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História

Minéia, princesa do Egito

História de: Minéia Miranda Santos de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2010

Sinopse

Depois de dar trabalho para a mãe, na adolescência, por não querer ir à escola, Minéia descobre a paixão pela educação quando seu filho entra numa creche. Substituindo educadoras em licença-maternidade, conseguiu se aproximar daquilo que era seu sonho: estudar. A adolescência e a entrada para a vida adulta são narradas com muita reflexão sobre a educação, a escola pública brasileira e o papel do educador para a formação do aluno.

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História completa

Todos os meus irmãos têm nome começando com a letra M: Maria D’ajuda é a primeira. Hoje, ela não gosta desse nome porque é igual ao de uma santa que tem na Bahia. Como ela é testemunha de Jeová, fala que esse nome é horrível, por isso chamamos ela de Day. Aí depois tem o Marcos Aurélio, que é o mais velho dos homens. A Maritânia, Milton César, Milta, Minéia, que sou eu, Mirivan, o Mábio e Mábia. Somos em nove. Mas também tem o Marcos, irmão por parte de pai.

 

As pessoas tinham curiosidade em saber a origem de Minéia e, na verdade, segundo a minha mãe, a escolha do nome era porque ela escutava uma novela egípcia que tinha a princesa Minéia e o príncipe Radamés. Ela gostou muito do nome e escolheu esse nome pra mim. Eu gosto muito!

 

Nasci em Belmonte, na Bahia, mas logo criança vim morar em Carapicuíba, na zona oeste de São Paulo. Minha adolescência foi lá. Eu entrei na escola quando comecei a trabalhar, acho que de 13 pra 14 anos. Comecei a trabalhar em casa de família porque via a necessidade de ajudar minha mãe. A gente morava de aluguel, passamos situações de fome e a gente queria as coisas, né? Comecei trabalhando na casa de uma mulher, chamada dona Márcia. Ela era professora, eu lembro que era na Vila Iara. E como eu já tinha vontade de aprender as coisas, eu lia muito, eu lia tudo que eu via, eu lia outdoor, eu lia cartazes, eu lia jornal, eu lia tudo! Aí foi despertando o interesse de estudar! Dessa casa eu fui pra outra, eu não me recordo pra qual casa eu fui em seguida, eu não me lembro. E depois eu fui trabalhar na casa de uma ex-patroa da minha mãe, casada com um nigeriano. Eu me tornei babá das filhas deles. Eram duas meninas.

 

Até então não tinha terminado a escola, mas a patroa percebeu que eu tinha muito interesse. Eu falava muito bem, atendia o telefone super bem, a questão da educação. Eu falava: “Quero estudar, eu preciso, acho que não vou mais trabalhar aqui porque preciso voltar pra escola, preciso me formar”. “Ah, mas não dá pra você estudar!” Como eu tinha que dormir no serviço, que momento eu ia estudar? “Ah, vou comprar uns livros pra você então!” Aí ela comprou aqueles livros de Telecurso, aquela série toda pra estudar pra depois fazer a prova. Mas é muito difícil você estudar em casa e depois fazer uma prova fora, porque não é a mesma coisa de ter um professor explicando. Então acabei desistindo. Fiquei desestimulada, não tive vontade de permanecer mais lá. Aí saí, procurei uma escola pra estudar um supletivo que eu já estava com 16, 17 anos. Comecei a pagar, mas começou a ficar difícil. Acabei voltando pra trabalhar com eles, mas dessa vez no escritório do nigeriano. Era recepcionista de lá.

 

Fiquei grávida e me tornei mãe solteira. Ele se chama Nicolas! No início é complicado, é muito difícil ser mãe solteira no começo. Depois a gente vê que não tem outra opção e eu comecei a tomar como referência a minha mãe que criou os nove, na verdade os dez! E se ela conseguiu fazer isso com os dez, e hoje todo mundo está aí, eu consigo com um só. Voltei a estudar depois que eu já tinha ele. Já estava morando em Ermelino Matarazzo.

 

A creche do meu filho trocou de lugar e precisavam de uma nova equipe para trabalhar. Saíram algumas educadoras que estavam de licença maternidade e fizeram a proposta pra eu entrar! Fui me espelhando muito na minha irmã mais nova, que era educadora de lá, porque eu aprendi a gostar da profissão por causa dela. Via a forma como ela lidava com a situação, as estratégias de trabalho, ela gosta muito de criança. Eu ter me tornado mãe não quer dizer que eu queria me tornar educadora ou professora, mas foi despertando aos poucos, né? Fui observando, eu fui vendo o amor que a minha irmã mais nova tinha e fui pegando isso pra mim também e acabei trabalhando na creche todo esse tempo e depois eu voltei a estudar…


Minha história, se a gente parar pra refletir, ela não é única, né? Eu acho que não sou a única pessoa que tem essa história da migração, o que eu conquistei, toda essa luta. O Brasil é um país que eu não deixaria pra morar em outro. Eu queria muito experimentar outras coisas, mas eu já não queria morar em outro lugar, é uma questão de identidade mesmo! Se eu tivesse nascido em outro lugar, em outro país, por exemplo, eu também iria ter uma história como outras pessoas têm, mas eu não sei se seria a mesma, porque essa é uma história que é única, né? Mas depois de tudo que eu vivi, de tudo que eu passei, eu tenho muito orgulho de ter me tornado a pessoa que eu sou hoje. Eu devo isso a minha mãe, pela força que ela sempre está me dando, meus irmãos também, apesar de agora a gente estar meio que distante uns dos outros, mas a gente está sempre se falando. Então eu devo muito isso a minha família e a minha mãe, eu tenho muito orgulho de ser o que eu sou hoje e também devo isso ao meu país, porque afinal de contas a gente aprende a conviver no lugar onde a gente está inserido, né?

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