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Minha formatura

História de: Marcel Pontes
Autor: Marcel Pontes
Publicado em: 16/12/2019

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MINHA FORMATURA

 

Meu nome é Marcel Rocha da Silva Pontes, tenho 44 anos, sou nascido em Cananéia/SP. Litoral Sul do Estado de São Paulo, um lugar lindo de se viver. Morei em São Vicente/SP uma cidade belíssima também; e atualmente moro em Suzano/SP. O que quero relatar, ocorreu entre a moradia em São Vicente/SP e Suzano/SP, onde moro atualmente, fazem 6 anos, junto de minha esposa e filha. Bom, sou formado em História Licenciatura Plena, comecei os estudos em 2012, na cidade de São Vicente/SP e terminei em 2015, na cidade de Suzano/SP. E o fato que quero relatar, é justamente por ser formado em História, por ter uma formação superior; mas antes de iniciar os estudos de formação eu havia prestado concurso público na cidade de Suzano/SP; prestando para o cargo de “ajudante geral”, pois trabalhava de porteiro, tenho formação de Vigilante, Carro Forte, Escolta Armada, Curso de Empilhadeira, Frete e Cargas, Capatazia, Datilografia (fui professor por 6 anos), Computação e outros conhecimentos a mais. Mas sempre trabalhei como vigilante e porteiro. E antes do concurso estava trabalhando de porteiro noturno... e já estava no segundo semestre da faculdade, inclusive iniciei os estudos no mesmo ano em que fiz o concurso. E no ano seguinte, 2013 fui chamado pelo concurso, fiz o concurso, havia passado, mas jamais imaginei que seria chamado. E a minha esposa que havia feito o concurso também, para professora, não havia passado; porque pensava comigo: - Ela faz o concurso, passa e nos mudamos para Suzano, arrumo um emprego por lá. Então muitos me questionam quando falo o meu cargo no serviço público, por eu haver feito uma faculdade, ser professor apto a dar aulas, por que não vai dar aulas e ganhar mais; porque não faz concurso para professor. Tenho sempre que explicar o por que não posso... Então muitos perguntam datas, coisas sobres acontecimentos antigos, lugares, personagens e eu não sei responder. Aí falam: Ué, você não é professor de História? Devia saber! Dou uma escapulida fugindo do assunto... e um dia, numa dessas num curso; me apresentei e falei o que fazia; que era formado em História; eu percebi os olhares de indignação, surpresa ou sei lá o que; de alguns por falarem e perguntarem e eu não saber responder. Não fiquei triste nem nada, mas comecei a refletir e algo falou na minha consciência... e é isso que quero relatar aqui. Comecei a comparar os meus estudos, minha formação como uma resposta que eu queria ter dado para aqueles olhares, vontade de desabafar lá na hora, mas desisti, não consegui e também não valeria a pena. Que é mais ou menos assim: Pense em um homem que resolveu construir a sua casa o seu sonho. Tinha dinheiro para pagar arquiteto, engenheiro, mão de obra e material. Pagou. Pagou até que fazendo cálculos e revendo as contas e as coisas que vieram a acontecer; ele teve que deixar de comprar material e sem material não dá para o pedreiro trabalhar e então também o pedreiro não trabalharia não só pela falta de material, mas porque descobriu que o homem não tinha mais como paga-lo. Então a obra parou, a casa de seus sonhos ficou inacabada. O pouco que juntava conseguia comprar material, mas não sobrava para que alguém o fizesse; o que ele podia fazer, o que ele sabia fazer, fazia; e o que não podia ou não sabia, não o fazia. Então o material foi se acumulando, porque se esforçava para comprar, mas o comprar era muito mais do de fazer. Bom, ele tinha a casa, mas não aquela casa completa, faltava muito pra concluir. Ele tinha a casa que já podia morar, já podia acolher pessoas do sol, da chuva, dos ventos, da tempestade; uma casa com acolhida, mas não uma casa com conforto. Assim sou eu... um professor formado em História; posso acolher pessoas do sol, da chuva, dos ventos, da tempestade. Um professor com acolhida de alguns saberes; mas não um professor com o conforto e segurança de um vasto conhecimento. Porque durante a caminhada fui fazendo cálculos e não pude comprar livros, fazer passeios, viagens, participar de palestras, etc. Quando juntava um dinheiro comprava livros artigos, mas não era o suficiente se não tinha quem o ensinasse. Nos 3 primeiros anos eu não tinha computador, nem internet, usava o da faculdade quando ia para a aula, ou então usava o da tia da minha esposa quando ia para São Vicente/SP. E teve uma época que faltou muito, mas consegui me formar pagando atrasado e fazendo acordos. Nunca havia participado de formatura e a minha esposa me deu força e decidiu que eu haveria de participar. Conseguimos uma grana e deu para pagar só a colação de grau, não tinha direito de participar da festa, que seria no mesmo local, logo após a colação. Chegou o grande dia... e o dia mais feliz da minha vida também foi o dia mais triste. E neste dia, ou devo dizer nesta época, era a época em que estávamos muito mal de grana. Tinha a formatura para participar e a formatura para, sei lá, acho que desespero, invés de ser em Suzano mudaram para Mogi das Cruzes. Busquei saber onde era, não era tão longe. O carro estava com combustível, tudo certo. No dia depois do almoço, começamos os preparativos para irmos, falei para a minha esposa para irmos cedo para achar lugar para estacionar. Nos arrumamos, tomamos o café da tarde e fomos. E saímos; eu e minha família, felizes pelo dia da minha formatura, mais um professor na família. Arrumados, e eu somente com R$ 15,00 no bolso. O que sobrara do meu salário. Todos com alegria por fora, mas um turbilhão de pensamentos por dentro; pelo menos eu me sentia assim; creio que a minha esposa um pouco pior, porque devido a nossa situação, ela havia até pensado em me deixar sozinho em Suzano e voltar para São Vicente, pela dificuldade do momento, ela não havia conseguido nada de emprego, nem pegar aulas de eventual nas escolas; e o desespero ia se instaurando. E eu ia segurando as pontas, se fazendo de forte e dizendo que tudo iria melhorar. Chegando no local da festa, não podia estacionar na rua de frente ao clube; o carro não tinha seguro, para estacionar no local que havia, era distante e inseguro. Minha esposa com medo disse para deixar no estacionamento do clube. Mas para deixar no estacionamento custava R$ 15,00. Sem escolha, e por pressão da minha esposa; e quando ela fala eu acredito. Paguei os únicos R$ 15,00 que tinha no bolso; o qual seria para comprar uma pizza para jantarmos e comemorarmos a minha formatura. Fizemos isso e ao mesmo tempo ficamos arrasados, porque havia dito a minha filha que depois comeríamos uma pizza. Como eu só participaria da colação e não da festa, então sairíamos para comer a pizza. E mesmo feito isso não contamos a ela; optamos para contar a ela sobre o dinheiro e o não poder comer a pizza na volta pra casa, para não estragar a alegria; pois ela estava muito alegre com o acontecimento. E também a gente não participava muito a ela as finanças da casa. Ao contrário de hoje que conversamos muito, somos muito abertos a ela os acontecimentos da família. Então entramos, sentamos, eu fui pegar a roupa para a formatura, a beca; chamei a minha filha para tirarmos umas fotos escondidas. Pois não podia tirar fotos no local, a não ser que pagasse para a equipe que estava no local fazendo as fotos. Bom, se iniciou a colação. Aquela alegria, aquela euforia. E logo findou-se... Chegou o momento da retirada de todos do recito para a arrumação da festa. Todos indo se trocar, se preparar para festejar, outros indo embora, aquela alegria e choros de despedidas, para aqueles que passaram quase quatro anos juntos em uma sala de aula. E chega o momento de irmos para o carro; de irmos embora. Enfrentarmos a dura realidade e ainda ter de revelar a minha filha de que nossos planos mudaram. E o pior, dormirmos de barriga vazia. Eu pedindo a Deus uma saída para aquela situação, estava ficando nervoso, a minha esposa notando a minha revolta, pediu para ter calma, eu iria dirigir, a nossa filha não podia notar... estávamos a ponto de chorar ali mesmo, até que, antes de irmos para o carro se despedindo de alguns, escutando aquela ladainha “Porque vai embora?” “Fica aí, vai; hoje é nosso dia!” “não vai ficar pra bagunçar com a gente?”, coisas desse tipo. Até que alguém me chama perguntando do outro amigo que combinara com ele da festa. Disse que não sabia, que estava indo embora, porque só tinha pago pela colação e não a festa. Até que ele vira e diz: E agora o que eu vou fazer com esses convites? Eu comprei para a família, mas acabou vindo só eu e a esposa, os filhos tinham outro compromisso. E o amigo ia ficar com o convite porque o dele também era só o de colação. Foi quando veio aquele balsamo aos nossos ouvidos. Você não quer ficar com os convites para ficar na festa com a família, assim faz companhia pra nós. Olhei para a minha esposa que estava com os olhos marejados e eu também, num esforço para não chorar. Respondi ao amigo: Se não houver problema. Nós ficamos. Logo a minha esposa e filha estavam a papos largos com a esposa do amigo e eu em um converse com ele. Curtimos a festa. Muita alegria. E eu por dentro, era só alegria e agradecimentos por nos abençoar com aqueles amigos, com aquele momento. Depois nos despedimos com muito agradecimento e ele dizendo “que é isso” nós que agradecemos a companhia de vocês. E ele sem saber da nossa situação. E até hoje ele não sabe. Tenho uma vontade de contar, mas ao mesmo tempo que não apareceu oportunidade, não há coragem. Eu e minha família fomos embora felizes da vida. Contamos a nossa filha a situação e o porquê de estarmos tão felizes a ponto de chorarmos. Deus foi bondoso, fiel e poderoso e nos mostrando que ele sustenta os seus. É isso, esse foi um, dos momentos marcantes em minha vida.

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