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História de: Ranulpho
Autor: Laiz Carvalho
Publicado em: 14/03/2018

Sinopse

História de Ranulpho Barbosa de Carvalho, que nasceu na zona rural, no início do século 20, filho de imigrantes espanhóis, e que chegou ao século 21, com a idade de 94 anos ao lado de seus filhos, netos e bisnetos.

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História completa

Meus avós maternos eram espanhóis, vindo diretamente para o Brasil, de um pequeno povoado denominado “Villar Del Pedroso”, perto de Talavera de la Reina, a cerca de 150 quilômetros de Madri. Vieram vovô Adriano, nascido em 1855, vovó Maria, nascida em 1860, Lúcio, nascido em 1895 e minha mãe Teophila (Tomasa) nascida em 1898 – todos nascidos em Villar Del Pedroso, Província de Cáceres. Minha mãe sempre foi Teophila para todos nós. Entretanto, seu nome original era Tomasa conforme os registros que obtivemos na Igreja e na Prefeitura de Villar de Pedroso. Também temos o registro de imigração já no Brasil onde está seu nome como Tomasa. Após o registro da emigração, o seu primeiro documento legal foi a certidão de casamento onde consta como Teophila. Em algum momento entre 1901 e 1914 seu nome foi mudado, não sabemos por quê. Mais de uma vez a questionamos sobre isto e ela também não soube explicar. Isto faz supor que devem ter feito a mudança quando ela era muito pequena, pois não se lembrava de outro nome que não fosse Teophila. No passado, era muito comum “abrasileirar” nomes estrangeiros para o português. Mesmo Adriano era originalmente Adrian em todos os registros originais tanto na Espanha quanto na imigração. Porém, Teophila é bastante diferente de Tomasa para supor que a mudança fosse um “abrasileiramento”. Os únicos que poderiam esclarecer esta questão seriam seu pai Adriano (falecido em 1934), sua mãe Maria (falecida em 1955) e, eventualmente, seu irmão Lúcio (falecido em 1981). Mas ninguém lhes perguntou em tempo. Vovô Adriano era viúvo quando se casou com vovó Maria em 1882. Sua primeira esposa também se chamava Maria e faleceu quando do nascimento de seu segundo filho, também falecido no parto. A sua primeira e única filha do primeiro casamento, também chamada Maria, já casada e que lhe dera um primeiro neto, não veio para o Brasil, ficando na Espanha. Vovô Adriano, portanto, deixou na Espanha seus irmãos, sua mãe Gregória, sua filha Maria, genro e um neto. Nunca mais os viu. No livro 069/260 de Registro de Imigrantes da Hospedaria de São Paulo, hoje Museu do Imigrante, consta a chegada de Adriano Verdugo Ramos (45), agricultor, Maria Asencio (42), Lúcio (6) e Tomasa (2), partindo do porto de Málaga, Espanha, no navio Provence em 27 de setembro de 1901 e chegando a Santos em 16 de outubro de 1901, portanto 19 dias de viagem. Destino: Fazenda Bom Jardim, do fazendeiro José Simplício Ribeiro. Como imigrantes, vieram para trabalhar na lavoura de café. Da cidade de Santos vieram diretamente para Bauru, que na época pertencia à comarca de Agudos. Bahuru, como então se escrevia, é uma palavra de origem indígena e significa “Cesta de frutas”. Os imigrantes já vinham contratados por um fazendeiro. Chegavam à Santos, subiam a serra do Mar pelo trem da São Paulo Railway (SPR, a inglesa) e eram alojados na Hospedaria dos Imigrantes, hoje Museu da Imigração. Lá, eram contatados por um representante do fazendeiro contratante que os acompanhava na longa viagem de São Paulo até a fazenda onde iriam trabalhar e que seria seu novo lar. Tinham como destino a fazenda “Val de Palmas”, em formação, situada além de Bauru mais ou menos uns 20 quilômetros, na região denominada Tibiriçá e que pertence até hoje ao município de Bauru. Continuo a falar de meu avô Adriano. Quando tinha seis anos costumava sentar-me ao seu lado, à tarde, na porta da casa onde morava, na colônia. Denomina-se colônia, no Brasil do interior, os conjuntos de casas onde moravam os trabalhadores da fazenda. Contava-me histórias de sua terra. Hoje posso avaliar com saudades e emoção quando me dizia de seu trabalho na quinta (uma fazenda, uma propriedade agrícola) da qual era o encarregado. Falava da vinha, como se fabricava o vinho, da plantação de oliveiras, da criação de carneiros e de suas viagens à cidade grande (Cáceres) para vender o que produziam. Quase um século depois, minha mãe também mencionou a cidade de Talavera de la Reina como local de entrega de produtos, o que faz sentido, pois Talavera fica a apenas uns 40 quilômetros de Villar. Contou, também, que durante a viagem marítima tiveram grandes dificuldades. Além disso, passavam muito medo das baleias que acompanhavam o navio. Diziam que poderiam afundá-lo. Eu, com a idade que tinha, morando no interior nunca tinha ouvido falar em baleia. Quando vovô dizia que poderiam afundar o navio, tive medo que isso pudesse acontecer com ele, imagine só, a idéia de criança. Naturalmente pensei assim porque gostava muito dele. Estou certo que na ocasião voltei a perguntar-lhe o que era baleia. Ele, com paciência que sempre demonstrou, deu-me a explicação que seria adequada para uma criança. Disse-me que baleia é um peixe que tem no mar (o qual eu nunca havia visto também), do comprimento desta casa muito grande e que encostando no navio poderia tombá-lo. Em seguida, disse-me também que isto seria impossível porque no casco do navio eram colocadas facas como proteção para manterem as baleias afastadas. Não podemos, hoje, fazer ideia do navio em que viajaram meus avós e seus parentes, vendo somente céu e água, vindo para um país absolutamente desconhecido e sem sequer saber como e onde iriam viver. Faço idéia de como devem ter ficado alegres no dia que o capitão lhes anunciou a chegada ao Brasil, destino que tinham como certeza.

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