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História

Minha querida mangueira

História de: Monique Bispo dos Santos Oliveira
Autor: Monique Bispo dos Santos Oliveira
Publicado em: 04/09/2020

Sinopse

Quando eu era pequena o lugar que eu mais brincava era encima de uma mangueira.

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História completa

Tudo começou com uma chuva torrencial que fez o muro do meu quintal desabar, deixando à mostra o quintal abandonado do vizinho. Lá havia uma goiabeira e uma mangueira, lado a lado. No início subíamos apenas na goiabeira, pois os galhos da mangueira eram altos demais para alcançarmos do chão. Um dia alguém (não lembro quem) descobriu que um galho da mangueira que ficava, praticamente, colado à goiabeira aguentava o nosso peso e podiamos pisar nele e atravessar para a mangueira, lá fomos nós. Deixamos de comer goiaba (que não eram muitas) e passamos a comer manga (verde e com sal), foram muitas até nos contarem que manga verde com sal dá leucemia (mito ou verdade?), abolimos o sal. Fomos os únicos que subiram nela algum dia: eu, meu irmão, minha prima e o irmão dela, mas nossos irmãos eram mais velhos e bricavam cada vez menos com nós duas, até que restou só eu e minha prima (tinhamos 7 ou 8 anos). Bricávamos muito lá, tendo a sombra do pé de manga como proteção do sol, as suas folhas secas caidas como amortecedor de quedas (poucas) e pulos (pareciamos macacos). Sempre gostamos de subir em árvores, mas aquela mangueira bonita, alta e frondosa era especial, transformamos ela em nossa casa, cada pedaço dela era um cômodo, havia um quarto para mim, um quarto para ela (brigávamos porque o dela ficava num galho mais alto), um de visitas, havia uma cozinha (as mangas eram nossa refeição), uma sala e até um banheiro. São tantas histórias que não caberiam nesse pequeno texto, mas eis que um dia (a história mais marcante) o galho que era a ponte da goiabeira para a mangueira se partiu e eu cai... quando minha prima, sentada na mangueira, percebeu o que ia acontecer esticou sua perna até apoiá-la na goiabeira e eu cai sentada na perna dela (ainda me pergunto com meu peso não quebrou essa perna), agarrei na goibeira e acabou tudo bem, se eu tivesse caido no chão, ou morreria ou ficaria com sequelas, sem dúvida a queda era feia. Minha prima descobriu outro geito de passar da goiabeira para a mangueira, mas fiquei com medo e levou um tempo até eu conseguir fazer isso de novo e quando consegui tudo voltou ao normal. O tempo passou, nossas famílias brigaram e a gente acabou se afastando, a mangueira passou a ter apenas eu como sua exploradora. Tranformei-a num parque de diversões, um galho era um pula-pula, o outro era uma gangorra, um escorrega, havia as balanças que eu fazia com meu irmão na goiabeira, até levava minha boneca lá pra cima, uma mãe levando a filha ao parque. A mangueira também foi uma escola, enchia uma mochila velha de livros e cadernos velhos e subia lá, sentava e ficava rabiscando. Era tão divertido quanto foi quando meu irmãos e meus primos brincavam comigo, mas o tempo passou, eu fiz 11, 12 anos e as bricadeiras não tinham mais tanta graça. Eu continuava a subir na mangueira, deitada em seus galhos, olhando o céu eu sonhava, cantava, escrevia em diários, planejava coisas, aquela árvore se tornou minha confidente. Assim como eu envelheci elas também envelheceram, a goiabeira apodreceu, foi cortada e eu, que pulando já alcancava os galhos mais baixos da mangueira, passeia a subir por ela mesmo, sem saber que seu fim estava próximo. Alguns meses depois meu pai cortou a mangueira para poder reconstruir o muro, ela ficou feia e pequena, já não dava mais mangas, suas folhas foram caindo sem se renovarem e eu nunca mais subi nela. O vizinho vendeu a casa para ouyra pessoa que construiu uma nova casa e prendeu as raizes da mangueira, para sempre, debaixo de um piso de cimento. Nos meus 14 anos a mangueira deixou de existir. Hoje aos 24, quando olho para o alto do muro e penso na minha infância, lembro-me da minha querida mangueira. Ah! Saudades dela e daquele momentos com ela! Não pude fazer nada para salvá-la e nem uma foto sua tenho, mas nunca esquecerei daquela mangueira bonita, alta e frondosa que sempre estava lá esperando por mim, até que quando precisou de mim e eu não estava lá, ela cansou de me esperar e se foi, deixando apenas seu fantasma que ainda hoje ronda aquele quintal e as minhas memórias.

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