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História

"Meu sonho era ser professora"

História de: Cintia Correia da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/01/2015

Sinopse

A educadora de infância Cíntia contou sua história ao Museu da Pessoa em dezembro de 2014. Em seu depoimento, ela recorda a infância, a ausência do pai e as dificuldades da mãe em criar seis filhas. Cíntia lembra as escolas onde estudou e que por causa de sua timidez teve muita dificuldades nos estudos. Recorda como começou a trabalhar na ONG Quintal Mágico de Osasco e como o trabalho com as crianças é gratificante para ela. Finaliza o depoimento falando do sonho de ser professora e psicóloga e as dificuldades que encontrou na vida.

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História completa

Meu nome é Cíntia Correia da Silva. Nasci em dia 27 de agosto de 1991, em Osasco. Meus pais são Cláudia Correia e Nelson Terto da Silva. O meu pai já morreu faz um bom tempo. Na verdade o meu pai eu nem cheguei a conhecer. Eu nem me lembro dele. Quando ele morava com a minha mãe eu era muito pequena, só que os dois não davam certo porque ele era muito agressivo, aí minha mãe resolveu separar dele e vir morar pra cá onde a gente mora hoje. Aí eu não tive contato, não me lembro dele. Minha mãe passou a trabalhar de doméstica quando ela separou dele. Éramos cinco, tudo pequenas e ela teve que se virar sozinha, trabalhar de doméstica pra poder terminar de nos criar. Tenho cinco irmãs. A mais velha é a Claudinéia, depois dela vem a Daniela, a Sheila, Shirlei, Cíntia e Letícia.

Eu vim pra cá eu tinha acho que um ano, nem um ano ainda. No começo a gente morava numa casa com a minha tia, era grande, de cinco cômodos. Aí não dava certo porque ela brigava demais com a gente, ela batia muito na gente, ela obrigava a gente a fazer as coisas. A minha mãe já trabalhando como doméstica, trabalhou muito, conseguiu montar um barraco pra gente na parte de cima do quintal e a gente morava lá em dois cômodos.  Era no bairro São Victor. Era bem, bem pobre. Era no mesmo quintal, só que na casa de cima, que aí minha tia foi embora, a gente já maior começamos a trabalhar, ajuda-la, aí a gente aumentou a casa. Hoje eu moro numa casa boa, cinco cômodos.

Brincar, brincar eu não brincava muito, porque minha mãe saía cedo pra trabalhar, minha irmã mais velha também, então a responsabilidade mesmo ficava só pra nós, limpar a casa, lavar roupa, fazer comida. Aí as horas livres que eu tinha era brincar na rua, do lado meu vizinho estava construindo uma casa e tinha uma caçamba lá, então nossa brincadeira era ficar dentro da caçamba, brincar no barro. Era mamãe da rua, esconde-esconde, ficar pulando corda, essas brincadeiras. Brinquedo eu não tinha muito, minha mãe não tinha condições. Eu lembro bem tinha meus seis anos, meus sete anos, aí eu ia pra escola, eu tinha que fazer tudo correndo, eu tinha que limpar a casa antes de ir pra escola pra quando minha mãe chegar, minhas irmãs chegarem, a casa estar limpa. Eu sempre dividia, quando eu arrumava a casa, não fazia almoço, aí a minha irmã que fazia. Na escola eu não gostava muito de estudar na escola, não. Não gostava de estudar, queria era ir embora. Eu sou muito tímida, então eu não tinha muita amizade. Eu não gostava de ficar na escola porque eu não conseguia fazer amizade com as meninas, eu ficava muito no canto, aí eu não queria ir pra escola, eu queria ficar em casa. Era aqui no Novo Osasco, no Ernesto.

Eu queria ser o que eu sou hoje, professora, eu sempre gostei muito e ser psicóloga. É o meu sonho. Então, professora por quê? Antes quando eu era pequena eu sempre cuidava das crianças, as mães não tinham com quem deixar, eu ficava em casa nas minhas horas vagas aí eu ia e cuidava das crianças. Então pra mim eu ganhava um dinheirinho e fazia o que eu gostava. Aí eu ficava brincando com eles, ensinava, e foi daí que a minha vontade aumentou mais ainda de fazer já o que eu fazia. Acho que foi com os meus dez anos que eu comecei a trabalhar de cuidar. Eu ganhava 50 reais. Minha mãe como ensinou a gente sempre a fazer as coisas e dividir, aí era 25 meu, 25 da minha mãe. Eu ia à sorveteria, comprava doce, comprava salgadinho. Eram assim as coisas que eu comprava. Fiquei até meus 13 anos. Aí minha mãe trabalhava na casa da Mara, de fazer faxina, aí o pai dela já era idoso, sofreu um acidente, aí ele ficou paralítico. Ele dependia de uma pessoa. Aí minha mãe foi e falou de mim. Ela: “Nossa, mas ela é muito novinha.” “Não, mas ela é bem amorosa, ela cuida bem, você vai ver”. Aí eu passei a cuidar dele. Eu o ajudava a fazer tudo, cortava o cabelo dele, que ele não tinha força pra nada, nem de andar. Eu que as ajudava a preparar comida pra ele. Eu fiquei cuidando dele até meus 17 anos. Eu sofri muito quando eu soube que ele morreu porque não deu tempo de eu ir vê-lo no hospital.

Eu voltei a estudar com uns 17 anos. Eu tinha parado na quinta série. Aí depois eu tinha que trabalhar, eu tinha que limpar a casa e pra mim ficava muito corrido, muita preguiça, aí eu fui e parei de estudar. Voltei porque minha mãe ficou falando que eu tinha que terminar meus estudos. Na verdade ela sempre incentivou que eu tinha que terminar meus estudos, fazer minha faculdade. Aí eu voltei, mas mais mesmo por causa dela, tanto pegar no meu pé, ela me obrigava. Aí às vezes eu não queria entrar na escola ela falava: “Se você voltar aqui você vai apanhar. Se antes do meio dia você chegar você vai apanhar”. Aí eu ia pra escola. E ela não gostava de receber bilhete, ela não admitia. Bilhete ou que ela fosse chamada na escola e ela sempre falou pra gente: “Se eu tiver que ser chamada na escola você vai apanhar. Porque você tem que ir, estudar, estudar direito, porque eu não vou ficar perdendo o meu tempo saindo do meu serviço pra ir ouvir reclamação sua, das suas irmãs”. Era isso que ela falava. Eu com medo ia pra escola. Eu concluí, aí eu parei com 21. Aí eu comecei a trabalhar. Aí foi onde eu comecei a trabalhar aqui. Eu entrei aqui no Quintal Mágico dia 1º de outubro de 2011. Vai fazer quatro anos que eu estou aqui. Eu trabalhava de doméstica, eu ia uma vez por semana toda segunda-feira. Aí ela ia me aumentar pra eu passar a cuidar do filho dela todos os dias quando ele chegasse da escola. Aí a minha tia Sueli que trabalha aqui na escola falou: “Cíntia, a Ju vai precisar, você não quer tentar lá, não?”. Aí eu: “Então está bom. Vê, se der certo bem”. Eu achava que era mais difícil, sabe? Como eu não tinha terminado os meus estudos e eu era mais nova, então eu achava que não dava. Aí quando cheguei do meu serviço minha mãe falou: “A Ju te ligou.” “Ju me ligou?” “É. Ela vai ligar daqui a pouco”. Aí na segunda-feira mesmo ela me ligou, perguntou se eu queria vir fazer um teste pra trabalhar, aí eu vim, ela gostou muito de mim desde o primeiro dia, ela falou: “Então está bom. Então você vai começar a trabalhar aqui”.

Nossa, no meu primeiro dia no Quintal Mágico parecia que eu já trabalhava aqui há anos. Parecia que eu já estava com uns cinco anos de empresa. Cheguei, eu me identifiquei muito com o lugar, muito com as crianças. No começo eu fiquei com o berçário, então era adaptação, as crianças choravam demais, muito, muito, muito. Aí eu brinquei com eles, colocava música, aí eles acalmaram e aí foi indo, foi indo até que eu mudei. Não fiquei mais no berçário. Mas foi muito bom. No meu primeiro dia me senti super à vontade, muito livre. Era criança, era tudo que eu gostava, então pra mim não teve dificuldade no meu primeiro dia. Aí deixaram com que eu ficasse com eles no maternal 2, eu me apeguei muito a eles, muito. Eles gostam muito de mim assim como eu gosto deles, eu falei que dessa turma mesmo foi a pior que eu sofri muito. Eu achei que eu não ia sofrer tanto, as meninas falavam: “Você vai chorar, você vai sofrer.” “Não, não vou chorar”. E foi muito difícil porque o carinho deles, que eles tinham comigo, os pais falaram: “Nossa, o meu filho vai sofrer demais, o que vai ser dele sem você?”. Eu ainda até falei: “Mas eu não posso fazer nada, se eu pudesse eu fazia com que eles continuassem na escola, mas não tem como. Eles têm que ir pra Emei”. E foi muito difícil. Então, quando eu comecei era na escola antiga, na rua de cima. Totalmente diferente daqui o lugar. Era menor, era uma casa, aí as crianças ficavam, cada cômodo da casa era uma sala e atrás era um quintal enorme cheio de árvore. O terreno era descido e as crianças andavam sem medo, andavam descalço, sabiam pisar, tinha tanque de areia, tinha pé de frutas, então as crianças viam, olhavam, queriam, então a gente ia lá, colhia e dava pra elas comerem. Era totalmente diferente. Aí conseguiu o terreno, viemos pra cá. Quando nós chegamos, eu pelo menos, achei muito estranho o lugar porque era totalmente diferente, enorme, um quintal que não tinha plantação. O parquinho ainda não tinha, conseguiram depois. Então era aquela coisa estranha que era grande, mas não tinha grama, não tinha árvore. Não tinha proteção de árvore, não tinha sombra. Aí depois que ela conseguiu o projeto, aí plantaram as gramas, conseguiram com que tivesse árvore, sombra. Aí mudou. Até as crianças mesmo passaram a brincar mais. Hoje nós temos até contato com as plantações, com a horta. Eu passei a ter mesmo contato aqui, porque antes eu não tinha contato com plantação, com mexer com horta, não tinha e foi muito importante. As crianças brincam muito, ficam muito mais à vontade, hoje tem sombra pra eles ficarem. É importante porque eles aprendem logo cedo como que é a plantação, da onde vem o alimento. É importante até mesmo pra mim como educadora, porque a gente passa a entender a criança. Quando vão ao mercado eles ficam: “Olha, o alface”. Mas pra eles é bom ter a referência: “Nossa, mas lá na minha escola tem o pé de alface”. Então ele sabe que foi plantado, da plantação foi parar no mercado. E pra mim também, porque eu não tinha contato nenhum, não sabia plantar, não sabia colher e aqui eu aprendi tudo. Árvore eu nunca tinha plantado, eu aprendi, minha primeira plantação foi aqui junto com as crianças. É importante eles terem esse contato.

O que eu sei do Criança Esperança foi que a Ju se inscreveu junto com milhares de outras instituições e ela foi uma das aprovadas. Eu sei que ajudou muito a Ju aqui na escolinha com os benefícios. Uma coisa que eu acho muito importante são os passeios que eles proporcionam pra escola, que acaba levando as crianças. Assim como eu não tive condições, a minha mãe não teve condições, acredito que muitas crianças daqui, a maioria não tem condições. Então pra eles é gratificante poder ir ao passeio. Teve o passeio da Xuxa, eu acompanhei minhas crianças, foi muito importante, a felicidade deles. Alguns pais mesmo falaram: “Ai, que bom que vai ter, que a escola vai levar, que eu não tenho condições”. Então é importante. Eles ajudam bastante, principalmente nisso que às vezes as crianças ouvem que vai ter, que nem a mãe da Giovana mesmo falou que no dia que teve o passeio pra ir assistir O Rei Leão passou na TV e a Giovani ficou louca pra ir. Aí a mãe dela falou: “Eu não tenho condições.” só que ela não sabia que a escola tinha ganhado “Eu não tenho condições pra ir”. Aí quando eu mandei o bilhete ela superagradeceu, disse: “Que bom, que a Giovana viu passando e queria ir, eu não tenho condições pra levá-la.” “Então, e ela vai, vai com a escola”. Então é muito gratificante saber que está promovendo essas coisas pras crianças. Pra mim também foi importante porque eu pude passear com eles, participar de um momento tão especial da vida deles. Porque é diferente você ir com sua família, ir com suas crianças e pra mim foi muito, muito importante e acredito que pra eles também, é uma coisa que vai ficar bem marcante na vida deles. Então é muito importante isso. Foi no sábado agora que teve e aí minhas crianças foram, porém eles tinham saído de férias na sexta-feira, foi o último dia de aula. Quando foi no sábado era o passeio pra eles de encerramento que o Criança Esperança deu pra eles. Pra mim foi o melhor encerramento que teve porque antes de ter a parceria com o Criança Esperança era a festinha de encerramento, pronto, acabou. Era aqui na escola mesmo. Esse ano com o apoio do Criança Esperança foi muito diferente, foi mais rico. Teve o fechamento com o show da gravação da Xuxa e eu fui e levei minhas crianças. A única diferença que teve é que antes eu não ia a shows desse jeito, de Xuxa, de Rei Leão, a um teatro eu nunca fui e com isso eu pude ir através da escola. Eu fui ao teatro, acompanhei minha sobrinha, foi através do Criança Esperança porque ela é pequena então ela foi junto. Eles deram a oportunidade de levar também as crianças da escola e um filho, como eu não tenho filho foi minha sobrinha. Então foi muito importante. Ela nunca tinha entrado também em teatro, ela foi e eu fui assistir ao show do Rei Leão que eu nunca tinha visto na minha vida, foi muito legal, incrível. A diferença foi essa, que eu não tive na infância e eu tive a oportunidade aqui de ir.

Meu sonho hoje é fazer minha faculdade de Pedagogia. Se Deus quiser eu vou fazer o ano que vem. E depois que eu concluir, futuramente, fazer a psicologia. É o meu sonho.

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