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História

Minha segunda casa

História de: Julieta de Campos Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/05/2019

Sinopse

A entrevistada Julieta de Campos Pereira nos conta sobre a infância no Campo Limpo longe da tecnologia, onde brincava usando a imaginação. Julieta fala que a casa, a igreja e a escola eram os pontos principais da infância e na adolescência passa a frequentar bailinhos e passear pelo centro de São Paulo e o Mappin. Forma-se professora e atua na área por nove anos, casa-se em 1979, tem filhos e se separa após 30 anos. Por um acaso conhece o Museu da Casa Brasileira e começa a trabalhar lá, se tornando a pessoa com mais tempo de casa. 

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História completa

P/1 - Julieta, para começar eu vou pedir para você falar seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R - Julieta de Campos Pereira, nasci em 7 de novembro de 1957, na cidade de São Paulo.
P/1 - Você conheceu seus avós?
R - Conheci minha avó materna.
P/1 - Você chegou a conviver com ela na infância?
R - Pouco tempo, uns três anos, mais ou menos.
P/1 - Os seus pais faziam o quê?
R - Ah, os meus pais… batalhadores (risos). Meu pai era motorista de uma empresa e minha mãe trabalhava como doméstica.
P/1 - Que lembranças você tem marcantes do seu pai? Da infância, de criança?
R - Ele foi um grande companheiro durante toda a minha infância e adolescência, era um pai muito presente. Ele casou velho, com quarenta e seis anos, e esperava muito ter uma filha. Daí, eu! (risos) Ele era boêmio, resolveu casar e eu nasci… Fui muito comemorada, principalmente por ele. Durante a vida dele, ele sempre me paparicou bastante (risos). A minha mãe, também: batalhadora, matriarca daquelas, trazia tudo ali na mão. Todo mundo tinha que estudar muito, corresponder todo o sacrifício que eles faziam, e a gente conseguiu absorver tudo o que eles conseguiram passar.
P/1 - Vocês eram em quantos filhos?
R - Do segundo casamento da minha mãe, éramos em quatro.
P/1 - Em quatro.
R - Como ela teve dois casamentos, eu tenho duas irmãs que são bem mais velhas do que nós quatro.
P/1 - O que você lembra da casa em que nasceu? Você lembra como era?
R – Sim. Na região do Campo Limpo, no bairro onde moro, os meus pais quase foram os desbravadores. Era como um sítio. Tinha tudo de frente, um quintal grande… Minha mãe conservou todas as características que trouxe do interior: ter uma horta, um galinheiro. Até os doze anos a gente cresceu com essa característica interiorana, de cidadezinha da roça (risos). Todo mundo do meu bairro tinha uma área grande de quintal, então tinha plantação e criação.
P/1 - Conta um pouco mais sobre como era o Campo Limpo naquela época. Que lembranças você tem?
R - Quando eu era criança, meu pai era motorista de uma empresa e ele tinha um carro, era praticamente a única pessoa ali que tinha carro. Quando nós saíamos do nosso reduto - para nós, aquilo era um reduto - era para ir no médico, na escola próxima de casa. O Campo Limpo todo, como ele é hoje... Nossa, não tinha nada… Mas a gente saía pouco de casa. Quando saía era para vir para cá, para Pinheiros, para o Centro, que era onde meu pai fazia os trabalhos dele.
P/1 - Você lembra da sua brincadeira de infância?
R - Todas que, hoje em dia, as crianças não brincam mais (risos). Eu tenho uma filha de quatorze anos e esses dias eu estava ensinando ela a pular amarelinha, que ela não sabia. Por aí você vê: ela sabe jogar Dragon Ball Z no videogame (risos), mas não sabe pular amarelinha. A gente tinha a liberdade de fazer todo o tipo de brincadeira. Brincava de casinha e inventava, como a televisão não era uma artifício que todo mundo tinha… Na minha casa não tinha. Fui a primeira casa do bairro a ter, mas um bom pedaço da infância a gente não tinha, então a imaginação era a nossa grande arma. Foi isso que fez a gente curtir muito a infância.
P/1 - Como era a relação com os seus irmãos? Você era a mais nova?
R - Eu era a mais velha. Eu era o líder do bem e do mal (risos). Quando a brincadeira dava errado, todo mundo apanhava e eu tinha que apanhar também, porque dei o mal exemplo. Mas a diferença entre nós, os quatro, era pouca: dois anos de um para o outro. Tem dois meninos e duas meninas: eu, mais velha, a caçula e dois meninos no meio.
P/1 - O que mais tinha no Campo Limpo, fora da sua casa? A escola era ali também?
R - A gente tinha três pontos: a casa, a escola e a igreja. A gente ia na igreja, a minha irmã era filha de Maria. Eram essas moças que orientavam as crianças na igreja naquele tempo. Nos finais de semana, a nossa balada era ir à igreja. Quando podia, quando fiquei maiorzinha, ia nas quermesses à noite. Elas faziam reza nas casas... Era diferente: as pessoas eram  poucas e todo mundo se conhecia, então tinha uma união maior, porque a região era só mato, com uma meia dúzia de loucos morando lá naquela selva (risos). A condução que saía de Pinheiros chegava só até Taboão da Serra, que faz divisa com Campo Limpo. Dali para lá era só “P2”.
P/1 - Conta um pouco mais desse trajeto. Quando vocês iam, tinham que pegar o ônibus?
R - Meu pai tinha um carro, daí a gente ia de carro. Eu fui andar de ônibus [quando] eu tinha doze anos (risos), até então nunca tinha andado. Fiquei deslumbrada (risos), achando que era melhor.
P/1 - Só vocês tinham carro. Que carro era? Vocês faziam passeios de carro?
R - Sim. Como a gente tinha o lance da igreja, todos os passeios eram em torno desse assunto. A gente ia em romaria para Pirapora do Bom Jesus, para Aparecida do Norte, para Tambaú. Era uma caminhonete Studebaker 1957 verde (risos). Nunca mais eu... Eu já batalhei, procurei, queria comprar. Aquele foi o carro da minha infância. Quando a gente ia para a praia, ela tinha uma capota que meu pai tirava e ficava uma caminhonete. Não tinha ecovias, radar e nada: as crianças iam tudo na carroceria (risos). Era muito bom.
P/1 - Existia uma vida relativamente agitada, de ir para os lugares.
R - Meu pai propiciava isso, porque nós morávamos no mato, não tinha nada lá e podia virar índio. Então ele proporcionava umas coisas na civilização, até para ficarmos mais inteirados com o mundo.
P/1 - Você acompanhou toda a modernização do Campo Limpo, de chegar energia…
R - O crescimento, isso. O primeiro banco, o primeiro posto de gasolina… Tudo. A escola. Nós estudávamos em uma escola que era de madeira, estilo americana, e o nome era Presidente Kennedy, correspondia à construção. Depois ela cresceu, um prédio enorme de alvenaria. Essa evolução foi mais adiante.
P/1 - Como era a escola, a frequência? O que você lembra dela?
R - A frequência era assídua, ninguém… A diversão... Era ótimo ir para a escola porque era outro mundo, outras crianças. Nós tínhamos em casa um reduto de irmãos, e ao ir para a escola tinha uma legião (risos) de gente diferente, então era muito bom. Era uma época de repressão e a gente não entendia muito, porque ninguém falava nisso naquele tempo. As crianças... Imagine: não tinha nem televisão, ia saber o que é repressão? A gente sempre ouvia os pais reclamarem: “Ai, a vida tá cara” e não sei o quê. Eu cresci ouvindo eles reclamarem e estou reclamando, então (risos) acho que é uma coisa por osmose (risos).
P/1 – Você tem lembranças marcantes da escola? Algum professor, alguma brincadeira?
R - Eu tinha uma professora, da segunda série... Minhas irmãs mais velhas, do primeiro casamento da minha mãe, trabalhavam fora de casa e compravam um gibi para a gente ler. Elas compravam em sebo, aqui em Pinheiros, e o primeiro gibi que eu li foi (risos) o Tio Patinhas. Tinha uma professora minha, da segunda série, que parecia (risos) a Vovó Donalda. Nunca mais eu esqueci, era igualzinha à patinha! Tinha aquele óculos, falei: “Gente do céu!" Eu chegava na sala e ficava olhando a mulher (risos). No final do ano eu falei para ela: “Professora, posso te falar uma coisa? Você gosta do gibi do Tio Patinhas?” Ela falou: “Eu gosto, por quê?” Eu falei: “Tem um personagem que parece com a senhora”, e ela achou que era a Margarida. Eu fiquei meio assim, mas como toda a vida eu fui muito direta, falei: “Professora, não é a Margarida. A senhora é baixinha e gordinha, parece a Vovó Donalda.” Ela falou: “Você acha?” Ela tinha um coquinho, sabe? Eu falei: “Ah, parece.” “Você gosta da Vovó Donalda?” Falei “Eu gosto, ela é bonitinha. Por isso associei a senhora a ela.” Tinha passado de ano e no ano seguinte não seria ela (risos), falei: “Já estou livre.” Só falei no final do ano porque temos que pensar para falar, né?
P/1 - Você continuou nessa escola durante todo o tempo escolar?
R - Na minha época se fazia a quarta série e depois tinha o quinto ano, que era o científico, em outra escola, sempre particular. Depois voltava para fazer o ginásio em escola pública, se conseguisse.
P/1 - Você chegou a cursar o quinto ano em outra escola?
R - Isso, tinha o chamado curso de admissão. Lá era particular, perto da escola, e depois eu fui para fazer o ginásio.
P/1 - E você falou que começou a sair do Campo Limpo com doze anos.
R - Era outro universo. Até a admissão ainda é no Campo Limpo. O upgrade foi fazer o Ginásio, daí tinha que tomar o ônibus, tinha carteirinha de passe, uniforme, tinha todo um ritual para ir para a escola, que era legal. Estudava no Caxingui, que era um bairro mais evoluído em relação ao Campo Limpo. Tinha um colégio grande e eu fiz ali até terminar.
P/1 - Você estava falando da primeira vez que andou de ônibus, que foi marcante.
R - É! Eu sempre andei de ônibus com a minha mãe. A primeira vez que andei, com a minha mãe, era assim: a gente vivia no mato, e tinha um ônibus de manhã e um à tarde. Foi um evento para chegar nesse ponto de ônibus e pegar o ônibus que sairia de manhã. Nós iríamos no Darcy Vargas, no hospital. Todo mundo sentadinho, a gente via o mato passar rápido, era uma coisa... Foi show! Depois a rotina de andar de ônibus foi para ir para a escola, que daí já tinha a Francisco Morato, a gente conseguia definir onde era o quê. Era mais fácil. 
P/1 - Como era o ginásio? As experiências foram muito diferentes?
R - Foram diferentes, porque as crianças de outro bairro, com outra realidade, tinham muito mais informação. Eles já tinham energia elétrica e para a gente tinha acabado de chegar, tudo era novidade. A gente chegou em um lugar que tinha luz na rua, asfalto, e lá não tinha. A gente saía da escola de noitinha e ficava olhando se tinha aqueles bichinhos na luz. Falava: "Nossa! Quando será que vai chegar no Campo Limpo?" Não demorou muito e chegou, mas novidade sempre é bom, um primeiro impacto sempre é bom.
P/1 - Você se lembra dos amigos do ginásio? Das brincadeiras?
R - Todos eles. Uns já morreram, porque no ginásio tinha começado a entrar uns vícios que hoje a molecada tem com muito mais facilidade. Não eram tão comuns as drogas na minha época, mas já tinha os usuários, então muitos da turminha que resolveram enveredar por esse caminho morreram. Mas a grande maioria, de vez em quando, se reúne e almoça. Uma das amigas tem um sítio em Juquitiba, aí a gente faz o encontro do pessoal de 1900 e três pontinhos (risos). Vai todo mundo para lá e passa o dia. Mas foi bom, depois saí dali. Estudei ali no Ensino Médio, a faculdade foi no mato, na OSESP Santo Amaro.
P/1-  Antes da faculdade, a rotina continuava sempre igreja, escola e casa?
R - Igreja, escola e casa. Claro que a escola começou a proporcionar atividades a mais. Tinha que fazer pesquisa na biblioteca, porque não tinha internet no meu tempo. Você tinha que vir aqui nessa biblioteca da Rua do Sumidouro, perto da igreja da cruz torta. Tínhamos que ir ali, era a fonte de conhecimento de todo mundo, de todas as escola da região, lá era cheio (risos). As crianças de todas as escolas usavam uniforme completo, então a bibliotecária conseguia definir para quem ela emprestou, qual escola levou o livro. A gente ia uniformizado, trazia a carteirinha, era um evento. Saiu daquela rotina da igreja, que passou a ser só final de semana. As rezas que tinham durante a noite na casa das pessoas eu não podia ir, porque eu tinha que ir no outro dia para a escola. Minha vida era cheia. Tinha papel almaço, canetinha e uma porção de coisas que eu adorava (risos).
P/1 - Mas você tinha uma participação com as questões da igreja.
R - Tinha o catecismo, então tinha que ir para fazer a primeira comunhão, o crisma. Ficava a vida inteira no cursinho da primeira comunhão e no fim do ano o Bispo vinha para consagrar as crianças. Você ficava o ano inteiro, tinha lição do catecismo e da escola, começou a ficar um pouco puxado (risos).
P/1- Me conta um pouco do Ensino Médio. Você fez ensino Médio na mesma escola?
R - Na mesma região, mas outra escola. Era diferente, uma turma mais madura. Conseguia tomar ônibus sozinha, ir até o centro… Eu vinha para Pinheiros, onde tinha os cinemas na Santa Franco, e andava pelo Itaim. A gente conseguia se movimentar dentro da cidade, era mais independente. 
P/1 - Você falou do cinema. Que filmes você lembra?
R - Eu gostava de desenho animado. Sempre fui fã da Walt Disney (risos). Todos os filmes da Walt Disney que passavam… Lembro-me que assisti Bernardo e Bianca, um filme dos ratinhos (risos) que voavam. No cinema passou uma primeira versão [quando] eu era adolescente. Eu tinha arrumado um namorado e o rapaz achou que ia assistir um ‘filme’, falei: “Eu quero assistir aquele.” “Mas desenho animado?” “Ai, então não quero mais namorar com você, porque quero assistir ao desenho. Tem que escolher: o desenho ou estou fora." Ele foi assistir ao desenho (risos). Eu digo: eu gostava de desenho, todos os que passavam no cinema eu ia assistir. Depois comecei a assistir aos filmes do 007, Sean Connery, até hoje eu gosto do velho (risos). É meu ator predileto (risos).
P/1 - Você falou um pouco do primeiro namorado...
R - Chato o menino, nossa! Era burro. Eu quis ele porque… Eu nunca fui estudiosa, mas eu nunca tive muita dificuldade. Se tem que aprender, tem que aprender; se tem que ler, tem que ler. Ele não queria ler, falou: "Vou namorar com aquela porque ela tem umas notas boas", e queria que eu fizesse as lições. Eu falei: "Olha, não quero namorar para eu fazer a lição." Coisas de pré-adolescência. Enjoei rapidinho, eu tinha que fazer a lição do cara! Falei: “Não, cada um faz a sua lição. Você não vai passar de ano, vai ficar para a segunda época!" Tanto que ele ficou, repetiu três vezes. Todo mundo: “Fulano depois que parou de namorar a Julieta ficou mais burro ainda, repetiu duas vezes!" Falei: “Pois é, não quer estudar… Não vou carregar ninguém nas costas."
P/1 - Fora o cinema, quando vocês vinham aqui ou para o Centro, iam fazer o quê? Vocês iam aonde?
R - No Centro a gente ia no Mappin. Tinha uma casa de chás do lado, mas no Mappin tinha um departamento de coisas modernas. As novidades de roupas, perfumes estavam todas ali. A gente ia e ficava deslumbrado, porque dava para entrar, olhar as roupas, pegar nas araras... Era um show. Muitas vezes matava aula pra ir ver as novidades, e olha que é lá no Centro. Atravessava __________ a Praça do Patriarca (risos), se achava porque era adolescente.
P/1 - O que mais vocês viam no Mappin? O que era legal?
R - A gente ia no Mappin, saía e ia na Rua Direita, tinha um lugar onde vendiam favo holandês. Nossa! Tinha o dia de ir na cidade: “Hoje  a gente vai para a cidade.” Ia no Mappin, ia comer o favo holandês na Rua Direita, ali na General Osório. Andava tudo ali no Largo do Café, tudo! Era tudo muito diferente da nossa região ainda. Aqueles prédios, o Theatro Municipal, aquela coisa audaciosa no meio daquela cidade louca! Para cá [Pinheiros] tinha gente, mas era espalhadinho, um pouquinho ali e outro pouquinho lá, e lá, não: tudo concentrado. Muitas vezes ficava em cima do viaduto vendo o povo passar até enjoar, depois: “Vamos para o Mappin”. Aí: “Vamos tomar sorvete.” Andava por aí. Não era nada assim (risos), mas era bom! Falava: "A gente foi no Centro comprar pulseirinha.” Tinha umas lojinhas de pulseirinhas penduradas, e o que tinha de lançamento, tinha lá. Menina sempre gosta muito de penduricalho, aí eu mesma tinha meio braço de pulseiras, cada vez que ia comprava mais. Cada vez que ia comprava uma, porque o dinheiro era escasso. Minha mãe dava para o mínimo: “O sorvete, a condução e vem embora”, mas a gente economizava, muitas vezes dava para comprar um papel almaço, a gente rateava. A gente usava passe, que era um trocinho de papel, e o de estudante a gente ia comprar na garagem do ônibus e vendia para os outros que não tinham. Falavam: “Ah, mas é a metade do preço." " Não! Tem que pagar inteira ou não vou vender, senão depois vou ficar sem." A gente sempre tinha, não tinha uma cota, como é hoje, você podia comprar quantos pudesse. Meu pai sempre comprava um tanto para não precisar se preocupar. Eu comercializava os meus passes para poder ter sempre um dinheirinho para comprar meus penduricalhos. Assim eu fui (risos)...
P/1 - Julieta, me conta mais do Centro. O que mais você lembra que te impactava?
R - O Theatro Municipal, para mim, era a oitava maravilha do mundo. Aquela escadaria... Demorou acho que uns três meses e teve uma promoção da Secretaria de Cultura ou de alguma coisa de levar os alunos. Nossa! A primeira vez que entrei no Theatro eu achei que ia desmaiar. Falei: “Gente, o que é isso?" Parecia um castelo, que eu lia muita baboseira dessas coisas… E o Mappin? Aquele elevador gigante com aquele monte de gente (risos)! Era uma coisa: "Vamos de elevador?" "Vamos.” No oitavo andar eram as roupas de jovens. Tinha senhora, cama, mesa e banho, era uma loja de departamentos gigante! Os uniformes da escola onde a gente estudava, comprava lá. Era lá para a Rua Conselheiro Crispiniano, mas do lado do Mappin. Sempre que a gente precisava comprar uma camiseta branca – "Preciso ir na Conselheiro comprar uma camiseta” – aproveitava e entrava no Mappin, olhava os perfumes… No primeiro andar tinha um balcão bonito de vidro e era só de perfumes, como hoje tem nas lojas de perfumes importados. Lá era só importado que tinha. Tinha outra loja bem bonita que minha mãe ia de vez em quando comprar umas bolsas e vinham acompanhadas sempre com uma luvazinha, Sutoris. Nossa, que chique era aquela loja! Uma vez por ano só minha mãe comprava uma bolsa, mas quando ela ia a gente ia também e curtia muito. Eu gosto muito de São Paulo, do Centro de São Paulo, tanto que depois que cresci eu comecei a me enfiar nos lugares para conhecer mais. Igreja sempre foi o meu it, até achei a igreja de Santo Expedito encravada lá dentro do museu (risos), polícia, sei lá o que que é aquilo, é Batalhão da Polícia. Achei a igreja sozinha e falei para minha mãe: “Eu sei onde é a Igreja de Santo Expedito." "Como, menina?" “Eu fui lá no Centro, depois eu andei, andei, andei e cheguei lá.” Minha mãe: “Você andou muito!" "Pois é, tinha que achar e achei!”
P/1 - Isso no Ensino Médio?
R - No Ensino Médio eu cuidava das coisas e das contas da casa. Saía, aprendi a ir no banco...
P/1 - Tinha uma rotina de trabalho.
R - Não trabalhava, mas tinha as obrigações.
P/1 – Você disse que terminou o Ensino Médio e foi para OSESP?
R - No Ensino Médio eu fiz Magistério, aí fui trabalhar na escola pública e fazia a faculdade de Pedagogia nesse lugar, nesse buraco. Nossa! Primeiro eu fiquei traumatizada, é diferente você estar do outro lado. Sempre tinha aquela visão da professora, nunca tinha tido a visão dos alunos. Você cresce com aquele campo, passam vários professores, vem a semimaturidade, mas você não consegue ainda incorporar que o professor é uma vítima daquela galera (risos). Quando eu pulei para o outro lado, nossa! Não aguentei muito, fiquei nove anos.
P/1 - Só nove?
R -Só nove (risos). Ninguém merece aquilo, não consegui ficar: “Se eu ficar vou surtar!" Me mandaram para uma região que eu prestei concurso, que meu pai... Já viu, né? Prestei concurso, era professora concursada do estado. Eles me puseram numa região que... Nossa! Por ter passado num concurso e ter formado, meu pai me deu um carro. Foi a glória! Eu fui nesse mato de carro, que é onde me designaram. Ali as crianças já eram barra pesada, eu falei: "Ish, eu não vou aguentar isso!" Chegava e falava para o meu pai: "Eu vou desistir, não tenho dom para a coisa." Meu pai: "Não, professora é professora!” Falei: “Deus do céu! Vou ter que aguentar essa cruz só por causa desse pai?" Ele apostava as fichas, achava… Ele casou com quarenta e seis anos anos e achou que nunca ia ter um filho. Ter uma filha professora, quer melhor? Eu falei: "Meu Deus, ninguém merece!" Fui e fiquei dois anos, aí um bicho me mordeu na hora do recreio, deu uma alergia... Tive que tratar, falei: "É agora, é a hora de eu escapar desse negócio.” Fui para a escola particular, perto da minha casa tinha um colégio grande e eu lecionei lá nove anos.
P/1 - Voltando à OSESP, como foi a faculdade?
R - Era ruim, em um lugar à noite... Eu fui, toda a vida, uma pessoa muito dorminhoca. Não sei como eu passei naquele lugar! Eu sempre falei para o meu filho: nunca fui muito estudiosa, mas o conteúdo eu sempre conseguia absorver. Nossa, que sono que eu tinha naquela aula! Para você imaginar como era mato, nós, os alunos, contratamos essas peruas escolares, tinha um ônibus escolar para levar a gente lá e buscar, porque quem tinha carro tinha medo do carro quebrar e ficar naquele mato. Quem não tinha, o último ônibus descia não sei aonde depois… Nossa, não! Daí nós arrumamos um louco, eles iam buscar a gente e deixavam na porta. Eu tinha a última aula, saía, entrava no ônibus, dormia e acordava na porta da minha casa. Foram penosos para mim os quatro anos. Acho que por isso que eu não fiz pós-graduação, porque fiquei tão preguiçosa... Casei também, bagunçou tudo.
P/1 - Você se lembra de amigos ou professores da faculdade?
R - Professores, ainda tem uns que vem, um que resolveu me visitar... E as amigas estão bem. Nós saímos do Ensino Médio e rumamos todas para… Era uma quadrilha, por isso que a gente até hoje vai comer o churrasquinho. Desde o ginasial as mesmas oito. Tinha um rapaz, ele faleceu esses dias, éramos nove. Era uma turminha da mesma escola todos os anos. Um tinha dificuldade e o outro ia: "Olha, eu vou para tal escola e tem que prestar exame. Será que você vai passar?" “Tô ruim em Matemática." Vamos estudar matemática todo mundo, para ter o grupo sempre ali. Virou uma irmandade (risos).
P/1 - Esse era o grupo que ia junto para o Centro, para todos os lugares?
R - Isso, a mesma turma. Festa de aniversário na casa de um, na casa de outro. Era assim, ficou... Não cresceu, mas permaneceu.
P/1 - Tinha outras festas, bailes? Vocês saiam para dançar?
R - Depois que eu estava na faculdade era a época que começou o Club Homs, São Paulo Chic, um monte! Mas o meu pai... Não podia sair sozinha. Tinha uma amiga minha que o pai era Sargento da Polícia Militar. Ele ia também dançar e ficou sopa no mel, deu certinho! Todo mundo ia para a casa dela, ele ficava responsável por oito meninas e um rapaz. Assim nós passamos a nossa infância, adolescência e chegou na idade adulta.
P/1 -  Como eram os bailes antigamente?
R - Eram o máximo! A gente tinha que se produzir, sempre tinha que ter uma roupinha nova, na moda. Por isso que ia no Mappin. Nem sempre dava para comprar, aí eu copiava. Eu sempre tive o dom de copiar, de desenhar, daí cada uma comprava um tecido diferente, para não ficar igual a um exército, e mandava fazer nos lugares de direito quando era um baile precisava diferenciar a roupa.
P/1 - Tocava o quê?
R - Samba-rock, tocava de tudo. Não tinha muita entrada de música de fora, então a gente ouvia muito rock nacional. Essa galera que está com setenta anos hoje eram o it da minha época (risos), e o pessoal do samba-rock, São Paulo Chic, o pessoal fazia a linha do [Jorge] Ben Jor e tal. Hoje em dia eu tenho um problema no pé, que vou operar daqui a pouco, de tanto dançar.
P/1 - Todo mundo falava muito dessa época, de dançar samba-rock…
R - Um ia na casa do outro. Tinha um que aprendia com mais facilidade, no grupo sempre tinha um que tinha uma habilidade mais aflorada e aprendia. Graças a Deus que, para a dança, o menino era um bicho! Ele aprendeu todos os passos. Ele ia nos lugares onde os rapazes podiam ficar depois das dez da noite, que dançavam. Os homens eram mais soltos, as meninas às onze horas tinham que estar em casa. Ele aprendia e depois ensinava todas nós. A gente chegava num lugar e ele ia tirando uma de cada vez para dançar, aí as pessoas sabiam que a gente sabia dançar e vinham chamar. Comédia (risos)! Era uma sociedade de poucos, mas com muitas qualidades. Todo mundo sabia fazer alguma coisa. Quando tinha que copiar os modelitos, eu ia. Sempre ia uma junto comigo. Andava sempre com a pranchetinha, copiava: "Eu gostei desse." "Escolhe logo!" A gente ficava: "Escolhe logo o que você quer porque daqui a pouco a vendedora vai perguntar o que a gente vai levar." Desenhava, fazia um truquezinho, e depois em casa dava uma melhorada. Às vezes cada uma tinha um modelo. Se todo mundo gostava, variava: uma saia mais curta – de acordo com a vontade do pai –, uma blusa mais decotada, se permitia fazer um… Era a critério da costureira.
P/1 - Julieta, conta para mim dos anos que você ficou na escola particular. Você ficou nove anos em uma escola?
R - Nove anos. Difícil, viu. Era uma escola Luterana, então eles tinham todos os rituais da igreja. A única coisa que eles não obrigavam os alunos era a se converter, mas tinha um momento de devoção. Eu dava aula de manhã, das sete ao meio-dia. Todos os dias, às dez horas, param tudo para fazer oração. Era uma escola com infraestrutura boa, tinha um auditório para quatrocentas pessoas. Enfiavam toda a molecada dentro para rezar, daí ensinava a Bíblia. Não precisava ter a Bíblia – tinha que ter porque tinha aula de religião, mas muito superficial –, então para aqueles que não eram luteranos tinha a Bíblia nos bancos, para acompanharem. Na devoção todo mundo tinha que estar com a Bíblia na mão. Tinha umas crianças... Tinha uns embates com os pais, falavam: "Eu não quero que o meu filho vá na devoção!" Falava: "A senhora não está entendendo, para o mundo nesse horário.” “Então a senhora vá falar com o diretor.” O diretor era um reverendo não sei das quantas, graduado dentro da Igreja. "A senhora vá falar com ele.” “Isso são ordens: desliga a luz e fecha a sala. Eu não sou luterana e vou, entendeu? Eu não vou virar luterana, mas tem que ir porque faz parte do negócio aqui." Mas foi um período bom. Tem muitos alunos meus andando por aí, por São Paulo. Dava aula de segunda série, hoje estão homens já.
P/1 - Você lembra de algum caso marcante dentro da sala de aula? De algum aluno?
R - Sim, eu me lembro de dois casos. Um foi que a menina... Eu não sabia – nem a mãe, ninguém – que ela era doente. De repente ela teve uma convulsão na sala e fiquei sem saber o que fazer, eu fiquei... (pausa) O pessoal falava: "Professora!" Eu estava paralisada, ela convulsionando e eu em estado de choque. Voltei a recobrar tudo depois de quarenta minutos que tinham prestado socorro à menina. Esse foi um fato que me apavorou muito, eu falei: "Agora eu desisto dessa droga.” O outro foi quando meu filho estudava na escola. Ele era insuportavelmente levado, caiu e quebrou a clavícula. Eu estava na sala de aula, mandaram me chamar que ele tinha caído no pátio e ele estava com o olho virando. Eu perdi a cabeça (risos), falei: “Vocês mataram meu filho! O que vocês fizeram?" "Ele caiu dali, não sei o quê.” “Mas o médico…” – tinha tudo na escola, tinha uma super… “Ele está descendo!” Fiquei muito nervosa. De impacto ruim foi isso, mas bom tinha bastante. No final do ano eles sempre escolhiam um professor da escola para fazer uma homenagem, de dedicação. Os alunos que escolhiam. Eu fiquei durante seis anos consecutivos. O pessoal falava: "Marmelada, Juju! Você está comprando os..." Eu falei: "Como eu vou comprar crianças de sete anos? Você está louca?" É que todos elegiam, e eu tinha os meus filhos… Foi muito bom, mas ali eu tive segurança de que eu não era do ramo. Fiz como tinha que fazer. Tem que ensinar, eu ensino, mas não tenho… Diferente da minha irmã, que também é professora e tem aquela coisa, fala com paixão, sabe? Eu, não: fazia porque tinha que ganhar o dinheiro e pagar a faculdade. Na primeira oportunidade que apareceu, eu ó!
P/1 - Julieta, você do seu filho e do seu marido. Você chegou a casar?
R -Casei, eu tive cinco filhos.
P/1 - E como você conheceu o seu marido? Como é que foi?
R - Era lá do bairro. Depois de um certo tempo eu não tinha mais aquela ligação com o bairro, aí passei a frequentar outros bairros. Tinha minhas amigas que não eram dali, então a gente não ficava muito ali. Ele era dali, ele é da primeira parte da minha vida, da minha infância, da escola do mato. Era a minha mãe, a mãe dele e mais outro, então eram bem esporádicos os lugares. Era uma dessas famílias do mato. Só que ele tinha uma realidade diferente, eles eram… Todo mundo era pobre: morava naquele mato, era pobre. Eles tinham menos condições que eu, por exemplo. Tinham menos oportunidade de estudar. Até o primário todo mundo fazia, porque a escola era dentro do mato. Depois, saindo dali, foi mais difícil. Ele não andou muito. Acho que estudou lá mesmo nessa escola que teve. Fez admissão em outro lugar e depois estudou ali no Campo Limpo mesmo, não foi muito longe.
P/1 -  Quando vocês resolveram se casar? Vocês começaram a namorar?
R – Eu tinha ido comprar um sapato no Centro, e voltando, falei: “Ai, tinha que dançar no Club Homs!” A gente ia para uma baladinha lá – não era balada que se falava naquele tempo, a gente ia num baile –, aí eu fiquei tão cansada que  andei bastante na cidade, que falei: “Não vou, não.” Tinha uma  vizinha minha, falou: Você não quer vir aqui na minha casa? Porque eu vou fazer um bailinho aqui.” Tinha esse negócio das famílias fazerem baile em casa. Meu pai não gostava muito, porque ele não gostava de bagunça. Eu falei para o meu pai. Falou: “Já que você não quer ir para lá, fica aí mesmo. Perto de casa, a hora que você se encher é só atravessar a rua.” Eu fui e estava lá o infeliz. Isso nem sei quando era, meados  da década de 70? 72, por aí. Tava lá, virou e falou: "Que casa você mora?” Falei: “Moro aqui, mas todo mundo me conhece. Você não me conhece?” Porque eu sempre fui muito... Ele falou: “Eu moro lá.” Eu falei: “Ah, conheço a sua mãe.” A mãe dele era do grupo de reza da minha irmã. A gente ficou conversando: “Você estuda e tal?” Falou: “Não.” Quando falou já me deu um arrepio (risos). Falou: “Ah, mas eu vou voltar a estudar.” Falei: “Ah, tá. Então tá.” Nessa época, meu pai tinha uma Kombi e um Ford 46, Coupe, azul prata.Era o carro que... Meu pai era meio playboy, então era cabeçote rebaixado, sabe? Umas coisas que ninguém entendia muito: aquele cara, aquele velho com aquele carro, com aquele ronco. Tinha uns pneus grandes, umas talas, falava: “O que é? É louco?” Todo mundo gostava de ver os carros do meu pai. Dia de sábado, estava saindo e ele estava lá no portão. Meu pai: “Você conhece minha filha?" “Eu conheci ali na casa da Neimara" "Ah, que bom!" Começou a conversar, meu pai chamou ele para ir tomar um café e mandou eu fazer. Eu estava pronta pra sair, falei: “Eu não vou fazer café para ninguém! Uma, não sei fazer café. Duas, já estou de saída.” Fui embora, meu pai falou: “Volta amanhã que ela vai te fazer um café.” Falei: “Que isso? A troco do que agora?” Ele voltou, cara-de-pau! Veio a mãe e ficou aquele negócio: “Hahaha, lembra? Pequenininha?”  Eu tinha um cabelão e usava umas tranças quando eu era pequenininha. Daí começou: veio a mãe, conversou com a minha mãe, e com aquela coisa de visitar, quando vi, eu estava namorando com o cara. Falei: “Nossa, não me lembro desse cara ter me pedido para namorar. Ficou vindo, e agora.... Que isso?” Eu falei um dia para o meu pai: “O senhor está pensando o quê? Dama antiga? Não existe mais, hoje a gente escolhe! Quem falou que eu quero com esse cara?" Falou: “Ah, é um rapaz bom.” Eu estava sem namorado mesmo, precisava… Para sair com namorado deixava, então pensei na conveniência. Fui ficando, vivi com o cara durante trinta anos. Na hora que eu enjoei, abri a porta e falei: “Vai embora que eu não tô podendo” (risos). Eu sempre fui muito determinada na minha vida. Falei “Ah, não. Meu Deus do céu, estou ficando velha, o cara preguiçoso. Será que eu vou ficar velhinha e ainda ter que trabalhar para sustentar esse cara velho?” Chamei meus filhos e falei: “Olha, o seguinte: se o seu pai não procurar uma atividade forte, de homem da casa, está fora. Eles foram vendo, falaram: “É, mãe. Está difícil para você” Eu: “Falta quatro anos para eu me aposentar. Já pensou, ainda ter que rachar a aposentadoria?” Porque quando a gente fica velho precisa tomar remédio. Agora que tomo muito… Imagine, nunca tomei remédio na minha vida e hoje eu tomo remédio de pressão. Agora começou o negócio no pé. Tomo remédio para tudo: para operar o pé, para num sei o quê. Falei: ”Agora, depois de uma certa idade, tem que tomar remédio e esse cara não quer trabalhar? Não, filho. A porta da rua é a serventia da casa.” Meus filhos também não estavam precisando me amolar.
P/1 -  Antes dessa história você teve todos os seus filhos. Como foi ser mãe?
R - Era difícil, porque eu tive um atrás do outro. Tinha que conciliar trabalho, filho, foi over! Em 77 meu pai me deu um carro zero, que eu tinha que trabalhar e estudar. Já tava querendo casar, casei em 79. Meu carro não era tão zero, mas era zero ainda (risos). Meus filhos começaram a nascer... Como é que eu ia carregar criança, mamadeira e tudo? Tudo que ia tinha que levar, não tinha negócio de creche. Depois eu arrumei uma pessoa que ficou na minha casa cuidando dos meninos. Até aí tinha dois, depois de doze anos tive mais três. Daí parei. 
P/1 - Como era o cotidiano com os filhos? Tinha vários para cima e para baixo?
R - Até eles ficarem um pouquinho maiores e que pudessem se virar sozinhos. Pequenininhos, tinha que ter alguém pra levar para escola. Depois que ficaram maiorzinhos eu deixava as coisas tudo... Eles se viravam sozinhos.
P/1 -  Você continuou morando no Campo Limpo, mas em uma casa sua.
R - Sim, era minha casa. Meu pai me deu a casa, não foi meu marido (risos). Depois fui melhorando à medida que foram nascendo as crianças.
P/1 - Depois que você ficou nove anos na escola, foi fazer o quê?
R - Um dia eu saí ali no Shopping Iguatemi e fui passear. Tinha uma ação educativa no Museu da Casa Brasileira, uma exposição: Casa, café e cortesia. Eu falei: “Nossa, mas que lugar é esse aqui? Eu não sei. Igreja, não, porque todas as igrejas de São Paulo eu conheço.” Eu cheguei na portaria e falei “Moço, pode entrar?” “Pode.” “O que é aqui?” “É um museu.” Falei: “Museu? Deixa eu entrar.” Eu entrei e tinha essa palestra dos educadores, falei: “Eu posso participar?” “Pode, por favor!” Sentei e assisti a palestra. Curti, falei: “Nossa, aqui é o meu lugar! Gostei, tem o meu número esse lugar aqui.” Conversei com a coordenadora do educativo na época, falei para ela: “Qualquer coisa, viu? Não venho já querendo ser educadora, que tem que dar um grau, estudar a história do museu, se inteirar do assunto da casa, mas qualquer coisa do museu que esteja dentro da minha competência, e tô dentro”. Tinha uma exposição – essa mesmo, Casa, café e cortesia – que ia acontecer e pegava o museu inteiro. Eles tinham vigias de sala, gente que ficava em uma das salas para cuidar do acervo. Não tinha o suficiente porque eles nunca tinham tido uma exposição tão grande. Elas ligaram no serviço do meu pai e falaram se eu podia passar. Antes de acabar de falar “passar” eu estava lá, e nunca mais saí (risos).
P/1 - Você foi vigia dessa primeira exposição? 
R - Fui vigia e fiquei. Depois eu fui para o serviço educativo, daí fui para o administrativo, até a produção, hoje. Hoje eu tenho uma coordenadoria, lá dentro, de produção, montagem e manutenção. 
P/1 - Da época de vigia, você se lembra da exposição em si?
R - Nossa, como se fosse hoje! Eu ficava nas salas dos moinhos de café, mostrava a evolução dos moinhos de café. O museu tinha outra configuração de espaço, a casa ainda era dividida como os quartos que tinha. Hoje se tiraram as paredes dos quartos, então ficou um espaço amplo, mas era dividido como casa, mesmo. A cada sala tinha uma ambientação, a minha era dos moinhos de café. Desde o que a minha mãe tinha no Campo Limpo (risos) até os modernos, aqueles da padaria que descia o café da cafeteira. 
P/1 - Você comentou que quando foi na ação educativa achou que o museu era o seu número, mas no que você se identificou lá?
R - Elas prepararam todo um material para receber os visitantes. Elas estavam orientando porque eles contrataram, para aquela exposição grande, monitores que não eram do museu para fazer parte. Estavam preparando esse pessoal. Eles estavam explicando que o nome da exposição era Casa, café e cortesia e a evolução de toda a região cafeeira de São Paulo. Eu fiquei: “Nossa!” Assisti inteirinho. Tinha saído para ir no shopping e nem entrei no shopping. Falei: “Ah, vou andar mais um pouco.” A Faria Lima era estreitinha, então o Museu ficava em destaque; hoje ele sumiu no meio dos prédios, mas antes ele destacava bem. "Nossa, que lugar e é esse?” Cheguei em casa e falei para minha mãe: “Você não sabe, hoje eu fui num lugar ótimo!" Minha mãe já tinha ido, ela falou “Eu conheço, ali na Faria Lima.” Falei: “A senhora não me falou?" Ela falou: “Não sabia que você tinha tanto interesse.” A menina me deu uma monitoria do museu e estava em fase de montagem, mas tinha uma parte do acervo. Todo o acervo do museu foi inserido na exposição, foi muito bom.
P/1 - Depois de vigia, como é que foi para continuar?
R - Eles me convidaram, era um freela, vamos dizer. Era um contrato que a secretaria fazia, eles precisavam de alguém na recepção. Tinha na recepção a dona Ana Maria. Ela ficou com hepatite e eu estava lá, trabalhava de terça a domingo. A dona Ana Maria ficou com hepatite e a diretora saiu por dentro do museu ensandecida: "Eu preciso de alguém para cuidar daquele telefone” e não sei o quê. Eu estava bem sossegada, porque cada um ficava na porta de sua sala. Ela: “Menina, tem gente na sua sala?” "Não.” “O que você está fazendo aí?” "Aqui é minha sala, né." Daí ela: “Vem aqui, senta. Você sabe atender o telefone?" Falei: “Lógico (risos)! Não tem segredo. Aqui é diferente dos outros lugares? Na  minha casa eu falo alô, aqui tem que falar o quê?" Ela falou: “Aqui não pode falar alô." Falei: “Então aqui é diferente. Se alguém me explicar, não tem segredo.” Ela falou: “Vamos para lá. Nossa, mas você é um pouco atrevida." Falei: “Não, mas a senhora perguntou e eu respondi.” Ela falou: “Então vamos para lá.” Ligou o telefone, tocou e ela falou: “Atende.” Eu falei: “Tem que falar o que nesse lugar? Alô não pode.” Falou: “Museu da Casa Brasileira, boa tarde!" Falei: “Deixa comigo.” "Museu da Casa Brasileira, boa tarde!" Não tinha ramais, era meio mesozoico o negócio, umas campainhas pra tocar na sala... Tinha várias botoeiras, com interruptor se tocava na sala. Dava um toque, na outra dois toques... Deu outro dia, eu cheguei e estava na minha salinha. Falou: “Você não é mais dali, agora você vai ficar dentro da diretoria para atender o telefone, porque a Dona Maria está com hepatite e é mais fácil achar alguém para lá do que alguém aqui na recepção, porque lá pode ser estudante e aqui eu preciso de alguém que pelo menos saiba falar e tenha uma comunicação. Falei: “Ah, então eu já estou.” Como eu não queria ir para a sala de aula, falei: “Qualquer negócio!” Fui e pelo telefone conheci um monte de gente (risos). Foi muito bom!
P/1 - Você começou a conhecer as pessoas e ter contato, como foi isso?
R - Tinha, porque atendia o telefone. Ficou aquela diretora... Atendia, marcava reunião dos conselhos, fazia tudo ali por telefone. Conheci todos os conselheiros, mandava coisa na casa deles e da diretora. Aí sai aquela e vem uma outra. Era outra estrutura e eu continuei, e ficou perpétua minha cadeira ali. A dona Ana Maria falou: "Eu não quero ficar no telefone, quero ficar dentro do museu.” Ela foi para dentro do museu e eu fiquei na diretoria.
P/1 - Você ficou na recepção até quando?
R - Na recepção eu fiquei de 88 até 92. Eu conhecia toda a estrutura do museu. Em 92 mudou de novo o diretor, veio o Bratke, um arquiteto que não conhecia nada de museu, caiu de paraquedas ali, nem sabia o que estava fazendo lá. Aquele pessoal de ‘infra’ que tinha, de educativo, foi tudo embora, foi renovando, então era tudo gente que estava a menos tempo que eu. Eu era a grande peça de museu ali (risos). Ele trouxe uma equipe para trabalhar com ele, para desenvolver os projetos, conteúdo e tal. “Juju, agora você vai ajudar a gente.” Era ainda a secretaria que dominava: tinha ele, que foi indicado pelo secretário; todas as nossas coisas, verba, vinha tudo via secretaria. Tinha uma burocracia imensa, foi explicando passo a passo, aprendi tudo rapidinho. Aprendi tudo. Eu nunca fui funcionária pública. Eu pedi demissão daquele colégio e quando eu fui para a escola particular pedi demissão do Estado, para  não dar a ousadia de algum dia alguém querer chamar. Nesse museu tudo era público, mas os funcionários não, daí começou: como que eu podia ficar? A secretaria não podia ficar fazendo contratinho freela. Tinham as empresas terceirizadas, que prestavam serviço pro museu: a empresa de segurança e a de limpeza. Os diretores foram fazendo acordos com as empresas de segurança, então as empresas de segurança absorviam outros funcionários de dentro do museu e de fora. Estava eu lá no meio, era um apêndice (risos).
P/1 - Em 92 você fez funções administrativas?
R - Todas.
P/1 - Todos os fluxos?
R - Tudo. Só não o financeiro, que nunca foi a minha praia. Por isso não fiz Exatas, para não dar ousadia, fiz Humanas, porque tudo que eu conseguia fazer… Mas eu consegui ser uma burocrata, mais ou menos. Eu odeio burocracia, mas seguir o padrão da secretaria era fácil, porque era aquela coisa igual formiguinha em procissão. Foi muito fácil. O museu tinha uma coisa que... O que diferencia ele de um museu convencional? Museu sempre tinha aquela cara engessada, como o nosso, que tem no acervo cômodas gigantes, não sei o quê. Tinha o lance do design, uma palavra que hoje está muito na moda. Eu entrei no Museu [quando] ele estava fazendo o terceiro prêmio de design. O museu estava um  ano, dois, e no terceiro eu cheguei. Eu participei de todo aquele burburinho, era outra vibe. Todo aquele pessoal legal, que desenhava mobília e tal... Eu conheci eles todos (risos). Eles passavam por mim, faziam a triagem, a inscrição e não sei o quê. Foi muito bom.
P/1 - Você ficou no administrativo durante toda a diretoria do Bratke?
R - No administrativo em termos. Sempre tinha o cenógrafo, daí dava o suporte para o cenógrafo, mas à distância, nunca de fazer o orçamento da madeira e da tinta. Era mais o suporte, a ‘infra’ da casa. O que a casa precisava a gente viabilizava de providenciar. A gente não fazia compras diretas, sempre era via secretaria.
P/1 - Depois assumiu a coordenação da...
R - Depois do Bratke? [pausa] O João Marinho veio antes, depois veio o Bratke, depois ficou uma menina que era funcionária, que tinha esse negócio, a diretoria ia embora e ficava... Em 95 veio a Marlene Acayaba. Ela criou uma estrutura, quem vai cuidar do quê. Ela me pôs na responsabilidade de que tudo que tivesse que produzir no museu, podia alguém conceitualizar, a produção executiva é a minha parte. Providenciar para que o sonho de alguém se torne realidade (risos). 
P/1 - Você ainda está na coordenação dessa parte de produção?
R - Sim. Hoje em dia eu ganho uma extensão maior. Mudou a característica e a forma de expor, hoje exige muito mais cenografia, projetos expográficos grandes, você tem uma demanda muito maior. Na época da Délia, de segunda à domingo, que ela era uma pessoa muito ativa. Tem o conteúdo todo na cabeça, ela senta e em cinco minutos monta uma exposição que tem que mandar buscar na Bahia. Você tem que estar com a pranchetinha do lado, faz o orçamento: “Você só tem isso de dinheiro, o dinheiro já foi a metade nesse…” Tentava: "Agora tenho que viabilizar." Era muito legal.
P/1 - Teve alguma exposição que te marcou, ou determinado momento no museu que você fala que foi muito legal?
R - Eu acho que eu consegui porque sou uma pessoa que não sou muito de ficar... Não sei como vocês estão conseguindo me deixar sentada nessa cadeira tanto tempo, eu não sou muito de ficar sentada, embora eu tenha uma mesa gigante (risos). Um momento é diferente do outro, cada conceito desse ou daquele diretor é diferente, porque são cabeças diferentes. Uma galera que eu não conhecia muito e hoje eu tô assim, eram os arquitetos. Conheci os designers que criavam os produtos, agora os arquitetos não tinham. Quando o Bratke veio, por ser um grande arquiteto, colocou no perfil do museu a Arquitetura e o Design, aí começou a aproximar essa gente. Esses arquitetos eu não conhecia e foi muito legal essa chegada. Teve um evento que ele fez, um encontro das Américas, com todos os arquitetos da América do Sul, Latina... Foi muito bom! Gente famosa hoje em dia, quando eu era criança eu vi no museu (risos).
P/1 - Você trazia os seus filhos?
R - Todos, sempre. Todas as atividades que o museu desenvolvia com criança, desde exposição das mais condenáveis, mas que tinham haver com crianças, até atividades que... Condenáveis porque... No conceito de alguns diretores nós fizemos uma exposição da Barbie. Eu sempre gostei da Barbie, mas eles? Nossa! Eles: "Desenho americano, nada a ver! Museu da Casa Brasileira!” Várias rejeições, mas eu nem aí, trouxe minha galera toda. As meninas tiraram fotos que tinha umas bonecas da Barbie, as crianças punham a carinha e saíam com o corpo da Barbie (risos). Tinha brinquedo que interagia para elas pintarem, sem problemas. Os meninos também, mas menos. Os meninos gostavam de ir ao museu porque tem uma área verde grande, gostavam de jogar bola. Era uma jardim não muito frequentado, como hoje. Não tinha restaurante, nada. As crianças podiam vir e ficavam soltas, jogavam bola, mas hoje até isso tem que controlar.
P/1 - Julieta, teve alguma exposição que você disse: "Acho que essa não vai dar", e quando você viu pronta, você falou: “Eu não acredito que deu certo”?
R - Várias, a maioria! O dinheiro é assim [gesto], e o sonho é do tamanho dessa sala. O sonho cai na mesa e fala: “É isso. Tal dia a gente vai abrir." Ainda quer festa com vinho, uísque doze anos. Falei: “Gente, o que é isso?” A pior coisa que aconteceu foi aquele presidente, Collor. A gente tinha uma grana para fazer uma exposição da China, os caras também iam trazer umas coisas. A China faz um pacotinho de coisas que podem viajar pelo mundo, porque o acervo fica lá, ninguém vê. Eles têm umas réplicas milenares, mas isso custa, porque é alfandega, tinha uma porção de coisas. O cara pegou o dinheiro e o governador… Uma página de decreto: quem tivesse coisa de fora do país… Nós falamos: "Gente! E agora?" A diretora falou: “Meu Deus, é a minha ruína! É a minha ruína, é a minha ruína!” Falei “É a nossa, né! Você vai ser demitida e nós todos também!” Tinha material publicado, a papelaria e a divulgação se faz antes. Aí o cara pega o dinheiro? Graças a Deus, a Pinacoteca do Estado tinha alguns soldados de terracota da China. Sei que a gente fez um… Virou a exposição da China. Você não pode ficar  mal na foto, já pensou anunciar uma coisa… Nossa, e foi visitada! Falei para o Emanoel [Araújo]: “Nossa, ainda bem.” Ele tinha uma porção de coisas que não conseguiu sair porque ficou sem dinheiro, que era um recorte, então a China pegou os museus todos e fragmentou, e teve coisa que não cabia lá, porque o espaço que ele tinha para dispor era menor. Aqui o espaço é maior, então teve lá, mas o que eles não conseguiram mostrar virou a nossa. Aquela eu tinha certeza: “Isso não vai sair. Onde a gente vai achar bonequinho chinês a essa hora? De repente ele ligou falando: "Vocês não sabem, estou com um abacaxi! Eu tenho todas as esculturas chinesas, louça e pano e tudo pra mandar fora. E o dinheiro, cadê?" Falei: “Nossa, mandar para onde?” "De volta, porque terminou.” Falei “Nossa, não!" Só foi o custo da Metropolitan da Tiradentes para a Faria Lima (risos), e assim salvou a pátria. O povo achou: “Nossa, eu vi isso na pinacoteca, mas isso eu não vi!” Falei: “Pois é, estava guardado lá.” Pensava comigo: “Estava guardado lá, mas aqui é novidade. Graças a Deus!”
P/1 - Qual a importância do Museu da Casa Brasileira na sua vida pessoal?
R - Eu consegui a melhor coisa. Dinheiro eu não ganhei, eu ganhei experiência bastante. O que eu acho o melhor de tudo: sempre fui muito falante, sempre gostei de fazer muita amizade e eu fiz muita amizade no museu. Muita gente boa eu conheci, de todos os gêneros. De Anthony Quinn – eu fiz uma monitoria para ele quando ele veio para São Paulo – até o Oscar Niemeyer. Um ponto muito legal, que eu consegui ficar no museu e me reciclar, porque veio uma meninada, veio, veio, veio e eu fui ficando, e tenho a mesma cabeça da meninada hoje que está comigo. Isso é ótimo! Tem uma estagiária da FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo], que está indo agora para a Alemanha. O meu coordenador – que tem um coordenador do núcleo, que é um arquiteto – é moço também, está saindo agora. Eu sou a tia que está ali, com aquela coordenação, mas que todo mundo… Tem a mesma cabeça deles, não é aquela tia rabugenta. É uma tia igual.
P/1 - Você se vê no Museu daqui para a frente? Você quer continuar? R - A gente tem que ter o simancol. Afinal de contas, trabalhei minha vida inteira. Faltam cinco anos para eu me aposentar. Eu comprei uma casinha na praia, vou virar caiçara, que daí fica uma molecada para trabalhar, também. Só eu? Lá eu vou precisar do quê? A minha aposentadoria me basta. Eu falei: “Se eu não tiver hóspedes para comer...” Quem for comer na minha casa tem que levar, porque eu vou morar na praia, vou pagar o IPTU, que é mais caro do que aqui... Vou deixar uma casa aqui pronta para os caras. Ah, não! Se for para lá tem que… Cesta básica. Eu vou passar meu fim dos dias lá (risos).
P/1 - Seus filhos, todos encaminhados hoje em dia....
R - Eu tenho as três meninas ainda começando, então eu tenho esses seis anos para dar um upgrade nas vidas delas. Os rapazes tem um músico e um que trabalha no hospital. Minha filha vai entrar na faculdade agora no meio do ano, a outra vai no final do ano para Londres fazer um intercâmbio de inglês, que diz que precisa, senão não consegue... Eu não sei falar nada e consegui sobreviver, ela diz que se não falar ela não consegue. É outra geração, as necessidades são outras. Tem a pequenininha, que tem quinze anos e está no Ensino Médio ainda. Terminando, cai no mundo, vai trabalhar, deu meu dia de aposentadoria e no outro dia... Esses dias eu estava conversando com a minha irmã, ela falou: "Eu acho que ainda vou trabalhar mais uns anos, porque o dinheiro é tão pequeno...” Eu falei: "Meu, mas as suas forças já são pequenas. Você já tá velha…” – vamos dar a César o que é de César, a gente dá uma recauchutada, mas a adrenalina não é a mesma de vinte anos – “Vai querer ganhar mais para quê? Você tem que pensar o remédio, a comida e as contas. E viva o resto." Ela falou “É mesmo.” Eu, no dia que sair a minha, não trabalho mais. Falei: “Na semana que eu estiver tratando dos papéis não estou trabalhando mais”, para ir treinando alguém para ficar no lugar e não deixar a peteca cair.
P/1 – Tá certo (risos). Queria te perguntar como é que foi pra você revisitar toda a sua história?
R - Bom. Eu estava com muito medo, que eu não sou muito de... Eu sou de falar muito, mas assim, vigiada num (risos)... Como eu entrei no site de vocês, vi, legal... Eu vim já fazendo, treinando: "Julieta, relaxa. Relaxa." Eu estou admirada de ter ficado tanto tempo sentada, não fico (risos). Só quando eu estou cansada (risos).
P/1 - Para finalizar, qual você acha que é a importância de trabalhar com história, de trabalhar com memória?
R -  Foi engraçado, quando eu recebi a carta convite, falei: "Olha, chegou minha carta convite do Museu da Pessoa!" O pessoal falou: “Ulalá, até que enfim a Juju vai virar peça de museu!" Ainda hoje, no museu, eu sou a funcionária mais velha. Eu acho que a gente contribui com aquilo que a gente quer fazer e aprende com aquilo que as pessoas querem. Aprendi muito, mas eu dei a minha contribuição também. Eu sempre fui assim: muito caxias, muito coronel. Quem passou por mim não tem queixas (risos), e eu não tenho queixas nenhuma! Se fosse para começar, eu seria mais inteligente: teria vindo passear antes no Iguatemi (risos), conhecer o museu antes e nem ter entrado na sala de aula, vir direto da faculdade para o museu. Eu acho que eu teria aproveitado melhor, porque teve uma época de criação que tinha um pessoal legal, gente peso pesado que eu não conheci. Quando eu cheguei eles tinham ido, se eu tivesse entrado antes eu podia conhecer. Fiquei perdendo tempo lá, mas tudo tem seu tempo certo.
P/1 - Julieta, a gente agradece a sua entrevista.
R - Eu também.(risos). Eu fiquei muito feliz, falei: "Gente, que coisa é essa?” Não faltava fazer mais nada (risos). Eu já tive filho, plantei árvore, só não escrevi um livro.
P/1 - Só não escreveu um livro...
R - Tem umas coisas rascunhadas lá que tenho… Tem um professor que me persegue. Ele falou: “Julieta…” – sempre que ele vai, grava umas coisas – “Eu ainda vou escrever um livro dos bastidores do museu, pelo seu olhar.” Falei: “Escreva! O senhor escreve e eu assino em baixo.” Se é sobre o meu olhar eu tenho que assinar, né? 
P/1 - Está certo. Obrigado, Julieta.
R - Não por isso!

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