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História

Minha vida é uma manifestação de eterno recomeço

História de: Ana Kariny Gurgel
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/10/2012

Sinopse

A atriz Ana Kariny é quem faz o papel de Beth no seriado Suburbia. Em seu depoimento ela narra desde o tempo que vivia com a família na vila militar, até a descoberta de um "mundo cor de rosa", envolvido numa atmosfera de arte e cinema.

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História completa

Toda a minha família por parte de mãe é de Fortaleza e a família do meu pai do Rio de Janeiro. Meu pai era piloto, pernoitou em Fortaleza, arrumou uma namorada de 16 anos, casou e eu nasci. Pelo lado materno, era uma família de uma aristocracia tradicional em Fortaleza. Eram donos de banco e meus bisavôs não deixavam os filhos se relacionarem. Tinha que ser no mínimo primo, algum grau de parentesco. Eu brinco que a família tem um pouco de parafuso a menos por causa disso. A minha avó se revoltou, casou às quatro horas da manhã, fugindo com o meu avô. Por parte de pai eu venho de uma família de militares.

E eu cresci dessa mistura, com um lado nordestino picante, de pessoas espontâneas, com outra família muito fechada e mais repressora. Minha mãe fez uma ameaça se eles não casassem... Meu pai falou: “Eu não vou”; ela: “Então eu vou estudar na Suíça”. Já com passagem comprada e ele: “Então eu vou casar”. Casaram, moraram em Fortaleza, Natal; depois a gente foi pro Paraguai; voltei pro Brasil e fui morar na Base Aérea em Santa Cruz. Nasci com esse clima de clube, protegida. Morei também na base de Marechal Hermes. Eu me achava a pessoa mais rica do mundo. Eu morava na vila e achava que tudo era meu, aquela coisa imensa. Vivia num mar de rosas. Aí fui pra Brasília, em 87, e lá já foi a época de conhecer um pouco de Legião Urbana. Mudava toda hora de colégio. E eu sempre gostei de ser a primeira da turma, de fazer tudo certinho. Estudava, estudava, queria sempre saber o porquê do porquê.

Tinha uma angústia de querer saber das coisas. Minhas amigas todas beijando e eu falei: “Não quero crescer; eu quero ser criança!” Eu só gostava de amor platônico. Fiquei quatro anos em Brasília e vim pro Rio, pra Ilha do Governador. Lá já foi o meu primeiro namoro de verdade. Começou a minha vida a mudar, o mundo cor de rosa. Foi um namoro bem conturbado. Depois comecei a estudar pro vestibular e tive Síndrome do Pânico. Acho que eu saí da vila militar e comecei a ter contato com a vida civil, uma coisa menos protetora. Fiquei bem doente. Sensação de morte iminente. Enquanto as minhas amigas estavam bebendo, eu tava tomando antidepressivo. Eu comecei a entender que as coisas não estavam tanto no meu controle, que a vida tem um curso que ela te impõe. E comecei a ficar muito mais humana.

Eu fui chamada pra vida artística com 18 anos. Fui acompanhar uma amiga minha na festinha de uma agência de modelo, e quando cheguei lá já fui convidada pra ser modelo. Eu desconfiei. Eu era raquítica, mas na hora me aceitaram. Isso ajudou muito no meu processo de autoestima. Eu comecei a me soltar. Aí eu fui chamada pra fazer Teatro. Fiz, estreei, deu certo, eu falei: “vou estudar que eu não gosto de nada mal feito”. Comecei a faculdade de Teatro e tranquei a de Publicidade.

Fui fazer um curso de Cinema. Quando eu cheguei lá eram atores famosos, quis sair correndo. Mas fiquei. Cara de pau, sem saber técnica nenhuma. Fiquei apaixonada pelo ser humano! Fiz teatro na Universidade, fiz o curso de Cinema e falei: “Não quero mais Publicidade, vou fazer Jornalismo porque vou puxar várias matérias”. Foi legal porque eu queria escrever. Fiz Jornalismo, mas nunca foi o meu amor. Trabalhei como repórter, depois como assessora na Secretária de Transportes do Governo. Eu me sentia muito atuando como assessora de Imprensa. Mas eu tinha um emprego fixo e vi que não era o tudo. Falei: É isso que vai parar de fazer com que eu corra atrás. E ser humano precisa estar sempre correndo. E eu não tava feliz e pensei: “Ah, eu preciso da Arte, urgentemente”.

Eu e as minhas amigas, a gente montou uma Companhia de Teatro, “Palavra de Mulher”. Saiu o nosso patrocínio e a gente quer fazer um mix de Poesia, alguns textos ligados ao universo feminino, falar sobre a mulher contemporânea. No “Suburbia” eu vou fazer a Beth. É uma mulher de fibra, vaidosa, prendada, apaixonada pela família dela, pelo marido, morre de ciúmes dele, insegura. Por mais que viva na comunidade ela não tem aquele pandeiro. Ela samba, mas não tem aquele gingado. Ela quer segurar o homem dela, ser a loira da vida dele. Mas é uma mulher muito forte e de muito coração. Ela se dedica a quem ela ama.

Eu vi a Beth como uma mistura de Iemanjá, Iansã. Ela tem um Sol incrível. E eu também fico louca se acontecesse alguma coisa com a minha família, irmã, meus pais, eu defendo. Nossa Senhora! Quantas vezes eu já briguei com marido de amiga minha. Minhas amigas falam que a minha casa é um SOS. Defendo, eu defendo. Eu gosto de fazer amizade, eu gosto de conhecer a vida das pessoas, eu gosto de ter contato com gente. Para as pessoas que acham que a vida já tá ali. Mentira! Minha vida é uma manifestação de eterno recomeço, sempre.

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