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História

"Meu sonho é fazer 100 anos"

História de: Pedro Baptistella
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/05/2014

Sinopse

Simpático e alegre, Pedro Battistella recorda em seu depoimento a vinda dos pais para o Brasil, quando se conheceram no navio. Fala sobre o trabalho na lavoura de café e o tombo do cavalo que sofreu na infância. Relata as dores e os problemas que acidente provocou, motivando sua mudança para a cidade de São Paulo para efetuar tratamento. Lembra o início da profissão de enfermeiro no próprio hospital onde se tratava e como acabou se aposentando nessa profissão. Por fim, relata o sonho de fazer 100 anos.

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História completa

Meu nome é Pedro Battistella. Nasci dia 10 de novembro de 1916, no município de Fernando Prestes, fica para o lado de Catanduva. Meus pais são de Treviso, da Itália.  Meu pai chama Giuseppe Battistella e minha mãe Anna Calloder. Meu avô trabalhava em posto de tecelagem em Treviso. Meu pai veio com 11 anos pra cá. Vieram para o Brasil, porque na Itália eles estavam muito mal, eram muito pobres, então, abriu esse negócio de imigrantes, eles aproveitaram e vieram, chegaram aqui em 1888 de navio. Foi uma viagem muito dura, durou mais de mês. A única coisa boa que ele trouxe da viagem é que ele fez amizade com mais três famílias, essas três famílias aqui no Brasil não se separaram, aonde ia um, principalmente, o meu pai, era tipo de chefe da quadrilha.  Ele chegou no porto de Santos e foram para imigração, a Casa do Imigrante. De lá a primeira parada e saíram com serviço contratado, foram para Amparo, para uma fazenda de café em Amparo, ficaram lá não sei quanto tempo. Depois mudaram para uma cidade chamada Dobrada, que fica também para o lado de Amparo. Meus pais fizeram amizade no navio. Minha mãe era um ano ou dois anos mais nova. Foram as quatro famílias para Amparo. Na mesma fazenda que ia um, iam os outros. Foram para Dobrada, de Dobrada foram para Fernando Prestes.

Eu nasci em Fernando Prestes, mas nós mudamos para cidade chamada Potirendaba, que ficava na zona de Rio Preto. Lá ficamos sete anos, eu me lembro bem. E depois dos sete anos, nós, os Zapater e o Iugoli compraram terras perto de Araçatuba, a 20 quilômetros de Araçatuba, e fomos todos para lá. Os Calloder como era só minha tia e três filhas, eles ficaram junto com nós, no nosso sítio. Meu pai contava que quando ele começou a carpir, do café ele não falou nada, eles achavam dificuldade, não conheciam nenhum pé de café, mas aprenderam logo e foram trabalhando, trabalhando e sempre muito pobres. Ali mudamos para Fernando Prestes, lá ficaram não sei quantos anos, sei que eu nasci em Fernando Prestes e fui para Potirendaba. Potirendaba era uma cidade muito pequena, uma cidade em formação. Só tinha um médico e não tinha nem táxi, o médico para vir em casa precisou buscar ele a cavalo, agora é uma cidade boa. Então, nós ficamos sete anos lá nessa fazenda, eram só nós, as quatro famílias. A fazenda era pequena, só as quatro famílias, mas foi um lugar mais ou menos bom. Nós éramos em oito irmãos, morreu um ficamos em sete. A casa era grande, porque era casa de pau a pique, fazia a armação assim na madeira, e a parede tinha os pontaletes e depois uma tira, mais ou menos assim de taquara, para poder jogar o barro, para o barro impregnar naquela coisa, casa de barro. E depois de dois anos melhorou um pouco a nossa vida, primeiro quando o café já estava dando um preço bom eles só aproveitaram um ano, porque o fazendeiro enganou eles, não fizeram o contrato, o contrato era só verbal.

A minha brincadeira de infância, infelizmente, acabou cedo. Quando eu tinha nove anos.  A brincadeira era jogar bola de meia e abaixa vara, e foi justamente no cavalo que me aconteceu a coisa que arruinou com a minha vida. Eu ia levando o cavalo para pastar, eu e meu irmão e tinha um corregozinho para atravessar, eu já tinha passado por lá diversas vezes e o cavalo passava andando, e esse dia meu irmão correu quando chegou na subida do riozinho, ele correu e o cavalo que eu estava em cima, estava em pelo, só uma corda no pescoço do cavalo, não tinha segurança nenhuma, ele deu um pulo, assim alto e me jogou para o lado de lá da cerca. Eu caí do lado da cerca, um tombo feio, mas não senti nada na hora, eu subi, peguei o cavalo, montei e fomos até onde eles comiam, onde tem um capim muito bom. Mas aquele tombo, depois de quatro, cinco dias, ele se transformou em dor e febre, começou aqui nesta perna, dor e febre e a perna começou a inchar, aí veio o médico cortar, só tinha aquele lá, ele disse: “Aqui não tem nada a fazer, aqui precisa arrancar,” aí, ele abriu, saiu aquela quantidade de pus e já passou a dor, inclusive a febre. Mas demorou poucos dias e começou a doer aqui, bem na virilha e aqui no quadril. Começou a doer, doer, ali formou dois focos que explodiram sozinhos, só com coisa quente, porque remédio para isso não tinha. Osteomielite é uma doença que começa na medula do osso e ela arrebenta o osso, por exemplo, aqui ela arrebentou o osso e um dia saiu um pedaço de osso onde tinha aberto. E não tinha remédio para isso, se naquele tempo tivesse penicilina eu sarava em dez dias eu ficava bom, mas como não tinha remédio, eu não tomei uma aspirina, não tomei nada e passei mal que eu fique mais ou menos sete meses, sete e meio meses de cama. Três regiões purgando, saindo pus. Aquele pus, só fechou da virilha, que foi o que me deixou a articulação, a doença destruiu a circulação e depois, como eu era novo, ela se refez, mas se refez e não articulou nada, deixou tudo igual, tanto esse osso aqui, como esses estão grudados, tem anquilosa que chama. E eu comecei a andar manco desde aquele dia, desde que eu levantei depois de sete meses que eu fiquei de cama.

Meus irmãos não deixavam eu ir na roça, então eu ajudava um pouco a minha mãe. Pouco porque a gente era muito machista, achava que lavar o prato é coisa de mulher. Agora é que depois que a gente criou juízo que soube o quanto eu era machista, eu era besta. Não tinha escola. Eu fiquei sete anos, não tinha escola na fazenda. Se eu sei ler um pouco e escrever é o meu irmão mais velho que tinha ido na escola na fazenda que ele morou em Fernando Prestes, em Dobrada. Ele sabia um pouco e ele ensinava para mim, minha irmã mais nova e para os vizinhos lá daquela gangue. Nós tínhamos cabras, eu me lembro que eu só tomei leite de cabra, é um leite bom. Só tinha aquilo, arroz e feijão à vontade, ovos também tinha à vontade, porque a minha mãe criava galinha. E carne era mais, por exemplo, frango só de domingo, matava um frango, carne de porco durava 15 ou 20 dias, mas era cozida e conservada na banha, dentro de uma lata. E de vez em quando alguém matava um boi, um bezerro, a vizinha. Era um lugar de pouca gente quando meu pai comprou esse sítio em Araçatuba. Nós tínhamos um rádio em casa. Eu me lembro que a gente só escutava a novela, novela da Globo, Direito de Nascer. Escutava se tinha uma oração, alguma coisa, porque era tocada à pilha, menos que ligava, meu pai não queria saber de ligar muito o rádio, porque gastava a pilha, e assim que foi vivendo.

Eu não sarava, então o médico mesmo disse: “Isso daqui precisa abrir, raspar o osso para melhorar,” fomos para São Paulo.  Só foi eu e meu pai, ninguém veio. Mas como eu fiquei sete meses no hospital, sete, oito meses e eu ajudava, tinha um enfermeiro muito meu amigo, um chefe da enfermaria. Tinha uma enfermaria com 40 pessoas, eu ajudava, ele me ensinava e me ensinou, inclusive, a aplicar injeção, ele dizia: “Eu vou falar com uma superiora te contratar. Você fica aqui se contrata?” eu falei: “Fico, recebendo o serviço eu fico.” Ali a superiora me chamou, primeira coisa perguntou se eu era católico, se tinha pai e mãe, família, ela perguntou tudo. Eu era muito católico, muito carola, e aí então ela falou: “Você quer ficar trabalhando?” eu falei: “Eu quero” “Então, vou te contratar.” Era Hospital Umberto I, perto da Avenida Paulista. No hospital eles davam moradia para quem morasse longe, essas coisas, então eu fiquei morando. Então, eu fiquei no hospital e ela falou: “Você vai falar com Fulano de Tal na Seção de Pessoal,” eu falei, assinei tudo para ser funcionário, isso foi em 1938. E eu escrevi em casa, escrevi, meu pai chorou, meu irmão mais velho ficou bravo: “Pai, você quer que ele venha aqui carpir café? Depois ele já fica ruim outra vez. Deixa ele lá, ele está no hospital, se ele ficar ruim, eles tratam dele, deixa ele lá, ele fez muito bem,” o único que ficou triste foi meu pai. Ali eu fiquei trabalhando e depois de uns seis meses que eu estava trabalhando, eu pedi licença para superiora para ir visitar a minha família em Araçatuba, aquela viagem a gente ia de trem demorava 24 horas para chegar lá de trem. Fazia baldeação em Bauru, de Bauru pegava a Noroeste e tinha uma estrada de ferro que passava perto de casa, essa estrada de ferro foi construída depois que nós compramos o sítio, nós estávamos quando construíram a estrada de ferro, a estrada de ferro passou assim uns 500 metros longe da nossa casa e a estação era mais ou menos há um quilômetro. E naquele tempo o trem funcionava, não tinha ônibus, se chovia o ônibus não passava, trem resolveu tudo, depois não sei porque acabaram com os trens. Eu fui em casa, um enfermeiro, meu amigo também, me emprestou um dinheiro para fazer um terno, ele telefonou para o alfaiate e falou assim: “Olha, vai lá o Fulano de Tal e o pagamento é por minha conta, pode fazer,” ele fez um terno bonitinho, bom, paguei 250 reais, naquele tempo não era cruzeiro ainda, era reais. Cheguei em casa todo garboso, de terno bom, comprei camisa, eu fiquei oito dias em casa e vim embora. No hospital eu fiquei três anos à noite, tomando conta de uma enfermaria de 40 doentes. Tinha os doentes que precisavam, se tinha um doente ruim eu chamava a irmã, tinha uma irmã de plantão à noite inteira. A irmã ia lá, se ela via que o caso era ruim, chamava um médico, se caso ela podia resolver com remédio, tudo, ela dava, mas eu mesmo não fazia nada, fiquei três anos. Aos domingos, geralmente eu ia na casa do meu tio em São Bernardo.

Conheci um menino com a mesma doença que eu tive, e eu acabei casando com a tia dele.  Conheci no hospital, que ela foi visitar o sobrinho. Ele estava onde que eu trabalhava, eu que tratava dele. Ela era atendente num consultório de dois médicos, que esses dois médicos trabalhavam no hospital. Depois eu mudei de hospital. Fui trabalhar numa companhia de seguros que ela tinha começado agora e o médico do hospital era diretor da companhia. Me casei e fui morar com a sogra, em Santana. Nos anos 60, foi em 64. Eu passei da Boa Vista para ser empregado da Companhia União dos Refinadores eu trabalhei 18 anos. A União foi vendida para a Copersucar e já mexeram comigo, me tiraram de lá, eu tinha um espaço muito grande, e me puseram num cubículo meio desajeitado, mas eu já tinha tempo de aposentadoria e ali eu me aposentei. Eu me aposentei com 37 anos de serviço. Recebia a mesma coisa que eu trabalhava, o ordenado que eu trabalhava recebi na aposentadoria.

Mudei para Rua Augusta. Eu vendi aquelas duas casas em Santana e comprei uma casa na Mooca, uma casa boa. E ali depois as duas filhas casaram, ficamos eu e a mulher, vendemos a casa na Mooca e compramos um apartamento na Rua Augusta. Vendemos a casa por 700 e vai fumaça e compramos o apartamento por 400, mas assim mesmo, dando 100 de entrada e o resto em prestações sem juros. Ficamos na Rua Augusta bastante tempo, depois eu fiquei síndico nove anos no prédio, eu não pagava o condomínio. Eu sempre oferecia para quem quisesse, ninguém queria ser síndico, então eu continuei, fiquei nove anos, até que depois um que tem a loja embaixo, um alemão: “Eu vou ser síndico,” eu falei: “Muito bem” “Mas só se você ficar de vice” “Fico de vice.” Eu fazia tudo outra vez, mas a mesada era dele, eu pagava o condomínio. A minha filha morava perto e com o dinheiro que sobrou que eu vendi a casa e comprei apartamento, eu entrei com 100 mil reais e minha filha comprou um apartamento por 600 mil reais na Vila Mariana. Ela já foi embora e ficamos longe outra vez.

Eu estou morando na Pompeia até hoje, porque eu estou morando com a minha filha, a minha filha está na mesma casa.  Eu tenho três netos, uma menina, essa que está aqui. Essa menina é um doce, pena que ela foi muito mal com a gravidez que ela teve há pouco tempo, mas ela é um doce de criatura. E tenho dois netos com a outra, agora tenho um bisnetinho já.

Eu tenho um sonho, o maior sonho que eu tenho é chegar nos 100 anos. Se eu chegar nos 100 eu não me incomodo de morrer com 100 e um dia, mas eu gostaria de chegar nos 100, porque eu fiz duas festas, uma primeira foi a minha filha que pagou tudo, quando eu fiz 90 anos. Vi todos os meus sobrinhos, acho que faltaram alguns só, a de 95 foi também muito boa. As duas festas, na de 90 tinha mais gente, tinha 162 ou 163, porque eles marcam, eles cobram por pessoa, eles marcam, e essa outra foram 154, essa paguei eu, com o dinheiro do apartamento que eu guardei, porque eu devia dar metade para as filhas, mas não dei nada, elas não precisam. E com esse dinheiro que eu guardei, eu tirei 15 mil e dei para minha filha: faz aí a festa. Agora de 100, se eu fizer 100 anos, aí eu vou tirar uns 20, 25 mil que eu tenho lá, porque não me incomoda mais em guardar dinheiro.

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