Busca avançada



Criar

História

"Minha vida foi só trabalhar"

História de: Severina Maria da Cruz
Autor: Patrícia Araújo
Publicado em: 10/06/2020

Sinopse

Nasceu em Camocim de São Félix, município do estado de Pernambuco no dia 22 de Novembro de 1939. Por ter sido registrada com a data errada, não considera sua data verdadeira de nascimento e sim a do documento. Filha de Maria Batista dos Santos e José Escolástico da Silva, trabalhadores da roça. Estudou apenas o 1º ano do Ensino Fundamental e aos dez anos já trabalhava na roça para ajudar sua família. Não gostava de ir à escola e em sua infância inventava suas brincadeiras e criava seus brinquedos. Veio para São Paulo e trabalhou de empregada doméstica até se casar. Resume por si mesma que sua vida foi só trabalhar e continua até hoje muito ativa fazendo trabalhos domésticos e com uma vontade imensa de ensinar sua neta a cozinhar.

Tags

História completa

O isolamento social me permitiu e me provocou a entrevistar minha vó. Eu que nunca tinha tempo para minha família e estava sempre em busca de fazer e me dedicar em projetos para as comunidades que faço parte, percebi que o meu principal projeto é a minha família. Uma vez ouvi que “os jovens querem mudar o mundo, mas não são nem capazes de arrumar a própria cama”, e isso me fez refletir na minha postura com a minha família. Quantas vezes priorizamos de fato aqueles que estão conosco? Levou um tempo, mas hoje compreendo que eu preciso começar fazer a diferença aqui na minha casa e com a minha família, Como? Aproveitando esse tempo da melhor maneira possível ao lado deles. Conhecer e ouvir suas histórias, acredito que é um bom começo.

 

P- Vó, fala pra mim qual seu nome completo, sua data de nascimento e sua idade.

S- Severina Maria da Cruz. Data de nascimento, dezoito de março de trinta e sete. Eu vou pôr a do documento, né, filha...

 

P- E a outra qual é?

S- É vinte e dois de novembro de mil novecentos e trinta e nove.

 

P- E quantos anos você tem?

S- Oitenta e três.

*Na verdade, ela tem 81 mas sempre responde que tem 83 ou até 85.

 

P- Qual nome da sua mãe e do seu pai?

S- Maria Batista dos Santos e José Escolástico da Silva.

 

P- O que eles faziam? Qual era a profissão deles?

S- Trabalhavam na roça.

 

P- Faziam o que na roça?

S- Plantando milho, feijão, mandioca...

 

P-  Eles sabiam ler e escrever?

S- Que eu saiba, eu acho que não.

 

P- Você tem irmãos?

S- Irmão não, eu tenho irmãs.

 

P- Quantas?

S-Três.

 

P- Qual nome delas?

S- Maria de Lourdes, Maria do Socorro e Maria do Carmo.

 

P- Quem é a mais velha?

S- Sou eu.

 

P- E a mais nova?

S- A Maria de Lourdes.

 

P- Qual é a sua melhor memória de infância? O que você gostava de fazer?

S- Ah, eu sempre gostei de fazer de trabalhar. Minha vida foi só trabalhar. Certo? Para ajudar meu pai, trabalhava na roça, trabalhava no café. Chegava da roça e ia para a fonte pegar água. Duas ladeiras para subir com dois galão de água nas costas. Sabe o que é galão? Aquele pau que põe aqui e uma lata de vinte litros e outra de outro lado. Eu subia duas ladeiras com duas latas no pescoço três, quatro vezes para encher um monte de jarra (que é os potes que chama lá, chama jarra) desse tamanho para no outro dia ir trabalhar e ter água para a minha mãe fazer a comida.

 

P- Quantos anos você tinha?

S- Eu comecei a trabalhar com dez anos de idade.

 

P- E você gostava de brincar do quê quando era criança?

S- De boneca, mas como não podia comprar, eu ia pra roça quebrava as bonecas de milho, fazia as roupinhas e botava nas bonecas. Pegava uns pedacinhos de pau e botava assim para fazer os braços, né para fazer as bonecas.

 

P- E a roupinha era feita de quê?

S- De trapo, a gente achava uns paninhos, uns trapinhos, uns retalhinhos ali, pegava uma agulha e fazia um... engendava um vestidinho e colocava.

 

P- Você tinha outros brinquedos?

S- Brinquedos não.

 

P- Fora a boneca de milho, quais outros brinquedos você fazia?

S- Brincava de casinha, de fazer comidinha. Eu pegava os cocos, cortava os cocos e pegava aquelas conchinhas do coco para fazer as panelas. Pegava folha de mato, folha da roça, cortava miudinho pra dizer que era o arroz e o feijão.

 

P- Você brincava com fogo?

S- Com fogo? Às vezes, fazia coivara. Tocava fogo nos mato, limpava os mato e depois juntava e tacava fogo.

 

P- Mas quantos anos você tinha?

S- Eu tinha uns dez, doze por aí.

 

P- Quais outras brincadeiras você fazia?

S- Que eu me lembro, (risos). Dia de segunda-feira tinha feira lá, então meu pai tinha uma roça assim bem alta e eu como era muito danada, me escondia dentro da roça para fazer medo pro pessoal (risos). Quando ia passando aquela turma pelelei pelalau, falando, eu hummmmmmmm (risos), daí o povo ficava tudo olhando pra um lado, ollhando pro outro e eu lá bem quietinha. Passava o outro e eu fazia a mesma coisa (risos).

 

P- Você brincava com quem?

S- Hein? Eu brincava com as minhas irmãs.

 

P- E essa brincadeira você fazia sozinha ou com elas?

S- Sozinha.

 

P- E você gostava de brincar mais sozinha ou com elas?

S- Assim, mais ou menos né porque elas não gostava muito de brincar.

 

P- E como foi na escola?

S- Na escola eu sempre fui mal porque eu não gostava de estudar.

 

P- Por quê você não gostava?

S- Não tinha... Eu só gostava de trabalhar. Estudar eu não gostava. Eu com dez anos de idade que nem eu já falei pra você, eu ia pro...meu pai ia pra feira e eu ia pra roça. Pegava um balaio, um machado e ia pras roça. O povo cortava árvore e ficava aqueles tronco, secava e eu ia com um machado pra cortar aqueles tronco, rachar no meio com o machado e botar no balaio, botar na cabeça e trazer pra casa.Isso era quando eu achava assim, porque tinha um lá que a gente catava escondido porque ele não dava, não deixava. Eu botava na cabeça e trazia pra casa, fazia três quatro monte que era pra minha mãe fazer fogo, fazer comida né, enquanto as outras ia tudo pra feira, se arrumar, ia tudo pra feira. Eu não! Aí meu pai falava: “Vou pra feira porque quando chegar ainda vou fazer, vou arrancar mandioca pra fazer farinha”. Eu ficava, eu procurava lenha, eu arrancava mandioca, eu raspava mandioca, eu botava na casa de farinha que ficava pertinho, catava lenha, botava fogo no forno, moía a mandioca, impreensava, botava na prensa, impreensava, quando estava enxutinha, eu peneirava e botava fogo no forno, fazia a farinha. Quando meu pai chegava da feira falava: “e agora arrancar mandioca pra fazer farinha porque não tem farinha pra semana”, “Não, não precisa não”, “Por quê?”, “Ó a farinha lá”. Eu fazia um tanto assim de farinha que dava pra semana inteira.

 

P- Você falou que não gostava da escola. Quanto tempo você ficou na escola?

S- Bom, eu ficava assim...Eu ia um dia sim, um dia não. Eu tinha muito medo de quando morria gente. Quando eu sabia que morria gente aí eu não ia porque eu me escondia pra não ir. Porque as escolas lá, todo mundo que morria tinha que ajuntar as escolas pra ir tudinho pro enterro. E eu não ia. Eu tinha medo, não gostava. Sempre eu fazia isso, certo?

 

P- Você tem memória da sua professora?

S- Hum hum (balançando a cabeça que não). Minha professora não lembro não quem era.

 

P- Quantos anos você frequentou a escola?

S- Ah sim , uns dois anos. Depois eu não fui mais. Só ia procurar serviço pra trabalhar. Tinha os sítios de café e os donos arrumava as pessoas pra limpar o mato né por dentro do café. Então fazia empeleitada. Empeleitada era pegar assim, um tanto ali pra levar até mais ou menos no final da rua lá em cima e tinha os tanto pra ganhar. Eu, para ganhar mais do que os outros, eu pegava um e quando tava na metade quem pegou junto comigo não tava nem na metade ainda. Eu chegava em cima, terminava, voltava, pegava outro e lascava brasa pra ganhar mais dinheiro.

 

P- O que você fazia com o dinheiro?

S- Dava pro meu pai, pra ir pra feira pra compra as coisas pra gente comer.

 

P- Você não ficava com nada?

S- (Balançou a cabeça que não) E eu gostava também de comprar, de chegar na segunda-feira às vezes quando eu ia pra feira, comprar camarão seco, comprar pão pra comer o camarão com o pão. Era isso minha distração.

 

P- E de novo sobre a escola, foi lá que você aprendeu a ler e escrever?

S- Foi. A escrever e a ler. Escrever mais ou menos né, porque eu não sabia escrever.

 

P- E você já leu algum livro inteiro?

S- Li esses seus aqui. Porque no tempo que eu estudava não era livro, era cartilha. E quando tinha ditado eu errava tudo porque o ditado era a professora ditando pra gente escrever e eu não escrevia bulhufas nehuma, porque eu não sabia, então nunca tirava nem um, quem dirá...Aí quando era cópia eu tirava mais ou menos uns numerozinhos lá porque era cópia e eu ia copiando aquilo que eu sabia, que eu entendesse, eu copiava né. O que eu não entendesse eu deixava pra trás.

 

P- Você se arrepende de ter saído da escola?

S- Não muito.

 

P- Por quê?

S- Porque eu não gostava.

 

P- Você acha que perdeu oportunidades porque você não sabia ler ou escrever?

S- Pode ter sido né. Mas meu forte mesmo era trabalhar. Trabalhar na enxada, botava a enxada nas costas e ó (estalou os dedos). Apanhava café, para pegar café, media por lata. Quando o café tava bem bom, eu fazia cinco, seis latas por dia. Quando não fazia duas, três né.

 

P- Você já escreveu alguma carta, lista de compras?

S- Não. (risos)

 

P- Tem alguma coisa que você ainda gostaria de aprender?

S- No momento não.

 

P- O que mais gosta de fazer?

S- Eu gosto de fazer tudo. Tudo o que eu faço, eu faço com amor.

 

P- Você faz e já fez um monte de coisa. Você ajudou a construir essa casa, trabalhou na roça, sabe cozinhar,mas o que mais você gostaria de aprender?

S- Eu gostaria de aprender assim, quando eu fazer alguma comida assim que eu visse na televisão, que eu conseguisse fazer.

 

P- Fora aprender receitas na TV, o que mais você gostaria de aprender? Tem mais alguma coisa?

S- Hum Hum (balançando a cabeça negativamente).

 

P- Além de trabalhar na roça, você trabalhou mais do quê?

S- Eu trabalhei aqui em São Paulo de empregada doméstica quando eu vim do Norte. E a primeira vez que eu cheguei aqui em São Paulo quando eu fui trabalhar a minha patroa me botou na cozinha pra cozinhar. Reparo só, eu nunca tinha feito um arroz porque lá não comia arroz. Primeiro dia, eu queimei o feijão, queimei o arroz, fiquei com medo de falar pra ela e ela falou “não, amanhã você já vai melhorando”.

 

P- Quantos anos você tinha?

S- Na época eu não lembro não. Quando eu vim do norte , ah eu tinha... Eu casei com vinte e dois anos então quando eu vim do norte eu vim no final de (silêncio), de cinquenta e sete pra cinquenta e oito que eu vim do norte. Aí eu fui aprendendo, aprendendo e aprendi a cozinhar.

 

P- Aprendeu sozinha?

S- Aprendi sozinha né.

 

P- O que você sabe muito bem que poderia ensinar pra alguém? Tem alguma coisa que você acha que você pode ensinar? Para mim, o que você me ensinaria?

S- Eu te ensinaria (risos) a cozinhar, fazer bolo certo? Fazer comida que você não sabe, eu te ensinaria. Só o que eu sei (risos).

 

P- O que você achou de dar essa entrevista?

S- Legal né, fazer o que? (risos). Apesar que eu não sei falar, não sei me expressar né.

 

P- Vó, obrigada pela entrevista, adorei conhecer um pouquinho da sua história e espero que tenha sido bom pra você. Eu queria saber se você tem noção da sua importância na minha vida?

S- Se eu tenho noção da minha importância na sua vida?

 

P- Você sabe que você é muito importante pra mim? Você sabe disso?

S- Sei e você também é pra mim, certo? Te amo, te amo, te amo. (risos)

 

São Paulo, 28 de Maio de 2020.

Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+