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História

Minha Guerreira

História de: Waldirene Faustino de Miranda Gambeta
Autor: Ariana de Lima Nakamura
Publicado em: 08/10/2019

Sinopse

Wal nasceu em São Paulo e sempre morou na zona norte. Sabe que sua família chegou a morar no Jardins das Pedras, mas era muito nova para se recordar. Com carinho, fala de sua infância no Jardim Brasil, lembra da casa que seu pai reformou, e da ajuda de todos, mãe, tia, prima, para pintá-la. Uma verdadeira festa. 

Quando chovia muito forte, entrava água na casa, e ela e seu irmão adoravam, pois ficavam brincando na água. Havia uma cozinha ao fundo, bem pequenininha, comportava o fogão, a pia, a geladeira e um armário bem pequeno. A sala já era um pouco maior, com mesa, sofá e todo o resto. Depois, tinha o quarto, com uma cama de casal, o guarda-roupa e a beliche onde dormia embaixo de seu irmão. No fundo da casa, o banheiro.  

Brincava muito na rua, esconde-esconde, pega-pega. Uma rua sem asfalto, tudo de terra, e conta que quando veio a máquina para fazer a pavimentação e passar o encanamento, foi a coisa mais gostosa do mundo, porque eles subiam e brincavam nas máquinas,  era aquela bagunça, entravam nos buracos onde iriam para passar o encanamento, era uma grande diversão. 

Também se recorda das idas ao Horto, que naquela época era todo limpinho e só famílias que o frequentavam. Wal conta que seu pai adorava levá-los ao Zoo, ao centro da cidade, de mostrar e contar sobre as coisas. E igualmente se recorda de quando seu pai perdeu a mãe e entrou em uma profunda depressão, algo que marcou sua família. Tempos difíceis que felizmente passaram. 

Sua mãe era muito parceira e muito próxima, o que a faz refletir sobre os dias atuais. Para Wal, a diferença de hoje em relação àquela época, é que as mães ficavam em casa, então, as crianças estavam sempre na rua, sempre brincando. Hoje em dia, a criançada não pode mais fazer isso, a mãe trabalha, o pai trabalha, e as crianças ficam na escola o dia inteiro. Naquela época, também não havia tanto perigo, pondera. 

Wal começou a trabalhar cedo, conta que fez um curso na Casa do pequeno trabalhador, lá na Avenida 9 de Julho, algo como o programa Jovem Aprendiz de hoje. Seu primeiro serviço foi na Petrobrás, trabalhou em um prédio que ficava na Estação São Joaquim, e depois foi trabalhar na Ericsson. 

Nessa mesma época, começou a namorar e logo em seguida resolveu se casar. Casou-se com 16 anos, com seu parceiro que permanece até hoje, e lembra que a primeira coisa que fizeram foram ir ao Mappin comprar o dormitório de sua futura casa. Conta que seu pai não gostava muito da ideia, achava ela muito nova, mas depois de sua “ameaça” dizendo que ela iria engravidar e que ela iria se casar de qualquer jeito, bem, ele aceitou. 

Casaram-se em fevereiro de 1988, primeiro no civil, no Tucuruvi. Depois, casaram-se na igreja católica, na mesma igreja que seus pais se juntaram. Seu pai lhe cedeu uma casinha de aluguel bem perto de sua casa, reformaram-na e se mudaram para lá. E em dezembro do mesmo ano, engravidou de sua primeira filha. Ela nasceu em setembro de 1989.

Wal conta que sempre trabalhou antes de se casar, mas quando ficou noiva e anunciou seu noivado em seu escritório, foi dispensada do serviço e nunca mais voltou a ter um emprego. Apenas anos depois ela foi se reencontrar, hoje, Wal é artesã. Ela conta que sempre fez artesanato, mas que sempre considerou sua atuação como um hobby, fazia porque gostava. 

Um dia, abriram inscrições para artesãos na zona norte, incialmente, foi resistente a ideia de sua filha, mas acabou aceitando, participou da seleção e foi aprovada. O artesanato era algo costumeiro para ela, começou com crochê quando tinha uns cinco anos de idade. Sua mãe fazia, sua avó também. Foi ela quem fez seu enxoval de casamento, as roupinhas de bebês, não se tratava de uma profissão, era algo que sabia fazer naturalmente. 

Entrar para a Rede CriaNorte transformou sua vida. Hoje, Wal percebe que possuí uma profissão e orgulhosamente se vê como artesã. Também tem seu próprio dinheiro, uma coisa que não tinha por ser dona de casa. O salário de seu marido sempre foi a única renda, ele que pagava as contas, agora não mais, Wal ajuda em casa e também consegue comprar umas coisinhas para si.  Nos cursos oferecidos, pôde aprender a trabalhar em grupo, a lidar com o egoísmo e as diferenças, além de valorizar seu trabalho e precificá-lo.  

Se no começo seu marido ficou um pouco assustado, hoje ele a apoia. E seus sonhos, outrora adormecidos, voltaram a ser pauta. Objetiva ter sua própria loja, comprar um carro e uma casa na praia, e se vê um dia morando em Ubatuba. Quem sabe? Ela tem certeza que vai conseguir. Hoje, Wal se sente importante, algo que não sentia há muito tempo. 

Wal é apaixonada pela zona norte de São Paulo, mesmo com todos os seus problemas, e se despede em sua entrevista lembrando da importância de se registrar histórias de vida como a dela, uma trajetória que não foi um mar de rosas, mas que felizmente também tiveram muitos momentos bons. Que fique esse legado, a história de uma mulher, mãe, artesã, da zona norte de São Paulo, para outros ouvirem.

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História completa

 

Eu cresci porque eu queria me casar. Meu sonho era esse, ter minha família, ter meus filhos… Era o meu sonho de criança, além de ser professora e de ser aeromoça, eu almejava isso. Porém, meu marido não queria porque nós éramos muito novos, eu tinha 16 e ele 20 anos. Ele falava: "Não, vamos esperar, vamos trabalhar primeiro, construir nossas coisas e depois a gente tem um nenê"; e eu: "Não, eu quero um nenê!". Ele não queria e eu passei a fingir que estava tomando anticoncepcional. Ele pensava que eu estava tomando, mas eu não estava, e assim, nasceu minha primeira filha, a Pâmela, que faz 30 anos agora.  

Ele não queria, não, mas na hora que eu contei, ele ficou feliz da vida; e veio a nossa primeira filha, que a gente chamava de “patinha”, porque ela andava e parecia uma patinha… Mas foi legal, para ele que não deve ter sido muito, mas depois que aconteceu e já estava ali, não tinha como voltar atrás, não é?  

Depois, quando a Pâmela estava com dois para três anos, eu… Digo eu, porque ele também não queria, mas eu decidi que teria mais um filho. Ele falava que não… E aí, veio a Jéssica.  Quando a Jéssica estava com três para quatro anos, ele quis ter um menino, e dessa vez era eu que já não me empolgava tanto, mas como ele queria, eu falei "então, vamos tentar um menino", que era para ser o Renato, só que veio a Renata. Resultado é que “fechamos a fábrica”, "chega, não dá mais para ter nenê". 

Agora, ter três filhas é uma realização tremenda, eu sou muito feliz, e eu fiquei ainda mais contente depois que virei avó, porque nada supera ser avó. É a melhor coisa do mundo.

Nós tivemos a Renata, nossa terceira filha… Em sua primeira semana de vida, ela se engasgou e logo voltou ao normal. Na segunda semana, a mesma coisa, outro engasgo. E depois, na terceira, ela engasgou de novo. A gente passou… Nós a levamos ao médico, minha mãe chegou a sugar o nariz dela e tudo. Fomos ao médico e ele disse que não era nada, que era normal. 

O problema é que a Renata começou a ser mais “lerdinha” que as outras meninas. Ela demorou para sentar, demorou para andar. Quando ela estava com nove meses, eu a levei a um neurologista e ele falou que era normal, que eu não precisava me preocupar, que cada criança tinha seu tempo. E foi passando o tempo… Com um ano e meio ela começou a andar, mas ela não falava, não balbuciava. Com dois anos e meio, a minha filha mais velha trocava muito as letras e a professora pediu para levá-la ao psicólogo, para poder fazer um tratamento, e eu aproveitei e levei a Renata junto. Lá, eles viram que a Renata realmente tinha um atraso, não sabiam o porquê, mas tinha esse atraso. Pediram para eu colocá-la na escolinha, e ela a começou com dois anos e meio...

Hoje, a Renata tem 23 anos, e ela é uma guerreira, uma lutadora. Ela dá uma força tremenda para gente. Quando pensamos que não vamos conseguir, ela está ali, para te fortalecer e para te ajudar. A Renata estava com nove anos, estávamos num show de patinação – a minha cunhada fazia patinação artística - e ela começou a ter febre, uma febre super alta, quase 39 graus. A gente chegou do show e já fomos direto para o hospital com ela. Chegamos, e o médico falou que era garganta, deu uma Benzetacil nela. Na época, eles gostavam de dar essa injeção, um antibiótico. Voltamos para casa e a Renata não melhorava.

 No outro dia, voltei com ela para o hospital, e o médico falou que o problema dela era a garganta, mas o remédio não tinha feito efeito e eles iriam dar outra indicação. Optaram por outro antibiótico e voltamos para casa novamente. Mas a Renata não melhorava, e nisso, a barriguinha dela começou a inchar e ela ficou muito ruinzinha. 

Voltamos ao hospital com ela, segunda-feira, e o médico a internou. Disse que não sabia o que ela tinha e que eles iriam investigar, só que ela não poderia ficar naquele hospital, teria que ir para outro, porque lá não tinha vaga. Nos encaminharam para o São Paolo, em Santana. Chegamos lá e os médicos colocaram uma sonda nela porque não estava funcionando seu intestino e por isso a barriga dela estava muito inchada.

 Os médicos vinham, examinavam, e não sabiam o que ela tinha. Isso foi na segunda-feira; terça-feira, ela foi para o quarto e lá eles tiveram que amarrá-la na cama porque ela arrancava a sonda. O médico vinha, examinava, e nada. Vinha, examinava, e nada. Aquele monte de médico, monte de exame que faziam, e nada, ninguém descobria o que ela tinha. 

E aí veio um médico, ele fez exame de toque nela (retal) e nada, não descobria. Ele era o cirurgião, pegou e falou assim para mim: "mãe, você autoriza a gente a abrir a barriga dela? Porque eu acho que ela está com apendicite. Apesar de ela não demonstrar dor, a gente acredita que ela esteja com apendicite"; eu e meu marido autorizamos e ela foi para a cirurgia, fez a primeira cirurgia dela. Ela entrou no centro cirúrgico, devia ser umas nove, dez horas. Na madrugada, umas duas horas da manhã, o médico veio falar com a gente que tinha feito a cirurgia, que realmente era o apêndice que tinha saturado. Ele mostrou para gente que já estava até gangrenando o apêndice dela. Como ela tomou o antibiótico, mascarou os sintomas e eles não conseguiam descobrir o que ela tinha por conta disso. No hospital, não tinha na época a UTI pediátrica, então, ela teve que ser transferida e foi para o hospital Alvorada lá no Ibirapuera. Lá ela ficou na UTI alguns dias, acho que uns três, quatro dias, e depois foi para o quarto. 

Ela estava melhorando, estava boazinha, só que eu achava que ela não estava 100%. Conversamos com o médico e ele falou que precisaríamos ter que esperar mais, que ela teria que seguir um regime e ficar sem comer por um período, só no soro e na sonda, mas que se ela estivesse bem, logo iria embora. Fomos para o quarto, chegamos lá e ela estava melhorzinha. Ele tirou a sonda e falou que se ela continuasse assim, no outro dia já teria alta. No outro dia, o médico chega, a gente conversa com ele, e a barriguinha dela estava inchada de novo. Teríamos que fazer outra cirurgia... 

Ela saiu da cirurgia e foi para a UTI direto, e só foi piorando, a barriga foi inchando, os pés foram inchando… Eu olhava desesperada para o meu marido. Minha mãe, meu pai, meu irmão, todo mundo lá ajudando a gente, dando força. E ela só foi piorando, piorando, piorando. Naquela noite, eles tinham que ir embora e eu fiquei lá na UTI com ela. Eu liguei - era 4 horas da manhã, mais ou menos - para eles e falei "corre porque a Renata vai morrer". O médico que tinha feito a cirurgia não estava mais no hospital, tinha ido para uma conferência, acho. Eles chegaram, foram falar com a enfermagem e chamaram outro cirurgião. Na hora que esse outro cirurgião chegou, falou assim: "Olha, a gente vai tentar salvá-la, não vou garantir que vamos conseguir, mas a gente vai tentar, não vou dar esperança para vocês, se agarrem na fé de vocês". E ela foi para a cirurgia de novo, a terceira cirurgia em menos de 15 dias...

Ela estava muito fraca no centro cirúrgico, tinha que tomar sangue, ela sofreu muito e estava bastante inchada. Eu não conseguia mais permanecer com ela no hospital, eu não tinha condições, não tinha mais forças para continuar com ela, e foi minha mãe que ficou naquela noite. Minha mãe conta que ficou rezando, pedindo a Deus e virando ela. E toda vez que minha mãe a virava, disse que saía uma sujeira. Minha mãe ficou a virando a noite inteira, pedindo força com as orações que ela fazia, e graças a Deus, a Renata se recuperou. Só que foi um período muito difícil. Isso foi em agosto e a gente ficou com ela até dezembro nessa corrida de ir para o hospital e voltar para casa. Chegava no hospital, ela ficava internada, porque eles colocavam a sonda de novo, porque o intestino dela grudava, não tinha passagem, e tudo que ela comia, voltava. 

A gente ficou nessa luta com ela seis meses: ia para o hospital, ficava internada e voltava para casa. Uma vez, nós a levamos para internar e a gente foi falar com o primeiro médico que a tinha operado, ele estava de plantão. Nisso, ele falou que teria que operá-la novamente, e aí meu marido questionou: “Mas por quê? E como você vai fazer isso? Vocês vão operá-la até quando?". O médico virou para ele e disse assim: Até quando não der mais". Então, quando a gente chegava no hospital e víamos que ele estava lá, a gente nem entrava. Eu falei com a enfermagem: “Eu não quero mais que esse médico chegue perto dela, não quero mais ele aqui"; e aí, foi o segundo médico que havia a operado, na segunda cirurgia lá nesse Hospital Alvorada, o doutor José Armando, que continuou tratando dela. Ele que internava a gente, ele que liberava, porque eu ficava um período e começava a entrar em pânico. De madrugada, eu ligava chorando para o meu marido contando:  "ai, ela vomitou", "ai, ela fez alguma coisa diferente", e eu não o deixava dormir. Ele não dormia e nessa época também ficou doente, começou a ficar com pressão alta por conta do nervoso que a gente passou com ela. 

Em dezembro, graças a Deus ela começou a melhorar e passou. Só que quatro anos depois da Copa do mundo, ela ficou ruim de novo, ela teve novamente bridas – esse processo de grudar o intestino é chamado de bridas. Só que a gente já tinha uma noção melhor. Fomos para o hospital São Camilo e o mesmo médico que operou a Renata pela primeira vez, foi o que a operou nessa última. Ele perguntou como que tinha acontecido e viu como o intestino dela tinha grudado novamente… Grudou tudo no… Eu não sei como se chama, é uma membrana que tem dentro da barriga e tinha grudado todo o intestino. Ele não sabia dizer o que tinha acontecido, mas ele a operou novamente e, graças a Deus, ela nunca mais teve nada. Está gorda e forte agora. Ela é uma guerreira.

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