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História

"Meu sonho é ter uma casa"

História de: Juliana
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Quando Juliana era bebê foi retirada dos pais pelo Juizado de Menores. Desde então viveu em abrigos, até os dezenove anos. Em sua narrativa, ela conta como era sua vida antes e depois de sair do abrigo, e o que espera do futuro agora que ingressou no Projeto ViraVida.


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História completa

Quando eu era bebê fui levada para um abrigo. Meus pais moravam num albergue. O meu pai bebia e a minha mãe usava drogas. Depois de grandinha que eu conheci eles; aí meu pai de ano em ano vinha me visitar. Minha mãe não, ela não era muito ligada a mim, era mais ligada com a minha outra irmã. Minha mãe tá falecida já, dizem que foi no pulmão. Meu pai faleceu também, de acidente. Tenho mais dois irmãos, eles foram adotados, estão na Itália, estavam no abrigo antes. Eu passava o Natal em famílias, mas eu nunca fui adotada.

Era bom, eu gostei de viver no abrigo. Vivi mais de dez anos lá. Lá viviam meninas e meninos que tinham problemas familiares; problemas em casa com o pai ou mãe ou que fugia de casa ou que também vinha de outros abrigos pra lá. Tinha as tarefas no abrigo; tinha banca (aula particular) – a escola era fora – tinha lazer, tinha quadra, tinha um bocado de coisas, totó (pebolim), área de lazer. E briga também, confusão. Tinha mais briga entre elas do que entre eu porque eu era a caçula…

Quando eu estava perto de ficar de maior aí eu saí de lá, me transferiram para um abrigo só de meninas, é uma escola. Foi difícil porque eu já tava ficando de maior, pegar uma menina que já tava quase ficando adulta é difícil. Tinha discussão com as meninas. A irmã de lá me segurou até onde pôde, mas depois quando chegou aos dezoito tem que sair do abrigo, né? Ela me segurou até os dezenove por causa de ser órfã de pai e mãe. Tem dois anos que eu saí do abrigo já.

Aí fui pra casa dos outros, de umas pessoas que eu conhecia, uma dos abrigos que eu morei. Aí foi quando eu vim pra cá pro curso [Projeto ViraVida]; e a irmã foi lá e me botou no projeto. Ela disse que tinha um projeto pra minha idade e pra minha série aí peguei, fiz minhas inscrições e entrei. Antes podia sétima e oitava série, agora não, porque eu era quinta e sexta série consegui entrar.

Na escola me perturbavam porque eu morava em abrigo, diziam que eu era de orfanato. Mas eu não aguentava quieta não, falava com a diretora e aí discutia. Eu entrei lá e nunca fui de ficar calada. Pegava e dizia: “Eu morei em abrigo, mas eu pelo menos não morei de barragem.” Quer dizer, perto de esgoto; a casa delas era de pau, era de lona. E em abrigo as casas são bem feitas, você nunca passa necessidade, nunca passa fome. 

De manhã, quando acordava fazia as tarefas e tomava café. Depois do café a gente ia pra escola; voltava da escola e quando era meio-dia todo mundo tava na mesa. Ia tomar banho e ficava na mesa meio-dia pra almoçar. Tinha uma merenda de tarde, sempre tinha bolo, de merenda. O abrigo dava tudo; dava roupa, calcinha, tudo. E quando eu queria alguma coisa eu pedia pra comprarem.

Mas ficar só no abrigo presa não era bom, não. Eu gostava de ficar na rua também, ficava conversando com as meninas. No segundo abrigo todo mundo ia junto pra praia. A gente obedecia, porque falavam: “Quem sair daqui de perto de mim na próxima vez não vem”. 

Eles me botaram no curso. Aí eu fiquei um bom tempo morando na casa de um bocado de gente, da turma do outro ano, meus colegas. Aí quando eu ia embora de uma casa me chamavam pra ficar na casa de um; aí ia tendo confusão (risos). Eu fazia confusão. Uma vez eu briguei com uma menina e fui parar na delegacia, quase que ia ser presa porque tava tendo muita gritaria, não tava deixando ninguém dormir.

Onde eu moro, na irmã de um colega meu, é onde eu tô até hoje. Antes eu não ligava, não vou mentir. É ruim porque você fica morando numa casa – antes, porque agora eu não tô mais – ficava morando na casa de um e de outro, aí eu perdi um bocado de coisas. Tem uma casa que eu morei, uma casa que eu morei que eu perdi os documentos todos, jogaram meus documentos todos fora.

Hoje moro no subúrbio com meu marido. Ele foi o primeiro homem com que eu morei junto; eu tinha namorado, mas besteira, nada sério. A gente se conheceu na balada, noturna. Foi tudo rápido. Ele me assumiu em coisa de um mês. Me dou bem com ele, mas tem briga. Quando ele bebe mesmo tem confusão. Quando ele bebe demais, ele fica doido, faz coisa errada. Aí tem briga, confusão, discussão e ele gosta de quebrar as coisas. A gente briga; ele me bate e eu bato nele também.

Eu normalmente não bebo; não fumo, quanto mais usar droga. Nunca usei droga. Meu primeiro namorado usava, andava no meio dos meninos, mas ninguém me oferecia nada, não; pelo contrário, eles queriam que eu saísse porque eles sabiam que eu era de abrigo e de menor também. 

Quando eu morava no abrigo, pra passar o tempo eu saía pra festa. A primeira vez que tive relação sexual foi com dezenove anos. Foi um fato, foi numa festa que eu bebi demais. Tinha um cara que queria ficar comigo, só que eu tava sã e disse que não queria ficar com ele. Aí meu cunhado, – cunhado de consideração porque a mulher dele hoje é minha irmã de abrigo – eu tava bebendo, pegou e me deu pra ele. Aí foi aconteceu, eu não gosto nem de falar disso. Eu não aguento beber, não, não gosto nem de beber, não, não vou mentir. Eu bebendo muito, eu fico muito doida. Quando eu tava maior um pouco, eu comecei a namorar e depois passou um tempo tive relação sexual com meu namorado, normal. Aí fui eu que quis.

Eu gosto de dançar pagode. Só que em casa eu nem saio. Eu nem saio, não, meu marido não gosta de que eu saia, não. Ele é todo estranho; ele é mais velho do que eu, tem vinte e sete anos. Eu acho que são sete anos de diferença. Ele não gosta de pagode, esse negócio de ficar em pagode dançando, ele não é disso, não. Já eu, gosto.

Muita coisa mudou desde que entrei no curso. Tenho dinheiro todo mês. Porque eu morava na casa das pessoas; a pessoa também quer que contribua com alguma coisa, com dinheiro, né? Agora não precisa. Meu marido trabalha na marcenaria, só que ele já vai sair já porque o patrão dele tem dia que paga, tem semana que paga, tem semana que não paga.

No projeto eles garantem o mercado de trabalho, que hoje em dia é difícil. Eles estão procurando o trabalho pra mim de aprendiz. É o de aprendiz primeiro, aí depois que a empresa, que você fazer de tudo numa empresa, que ela te contrata pra você ser trabalhadora mesmo. A idade de aprendiz é de vinte e um, se eu não me engano, até vinte e quatro. Tenho vinte e um.

Eu quero ir pro mercado de trabalho. Meu sonho é ter a minha casa. E um dia quero ter filhos.

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra, bem como a identidade dos entrevistados, tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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