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Minha vida na Juréia - Sustentabilidade em pauta

História de: Dauro Marcos do Prado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/02/2013

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História completa

Dauro Marcos do Prado Meu nome completo é Dauro Marcos do Prado, nasci aqui em Iguape, no bairro do Rio Verde no dia 13 de Julho de 1964. Conheci meus avós. Da parte da minha mãe, meu avô Rogério e minha avó Bernarda, e por parte de meu pai minha avó Joana. Ambos nasceram e moraram na Juréia; eram agricultores, pescadores. São caiçaras e sempre moraram por lá. Seus avós nasceram lá, seus pais nasceram lá, e ficaram o tempo todo, vivendo da agricultura, da pesca e do extrativismo. O trabalho deles era esse. Eles contavam muitas histórias daquela época. Eu mesmo não tive muito contato direto com a história deles, eu era pequeno nessa época, muito pequenininho, mas contavam histórias da onça, da Capora, que é um bicho que tem no mato que pegava as criancinhas e levava. Eu não podia sair sozinho por ali porque era perigoso, então, para não deixar as crianças saírem longe pro mato, eles falavam que tinha a Capora. Também havia a lenda do Tucano de Ouro, que saía da Serra do Itatins e ia pra Queimada Grande, lugar que tem uma queimada, uma ilha no meio do mar por aqui; então, esse Tucano de Ouro, de sete em sete anos saía do Itatins, e ia para Queimada Grande, e diz que quem conseguia vê-lo na época, durante sua trajetória, teria muitos anos de vida, é, era saudável ver isso, era bom ver isso, quem conseguia vê-lo tinha muita sorte na vida. Era uma luz que saía da serra e ia para Queimada Grande, depois de sete anos ele voltava da Queimada Grande e ia para Itatins. Falavam que era o Tucano de Ouro, uma bola de ouro. “Olha, eu vi a bola de ouro!” Eram essas as histórias que eles contavam, e tinham outras. Havia um senhor que fazia potes de barro para vender, então saía - aqui tem o Rio Comprido que sai do Prelado e vai até a Barra do Una, cortando toda a Juréia pelo meio - E esse homem sempre vendia potes. Certo dia aconteceu alguma coisa com ele que eu não sei direito, afundou, ele passou em cima de um jacaré muito grande e afundou e tal, mas mesmo depois que ele faleceu, que ele morreu, e que aconteceu esse caso com ele, as pessoas da região de vez em quando ainda o via no rio, via a canoa, aquela canoa cheia de potes, remando... E no Grajaúna tem uma pedra bem em cima do morro. Lá tem um capim que quando seca fica meio amarelado, e a pedra é grande, e daí falavam: “Ó, aquela é a casa do João Lear, aquilo que está amarelo lá é o arroz que ele pôs no sol para secar.” Então a gente ficava olhando... “Mas por que esse homem não sai de lá?” Depois a gente cresceu, eu subi lá pra ver e não era nada disso! (risos). Tinham várias histórias assim que contavam pra gente. Os antigos contavam que eles faziam muita caçada, caçada de onça, pesca muito grande. Antigamente tinha muito peixe, não precisava nem jogar rede, chacoalhando por acaso os matos do rio eles já saíam pulando na canoa e não precisava nem pescar! Tinha muito peixe, tinha muito pássaro, tinha muita fartura, como se falava. Então eles viviam muito bem com essas coisas. Tinha mutirão, fandango, dança, e nos fandangos também tinha o desafio de carregar árvore nas costas. Faziam a roça de fulano de tal, a roça de arroz, eram umas sessenta pessoas roçando, eles arrancavam uma palmeira e carregavam para o terreno do dono do mutirão, daí todo mundo levantava aquela palmeira e plantava lá, ficava lá aquela palmeira plantada no quintal. Meus pais também nasceram na Juréia, tanto minha mãe quanto meu pai. Moram lá até hoje inclusive, e viveram sempre da agricultura, da pesca, até a década de oitenta mais ou menos. Eles viveram tranquilamente por conta de estar mexendo na terra, de viver da floresta, viver da pesca e tal. De 86 para cá criaram uma Estação Ecológica e proibiram as atividades que faziam e meu pai teve que parar de fazer a roça. Não pôde mais tirar as taquaras com que fazia o piti, o cesto, a peneira, a canoa, que fazia o remo e o pilão. Tirou o que lhe era mais fundamental porque o caiçara vive disso, do que existe na natureza. Na verdade, não é só o caiçara, todas as comunidades tradicionais que moram na floresta, que vivem da floresta, eles dependem daquilo, dependem da floresta para sobreviver, para fazer os seus utensílios de casa, de pesca, de agricultura, de ferramentas, precisam da madeira para fazer o cabo da ferramenta, precisam da “timbopéia” para fazer a massa, fazer a canoa, fazer o pilão, fazer a mão do pilão. Quando você tira isso da mão desse caiçara, ou desse quilombola, ou desse indígena, eles ficam com as mãos atadas, não têm o que fazer, porque durante toda a vida eles viveram trabalhando com aquilo. Aí de repente vem uma legislação e fala: “Ó, o senhor não pode mais, o senhor não pode mais mexer em nada.” “Mas como eu não posso mais mexer?” “Não, porque agora é uma Estação Ecológica, agora você não pode mais mexer na floresta porque a lei não permite”. Isso foi muito ruim para vida das comunidades, uma vida que eles levavam tranquilamente, de fazer roça, de tirar o seu palmito, de matar sua caça para comer, de pegar seu peixe, de tirar sua taquara para fazer seus utensílios, e quando proibiram isso senti que eles ficaram muito mal, por não poderem mais mexer na natureza, na terra. Os filhos tiveram que sair para cidade. Um foi para Itanhaém, outro foi para Peruíbe, outro para Iguape. Hoje estão praticamente sozinhos morando lá. A gente sempre vai, faz a agricultura com eles e tal, mas bem na época, assim, foi muito difícil para eles. Primeiro chegaram falando pra gente que iam criar um santuário ecológico e que iríamos viver bem ali: “Não, o senhor pode ficar tranquilo porque aqui vai virar um santuário ecológico, vamos manter todas as comunidades tradicionais, vamos tirar todos esses latifundiários, vamos tirar todos os veranistas e mandar tudo embora”. Isso os ambientalistas. Diversas pessoas foram falando isso, e eles de repente acreditaram naquilo, mas não que fosse ruim para eles esse discurso. Na época eu tinha quinze, dezesseis anos. Quem chegou primeiro, que eu lembre, foi o Zé Pedro, José Pedro Oliveira Costa. Ele foi o primeiro Secretário de Meio Ambiente de São Paulo. Chegou falando: “Oh Seu Onésio, a gente precisa criar aqui uma estação ecológica porque estão querendo tomar esse território aqui da gente. Essa terra é uma coisa bem preciosa.” Havia várias pessoas tirando fotos, outros filmando, fazendo roteiro, fazendo várias coisas, mas quem chegou lá para conversar foi o Zé Pedro, que pediu para o meu pai achar um lugar para ele fazer uma casa para pesquisador. Meu pai o pegou e o levou em uma cachoeira do Rio Verde lá em cima, e falou: “Oh Zé Pedro, acho que dá para fazer aqui.” “Não, mas eu quero fazer aqui na beirinha do rio.” “Mas aqui quando chove vai levar toda a sua casa embora.” “Não, aqui não, vamos fazer ali”. “Mas mesmo assim lá ainda entra água.” E ele falou: “Mas como Seu Onésio que o senhor sabe que entra água ali?” Esses homens que vivem na floresta têm toda uma ciência. Aí ele mostrou: “Olha Seu Zé Pedro, está vendo a folha nos galhos da árvore? Então, quando a água sobe a folha que está no chão sobe e fica no lugar da árvore, e quando a água desce fica a folha lá em cima, então fica a marca até onde a água vai”. Então ele mudou um pouquinho lá para cima e fez a casa seguindo a sugestão. E falando para o meu pai: “Não Seu Onésio, pode ficar tranquilo que não vai acontecer nada, a gente vai cuidar de vocês, isso aqui vai virar um santuário ecológico, vai ser bom e tal.” Foi o Zé Pedro, Capobianco, Mario Mantovani, Cleiton Lino, era Fausto Pires de Campo, Paulo Nogueira Neto, meu, tinha muita gente nos falando que ia ser tudo bom, que ia ser tudo legal, que ia ser maravilhoso. Quando foi em 86, 87 eles criaram a lei, primeiro tinha um projeto de fazer uma cidade chamada de Almeida Fernandes, seria uma cidade para setenta mil habitantes. A gente ficou assustado com aquilo: “Vão lotear tudo isso aqui.” Em seguida veio a NUCLEBRÁS (Empresas Nucleares Brasileiras S/A) querendo fazer duas usinas atômicas. “A gente vai fazer aqui usinas atômicas e tal.” A Estação Ecológica ia existir porque em todas as usinas atômicas que se constrói precisa de uma área de conservação, e seria exatamente a Estação Ecológica em volta da usina nuclear. Aí começou o movimento ambientalista contra a usina e eles falaram que iriam criar esta estação, o santuário ecológico, e que iriam manter as comunidades ali. Abandonariam a questão da cidade, a usina nuclear, e a comunidade ficaria por lá. E então criaram a lei. De fato, o projeto nuclear no Brasil acabou, aquele convênio Brasil - Alemanha acabou, mas a comunidade também não ficou porque criaram uma lei tão restritiva que essas comunidades não tiveram condições nenhuma de permanecer. Quando se criou a lei veio a Polícia Florestal, veio a polícia, veio um comando especial do Exército, o COE, que ficava lá fazendo treinamento na Cachoeira do Palhal, e todos fiscalizavam a comunidade. Então, quando criaram a lei em 87 eles proibiram todas as atividades, essas pessoas que falaram para a gente que ia ter um santuário ecológico e que as comunidades tradicionais iriam permanecer, essas mesmas pessoas vieram falar que não podia mais fazer a roça, não podia mais tirar madeira, não podia mais limpar a trilha, não podia mais reformar casa, não podia fazer mais nada. Proibiram tudo de cara, tudo, tudo. Não tinha mais mutirão, não tinha mais fandango, não tinha mais nada. Começamos então a se organizar para lutar pelos nossos direitos. Meu pai foi multado lá, ele teve uma multa que, acho, foi de dois mil “utn”. Eu nem sabia quanto valia isso! E a Polícia Florestal entrou na nossa casa, queria levar ele preso. Eu o acompanhei até a cidade e vi lá, ainda tinha um cara da NUCLEBRAS que trabalhava com o Coronel Loredano. Intimou meu pai. Eu quis entrar para ajudar, mas a Florestal não deixou entrar no escritório da NUCLEBRAS. Daí o proibiram e o deixaram. E eu comecei então entender o que eles estavam fazendo com a gente, porque não tínhamos mais liberdade para ir para a comunidade, as comunidades estavam todas perdidas. Não tinha mais mutirão, não tinha mais festa, não podia mais limpar trilha, virou um inferno total a vida das pessoas, e não tinha muito contato. Nos organizamos, criamos a União dos Moradores da Juréia, da qual eu sou presidente hoje, para lutar pelos direitos das comunidades, pelo direito dos territórios dessas comunidades tradicionais caiçara. E por que tinha que lutar? Porque uma vez um amigo meu levou um juiz, um juiz aqui de Iguape foi passar na minha casa, que era amigo do meu amigo e foi lá. Eu fui contando pra ele a história e tal da Juréia, o que estava acontecendo, que a gente não podia mais fazer nada, e ele falou: “Ó Dauro, pra você poder voltar a fazer tudo àquilo que seus pais faziam e que você fazia, só mudando a lei, porque Estação ecológica não permite a presença humana e muito menos fazer a atividade que vocês faziam, da pesca, da agricultura, essas coisas de manejo, não pode fazer mais nada”. Eu comecei então a procurar como é que mudava essa lei. Ele me falou do Arnaldo Junior, que é um amigo nosso agora que eu o conheci. Nessa época ele falou: “Ó, tem um pessoal do Aguapeú, Rio das Pedras, fazendo um movimento, um espraiado por conta dessa estação ecológica.” Eu me juntei a esse pessoal, formalizamos a União dos Moradores da Juréia e começamos a lutar para mudar a lei. Como estação ecológica não permitia nenhuma atividade, então a gente queria mudar para Unidade de Conservação e uso sustentável, porque tem a reserva extrativista e a reserva de manejo sustentável. Aí começamos a batalha, de 86 pra cá, a lutar pelos direitos dessas comunidades, para conseguir voltar a ter as atividades antigas desses moradores. Quando começamos a fazer a luta, de reunir duzentas, trezentas pessoas e mais ambientalistas, o cara me fala: “Não, mas tem que tirar todo mundo de lá porque lá é uma estação ecológica e não permite”. Sei que em 1992 a gente conseguiu autorização para fazer roça de novo lá dentro, a gente tinha alguns cientistas, alguns professores da universidade apoiando nossa luta, pessoas que se sensibilizaram pela nossa causa e começaram a discutir: “A comunidade está lá há ‘trocentos’ anos, essa área está no modo de vida dessa comunidade”. A Ana Maria Primavesi é uma agrônoma antiga, sabe, velhinha já. A gente foi buscar ela para uma reunião que teve aqui e ela falou exatamente isso: “Vocês estão matando esse povo de fome porque vocês estão tirando o território deles, a terra, e eles não têm que fazer roça em lugar de capinzal, eles têm que fazer roça em lugar que eles conhecem o solo”. Foi que em 92 tivemos a permissão pra fazer a primeira roça de novo. Desde 86 até 92 que ninguém podia fazer mais nada. Começamos então a ter novas autorizações de roça, o movimento das comunidades da Juréia estava forte nessa época. A gente ia pra Assembléia Legislativa, para a Câmara Municipal, para Prefeitura, para Salão Paroquial e fazia reuniões com todo mundo e pedindo apoio para essa mudança da lei. Mas o Governo usou uma tática de empregar essas pessoas, e aí viraram o jogo. Tinham várias lideranças discutindo os seus direitos, fizemos uma reunião na Assembléia Legislativa e eu lembro que o Ciro, que era uma liderança da Cachoeira do Guilherme, pegou o microfone e falou: “Olha, semana passada prenderam minha canoa, eu vim, eu saí da minha casa para fazer compra, eu deixei a canoa no porto, fui até a Barra do Ribeira, fiz a compra e quando eu voltei, cheguei no porto e já não tinha mais canoa, fiquei três dias lá esperando uma condução para eu chegar na minha casa.” Por que o que aconteceu? Os guarda-parques vinham da Polícia Florestal, olhavam a canoa no rio e falavam: “É palmiteiro, pode levar embora.” E era morador que estava lá fazendo seu trajeto, sua estrada era o rio. E o que o governo fez? Ele pegou e começou a empregar essas pessoas como guarda-parques, tinha uns setenta guarda-parques na época, e esses guarda-parques, a partir do momento que eles viraram funcionários do Estado, deram farda para eles, deram revólver, deram coturno, os caras empolaram o peito e viraram policial, e começaram a fiscalizar os seus próprios familiares, o pai, a mãe, o avô, o sobrinho, o tio, começaram a fiscalizar todo mundo. Virou um conflito muito grande nessas comunidades porque eles avisavam a Polícia Florestal, a Polícia Florestal vinha, entrava na casa das pessoas, abriam guarda-roupa, abriam os armários, abriam panela para levar os caras presos. Tinha Polícia Florestal em qualquer lugar. Por exemplo, o barco saía de Rio das Pedras e vinha para Iguape, a Polícia Florestal ia até o barco, pegava a sacola das mulheres, jogava no chão para ver se tinha carne de caça, se tinha alguma arma lá dentro, tudo para prender os caras. E as mulheres não levavam nada de carne de caça dentro das sacolas de roupa! Eles faziam barbaridade, quando às vezes não entravam na casa dessas pessoas, também armado e tal, pegavam o que só tinha arma, espingarda, porque são espingardas de uso da comunidade, e levavam embora. Muitas dessas pessoas vieram para a cidade, vieram aqui pro bairro do Rocio, foram para Peruíbe, Caraguá, ali no bairro do Guaraú, outros foram para Itanhaém. Essa tática do Governo de empregar esses moradores foi para desmobilizar essa união da comunidade, para que eles ficassem tranquilos. Primeiro deram as autorizações de roça, que foi a gente que conquistou, mas daí o Estado começou a falar: “Ó, nós demos autorização de roça para vocês, agora vocês podem fazer roça.” E aí os moradores falaram: “Não, os caras são bonzinhos, autorizaram a gente a fazer roça.” E quando eles colocaram esses moradores como guarda-parques, eu ia nas comunidades fazer reuniões, mas esses guarda-parques não queriam mais fazer reunião comigo. “Não, não vou fazer reunião com você porque o fulano de tal falou que eu não posso senão vou perder meu emprego, e se eu entrar nessa luta com você eu não posso porque o meu filho não vai ser empregado e o meu sobrinho também não vai.” Desmobilizou totalmente esses moradores. Em 2004 criou-se o Conselho Consultivo da Juréia, nós participamos da reunião do Conselho e propusemos então uma mudança de lei. Quando nós propusemos anteriormente não havia condições nenhuma de falar em mudança de lei. Quando falava de mudança de lei os ambientalistas queriam matar a gente de qualquer jeito, e falavam: “Não, você está louco, de transformar isso em RDS (Reservas de Desenvolvimento Sustentável).” E a gente falava: “Mas pessoal, essa terra, essa floresta está conservada por conta do modo de vida dessas comunidades, o modo de vida dessas comunidades é que faz com que esse ambiente seja conservado, vocês nunca vieram aqui para preservar. É notável que em todo lugar onde tem comunidade tem áreas preservadas, e oitenta por cento das unidades de conservação do Estado de São Paulo tem gente dentro porque são áreas que estão conservadas por conta do modo de vida deles, como eles fazem a roça, como eles fazem a pesca, como eles fazem o manejo da caxeta, como eles fazem o manejo do palmito. Eles têm uma forma de cuidar do seu território porque eles dependem daquele recurso, para sua sobrevivência, para sua melhoria da qualidade de vida. Eles dependem daquilo ali e quando se tira isso deles fica muito ruim”. Em 2004, quando criaram esse Conselho da Juréia, a gente começou a discutir sobre o movimento. A gente não tem recursos para organizar todas as comunidades, para ir para todas as cidades, você depende de gasolina, de carro, para trazer as pessoas depende disto, então, quando tinha reunião do Conselho, a gente fazia reunião do Conselho da Juréia e separadamente na hora do almoço fazíamos uma reunião com a comunidade e falava: “Ó pessoal, estamos articulando isso, assim e assado para mudar a lei.” O Diretor da Estação Ecológica não queria discutir a mudança de lei dentro do Conselho da Juréia, ele era totalmente contra, na verdade, toda a Secretaria do Meio Ambiente era contra a mudança de lei e de repente, no Jacupiranga, no parque Jacupiranga, tinha o Hamilton Pereira que havia entrado com um projeto de lei. Fomos para São Paulo, conversamos com o Zico Prado, que é um Deputado, e o Hamilton Pereira e falamos: “Vamos entrar com um Projeto de Lei para Juréia”. Fizemos uma reunião com o Secretário de Meio Ambiente, na época o José Goldemberg, e ele chamou a Fundação Florestal e falou: “Ó, precisa elaborar um projeto de lei para Juréia.” Passaram vinte dias, passou um mês, passaram dois meses e a Fundação Florestal não fez nada. Pegamos o projeto do Jacupiranga, demos uma melhorada nele e mandamos para o Deputado, falamos: “Ó, tá aí uma proposta.” Fizemos uma reunião com toda a comunidade para ver se a Unidade de Conservação seria compatível com o que eles queriam e estudamos o SNUC (Sistema de Unidade de Conservação). Primeiro pensamos em uma reserva extrativista, depois mudamos. “Não, a reserva sustentável é mais abrangente, ela comporta outras atividades, não é só o extrativismo.” Ficamos como reserva sustentável, e aí foi uma batalha muito grande porque a Fundação Florestal tinha outro posicionamento, queria o parque, só que parque também não comporta as comunidades tradicionais, não comporta morador, não comporta pessoa, é diferente de estação ecológica porque estação ecológica não pode ter visitação pública. Hoje estamos discutindo o que seria a Reserva de Uso Sustentável. Existem várias categorias de unidades de conservação. Tem a proteção integral que é parque, estação ecológica, reserva biológica e têm outros que eu não me lembro agora. E há a área de uso sustentável que é a APA (Área de Proteção Ambiental), RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), reserva de uso sustentável e reserva extrativista. Dessas quatro a gente ficou com a reserva sustentável porque ela prevê a presença humana e prevê o desenvolvimento sustentável daquela comunidade, seja na questão econômica, social, cultural e ambiental. Só que tem que saber trabalhar com essas questões, e a comunidade tradicional, as comunidades caiçaras, os pequenos produtores, os pequenos agricultores, já têm uma forma de trabalhar na floresta, na terra, no solo, o que precisa é da autonomia, você precisa trazer tecnologia para melhorar esse conhecimento, juntar esse conhecimento empírico com o conhecimento científico, para assim você fazer as coisas funcionar. A reserva sustentável tem esse papel, primeiro ela é do poder público, é um território, é uma unidade de conservação do Governo, o Governo dá para cada família uma concessão de direito real de uso desse território. E por que isso? Por que é bom ser terra pública? Porque muitas das comunidades às vezes querem vender o seu território, por diversos motivos, estão muito cansados, estão lá por conta de várias situações, tanto ambientais quanto econômicas. Algumas famílias saíram de lá, vieram embora para cá por conta dessa situação, de não resistir a essa questão das restrições ambientais. E isso não é só no Estado de São Paulo, no Brasil todo, e com essa política de Meio Ambiente, que eu chamo de política ambiental criminosa, porque ela não cuida nem da questão ambiental nem da questão social, algo criado na época da Ditadura Militar... Acabou a Ditadura Militar e esses caras vieram tudo para o poder, e estão lá até hoje, são 25 anos que estão no poder. E os caras não desgrudam, não largam o osso, e a gente tem convidado todo esse pessoal para sentar com a gente e falar: “Gente, vamos mudar isso”. As unidades de conservação hoje do Estado de São Paulo, para falar melhor sobre isso vamos falar do Estado de São Paulo, já não cumprem mais a sua função, ela não cumpre mais a função porque não adianta proibir, você tem que fiscalizar, o Estado, seja ele municipal, estadual ou federal, eles não cuidam de nada, eles não cuidam nem da saúde, nem da educação, nem da segurança pública e muito menos do meio ambiente, quem cuida dessas áreas, quem preserva essas áreas são as comunidades, pelo modo de vida e pelo dia a dia, eles estão ali fiscalizando o tempo todo, é o recurso deles, eles têm que fiscalizar. Agora, tem que ter uma parceria entre a comunidade, o Governo e a Universidade para trabalhar essa questão da conservação da natureza. E a proposta da gente é o que? É chamar todo mundo. A gente já fez isso, chamamos Promotor Público Ambiental, chamamos a Defensoria Pública, chamamos a Universidade de São Paulo, chamamos a Unicamp, chamamos o ISA, chamamos a SOS Mata Atlântica, chamamos várias pessoas. “Vamos discutir uma proposta coerente para as comunidades e para a natureza? Não dá para separar o homem da natureza. Homem e natureza têm que estar junto”. E as pessoas que queiram voltar? É para aquelas pessoas que estão lá? É para aquelas pessoas que estão lá. E reserva sustentável tem que ser grande, ela não pode ser pequena, senão é inviável, é insustentável, ela tem que ser grande porque as comunidades dependem de buscar um pau de canoa a vinte quilômetros, ou a taquara a dez quilômetros, então não pode ser um negócio que fique insustentável, porque além de acabar com a vida das pessoas acaba também com o meio ambiente, então ela tem que ser grande. Para a gente sentar e fazer uma proposta bem feita, temos chamado todo mundo, a gente não esconde de ninguém a nossa proposta, na verdade, a primeira proposta que a gente fez era algo grande, uma RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável) pegando o Rio das Pedras, Espraiado, Prelado indo até o Costão da Juréia, pegando o Rio Comprido, Barra do Una, Paraíso e Barro Branco indo até a Juréia. A reserva sustentável ela é uma unidade de conservação também, só que você pode usar o recurso que tem lá de forma manejada, você pode fazer pesquisa, ver quanto tem de palmito, quanto tem de caxeta, quanto tem de cipó, quanto tem de palha, fazer todo um estudo, porque tem que fazer um plano de manejo, e depois um plano de uso desse recurso e ver o que é viável para a comunidade ou não. Se estiver esgotando o recurso, pára e fala: “Não, isso aqui não dá, não está sendo ambientalmente correto, isso aqui não está sendo sustentável ambientalmente”. Pára. A comunidade ela é esperta para isso, ela sabe o que está fazendo, e se as pessoas orientarem ela fica melhor ainda. Quanto mais gente para ver e orientar, melhor. “Então para com isso aqui e vamos fazer aquilo outro”. Para a conservação da natureza não basta se criar Estação Ecológica, você tem que criar a unidade de conservação de uso sustentável e junto com essas comunidades tomar conta, cuidar, porque a Estação Ecológica está lá, está cheio de palmiteiro tirando palmito e o Estado não está nem aí, a gente pede para fazer o plano de manejo do palmito e não pode porque a lei não deixa, mas também eles não fiscalizam quem está tirando, os caras de fora estão roubando o nosso recurso, então eles também não cuidam disso. Não pode haver este tipo de cultura, tem que haver educação ambiental. Tem várias atividades que podiam ser feitas para viabilizar a vida dessas comunidades e elas continuarem com seus conhecimentos, com a sua cultura, com a sua tradição, e eles não deixam isso acontecer. Os que são contrários a nossa proposta alegam que as comunidades vão destruir esse meio ambiente. Alegam que se criarem uma reserva sustentável virá uma especulação imobiliária, virá gente de fora querendo comprar. Mas isso não tem lógica, porque quando é terra pública é terra pública, não se vende, ninguém vai lotear a Juréia, quem vai ter o título do direito real de uso é a comunidade, então não tem como, eles alegam porque querem jogar isso na mídia para que o povão veja e fale: “Não, não pode, não pode mexer com o meio ambiente, vão destruir.” Porque na verdade a mídia está na mão deles, têm pessoas da Globo que estão aí, tem o pessoal do Estadão, da Veja, todos juntos, são todos da elite de São Paulo, que na verdade não conhecem muito essa questão ambiental, mas que estão por aqui e que tem o poder na mão para dizer não, e influencia diretamente o Governo. A SOS Mata Atlântica tem um poder de fogo muito grande dentro do Governo, ela é uma ONG governamental, ela não é uma ONG não governamental, porque ela influencia, ela fala: “Não quero, não dá, não pode, não pode e pronto.” Temos chamado esse pessoal para vir discutir, mas eles não vêm discutir com a gente, não querem porque sabem o que a gente está falando, nós sabemos do que estamos falando também, que a conservação da natureza não se dá fazendo uma Estação Ecológica e proibindo as atividades da comunidade, não é, a conservação da natureza se dá primeiro por uma educação ambiental, de uma conscientização da população, e para mim conservação da natureza é conservar o planeta como um todo, não é simplesmente conservar uma bola de mato, porque não é aquilo ali que vai salvar o planeta, o que vai salvar o planeta é conservá-lo como um todo. Ver onde estão jogando o lixo, ver onde estão destruindo com os canaviais, ver onde estão destruindo com sujeiras, com madeireiro. Esse pessoal destrói o meio ambiente, esse pessoal destrói, mas é o pessoal que está no poder, é o pessoal que a SOS não bate, é o pessoal que ninguém mexe porque são os poderosos e aí toma a nossa região que é preservada, para mostrar ao mundo que eles estão preservando o meio ambiente, mas você vai naquela região de Sorocaba, Piracicaba, Limeira, aquela região está toda devastada pela cana de açúcar e laranja, e outra coisa, por acaso, o Presidente da SOS Mata Atlântica, ele é o maior plantador de eucalipto e pinus do Paraná. Não é? Então, têm umas coisas que a gente vê que está embolado aí no negócio, não está certo. A SOS tem uma sede aqui em Iguape e trabalha com educação ambiental. Vêm às escolas de fora para cá para eles falarem do pólo ecoturístico do Lagamar, para falar dos bichinhos que estão aí, pra falar do Guará, da biodiversidade, mas não mostram as comunidades tradicionais, não mostram as atividades dos caiçaras, não mostram a atividade dos quilombolas, que conservam esse meio ambiente. Não mostram. Eles mostram os bichinhos da Mata Atlântica, e que eles conservam e protegem a Mata Atlântica. Na verdade, eu não vejo que trabalho eles fazem para a conservação da natureza. Eu não vejo eles apoiarem essas comunidades, sabe, como neste caso da Juréia que nós estamos batalhando há 25 anos. Eles que deviam estar lá para ajudar a gente a consolidar isso, falar: “Ó, vamos criar então uma unidade de conservação para as comunidades de uso sustentável, para a comunidade porque eles são os defensores da floresta.” Mas não, eles não querem, simplesmente não participam, ficam jogando coisa na mídia dizendo que os deputados vão lotear a Juréia, dizendo que a União dos Moradores vai lotear a Juréia, jogando ainda as pessoas contra a gente, dizendo que nós, comunidades tradicionais, estamos destruindo esse meio ambiente. O que eles alegam é exatamente isso, que as comunidades vão destruir a natureza, mas assim, oitenta por cento das unidades de conservação no Estado de São Paulo tem gente dentro. Todo o Parque da Serra do Mar, pegando daqui de Pedro de Toledo até Ubatuba tem gente morando, e com a mesma situação que estamos hoje, de não poder roçar, de não poder tirar o palmito, de não poder tirar o cipó, de não poder fazer a canoa, de não poder fazer o mutirão por conta de ser uma unidade de proteção integral. E a Polícia Florestal em cima, montando, sabe, não deixando nada. Por que aí o que acontece? Eles fazem uma desapropriação barata, porque as comunidades vão saindo, vão cansando de não poder mexer mais na terra, de não poder mais fazer as suas atividades econômicas e acabam indo para a cidade, os jovens principalmente. Quase não tem mais jovem querendo mexer com a terra, eles vão para a cidade. Agora eles vão para a cidade fazer o que? O que uma comunidade tradicional vai fazer em uma periferia da cidade? Vai entrar nas drogas, vai se prostituir. Têm vários casos que aconteceram na Juréia, garotos que estão aqui no Rocio que saíram de lá para cá pequenos, chegaram aqui, os pais não tinham como sustentar esses meninos, e eles são vaidosos porque viram os caras com tênis bom no pé, vê os caras de calça jeans, querem e não têm. E as drogas estão por ali mesmo, vão sendo influenciados a toda hora, e de repente começam a usar, se tornam viciados, ficam viciados no negócio e começam a roubar para comprar droga, para morrerem, vão presos. Vários casos aconteceram de pessoas que saíram da Juréia e tiveram este fim. E a gente vem denunciando isso faz muito tempo. Tem um vídeo que se chama “Cerco da Fome”, a gente que fez. Tem um senhorzinho lá atrás, em 1990, que fala isso: “Vão tirar meu filho do meu sítio para ir apanhar da polícia na cidade? Vem fazer estação ecológica dentro da minha casa?”. Um senhorzinho já com sessenta anos, cinqüenta anos falando isso, e assim, tudo aquilo que ele falou está acontecendo, veio a acontecer. Os caras saíram do sítio da sua comunidade, da sua vizinhança, e viraram bandidos, sabe, vem para a cidade perdendo sua cultura. Já não dançam mais fandango, já não tocam mais rabeca, já não fazem mais viola, e isso acaba destruindo a família inteira. Quando o filho de um morador desse entra nessa situação, destrói a família inteira. Isso tem acontecido e é o que a gente não quer que aconteça. Teve um sujeito que foi e soltou isso na internet uma vez. A imagem era de um cara morto pela polícia, ele tinha assaltado aqui, matado uns caras, um cara do Espraiado. Saiu de lá com quatro anos de idade e foi morrer agora com 25, exatamente na época dessa transição de 86 para cá. A gente botou isso na internet e mandou para o Serra, o Governador, falando: “Olha aí, ó! Olha a política ambiental que vocês estão implantando no Estado de São Paulo. É disso que nós estávamos falando lá atrás, que ia acontecer, e é o que está acontecendo hoje. Estão matando nossos filhos, nossos jovens, nossos irmãos.” Em 2004 conseguimos as concessões das roças. Em 2006 aprovou a lei. Muita briga com o Governo! Botaram o Secretário do Meio Ambiente da época, José Goldemberg, na discussão. Chamaram o seu Zé Pedro, que foi o cara que criou a Juréia, para fazer a intermediação dessa discussão da mudança de lei. “Nós queremos uma reserva sustentável para todo mundo, a gente não quer deixar nenhuma comunidade de fora.” Aí ele falou: “Não, só pode ser para a Barra do Una e para o Espraiado.” São as duas comunidades maiores que tem hoje, que estão mais perto da cidade. O restante das comunidades é menor, oito famílias aqui; antes tinha mais, tinha umas vinte e cinco famílias e hoje tem oito, tinha quinze e hoje tem quatro. Por conta dessas restrições esse pessoal foi para a cidade, exatamente esse pessoal que está morrendo nas periferias. Lógico que teve gente que conseguiu se sustentar e manter sua família em ordem, porém outros não tiveram a mesma felicidade. Então a gente mudou, o Zé Pedro chegou nessa história falando que não podia mais ampliar, tinha que ser só a do Espraiado e da Barra do Una, e era no final de mandato, era no final de governo, era pegar ou largar. Não tínhamos outra saída. Reunimos todas as comunidades e falamos: “Ó pessoal, é importante que a gente faça essas duas comunidades, duas RDS, que é a primeira RDS da Mata Atlântica, e se falando da Juréia esse é um grande avanço já que não se podia falar em mudança de lei que eles queriam trucidar a gente, então vamos fazer isso funcionar, essas duas RDS e depois entramos novamente com outro pedido de projeto de lei para outras comunidades. Tá bom assim?” Não, não queriam. “Ó gente, é importante.” No fim acordamos sobre isso. “Tá bom, criamos essas duas e continuamos brigando para criar outras para as demais comunidades”. Aí criou. A partir do momento que criou isso começamos a trabalhar, mas a gente não queria fazer, a gente sentou com o Governo e falamos: “Ó, vamos criar só um Conselho da Juréia e a gente trabalha tanto a RDS da Barra do Una quanto a RDS do Espraiado.” Para trabalhar nessas diferentes áreas de conservação, pois vira RDS do Espraiado, RDS da Barra do Una, o Parque do Prelado e o Parque do Itinguçu e a Estação Ecológica que ampliou, ampliou mais de 16 mil hectares e fizeram uma RDS de duzentos hectares, na Barra do Una que tem uma de trezentos hectares e uma de duas mil hectares no Espraiado, que é pequeníssima. Não funciona, mas é o que a gente tinha na mão e a gente pegou aquilo e começou a trabalhar nisso, fizemos todo um plano de manejo, buscamos recursos para fazer o pré plano de manejo, e para quê? Para a gente instrumentalizar essas comunidades, porque ia ter um plano de manejo maior que era feito pela Unicamp e o ISA (Instituto Socioambiental) por mais de um milhão e duzentos mil reais. Pensamos: “Então antes de ir para esse plano maior de manejo, que é feito pelo governo, que é o oficial, vamos capacitar as comunidades, vamos fazer um pré-plano.” Pegamos os cinco mil reais da carteira de agroextrativismo do Ministério do Meio Ambiente e fizemos então esse pré plano de manejo. Instrumentalizamos, capacitamos pessoas, e quando chegou o plano de manejo oficial do Estado esse pessoal já estava capacitado. “Não, aqui é minha terra, aqui não sei o que.” Foi bem legal. É uma coisa que a gente fez que foi ótima, capacitamos a comunidade a desenhar o mapa, fazer onde é a sua terra, o seu território. Mas só que quando mudou a lei, a SOS pediu ao Ministério Público para entrar com uma ação de inconstitucionalidade, eles argumentaram que quem tinha que entrar com o projeto de lei era o Governo, era o Executivo, e não era o Legislativo, porque o Legislativo não pode onerar o Executivo; criar uma Unidade de Conservação vai gastar recurso, dinheiro, porque somos duas RDS, Parque, então para cada uma dessas unidades tem que ter um gestor, tem que ter recurso para isso, então eles entraram com a ação e derrubaram a lei. Aí, quando estavam terminando o plano de manejo da Juréia toda, caiu a lei porque era inconstitucional. Entraram com o que se chama ADIN, Ação de Inconstitucionalidade, aí virou tudo Estação Ecológica de novo. Estávamos cansados dessa história, isto desmobilizou toda a comunidade, todo mundo ficou, assim, assustado com isso. Virou tudo Estação Ecológica de novo. Como era o Governo que tinha que entrar com o projeto de lei, sentamos com ele então para discutir. Discutimos durante o ano inteiro uma nova proposta de projeto de lei, só que o Governo não abre mão da posição de não ampliar, ele não quer ampliar para algo maior do que era, tem que ser igual. “Não pode ser igual, gente, já que tem uma oportunidade de fazer um projeto de lei, de mudar a lei, vamos fazer para todo mundo, e o momento é agora, e o Governo vai entrar com essa proposta.” Discutimos, discutimos, discutimos e o discurso era o mesmo, falavam como o Zé Pedro falava, e como os caras falam agora. “Existem forças ocultas.” “Mas quem são essas forças ocultas?” Eles diziam que eram os ambientalistas, mas os ambientalistas são eles mesmos, é o próprio Zé Pedro que está até hoje na Secretaria do Meio Ambiente, é o próprio Mantovani, essas pessoas que estão há 25 anos nesse poder. Então porque havia forças ocultas? Discutimos, discutimos, discutimos e daí foi o tempo deles ampliarem para onde a comunidade pediu, que é a área de uso e manejo dessa comunidade de agricultura, mas ampliaram para a serra. A serra não é lugar de ampliar, a comunidade não usa aquela área, aquela área deve ficar preservada, conservada, de preservação da natureza. Área de uso é essa área que a comunidade pediu. “Não, mais...” “Gente, a área que a comunidade pediu é essa aqui, é essa aqui que a gente quer.” A gente discutiu o ano inteiro. Quando chegou para mandar isso para a Assembléia fizeram duas audiências públicas. Fizemos todas as reivindicações necessárias, fizemos todos os pedidos possíveis de ampliação e eles não colocaram nada na proposta. Pensamos que eles iriam mandar para Casa Civil e daqui iriam mandar para a Assembléia. Também não mandaram. Ficamos mais um ano inteiro esperando e eles não mandaram, até hoje para falar a verdade, porque o Chico Graziano ia sair para Senador e o Serra ia sair para Presidente da República, como saiu, Não mandaram o projeto de lei, ficou lá parado, e está até hoje estacionado. Recentemente fiz uma reunião com o Secretário de Meio Ambiente, com o Bruno Covas e com o Diretor Geral da Fundação Florestal, que ficaram de me dar uma resposta, disseram: “Não, vamos marcar então outra reunião para a gente começar a discutir de novo essa proposta.” E até hoje não me deram nenhuma resposta. É uma situação muito enrolada, eles não querem, o que a gente percebe é que eles não querem fazer, não querem mudar a lei da Juréia, querem deixar do jeito que está e ir nos matando aos poucos, porque a maioria já está velhinha. Eles vão nos minando, cada vez mais, minando, essas pessoas, muitas dessas pessoas vão saindo e o resto que vai morrendo, os que estão velhinhos vão morrendo, e vai acabar assim. Hoje vivemos o esquecimento, de vez em quando vai uma polícia lá, mas é mais esquecimento, deixa tudo largadinho e depois fala: “Não, nós estamos fazendo.” É mais para dizer que estão fazendo as coisas, que não estão mexendo com ninguém, e para quê? Para que as pessoas fiquem calminhas e não toquem para frente o negócio. Mas não estamos satisfeitos com isso, vamos tocar, vamos movimentar, porque têm todos os direitos das comunidades tradicionais em jogo, os direitos de acesso aos territórios, seja ela quilombola, indígena, caiçara, palmeirana, ribeirinho, seja ela quebradeira de coco, são comunidades que vivem dos recursos naturais, que vivem do território e precisam dele, porque ou elas foram expulsas, ou elas não têm o território hoje por conta da especulação imobiliária dos grandes fazendeiros, ou por conta dessas unidades de conservação que tem hoje. Muitas comunidades foram expulsas de suas terras. Eu faço parte da Comissão Nacional de Povos de Comunidades Tradicionais, ela foi criada lá em 2006. Tem um Decreto que é o Decreto 6040, que criou essa Comissão Nacional de Povos de Comunidades Tradicionais. E você vê que a situação é semelhante, a nossa dos caiçaras com a dos fundos de pastos, dos faxinalenses, dos quilombolas, dos indígenas, das quebradeiras de coco, dos seringueiros, são todas semelhantes, todo mundo depende e precisa dos seus territórios. Os indígenas e os quilombolas já têm um pouco do marco legal, têm os direitos garantidos na Constituição dos seus territórios, a gente não tem esse marco, as outras comunidades, os outros segmentos das comunidades não têm esse direito, mas os quilombolas e os indígenas têm. E mesmo tendo esses direitos garantidos, ainda há muitas dessas comunidades quilombolas que estão esquecidas pelo mundo afora, por esse Brasil afora, são pouquíssimas terras reconhecidas de quilombolas. Nós temos casos aqui no Alto Ribeira que é assim, que não estão reconhecidos os seus territórios, que não lhes dão os direitos dessas comunidades, e estão sobrepostas sobre unidades de conservação, tem Parque dentro de território de quilombola, mas a gente precisa parar com isso, sabe, a gente precisa mudar esse paradigma, não dá mais, como eu falei anteriormente, as unidades de conservação hoje já não cumprem mais a sua função de conservação da natureza, deu errado, tá tudo errado, acho que naquela época até foi importante porque tinha que ter o impacto contra esses latifundiários, essa especulação, e essa questão da usina nuclear, mas hoje não, meu, na verdade, quem sofreu o impacto não foram essas pessoas, foram os pequenos produtores, foram as comunidades que sofreram esse impacto. Antigamente, no tempo da minha avó - toda a terra lá do Grajaúna pertenciam aos meus avós - chegou uma época que eles levavam no cartório de Iguape, porque minha avó não sabia assinar, levava no cartório de Iguape para comprar o território dela. E ela assinava, colocava o dedo e tal e os caras compravam vinte metros, trinta metros e depois pegavam todo o resto, e a troco de nada, de banana. Meus avós não tinham esse conhecimento, de escritura, de valor de terra, o valor da terra para eles era cultivar, estar ali mexendo com ela, na verdade, todas as comunidades tradicionais antigamente eram assim, não tinham ideia de valor da terra. Quando eu estava lá, na lida com as comunidades, com a vizinhança, quando não tinha Estação Ecológica, quando não tinha a cidade, quando não tinha a NUCLEBRAS, você vivia de comunidade em comunidade, fazendo agricultura, fazendo mutirão, fazendo fandango, eu participava disso, ia para Aguapeú, vinha pro Rio das Pedras, ia para a Cachoeira do Guilherme, ia para a Praia do Una, daqui vinha para cá... A gente fazia várias atividades porque tinha que fazer uma roça para você. Por exemplo, o morador convidava toda a comunidade para o seu terreno, ela ia para lá e fazia a sua roça. Tinha que fazer a canoa do rapaz ali, então você ia para a casa do rapaz, todo mundo fazia a canoa ali e todo mundo puxava, então era uma convivência harmoniosa na vizinhança. Eu participei de vários mutirões, e todos foram importantes porque cada mutirão desse era uma troca de experiência fantástica, entendeu, de o cara vir lá do Espraiado conversar com o cara de Praia do Una que são regiões diferentes, região central e da beira mar. É uma troca de experiência fantástica. Mutirões com fandango era uma riqueza muito grande, de conversação, de ajuda mútua, de apoio, muito interessante. A música, a dança, o aprendizado do jovem olhando o cara tocar a rabeca e ficar olhando ali, prestando atenção, e começar a tocar e virar mais um violeiro, mais um rabequista, mais um rabequeiro, sabe, era muito importante, todas essas, para mim todas essas atividades do mutirão, do fandango, das festas eram muito importantes. Eu vivenciei um mutirão que eu fiquei muito feliz. O pessoal convidava todo mundo, e eu saí de madrugada, eu mais meus primos, e fomos lá para o Aguapeú. Saímos quase uma hora da manhã e fomos embora, chegamos lá tipo cinco horas da manhã porque a roça começava às sete. E chegamos lá, estava cheio de gente, e como eu estava cansado e no caminho tinham uns cavalos, sabe, a gente montou nos cavalos, abriram as porteiras e fomos embora chegando até a comunidade. Lá soltamos os cavalos e fomos para o mutirão. E reclamaram com a gente porque os cavalos ficaram soltos, e cada cerca serve para proteger as roças dos caras, e aí o cavalo foi para a roça e comeu as ramas do pessoal, foi uma confusão muito boa! (risos). Mas foi muito bom. Você levava um dia numa roça para plantar dois sacos de arroz, que o cara ia levar quinze, vinte dias, um mês para roçar, você fazia em um dia, era muito satisfatório fazer isso, era muito gostoso ir lá apoiar a comunidade, fazer uma roça para o fulano de tal, o cara ficava muito, muito contente com aquilo. Todo mundo trabalhava o dia inteiro. Tinha comida de manhã, tinha comida meio dia, tinha comida à noite, tinha comida de madrugada, e o fandango rolando, era fandango a noite inteira, era sapateado, era passadinho, porque o fandango é um conjunto de música e dança, então têm várias músicas e várias danças diferentes no fandango, e era muito legal isso, muito bom, assim para tudo. O cara sabia ao certo onde ia fazer a roça dele, não precisava de um engenheiro agrônomo, não precisava de um técnico florestal, não precisava de nada, o cara falava: “Oh, a minha roça é aqui.” Cavava o chão, cheirava a terra e falava: “Esse solo aqui tá bom.” Outro chegava e olhava: “Oh, esse solo seu aqui é bom, hein, essa mata é boa, isso daqui vai dar bastante arroz.” E aí você aprendia: “Mas por que vai dar bastante arroz?”, Me explicavam: “Porque tem o caetê branco, porque tem a árvore tal ali, porque a madeira está com a raiz tal.” Eles identificavam a floresta, então não era só o cara que cavava e cheirava, mas tinham outros caras que falavam a mesma coisa, falavam: “Oh, esse solo do cara é muito bom, hein, tem caetê branco, lá embaixo é argila branca, dá muito arroz.” Então você tinha um aprendizado enorme com aquilo ali, e todo mundo que não conhecia e queria conhecer, jovem, ia aprendendo no dia a dia o que estava acontecendo, então isso era muito bom. E dormia todo mundo por lá! Mulher, criança, jovem, adulto, todo mundo que ia para a roça, todo mundo. Tinha o mutirão de colheita também, e aí ia mais gente ainda porque era para colher, era para salvar a agricultura, para colher o arroz. Nós fazíamos um paiol que era uma cobertura com capim, cercado de madeira, fazíamos um estrado e colocávamos todo o arroz ali, e todo mundo ia colhendo arroz, carregando e jogando lá para guardar o arroz. Você tirava dois ou três sacos que era para plantar, a semente boa para plantar, e o resto você vendia, comia, pilava e ia fazendo até o ano que vem quando se fazia uma nova roça. Todo ano você tinha semente nova para plantar. Hoje você já não encontra mais semente, daquelas sementes boas que tinha antigamente. Você não encontra mais a rama de mandioca, como meu pai estava reclamando nessa semana, que não tem mais rama de mandioca boa como ele plantava. Você não encontra uma semente de feijão como a que eles tinham antigamente, que era uma semente boa de plantar. Perdeu-se muita coisa, muita, muita coisa se perdeu com essa questão da conservação da natureza e eu acho que precisa ser retomada com urgência isso, porque os jovens não vão, se você não trabalhar isso agora, que, assim, eu acompanhei isso desde pequeno e por isso também entrei na luta, porque eu vi que era necessário ter isso, era necessário que o jovem participasse. Criamos a União dos Moradores da Juréia para lutar pela Juréia, e eu via que não tinha muito jovem participando. Nós criamos a Associação do Jovem da Juréia, que trabalha em parceria com a União dos Moradores da Juréia, e hoje a gente tem alguns jovens participando com a gente. Tem o Gilson, tem o Marquinho, Heber, Pedrinho, Wellington, que já estão inseridos nessa discussão, e não estão se perdendo por aí, eles estão trabalhando nessa questão, estão dando valor à cultura, dando valor aos territórios, dando valor aos conhecimentos das comunidades, dos seus avós, dos seus tios, sabe, estão aprendendo com eles, vão lá perguntar as coisas, vão pra roça comigo, derrubam e roçam. Que nem agora, fizemos na semana passada uma roça de arroz, uma roça de mandioca. Olha, fazia tempo que eu não fazia! De mandioca a gente fazia sempre, desde quando a gente conseguiu essa autorização a gente sempre faz, mas de arroz a gente não tinha feito mais. Fizemos uma roça de arroz, meu pai ficou super contente e falou: “Nossa, que legal e tal. Você vai me arrumar uma semente?” E eu falei: “Vou, falar com o pessoal do Ivaporunduva, com os quilombolas que tem arroz lá, vamos ver se eles me arrumam uma semente para eu trazer pro senhor aqui.” Então minha missão é buscar esse arroz pra plantar lá. Mas eu entrei nessa batalha, nessa luta das comunidades tradicionais por conta dessa questão, para que as comunidades permaneçam em seus territórios com essa riqueza de cultura que eles têm, acho que, assim, o que São Paulo, o que a população paulistana tem que ver é isso, não olhar para uma natureza de floresta, de bicho, mas ver essa diferença de homem e natureza junto e saber que dá para o homem e a natureza viver juntos, um depende do outro, entendeu, um depende do outro. No passado, os moradores dos sítios tinham muitas coisas que não dependiam da cidade, mas tinham outras que sim, então eles trocavam pelo arroz. Vinha o sujeito aqui para Iguape, vinha remando, uma semana de remo, chegava aqui, entregava lá uns trinta sacos de arroz, ou sessenta, e falava: “Oh, eu quero fazer uma compra com o senhor aqui”. E comprava essas coisas que não havia por lá, açúcar, café. Dava o saco de arroz e levava aquela compra embora, ou fazia o contrário, levava a compra embora, quando não tinha arroz para dar naquele momento, assinava lá, na época do fio de bigode: “Oh, assim que eu fizer a minha colheita eu vou lhe pagar.” “Beleza, pode levar.” E levava. Fez o mutirão, roçou, plantou, cinco meses depois, bateu, pilou - Por que bateu? Porque o arroz tem um cacho, então você tem que bater ele para sair só a semente - bateu, ensacou e trazia para o cara aqui. Também se o vizinho não tinha arroz emprestava, falava: “Toma, pode ir lá colher pra você uns três sacos de arroz na minha roça.” Porque às vezes o cara não tinha feito a roça dele, ficava doente ou estava com outra agricultura atrasada, então falava: “Oh, pode colher lá na minha roça”. Então os caras pegavam um saco dele. O sujeito colocava nas costas, pegava a faquinha e ia pra lá colher o arroz e depois ia pra casa dele. Matava uma caça, quando era vizinho próximo assim, se matava uma paca minha mãe partia no meio, cortava em quatro pedaços, um quarto para um, outro pra outro, um quarto pra outro e um quarto pra nós. Matava peixe: “Ah, matamos aí uns peixes, leva dois não sei pra quem, leva um não sei pra quem.” “Ah, faltou açúcar. Vou lá buscar meio quilo de açúcar na casa de fulano”. Aí você ia lá, com uma vasilhinha, emprestava, arrumava, media, virava no saquinho e trazia. Quando você tinha, você enchia a vasilhinha no mesmo tamanho e ia lá e virava no saquinho, era assim. Eu fiz algumas vezes viagens para a cidade. Eu pescava, salgava o peixe e vinha vender para comprar roupa, para comprar calçado. Na época, a gente também não tinha muita roupa, muito calçado, era pouco, era pouquíssimo. Na verdade, eu vim pra cidade quando eu tinha 18 anos de idade, assim que eu conheci luz elétrica, piso, esse negócio. Eu nunca tinha ido pra cidade, então como eu precisava fazer o alistamento, senão ia preso, falavam: “Oh, se você não fizer o alistamento você vai preso, porque o Exército vai mandar prender você.” Então tinha que mandar fazer o alistamento e meu irmão me trouxe para a cidade. Eu corria de carro! Eu via aqueles carros na rua, aquelas Kombis, e me escondia atrás do poste enquanto passavam, só depois voltava pra rua. Quando eu vi a luz elétrica, tinha lá a lâmpada, eu acendia e apagava e pensava: “Como que acende e apaga?” Assoprava a lâmpada pra ver se apagava e não apagava, ia lá na parede e ficava admirado com aquilo. Daí para cá, dos 18 anos em diante, eu comecei a vir pra cidade porque meu tempo todo eu vivia aqui na roça, no mato, só vivia lá, da escola pra casa, da casa pra escola, da casa pra roça, da roça pra escola. Até que eu vim morar aqui na cidade, eu tinha meus 25 anos, fui obrigado a sair da Juréia porque estava muito conflituosa a situação, a partir do momento que eu comecei a discutir com a comunidade, os territórios, a questão de mudança de lei... Eu vinha para a reunião, ouvia os caras falando da Estação Ecológica que não permite a presença humana porque tal tal tal, porque a lei não deixa e tal tal tal e aí eu voltava pra minha comunidade, fazia reunião com a comunidade e falava: “Oh pessoal, não dá pra viver em estação ecológica, tem que mudar a lei.” “Mas como assim mudar?” E eu falei: “Tem que mudar a lei. Tem outras unidades de conservação ou temos que excluir a nossa área da estação ecológica, aí faz uma exclusão da área e tal.” E ficava discutindo aquilo com a comunidade. Comecei a fazer reuniões e reuniões e reuniões, aí o Estado percebeu que eu estava fazendo essa articulação, e me ofereceram emprego: “Oh, eu vou te dar um emprego pra você lá no Espraiado.” E eu falei: “Espraiado?” “É, lá no Espraiado, você conhece?” “Conheço, mas lá não quero, quero aqui. Se me der aqui no Grajaúna eu fico aqui, no Espraiado eu até vou pra fazer reunião com a comunidade, mas sair da minha comunidade não.” “Não, mas é importante que você vá pra lá, você trabalha e depois a gente muda você lá pro Aguapeú, porque a gente tem essa dinâmica de mudar os guarda-parques de lá pra cá e de cá pra lá.” Eu falei: “Mas eu não quero sair daqui, eu quero ficar, se você arrumar um serviço pra mim aqui eu fico, na minha comunidade, mas pra eu ir pra Espraiado não.” Por que eles queriam que eu fosse pra lá? Porque ia gerar um conflito com a comunidade de lá, eu ia ser um guarda-parque, onde eu ia ter que cumprir algumas regras do Governo, ia começar a gerar um conflito lá, e depois iam me mandar pra outro lugar. Então eu falei: “Não, os caras estão querendo me pegar pelas pernas”. Insistiram e eu falei: “Não, não quero, se for pra ir pra lá não vou.” E continuei nas reuniões. Eles começaram a me perseguir, e começaram a falar: “Não, não se junta com o Dauro porque ele é perigoso, porque ele está com um movimento aí, vai acabar com a vida de vocês, vão tudo para o buraco.” O próprio Estado falando isso. O Ítalo, que era o diretor da estação ecológica, o Fausto que era da equipe litoral sul, que era da Fundação Florestal - na verdade não era Fundação, a Fundação Florestal era uma Fundação que contratava esses guarda-parques, quem gerenciava a unidade de conservação era o Instituto Florestal na época, que recentemente foi mudado, passou a gerência das unidades de conservação pra Fundação Florestal - Mas daí começaram a falar isso e começaram a empregar esses guarda-parques, começaram a dar emprego pra um, dar emprego exatamente pras lideranças. Tinham até três mulheres empregadas, virou tudo guarda-parque, com revólver na cinta e tudo o mais, e assim, não queriam mais falar comigo, e eu ia fazer reunião, mas não queriam mais fazer reunião comigo. Depois começaram a perseguir meu pai. Meu pai era funcionário deles, meu pai foi funcionário da NUCLEBRAS e depois virou funcionário do Estado, virou guarda-parque. A partir do momento que eu entrei no movimento, comecei a discutir, a brigar com o Governo, a falar dos nossos direitos, a levar isso pra comunidade e eles começaram a perseguir meu pai, porque eles não tinham como me atingir diretamente, então começaram a atingir meu pai e indiretamente me atingia porque meu pai falava: “Não meu filho, saia dessa luta porque eles vão te prender. O Fausto falou que quando pisar na cobra vai pisar na cabeça, não vai pisar no rabo. Eu tenho medo que ele te mate.” E eu falei: “Pai, fique tranquilo, não vai matar não, fica tranquilo.” “Mas eles querem te prender meu filho, falaram que vão te prender.” “Pai, fala o seguinte, fala que eu não obedeço o senhor.” Porque ele falava, eles davam o conselho pro meu pai e falavam pra ele falar comigo: “Oh meu filho, saia dessa luta porque essa luta é perigosa meu filho.” Como ficou muito crítica a situação, fui obrigado a sair pra cidade. Não dava pra ficar mais porque estava uma situação muito difícil, também estava sem emprego, já não podia mais pescar, já não podia mais fazer minha roça, não podia nada. Parei e vim pra cidade, trabalhar e continuar o movimento. Quando eu vim para a cidade não arrumei emprego, tinha diária, trabalhava como diarista, fazia um trabalho para uma pessoa aqui, limpava um lote lá, fazia uma massa de cimento ali, não era trabalho porque não tinha um emprego fixo. E também nem dava porque você estava no movimento e toda hora tinha reuniões e toda hora tinha que viajar... Era muito difícil, primeiro porque não tinha emprego e também porque se arrumasse emprego fixo tinha que parar com o movimento. Eu vi vários companheiros que se empregaram e não participaram mais do movimento, foi cuidar do emprego dele, porque tem que estar todo dia ali batendo cartão, e tem que dar continência pro seu patrão. Não dá para ser do movimento. Eu trabalhava com diária e não tinha onde morar. Arrumaram-me uma casa de veraneio e foi aí que um cara me chamou para trabalhar de caseiro lá na Barra do Ribeira, inclusive, eu estou lá até hoje. Fui pra lá, e agradeço muito o cara porque aí pude colocar minha família num lugar para morar e posso continuar na luta. A minha mulher cuida da casa, do meu patrão, e eu dou uma arrumada no quintal, limpo um lote aqui, limpo um lote ali, pesco ali e pesco lá. Viajo para um lugar e viajo pra outro, para poder manter a luta. A gente criou também a Associação do Jovem da Juréia, criou um galpão onde as pessoas trabalham com artesanato em caxeta e tal, e aí tem toda uma luta, além da luta da Juréia tinha a luta dos caxeteiros, que eu também participei, porque com a criação da Estação Ecológica da Juréia isso começou a impedir várias atividades que havia no entorno, inclusive a de caxeta, usada pra lápis e tamanco, atividade que empregava quatrocentas famílias, aqui no Rocio e em várias dessas outras comunidades do Aguapeú, Rio das Pedras. Eles cortavam a caxeta e vendiam para o João Faber. Por conta da questão da estação ecológica, muitos desses ambientalistas vieram aqui e falaram: “Oh, tão cortando caxeta que é ilegal.” E começaram a proibir também; e a Polícia Florestal entrando na casa das pessoas, com metralhadora, com arma e proibindo tudo isso. A gente teve que fazer uma nova luta, uma nova discussão até que chamamos o pessoal da ESALQ (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) que veio fazer um estudo da viabilidade econômica da caxeta, do plano de manejo. E como é que faz tudo isso? Na verdade, é só consolidar aquilo que já se fazia. A caxeta é madeira que dá no brejo, depois de alguns anos você tem madeira de novo, dá em lugar alagado, ela é sustentável, você corta uma árvore e vêm dez brotos de madeira. Você tem que fazer, lógico, o manejo. Você tira uns sete brotos e deixa uns três lá. Esses três brotos vão pegar toda a força da seiva e vão subir. Foi o que a pesquisa veio ensinar como tem que fazer, mas a verdade é que a gente já sabia que quando cortava ela brotava. Também foi uma luta muito grande e conseguimos legalizar a madeira. Eu acho que a única madeira legalizada hoje na Mata Atlântica é a caxeta, por conta dessa luta. E por conta disso que os meninos, que a gente criou a Associação dos Jovens da Juréia, cuja sede hoje é na Barra do Ribeira. Eles trabalham com o artesanato em caxeta e também estão envolvidos na luta, na luta pelos territórios das comunidades tradicionais. A partir do momento que a gente começa e continua lutando pelos territórios da Juréia, mas não só pelos territórios da Juréia porque os caiçaras estão presentes do Paraná até o Rio de Janeiro, e eu faço parte de uma comissão nacional e represento as comunidades caiçaras nessa comissão, eu tenho toda uma responsabilidade de ver o que está acontecendo em outras regiões. Temos luta pelos territórios das comunidades no Brasil todo, a luta dos moradores ampliou daqui para outras comunidades, para o Parque da Serra do Mar, para Ubatuba, para Caraguatatuba, São Sebastião, Ilha Bela, Pedro de Toledo, Peruíbe, Parque do Jacupiranga, Barra do Turvo. Trabalhamos com todas essas comunidades na parte de orientação, na questão da legislação da lei da Mata Atlântica, no decreto 150, a questão do Código Florestal, os direitos das comunidades tradicionais. A gente sempre realiza palestras e os informa sobre seus direitos; fazemos a divulgação da Comissão Nacional e da Política Nacional de Povos das Comunidades Tradicionais. A militância se sustenta de trabalhar de dia pra um aqui, outro ali, faz um projeto e de repente nesse projeto paga-se uma diária pra gente. A gente não tem o recurso para manter, para fazer isso e ter muito mais qualidade, se tivesse teria mais perna pra você andar e você ia poder sustentar sua família, mas como tem que fazer as duas coisas, fazer o movimento das comunidades tradicionais e ainda sustentar a sua família... Um pouco você pega, um pouco em cada coisa. Às vezes nem tanto pra família e nem tanto para as comunidades. Estivemos todo esse tempo discutindo o projeto de lei. O Serra não mandou isso pra Assembléia e em seguida o Promotor Público entrou com uma Ação Civil Pública contra essas comunidades, para tirar todo mundo em 120 dias da Juréia. A gente correu atrás, foi atrás da Defensoria Pública. Eu tentei ligar para o pessoal lá e não consegui, mas eu preciso saber em que pé está isso. Para que essas pessoas continuem lá. O projeto de lei precisa entrar imediatamente, precisa mudar essa lei porque quando você muda de proteção integral para uso sustentável, essa ação cai por terra. Para salvar essas comunidades, para manter seus territórios, tem que mudar a lei porque senão eles vão estar com a corda no pescoço o tempo todo. Nunca entraram na minha casa. Eu ouvi algumas ameaças de outras pessoas falando pra mim: “Fulano de tal vai te pegar, cuidado com isso, tem gente falando que vai te pegar aí rapaz, toma cuidado.” Mas ninguém chegou diretamente pra mim e falou isso e nem invadiram minha casa. Mas a Polícia Florestal ia na casa de outros moradores. Teve um sujeito que invadiram a casa, bateram no cara, trouxeram o cara preso pra cidade, inclusive ele nem mora mais lá na Juréia, veio morar aqui no bairro do Embú, ficou desgostoso da vida. A polícia chutou ele e tal. Denunciaram que estavam tirando palmito, e ele estava vindo da roça com pau de lenha nas costas e tinha uma espingarda, normalmente o morador caiçara ele tem sempre a sua espingarda, o facão na cinta, porque ele depende daquilo, ele vive do recurso, ele precisa matar uma caça para comer, se ele não matar uma caça para comer ele vai comer o quê? Não tem mercado ali, o mercado é a caça, lógico que tem toda uma época de caça, ele sabe a época de caçar, fevereiro, março, abril, maio e junho caça, dali pra cá você não caça mais porque é a época que estão criando, ninguém caça, eles tem todo esse conhecimento, não precisa falar para eles porque já sabem, e se qualquer pesquisador quiser fazer essa pesquisa vai lá e vai ver que vai dar certinho. Minha esposa é lá do Rio das Pedras, Juréia. Hoje, a família dela mora aqui na cidade, estavam lá também até pouco tempo e não resistiram, vieram pra cá. Mas eu a conheci lá no Rio das Pedras, nos mutirões que a gente fazia, nos fandangos e tal. Tivemos o Marquinho, o Marcos Vinicius, e a Mariana, um com dezoito e outra com sete anos. O Marquinho está no movimento, faz parte da Associação dos Jovens da Juréia, trabalha com artesanato e participa do movimento. E a nossa grande luta é esta, a gente quer que mude essa lei da Juréia, que a gente possa voltar para nossas comunidades, construir nossa casa lá, viver com nossos filhos e mostrar para eles tudo aquilo que meus pais faziam, que meu avô fazia, e continuar fazendo isso, que eu acho muito lindo, acho muito importante. Então é assim, a gente vive nesse conflito, não é fácil. Você está em casa e daqui a pouco alguém te liga e fala: “Oh, tem reunião lá em Belo Horizonte, você tem que ir pra lá.” Uma vez lá em Peruíbe: “Oh, fulano de tal tá lá em Peruíbe, na Cachoeira do Paraíso porque a Fundação Florestal baixou uma normativa lá e não deixa o pessoal entrar.” Aí tem que ir pra lá, reunir com a comunidade, fechar a estrada, fazer movimento, chamar o Diretor da Fundação e discutir uma proposta para amenizar aquele conflito. E a gente faz isso a vida toda. A minha primeira viagem fora daqui foi para São Paulo, para uma reunião na Assembléia Legislativa de São Paulo. Levei junto comigo um do Aguapeú, encontrei com o sujeito e ele: “Vamos embora, vamos embora!” Pegamos o carro com esse meu amigo, Arnaldo, e partimos. Era uma reunião, mas eu não conseguia nem falar no microfone. Eu tremia, secava a boca, era muito difícil. Eu aprendi muito com isso, com esse movimento eu aprendi bastante. Sofri muito também porque não conseguia falar aquilo que queria falar, tinha vergonha. E vendo os caras discursando e eu querendo contestar e não podia, não conseguia. Nestas primeiras assembléias legislativas que participei, um dia estava o Seu Sátiro discursando, discursava como ninguém. Ele é um líder espiritual, morava na cachoeira do Guilherme, era uma pessoa que consultava para todo mundo, fazia remédio para todo mundo, vinha amigo de São Paulo, de Iguape, Peruíbe, de todos os lados para consultar com ele. Tudo que a pessoa tinha, tudo, qualquer coisa que o cara tinha ia lá falar com ele: ‘’Seu Sátiro...’’ E ele benzia, fazia uma consulta com raiz de não sei o que com não sei lá o que. E o sujeito ia embora curado. Aí vinha outro fulano, toda comunidade consultava com ele. Nessa região onde ficava o Seu Sátiro, região central da Juréia, foi onde criamos a escola Caiçara da Juréia. Como a comunidade se juntava por ali e não tinha mais escolas na Juréia, eu falei: ‘’Vamos criar uma escola aqui’’. Criamos a Escola Caiçara da Juréia, que também oferecia dormitório; dava para dormir duas, até quatro pessoas. A escola tinha ensino fundamental e médio, mas o ensino médio não deu sequência por conta de que o estado não quis pagar o professor. ‘’Não, não pode, precisa de cinquenta alunos para se ter o ensino médio, e não tem dez’’. Falei: ‘’Gente, é uma escola diferenciada, com um sistema de alternância, fica quinze dias na comunidade, cinco em casa. Olha, vamos continuar com isso que os outros alunos vão começar a participar. ’’ Era muito legal! Tinha a aula normal, tinha o fandango, tinha aula de folia de bandeira, tinha aula de água e floresta, tinha aula de tudo assim, e os jovens ficavam lá quinze dias, depois voltavam para casa e ficavam cinco, e então voltavam de novo. Instalamos energia solar, levamos computador, levamos tudo para lá. Mas o Governo não apoiou, foram todos para a cidade e tivemos que fechar a escola. Nós sempre fizemos reuniões, e uma das reivindicações das comunidades era a de ter uma escola, pois caso contrário eles tinham que vir para cidade estudar. Foi daí que surgiu a ideia da escola: ‘’Vamos pessoal, vamos fazer uma escola então caiçara, uma escola caiçara, diferenciada!’’. Comecei a chamar o pessoal, disse que tinha uma proposta de escola, tudo bem, vamos pensar onde. Pensamos na cachoeira do Guilherme porque é um lugar aonde todo mundo vai. Fizemos a proposta. Uns amigos que são arquitetos, do instituto Elos, hoje parceiros da gente também, fizeram uma proposta de escola, fizeram todo projeto arquitetônico. Também tinha umas meninas da UNICAMP e do NEPAM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais) que começaram a apoiar esse trabalho. Aliás, tivemos várias pessoas como parceiras, por exemplo, o pessoal da ESALQ, inclusive o professor Diegues da USP. Pedimos a prefeitura para contratar um professor, então a prefeitura contratou uma professora que era moradora de lá e veio para cá, estudou, virou professora e voltou para dar aula, e também um professor que se formou em Filosofia e morava em São Paulo, mas era daqui também da Juréia; consegui contatar ele em São Paulo, liguei para ele e falei: ‘’Olha, tenho um trabalho assim assado’’, ‘’Ah, eu estou trabalhando na Albergue aqui, quando tiver um emprego por ai, um trabalho, me chama que eu vou.” E calhou de ter isso: ‘’Olha você pega ou larga, fica no Albergue ou vem para cá, a oportunidade é essa agora. ’’ Para contratar esse professor precisava que o estado contratasse. Teve um encontro do Alckmin em Registro, ele levou toda secretaria dele para lá, educação, meio ambiente e tudo mais. A gente aproveitou o embalo e foi para lá. Falamos com o Secretário de Educação, que era o Chalita na época, colocamos para ele a cidade, a proposta também, tinha várias pessoas e ele falou: ‘’Não, tudo bem, vamos contratar”. Contratamos o professor, só que a Secretaria de Meio Ambiente foi minando isso por fora. Primeiro, não autorizou construir uma escola, falaram que não podíamos. Ignoramos, reformamos uma casa e fizemos a escola, reformamos a escola do Seu Sátiro e fizemos a escola lá. Não construímos, reformamos. Tudo assim, um mutirão debaixo do pano, e aí fundamos a escola. Na sequência o pessoal da USP doou a energia solar. O pessoal do NEPAM trouxe lápis, caderno, borracha, e o pessoal do ELOS veio com o projeto arquitetônico. E assim começou a escola, as aulas. Tinha de primeira a quarta, e de quinta a oitava série. O Paulinho dava aula de quinta a oitava e a Lídia de primeira a quarta, e os alunos iam para a cachoeira do Guilherme. Fizemos alojamentos para eles ficarem, na casa das pessoas; levamos merenda escolar e ficamos lá. A escola durou dois anos, e quando terminou foi uma decepção muito grande, eu fiquei muito decepcionado, falei: “Não vou fazer mais nada de movimento, não quero saber de projeto nenhum’’. Porque era uma coisa que tinha tudo para dar certo. Eram os pais e os alunos vivendo juntos na mesma escola. Todo mês tinha uma reunião para gente preparar, saber como tinha sido a didática aplicada para preparar o plano pedagógico, para discutir a pedagogia da escola, e ia ajustando, era muito legal. Ia uma educadora, ia uma pedagoga, os professores, os alunos, os pais dos alunos sentavam lá e começavam a discutir a proposta para escola. A ideia era criar uma Universidade Caiçara! Um sonho bem grande, mas o estado não pagou professor. Eu batalhei, fui atrás de mais alunos e tal, mas cinquenta alunos eu não conseguia, esse era o teto, e ai fechou. Eu fiquei decepcionado com o negócio: ‘’Eu não quero saber mais disso, não vou mais a movimento nenhum’’. De repente liga uma menina, amiga minha do Rio de Janeiro falando: “Tem um projeto aqui, um edital, que saiu do Ministério da Cultura.” Eu falei: ‘’Ah Joana, eu não quero não’’, ‘’Ah não, vamos fazer, vai ser legal. ’’ Fizemos então um projeto de Centro de Cultura Caiçara, ponto de cultura da Barra do Ribeira que é a sede da associação, virou um centro de Cultura Caiçara, ai fizemos projetos e tinha convênio com a associação de jovens da Juréia, eu tinha que coordenar esse projeto e não tinha, não sabia lidar muito com isso, fomos aprendendo, aprendendo, fizemos lá, reformamos a sede, entraram outros parceiros. Depois teve o caso da lei da Juréia, que deu uma animada porque nós conseguimos mudar a lei, e de repente descambou de novo, veio a comissão nacional, e eu participei da comissão e vi outras lideranças nesse movimento, Pedro Ramos lá do Pará, um velhinho de sessenta e poucos anos, sabe, na batalha, falou: ‘’Eu tava junto com Chico Mendes, via meus companheiros tombar aqui na frente dos madeireiros e não desistirem da luta porque o território é das comunidades tradicionais.” Eu falei: ‘’Nossa eu vou continuar, não tem como. ’’ Ai tem o fundo de passos da Bahia, quebradeiras de coco do Maranhão, pessoas guerreiras que dão uma lição de vida para você. Ver aquelas mulheres que ralaram, que foram espancadas e conseguiram dar a volta por cima e conquistar o Babaçu. Hoje elas vendem, exportam para a Alemanha, para França, o sabonete. É muito legal, essas pessoas que dão animo para você continuar na luta, lutando pelas comunidades tradicionais. As comunidades têm que alcançar esses direitos de território, têm que voltar à seus territórios, não têm que ficar na cidade, têm que voltar para suas terras. O governo federal na discussão da Juréia não tem entrado. Eles têm apoiado a gente pelos recursos federais, o ponto de cultura, por exemplo, foi importantíssimo, conseguiu envolver os jovens. Teve essa questão do PDA que a gente fez um estudo para criação das RDS, o da comissão nacional da divulgação que a gente fez também. O governo federal deu recurso para a gente fazer divulgação da política nacional, pudemos visitar outras comunidades que estão com os mesmos conflitos da gente. Para cá tem o Parque Superagui, no Paraná, que tem o mesmo conflito daqui. Em Guaraqueçaba é o mesmo conflito, tem na Ilha do Cardoso que é o mesmo conflito. A situação das unidades de conservação do estado, tanto no Paraná quanto em São Paulo, são as mesmas, moradores dependem do recurso, mas a lei não deixa os caras se não tiver autorização. A gente conseguiu conhecer outras comunidades, fazer contato, o apoio federal foi mais nisso. Acho que o primeiro acesso teve recurso do governo federal, o primeiro projeto, tanto a União dos moradores da Juréia quanto a Associação dos Jovens da Juréia tiveram apoio do projeto federal, do ponto de cultura e dos projetos, dos pré-planos de manejo e estudo das RDS. A gente fez também um seminário da Amazônia com a Mata Atlântica. Trouxemos o pessoal das reservas de uso sustentável do Mamirauá, do Amazonas, para falar para o povo da Mata Atlântica o que é uma reserva sustentável. Fizemos uma semana de rodadas nas comunidades, em todas as comunidades do Vale do Ribeira. Teve seminário aqui em Iguape, em Registro, e um seminário na assembléia legislativa com os deputados e o governo para mostrar qual a importância das reservas de uso sustentável da Amazônia. Os caras que vieram de Amazônia para cá ficaram assim, abismados, falaram: ‘’Olha, se o governo de São Paulo tratar essas comunidades que nem bicho já tá bom porque essas comunidades estão sendo massacradas, tratadas como lixo. É do lado de São Paulo e não tem internet, não tem luz, não tem água encanada para essas comunidades?!”E não tem mesmo. Não deixam reformar sua casa, não deixam limpar as trilhas, não deixam fazer roça. Eles ficaram assustados: ‘’Lá a gente trabalha com essa reserva sustentável, fazemos o manejo do Pirarucu, da castanheira, a gente tem tudo para fazer, e isso dá certo, você tem que fazer isso, o governo tem que apoiar essa iniciativa. ’’ Isso foi feito na Assembléia, mas o governo não está nem aí. Hoje não tem mais tanta pressão de empresas privadas. Teve a Nuclebrás na Juréia, essa foi uma pressão forte. Várias pessoas, máquinas entrando, soldagem... Aqui, diferente do litoral norte de São Paulo, teve uma diferença de acesso, aqui tem um acesso mais difícil. O que fez impulsionar o litoral norte foi a Rio - Santos, também acho que fica mais próxima a São Paulo. Inclusive muitos desses ambientalistas que não quer que a gente faça nada por aqui, todos têm casa no litoral norte, todos em condomínios fechados, que são deles! Lugares que não deixam o caiçara passar por dentro. No condomínio Laranjeira, o que acontece, tem uma van que pega o caiçara de um ponto, atravessa o condomínio e larga lá na estrada, pega na estrada e leva, deixa lá na comunidade, não deixa passar por dentro. Ai quem está lá dentro? De quem é o condomínio lá da Laranjeira, quem esta lá? É o neto do Covas; é o filho do Maluf, é o cara da SOS, todo mundo esta lá dentro. Chico Graziano, por acaso, ex- secretário do meio ambiente, tem uma casa em Ilha Bela, no parque da Ilha Bela. Temos várias parcerias com ONGs entre outros agentes. As parcerias surgiram a partir do movimento que fizemos. As apresentações de seminários, palestras. Por exemplo, tinha um encontro na USP, discutimos o caso da Juréia por lá, de pronto algumas pessoas que participaram falaram: ‘’Ah, legal, no que a gente pode ajudar?’’ Então apareceu o Instituto Elos, teve o encontro, tem vários encontros que a gente participa, e essas pessoas vão se encontrando nesses eventos e vão se sensibilizando e vão aparecendo. Muitos vêm também para conhecer a região, têm algum projeto que eles vão fazer na área e também acabam conhecendo a gente e apoiando o movimento. Por acaso teve a história do Museu Vivo do Fandango, um projeto financiado pela Petrobrás, feito por um pessoal do Rio de Janeiro, da Caburé. O projeto Museu Vivo foi o de pesquisar as comunidades caiçaras, exatamente o Fandango, um projeto bem legal, teve livro, teve cd, reuniu trezentos e pouco fandangueiros em Guaraqueçaba. Até rolou discussão, tinha umas oficinas e tal, que rolavam discussão da unidade de conservação, da questão da caxeta, da questão ambiental, porque meio ambiente e cultura eles têm que viver juntos, eles vivem juntos, eles dependem um do outro, então foi bem legal. Essa parceria com a Caburé também ajudou a fazer o Ponto de Cultura, estão nos ajudando a fazer a prestação de contas. Tem o Instituto Elos, que já começou no tempo da Escola Caiçara, nas festas da cachoeira do Guilherme que a gente organizava. Tem o Oikos agora, que está apoiando a gente bastante, bem legal. Teve o encontro em Registro do Entre Mundos, que é do Careoté, uma entidade também. Muitos parceiros apoiando a gente nessa luta, nessa iniciativa, apoiando lá no galpão. A União dos Moradores da Juréia foi a nossa primeira organização, por que o que acontece? Quando se faz uma luta, o movimento não depende da associação, a associação é um instrumento jurídico, uma pessoa jurídica que representa esse movimento. Para você buscar recursos, por acaso, tem que ter uma instituição, porque eles não dão recursos para pessoas, eles dão recursos para entidades, então são vários associados e tal. Foi nessa linha que queríamos, criamos a associação para ter um instrumento jurídico, para entrar com ações, para buscar recursos, para fazer essas coisas, fazer convênio. Criamos então a União dos Moradores para ser uma personalidade jurídica. Em seguida criamos a Associação dos Jovens da Juréia, que também é uma associação para isso, têm várias ações. Cuidar de associação é igual a uma empresa, você tem que declarar imposto de renda, têm várias coisas para fazer, tem que pagar o contador... Se não tiver organização não funciona, você acaba, vai ficar inadimplente com a situação, você acaba, você tem que estar na regra, tem que estar tudo muito bem feito senão não funciona. Teve um workshop no Instituto Florestal... Isso foi muito bravo. A gente invadiu. Não convidaram, então a gente invadiu. Pegamos uma Kombi daqui e fomos para lá. Os caras falando das comunidades tradicionais, que estavam apoiando, e que já tinham feito roça de feijão para um, e roça de feijão para outro, e que ia fazer uma coletividade e blá, blá. Tudo mentira. Não estava acontecendo isso, a roça não é coletiva, ela é individual, o coletivo é o trabalho. Todos nós entramos escondidos, cada um ficou em um canto. Era um grande workshop sobre unidade de conservação e tal, muita gente, e o palestrante estava falando que o cara da secretaria do meio ambiente estava apoiando a região: “Não, a gente tá apoiando as comunidades tradicionais, agora já fizemos roça coletiva de feijão, e vamos fazer outro”. De repente, teve um senhorzinho que levantou e falou: ‘’É mentira. Eles não estão fazendo nada, eles estão acabando com a gente, porque a nossa roça nunca foi roça coletiva, a nossa roça é individual, o movimento é coletivo, mas a roça é de cada um, o que eles estão fazendo é uma porcaria de uma roça lá que vai dar para nada. ’’ Criou uma tal situação que eles queriam expulsar a gente de dentro! Acabou o seminário, acabou o workshop, e a gente teve que ir embora assim. Nossa grande vitória foi conseguir as autorizações de roça. Foi aqui no salão paroquial de Iguape. Foi quando trouxemos a Ana Primavesi, e que ela falou para os ambientalistas: ‘’Não, vocês estão matando esses caras de fome’’. Falou para o Aron Berli. Na verdade, foi da pré Juréia que nasceu a Mata Atlântica e depois da SOS Mata Atlântica nasceu o ISA (Instituto Socioambiental), são todos ligados por esse pessoal. E ela falando: “Vocês estão matando esse povo de fome, esse povo sabe exatamente onde fazer a roça deles, vocês só têm que demarcar a área que eles pedirem para marcar. ’’ Ai quando eles autorizaram a roça foi uma conquista! Muito bom, você voltar a fazer sua roça! E um ano depois você ter mandioca, farinha, comida de novo na mesa, isso foi uma conquista. Outra conquista foi a mudança da lei. Aliás, tivemos várias. A escola Caiçara foi uma conquista, a gente conseguiu uma escola Caiçara dentro da Juréia, conseguimos que o governo do estado de São Paulo pagasse por um professor, uma grande conquista. A mudança da lei foi uma conquista, a participação da comissão nacional foi uma conquista, o projeto do centro de Cultura Caiçara foi uma conquista, que agora tem até sede, já colocamos internet lá, um espaço para você começar a fazer as coisas. A visibilidade dessas comunidades está sendo uma conquista porque tava muito enrustido, muito abafado, lógico, ainda precisamos de mais visibilidade, mostrar mais. A mídia trabalha contra a gente, na verdade, a mídia trabalha dizendo que as comunidades tradicionais destroem a região. As grandes mídias não chegam até a gente. Por exemplo, a TV Cultura já fez algumas entrevistas por aqui, a rádio Cultura também fez, mas a maioria dessas mídias realiza um trabalho contra as comunidades tradicionais, mais focado na linha dos ambientalistas, dos conservacionistas, e estes têm contato direto, a gente não tem muito acesso. Teve uma vez que a Globo Rural foi para Juréia fazer uma matéria, isso foi uma conquista, eles colocaram nossa situação, tinha um texto que eles escreveram que conseguiu mostrar nosso lado, marcamos um encontro e tal. Mas a menina que fez quase perdeu o emprego lá, acho que foi a Globo Rural. Depois tivemos varias matérias de jornal, do Estadão, dizendo que a Juréia ia virar um queijo Suíço, daquela repórter Eco, jornal Eco. Fizeram várias matérias contra as comunidades. Tem uma matéria do próprio Mantovani dizendo que a Juréia ia ser loteada. Nós fizemos uma audiência publica aqui na Câmara Municipal e chamou o pessoal para vir participar, IBAMA, Chico Mendes, SOS Mata Atlântica. O Mantovani veio para essa reunião e pegou o microfone e falou: ‘’Isso é um marco legal mesmo para comunidade, eu estou trazendo aqui meu apoio, o apoio da SOS Mata Atlântica’’. Estavam filmando ele, gravando isso, porque tem peso. O Diegues falou também, todo mundo falou. Uma semana depois o Mantovani deu um depoimento no jornal dizendo que o projeto de lei da Juréia viria para lotear a região, que nela iria haver especulação, fez uma matéria enorme no jornal que não dá para descrever o que ele falava. Então a gente fica meio perturbado, mas a gente colocou, fez um link do que ele falou e colocou lá na internet para que todo mundo que acessasse visse o que ele falava, do apoio etc. (Risos). Falaram-me do TEDx, mas não sabia o que era TEDx, um espaço para você contar um pouco da sua história. Era para o Gilson participar, mas como ele não podia, tinha outra palestra para fazer, ele me chamou: ‘’Tio, você pode ir?’’ ‘’Ah posso, vou lá. ’’ A Iracema que é do TEDx me ligou: ‘’Seu Dauro, tudo bem?’’ ‘’Tudo bem. ’’ ‘’Você pode participar?’’ ‘’Posso, claro, lógico. ’’ Ficou certo. Anunciaram que eu ia participar e tinha mais um monte de gente que ia participar do TEDx. Nisso, todo mundo se organizando. Dois dias depois a Iracema me liga: ‘’Seu Dauro, tudo bem?’’ “Tudo bem.” ‘’Nós estávamos aqui pensando, a gente está mudando o foco da discussão. ’’ ‘’Então não vai ser mais meio ambiente e sustentabilidade?’’ ‘’Não, vai ser, mas a gente quer mudar um pouco, a gente queria estar te desconvidando porque a gente vai colocar outra pessoa para falar. ’’ ‘’Mas por que assim Iracema?’’ ‘’Não, nós estamos mudando o foco da discussão. ’’ ‘’Então o Ailton Krenak não vai participar mais, nem o rapaz da UNICAMP?’’ ‘’Não, eles vão. ’’ ‘’Então só eu que não vou participar?!’’ ‘’Só você que não vai participar. ’’ E ficou uma coisa me falando na minha cabeça: ‘’A SOS não quer que você participe. A SOS não quer que você participe. ’’ Tudo bem, eu não quis falar para ela: ‘’Iracema, mas quem cuida disso? Porque é tão desconfortável você ser desconvidado de um negócio desses, eu estava me preparando para ir, entendeu, e agora eu não posso?’’ ‘’Não, porque a gente quer colocar um jovem, não sei o quê... ’’ ‘’O que vou fazer Iracema? Se você esta me desconvidando, mas essa história não esta bem contada. Quem faz parte da organização?’’ ‘’Tem um conselho que cuida disso, e o conselho esta decidindo não colocar você, vai por outra pessoa, vai por uma criança. ’’ ‘’Mas quem faz parte desse conselho?’’ E aquele negócio me falando: “A SOS não quer que você participe”. ‘’Quem faz parte desse conselho, você tem dois, três nomes aí?’’ ‘’Não, não posso porque o conselho é muito grande e não vou lembrar o nome agora. ’’ ‘’Tá bom. ’’ Desliguei o telefone e liguei para o Gilson e falei: ‘’Gilson, me tiraram da TEDx, acho que foi a SOS que não queria que eu participasse porque o Belô esta lá, e o Belô me conhece.’’ ‘’Será tio?’’ Então liguei para o meu filho Marquinho e nem falei para ele, liguei para outra pessoa que falou: ‘’Será possível?’’ E eu falei: ‘’Olha, alguma coisa me diz que é a SOS, mas eu não vou espalhar isso porque senão vão falar - ‘você só fala mal da SOS, você fala mal da SOS’ - então vou ficar na minha’’. Fui embora. Passaram dois dias e a Mônica me liga perguntando o que aconteceu e tal, e não sei o que: ‘’Você tem alguma ideia?’’ ‘’Olha Mônica, a gente tem o movimento, trabalha com as comunidades tradicionais, tem muita gente que não gosta dessa nossa postura, desse nosso trabalho, nossa mudança de paradigma, de querer mudar as coisas, porque a gente tem outro modo de pensar, da relação homem e natureza... Ela parou um pouco, pensou... ‘’Eu vou te contar Dauro, foi a SOS que não quis que você participasse. ’’ Eu falei: ‘’Nossa senhora, mas eu sabia Mônica, já tinha uma coisa me dizendo que era a SOS!’’ Imagine só, a SOS, uma potência como a SOS, não me deixar participar de um negócio desses só porque o Belô estaria contando a historia? Eu não participei do “treco”, não vi, não sei que história ele contou, mas deve ter contato a história dele com a SOS Mata Atlântica. Agora, é muito antiético isso, diz que é um negocio sério, que tem cinco mil seguidores no negócio e de repente tem uma palhaçada dessa?! Aí mandei um email, fiz uma carta falando inclusive do presidente da SOS. Como que o presidente da SOS, que preserva a Mata Atlântica, faz a supressão total e planta pinus de eucalipto? Esse cara não quer me deixar participar do negócio?! Fiz uma carta e mandei para todo mundo! Chamei de ‘’Paciência’’. Essa carta rodou por aí tudo, várias pessoas vieram me falar: ‘’Cuidado, você não pode fazer isso’’. E eu falei: ‘’Ah, mas eu tinha que desabafar, não tinha como engolir esse negócio, não tinha como, é muita sacanagem, é muita falta de respeito com o ser humano!”No fim teve uma repercussão grande com as pessoas, a Márcia Hirota, que é da SOS, teve que ficar respondendo várias coisas por lá, e vários começaram a malhar o negócio. Fazendo uma projeção da reunião, se as coisas rumarem para o bem, a comunidade daqui da Juréia estará dentro de uma reserva sustentável, fazendo manejo de recursos naturais, trabalhando com agricultura e pesca, e cuidando da sua vida, melhorando de vida, tanto pessoal como da comunidade. Estará cuidando do meio ambiente e melhorando de vida. Se não for nesse caminho vai ser o inverso. Vai estar todo mundo na periferia das cidades, cada vez mais pobres, porque eu acho que quem coloca comida na mesa dos brasileiros são os pequenos produtores, são essas comunidades que produzem o próprio alimento, não é o grande produtor de soja, não é o grande produtor de cana, não é o grande produtor de milho, trigo. Não, esses caras mandam tudo para fora, estão pouco se lixando com a sociedade brasileira. Quem bota comida na mesa, cenoura, arroz, feijão, couve são os pequenos produtores. Eu acho que se isso for o inverso de que estou pensando vai ter uma decadência muito grande no mundo, fome, violência, vai ser uma coisa muito ruim. Teremos perdas, na questão da cultura, na conservação da natureza, de alimento que não vai ter para todo. Penso que iremos superar isso, mudar esse paradigma e construir uma política de meio ambiente que seja sustentável na conservação da natureza e na conservação do ser humano. Eu nem gosto de falar em meio ambiente, quando se fala em meio, se divide, metade, meio ambiente. Melhor falar em ambiente por inteiro, pensando no homem e na natureza. Outra coisa que eu falo é que não adianta preservar uma bola de mato, tem que conservar tudo, conservar os rios, as águas, o mar, a terra, floresta, tudo tem que ser conservado. Mas tem que ser usado também. É muito triste quando você vai nessas praias e você vê um monte de lixo, e muitas dessas pessoas pensam que quem joga o lixo são as comunidades que moram lá, mas não é, o lixo vem do mar para cá. Aonde vai o lixo que você produz? Que eu produzo e jogo no caminhão e vai para o lixão? A chuva leva esse lixo para o rio e do rio vai para o mar, e do mar vem para as praias. Então eu acho que é uma situação que é preciso tomar muito cuidado, a gente precisa já começar a se conscientizar que tem muito plástico no mar, tem muito plástico na natureza. Acho que tinha que acabar com a garrafa PET, com a sacola plástica, acabar com esse resíduo que não tem nada que acabe com ele, que está invadindo tudo, a praia, a natureza, qualquer lado que você vai, que está acabando com os peixes... Turismo é um tema bem complicado. Ele pode ser benéfico em parte e pode ser maléfico no outro lado. Tem um modelo de turismo que estão discutindo hoje que é o turismo de base comunitária. Eu acho que tem que ter muito cuidado com o turismo de massa, um turismo que vem, deixa tudo que é de coisa ruim e vai embora. Além de deixar o lixo, deixa os maus costumes, deixa várias coisas. E às vezes não deixa nem recurso. Temos que tomar um pouco de cuidado com esse turismo. Tem que trabalhar. Esse turismo tem trazido para nossa comunidade coisa ruim, os jovens se iludem com o turista e acabam esquecendo suas tradições, sua cultura, e o que a gente procura falar para esses jovens é que não se deslumbrem com isso, que eles mantenham sua cultura, que mantenham sua identidade, que cuidem da sua raiz, das suas tradições. O turismo de massa é um turismo que tem vindo e tem destruído muito as comunidades. Nós da Associação dos Jovens da União dos Moradores da Juréia estamos discutindo um turismo de base comunitária, um turismo que seja bom para todo mundo; também não queremos excluir nem pobre nem rico, acho que todo mundo tem o direito de ir à praia, todo mundo tem o direito de visitar a comunidade, então que seja um turismo que traga sustentabilidade tanto para aquele que vem, como para aquele que esta lá. E que a nossa cultura não vire folclore, que não vire uma coisa folclórica. Se é cultura viva, que eles venham visitar nossos conhecimentos, nossa cultura, que venham visitar a comunidade, que venham trazer recursos, e que venham também se beneficiar daquilo. Encontrem uma praia limpa, uma cachoeira boa, uma conversa boa, aprendam como são as comunidades caiçaras, como trabalham na agricultura, como fazem as pescas, como é feito o Fandango, como eles tocam a rabeca, como que é produzido os instrumentos deles... Agora que este tipo de turismo está começando. Recentemente começamos a vender roteiros para as pessoas de São Paulo. O cara vem de lá, começa o trajeto no centro histórico de Iguape, tem um monitor que vai falar para ele do centro histórico, como que nasceu e como cresceu Iguape, o que acontece com as arquiteturas e tal. Depois ele segue para a Barra do Ribeira, fica em uma pousada de um morador, de um caiçara lá, ou de uma pousada de um cara de fora, mas não tem problema. A gente quer diversificar isso para que todo mundo ganhe. Então fica em uma pousada de um morador, de manhã cedo esse turista ajuda a pessoa a fazer o café da manhã, porque ele vai pilar o arroz para fazer cuscuz, vai aprender a fazer o bolo de roda, vai comer, vai aprender a fazer a tapioca. Toma o café da manhã ali caprichado. Seguimos até o Costão e fazemos uma palestra, uma fala sobre o meio ambiente, a floresta de encosta, restinga. É uma educação ambiental. Ele faz a trilha do imperador, leva até o morador, chega lá na hora do almoço, almoça na casa desse morador, uma comida típica, arroz, feijão, peixe, carne, visita ali o que ele tem de atrativo, uma roça, uma cachoeira. Na praia continua, vai até a casa de outro morador, dorme lá, janta, tem uma roda de conversa à noite, a gente conta a história da comunidade, o que aconteceu, como que era antigamente, como está sendo hoje. Tudo depende do grupo e sobre o que eles querem ouvir ou não. De manhã cedo às vezes o turista acompanha o preparo da farinha, eles acompanham todo o processo, arrancando a mandioca, raspando, ralando, e torrando a farinha. De vez em quando tem um fandango, de repente um cara tocando viola, o pessoal dançando para fazer uma apresentação da cultura e da dança. No outro dia ele vai embora, ou volta para Iguape ou pode seguir para Peruíbe e ir embora. Estamos trabalhando com muito cuidado, fazendo relatório, chamando as pessoas para participar, para ter um turismo sustentável de forma que distribua a renda para todo mundo. Estamos apenas começando. Isso é uma coisa que trará resultados para comunidade. Ainda não trouxemos um grupo escolar, estamos pensando em vender para escolas e trazer alunos para cá. Trouxemos um pessoal da Uninove, um grupo de São Paulo, e fizemos esse roteiro com eles. Eles queriam trabalhar a questão do turismo, ver a questão do turismo aqui, como funcionava. Trabalhamos com eles a questão do turismo de base comunitária que é um turismo de sustentabilidade que distribui renda com todos das comunidades. Dez anos atrás, cara, eu era assim mesmo, igual. Um pouco mais jovem, não tinha barba branca, não tinha cabelo branco, mas a luta sempre esteve presente. Sempre teve e aprendi muito, e a cada dia que passa eu aprendo mais, muito bom isso. Você vai aprendendo, vai ensinando as pessoas. É prazeroso você poder contribuir com as pessoas, aprender também é muito bom, aprender. Eu lembro que quando eu ia às reuniões eu não conseguia falar, segurava no microfone e tremia, engasgava e secava a boca. Hoje eu tenho mais facilidade, você vai treinando e vai aprendendo. Eu falo para as pessoas: ‘’Fale, fale que é importante. ’’ Porque outra pessoa vai falar por você, isso eu falo para os jovens: ‘’Olha, tem que falar, cara, tem que ir treinando isso daí porque é importante.’’ Seu Sátiro tinha facilidade em falar, ele já era treinado porque ele fazia palestras espíritas. Ele é um senhorzinho do sítio, mas estudava os evangelhos, essas coisas, livros e tal, e fazia reza. Aí falava como ninguém, um senhor de setenta e poucos anos. Ele falou na assembléia: ‘’Olha meus filhos, uma coisa boa que eu tive, na época a gente teve autorização da roça, foi autorização de roça, porque eu já não tinha a farinha para comer, e minha netinha não sabia o que era fazer roça, não sabia mais o que era farinha e agora, quando eu fiz essa roça levei ela para ver como é que se fazia roça, e o que era farinha, qual alimento que a gente traz para a mesa. Vocês que são deputados, moradores aqui da cidade, vocês têm que cuidar desse povo que esta lá no mato, é esse o povo que cuida do mato para vocês”. E sensibilizou um grupo, fizeram uma matéria com ele. Aí veio o pessoal, por acaso, da REBRAF (Rede Brasileira de Agro Florestal) que veio dar um apoio para a gente na época. Ele sensibiliza várias pessoas assim para isso, é de arrepiar a espinha. Eu já viajei para muitos lugares, Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília, Acre, Xapuri. Eu já fui para França, Alemanha, fui para o exterior. Em 2000 me convidaram para participar de uma conferência na Alemanha sobre as redes de ONGs da floresta tropical, uma coisa assim. Aí eu fui para Alemanha. Fiquei dez dias, visitei unidades de conservação. Fui para França também para ver como era criado a reserva da biosfera, como eram criados os parques nacionais e estaduais no país. Tudo para trazer experiência para cá, porque lá os caras levam dez anos para criar um parque, eles conversam com toda comunidade, tem os sindicatos, vereadores e tal, eles ficam estudando para ver se constroem aquele parque ou não. Se a comunidade achar que é interessante, eles implantam, no contrário, não implantam. Eu vi muito parque lá com o cara tirando tora para vender, fazendo manejo da planta, da floresta para vender, além da parceria dos parques com restaurantes, hotéis, isso tinha também. Fomos à UNESCO ver a questão da reserva da biosfera porque aqui tem uma reserva da biosfera da Mata Atlântica, os núcleos da reserva biosfera aqui da Mata Atlântica são as unidades de conservação, nós temos a Estação Ecológica da Juréia, tem a APA (Ambiente de Proteção Ambiental), a Estação Ecológica, cuidando da reserva da biosfera temos várias legislações, uma sobrepondo a outra, e quem que criou essas coisas? Quem que participa da criação da reserva da biosfera? É o Zé Pedro de Oliveira Costa, que foi o criador da Juréia, então esses caras, bicho, estão em todo lugar, o cara é presidente da reserva da biosfera da Mata Atlântica, é ele quem manipula todas essas questões, sem participação da comunidade. Inventou que as unidades de conservação seriam os núcleos da reserva da biosfera da Mata Atlântica, então cada vez mais, ao invés de melhorar a vida dessas comunidades, elas pioram cada vez mais, criam restrições maiores para elas. A identidade da Juréia, do iguapense, é o caiçara. É o povo que vive lá na floresta, que vive da pesca, que vive da agricultura, que vive do extrativismo, essas comunidades que eu falo. São os caiçaras que dependem desses recursos, que viveram aqui há muitos anos, há “trocentos” anos, e era uma miscigenação dos indígenas com os europeus, com os africanos e tal, que virou caiçara, que tem cultura própria, que tem linguajar próprio. O povo e as comunidades tradicionais que digo, aí incluo os caiçaras, os quilombolas, os indígenas, os faxinalenses, os fundo de pasto, quebradeiras de coco, tem várias. Se você for ver, todos esses povos que falei dependem do território para dar continuidade a sua cultura, a seus conhecimentos e à conservação da natureza. Eles não vivem sem aquele meio, se ele sair do meio ele vai virar outra coisa, ele vai virar bandido, sei lá o que ele vai virar. É a mesma coisa que você pegar o tatu e colocar no asfalto, ele não vai conseguir sobreviver porque ele tem toda uma convivência com aquele ecossistema, com aquele meio ali, com a floresta, com a época, com tudo. Eles sabem a hora de cortar uma árvore, a hora de matar uma caça, qual a fruta que tem, que tipo de fruta é aquela, se pode comer ou não pode, tem toda uma vivência. Sabem da lua, do vento, do mar. Um conhecimento que não é todo mundo que tem. O pesquisador vai lá, lógico, pesquisa, na verdade organiza as falas, o conhecimento dessas comunidades, e coloca no livro, muitas vezes esse pesquisador nem coloca lá quem foi que realmente deu os conhecimentos. Vai um botânico lá, você acha que eles conhecem todas as plantas? Não conhece, ele pode até achar pelo nome cientifico, folhagem e tal, mas ele também não vai marcar onde está, e o cara não, o caiçara não, ele vai lá e fala: ‘’Olha, esse aqui é o Guaçatonga, esse é um tipo de Guaçatonga, esse é outro tipo. Esse daqui é o Covatá vermelho. Aqui é o Guarandi.’’ Ele sabe tudo. E o que o cientifico faz? Ele só compara isso, dá o nome científico e coloca no livro, organiza bonitinho. Igual no sistema agro florestal, por acaso, deram um nome bonito, Sistema de Agro floresta, isso a comunidade já faz há muitos anos, porque vai jogando a semente do abacate no seu quintal, vai jogando a semente da jaca, vai caindo a semente da goiaba, vai jogando, ai vai nascendo, vai tendo floresta e agricultura. É agro florestal por conta disso. Aí o pesquisador passou na casa dele, viu um pé de jaca junto com um pé de goiaba, pé de guanandi, pé de guapiruvu, um pé de não sei o que, olhou, achou interessante, e montou o nome do Sistema Agro Florestal. E aí o cara vai implantar o Sistema Agro Florestal para o Brasil todo, ensinar o caiçara, o quilombola ou indígena a reproduzir o sistema. Mas o cara já faz isso! Só não tinha esse nome. Eu tenho um pouco desse conhecimento, conheço um pouco graças a Deus. Vem dos meus pais, dos meus avós, de outros companheiros e outras comunidades. Porque você convive com um, vai lá tirar um pau de canoa, o cara já vai cortar uma madeira aqui. ‘’Qual madeira é essa?’’ ‘’É tipo uma maçaranduba, ou é um guanandi.” ‘’Por que vai tirar agora? ’’ ‘’Vou tirar agora porque é lua minguante, você não pode tirar isso na lua cheia porque senão vai murchar, vai ter broca na madeira. ’’ ‘’Por que vai ter broca na madeira? ’’ ‘’Porque na lua cheia toda seiva da planta está no meio dela, ela esta cheia de água, que nem uma mulher quando esta grávida, fica cheia, quando você corta, além dela rachar porque ela esta muito cheia de seiva, ainda os bichos vão comer, que é cheiroso, solta muito cheiro, o bicho vai comer aquilo, fura tudo, por isso a broca pega. ’’ ‘’E na minguante, corta na minguante por quê? ’’ ‘’Porque não tem água nenhuma, esta sequinha a madeira, esta toda na raiz, você derruba e ela não racha, os bichos não vão comer, nem nada. Isso seja no capim, seja na taquara, seja na madeira, seja no cipó, qualquer coisa, tem que ser na minguante. ’’ ‘’E para plantar, para plantar também tem que ser na minguante? ’’ ‘’Tem planta que tem que ser na crescente, óbvio, à rama tem que ser na crescente, a banana pode ser na crescente, mas o feijão, tudo de semente tem que plantar na minguante, para não ter bicho na semente e tal”. A história que eu vivi foram essas. Dessa luta, dessa organização, agora da participação dos jovens que está muito legal. Eu me esqueci de falar, vamos criar uma coordenação interestadual das comunidades caiçaras, pegando do Paraná até o Rio de Janeiro, temos o modelo da coordenação dos Quilombos, tem mais legitimidade. Iremos criar a coordenação interestadual das comunidades caiçaras do Rio de Janeiro e Paraná, eu quero fazer isso até setembro. Faremos um encontro aqui, vamos chamar todos os caiçaras de todos os municípios do litoral e fazer um encontro com eles para criarmos a coordenação interestadual. Terá mais força política no desempenho das comunidades. É sempre legal contar um pouco da historia, não sei como funciona isso, se todo mundo vai ver, se não vai ver, como que funciona, mas eu acho que é bom você contar porque muitas pessoas não sabem o que acontece por aqui, pensam que a comunidade está lá maravilhosamente, que está todo mundo preservadinho, a Mata Atlântica, mas às vezes isso é historia que contam. “Ah, estão preservando a Mata Atlântica.” Mas às vezes isso é mentira, estão preservando uma coisa, mas destruindo a outra, e de repente nem preservando estão porque esta virando uma floresta oca por acaso. Nas unidades de conservação hoje continuam tirando palmito, o palmito que se come lá em São Paulo na pizza, no pastel, esse palmito muitas vezes é clandestino, não é um palmito feio em manejo certinho, e dando resultados para a comunidade. Pelo contrário, dá resultado para meia dúzia de pessoas que estão envolvidas nesse negócio. Então é muito bom divulgar isso, as pessoas entenderem quem são essas comunidades e como que elas vivem porque às vezes você passa pela Juréia e vê as comunidades: “Ah, os caras estão vivendo maravilhosamente, olha que lugar lindo que eles moram”. Mas nem sempre é isso, eles vivem em baixo de um conflito dia a dia que não vale a pena só o lugar, o que vale a pena é eles viverem bem. Meu pai mora em um lugar muito legal, muito gostoso de morar e tal. Um “marzão” na frente, uma cachoeira, mas ele vive acuado o tempo todo, não pode fazer isso, não pode fazer aquilo, vive pensando em uma ação civil pública. Não consegue viver, dormir bem por causa disso. Então temos que mostrar isso para o público, mostrar que nós não estamos lá para destruir o meio ambiente, estamos lá para conservar nossa cultura também, e se está conservado esse restante de Mata Atlântica que nós temos aqui no litoral é porque esses povos sabem mexer com isso, sabem cuidar dessa natureza. Acho que é isso, agradeço a oportunidade, e acho que foi muito legal.

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