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História

Mimi: infância humilde e boteco raiz

História de: Maria Aparecida da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/03/2021

Sinopse

Apresentação e origens da família. Breve atividade dos seus pais, criação no bairro ainda rural na Bela Vista, zona norte de Bauru. A infância difícil. As brincadeiras de rua com as crianças vizinhas. A fase curta na escola e o trabalho precoce. O casamento prematuro e a chegada dos dois filhos. A atividade como sacoleira e as faxinas para a complementação da renda. O cafezinho no ponto final do ônibus perto da sua casa. A compra da casa própria na Vila Souto e a criação do próprio negócio. Da mercearia para o bar mais famoso da região, o Bar da Mimi. A descoberta de um novo amor. A formação dos dois filhos, ele advogado, ela confeiteira. A aproximação da aposentadoria, lazer e descanso.

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História completa

          Meu nome é Maria Aparecida da Silva, nasci em 7 de março de 1961 aqui mesmo em Bauru. O nome do meu pai, já falecido, é Adail Luís da Silva. A minha mãe era Lídia de Araújo Silva. Os meus avós da parte da minha mãe vieram de navio, desembarcaram em Santos, pois eles eram do sertão da Bahia e se estabeleceram naquela linha férrea que estavam fazendo, a Paulista.

          Na infância, eu morei na Bela Vista, inclusive o meu nascimento foi em casa, porque naquele tempo era com parteira, não tinha esse negócio de hospital. Depois, meu pai conseguiu um trabalho no Quaggio, a companhia de ônibus, e a gente foi morar na Nova Esperança, naquela primeira Cohab de Bauru. Ele conseguiu comprar uma casinha, e a gente foi morar lá. Meu pai trabalhava no ônibus e também era chofer particular da família Quaggio.

          Na escola, eu fui até a oitava série, e era lá mesmo na Nova Esperança. Mas eu também já ia trabalhar, porque a minha mãe levava a gente na casa das patroas para descascar milho, descascar alho, cebola, ajudar na limpeza, tirar pó. E em casa, quando não ia com a mãe, tinha que aprender a cozinhar, fazer o arroz, fazer o feijão na lenha, não podia queimar nada. E nada de pôr o pé na rua, porque meu pai era bravo. Então, a gente aprendeu tudo isso: passar óleo de peroba, lustrar o sapato dele, limpar armário, fogão, chão, tudo. Também, ele era bem crítico nesse negócio de limpeza.

          Depois, com 17 anos, a gente já começou com esse negócio de casar, de namorar, e daí eu me casei e já tive meu primeiro filho. Mas o casamento não deu certo, e então eu virei sacoleira, de ir a São Paulo buscar as mercadorias e trabalhar. Aí eu comecei a ir pras fazendas em volta da cidade, na região, visitava os clientes no meio da cana - eu ia aonde o povo ia. Eu tinha um fusquinha azul, ia pras fazendas, levava as mercadorias, parava numa cliente e ficava ali fazendo a região, oito horas por dia. Eram 26 cidades da região.

          Aí eu construí uma casa muito boa, aqui na Vila Falcão. Aí eu fui colocando a lojinha aos poucos aqui em casa. Peguei um dinheiro que eu apliquei pra fazer o bar na frente. E deu certo a loja, porque depois foi virando bar e tinha bastante cliente. Era loja de tudo: linha, agulha, fazia papagaio para as crianças, furava a orelha da molecada, punha gelo atrás. Olha, cada coisa! Isso foi em 1980. E eu pensei na oportunidade, porque tinha um ponto de ônibus em frente aqui da minha casa. Então, eu fazia bolo de fubá, um suco, uma pinguinha, Coca-cola.

          Eu sempre gostei de trabalhar no diferencial também: Natal, Ano Novo, sábado, domingo... alguém procura um bar, Mimi. Até hoje, chega na Vila Falcão e fala: “Onde tem um bar decente, que eu posso sentar, que eu posso conversar, onde que pode ser?” Mimi, eles já me indicam. O pessoal tem fome, vem aqui - já vem com o pão - e quer que eu frito, quer que eu já faço lanche, o torresmo. Sempre eu tenho.

          E aqui, mesmo sendo bar, eu sempre coloquei disciplina. Eu nunca fui de conversa em esquina, papo furado... já vou deixando bem claro e olho no fundo do olho da pessoa. Até sou conhecida como a mulher brava da Vila Falcão, porque eu não gosto de brincadeira no bar, não gosto de piada, eu gosto de respeito, porque aqui é a minha casa. Então, a gente conseguiu colocar desde sempre esse respeito.

          Quanto ao faturamento, pra ser sincera, eu não estou mais nem aí com esse negócio e estou esperando a minha aposentadoria sair. Porque eu já trabalhei tanto, já fiz tanta feijoada, já cozinhei tanto mocotó nessas latonas de tinta, que essa casa que eu tinha de madeira na parte de trás eu queimei toda no mocotó, viu? Eu punha a madeira para cozinhar o mocotó e ficava vendendo pro pessoal. Vende muita cerveja assim, porque a turma vem beber, já que tem comida diferenciada. Eu sempre faço. Hoje eu faço torresmo – apesar de estar parado, por causa desse negócio de abre e fecha da pandemia. E nós temos o terraço aí em cima também, pra servir almoço, comida boa de boteco, mesmo.

          A ideia do terraço era ter um lugar diferenciado, porque é bem pequeno o bar, não é tão grande para pôr bastante mesa, essas coisas. Então, lá em cima é organizadinho e com os clientes diferenciados. Não é qualquer pessoa que entra para dentro da casa da gente; tem que ter uma outra educação. Então, não é para pessoas que passam na rua, mas só para clientes da gente, que a gente conhece. Tem que fazer reserva, e lá eu sirvo as melhores comidas.

          Mas comida tem aqui embaixo também. Aqui vende muito bem essas comidas de bar, porque hoje, com esse negócio de light e diet – muita gente quer saladinha, alguma coisa mais leve -, mas sempre tem aquele pessoalzinho que anda atrás de um copo de mocotó, um copo de caldo de mandioca, um copo de caldo de feijão, um torresmo bem feito, uma moela.

          Aí, quando eu anuncio a aposentadoria, o pessoal aparece tudo chorando aqui. Já estão todos chorando, falam que não tem nenhum bar igual aqui e me chamam de tia, né? “Ai, pelo amor de Deus, vai acabar tudo para nós, vai acabar o almoço, vai acabar...” Mas é que eu sempre gostei de andar por aí. Tenho muita gente pra visitar, pra ajudar, tenho tanta gente pra ir atrás. Porque eu tenho conhecimento com esses caras lá nos gabinetes dos vereadores que prometem as coisas, aí eu vou lá pessoalmente buscar o que prometeram, buscar ajuda - que é uma cirurgia, um remédio, uma atitude pro pessoal mais carente do bairro. Eu vou lá pessoalmente, é tudo amigo meu. Olha quanta coisa que você tem para fazer, quanta gente você tem que visitar, um monte de palavras para falar para as pessoas. Não é assim? Pessoas precisando de Deus, pessoas que estão desacreditadas. Além disso, tem um monte de cursos que eu gosto de fazer: crochê, tricô, um monte de coisa. Eu adoro estar nesses lugares! Vou aproveitar a aposentadoria para fazer isso.

          Ah, e também tem o mato que a gente gosta muito de ir, e eu vou aproveitar mais. Nós vamos sempre para a cachoeira. Cachoeira, pescaria, a gente adora - é mata, andar na mata, estar na mata. Ah, é muito bom a natureza!

          A gente fica muito gratificada de saber que a luta não foi em vão, a educação que a gente deu pros filhos, as oportunidades, as sacolas que eu carreguei nas costas... foi tudo mesmo para conseguir vencer. Então, a gente tem muita paz no coração de ter aquela certeza do dever cumprido.

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