coisa que talvez nunca tinha sido feito antes em muitos lugares. Alguns até podem ter.


P/1 – Mas, pra você, internamente, qual é o objetivo nesse selo?


R – Não, não, essa coisa do registro mesmo. Isso daqui é um pedaço, são pedaços da história da humanidade, né? Deve ser uma montanha, um prédio de dez mil andares e isso é um tijolo. São tijolos da História que está sendo feita.


P/1 – E pela sua experiência, você acha que tem algum risco de estar diminuindo, acabando esse negócio de festas e cultura populares? Como está isso no Brasil?


R – Olha, a gente está vivendo uma efervescência que é dupla, né? Ao mesmo tempo que tá meio que na moda, também pode passar logo e daqui a pouco se esquece. Tem muita coisa de um canibalismo tipo o que aconteceu com o maracatu. Sabe, as pessoas querem tocar o maracatu e aí fala: "Ai, é porque o maracatu tem..." Lá em Recife o cara fala: "Ah, o maracatu, não sei o quê." E aí vão fazer homenagem à Rainha Dona Santa, aí fazem homenagem pra ela, aí tem um senhor que está ali que toca desde a época dela e aí assim, ele não tinha o instrumento. Eu tive que dar para o seu Dão. Ele toca maracatu desde 1947, se não fosse ele e um grupo de pessoas, pequeno, nos anos 70, tinha acabado aquilo, tinha acabado. E não tinha chegado hoje em dia. As pessoas falam daquela coisa, mas quem faz aquilo são pessoas, e eles não estão preocupados com as pessoas. Não tanto o poder público quanto essa classe média consumidora disso. A classe média branca, sulista, consumidora dessa coisa, tem muito. E uma coisa dúbia. Mas essa  coisa de acabar... Ela está correndo o risco porque o mundo está mudando, né? E por exemplo, tem muita coisa que só faz função, sei lá, música de trabalho, como é que o cara vai cantar música de... Vai virar memória. Sei lá, eu gravei um negócio chamado Samba de Cacete, que tem no Pará. Tem numa vila, num lugar que eles fazem colheita, aí eles vão fazer a colheita de manhã, à noite começam a beber, dançar e tocar. É lindo, é lindíssimo. É sofisticadíssimo musicalmente. Só que assim, aquilo vai virar uma dança tradicional porque ela vai perder a função social, né? Então assim muita coisa já se perdeu e está se perdendo por... E também a coisa do rito, né? Da dificuldade de se manter um rito complexo num mundo banalizado de hoje. O que o jovem vai se interessar por uma coisa do congado, se tem que ir buscar a bandeira não sei a onde. Quando você chega na casa da pessoa você tem que cantar um repertório de música, você tem que cumprir um bando de coisas que são complexas e penosa. O cara quer saber do pagode, da menininha.Eles também estão, em muitos lugares, conseguindo, mas em outros tem essa dificuldade de conseguir passar para a juventude pra continuar. Mas eu acho que tá, tá num momento de efervescência, mas não sei o que vai acontecer. Eu não consigo prever. Mas eu estou tentando fazer alguma coisa, né, pra que isso possa continuar. Já teve gente que perguntou, com a boca cheia: "Ai, você já gravou alguma coisa que não existe mais?" Eu falei: "Felizmente não, né?" porque tem muito disso... Não sei como chama isso, não sei se é museologismo, essa coisa do raro, do difícil.


P/1 – E o site, quem atualiza é você mesmo?


R – É, inclusive não está muito... É muito material, que eu gero, então eu não dou conta de... Sei lá, tem 650 horas eu botei 50, faltam 600.


P/1 – Basicamente você é uma instituição sozinha, vamos dizer.


R – Isso, isso. Eu quero conseguir deixar de ser, mas eu não sei quando eu vou conseguir. Porque tem essa coisa dos meandros políticos. Com certeza de 2000 até pra cá ninguém fez esses registros igual eu estou fazendo no Brasil. E daqui a uns anos, com certeza, o acervo mais importante de cultura tradicional feita na história do Brasil vai ser o meu. Mas eu não sou amigo de ninguém assim. Até iniciativa de trazer, do Léo, é de tentar… Ele está tentando me inserir. Porque as coisas não têm valor em si hoje, no mundo, você tem que agregar. Uma música ela não é boa só por ela ser boa. Não, é porque alguém falou que ela é boa, ou porque, a coisa em si não tem mais valor, né? Assim, não sei se um dia também teve, mas hoje em dia você não… Alguém fala de você, ou se você é amigo de não sei quem. Quer dizer, isso a gente vive no nepotismo ainda brasileiro, né? E aí eu ainda não estou inserido em nenhuma turma, talvez daqui um tempo eu possa ser ou possa conseguir ser respeitado mesmo, sem ser amigo de alguém. Não sei. Mas eu estou cumprindo a minha missão. Eu acho que eu tenho que fazer, né? Por algum motivo que eu nem sei. Tem hora que eu penso “Eu viajo, em média, com 40 quilos de equipamento." Eu olhava assim e falava: "Meu Deus." Ou então ontem, domingo de madrugada, eu atravessando a rua, no Aeroporto de Vitória, com aquela quantidade de equipamento eu falava: "Meu Deus, o que é que eu estou fazendo aqui?" Assim, bate um, não é crise, mas você fala: "Nossa, que loucura, né?" Num momento de questionamento existencial. Assim: "O que é que eu estou fazendo aqui agora? Com esse saco de cabo, essa placa de..." Porque eu gravo portátil, quando é coisa de rua, mas eu também tenho equipamento, porque eu gravo até em 12, 16 canais eu consigo gravar. Aí tem umas coisas que você ouve a qualidade e é impressionante. Até os caras, eles ouvem e falam pra mim: "Péra aí, como é que eu vou falar para alguém que eu gravei isso aqui debaixo do, que eu estava tocando debaixo de um pé de pau?" A Banda de Pífaro, eu gravei um disco que vai sair aí. "Como é que eu vou falar pra alguém que foi feito no pé de pau?" Acho que dá, já tá bom, né?


P/1 – Você é casado? Tem...


R – Sou. Como eu falei, eu vim morar aqui em São Paulo com uma instrumentista, baterista, percussionista, chamada Simone Soul. A gente mora junto desde que cheguei em São Paulo.


P/1 – Tem filhos?


R – Não, ainda não. Meio difícil.


P/1 – E como ela lida com essas milhares de viagens?


R – Ah, ela também está fazendo outras milhares, aí às vezes a gente faz milhares juntas. A gente tenta, né? Tenta viajar junto, mas às vezes ela não vai pra essa... Já tiveram vezes que eu estava tocando com o Otto - eu toquei dois anos com o Otto - e ela estava em turnê com a Baby Assad nos Estados Unidos e na Europa. Quando ela ia chegar, dois dias antes eu saí pra ficar um mês assim. Às vezes rolava de ficar quatro meses no ano sem se ver. Mas normal, assim, o tipo de vida que a gente, por isso também que não dá para ter filho agora. É o tipo de vida que você tem. Então vamos vivê-la da melhor forma possível.


P/1 – E essa coisa de viajar muito pra registro, não tem nenhum sentimento de solidão, às vezes, um pouco? Sozinho, você está sempre indo sozinho pra todos lugares.


R – Não, às vezes eu vou com amigos. Mas eu também, quando eu chego lá, eu não estou nenhum pouco sozinho. Porque assim, mesmo que eu vá para um lugar que é a primeira vez, as pessoas te tratam muito bem, porque são brasileiros. Não são pessoas... Não é gente igual cidade de São Paulo que você vai na boate ou no cinema, não tem essas máscaras todas, né? Então você fica amigo de uma pessoa em meia hora e dorme na casa dela. Porque eu vou pra muitos lugares que não têm hotel. E eu vou a primeira vez. Mas aí eu já durmo na casa de alguém, sem nenhum problema. As pessoas te alojam, te acolhem, você vira quase um filho da pessoa. Não sinto não, solidão. É bom quando tem algum amigo, que é legal de ajudar, de dividir as coisas. Eu tenho de vez em quando o Paulo, Paulinho, Paulo Pereira, é um fotógrafo, ele viaja comigo, mas muitas vezes ele não vai. Mas, normal assim.


P/2 – Sei que é meio difícil, mas você tem alguma viagem dessas de registro que você tem ela como mais especial? Algum registro que: "Putz." alguma festa?


R – Não. Olha, a Festa de São Benedito em Aparecida do Norte é sempre emocionante. Você sempre... Porque tem gente que acha: "Ai, de novo." mas além de ser um rito muito complexo, acontece muita coisa. Você está sempre entendendo alguma coisa de outro jeito. Mas não sei, ter ido pra Sergipe também, que eu nunca tinha ido, eu fui esse ano também, foi uma coisa muito especial. É um lugar muito mágico. Mas não sei, não tem, não tem. Ir para o Pará. Tudo é legal. Esse ano eu fui para um lugar chamado Niquelândia, em Goiás. Estou te falando, é tudo muito especial. Ter conhecido esse Samba de Cacete que eu falei, lá no Pará. É muito, é tudo muito...


P/2 – Você lembra da primeira viagem que você fez, especificamente para fazer esse registro? Como que foi?


R – Lembro, foi muito engraçado. Eu fui tocar com o Otto em 2000 e eu falei: "Agora eu vou começar a registrar também." em Garanhuns. Aí lá perto tem uma cidade chamada Águas Belas e tem os índios Funiô. Falaram que a festa era de dia. Eu lembro que eu cheguei, toquei a noite, fui dormir três da manhã acordei cinco, entrei na van acabado. Chego lá e a festa era de noite. E aí o seguinte, você não pode ficar a noite lá. É uma cidade só que tem um lugar que é dos índios. Eu fiquei a tarde inteira sendo testado para saber se iam deixar eu ficar ou não. Me falaram isso no outro dia. Aí eu fiquei super amigo das pessoas lá. Mas assim, estava sabendo que eu tava sendo testado para saber se eu ia ficar lá ou não. Foi muito bonito. Porque eles têm uma, os índios no Nordeste, ao mesmo tempo que eles, na verdade eles são muito próximos, porque eles têm um contato de 500 anos. Então culturalmente eles, a gente é mais próximo deles. Eles tocam muito, ao mesmo tempo, às vezes, é muito distante. Eu me lembro um estranhamento sonoro, mas também genética é muito misturado. Esse foi o primeiro registro que eu lembro de fazer, dos Funiô em Águas Belas.


P/1 - Você tem alguma coisa do projeto de agora que você queria falar, deixar registrado aqui, que a gente não perguntou? Porque também a gente não conhece totalmente o poeta inteiro. Mas tem alguma que você queria falar? O Cru? Não sei, quer comentar alguma coisa?


R – Não, estou fazendo essas coisas. Como eu estou falando, eu tô em total ebulição de fazer as coisas. Por exemplo, agora estou começando a ter uma exposição de mídia, vai sair uma matéria na Revista Brasileira. Mas nada, acho que nada. A gente falou tudo.


P/1 – E essa coisa de você falou, às vezes vai com um fotógrafo que é seu amigo. Ele também registra e isso aí ele...


R – É, ele fez um site. Por exemplo, ele também está começando a ter exposição. Saiu uma exposição dele na Montinent Cult, Continente Multicultural, saiu agora na Raça. Eu lembro que ele me dá o texto pra eu revisar. Assim, porque eu leio mais do que ele, tenho mais tempo fazendo isso. E eu esse ano comprei uma maquininha de oito megapixels e devo ter uns 200 giga de filminho dessas viagens assim. Tanto até que eu falo, olho para o gravador portátil e falo: "É tal take." Ou então olho pro computador: "É tal minuto." Porque um dia ainda eu vou sinkar isso, ou alguém vai fazer, espero que alguém - é, (risos) porque eu sou só um - e pra poder disponibilizar isso, talvez até num disco da Banda de Pífaro já esteja uma... Eu filmei uma musiquinha inteira e depois sinkar com o áudio e botar uma faixa interativa no disco.


P/1 – Bacana, Então tá. Primeiro agradecer a entrevista, muito bom. Obrigado, Alfredo.


R – Por nada.

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