Busca avançada



Criar

História

Meu sonho é o sonho deles

História de: Odair Homma
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/01/2018

Sinopse

A partir dos sete anos, Odair era o responsável pela compra do pão e do leite do café da manhã para a família, composta por dez filhos e os pais. Imagine só a criança carregando cinco filões de pão mais três litros de leite! Para esse tanto de gente, Odair resume numa condição: era uma festa! Imagine seis homens, o que poderia sair do quarto com três beliches? Muito navio pirata e cabana, no mínimo. Devia ser, sem dúvida, uma diversão para as crianças e muito trabalho para os pais. Por isso, a regra era sabida: aos 14 anos, a vida real chamava para a labuta. E assim começa a trajetória profissional de Odair, sendo office-boy, serviço o que o ajudou a perambular pela cidade, se virando com ônibus e metrô. Mais tarde, o sogro o leva a conhecer a vida de propagandista, o que prontamente fisga a personalidade de Odair. É o início de uma carreira na indústria farmacêutica - que, pelo perfil alegre e sempre jovial de Odair, não resta dúvida do que pensa da profissão: uma festa!

História completa

Em casa era uma bagunça: nós éramos uma família humilde de dez filhos, sendo seis homens e quatro meninas, além do meu pai e da minha mãe. Nossa casa tinha quatro cômodos - dois quartos, uma sala, uma cozinha -; em um quarto dormiam os homens, no outro quarto dormiam as meninas com o meu pai e a minha mãe. Era aquela festa! A minha casa estava sempre cheia! No quarto dos meninos tinha três beliches, uma ao lado da outra, então você imagina a festa! O irmão mais velho, já falecido, é o Dashi - José Sadashi -, depois vem o Dado - o Osvaldo -, aí vinha o Beto - o Gilberto, que também é falecido -, aí vinha o Keu, que também é falecido. O Keu foi o que faleceu mais jovem, com 19 anos. Depois veio o Rubens, que tinha paralisia infantil e faleceu há pouco tempo. Depois eu e o Luciano, que é o mais novo. Agora as meninas: a Cleide, a Elza e a Neuza - que eram gêmeas -, e teve uma que eu não conheci, que foi a primeira filha e o primeiro parto da minha mãe, mas que não sobreviveu.

 

Todo mundo tinha que fazer tudo. Eu, na minha infância, só obedecia ordens. Até começar a trabalhar fora, eu ajudava a minha mãe em casa, desde cuidando de sobrinho a fazer faxina, ir ao mercado, essas coisas. Você imagina lavar, passar, cozinhar pra esse tanto de gente? Quando eu tinha sete, oito anos, quem era o encarregado de ir buscar pão? Eu. Então acordava seis horas e ia para a padaria. A regra era assim: cinco filões de pão e três litros de leite, todo dia! Você imagina um negócio desse? Era uma festa!

 

A gente brincava de tudo: nos beliches a gente fazia cabana, brincava de navio fantasma, jogava bola no quintal. Às vezes nem tinha bola, a gente fazia aquelas bolas de meia, tal, improvisava e brincava. Muita brincadeira que hoje vocês não veem mais, como pião, pipa, fogueira. E a gente ficava muito na rua. Morava ali na Vila Gumercindo, no Bosque da Saúde. Algumas ruas na época não eram nem pavimentadas. Quando fizeram a Ricardo Jafet foi uma festa, porque depois que pavimentaram, ainda demorou um tempo pra abrir para o trânsito, então a gente ia brincar lá, jogar bola, andar de bicicleta, era uma festa.

 

Era regra em casa: terminou o ginásio, vai trabalhar e estudar à noite. Todo mundo tinha que ajudar a família. Foi quando, aos 14 anos, fui trabalhar de office boy numa empresa de fertilizante chamada Copas, Companhia Paulista de Fertilizantes, que ficava na Rua Aurora. E foi bom porque me ensinou a locomover de ônibus, metrô, você aprende tudo, você começa a se virar. Foi bem legal! Eu trabalhei lá oito anos, quando entrei para o exército.

 

O início no quartel foi bastante difícil, porque eles fazem questão de te humilhar, pra você começar a ter um respeito à hierarquia. Então se você via o cabo, que era uma pessoa que se você encontrasse na rua, você não teria nenhum tipo de subordinação, ou de, tipo, você não se espelhava naquela pessoa, admiração nenhuma, esse cara te dava ordem e você tinha que fazer. O começo foi bastante duro, adaptação à comida, às regras super-rígidas. Como eu era disciplinado, eu não tinha muita dificuldade, mas eu via colegas que sofreram bastante. Mas a rotina dura de exercícios, de comandos, dos horários que você tem que cumprir, você tem que estar sempre impecável, de responsabilidade com as suas coisas. E de você lidar no grupo do quartel com pessoas de diferentes níveis e de diferentes... Que faziam parte de diferentes grupos. Então eu lembro quando a gente se encontrava lá no quartel, tinha o grupo que gostava do pagode, o grupo que gostava do surf, o grupo do futebol, o grupo que não fazia nada, dos filhinhos de papai, filhos de empresários, era uma mistura. Eu era do grupo peão, que trabalhava e estudava. Eu era um dos únicos que com 18 anos já estava trabalhando há quatro, que estudava, que tinha comprado o primeiro carro com o dinheirinho que tinha guardado. No quartel você aprende a conviver com o que é diferente e respeitar e colaborar. Acho que uma grande lição que o quartel deixa, além dessa questão da hierarquia, da disciplina, de você respeitar regras de verdade, de dar valor para as coisas, conviver e saber respeitar as diferentes pessoas, as diferentes origens e crenças.

 

Eu já tinha terminado o ensino médio quando vi uma ruivinha passando no colégio: “Que ruiva bonita!” Isso foi no começo do ano. Em março, fui a uma festa de aniversário de uma amiga e ela estava lá, era a Sandra. A gente começou a conversar, telefone, tal, e naquele ano a gente começou a namorar, em 22 de junho de 1986. Hoje, nós temos dois filhos, o Guilherme e a Débora. Ser pai é uma coisa sensacional, uma experiência única, não tem comparação! Eu tenho que abrir um parêntese: minha esposa sempre foi um porto seguro. Quando eu assumi a primeira posição de liderança no ramo farmacêutico, as viagens se intensificaram muito. Então teve um período, quando as crianças eram pequenas, que eu viajava muito, e era ela quem cuidava de tudo, além de trabalhar fora. Sei que muitas vezes ela abriu mão da carreira dela em prol de eu poder seguir a minha carreira na indústria. Então a Sandra realmente tem um papel chave em toda a minha carreira profissional. Se eu não a tivesse ao meu lado, eu não teria chegado aonde eu cheguei e nós não teríamos construído o que nós construímos, teria sido um caminho bem diferente. Então eu sou eternamente grato a ela e a minha família, aos meus dois filhos.

 

Acho que nessa fase os sonhos mudam. Meu filho já acabou a faculdade, a minha filha está terminando, e os sonhos começam a ser compartilhados, a gente começa a olhar muito mais pra eles do que propriamente pra nós: os sonhos deles acabam sendo os nossos. Então os meus desejos, vamos dizer assim, são que meu filho vá fazer a extensão universitária fora, que minha filha conclua a universidade dela e que eu e minha esposa consigamos seguir nessa jornada curtindo o que a vida tem de melhor nessa nova fase, aproveitando a praia, aproveitando o que a gente gosta com os amigos e com saúde.

Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+