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História

Meu sonho é viver num mundo melhor

História de: Gláucia Máximo dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/01/2021

Sinopse

Gláucia narra sua vida, começando pela infância e juventude, em uma trajetória marcada pela igreja e o teatro, além do amor pelo bairro do Limão. Iniciou sua vida profissional na área pública e seguiu por alguns empregos na área privada, mas se encontrou no trabalho social. Atualmente se dedica, entre outras atividades, a ações sociais através da ONG fundada por ela, a Ibrasac.

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História completa

Eu estava com doze anos, construíram uma capela próximo da minha casa e aí eu passei a frequentar essa capela. Eu ajudei a construir desde o primeiro dia. Passou a ser extensão da minha casa. Eu comecei a participar dos movimentos para arrecadar material de construção, a gente participava do mutirão de construção. Isso ocupava nosso tempo e aí iam nascendo as outras atividades. E fazia evento, arrecadava dinheiro. E quando a paróquia já estava estabelecida, a igreja construiu um galpão no meio da comunidade e nós começamos a fazer atividades lá com as crianças... Eu estava sempre envolvida. Eu estou até hoje. A igreja hoje é muito forte dentro da minha formação e das minhas atuações, a minha vida é uma vida muito missionária.

Nós chegamos a fazer uma peça de teatro falando sobre drogas e a peça teve uma repercussão tão grande que nós começamos apresentar essa peça nas escolas, em empresas. Isso também ajudou muito a desinibir e falar com essa juventude essa questão de álcool, droga, fazer o papel de prostituta, para que era uma pessoa extremamente tímida, eu fiz um papel bastante difícil e na peça uma das meninas morreu de overdose, então é uma peça bastante marcante, bastante forte. E isso nos ajudou a falar com muitas e muitos jovens. Naquela época eu comecei a trabalhar muito com a juventude da região da Casa Verde, bairro do Limão… Aí começava essa minha atuação com foco de resgatar a juventude, falar que não vale a pena se meter com droga. Essa peça foi bastante marcante na minha vida.

Eu sempre fui muito de ouvir as pessoas. Eu sou de humanas, eu gosto de gente, gosto de ouvir. Eu sempre fui assim amiga, conselheira. Não terminei a faculdade, mas estou sempre em alguma coisa na área de Psicologia. Hoje eu faço parte de um projeto que é a Oficinas de Emoções, da Casa de Maria Embaixadora da Paz. É um trabalho emocional que procura ajudar as pessoas a lidar com as emoções. Então eu acabei não terminando a faculdade, mas não deixei de estar envolvida com a Psicologia, porque a Oficina de Emoções para você ministrar você não precisa ser psicóloga. Acho que se existe alguma frustração da parte de não ter terminado a faculdade de Psicologia, ela foi sanada com o projeto Oficina de Emoções que é onde eu continuo ajudando pessoas nessa questão emocional e também nos ajudando. Todo mundo tem momentos em que precisa de ajuda emocional... Então a Oficina de Emoções é um caminho que eu uso para me ajudar e ajudar outras pessoas também.

Até que teve o momento acabei virando voluntária da biblioteca em frente à minha casa. Nesse período eu acabei conhecendo o pessoal da comissão de bairro. E fiz amizade com uma pessoa, o Vladimir, e na época ele falou: “Legal, você tá fazendo faculdade de Marketing? Você não quer fazer um projeto de carnaval?”. E mal sabia eu que naquele momento, a minha vida ia começar a tomar outro rumo, porque eu fiz o projeto, dei o nome de Carna Cultural. O projeto foi um sucesso. Dez mil pessoas na avenida. Fizemos uma feira de artesanato, uma feira de saúde. Esse evento mudou a minha vida, porque ao término dele, eu fui convidada a trabalhar na subprefeitura da Casa Verde como assessora de eventos e aí eu começo uma história completamente diferente, outro mundo que eu não conhecia. Foi muito bom, eu comecei a fazer eventos no bairro, comecei a participar de reuniões. E ali começou minha vida com serviço público, e aí você começa a enxergar a vida de outro jeito, com um olhar social, onde você começa a visitar as comunidades. E aí de uma forma muito diferente de como eu visitei na época quando era mais jovem, com igreja; muda muita coisa. Foi uma escola.

Quando eu vou para um cargo público aonde eu lidava com pessoas e levava algo social, eu começo a me encontrar, a achar um meio para fazer o bem para as pessoas, sendo remunerada para isso. Eu era só assessora de eventos, mas o período que fiquei lá eu criei um monte de coisa. E essas coisas que eu fiz foi o que me deram embasamento para criar a ONG e fazer várias outras coisas, e é um outro olhar, muda muito.

O Ibrasac eu acho que é uma somatória de tudo: a experiência religiosa, a paixão por ajudar as pessoas, a psicologia... Quando você chega na esfera pública e vê quantas pessoas estão precisando de ajuda e o poder público até tem condições, mas não dá conta, não faz; e aí você tem atores sociais que fazem trabalhos maravilhosos, eu me apaixonei por isso. E aí mergulhei nesse universo e estou hoje fazendo trabalho social com a ONG há dez anos. E aí nasce a parceria com o SEBRAE, desde a fundação e começa toda uma história voltada para o social. Hoje eu não consigo me ver na esfera pública ou numa empresa privada em lugar nenhum, qualquer situação que eu tenha que ficar fechada numa sala, quietinha, trabalhando de segunda a sexta das oito horas às cinco. Acho que eu perdi tanto essa timidez, essa coisa de ser muito introspectiva, porque hoje eu quero viver no agito; eu quero estar cada dia fazendo uma coisa diferente... É isso que acho que me motiva, me dá um gás novo.

Um dia eu tava saindo com uma caixa com brinquedos quebrados e uma criança falou: “Ô tia, me dá esse carrinho aí”. Aí eu: “Mas o carrinho não tem roda, por isso que a tia não deu”. Ele falou: “Tia, não tenho carrinho nem sem roda. Me dá sem roda mesmo”. E aí comecei a pegar os quebradinhos e dar para as crianças. Aí entendi o quanto aquelas crianças estavam numa situação vulnerável. Porque elas queriam carrinhos sem roda, boneca sem braço, elas queriam qualquer coisa. Eu saí de lá muito impactada. Quando nós fundamos o Ibrasac, nós criamos o Natal solidário. Eu envolvi a igreja com esse pessoal da ONG. E aí eu passo a fazer esse Natal não mais sozinha, mas foi um grupo de amigos, um monte de gente. Passou a ser uma grande festa. Isso fortaleceu bastante as ações sociais da ONG, por conta dessa ação de doação eu comecei a fazer arrecadação de roupas, de sapatos, de alimentos, o que era só para o final do ano, eu acabo fazendo isso inteiro. Hoje eu não sei mais em quantos lugares eu já fiz esses tipos de doações.

Eu costumo dizer o seguinte: “Eu professo a fé católica, mas a minha vida é totalmente ecumênica”, então as minhas ações sociais acontecem com mães de santo, com pai de santo, com espíritas, pessoas da igreja evangélica... Então a fé que eu professo não interfere nas minhas ações. O Ibrasac foi uma forma que eu achei também de fazer algo além da igreja, porque a igreja acaba às vezes sendo um pouco limitada, você acaba ficando dentro de um ciclo bastante religioso e eu sempre quis ir além; eu acho que é fazer o bem sem olhar a quem. Não importa cor, raça, religião, sexualidade, a gente lidar com pessoas. Acho que a ONG permite isso, ela não tem essa distinção de pessoas. Isso é muito positivo. E que pena que infelizmente hoje ainda a sociedade não entende isso: que se você quer fazer o bem, você não tem que olhar para quem; não importa nada: nem cor, raça, idade, nem religião.

Hoje eu me vejo no papel de articuladora local que tem contribuído bastante nesse processo de desenvolvimento com essas ações, levando ações de um lugar para o outro, levando informação... Às vezes fazendo palestras, conectando pessoas e instituições, empresas. Eu me vejo nesse papel de contribuinte para esse processo que eu acho que precisa acontecer. Eu acredito que colaboro bastante e é algo que me deixa muito contente, algo gostoso. É bom fazer parte dessa história.

Tem uma ação que nós fazemos de cultura que é o Estantes da Zona Norte. Que bom que é você ficar no metrô doando livros. Parece algo tão simples, mas nossa, você muda o dia de alguém, você muda histórias. Já tivemos depoimento de pessoas que vão ali e pegam o livro do outro, alguém passa para outro, começa a incentivar crianças. Essas são ações simples que não requerem recursos financeiros, requer só vontade, essa articulação toda. A gente precisa fortalecer mais ações e ir se ajudando, porque o resultado positivo é certo. Só continuar.

A alma empreendedora é alguém que naturalmente transforma as coisas, que consegue olhar para o que está totalmente destruído, reconsertar, reconstruir e fazer algo novo, e de repente faz algo melhor do que já existia. E eu me vejo muito nessa realidade. Tenho me reinventado várias vezes e estou indo para minha melhor fase. Tenho muita certeza disso e quero ajudar outras mulheres a enxergar isso também.

A mulher negra passa por algumas alguns desafios que outras mulheres não enfrentam. Nós já temos aí uma realidade onde a mulher não tem os mesmos valores que o homem. É uma desigualdade absurda. Isso acontece em qualquer lugar. Quando ela é mulher e é negra, tem que ser muito mais forte. Tem que mostrar que tem fibra, que tem vontade, que tem coragem, tem que ser melhor. Porque as pessoas julgam, sim, pela cor da nossa pele. Eu já vivi situações na prefeitura de chegar em alguns lugares e as pessoas falarem: “o prefeito não mandou ninguém para representar ele?”, e eu responder: “mandou, sou eu que vou representá-lo”. E a pessoa olhar com olhar de tipo: “Como assim? Você? Uma mulher negra?”. E eu tenho que respirar fundo e levantar a cabeça e representar da melhor forma possível. Melhor do que se fosse uma outra pessoa, porque os olhares são outros, as cobranças são outras.

Eu tenho orgulho de tudo que eu vivi, de tudo que eu sou, da mulher que meus pais me formaram, com os valores que eu tenho, que é um valor humano. Eu não valorizo ninguém pela cor da pele, todo mundo tem que se amar pelo que nós somos. No entanto, por conta dessa sociedade injusta e muitas vezes até hipócrita, eu preciso dizer às pessoas que sou mulher, que sou negra, sou forte, e lembrá-las disso para que eu possa ser respeitada. Para que as pessoas não me estigmatizam, não me menosprezem... Sim, racismo e preconceito existem. Em alguns momentos é declarado e outros de forma velada. A gente está vendo o que tá acontecendo aí com a força policial, massacrando pessoas. Eu e todas as mulheres negras que existem, a gente precisa se fortalecer, se dar as mãos, se ajudar e se levantar e se colocar em uma posição de dizer: “Nós somos fortes, somos guerreiras e queremos ser respeitadas por isso”. Se as pessoas não sabem como fazer a gente vai ensinar, mas a gente não vai ter medo, não vai se acovardar.

O meu sonho não está ligado a coisas, mas a situações. Eu quero fazer muito além do que fiz até hoje. Quero deixar na história um legado, ajudar pessoas, mudar pessoas. Meu sonho é poder chegar em muitos lugares. Meu sonho é viver num mundo melhor, em uma sociedade mais justa. Eu quero ver os meus sobrinhos, as crianças dos projetos que eu ajudo, em uma vida melhor. Meu sonho é viver da melhor forma possível, com intensidade, com pessoas, com gente. Eu amo gente, não amo coisas. E é esse amor que me motiva, que me impulsiona e que me faz fazer tudo que eu faço.

A história da minha vida acontece no bairro do Limão, então sou muito grata. As pessoas que eu conheço no bairro, as experiências que eu vivo, o aprendizado todo que eu tive... Tudo isso acontece dentro do bairro do Limão. Eu tenho uma vida inteira para relembrar ações e situações e pessoas dentro desse bairro. Sou muito grata por estar nele, gosto muito dele. Tem inúmeros problemas porque ele é meio abandonado, meio esquecido, ele não avança muito. Precisava e pode avançar. Um bairro que tem um pouquinho a característica do interior. Muitas pessoas estão ali há muito tempo. Lembra um pouquinho essa coisa do interior. É um bairro que eu tenho muito carinho, muito respeito e muita gratidão. Tem muita coisa ainda para viver, mas o que eu vivi até aqui nasce do Limão.

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