Busca avançada



Criar

História

"Meu sonho era conhecer a Disney"

História de: Karine Burunsizian
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/10/2014

Sinopse

A simpatia de Karine está sempre presente nas histórias que ela conta. Em seu depoimento ao Museu da Pessoa ela recorda a infância e as brincadeiras no bairro da Vila Mazzei, em São Paulo. Fala sobre o trabalho do pai que é policial e sobre a separação dos pais quando ela era ainda muito pequena. Karine lembra o primeiro emprego, no Supermercado Andorinha e fala do trabalho atual, como repositora na farmácia do CAASP. Finalizando falando do sonho que tinha de conhecer a Disney, sonho realizado em 2013.

Tags

História completa

Meu nome é Karine Burunsizian. Eu nasci em São Paulo, dia 10 de dezembro de 1986, nasci no Hospital Cruz Azul. Meu pai chama Mardirus Marcos Burunsizian. Minha mãe Ângela Maria Dalbianco Burunsizian. Conheci a minha avó, minha avó morava em São Paulo. O meu avô, ele tinha uma loja de escadas há muito tempo, ele morou na Daniel Rossi junto com a minha avó, eles casaram, tiveram o meu pai. Ele vendia escadas, e ele era uma pessoa muito ativa, ele saía, ia pro mercado, fazia as coisas dele. Eu vivia muito em festas em casa, de Natal, Ano Novo, então a gente sempre passava todos juntos, o aniversário do meu pai. Então, só brincava, dava risada, a gente curtia muito. A mãe do meu pai, ela trabalhava, ela fazia comida fora, ela sempre fazia um montão de coisa. Conheci a minha avó Luzia que ela não morava junto com a gente, ela cuidava de mim, quando eu era pequena e a gente sempre cresceu todo mundo junto. O meu avô, ele também trabalhava, trabalhava numa empresa aqui em São Paulo, no almoxarifado. Então, a gente vivia na casa dele, a gente vivia sempre juntos, nunca separados. Todo final de semana na casa dele.

 

O meu pai e a minha mãe se conheceram mesmo em casa, a gente ia para casa da minha avó, então, acho que eles se encontraram assim, nas festas que eles iam. As famílias eram parentes. Meu pai, ele era policial. Ele entrou para polícia, não lembro agora o ano que era, a minha mãe casou com 19 anos, ela morava na Jandaia.  Ela ficava em casa, cuidando de casa. Eles compraram uma casa, onde eu moro até hoje, no Tucuruvi, Vila Mazzei. Tiveram três filhos. Tenho uma que é mais velha, a outra é do meio e eu sou a caçula.  A casa era bem pequena, ela tinha dois quartos, um no fundo que era o nosso quarto, e o quarto da minha mãe que ficava lá na frente, então a casa era meio pequena. Tucuruvi era bem diferente do que é hoje, a gente mora em frente a um Colégio Albino Cesar, então sempre saía para brincar mesmo na porta de casa. A gente brincava muito de… sabe aquela corrida de cordão, que você amarra no portão e fica com pé? Esse tipo de brincadeira, a gente fazia tudo isso nessa época.

 

Eu lembro uma vez, eu tinha acho que uns dez anos de idade, meu pai, ele tinha uma caneta tinteiro, e assim, ela era de rosquear, então nessa época, imagina, não tinha nem como pensar, então eu peguei sem querer e quebrei. Nossa, ele ficou uma fera, ele me bateu e eu virei e falei assim: “É a última vez que você me bate, a primeira e a última vez que você bate em mim”, então isso marcou, mas fora isso, tudo tranquilo. Coisa de criança, criança faz cada coisa, quando a gente era pequena, eu tomava banho, eu pegava a panela pra ficar brincando lá na banheira e acho que eu não queria sair, minha mãe me deu um tapa, mas nunca mais também. Ela chorou, tadinha, ela ficou muito triste, ela não queria, depois disso, nunca mais ela me bateu. Meu pai era policial militar. Ele ficava o tempo inteiro uniformizado, ele ia trabalhar, às vezes, ele tirava a área, ficava fora de casa. Andava armado.  A gente nunca mexeu, nunca pôs a mão, nada. Ele nunca deixava, porque tinha medo. Então, a ele pegava, punha em cima do armário, deixava lá, ninguém mexia.

 

Eu estudava num colégio que chamava Alicerce, eu tinha uns 13 anos, uns 14 anos de idade. Então, eu fiquei um tempo nesse colégio, então, estudei na Casa de Brinquedos também. Eu estudei no Chafic também. Então, eram escolas diferentes. Porque dizem que o meu problema maior é ler, é escrever, é um montão de coisa. Quando eu nasci, eu nem sabia que eu tinha essa pequena deficiência que eu tenho hoje. Então, só de falar, eu nunca falei: “Nossa”, eu não tinha um problema mais grave, maiores, quando eu nasci, eu não entendia muito bem como é que era as coisas que eu tenho. Já fiz vários exames. Eu fui entender depois de grande. Minha mãe me contou, falando que eu era assim, que eu não sabia nem ler e nem escrever. Então, depois eu procurei ajuda, eu procurei a minha fonoaudióloga, que é a Fátima, ela me ajudou muito a ler, escrever, de falar, é muitas coisas. A primeira escola foi a Associação Sementinha, ela era de deficiência, era muita deficiência, era muita, cadeira de rodas, pessoas que não falavam direito, então me sentia mal. Então depois, eu peguei e saí dessa escola. Lá tinha muita gente deficiente, então não sei, eram muitas crianças mesmo que ficavam lá, eram gente muito boa. Depois de muito tempo, eu fui para o Cieja lá da Vila Sabrina. Eu estava com 13, 17 anos. A Sementinha, ela tem muitas coisas boas, tinha professores bons, tinha pessoas profissionais, a gente ficava numa sala com acho que com quatro, cinco alunos, e foi desse jeito. Depois, eu estudei em um outro colégio, que eu não lembro agora como é que era, é um colégio que eu estudava, tinha oficina também, na Promove também, a Promove era um lugar que a gente ia, com vários alunos também de deficiência também, a gente sempre ia pra lá, ia ficar sempre o dia inteiro, então era bem legal. Eu ficava sempre quietinha na minha, ouvindo o que a professora falava. Pelo o que eu sei, eu nunca fui discriminada, tive tudo o que eu podia ter. Eu queria mesmo entrar no Cieja, foi uma indicação da Promove, que eles me indicaram para ir no Cieja para estar vendo como é que é. E é muito bacana, é legal, eu gosto muito de estar no Cieja. Foi um pouco difícil, é muito difícil, porque depois que você acostuma com tudo, no começo eu fiquei chateada que eu ia para o Cieja, mas depois, acabei acostumando. A professora Katia, é uma excelente profissional. Ela pegava no pé, ela falava: “Faz isso, faz aquilo”, tipo: “Escreve direito, faz aquilo outro”, ela era uma pessoa boa, depois, a professora… esqueci o nome dela agora, professora Heloisa, só que essa daí não gostava muito dela não, porque ela pegava menos no pé, então ela não falava nada, era mais na dela.

 

Eu ia em festa de criança, mesmo. Viajava bastante, viajava com os meus pais, ia para casa da minha avó, todo o final de semana a gente brincava na rua, então, é desse jeito. É coisa de adolescente, assim, eu me apaixonei acho que com 13 anos de idade. Esses meninos de sempre, a gente sempre ficava lá: “Bonito aqui…”, não sei o que, rolava uns beijinhos, mas nada de mais, mas só dois que eu me apaixonei. Só um, já era mais tipo uns 14 anos de idade, namoro também, mas só que depois que meus pais não gostavam dele, então era mais complicado. Hoje não estou com ninguém. Eu fiquei com esse três meses, só, depois eu larguei, não quis mais, com ninguém mais. Falei: “Não, chega”.

 

No Cieja eu gosto das aulas de Informática e das aulas de Matemática e todas as aulas, Geografia, Português, eu gosto. Tem uma vez que a gente fez um teatro, era uma rainha, um rei e uma governanta, esse fato foi muito legal, porque teve que ensaiar, tudo, teve que improvisar, e foi legal, foi uma coisa bem bacana. Eu era a governanta do palácio. Era bem legal, era uma pessoa bem bacana, marcou muito, muito mesmo. Ela falava um monte de coisas, a gente limpava lá o palácio, chegava, ficava dançando, uma coisa bem bacana: “Você é folgada”, que não sei o quê… falava tudo isso, era muito legal. Muito bacana.

 

A gente viajava muito, a gente ia pra praia, a gente ia para casa da minha avó, ela morava na Zona Leste, todo domingo ia pra lá, todo final de semana ia pra lá, na casa da minha avó e é bem legal, é bem interessante.  A gente ia de carro. A gente saía bastante, a gente ia pro mercado, a gente ia; um montão de lugares. Como o meu pai era policial, a gente ia para hípica, que era um lugar, montava a cavalo, tudo, então a gente curtia muito mais, ficava lá com cavalo. A gente cresceu, praticamente, na cavalaria, mesmo. Meus pais são separados. Eu sei que faz muito tempo, acho que foi em 95. Eu tinha acho que uns dez anos de idade. Ficamos com a minha mãe. Ele ia ver a gente. Um episódio que me marcou muito foi o dia que eles se separaram, foi que eles chegaram um pro outro e falaram que não queriam mais e também foi uma cena que me marcou muito foi que ele estava no colégio da minha irmã, na rua do colégio militar, tinha uma festa junina lá e ele chegou de repente. Ele chegou e falando que ele ia voltar para ela, eu peguei e tive que segurar, tive que pegar ele e falei: “Vamos embora daqui”, peguei pelo braço,  a gente foi parar lá no Alphaville para poder ele se acalmar, tudo, com o amigo dele. Ele queria voltar, porque a minha mãe estava namorando nessa época. Então, o meu pai ficou todo bravo, nervoso.  Eles se separaram por causa de outras que ele tinha, outras mulheres. Ele teve que pagar pensão, tudo! Mas agora, só paga só para mim, mesmo.

 

Eu estou trabalhando, agora.  O meu primeiro trabalho foi no mercado Andorinha. Eu tinha uns 18 anos. Eu era empacotadora. Então, eu ficava no caixa lá, empacotando as coisas. Consegui através da minha fono mesmo, da Fátima. Fiquei lá três meses só. Era bem agitada, era bem difícil. Chegava em casa dez horas da noite. Eu queria ser mandada embora. Porque não estava dando mais, era muita coisa, era muita pressão. Eu peguei e saí. Ganhava um salário mínimo, mais ou menos. Depois fui para o Mercado Pastorinho.  Eu lavava prato, cortava legumes, era um monte de coisa. Também não aguentei, pedi para sair. Depois, eu fiquei sem emprego nenhum, fiquei só estudando no Cieja mesmo, depois de três meses, arranjei essa oportunidade de ficar lá mesmo onde eu estou hoje, na CAASP. É uma farmácia de advogados, então eu peguei e estou lá até hoje. Foi meu pai que conseguiu pra mim.  No Cieja eu entro às sete e meia e saio nove e quarenta e cinco da manhã. No CAASP eu entro meio-dia e saio às seis da tarde.  Eu vou de metrô. Eu sou repositora de cosméticos. Eu reponho shampoo, desodorante, um monte de coisa. É muito legal o que eu faço.

 

Assim, tive um sonho, eu queria ir para a Disney, conhecer o Mickey, conhecer o Pateta e eu não tinha como ir, porque eu não tinha dinheiro, eu peguei e falei: “Mas por que um dia eu não poderia ir?” Eu já realizei o sonho e fui para Disney no ano passado. Meu pai casou de novo, casou com outra esposa, tem uma filha também, mulher também, o nome dela é Vitória.   Ela está com sete anos, já está bem grandinha. O meu maior sonho é poder estudar bastante, ter uma vida assim, morar sozinha é um sonho muito que eu tenho muito grande e poder sei lá, poder trabalhar bastante, ter o meu dinheiro, poder viajar de novo para outros países.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+