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História

Minha vida é um mar de atividades

História de: Romiildo Montes da Silva
Autor: Raquel
Publicado em: 08/06/2021

Sinopse

Nascimento em 1967. Infância em Escada. Filho de trabalhadores e irmão de outros 4 filhos do casal. Início da vida profissional como vendedor de picolé para ajudar a família. Outras atividades. Paixão pela cultura e dança popular. Trabalho como professor e coordenador do Instituto Icric. Casamento, 3 filhos e uma vida dedicada à causa da infância e da adolescência.

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História completa

Realização Instituto Museu da Pessoa Projeto Instituto Camargo Correa Entrevista de Romiildo Montes da Silva Entrevistado por Fernanda Prado Ipojuca, 05 de maio de 2011 Código: CC_HV030 Transcrito por Paula Leal Revisado por Nayara Marfim P – Romildo, eu queria pedir pra você falar pra gente o seu nome completo, a data do seu nascimento e o lugar onde você nasceu. R – Meu nome é Romildo Montes da Silva, nasci em Escada, sou natural de lá, e a data de nascimento é dia 26 de junho de 1967. P – Tá certo, e qual o nome dos seus pais? R – O nome do meu pai é Severino Montes da Silva e da minha mãe é Maria Luciana da Silva. P – E qual é a atividade deles, o que eles fazem? R – Meu pai trabalhou em questão de uma firma multinacional, a Fleischmann Royal, com um bom tempo ele também serviu ao Exército, pouco tempo na juventude, e minha mãe trabalhou na questão de uma fábrica têxtil que também era na cidade de Escada, intitulada Pirapama, e hoje em dia ela é doméstica e aposentada. P – Certo. E você tem irmãos? R – Eu tenho 4 irmãos, 5 comigo. A Rosilda, Reinaldo, Rosângela e Rosélia. P – Todos com R? R – Todos com R. P – E você está em que parte dessa escadinha? R – Eu sou o terceiro. P – E como é que era a sua casa em Escada, da sua infância, como era esse lugar? R – A minha casa em Escada é uma casa, assim, que eu chamo casa de alegria, os nossos pais, assim, apesar de ser meu, mas deu uma educação muito boa para comigo e meus irmãos. Nossa casa é uma casa humilde, certo, a gente tinha uma casa de taipa, depois passou a ser uma casa de alvenaria, e nós morávamos na beira do rio. P – E tinha problemas com esse rio por conta de chuva, essas coisas? R – A questão de enchente, geralmente em todo inverno a gente tinha que mudar, um período de um mês, passar na casa das minhas avós e voltava assim que a enchente baixava. P – E no período que a casa era de taipa isso causava muito problema? R – Ah, transtornos porque caía as paredes da cozinha, tinha que erguer realmente, aí devido a essa problemática mesmo foi que meu pai fez um esforço para fazer logo de alvenaria, mas mesmo assim das enchentes não sanou esse problema, entendeu, porque tinha essa problemática do rio encher e a gente voltar novamente. Até hoje, até hoje. P – Entendi. E Romildo, o que você fazia quando você era pequeno, vocês brincavam, você e seus quatro irmãos? R – Na época os nossos quatro irmãos a gente brincava muito, né, agora nós sempre brincamos em um ambiente mais fechado porque meu pai foi educado naquele regime militar então isso predominou um pouco na nossa educação. Então a gente tinha pouca conversação com os vizinhos, era mais uma coisa familiar, era com primo, era sempre de família a brincadeira. P – E do que vocês brincavam? R – Ah, isso era peão, pipa, naquela época a gente chamava de soltar papagaio, de amarelinha que não era amarelinha, na época a gente chamava de academia, né, que eu acho interessante, e a gente brincava muito de roda, brincadeira de roda, de esconde-esconde, e era muito prazeroso. P – E você se lembra da sua escola, da sua primeira escola? R – Lembro. P – O que você lembra dela? R – A minha escola era uma escola simples, que só tinha duas salas de aula, que é um período da turma da manhã que hoje em dia a gente fala de multiseriado, na época não se chamava dessa forma, e a gente tinha, a minha primeira professora se chamava Mara, e a gente sempre chamava ela pelo nome, Dona Mara, que foi uma pessoa muito boa, fascinante. E assim, para a educação de hoje eu percebo que a educação tem mudado um pouco, né, a questão principalmente do respeito da criança com a professora. P – O que mudou? R – O que mudou, eu não sei se os pais perderam a noção de educação e de limite dentro da sua própria casa com seus filhos e isso hoje em dia o que eu percebo é que está passando para a escola. P – E Romildo, me conta uma coisa, como é que era essa escola? Você ia na classe multiseriada com seus irmãos mais velhos e mais novos? A escola ficava longe da sua casa? R – Não, a escola ficava bem próxima, a gente não passava três minutos para chegar na escola. Frequentava eu e meus dois irmãos, só tinha dois irmãos nessa época, e tinha os coleguinhas, entendeu, que também trabalhava a alfabetização, depois primeira série, tudo ali junto, e era prazeroso, a gente tinha prazer de ir à escola. P – O que tinha na escola que dava esse prazer? R – Era toda a atenção da professora, o carinho que ela passava pra gente, a segurança, esse link de a gente estar expandindo um pouco da nossa família também para a sala de aula. P – E você estudou em Escada até que série? R – Eu me formei em Escada. P – É? Nessa mesma escola? R – Isso. Eu concluí lá e depois a minha primeira e segunda série a gente foi para um colégio maior, que era um colégio da fábrica, que a gente chamava colégio da fábrica, que é a Escola (Zenóbio?) Lins. E de lá depois passei para uma escola no Ensino Fundamental. Ensino Médio eu passei para uma escola municipal que chamava Escola Barão de Suassuna e fiz minha faculdade também lá, na (Fajoca?), onde estou licenciado na graduação de Letras. P – E Romildo, como é que foi essa sua fase de crescer, o seu período de adolescência em Escada, suas atividades mudaram, começou a trabalhar? R – Olha, eu comecei a trabalhar logo cedo, né, que nessa época tanto meu pai, minha mãe, né, a gente passou um período que meu pai perdeu o emprego e a gente também tinha que auxiliar um pouco em casa. Aí então eu comecei a vender picolé para ajudar na questão de custo dentro de casa, pegar frete, né, pegar frete na época era na questão de você transportar feira de outras pessoas. Nisso, no decorrer do tempo, eu consegui um emprego na Pirapama, onde meu irmão também trabalhava. A Pirapama é uma indústria têxtil e a gente fazia tecidos, então daí foi quando começou toda a minha jornada de trabalho em Escada. Depois passei a trabalhar em um escritório da Usina Barão de Suassuna, né, no Engenho _________________. O proprietário era o Doutor Ricardo, que hoje já é falecido, e depois com o decorrer comecei a estudar mais e comecei a vir trabalhar na parte artística, né, em um do povoamento aqui de Ipojuca, com Dona Elza. Foi quando eu comecei a visitar Porto de Galinhas, quando bem não conhecia, e lá eu sempre trabalhei com danças populares, né, toda dança cultura é popular que nós temos como Caboclinho, bumba meu boi, o frevo que é bem de Pernambuco, e foi nessa junção com Dona Elza e com Dona Marines Neves, que trabalho até hoje com ela, estou há cinco anos com ela, foi quando ela me descobriu lá e trouxe para dentro da organização da sua instituição, onde comecei a trabalhar também como professor de dança popular. E durante cinco anos ai eu passei como professor de dança popular, depois ensinei um pouco de teatro, depois do teatro também comecei um pouquinho de arte circense e na arte circense, vendo todo esse movimento cultural dentro da própria instituição e o link que estava dando, ela fez uma proposta para ser adjunto da coordenação, apoiar a coordenação. Então a coordenação em 2009 não pode concluir, teve que se ausentar porque teve proposta de emprego, então foi quando ela me convidou para fazer parte da coordenação. P – Peraí que você foi muito rápido, pulou um monte de coisa, vamos voltar um pouquinho. Eu queria entender melhor essa sua fase quando você era menino, de vender picolés, você tinha mais ou menos quantos anos? R – Ah, eu já tinha uns 12 anos. P – E aí você continuava estudando e fazia isso? R – Estudando e fazendo essa atividade. P – Então Romildo, você estava dizendo das suas atividades logo, os primeiros serviços para ajudar em casa, né, e aí você entrou na fábrica de tecido. Qual era sua atividade lá, o que você fazia? R – Minha atividade na fábrica de tecido na época a profissão era baterista, era ajudante do tecelão, era onde a gente pegava toda a fiação para colocar em uma bobina para essa bobina passar dentro da máquina para fazer o tecido, então esse período eu tinha aproximadamente entre 12 a 15 anos eu trabalhei nessa fábrica. P – E o que você fazia com o dinheiro? R – O dinheiro eu entregava todo à minha mãe. P – Todinho? R – Aí esse dinheiro ela revertia para alimentação e vestimenta. P – Certo. E você contou super rápido, durante o seu período de trabalho você ainda estudava, né? R – Estudava, nunca deixei o estudo, nunca deixei. P – Tá certo, e como é que você decidiu fazer o curso de Letras? R – Na verdade eu achava que não tinha condições nenhuma de entrar em uma faculdade. Devido ao apoio que eu tive de um amigo, que se chama Claudemir, ele insistiu muito em fazer, eu levei mais pela brincadeira, esportivo, né, aí depois a gente passou essa parte toda aí terminei passando no vestibular e tomei gosto pela questão, entendeu? E assim, me realizou em muitos ângulos, certo, porque hoje em dia quando as pessoas veem que você tem o nível superior as pessoas veem você com outro olho, outro olhar, você se sente um pouco mais valorizado. E quando você não tem essa parte de curso superior as pessoas acham que você é mais alguém na vida, entendeu? A gente vê por esse ângulo. P – E você terminou os estudos e logo em seguida fez a faculdade? R – Não, eu passei sete anos para poder iniciar a faculdade depois que eu terminei meu ensino médio, né, que eu me formei em administração, depois eu fiz contabilidade, e para poder chegar à faculdade eu passei sete anos. Aí fui trabalhar, fazer algumas economias para poder dizer assim: “Hoje eu posso entrar em uma faculdade.” P – E aí o ensino médio você fez o ensino técnico? R – Foi, ensino técnico. P – E aí você mudou de trabalho da fábrica, então, para? R – Aí eu comecei a trabalhar no escritório do Engenho da Usina Barão de Suassuna. P – E como é que era esse trabalho, de contador? R – Eu trabalhava juntamente com o pessoal do RH, né, a Relação dos Recursos Humanos, folha de pagamento, essa questão toda, pagamento dos funcionários, que são pessoas da área rural, cortadores de cana, administradores, Cabo. P – E como é que era esse trabalho, você tinha que ir lá pro Engenho todo dia? Era longe? R – Todos os dias, era longe. P – Como é que você fazia para ir? R – Eu pegava uma condução, né? Perto da minha casa eu pegava uma condução e próximo ao trabalho a gente ia a pé, e caminhava um pouco, ainda muito, porque do Engenho não tinha, a não ser quando passava aqueles caminhões pau de arara que a gente pegava a carona para poder chegar. P – E como é que era pegar esses caminhões? R – Ah, isso era pura sorte, viu, dependendo do horário, como a gente tinha que estar no trabalho às 7 da manhã a gente chegava na entrada do Engenho 6 e meia, aproximadamente, e a gente ia andando caminhando... Se passasse uma carona a gente pegava. Também, se não, a gente ia chegar lá em ponto, às sete da manhã. P – Certo. E como é que foi o período de faculdade, como é que você aproveitou esse curso? Você ainda conciliava trabalhar e estudar? R – Eu sempre trabalhei, né, nunca parei, sempre trabalhei e estudei. Para fazer esse curso a conciliação foi a seguinte, eu já estava trabalhando aqui com Dona Marines, no Icric [Instituto Casa da Criança e Cidadania], aqui no Projeto Icric. E eu ia, saía daqui 5 horas da tarde pra chegar no máximo entre 7 e meia, 8 horas da noite na faculdade, e voltava no outro dia 4 horas da manhã para estar aqui às 7 e meia da manhã. P – Ah, então antes disso conta para a gente como é que você mudou do trabalho lá no Engenho para vir para cá, como é que você veio parar aqui? R – Ah, do Engenho surgiu a oportunidade, né, de a gente, no Cabo houve, assim, uma intenção enorme do Projeto pro CUCA [Centro Universitário de Cultura e Arte] e estava precisando de professores que trabalhassem dentro da área cultural. Como eu tinha, eu tenho até hoje essa habilidade de danças populares, então a gente, eu entrei nessa seleção, né, e passei nessa seleção. Aí no entanto a parte financeira do curso era bem elevado então eu terminei deixando a questão do trabalho, da Pirapama, para ingressar nessa área artística, e foi muito prazeroso. Aí comecei a trabalhar, aprender também outras áreas artísticas dentro desse meu projeto para o CUCA na cidade do Cabo, Cabo de Santo Agostinho. P – E como é que você começou, como foi seu primeiro contato com a dança, como foi que você começou a se envolver nessa área, tomar gosto? R – Meu primeiro contato com a dança, eu sempre gostei de dançar, desde pequeno. Aí assim, eu sempre queria fazer curso direcionado para dança, só que na época existia certos tabus, como até hoje, porque homem não dança, dança é para mulher que rebola, entendeu? Então eu passei muito período castrado, meus pais castraram essa parte. Então quando uma professora, a Isabel Meira, começou a entrar na escola industrial, eu já tinha saído dessa escola, que foi a escola que eu me formei em curso técnico em administração, e ela chegou dois anos após, e nesses dois anos, assim, eu conversei, que eu também tinha quadrilhas juninas que a gente fazia, foi quando ela me viu. Então ela se apresentou, ela também tinha um grupo de dança, então eu fiz a proposta também de inserir no grupo dela, aí ela abriu as portas e comecei a inserir, né, dentro do grupo e, assim, me senti muito realizado nessa condição. Então a base toda de minha dança popular é com a professora Isabel Meira, certo, que também teve uma colaboração de Simone Lira, que também era outra professora de educação física na época, aí foi quando me deu toda a base de estrutura de danças folclóricas de Pernambuco. P – E vocês faziam apresentações na época do Bumba meu Boi? R – Fazia. P – Como é que é fazer essas apresentações? R – Essa apresentação, na verdade, era você formar todo um trabalho, certo, técnico, dentro de coreografia, tem os períodos de discussões, figurino, para elevar o público, e isso era muito prazeroso na época. A gente ia, fazia apresentações dentro do município, nas datas festivas, nas datas comemorativas, as datas festivas das escolas também, o grupo era muito solicitado. O nome do grupo na época era Leão do Norte, era muito bom. P – E você lembra de alguma apresentação especial que ficou guardada, assim? R – Apresentação especial já foi aqui, quando eu comecei a trabalhar com as crianças daqui, né, com Dona Marines do Instituto Icric. Icric significa Instituto Casa da Criança e Cidadania. Foi quando eu fiz minha primeira coreografia com as crianças daqui, são crianças de oito a, na época tinha até crianças de 16 anos, adolescentes de 16 anos. Foi quando a gente fez a apresentação do frevo, né, teve a apresentação do Coco, do Xaxado lá em Ceará. A gente teve um convite para ir para o Ceará e a gente fez uma apresentação lá, dentro de uma faculdade do Ceará, e ali foi muito gratificante porque eu vi a atenção, a alegria nos rostos dos meninos, das crianças, aquilo é muito bom, sabe, aquela coisa prazerosa que você diz assim: “Poxa, é muito bom você passar uma necessidade de atribuições que você termina detectando na própria criança, o que estava guardado, é dela, e isso foi despertado”. Então isso deu um prazer muito grande. P – E como é que foi para você que estava acostumado com vários tipos de trabalhos diferentes? Como foi seu primeiro trabalho com criança logo que você passou nesse projeto do CUCA, o que você sentiu? R – Esse meu primeiro contato com criança no projeto pro CUCA me deu medo de início porque eu nunca trabalhei direcionado à criança, eu sempre trabalhei com pessoas adultas e em uma coisa muito só, solitária, né, você fazia o seu trabalho, terminou o seu horário e ia embora. Quando você passa a trabalhar com criança, e principalmente na área artística, você só não trabalha o corpo a corpo, você trabalha também a mente, você trabalha a afetividade, toda essa parte cognitiva da criança. E isso despertou porque você começa a ser um ser que você está trabalhando com outro sujeito, então você tem que começar também a entender a criança, porque a criança está chorando, porque a criança não quer dançar, porque não quer participar. Isso então você tem que fazer toda essa parte elaborativa de um processo para que a criança também possa chegar dentro do seu conteúdo. Então foi esse, na verdade foi esse corpo a corpo, entendeu, que eu acho que em canto nenhum você encontra fora da educação. P – Só com as crianças? R – Só com as crianças. P – E o que você faz com aquelas crianças que não querem participar, como é que você age para enturmar? R – Olha, para enturmar é o seguinte, eu peço o seguinte: “Ó tio, não quero participar hoje.” “Tá com algum problema?” “Não, não tô a fim e tal.” “Então senta aqui e observa os coleguinhas a fazer a coreografia. Se você quiser também participar não se preocupa não, você começa a participar.” Então ela começa a observar o trabalho que está sendo feito com as outras crianças e inserindo a tua atividade ela se identifica com algo ali, certo, nessa identificação aí você tem que ter olho clínico. Na verdade você nas aulas é sempre estar observando a criança que está perto de você, então tem certo momento que ela começa a bater as mãozinhas, ela começa a rir, ela começa a mexer o pé, entendeu? Começa a se mexer, então aquilo você tem que pegar, esse momento legal da criança que tem que buscar para o grande grupo, para a grande roda, esse link, esse despertar que você tem que ter. P – Certo, porque também cada um tem o seu tempo. R – Tem seu tempo, isso aí. P – E Romildo, como é que é você passar do professor a começar trabalhar mais diretamente com esse Instituto, e como é que você foi sentindo a evolução das suas atividades, com mais atribuições? R – A evolução das minhas atividades foi justamente eu creio devido a essa atenção, né, especial, esse foco direcionado à criança e adolescente. Então os meninos começaram a ter um grande respeito pela minha pessoa e também uma questão de dizer assim: “Poxa, esse é o cara.” Os adolescentes dizem assim: “Esse aqui é o cara, se identifica conosco, fala a nossa mesma língua e tal.” Então a gente começa a passar a ser um espelho, tanto para a criança quanto para o adulto e, assim, foi um flashback, foi uma linha de mão dupla, porque tinha muitas coisas que também eu me organizei, tanto pessoal como profissional, devido a esse espelho que a criança também estava me vendo e também, assim, esse link de atribuições que ele perpassa, a criança perpassa. Então foi nesse sentido que eu achei que as coisas iam engrenar através da educação, eu disse assim: “Não, eu acho que meu caminho é a educação.” E comecei a entender que até hoje, assim, tanto na parte de professores, graças a Deus eu tenho boas afinidades com eles, e principalmente eu me identifico muito com os meninos. P – E como é que foi, o que você sentiu quando você foi trabalhar mais na parte de coordenação, que deixou de ter o contato mais direto, como é que isso funciona? R – Ah, isso aí, parece que a gente cortou o cordão umbilical, como se diz, né, mas assim, a parte geral, assim, é mais prazeroso porque eu dou uma atenção ainda maior, entendeu, não só aquela turma que era direcionada à mim mas em um olhar como um todo. Chego na sala de aula, ainda brinco, peço licença à professora para brincar, isso me satisfaz um pouco: “Posso contar uma historinha hoje para as crianças?” “Pode.” Recepcionar legal, entendeu, e essa parte ainda de danças folclóricas ainda continuo dentro do projeto. P – E conta para a gente, como é que foi que estabeleceu a parceria do espaço, da escola com o Instituto Camargo Correa? R – Na verdade a história da Dona Marines é uma história muito complexa, certo, e muito bonita, que até, assim, eu me espelho muito na questão de persistência. Uma palavra que determina a Dona Marines é a persistência, ela sempre colocou, ela iniciou com uma creche em Nossa Senhora do ___________, que trabalhava com criança dentro dessa própria comunidade. Sempre trabalhou voltado com essa comunidade e a gente vê o link e foi crescendo, ela sempre buscando parceria com a Prefeitura, mas sempre a Prefeitura não tinha, é, como é que se diz, essa parceria firmada, não tinha toda a elaboração do projeto e a gente, e ela percebendo, sempre nessa insistência, e eu acho que foi na dádiva de Deus que ela tanto orar, que ela é muito católica, de tanto rezar foi quando a gente conheceu o Instituto Camargo Correa que fez um convite, através pela Prefeitura, onde ela foi à primeira reunião, onde fez toda a elaboração, a apresentação do Instituto Camargo Correa para esse novo projeto de elaboração de projetos. Então daí em diante só colhemos frutos, pelo Instituto Camargo Correa, devido as formações, certo, as capacitações, e assim, a cada formação que a gente tem proposto tanto para nossa Instituição e outras instituições a gente, assim, está adorando trabalhar com o Instituto. P – E você participou de algum processo desse de capacitação e formação? R – Já, já. P – E como é que foi, o que você sentiu, qual foi o seu aproveitamento? R – Oh, essa formação nos deixa muito mais apropriado, certo, das funções que você vai delegar dentro da própria, da tua própria instituição. Então ela deixa a gente muito bem a vontade, principalmente na elaboração de projeto, não é, ela dá um link de uma sustentabilidade, de como você fazer o seu projeto, certo, ela dá todos os passos, toda a coordenação, não é, a questão agora, a gente teve a última formação agora, agora é para detectar a questão do boletim, né, o boletim informativo. Quer dizer, ele dá todos os caminhos adequados e você só tem a ganhar com isso, quer dizer, a sua aquisição de conhecimentos fica muito mais ampla essa relação. P – E por que é importante ter cursos de formação e capacitação? R – Olha, porque a gente é como se diz, a gente, nós somos eterno aprendizes, a gente, o ser humano nunca está pronto para tudo. Eu tenho a habilidade em uma certa área, você tem habilidade em certa área e o Instituto Camargo Correa está fazendo a junção de detectar diversas áreas, para te enriquecer na questão do seu conhecimento para que você possa dar um passo mais adiante, juntamente com toda a proposta, com todo o objetivo que a gente tem dentro da nossa instituição e dentro da Instituição do Camargo Correa. P – E quais foram os outros passos feitos? Teve a formação e capacitação, que é um processo, mas o que mais que aconteceu nessa parceria? R – O que aconteceu também foi o seguinte, dessa parceria nós já estávamos iniciando, fazendo a construção desse espaço, teve um probleminha financeiro que a gente chegou até um determinado ponto e não pôde mais sair dali. A gente estava morando em casa alugada, né, em aluguel, e a gente teve que parar nossa atividade para atender, aí a demanda como era muito grande e as empresas estavam chegando e o proprietário começou a pedir a nossa casa, então a gente perdeu a creche que também era locada, aí começamos a colocar a creche dentro do espaço do projeto Icric e a gente foi sufocando. Aí foi quando ela teve a idéia de fazer essa outra casa, parou um pouquinho, né, parou um pouquinho e a gente viu a possibilidade, aí foi quando Alexandre esteve aqui, do Instituto, Francine também nos visitou. Então teve Francine, teve Alexandre e teve o Artur que também faz parte da Camargo Correa. Foi quando teve o projeto do Solidário, né, do voluntariado, solidário não, do voluntariado, aí foi quando teve essa parceria que ele trouxe material, aí começou a fazer toda essa parte organizacional do nosso Instituto que para gente eu acho que foi o anjo do céu que caiu na terra, na verdade é isso aí. P – E o que esse trabalho de voluntariado trouxe, teve alguma mudança na creche? R – Ah, teve sim. O voluntariado apesar de tudo, assim, trouxe amizades, entendeu, se fortificou muito mais a questão dos pais também em um novo olhar para dentro da própria instituição, certo, hoje em dia é pouco ainda essa questão do voluntariado mas hoje em dia a gente já consegue, depois dessa ação da Camargo com o voluntariado. P – Quem é que vem de voluntariado? R – São alguns pais da própria criança que é inserida dentro do processo. P – E o que foi feito? R – Ah, o que foi feito, o que está para ser feito, né? O que foi feito é o seguinte, como pintura, certo, como se diz, um fogão quebra e tem alguém que conserta, certo, alguma cadeira quebra e alguém conserta, certo, e o que está para ser feito é o nosso jardim, o nosso cantinho, como o cantinho de areia que já tem pai que se prontificou. A questão do jardim que assim que tiver um espaço legal o pai também vai fazer, entendeu? Aí essa associação da parte de cima também alguns pais já abriram mão de fazer a pintura, colaborar, certo, então isso foi que o Instituto juntamente do projeto do voluntariado deixou de muito rico para a comunidade. P – E Romildo, conta pra gente, esse processo, esse trabalho voluntário acontece em alguns mutirões, né, como é que foi o mutirão, como é que foi esse dia, o que você sentiu, qual foi a sua participação nele? R – Olha, o mutirão é sempre inovador, sempre a gente inova alguma parceria, principalmente o dia de sábado, né, que foram poucas vezes que vieram, mas é muito prazeroso porque aí você começa a ver as pessoas como amigos e não apenas como funcionários de uma empresa e outra. A gente faz um mutirão em forma de amizade, isso pra mim foi um grande processo, sabe, de solidariedade na verdade. Aí chama Fulana de tal que é cozinheira, chama a outra que faz a faxina legal, a outra que pode também pintar, a outra que pode varrer, a outra que pode lavar, quer dizer, isso eu achei um link legal, a gente superou as expectativas. P – E o que você fez nesse mutirão? R – Ah, nesse mutirão eu fui Bombril na verdade, multiuso, né? Eu lavava, eu pegava comida, eu servia, faltava água ia buscar água... Assim, a gente na verdade faz um todo, né, ninguém só faz uma coisa só, a gente sempre delega duas, três atividades nesse mutirão. P – E qual o benefício que esse mutirão trouxe para a creche? O que melhorou nela, o que as crianças falam? R – Pra mim o mutirão, o maior ganho que a gente fez com o mutirão foi da presença dos pais dentro da escola porque isso estava um pouco esquecido. O pai entregava a criança e ia embora. Hoje em dia não, ele quer ter mais um tempo, hoje em dia ele já dá uma idéia: “Oh, vamos fazer isso aqui diferenciado?” Eu faço uma proposta, tem pai que é músico: “A gente vai fazer a festividade do dia das mães e eu posso vir tocar.” Entendeu? Então essa parceria, essa questão de solidariedade junto à instituição fluiu, coisa que não tinha, veio a partir desse projeto do voluntariado. P – E em relação a essa parceria tem mais algum projeto, alguma atividade em andamento? R – Olha, como eu digo a você, dentro desse projeto tem o Icric, que a gente comporta criança que é financiado pelo (Fundega?), né, Fundo Municipal da Criança e Adolescente, que também é municipal. Vem pelo Prefeito e a gente, assim, está feliz, né, a demanda de alunos aumentou muito, a gente iniciou o projeto com quarenta crianças e depois passamos para sessenta, em final de 2010 para 2011 nós fechamos com noventa crianças para atender nessa fase. Aí nessa a gente tem aulas de reforço de português e matemática, temos aulas de capoeira, tínhamos aula de informática, que a gente hoje não tem mais devido a computadores que foi ultrapassado e não tem mais essa questão. Tinha dança, dança folclórica, e tem a questão do acompanhamento, este ano, acompanhamento psicológico. P – E Romildo, deixa eu entender, como é que funciona a creche e o Icric, eles funcionam ao mesmo tempo, um ajuda o outro? R – Ele funciona assim: A parte da creche nós temos a parte do térreo e o Projeto Icric que agora está em andamento está no primeiro andar. Então são várias atividades em um único prédio, mas em horários distintos, certo? P – A criança então que fica na creche ela pode fazer as atividades em outro turno no Icric? R – É, a parte cultural e recreativa ela tem essa participação, também, pelo Icric. Aí ela tem essa parceria, porque a gente também trabalha dentro da criança a parte da coordenação motora, a motricidade da criança, a recreação, o brincar, o pegar, isso é interessante. P – Então aí as duas instituições trabalham juntas, em parceria? R – É, em parceria. P – Tá certo. E quais são suas perspectivas em relação ao projeto, o que você acha que precisa melhorar? R – Olha, o que precisa melhorar para o projeto iniciar, né, iniciar não, dar continuidade, é justamente a participação de todos. Juntar a Instituição, o professor, as (A.D.I.s?), que são as monitoras, e a comunidade para que dêem as mãos para o todo. Porque a gente fazendo a nossa parte e a própria comunidade fazendo a dela, eu acho que a perspectiva de crescimento, de solidariedade e persistência, começa a se fortalecer e isso não é só um ganho para a instituição e sim para a comunidade em geral. P – E o que você como coordenador pode fazer para ajudar isso, para incentivar tudo? R – O que eu posso fazer é justamente fazer uma visitação às famílias, mostrar também um pouco do nosso projeto, porque a grande dificuldade nossa, porque todos os pais aqui trabalham na questão de autônomo, na praia, então a gente quando faz reuniões de pais e mestres, a tendência é ter pouquíssima presença. Então a minha contribuição que está sendo feita quando eu vejo que as coisas estão correndo adequadamente, é que eu marco um horário com essa família, eu vou à família, visito, e ela começa a ter uma participação maior, um conhecimento maior dentro da instituição onde a criança dela está inserida no processo, então eu acho que está sendo um ganho muito bom. P – Romildo, quais são as suas expectativas em relação a continuidade do projeto em parceria com a Camargo Correa? R – Olha, eu tenho uma expectativa muito grande, porque o Instituto Camargo Correa deixa muito aberto, certo, as nossas decisões, as nossas lamentações também, os nossos desejos, e eu vejo uma perspectiva para um futuro brilhante, mesmo que essa parceria não continue, porque todo processo tem um término. Mas o que ela vai deixar dentro de Ipojuca são instituições solidárias, uma questão social definida. P – Certo, e qual é o seu sonho em relação ao seu trabalho? R – Ah, o meu sonho? Pessoal ou dentro da instituição? P – Primeiro um e depois o outro. R – Os dois estão junto [RISOS]. Dentro, o meu sonho hoje em dia eu quero prestar meu mestrado dentro da área da infância e do adolescente, porque só assim eu posso dar uma contribuição muito maior para a nossa instituição e para a nossa comunidade e vejo, assim, que esse sonho dentro da instituição possa crescer juntamente à comunidade porque apesar de tudo nós vivemos em uma comunidade que é ociosa de tudo, entendeu, principalmente da parte turística, né, da parte recreativa, de lazer, de educação. Então fica muito essa questão de ociosidade. E o que eu vejo para essas crianças é que possa ter um determinado momento que ela possa realmente dizer assim: “Poxa, hoje eu sou um cidadão.” Construir dessa criança um cidadão, eu ver ele e dizer assim: “Poxa, eu agora estou construindo um novo tempo, um novo mundo.” P – E Romildo, você veio morar aqui na comunidade? R – Vim morar aqui. P – Como é que foi para você essa mudança, quais são as dificuldades de se morar aqui na comunidade? R – A minha dificuldade de morar aqui foi justamente financeira. Dona Marines quando me convidou para ser professor daqui e quando começou eu ia e vinha, eu trabalhava uma vez por semana aqui, depois eu passei a trabalhar a semana por inteiro e ela me cedeu espaço na própria instituição. Eu comia, eu dormia na própria instituição e só ia no final de semana para casa. E vendo o grau de necessidade e a gente foi atendendo as lacunas então para hoje, né, aí constituí família também aqui. Eu sou divorciado, aí passei a conhecer a pessoa que eu moro até hoje, né, o nome dela é Cícera, ela também já tinha, era divorciada, e a gente arrumamos nossos trapinhos e estamos vivendo até hoje. Temos casa própria, graças a Deus. Ela já tinha casa, aí nós estamos reformando a casa para a gente viver em um ambiente mais agradável. P – Tá certo, e você tem filhos? R – Do primeiro casamento eu tenho três filhos, Richard, Ronald e Robert. P – Também tudo com R? R – Tudo com R. [RISOS] P – Algum motivo por ser R? R – Não, eu acho que foi continuidade dos meus pais, só isso. P – Certo. E como é que foi para você que trabalha com crianças ter filhos, ser pai? R – Ah, ser pai para mim foi uma realização, né? Não estava dentro da minha demanda, mas assim, meu primeiro filho mudou toda a estrutura, né, e para mim foi uma realização como ser humano, entendeu/ Aí foi daí, devido essa necessidade que a gente começa a olhar as outras crianças de forma diferenciada, entendeu? Para mim foi uma realização. P – E quais são as suas atividades hoje, como é que é o seu cotidiano de trabalho, como é que são divididas as suas tarefas? R – Ah, minhas tarefas é o seguinte, é um mar de atividades. Eu venho para a instituição às seis e quarenta, sete horas a gente começa a receber a crechinha, sete e meia nós temos o pré um e o pré dois, as nove e meia nós temos o lanche. Tem que delegar a questão de lanche, além de receber pais, que graças a Deus devido essa parceria junto com a Prefeitura e Camargo Correa, a procura duplicou. E a gente tenta sempre atender a comunidade e já temos uma lista de espera, que a gente está com, como se diz, assim, a questão futura para ter mais uma sala para creche, para também atender as mães que também trabalham em determinada localidade que não tem onde deixar seu filho. Então a gente está com essa expectativa de poder ampliar essa sala e a gente, assim, está torcendo por isso, né? P – E como é que é o seu dia a dia, você ajuda na atividade com os professores, a cuidar das crianças? São crianças de quanto tempo até quanto tempo? R – A creche, o período de creche é integral, a gente recebe a criança às sete, ela toma o banho entre dez, almoça entre onze e meia e meio dia. Aí depois disso aí tem uma atividade de relaxamento, tem a sonequinha dela, ela retorna depois da soneca, duas e meia, três horas, é hora também de trocar a criança, dar banho na criança para receber os seus pais. Aí nisso a gente tem aula de canto, uma hora a gente canta, a gente brinca, brinca de roda, academia, serra de bola, eu também estou lá, na hora que eu posso eu dou uma passadinha, eu dou uma fugidinha e estou inserido nesse processo. E do pré um e pré dois eu tenho também a necessidade de estar junto da atividade, participando do desenho, do rabiscar da criança, da leitura, da contação de história. Quando tem atividade mais de dança a gente está ali presente, né, o festivo junino aí já estou mais próximo porque aí estou fazendo o xaxado, a quadrilha, aí é uma área que a gente, que eu estou mais presente. P – Tá certo, e como é que ficam distribuídas as turmas, as crianças são de zero a seis anos na creche? R – A gente fez um patamar para este ano, quando estava iniciando e, assim, e adequação também de espaço, nós estamos adequando criança de um ano e seis meses a três anos, por adequação de espaço, e do pré um e pré dois nós temos criança de quatro anos, de três já passa para o pré um, e de quatro anos de pré dois, até cinco anos. P – Certo. E aí essas crianças ficam tempo integral, e aí quem é que vai... R – Creche é tempo integral, aí o pré um e pré dois ele chega as sete, larga as onze e a tarde tem um segundo momento de duas e meia às quatro. P – Daí são dois períodos diferentes? R – São dois períodos diferentes. P – E aí a criança pode participar do instituto? R – Do Icric, pode. P – Certo. E quais são, para você, as coisas mais importantes hoje? R – Hoje as coisas mais importantes que eu delego para nossas crianças e para os nossos pais principalmente, os pais tem que começar a ter um pouco de limite para a criança, porque a gente sempre recebe crianças sem limite algum, então a gente sempre está em reunião com os pais para dar um pouco de limite para essa criança, e, assim, e o que eu espero dele é essa parceria, esse acordo entre instituto e família. P – Certo. E quais são seus sonhos pessoais agora? Você deu uma comentada de quais são os seus sonhos para o trabalho. R – Ah, meu sonho pessoal é o seguinte, é terminar meu mestrado dentro desse processo de criança e adolescente, certo, para eu poder contribuir dentro da minha comunidade e dentro da nossa própria instituição para que a gente possa criar cidadãos pensando crítico para o futuro. P – E como é que foi para você sentar e contar um pouco da sua história para a gente? R – Não é nada fácil a gente falar da gente mesmo, né? Não é nada fácil, mas assim, é gratificante. A disponibilidade que vocês deixam a gente... O ambiente, e a gente [RISOS] e deixa a gente muito a vontade e feliz, foi legal. P – Ah, que bom. Romildo, obrigada. R – Obrigada você.
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