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História

Minha vida para os filhos

História de: Odila Veronesi Borges
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Odila Veronesi relembra momentos de sua trajetória, começa contando sobre sua relação com sua irmã mais nova na infância, fala sobre seus trabalhos como o de costureira de roupas para bonecas na Estrela, conta também sobre sua separação, devido aos problemas do seu marido com álcool. Por fim, recorda seus anos de trabalho duro para poder sustentar os filhos sozinha.

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História completa

P/1 - Qual o nome da senhora?

 

R - Odila Veronese Borges?

 

P/1 - Qual local de nascimento?

 

R - São Carlos.

 

P/1 - E a data de nascimento?

 

R - 28 de julho de 1932.

 

P/1 - Nome e local de nascimento dos pais.

 

R - Meu pai, Antônio Veronese, nasceu em São Carlos e minha mãe é (Decilde?) Barbin Veronese, nasceu em Bebedouro parece.

 

P/1 - O nome e local de nascimento dos avós.

 

R - Meus avós... Eu sei que são da Itália, meu avô, mas eu não sei que lugar da Itália, agora minha avó parece que é na Itália em Veneza.

 

P/1 - Qual o nome?

 

R - Meu avô da parte da minha mãe, você fala?

 

P/1 - É.

 

R - Da minha mãe é Ângelo Barbin e Hortência (?).

 

P/1 - A senhora poderia falar um pouquinho sobre a sua família...

 

R - Minha família?

 

P/1 - É. A casa que morava, número de irmãos...

 

R - Há mais de 50 anos que eu moro na Mooca, quer dizer, eu morei em outro bairro, mas eu era muito pequena não lembro como é que era, no Tatuapé. Agora que eu me lembro bem é da Mooca, onde eu moro até hoje, na Major Basílio. E minha infância foi quase igual das outras crianças, né?

 

P/1 - Como quase igual as outras?

 

R - Da minha da minha época, eu quero dizer, né? Porque quando eu era criança, na minha época não era assim, os brinquedos não modernos que nem agora, tudo coisa antiga, a gente morava no barracão de madeira que meu pai comprou. E a gente ia na escola, né?

 

P/1 - A senhora morava aonde nessa época?

 

R - Na Major Basílio mesmo, o que eu me lembro é de morar na Major Basílio, sabe? Quando minha mãe morou em outros bairros, no Tatuapé, eu era muito pequena, aí não dá para lembrar, né? Agora a minha infância tudo que eu me lembro foi na Mooca mesmo. Foi até que uma infância bonita... Até meus 15 anos foi muito bom, depois de 15 anos já começou os probleminhas (risos)

 

P/1 - Como que era o relacionamento da senhora com outras crianças?

 

R - Era ótimo. A minha mãe trabalhava, né? Então deixava eu e minha irmã em casa e tinha umas vizinhas que eram muito boas, que olhavam a gente, cuidavam... Até os meus 12 anos, eu fiquei na escola, naquela época era dos 8 aos 12 anos, que era só o diploma primário, depois para estudar não era igual agora, não tinha essa facilidade, sabe? Apesar que eu adorava estudar, mas como eu não tinha condições a gente fez só o primário. E a infância foi assim...

 

P/1 - Quantos irmãos?

 

R - Uma só, dois anos mais nova que eu, mas a minha irmã mora em Santos, não mora aqui. E foi assim a nossa infância, sabe?

 

P/1 - Eu sei... Como é que era a casa, a senhora lembra?

 

R - A casa era maravilhosa tarde, era de tábua, mas era tão gostosa. Era limpinha...

 

P/1 - Você mesma que limpava?

 

R - Nós mesmas que cuidávamos. Minha mãe trabalhava e eu lembro direito que ela dividiu o serviço para a gente fazer. Então ela falava “você faz isso, isso e isso” e minha irmã que era mais nova fazia outro serviço menos pesado. Então, naquela época era fogão a carvão, a gente tinha que arrumar a lenha para acender o fogo, puxar água do poço... Então, por exemplo, puxar água do poço era eu que era a mais velha e a minha irmã era muito peralta, era muito levada...

 

P/1 - Ela era mais nova?

 

R - É a mais nova, dois anos, né? Então, para a minha mãe não bater eu fazia o serviço meu e dela, sabe? Ela chantageava demais a gente (risos). Era sacrificado, mas era gostoso, não é igual agora, não tinha essas comunidades que tem agora, era tudo diferente. Mas era muito bom, meu pai era muito bom para a gente, minha mãe também...

 

P/1 - Qual a profissão do seu pai?

 

R - Meu pai trabalhava na Johnson, como alvejador. Ele alvejava panos para a Johnson fazer esparadrapo, trabalhou muitos anos, depois ele saiu, se aposentou, fazia [bicos como] pintor, pintava casas depois que ele se aposentou.

 

P/1 - E a sua mãe?

 

R - A minha mãe trabalhou na Assunção, na Rua Ana Neri. Trabalhou uns... Não lembro quantos anos já trabalhou lá, até poder construir uma casinha onde era o mesmo barraco, aí ela construiu uma casinha de tijolo, foi nos [anos] 50 que ela construiu, né? E ela trabalhava e a gente ficava em casa cuidando das coisas.

 

P/1 - Como que era a educação?

 

R - Ah, era ótima, graças à Deus. Era muito boa. Eles sempre souberam educar a gente, graças a Deus. Tanto que a gente ficava sozinha praticamente e nunca aconteceu nada, assim, que pudesse prejudicar ninguém.

 

P/1 - E como que era a senhora cobrir o serviço da irmã?

 

R - Cobrindo... Eu tinha que cobrir para não apanhar, né? (risos) Quantas vezes ela ia apanhar, aí eu me colocava na frente, não deixava...

 

P/1 - Defendia...

 

R - Eu defendia bastante ela, viu?

 

P/1 - E como eram as brincadeiras?

 

R - As brincadeiras eram assim... A gente tinha boneca de papelão, eu lembro direitinho que eu era menina e tinha pavor de dentista, até hoje eu tenho esse problema, então para eu poder extrair um dente, minha mãe me mostrou um boneco de papelão numa vitrine e ela falou assim “Se você deixar extrair o dente, eu te compro esse boneco”. E ela comprou, ela prometeu e comprou, fez um sacrifício, coitada, aí comprou. E acontece que no dia seguinte, eu quis dar banho no boneco... Enchi o tanque (risos), coloquei o boneco dentro do tanque e você pode imaginar o que que aconteceu com o boneco. Fiquei sem o dente e sem o boneco (risos). Esse fato me marcou bastante, porque eu chorei muito, eu me lembro direitinho disso daí. E o resto era aquelas brincadeiras... A gente batizava as bonecas, fazia festinhas, porque tinha uma senhora que ela se carregava de fazer o bolo, a pipoca, uma vizinha... Então a gente fazia o batizado e fazia aquelas festinhas para o batizado. Então, tinha até padre para batizar a boneca, a madrinha... Era uma delícia, uma delícia, era uma infância, assim, maravilhosa. Eu tenho uma recordação da minha infância que eu nem sei... Então essas coisas dão até saudades. Depois da infância... Bom, aí você tem que perguntar, né? (risos)

 

P/1 - Pode falar...

 

R - Depois da infância vem a juventude, né? Aqueles 12, 13 anos... Que já não vai mais na escola, então meu pai gostava muito de sair com a gente e com minha mãe, com minha irmã. E como a minha mãe não podia sair então ele saia comigo e com minha irmã, a gente passeava para bastante lugares. Depois veio os namorinhos, que foi tão gostoso, mas passou tão rápido. Aí tive uns três namorados...

 

P/1 - No período escolar?

 

R - Não, quando eu tinha mais de 12 anos... Eu estudei dos 8 aos 12 anos, só. Porque depois para continuar estudo tinha que pagar e a gente não tinha condições.

 

P/1 - Você fez até que série?

 

R – Eram quatro anos. Você entrava com 8 anos, quem não repetia com 12 anos levava o diploma, entendeu? Não tinha esse negócio de ginásio para você continuar fazendo, era só até ali. Agora quem tinha condições, arrumava escola e pagava. Então era diferente. Mas a gente não tinha, né? Então fiz só o primário, só os quatro anos mesmo.

 

P/1 - E nessa época da escola, sua família, você tinha algum plano para o futuro?

 

R - Ah, planos sempre a gente tem, mas acontece que não tinha condições para fazer o que a gente queria, né?

 

P/1 - Seus planos foram interrompidos?

 

R - Foram interrompidos, porque ali era só mesmo quem tinha boas condições para poder estudar. Aí a gente esperava [completar] 14 anos para poder trabalhar. Com 14 anos já fui trabalhar...

 

P/1 - Começou a trabalhar com 14 anos...

 

R - Sim, 14 anos.

 

P/1 - E qual foi sua primeira atividade?

 

R - A primeira firma que eu trabalhei foi na Fiação Santista, no Moinho Santista. Fui trabalhar provisoriamente, porque meu pai trabalhava na Johnson e tinha pedido um emprego para mim, mas aí eu fiz um exame de sangue na Johnson e apareceu um probleminha nos [resultados do] exame. Então eu tive que fazer um tratamento na Johnson mesmo para poder trabalhar lá. Depois deu negativo todos os exames, aí eu saí do Moinho Santista e fui trabalhar na Johnson. Trabalhava no talco... Embalagem...

 

P/1 - Primeiro emprego foi na fiação?

 

R - É.

 

P/1 - E como era esse tipo de trabalho?

 

R - Era assim... Tinhas as máquinas que faziam o pano de algodão, tinha tecelagem e tinha fiação, agora nem sei se existe isso mais, porque eu nunca mais vi... Mas eu trabalhei pouquíssimo lá no Moinho Santista, que era na Avenida Álvaro Ramos, né? Agora na Johnson eu trabalhei um pouco mais. Trabalhei até casada lá. Mas assim depois daí é o tempo da Juventude.

 

P/1 - Quando a senhora trabalhava na Johnson, começou a namorar, como é que foi? Conta um pouquinho para a gente.

 

R – Eu tive uns 3 namoradinhos, depois conheci o meu marido. Ele veio do Norte, veio morar numa pensão lá perto de casa e eu fiquei o conhecendo. Namorei dois anos, fiquei noiva e casei. Só que não fui feliz no meu casamento, sabe? Vivi 10 anos com ele, tive três filhos e depois de dez anos houve a separação. Mas nos meus 14, 15 anos era assim, o passeio da gente era quermesse, parquinho, né? Agora, não, agora é praia, esses negócios.

 

P/1 - Com quantos a senhora se casou mesmo?

 

R - Eu casei com 17 anos e meio, eu ia fazer 18, quando eu casei.

 

P/2 - A senhora viveu tanto tempo na Mooca, como era a Mooca naquela época?

 

R - A Mooca era assim... Ali perto de casa, era chamado de Vacarias, sabe? Era um tipo de uma chácara, um sítio... Então eles vendiam leite, tinha caixa d'água, não tinha casa... A rua que eu moro, acho que tinha umas duas, três, casas de tijolos, era tudo de madeira e não era asfalto, quando chovia precisava até ajudar os carroceiros a passar porque eles vendiam coisas na rua, então meu pai ajudava com inchada, para ajudar eles a passarem naquela lama. Se a gente fosse tomar uma condução, tinha que um sapato em uma bolsa e ir de tamanco, porque se não você não conseguia nem ir para cidade... Era muito sacrificado, nossa. Agora aquilo ali é um paraíso perto do que era, mas a gente vivia muito bem, você sabe? A gente de todo jeito era feliz. A gente gostava do nosso barraquinho, gostava daquelas casas que não tinham nem muro, era tudo cerca, sabe? Mas era muito bom... Na festa Junina faziam aquelas fogueiras na rua, era muito gostoso.

 

P/1 - E hoje?

 

R - Hoje está tudo diferente. Hoje passa ônibus elétrico, é aquela poluição, é uma loucura. Hoje já não tem mais nem graça.

 

P/1 - O Mudou, né?

 

R - Mudou bastante. A Mooca mudou muito, muito mesmo. Principalmente naquele pedaço que eu moro.

 

P/1 - Qual foi a coisa que mais mudou?

 

R - O que mais mudou foi que fizeram casas muito bonitas, supermercado, feira livre... Mudou, assim, para melhor para o nosso dia a dia, né? Ficou melhor agora. Porque naquela época era tipo interior.

 

P/1 - Tinha mais proximidade as pessoas...

 

R - É, tinha... Tinha muito mais. As amizades eram muito mais sinceras. Agora na minha rua mesmo, eu moro há muitos anos, tem muita gente que mora também há tempinhos lá, né? Mas tenho duas amigas muito especiais para mim, nossa.

 

P/1 - De infância?

 

R - Não, já de adulta. Daquela rua para mim, eu acho que o que restou mesmo foram essas duas pessoas, eu gosto muito delas. Aquilo de sempre, né?

 

P/1 - Então a senhora se casou, saiu da casa dos pais e continuou morando no bairro...

 

R - Eu casei e fui para a Bahia. Fiquei um ano na Bahia. Aí lá nasceu a minha primeira filha, depois de um ano eu vim embora, vim para casa dos meus pais, morei sempre com eles. Depois tive mais dois filhos, mas eu morava na casa do meus pais. Aí o meu marido construiu [uma casa] no fundo da casa deles, e nós ficamos morando ali. Mas eu não vivi bem com meu marido nem um pouco. Então eu me separei com 10 anos de casada, depois de uns 20 e poucos anos separados, ele faleceu, né? Então ele é falecido. Mas os meus filhos são muito bons, são ótimos. Tenho três filhos.

 

P/2 - A senhora poderia falar um pouco do seu casamento?

 

R - Do meu casamento? Um casamento desastroso (risos). Um casamento que foi um fracasso.

 

P/1 - Por que a senhora fala que não deu certo?

 

R – Porque o meu marido bebia muito e ele era irresponsável quando bebia. Quando ele não bebia, era uma pessoa ótima, mas era o tal negócio: quando não bebia era bom, mas estava sempre bêbado, então não adiantava ser bom, não é verdade? Então não deu para viver com ele de jeito nenhum.

 

P/1 - Ele sempre bebeu? Antes?

 

R - Não. É assim, bebia, mas não como depois de 10 anos de casado. Ele bebia como qualquer pessoa bebe, né? Mas de ficar como ele ficava só foi bem depois. Ai não ligava nem para os filhos, nem para nada. Se não fosse os meus pais eu nem sei o que teria sido de mim.

 

P/1 - Os filhos ficaram com a senhora depois da separação?

 

R - Ah, ficaram comigo. Os três estão todos casados já. Já sou bisavó também, tenho um bisnetinho. Essas coisas cobriram o que a gente passou, entendeu? É o que valeu do casamento.

 

P/1 - Ficaram coisas boas...

 

R - Ficaram eles, que são muito bons para mim. Tem uma filha que mora em Brasília e é o que mais entristece a gente porque fica longe. Para a gente se ver demora mais, mas os outros dois moram pertinho de casa. Os três estão bem, graças a Deus, não dão problema nenhum.

 

P/1 - E quando a senhora chegou na Bahia, qual foi a impressão que teve?

 

R - Fui muito bem tratada. Nossa, o pessoal lá, eu não sei se é porque na época que eu fui, não conheciam muito paulistas, o lugarzinho era muito atrasado, eles não conheciam... Então quando eu cheguei para eles foi uma novidade. Nossa, eles não sabiam que fazer comigo. Me trataram assim... Até me acostumaram mal de tão bem que eles me trataram. Mas aí o meu marido, ele não bebia naquela época, mas ele também não era um bom marido, então os meus sogros mesmo achavam que eu devia voltar para São Paulo. Eu não fui para ficar, eu fui para passear...

 

P/1 - Quanto tempo a senhora ficou lá?

 

R - Um ano. Eu vim para ficar pouquíssimo tempo e no fim, acabei ficando um ano lá. Mas depois eu voltei para São Paulo.

 

P/1 - Voltou com ele?

 

R - Com ele. Depois eu tive a minha outra filha e por último o meu filho.

 

P/1 - Lá a senhora não teve nenhum filho?

 

R - Eu fui para lá e lá nasceu a minha filha, a primeira. Depois aqui nasceu os outros dois.

 

P/1 - Atividade profissional que a senhora exerceu durante a sua vida foi na Johnson...

 

R - Depois que eu me separei do meu marido, eu trabalhei muito. Muito mesmo. Eu trabalhei fazendo faxina nas casas, costurava, eu fazia coisas que eu nem sabia fazer.

 

P/1 - E aprendia?

 

R - Aprendia... Porque olha eu não sabia costurar, mas para ganhar alguma coisinha eu ia lá e costurava. Depois trabalhei para fábrica Estrela, fazia vestido de boneca, coisa que eu nunca tinha feito, comecei pegar vestido de boneca para fazer, aí de dia trabalhado de faxina...

 

P/1 - Como é que era?

 

R - Era cada vestidinho desse tamanhinho, você precisava ver. Então eu era curiosa, e era assim que eu me saia bem, eu fazia...

 

P/1 - Como a senhora se sentia fazendo esses vestidinhos?

 

R - Ah, eu gostava. Tinha uma senhora vizinha minha, que ela ia lá, então eu costurava, ela ia contando as linhas, ajudando... Porque todo mundo já conhecia a gente, então sempre procuravam nos ajudar a fazer as coisas, né? E assim, eu costurei muito vestido de boneca, muito. Depois parei com a Estrela, comecei com uma outra firma de umas bonecas bem grandes, enorme, e vou até contar uma coisa que me aconteceu uma vez... Aí eu falei, “Bom, já sei fazer vestido de boneca, vou começar a pegar [pedidos] particulares”. Então eu avisava uma, outra e pegava. E uma senhora me trouxe uma boneca, assim, grande, para eu vestir, ela queria o vestido todo de renda, que aquelas bonecas no quarto usavam. E a coitada da boneca era de louça, [então] eu pus no guarda-roupa de pé e fechei para ninguém mexer, né? Porque tinha as crianças pequenas. E minha filha foi abrir, a boneca veio para frente e quebrou... Ah, menina de Deus, se você soubesse o que eu passei por causa daquela boneca... A mulher queria uma boneca igual, ela não queria saber. Depois convenci a mulher, paguei a boneca para ela, chorava porque eu ficava desesperada. Todos os problemas que eu tinha me desesperavam, eu chorava porque eu falava “Estou numa situação dessas e ainda me acontecem essas coisas”. Mas depois passava, né? E hoje eu estou aqui com 60 anos e estou lutando ainda. Ainda luto, graças a Deus.

 

P/1 - Essas coisas, a senhora tinha alguém, uma pessoa, para contar quando acontecia?

 

R - A minha mãe. A minha mãe sabia de tudo que se passava comigo. Tudo eu contava para ela. Porque amiga mesmo, não nem tempo de ter. Porque era uma vida muito corrida, muito sacrificada... Porque quando você tem uma vida mais estabilizada, você tem tempo de conversar com uma pessoa, mas não dava tempo, eu trabalhava muito mesmo. Graças a Deus, né, que eu trabalhava.

 

P/1 - Os seus filhos ficavam com você?

 

R - Comigo. Trabalharam muito cedo também. A minha filha, a mais velha começou com 9 anos, ela tirou o diploma, como eu te falei, ela terminou os 4 anos e foi trabalhar no salão de cabeleireira, mas era só para varrer o salão quando a moça cortava o cabelo, e depois a gente ficou sabendo que não era só aquilo, que ela explorava a menina, colocava até banquinho para a menina ir lavar, ficou quase como uma doméstica. Eu fiquei sabendo e tirei ela de lá. Aí ela foi aprender pespontadeira de calçados com uma outra vizinha nossa, quando tinha 12 anos, tirou o documento e foi trabalhar na firma de calçado... Sempre trabalhou, aí ela arrumou para outro. Todos assim, os três desde pequenininhos batalharam, trabalharam bastante.

 

P/1 - O pai ajudou também?

 

R - Não, nada. O meu marido nunca deu um tostão, nada. Nunca, nem um cruzeiro, nem para comprar um sapato para elas.

 

P/1 - Era tudo você?

 

R - Era tudo eu, minha mãe e meu pai. Nós três aqui de novo. Depois eu fui trabalhar no Corinthians, fui trabalhar fora. Até cozinhar, coisa que eu não sabia, aprendi e trabalhei seis anos para os jogadores e minha mãe que cuidava dos meus filhos, né? Era uma delícia trabalhar no Corinthians era muito bom.

 

P/2 - A senhora lembra de bastante coisa? Qual jogador jogava lá?

 

R - Lembro que trabalhar lá era gostoso, porque era um clube, só o fato de ser um clube, era muito bom. A gente era muito querida pelos jogadores, eles gostavam muito da gente. Nós íamos para a concentração, que eles faziam concentração fora daqui e a gente tinha que acompanhar os jogadores. Então eles iam na sexta-feira e voltavam no domingo, depois do jogo sabe? Dava o almoço para eles, depois a gente ia embora. Éramos duas cozinheiras e duas ajudantes. Então uma semana ou no dia ia uma, depois ia outra. Para não ficar família sozinha, né? Então a gente revezava para trabalhar. Era muito gostoso, viu? Era ótimo, eu tenho saudades de tudo, viu?

 

P/2 - A senhora lembra de algum jogador?

 

R - Lembro. Inclusive vinham até em casa. Meu pai era corintiano fanático, então para o meu pai a filha trabalhar no Corinthians era o maior orgulho, nossa, você precisava ver. Eles viam e sabiam que meu pai gostava.

 

P/1 - E você, era corintiana?

 

R - Era não, sou. Sou corintiana até hoje. (risos)

 

P/1 - Qual atividade que você considera mais importante? Familiar, política, algum hobbie, religião...

 

R - O que eu acho mais importante são os meus filhos, conversar com meus filhos, minha família. Eu acho, minha vida foi para eles, para mim são eles. Eles e minha mãe, que agora sou só eu e ela. Agora somos só nós duas... Eu não saio, sabe? Para mim o mais importante são eles, né? Depois deles vem o resto.

 

P/1 - Sua filha mora em Brasília.

 

R - Em Brasília.

 

P/1 - E o restante?

 

R - Pertinho de casa, tem um filho e uma filha.

 

P/1 - Tem bastante contato com eles?

 

R - Tenho. A minha filha que é a mais velha, tá sempre em casa, meu filho mora pertinho também.

 

P/1 - Hoje, qual é a coisa que a senhora mais gosta de fazer?

 

R - Que eu mais gosto de fazer? Cozinhar! Eu adoro cozinhar, fazer crochê também, eu gosto muito. Então eu faço as duas coisas. Faço salgadinho para fora e faço crochê também.

 

P/1 - Salgadinho por encomenda?

 

R - É, por encomenda que eu faço.

 

P/2 - Com quem a senhora aprendeu?

 

R - Aprendi no Corinthians, com uma senhora. Eu fui para trabalhar de ajudante para ela, trabalhei um ano de ajudante, depois ela saiu, eu fiquei no lugar dela, aí não parei mais.

 

P/1 - E hoje, qual é sua principal ocupação?

 

R - Minha principal ocupação... Agora eu cuido da casa, né? Aí tem isso que eu te falei.

 

P/1 - A senhora participa de alguma associação ou clube?

 

R - Eu vou no Juventus, porque eu sou sócia do Juventus. Quando é época de calor, quando é frio não vou, mas no calor eu vou no Juventus, eu gosto. Sou católica, vou na missa, gosto de ir na missa, mas assim participar... Até fui convidada domingo para entrar na Congregação de Marianas, to resolvendo, não sei se vou ter tempo de ir ou não, né?

 

P/1 - A senhora vai sempre a igreja?

 

R - Vou. Todos os domingos, na semana, sou muito devota de Santo Expedito. Todo dia 19, eu venho aí no Santo Expedito. Você conhece, você é católica?

 

P/1 - Não, não sou católica.

 

R - Eu sou, então eu venho muito.

 

P/2 - Por que Santo Expedito, tem alguma coisa especial?

 

R - Tem, ele alcança muita coisa. Gosto dele.

 

P/1 - A senhora mora hoje com a sua mãe?

 

R - Moro na Mooca, ainda no mesmo lugar.

 

P/1 - E assim, quais são as pessoas que você mais convive, além da sua mãe?

 

R - A que eu mais convivo... Nós temos uma inquilina que mora no quintal, convivo também com uma vizinha também, que eu gosto e inclusive faço minhas caminhadas com ela. Assim, as minhas vizinhas são muito boas. Mas a que eu mais convivo mesmo é com a minha filha, essa mais velha, e minha mãe.

 

P/1 - Poderia falar um pouquinho os netos para gente...

 

R - Os netos são tudo que você pode imaginar. Só quem é avó que pode responder também e pode ver se estou falando a verdade. Eu tenho oito netos. Tenho sete netos e uma adotiva que meu filho adotou, ele tem paixão por ela. A neta mais velha tem 21 anos, casou faz dois anos e tem o nenenzinho. E a minha filha de Brasília tem dois, que quando a gente vai lá é só para curtir agora, primeiro foi para conhecer Brasília, agora é para curtir os netos, porque a gente tem paixão por eles, nossa, é demais. Dizem que amor de neto é maior que amor de filho, eu acho que é mesmo, viu, porque a gente gosta demais. (risos)

 

P/1 - E como é que você descreve o seu dia a dia?

 

R - Meu dia a dia é assim: levanto, faço minha caminhada, depois vou cuidar dos

meus salgadinhos, para congelar, para ter sempre quando alguém precisa, cuido da minha casa, e eu minha mãe. Mas para cuidar mesmo da casa é mais eu do que ela ainda. Apesar que eu tenho um problema de coluna também, mas graças a Deus a gente vai levando.

 

P/1 - Você faz com quem essas caminhadas? Sozinha? Com amigas?

 

R - Não, vou com a minha amiga, eu vou com ela e a gente vai aqui na Mooca mesmo, aqui na prefeitura da Mooca, tem um lugar para gente andar lá dentro, tem que andar uma hora por dia. Mas da nossa casa até onde a gente anda é meia hora, meia hora para ir meia hora para voltar já dá uma hora, mas lá dentro a gente anda quase uma hora também. Mas é muito bom lá. Lá tem um professor, tem quem mede pressão. Você pode até fazer carteirinha se você quiser fazer ginastica, natação, tudo pode lá dentro. É uma beleza lá, é otimo!

 

P/1 - Se tivesse que mudar alguma coisa na história da sua vida, o que a senhora mudaria?

 

R - O que eu mudaria? Queria ganhar na Loto (risos), uma Tele Sena do Silvio Santos, tava bom. Só, mais nada. Situação financeira que tá um pouquinho apertada, né? Só isso que eu mudaria, viu? (risos)

 

P/1 - O que mais te marcou durante a história da sua vida?

 

R - O que mais me marcou foi a morte do meu pai, foi a coisa mais triste que me aconteceu e ia a ida da minha filha para Brasília. Foram duas coisas péssimas na minha vida, tirando isso...

 

P/1 - A senhora teria alguma coisa a dizer para as gerações futuras?

 

R – [Eu queria que as] gerações do futuro esquecessem um pouco as drogas. E se preocupassem mais com a humanidade, praticasse mais o bem, ajudasse mais o próximo, que está um pouco abandonado, isso daí eu sempre gosto muito de fazer. É triste, você ver tantos jovens aí se acabando por causa de drogas, se consumindo com AIDS, porque não teve cabeça, isso daí é muito triste, né? Então eu gostaria que fosse um mundo melhor mesmo. Ainda hoje eu estava vendo uma médica falar que o Emílio Ribas está com 280 a 300 crianças com AIDS, e é muito triste isso, elas precisam de carinho, de proteção e o pessoal parece que se afasta com medo. Então isso daí é muito triste.

 

P/1 - E qual é o seu maior sonho?

 

R - Meu maior sonho é que minha filha voltasse para São Paulo, já que meu pai não pode mais voltar, então que voltasse minha filha, isso que eu queria, é o meu maior sonho.

 

P/1 - Como é que foi para a senhora conversar com a gente?

 

R - Olha eu adorei, eu gostei demais de você, gosto da Verinha também, muito, muito, câmera também é muito simpático, viu? Um amor. E eu acho que dentro possível, né? Você que sabe como foi a minha entrevista (risos).

 

P/1 – Olha, foi muito boa. Muito obrigada mesmo.

 

R - Obrigada você! (risos)

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