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História

Minha vida é Petrobras

História de: Artur de Oliveira
Autor: Sophia Donadelli
Publicado em: 13/06/2021

Sinopse

Sinopse: Artur de Oliveira. Formado em química. Começou a trabalhar na Petrobras em novembro de 1983. Nos vários anos de empresa, subiu muito na hierarquia da empresa, e ficou conhecido pelas ideias que teve. Acredita na importância de pensar no meio ambiente ao trabalhar com a refinaria de petróleo. Para ele, a Petrobras não é uma empresa, são pessoas com os mesmos objetivos.

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História completa

Projeto Memória Petrobras 

Realização Museu da Pessoa

Entrevista de Artur de Oliveira

Entrevistado por Eliana Santos

Local: Rio, 8 de março de 2005

Entrevista: EDIHB número 06

Transcrito por: Écio Gonçalves da Rocha

 Revisado por: Sâmmya Dias

 


P – Boa tarde. 


R – Oi, boa tarde. 


P – Eu queria começar pedindo que o senhor nos fale o nome completo, local e data de nascimento. 


R – O meu nome é Artur de Oliveira. Eu nasci em Jacareí, estado de São Paulo, em 20 de julho de 1957. 


P – Sr. Artur, conta pra gente quando e como foi o seu ingresso na Petrobras. 


R – O meu ingresso na Petrobras se deu em 1983, em novembro de 1983. Eu fui admitido em 1 de novembro. Prestei o concurso no primeiro semestre do ano. Fiz o curso de Formação de Operadores, na época. Foi a primeira turma que a gente chamou de bolsista, que faziam o curso com uma ajuda de custo, até que houvesse a possibilidade da admissão, que se deu em novembro. 


P – E aí o senhor foi trabalhar. Conta pra gente os locais que o senhor trabalhou. Quais os setores que o senhor passou? Como que era a sua atividade?


R – Então, aí eu comecei a trabalhar, nessa época então, como operador da área de destilação. O setor da refinaria chamava-se SEDIU [Permissão de Materiais], que era a sigla usada então pro setor de destilação. Era subordinada à divisão de operação, a antiga DIOP [Divisão de Operações].. Então, comecei como operador. 


P – Isso em qual refinaria?


R – A Refinaria Henrique Lage, a Revap em São José dos Campos. E então comecei como operador. A carreira era Operador Estagiário. Você permanecia nessa função com esse nome de Operador Estagiário por um ano. E depois a carreira era Operador 1, Operador 2 e Operador 3, que hoje o Operador 3 equivale ao Supervisor. Depois da função Operador 3 vem Técnico de Operação. Então, minha trajetória foi mais ou menos assim. Em 1987 eu fui promovido a Operador 2. Em 1992 eu fui promovido a Operador 3. Tudo isso em turno de revezamento, sempre na área de destilação. Em 1992 a gente sofreu na refinaria, nós fizemos na refinaria lá em São José uma reorganização, baseada no DO [Desenvolvimento Organizacional].E um dos frutos do DO é a otimização da operação das áreas. Então, a área de destilação, a Gerência de Destilação se juntou à Gerência de Hidrotratamento. Então, o que era antes duas gerências passou a ser uma só. Então, nessa época eu era Operador 3. Então, a partir daí, o setor passou a mudar de nome, passou a se chamar SEDHID [Setor de Destilação e Hidrotratamento]. Hoje a gente chama simplesmente de DH, D de Destilação e H de Hidrotratamento. Em 1995 eu saí do turno de revezamento para ocupar o cargo de Técnico de Operação. A refinaria de São José, na minha área de destilação, foi uma das primeiras. Eu acredito que a primeira foi a Reduc [Refinaria Duque de Caxias] aqui em Duque de Caxias. A saída de painéis analógicos pra painéis digitais, eu participei ativamente dessa transformação, desse salto tecnológico que a refinaria estava dando. Então, em 1995 assumi a função, o cargo de Técnico de Operação. Em 2000, quando a Petrobras criou a chamada Carreira Y, você chega num ponto da sua carreira e você continua no técnico ou pro gerencial. Então, como só tinha o gerencial, então muitas pessoas com potencial, com talento, ficavam represadas em seus anseios. Ficavam assim,não havia uma via, um caminho, para que essas pessoas continuassem fazendo carreira na empresa. Então, ela criou a Carreira Y. Numa das pernas do Y continua o gerencial, na outra, área de consultoria técnica. Então, em 2000 eu fui nomeado Consultor Técnico desta área em que eu trabalho. Foi a primeira turma de consultores, eu sou da primeira turma de consultores. E, em 2003, final de 2002, a gerência me convidou pra trocar de perna, pra passar da perna técnica para perna gerencial. Então, assumi a gerência dessa área de destilação e hidrotratamento. Nesse meio tempo, a minha formação técnica é em química, eu sou Técnico Químico. Nesse meio tempo eu me graduei em Administração de Empresas, fiz especialização em Gestão de Negócio. Estou criando coragem para iniciar o mestrado agora, porque não é fácil fazer um mestrado. Então, estou me planejando para fazer um mestrado. 


P – Em qual área?


R – Na área de Gestão de Pessoas. A minha tese vai ser em relação à disciplina operacional, porque na nossa área o erro pode, muitas vezes, ter conseqüências muito graves. Muitas vezes o erro se dá por a gente não ter o que se chama de disciplina operacional, que assim, de uma forma bem simplória, bem superficial, eu costumo dizer que na nossa área a gente tem que fazer certo todas as vezes. Então, a tese vai ser baseada nisso, como conseguir esse comprometimento de ter a chamada disciplina operacional através da participação no como fazer. E então é isso. Esse ano que passou, de 2004, eu assumi a Gerência de Transferência e Estocagem, já faz parte do que a gente chama de Grupo 1 da refinaria, cúpula da refinaria, ocupando temporariamente essa vaga. E agora estou de volta na função de Destilação e Tratamento. 


P – Deixa eu perguntar uma coisa pro senhor. O senhor pode contar pra gente um pouquinho como que se dá o seu trabalho, principalmente na área de Interação, pra gente que não entende, como que se dá essa questão de destilação?


R – De hidrotratamento. 


P – De hidrotratamento. Como que é isso? Pra gente só deixar registrado. 


R – A refinaria de São José, acho que fica mais fácil até pra eu falar pensando só na refinaria porque, embora elas sejam parecidas, elas não são iguais. Então, algumas refinarias têm, como a minha, um produto muito importante, que é o querosene de aviação. Outras têm lubrificante. Então eu vou me ater à refinaria de São José. Então, a refinaria de São José tem uma grande destilação de combustíveis. Que existe destilação para que você obtenha os produtos pra fazer lubrificantes e outra para combustíveis. A minha é uma refinaria de destilação de combustíveis. Ela é uma refinaria grande. Ela processa 250 mil barris de petróleo por dia. É um número bastante significativo. Se você considerar que o país consome, acho que em torno de um milhão e 700 , um milhão e 800 mil barris por dia, desse consumo todo 250 mil a gente processa lá. Como uma unidade, é a maior destilação da Petrobras. A refinaria de Paulínia processa mais petróleo que a Revap, mas são duas unidades de destilação. A refinaria de Paulínia processa o equivalente a 58 mil metros cúbicos  por dia, e a nossa é de 40 mil metros cúbicos por dia, os 250 mil barris. Só que a gente faz isso apenas em uma unidade de destilação. Então, uma unidade de destilação, as refinarias da Petrobras, a Revap inclusive, elas foram se adaptando ao longo do tempo  para o petróleo brasileiro, a maior parte deles vindo da Bacia de Campos. Então, a gente recebe esse petróleo via Terminal de São Sebastião. Vem por navio das plataformas da bacia até São Sebastião, que é 150 quilômetros de São José dos Campos, onde a refinaria está localizada. Sobe a serra num oleoduto de 34 polegadas. E lá a gente recebe esse petróleo numa área de tancagem, que chamada de TE essa área de tancagem e transferência e estocagem, onde a gente armazena e movimenta os nossos produtos. Desses tanques ela vai para a unidade de destilação. Na unidade de destilação o petróleo passa por processos essencialmente físicos, não há transformação química do petróleo. Você retira do petróleo os combustíveis que a natureza colocou lá. Então o petróleo tem em sua natureza um pouco de GLP, nafta, que é matéria prima da indústria petroquímica. Ele tem querosene, que pode ser denominação, mas na nossa refinaria nós somos grandes produtores de querosene de aviação. Tem óleo diesel. Então, uma unidade de destilação tem alguns processos, processos chave. Um deles é o de dessalgação, que o petróleo, seja de qual origem for, ele contém sais. Esses sais não podem participar do processo de refino, do processo de destilação, porque senão eles causam um processo de corrosão nos equipamentos. Então a gente tem um processo chave de dessalgação, um processo chave de aquecimento do petróleo e um processo chave que inclui as torres de destilação, em que a gente separa do petróleo esses combustíveis que eu falei, o GLP [Gás Liquefeito de Petróleo], a nafta, o querosene, o óleo diesel. Então, o dia-a-dia numa área dessa de destilação de petróleo, o dia-a-dia de um operador, ele passa por operar fornos. Então a gente trabalha, como eu disse, aquecer o petróleo é um processo chave. Então, a operação de fornos, que são os equipamentos nos quais a gente aquece o petróleo, é uma das rotinas diárias do operador. O acendimento, o apagamento de queimadores, o ajuste do forno, pro forno ter uma eficiência boa. Porque essa questão, numa unidade de destilação usa-se muita energia. Costumo brincar  com o pessoal lá, é como se você trabalhasse numa indústria de cerveja e, pra cada três garrafas de cerveja que você fabrica, necessariamente você tem que tomar a metade da terceira. Porque você não consegue fazer, porque a gente quer gerar, nós somos uma empresa de energia, mas pra isso também a gente usa muita energia. Então, um dos grandes custos do refino de petróleo é o custo da energia. Então, o dia-a-dia de um operador, de um supervisor, de um gerente  da área de destilação, passa também por ter uma grande eficiência na operação desses equipamentos, pra você ter um consumo de energia que não onere muito os custos da companhia. Como a gente trabalha com muito líquido, e transporta líquido de um equipamento para o outro, a gente usa muita bomba. Então, as operações, é do dia-a-dia do operador cuidar dessas bombas, operar essas bombas. Porque são equipamentos também que, quando faltam, a gente não tem continuidade operacional. Então, o dia-a-dia de um operador é mais ou menos assim. Ele tem que operar fornos, ele tem que operar bombas. Hoje, a gente está assim dando um grande salto tecnológico na Petrobras como um todo, e as refinarias também. 


P – Até é isso que eu queria perguntar pro senhor. O senhor até mencionou essa questão de estar se adequando às necessidades dos óleos vindos da Bacia de Campos. 


R – Isso. 


P – Conta pra gente um pouquinho como que foi que as refinarias começaram a se adequar pra esse óleo. Quais as especificidades desse óleo? 


R – Então, A Revap é uma refinaria projetada para o petróleo importado, na sua origem. É um projeto da década de 1970. Ela entrou em operação em 1980. Aliás, ela faz 25 anos de operação agora dia 24 de março. Dia 24 de março fazem 25 anos que a gente iniciou, a gente não, que eu tenho 21 anos de  empresa. E todo aquele projeto foi feito para petróleo importado, principalmente petróleo árabe leve, árabe pesado, os petróleos iraquianos, o chamado Karkoski Basra. Então hoje a gente ouve muito falar em Karkoski Basra por causa de toda a crise daquela região. Mas o projeto da refinaria é pra esse tipo de petróleo, que são petróleos que a natureza fez com que tivessem, na composição deles, grande quantidade de derivados nobres. Derivados nobres são querosene, óleo diesel, que são mais claros, mais nobres, mais caros. E são petróleos com teor de enxofre mais alto. Daí a refinaria ter nascido com essa área de hidrotratamento também, para remover enxofre de óleo diesel, enxofre de querosene, porque o petróleo importado tem bastante enxofre. Então, nasceu assim. Só que eles são tão, é o que a gente chama de petróleo mais leve. 


P – A Bacia de Campos possui petróleo mais leve?


R – Não. Então, o quê que ocorre? Quando a Petrobras começou a aumentar cada vez mais a produção de óleo aqui no Brasil, e com a descoberta da Bacia de Campos, de óleo na Bacia de Campos, o óleo era um óleo  mais pesado. 


P – Em comparação ao importado?


R – Isso, em comparação àquele óleo para o qual a refinaria foi projetada. Então, ele é um óleo mais pesado. Ele tem menos enxofre, mas esse menos enxofre não dispensa essa unidade de hidrotratamento. Ela continua extremamente necessária, especialmente hoje com as especificações de enxofre muito restritivas. A gente começou esse ano a produzir o que a gente chamava até um tempo atrás de diesel futuro. O futuro chegou, que é um diesel cujas especificações, entre elas de enxofre, é um diesel assim ecologicamente menos agressivo à natureza. Então, esse óleo  da Bacia de Campos é um óleo então mais pesado. Quer dizer que ele tem, em sua composição, menos óleo diesel, menos querosene e mais produtos escuros e pesados, produtos que são usados como óleo combustível, como asfalto. E ele tem uma característica também bastante significativa, que é o que a gente chama de acidez naftênica. 


P – O quê que é isso?


R – O quê que é acidez naftênica? Então, o óleo da Bacia de Campos possui, em sua composição, compostos químicos orgânicos chamados ácidos naftênicos. São compostos que, quando estão no processo, eles provocam, eles levam a uma corrosão bastante grande de equipamento, da tubulação. É lógico que se o equipamento e a tubulação não estiverem adaptados para suportar a presença desses ácidos. Então, na década de 1980, a refinaria, o projeto dela era pra 30 mil metros cúbicos por dia, o projeto original. E pra petróleo importado, leve, e sem acidez naftênica. Então, como o melhor óleo, pra nós brasileiros, o melhor petróleo do mundo é o petróleo brasileiro, porque é produzido aqui. Ele custa reais, ele não custa dólar. Ele está aqui. Era de grande importância, não só para Petrobras mas também pro país todo, pra economia do país, que nós processássemos esse óleo. Só que não era possível processá-lo, no início da década de 1980, com os equipamentos então existentes, com os metais. Porque aquela, como não havia essa acidez no petróleo de projeto, o material que você põe, o tipo de aço que você põe, é um tipo de aço menos resistente, porque não foi feito pra isso. Então, aí ao longo da década de 1980, a gente passou a fazer testes na unidade indo dosando um pouco de óleo brasileiro. O que começou a chegar pra gente primeiro foi o petróleo Cabiúnas, que já tem um índice de acidez bem maior que o petróleo importado. Mas a gente só podia processar um pouquinho desse petróleo brasileiro, desse petróleo Cabiúnas, misturado com o petróleo importado, que na mistura final você tinha uma quantidade de ácidos que não era, que não colocava em risco, que não era agressiva aos equipamentos. Mas esse não era o objetivo. O objetivo era você ter uma refinaria em que você pudesse processar todo o óleo nacional. Então, assim foi. Durante a década de 80 a gente contratou professores, doutores em corrosão, pra gente estudar os efeitos desse óleo na refinaria. Daí surgiu um projeto na refinaria em que a gente adaptou. A gente descobriu em quais locais da unidade de destilação, em quais equipamentos, em quais tubulações esse ácido era mais agressivo, onde ele causava mais estragos. E, em maio de 1988, a gente fez a primeira grande adaptação da unidade de destilação da Revap pra começar a tratar, aumentar, pra gente poder aumentar a participação do óleo nacional lá no refino em São José dos Campos. Mas mesmo aquela adaptação de 1988 acabou que ficou obsoleta porque a gente descobriu outros óleos. Aí começou a surgir muito mais forte o petróleo Marlim, com acidez maior ainda do que aquela em que a gente, pra que a gente tinha preparado a unidade em 1988. Mais ou menos assim. Você tem vários tipos de aço. Então, à medida que você vai colocando ligas nobres no aço, mais resistente ele vai ficando à corrosão, é o chamado aço inox. Então, tem vários. Tem aço P305, que são especificações do aço. Então, a gente adaptou a unidade, vários pontos dela, colocando aço 305 ou 309, dependendo do ponto. Isso em 1988. Agora, à medida que se foi ficando cada vez mais forte a presença do Marlim, do petróleo Marlim, em novembro de 2002. Não, peraí, teve uma parada antes de 2002. Deixa eu ver se eu me lembro a data corretamente. 1993 teve uma, 1997 teve outra, que a gente fez adaptações em outros pequenos pedaços da refinaria, falando sempre da unidade de destilação. Isso permitiu que a gente aumentasse a participação mais ainda do petróleo Marlim. 


P – Vocês não recebem só o óleo da Bacia de Campos?


R – Não, recebo 90% em média. Muitos dias hoje trabalho com 100% porque, o quê que aconteceu? Essas modificações que a gente foi fazendo permitiram que a gente aumentasse a participação. Mas o objetivo era que eu tivesse uma unidade em que eu pudesse processar só o óleo brasileiro, só o petróleo Marlim. Isso a gente fez em 2002. Em 2002 a gente fez uma última adaptação em cima daqueles números que eu falei de aço 305, 309. Então, a gente colocou aço 316. Nesses pontos em que o ácido é mais agressivo a gente colocou esse aço de liga mais nobre. Então hoje a gente consegue processar sem nenhum risco, nem pros equipamentos, nem pras pessoas, 100% de petróleo Marlim. E aí já está vindo uma nova turma de petróleo com acidez...


P – E então o Marlim é o que tem mais?


R – É o que tem mais, e a unidade está preparada para 100% de Marlim. Mas a gente já está preparando a parada de 2008 pra fazer uma adaptação em outras partes da unidade que com Marlim não eram afetadas, mas que vão ser afetadas por essa turma nova de petróleo que foi descoberto pelo pessoal do EP. Então, o petróleo Jubarte. Pra gente ter uma noção a gente mede esse ácido com uma análise chamada IAT, Índice de Acidez Total. 


P – Isso seria pesado, no caso?


R – Não, é ácido. Eu estou falando em acidez.


P – Em acidez. 


R – Só em acidez por enquanto. Então, esse índice de acidez total do petróleo, ao longo da história da refinaria, ele vem crescendo. Então, hoje a gente tem um nível de acidez pouco maior que um. Esses novos que já estão sendo descobertos e produzidos, alguns deles já, a gente fala em índice de acidez três. Você praticamente dobra ou triplica a quantidade de ácido, esse danado desse ácido naftênico, nos novos petróleos. Então, em 2008, nós estamos nos preparando para adaptar novamente a unidade pra esse óleo. Porque sempre vale a pena, por questão de custo, por questão de logística e por questão, assim, do país todo, por questão até da auto-suficiência. A auto-suficiência em petróleo sempre vale a pena. Eu estou falando sempre em acidez, eu não falei ainda da parte pesada ainda. 


P – Só pra eu entender, porque às vezes a gente confunde esse óleo pesado...


R – Com óleo ácido. 


P – Com óleo mais ácido. 


R – É, o nosso é mais ácido e mais pesado. Então, toda essa adaptação que eu citei, ao longo do tempo, ela se deu pela acidez. Mas a gente teve que fazer também adaptações para processar esse petróleo também pelo fato dele ser mais pesado. Como eu disse, no petróleo de projeto, no petróleo do projeto original, ele era um petróleo mais leve, petróleo em que a natureza colocou mais óleo diesel, mais querosene, mais nafta. No nosso, a natureza colocou menos óleo diesel, menos querosene, menos nafta. Então, a unidade que era preparada para produzir, bombear, armazenar uma determinada quantidade de produtos mais pesados, que são os produtos escuros, óleo combustível, asfalto, ela também teve que ser adaptada para produzir, bombear, armazenar mais produto porque isso faz com que, o óleo brasileiro faz com que a gente produza mais produtos pesados. Então, todas essas adaptações que a gente fez, a gente fez não só pela questão da acidez do petróleo da Bacia de Campos, mas também pela produção maior de óleos, de derivados mais pesados, na faixa do asfalto e dos óleos combustíveis. 


P – Deixa eu perguntar uma coisa pra senhor. O senhor saberia me dizer quais são as refinarias que recebem esses óleos da Bacia de Campos?


R – Olha, com certeza Cubatão recebe, a RPBC [Refinaria Presidente Bernardes] recebe. Com certeza a refinaria de Paulínia, a Replan, recebe. Com certeza a Repar está tratando esse óleo já. Todas as refinarias, até a Relan, que é uma refinaria que trabalha basicamente com o petróleo baiano, voltada para lubrificante, também está preparada e também está processando o petróleo Marlim. 


P – O quê que o senhor destaca assim, que o senhor contou pra mim alguns avanços tecnológicos, mas o que o senhor destacaria, que foi necessário, para estar adaptando essas refinarias pra esse óleo brasileiro, pra esse óleo da Bacia de Campos?


R – Ah, eu destaco sempre, nessa história toda, nessa revolução toda, a inteligência da Petrobras, o capital intelectual da Petrobras. Tomando ainda como exemplo a refinaria de São José, ela é um projeto de uma projetista italiana chamada Islam Project [Empresa de proteção ao petróleo]. Então, naquela época, nós não projetávamos as nossas próprias unidades. Então, a gente tem um centro de pesquisa fantástico, pessoas fantásticas que aprenderam, desenvolveram tecnologias. Por exemplo, além dessa adaptação de material na unidade de destilação material por causa do ácido, além da adaptação para melhorar bombeio, armazenamento de produtos mais pesados, a gente começa a ter problema. Porque, se você simplesmente faz essa adaptação para produzir mais produto pesado, o mercado não quer mais produto pesado. O mercado também quer, principalmente no Brasil, quer mais diesel. E na minha região de São José o mercado quer muito querosene de aviação porque a gente abastece o Aeroporto de Cumbica, que é o maior aeroporto da América Latina. Então, a gente não podia se conformar em só produzir mais. Porque eu estou processando um óleo mais pesado eu não tenho outra alternativa a não ser produzir uma quantidade maior de produtos mais pesados. Então a gente, lá na refinaria, construiu uma unidade chamada desasfaltação, uma unidade de desasfaltação a solvente, que é uma unidade que pega esse óleo mais pesado que foi produzido lá na unidade de destilação e que seria, todo ele, só óleo pesado  para ser queimado como óleo combustível ou usado como asfalto, e tira desse óleo pesado metade dele ainda como um óleo mais leve, que passa por um outro processo e se transforma em gasolina, em GLP. Então, o que eu destaco nessa evolução toda, aquela coisa da necessidade. Esse é o óleo que eu tenho, esse é o país que eu tenho, essa é a economia que eu tenho. Então, eu tenho que processar esse óleo. O país precisa que eu processe esse óleo, mas o país não precisa que eu processe esse óleo da forma mais simples. O país precisa que eu processe esse óleo de modo a que a Petrobras tenha uma rentabilidade boa, de modo que a Petrobras não fique só auto-suficiente na importação de petróleo, mas também na importação de derivados por que, à medida em que eu troco o óleo mais leve por óleo mais pesado, começa a faltar óleo diesel, querosene, nafta. Então, o país tem que importar. Então nós na Petrobras somos muito capazes de transformar boa parte desse óleo pesado em óleo leve de novo. 


P – Deixa eu perguntar uma coisa pro senhor. O óleo da Bacia de Campos difere do resto do país ou não? 


R – Olha...


P – O tipo de óleo de lá é diferente do que já foi encontrado em terra?


R – Sim, sim. O petróleo, basicamente, ele é carbono e hidrogênio. O resto é impureza. Então, o combustível é carbono e hidrogênio. Então, quando a gente fala petróleo naftênico, acidez naftênica, em química orgânica a gente está falando em compostos químicos orgânicos formados por carbono, e carbono que são em cadeias fechadas. Eles se ligam entre si até formar um ciclo fechado de carbono. Então, esse é um petróleo, isso é uma coisa bastante simplória, bastante grosseira que eu estou falando só pra tentar ser...


P – Só pra gente entender. 


R – ... um pouquinho mais claro, um pouquinho mais didático, vamos dizer assim. Então, esse é o petróleo naftênico. Mas, por exemplo, o petróleo lá do Nordeste, o petróleo do Rio Grande do Norte, o petróleo baiano, mesmo o petróleo Albacora, eles são o que a gente chama de parafínico. Da parafina mesmo, da vela. Qual a diferença de um naftênico e de um parafínico? O do naftênico os carbonos se juntam, formando uma cadeia fechada. Esse carbono se liga com esse, que se liga com esse, e acaba se ligando com o  primeiro. E o naftênico são cadeias retas. O primeiro se liga com o segundo, com o terceiro, mas é sempre reto. Então, esses são chamados petróleos parafínicos. Tem acidez baixa, são bons pra lubrificantes. Então, difere sim. 


P – Você poderia chamá-los de mais leve, não? 


R – Mais leves, são bastante mais leves. 


P – Os parafínicos?


R – Os parafínicos. Só que a gente, a natureza colocou muito mais petróleo naftênico aqui no nosso país, lá na bacia, do que petróleo parafínico em terra. Então, a gente depende muito da Bacia de Campos. A gente tem que adaptar as refinarias pra esse naftênico mais pesado, mais ácido, por causa da quantidade existente, por causa das reservas, por causa da produção que a gente tem offshore. Porque em terra a gente tem um petróleo muito bom, mas a quantidade não é suficiente. 


P – O senhor tinha mencionado que, pra chegar a esse óleo da Bacia de Campos ele passa por onde pra chegar até a refinaria? Qual o caminho que ele...


R – Navio, né? Por petroleiros. Vai até o terminal de São Sebastião, lá perto de São José dos Campos, lá no litoral norte, em São Paulo, aquela região de Ubatuba, Caraguatatuba, São Sebastião. Então tem o terminal da Petrobras em São Sebastião, e de lá ele é bombeado, sobe a serra, sobe ali aquela região da Rodovia dos Tamoios e dali ele vai tanto para São José dos Campos, para refinaria, pra Revap, refinaria de São José, quanto para Replan, a refinaria de Paulínia lá pertinho de Campinas, lá na Grande Campinas. 


P – Deixa eu perguntar uma coisa. Em relação à questão ambiental, o quê que o senhor acha que mudou com essa descoberta da Bacia de Campos? Quais foram as exigências maiores em relação a essa preocupação com o meio ambiente, essa coisa toda? 


R – Olha, eu acho que a preocupação ambiental existe independente da origem do óleo. Por exemplo, uma das preocupações, dos problemas da queima de combustíveis, por exemplo, gasolina, óleo diesel, é a presença de enxofre. E o enxofre, esse eu vou ter a maior quantidade em petróleos importados, às vezes. O que ocorre é que, graças a Deus, a gente adotou leis. O Brasil tem adotado leis ambientais bastante restritivas. Quando eu ingressei na Petrobras, em 1983, o óleo diesel por exemplo, podia ter 1,5% de enxofre. 1,5% do óleo diesel que a gente produzia podia ser enxofre. Então, todo esse enxofre vai se transformar, no final da história, na chamada chuva ácida. Ele vai formar gases de enxofre, SO², SO³. Em contato com  a água da atmosfera vai virar ácido sulfúrico, que é a chuva ácida. Então a Revap, nós tivemos a felicidade dela ter nascido com uma unidade de hidrotratamento, ou de hidrodessulfurização, que são unidades em que  a gente faz acontecer uma reação. Aí sim, não é um processo só físico, é um processo físico-químico em que a gente faz acontecer uma reação entre o enxofre presente no óleo diesel, por exemplo, pode ser  ________ ? também, e hidrogênio. A gente produz hidrogênio, faz com que o hidrogênio reaja com o enxofre presente lá no combustível que a gente está tratando, e esse enxofre então, do combustível, ele é removido. Você tem o combustível com menos enxofre, forma um gás chamado gás sulfídrico, H²S, e esse H²S é matéria prima para uma unidade de recuperação de enxofre, e a gente produz enxofre, que também é um composto que o Brasil é muito dependente. O enxofre é uma coisa, eu costumo dizer, que o pessoal fala que o inferno cheira enxofre. Então você não sabe pra quê que serve o enxofre, porque o enxofre tem diversas finalidades, agricultura com fertilizante, na indústria médica, na farmacêutica, ele está presente em vários tipos de remédio. Também faz outras coisas.  Faz pólvora também. Apesar que a pólvora também é uma coisa boa, depende de pra que você vai usar a pólvora. 


P – E qual é a dosagem permitida hoje ________?


R – Então, aí esse valor, naquela época, na década de 1980, início da década de 1980, esse valor de 1,5% fazia com que eu nem precisasse colocar em operação, se eu não quisesse colocar em operação, aquela unidade de hidrotratamento de diesel. Porque o diesel produzido na destilação já tinha menos que 1,5% de enxofre. Mesmo assim, até por uma questão de consciência ambiental à época, a consciência ambiental hoje é muito mais profunda do que naquela época, a gente operava aquela unidade, mas não para cumprir uma legislação ambiental, porque era uma decisão da Petrobras operar aquela unidade, porque a Petrobras resolveu manter aquela unidade em operação. Então, ao longo do tempo, esses números foram baixando de 1,5 para 1 e para 0,5. Nesse meio do caminho aí a gente passou a ter especificações para óleo diesel metropolitano e óleo diesel interior. Óleo diesel metropolitano é aquele que a gente usa nas grandes cidades, nas grandes capitais, cidades grandes do interior, por exemplo, a própria São José dos Campos, Campinas. Então, a quantidade permitida de enxofre no óleo diesel metropolitano menor do que aquela permitida pro óleo diesel interior, que você queima lá, sei lá, no interior do Mato Grosso, principalmente no agronegócio, na agroindústria. Então, veio diminuindo. Então, até pouco tempo, os valores eram os seguintes. Para óleo diesel metropolitano, 0,2%. Você se lembra que lá no começo era 1,5%. Já baixou aí sete vezes. Então, pro metropolitano, 0,2%. Pro interior, pro diesel interior, 0,35%. Agora, a Petrobras está produzindo, aliás a gente até antecipou. A gente tinha esse objetivo de produzir aquele que eu falei que era o óleo, o diesel futuro, em 2006. Mas a Petrobras já está fornecendo o diesel que tem os seguintes valores. Pro diesel metropolitano que era 0,2, agora é 0,05, quase 0,05%. Ou, como muitos chamam, é o diesel 500 ppm, 500 partes por milhão. Em um milhão você pode só ter 500 de enxofre, equivale a 0,05%. Esse é o diesel mais restritivo que a gente já teve. 


P – Isso é uma exigência da empresa ou uma exigência nacional?


R – Na verdade tem as resoluções aí dos órgãos legais, CONAMA [O Conselho Nacional do Meio Ambiente], Ministério de Meio Ambiente, sempre, eu não diria de acordo, mas sempre com uma participação da Petrobras. Que você não pode estabelecer uma lei ambiental pra amanhã sem que a gente ainda tenha se preparado para isso, com a tecnologia necessária para isso. Então, esses valores são valores legais. Se eu não tiver cometendo nem um engano, esse valor começava a valer de verdade a partir de 2006. Mas, como a Petrobras se adiantou na implementação de tecnologias capazes de fazer essa redução, a gente já está fornecendo o diesel metropolitano com 500 ppm ou 0,05. Mas é lei. 


(Pausa)


P – Aí o senhor estava falando em relação a se adaptar a essas leis ambientais. E o senhor disse que isso é realmente uma exigência que foi natural, não necessariamente em relação à Bacia de Campos. 


R – Não necessariamente. 


P – E teria outra coisa que o senhor gostaria de destacar em relação a esta questão ambiental?


R – A questão ambiental teria sim. É uma coisa assim da qual eu me orgulho muito, que é ter vivido essa história toda da Petrobras. A cultura da Petrobras reflete a do país. Então, como eu já disse em algum momento, a nossa consciência ambiental não era tão profunda. A do país não era profunda, do mundo não era profunda. Mesmo hoje aí, com o Protocolo de Kyoto começou a valer a poucos dias aí, ainda há países, ainda há potências aí que não concordam muito em relação a essas, os países, as potências ainda não concordam plenamente em várias questões ambientais. Então, eu tenho orgulho assim de ter vivido toda essa evolução dentro da Petrobras. Embora a Petrobras, como uma organização dentro de uma organização maior, que é do país, ela reflete então a cultura do meio em que está, a Petrobras tem sido assim também uma formadora de... A Petrobras é pioneira. Então fico muito feliz porque eu trabalho com pessoas, não só na refinaria, mas no CENPES [Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello], na sede da empresa, outras refinarias, no EP. Nós entendemos muito do que é a poluição. Nós sabemos muito como evitar. 


P – Essa é uma cobrança principalmente. 


R – Como evitar. E aí o quê que eu tenho vivido? Isso passou a ser um valor cada vez mais forte pra gente, uma questão assim de honra. É uma questão de coração, sabe? Deixa de ser só lei. A gente sabe que a gente trabalha numa indústria em que o produto final dessa indústria, derivados de petróleo. Embora hoje, também uma outra coisa que a gente está vivendo, a Petrobras não produz, a Petrobras não é uma empresa que produz derivados. A Petrobras é uma empresa que produz energia. Uma das formas de energia que a gente entrega pra sociedade é na forma de combustíveis fósseis que, para gerar energia lá no carro, no caminhão, no trem, onde quer que ele esteja sendo usado, ele vai gerar. Por mais perfeita que seja, por mais puro que ele seja, ele vai gerar CO² que por si, se não houver controle, forma aí o chamado efeito estufa. Puxa vida, mas só Deus que tem controle sobre essa reação. Queimou, vira CO², uma queima completa, perfeita.Outros, nitrogênio que também forma óxidos e nitrogênio que vão aumentar muito o teor de ozônio, que a camada de ozônio é boa. Ela tem que existir, não pode ter buracos, aquela coisa assim. Mas ozônio em excesso também vai fazer mal pro planeta. Então, muito nitrogênio, uma coisa que eu ainda não disse, o petróleo naftênico lá da Bacia de Campos também é muito rico em nitrogênio. Então, o orgulho que eu tenho é de saber assim que, para nós empregados da Petrobras, isso é uma coisa assim muito mais que lei, muito mais que normas ou regulamentos. Isso veio ao longo do tempo entrando na nossa circulação sanguínea. Então, nós somos inconformados com o status quo, com a situação atual. A gente quer sempre, nessa questão ambiental, oferecer melhorias. Isso vale também para questão de segurança. Até uma coisa que eu nem sei se é o foco, mas eu não posso deixar de dizer também. Embora ainda ocorram alguns acidentes na Petrobras, a gente vive assim um momento muito forte, aquela coisa irreversível. Está no sangue, está na alma, que a gente tem que produzir energia, no meu caso energia na forma de derivados, sem que ninguém se machuque, com teores de poluentes que a natureza pode suportar, de uma forma que a gente deixe o planeta com saúde, no meu caso já praticamente pros meus netos, embora ainda não tenha. Bom, pelo menos eu acho. Eu não acredito que tenha. Mas que a gente deixa um planeta com mais saúde. Então, esse é uma coisa que eu gostaria de salientar, o comprometimento mesmo do empregado da Petrobras com a sua inteligência, com a sua razão, mas especialmente com o coração, com muita paixão nessa questão de segurança e meio ambiente. 


P – Certo. O senhor falou que está com 21 anos de empresa. Teria alguma história engraçada, marcante, que o senhor queira contar pra gente?


P – Tem. Só que, antes disso, eu precisava contar rapidinho. Depois eu falei do tempo. Eu precisava contar que está ocorrendo em várias refinarias, e na nossa está ocorrendo agora, também a função do petróleo nacional. Você lembra que eu te disse que o petróleo nacional produz muito óleo pesado. Por exemplo, produz muito óleo combustível. Como é que se utiliza óleo combustível? Utiliza para queimar no navio, os navios transatlânticos aí, pra queimas em fornos e caldeiras de todas as indústrias. Mas a gente tem descoberto no Brasil, e ainda tem o caso da Bolívia, muito gás natural. O gás natural, por natureza, é mais limpo, ambientalmente falando, do que o óleo combustível. Então, há um deslocamento dessa matriz energética pra você queimar menos óleo combustível e mais gás natural. Aí o quê que eu faço com todo esse óleo pesado que o petróleo da Bacia de Campos naturalmente produz? Aí entra aquela coisa que eu falei da inteligência do capital intelectual da Petrobras. Lá na Revap a gente está com investimento, até 2010, 2010 parece muito tempo mas são só mais cinco anos, de quase 800 milhões de dólares em modernização da refinaria. São grandes obras. A gente está falando, aproximadamente aí, em quanto? Em dois bilhões de reais. E a maior parte disso está sendo investido em projetos ambientais. É a tecnologia que capacita a Petrobras a atender qualquer restrição em termos de enxofre, nitrogênio. Tudo que eu falei pro diesel, por exemplo, vale para a gasolina também. A gente, lá em São José dos Campos, em poucos anos, ainda nessa década, vai estar produzindo gasolina praticamente sem enxofre, com traços de enxofre. Isso custa bastante dinheiro, isso custa muito esforço. É tanto do investidor, com todo esse investimento fabuloso que está fazendo. Eu estou falando só na Revap, mas são vários bilhões  nas refinarias todas. Então, essas novas unidades não ampliam aqueles 250 mil barris. Eu não vou passar a processar mais que 250 mil barris. Eu vou continuar processando os 250 mil barris, só que os produtos, ____ ? vai estar capacitada a produzir gasolina ambientalmente cada vez mais adequada. O diesel, pode vir mais restrições que a gente vai estar preparado para mais restrições. E são unidades que transformam o produto pesado, cada vez transformam mais  produtos pesados em produtos leves. Transformam mais óleo combustível em gasolina. Eu não aumento a capacidade de processamento da refinaria lá em termos de petróleo. Continua sendo 250 mil barris por dia a capacidade. Mas a produção de gasolina, querosene e óleo diesel aumenta pela tecnologia que é desenvolvida pela Petrobras. Aí isso praticamente, pra essa década a gente fecha o ciclo, porque é tudo muito dinâmico. 


P – É verdade. 


R – Agora, em relação à história engraçada, eu estava falando e pensando aqui. Têm algumas. Mas tem uma da qual eu gosto mais. Lá na refinaria, os mais antigos do meu tempo me conhecem como Zé da Foice. 


P – Porque Zé da Foice?


R – Zé da Foice. Aconteceu o seguinte. Eu me casei em 1981, em 14 de fevereiro de 1981. Eu não trabalhava na Petrobras. Eu entrei na Petrobras em 1983. Eu trabalhava, na época, numa empresa que trabalha com anilina, com corante industrial, que era uma empresa de um grupo francês chamado PCUK. O nome brasileiro da empresa era Fosfanil Fosfatos e Anilinas. Por causa da minha formação química. E depois ela passou a ser da ICI. Não sei se você se lembra o carro da Williams, o Nelson Piquet tinha lá o ICI lá, em inglês ICI. Então, eu trabalhava lá em 1981. Então eu me casei em 14 de fevereiro. Tem uma história triste. O meu irmão morreu na hora do meu casamento. Eu tinha 23 anos na época, o meu irmão morreu com 41, 20 minutos antes de nós irmos pra Igreja. Então, passou aqueles dias sem lua de mel, mas aí, pera lá, vou fazer lua de mel que se eu não fizer alguém faz por mim. Então, a gente lá em São José, muito sacana. A gente brinca muito. Uma refinaria maravilhosa de trabalhar por causa da informalidade assim, do ambiente muito tranqüilo. Então, mais ou menos pro mês de março, a gente ainda estava mexendo com a casa, eu e minha mulher, ajeitando móveis, uma pintura aqui. É antigo, não existia essas coisas de textura ainda, vamos dizer assim. E era perto da casa do meu pai. E o meu pai tinha comprado um terreno ali na região, e naquele dia, aquela tarde, eu saí do trabalho, porque eu também fazia turno na área, eu sempre trabalhei em área de produção. Eu saí do trabalho duas horas da tarde, passei em casa, peguei a minha mulher, namorada, recém casados, de semanas. Tinha uma moto, uma CGzinha 125. Fomos na casa do meu pai. E aí, a pé, fomos lá pro terreno que o meu pai tinha comprado. Então, fiquei lá com o meu pai ajudando ele a limpar o terreno com a foice, cada um com uma foice, roçando lá um poço o terreno, fazendo uma limpeza lá com o mato que estava crescido. Aí soube. Aí terminando eu amarrei a foice que eu estava usando, na moto. Aí fui pra casa da sogra tomar café na casa da sogra. Porque é assim, nas primeiras semanas você toma café na casa da sogra, depois... Depois às vezes você tem sorte e continua tomando cada vez mais, que era o meu caso. Eu brinco muito com sogra mas ela é uma excelente sogra. E aí tomamos café. Na saída passou um ônibus. E eu tenho um bom gosto, minha mulher é bonita. E alguém do ônibus mexeu com a minha mulher, falou alguma coisa lá. Moleque, 23 anos, eu não me conformei. Mas o ônibus foi embora. E eu, passou uns minutos, eu também fui embora. E aí cruzei com o ônibus lá numa esquina. O ônibus estava numa rua secundária para entrar na avenida principal, e não dava espaço pra ele entrar. Eu cheguei, encostei com a moto do lado. Olhei pro ônibus, todo o ônibus olhou pra mim, e aí eu briguei com o ônibus inteiro. Aí estava com a foice. E eles era, começaram. Nós discutimos um pouco. Mas eu não usei a foice, eu só mostrei a foice. E aí passou. Aí, em 1982 eu saí do meu emprego, fui fazer algumas coisas por conta própria, e fiz o concurso para Petrobras. Fiz o curso de formação, aí fui admitido. Então  vou começar a trabalhar em turno. E estou lá na calçada. O ônibus passava em frente, na rua do meu apartamento. Na calçada do apartamento chega o ônibus da Petrobras que eu nunca tinha usado, que era um ônibus de turno. Eu falei: “Gozado, eu conheço essa viação aí”. Eu me lembro até hoje, chama Transliquid, um ônibus amarelo. Eu falei: “Eu conheço esse ônibus aí, essa companhia”. Aí, quando peguei meu crachá, dei sinal pro ônibus, que era a primeira vez que eu ia pegar. O motorista parou, eu entrei, olhei  pras pessoas, eu falei: “Eu conheço esses caras aqui”. E eram os caras daquele dia. Então, à medida que eu fui andando no corredor do ônibus, todo mundo me olhando. Aí um rapaz lá chamado Alvim, que depois veio a ser até meu compadre, eu batizei um dos filhos dele, olhou bem e virou pro outro e falou: “É o cara da foice”. Eu falei: “E agora, meu Deus? O quê que eu faço aqui dentro desse ônibus?”


P – Sem a foice? 


R – Sem a foice. Sem a foice e sem os motivos de estar bravo daquele dia. Tranquilo. Eu estava mais preocupado com o meu primeiro dia de trabalho. Aí nós conversamos, eles disseram: “Oh, menino”, porque eu era, na época, o mais novo, “Você não pode ficar nervoso desse jeito”. Eu virei e falei assim: “E vocês não podem fazer psiu pros outros na rua”. E então, o engraçado da história, que eu nunca pensei que um dia eu ia entrar naquele ônibus, naquele mesmo ônibus. E aí essa história ganhou fama na refinaria, e por muito tempo me chamaram de Zé da Foice. Então...


P – Ficou. 


R – Não, agora pararam, porque foram trocando as pessoas também. Então, daquele tempo não tem mais, pouca gente. 


P – Sr. Artur, infelizmente a gente vai ter que caminhar para o final da entrevista. Eu queria saber o que o senhor achou de ter participado do Projeto Memória, contribuindo com o seu depoimento?


R –  Então, quando eu recebi um correio pelo Noltz, é do Renato Li, que é assistente lá do Allan Kardec. E alguém, acho que é Sheila, Sheila da comunicação? É Miriam. Miriam?


P – As duas que estão envolvidas.


R – Era um correio da Miriam pedindo pro Renato Li que indicasse alguns nomes pra falar sobre esse assunto que a gente falou. Então ele indicou alguns nomes. E  mandou com cópia pra mim. Então eu fiquei muito contente de ter sido lembrado pra falar um pouco do refino. Isso foi sexta feira ou quinta feira que eu recebi esse correio. Só que foi difícil pra eu vir pra cá porque, não sei se você estava ali na sala, eu recebi um telefonema do Gerente de Produção da Revap, ele está indo pra Curitiba. Lá faz parte de um grupo de SMS que vão tratar lá questões de segurança, meio ambiente e saúde. Então, eu não poderia vir. E aí eu fiz igual criança, eu chorei, eu esperneei. Nós vamos dar um jeito porque eu sou o substituto dele. Eu chorei tanto que ele mudou a viagem pra hoje à noite. Porque pra mim era muito importante. Eu costumo dizer o seguinte. A gente tem alguns pilares na vida da gente. Um deles são os amigos, o outro é a família e o outro é o trabalho. Eu nem vou cometer aqui a asneira de tentar comparar quem é mais importante. Mas o trabalho é uma coisa muito importante. Acho que foi o Gonzaguinha que diz, o homem sem o seu trabalho o homem não tem honra. Então, eu ainda tive a sorte de estudar aquilo que eu gostava, química. Eu gosto muito, eu me dou muito bem nessa área. Eu tive a sorte, todos precisamos trabalhar, tive a sorte de ter aquela coisa da química. Houve uma química entre o Artur e a Petrobras. E quem que é a Petrobras? São pessoas. Petrobras não existe, Petrobras é um grupo de pessoas com os mesmos objetivos. Então, houve uma química muito grande entre mim e a Petrobras. E eu não me vejo assim, “o quê que você seria se você não trabalhasse?” Não sei o quê que eu seria não, porque  eu nunca parei pra pensar nisso porque. Tanto que eu gosto daquilo que eu faço, do ambiente que eu tenho, do respeito que eu tenho pela Petrobras e o respeito que as pessoas da Petrobras têm por mim. Eu tenho muitas pessoas que são referências pra mim, mas eu sou referência também em muitos assuntos. Eu sou muito respeitado por isso. Eu falei: “Puxa, agora eu vou perder a oportunidade de falar sobre tudo isso? Eu quero sim”, falei pro meu gerente lá: “Se tiver outdoor eu quero estar lá no outdoor, se tiver um livro eu quero estar lá”. Eu faço parte disso, eu doei a minha vida, parte dela, para Petrobras. Não quero sair daqui. Eu quero que, de alguma forma, o meu nome fique aqui. Eu quero ter os meus 15 minutos de fama dentro da Petrobras. Eu quero que, lá no ano de 2030, ______ esse camarada aqui que foi consultor técnico, que teve essa idéia, que fez aquilo, contribuiu com isso, errou ali, aquela coisa assim. Pra mim foi fantástico. 


P – Ai, que ótimo. A gente  que agradece muito pelo seu depoimento, Artur.


R – Está bom. 


-- FIM DA ENTREVISTA --

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